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Doubts on a method beyond suspicion/Indagacoes sobre um metodo acima de qualquer suspeita.

No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho (Carlos Drummond de Andrade).

Manoel Luiz Salgado Guimaraes, in memoriam: rememoracao do espirito de uma conversa

7 de setembro de 2007, sessao de encerramento do I Simposio "Antigos e Modernos: dialogos sobre a (escrita da) Historia". Porque a iniciativa entao inaugurada tivesse significativa marca identitaria, coincidentemente prevista a realizacao do Evento justo na Semana da Patria, destaque foi dado a analise da Historiografia Brasileira para que seu aporte de reflexao critica o encerrasse. A participacao de Manoel Luiz Salgado Guimaraes ancorava a excelencia da proposta. Ao ensejo das circunstancialidades da data, sua conferencia historicizava o "debate em torno de uma historia nacional no Brasil oitocentista", tendo por foco nuclear de analise o que Manoel Salgado categorizou como "textos de fundacao", assim atinentes a proposicao instituinte do IHGB. Em meio a sua exposicao, uma referencia singular a uma passagem do texto de Raimundo Jose da Cunha Matos ("Dissertacao acerca do sistema de escrever a Historia Antiga e Moderna do Imperio do Brasil") ressoou em nosso espirito ecos que maravilhosamente reverberavam o espirito que inspirava e promovia o evento. Por uma intrigante formula, Cunha Matos nomeava, em conjugacao figurativa de "cor local", a praxis historiografica de estabelecimento de veracidade de textos por "o escalpelo da boa critica" (GUIMARAES 2008, p. 409). Uma fagulha livre em nosso espirito fez pensar alguma similaridade de irreverencia com a celebre declaracao provocativa de afirmacao de identidade brasileira por Oswald de Andrade: "Tupy or not tupy, that is the question". Tanto mais que o deslocamento identitario promovido pelo conceito indigenista (cor)respondia com certa precisao a condizente reversao ou antidoto aos nexos da teorizacao original de matriz europeizante. Por um lado, a acuidade critica da "ciencia medica": operacao cirurgica a extirpar o "mal" que atacava o texto, apurando e depurando sua verdade historica. Por outro, ainda mais (im)pertinente, podia-se aventar uma similitude com veneranda criacao historiografica de congenere matriz, esta de marca tucidideana: a critica de veracidade categorizada por "basanizo". Em sentido primario, testar a "falsidade da moeda de ouro" pelo risco da "pedra de toque" (o basalto) que denunciasse sua "corrupcao" por material vil. E tambem, em sentido derivado, "torturar" o escravo porque declarasse a verdade do que soubesse de um acontecimento criminoso sob investigacao. Pelos (pre)conceitos do imaginario aristocratico grego antigo, o escravo, ser "inferior", era dado a mentir, (des)razao ideologica porque entao se justificasse legalmente subtrair-lhe por violencia a revelacao da verdade a que naturalmente nao estava afeito. Nao so, pois, ciencia medica, mas tambem afinidades policiais rondam a critica de veracidade porque responde, por exemplo, a praxis historiografica do indiciamento, o "tekmerion" originalmente tucidideano. Mas agora, pela irreverencia do escalpelo, alguma aspiracao porque se combata o jogo de papeis contaminado por vicissitudes historicas de passado colonial mais avatares recentes de dominacao ideologica, quer de ultramar alem Atlantico, quer por certo lugar no Continente ao Norte. Aspiracoes de uma Teoria da Historia no Brasil e do Brasil, sem descair por atavismos nacionalistas nem degeneracoes de ignorancia xenofoba. Que Manoel Luiz Salgado Guimaraes nos seja o emblema de tal espirito!

Mais de dois milenios depois de Tucidides ter proposto o indiciamento como procedimento metodologico de reconstituicao dos acontecimentos passados, assim tambem propos similar metodo um outro historiador, este, entretanto, paradoxalmente desleixando (ou escamoteando) justo a consideracao desse acontecimento historico de ponderacao tucidideana.

Paradigma indiciario

Pelo ultimo quarto do seculo XX adentrando a primeira decada do novo milenio, Carlos Ginzburg elaborou, em uma serie de artigos e ensaios, proposicoes de teses porque intentasse dar uma resolucao a um velho dilema, algo fantasmagorico, que ha bom tempo ja assombra a (des)confianca na historia: comporta essa modalidade de conhecimento respeitante aos modos porque atuam os homens no mundo diferenciados e especificos fundamentos metodologicos que lhe assegurem singular estatuto de (alguma) cientificidade? A atualidade do velho dilema vinha de ser (re)ativada pelos entao recentes ares epistemologicos pos-modernistas que instigaram atualizadas intrigas de mazelas querelantes. Intrigas agora mais graves porque, ao que argumentaram Arnaldo Momigliano e Carlo Ginzburg na sua esteira, insuflavam teses de revisionismo historico, especialmente agudas por (re)avivarem as chagas do holocausto em renhidas disputas e debates por quem ideologiza preservar a realidade viva dessa memoria contra quem ideologiza, em contrapartida, dissipar o espectro oportunista de sua (cor)respondente politizacao; uns a promover a visao horrorizada daquele fenomeno em estigma da II Guerra Mundial, outros a cegarem. Como se a questao fosse, ao que induz a peroracao de Carlo Ginzburg contra os por ele ditos "ceticos relativistas", ditar o imperativo de que a todo historiador se impoe o dever de decidir qual o certo, qual o errado, quem virtuoso, quem vicioso: "pos-modernismo por historia-literatura-ficcao x modernismo da historia de (in)certa cientificidade" ... "Ginzburg x Derrida" ... "Momigliano x Hayden White" ... e ainda politizacoes de "sionismo x revisionismo historico"? A perversidade do procedimento assim reclamado descai (1) por imperativo (alegado como de ordem moral ou etica) maniqueista de quem proclama falar em nome de alguma ciencia e da veridica realidade factual porque se arvora a nos impor mais outro mandamento, agora historiografico, como se dez ja nao nos bastassem!

No ensaio que inaugura a investida reflexiva de Ginzburg--Sinais: raizes de um paradigma indiciario (GINZBURG 1989, p. 143-179)--, o historiador busca identificar o procedimento metodologico que, mais especialmente conceitualizado no dominio das "ciencias humanas" na modernidade (fins do seculo XIX a inicios do XX), atravessara e acompanhara como praxis investigativa toda a historia humana, tendo suas raizes em tempos primordiais, desde as sociedades de cacadores do Neolitico. Tal modalidade de atuacao inquiridora, ao que argumenta Ginzburg, perpassa inumeros campos da atividade humana: perseguicoes de caca, artes divinatorias, praticas medicas, imaginarios literarios de romances policiais e detetivescos, pericias eruditas de "connoisseurs de obras de arte", saber psicanalitico freudiano, tecnicas grafologicas, exegese de critica textual historico-filologica, vindo a alcancar, ainda, os procedimentos burocraticos de identificacao do individuo na sociedade burguesa contemporanea. Reconhece-se, assim, ao longo de toda essa historia, o paradigma epistemologico que lhe corresponde sob distintas nomenclaturas: ou "indiciario" ou "venatorio" ou "divinatorio" ou "semiotico".

Enquanto categoria de discurso epistemologico, o paradigma decantara conceitualmente, ao que detecta a analise de sua genese por Ginzburg, pelo findar do seculo XIX (GINZBURG 1989, p. 143), entao articulado em tres agenciamentos sucessivos, senao mesmo conexos. Primeiro, entre 1874 e 1876, por Giovanni Morelli (sob o pseudonimo de Ivan Lermolieff) em "proposta de metodo" por que intentava regrar procedimentos de analise de quadros capazes de identificar a autoria dos mesmos por meio do reconhecimento de detalhes pictoricos reveladores de tracos idiossincrasicos de determinado pintor (GINZBURG 1989, p. 143-145). A seguir, por Conan Doyle por fins dos anos 1880 (GINZBURG 1989, p. 145-146), que operava o paradigma na criacao de suas novelas detetivescas, figurando-o pela arte indiciadora de crimes porque primava a arguta pericia de Sherlock Holmes. E tambem por Sigmund Freud em torno de 1898 a 1901, quando arquitetava os fundamentos da tecnica psico-analitica de "desvendar segredos e verdades ocultas a partir de residuos negligenciados", de que o metodo morelliano, ao que o proprio Freud apontou anos depois, provera-lhe manancial inspirador (GINZBURG 1989, p. 146-149).

Por todos os tres, ao que ajuiza Ginzburg, perpassa a mesma proveniencia fundamentadora do metodo paradigmatico: "o modelo de semiotica medica de alcance diagnostico" que identifica a doenca por meio do (re)conhecimento perspicaz de "tracos ou pistas infinitesimais" que, desconsiderados senao negligenciados pelo olhar comum como "triviais, superficiais, irrelevantes ou insignificantes", nao obstante indiciam "a realidade patologica oculta, inapreensivel pela observacao direta" que a perde porque extraviada, desatenta daquele preciso foco extraordinario de percepcao tao inteligente quao (im) pertinente. Modelo de metodologia medica que, por sua vez, supunha e remetia, precisamente na decada de 1870-1880, diz Ginzburg, ao "paradigma indiciario que entao se afirmava no horizonte das ciencias humanas baseado justamente na semiotica" (GINZBURG 1989, p. 150-151).

Apreciando a conjugacao cumulativa das operacoes definidoras do paradigma indiciario por Morelli, Sherlock Holmes mais Freud, Ginzburg (re) compoe o complexo de atributos que caracterizam sua distintiva natureza, conferindo-lhe identidade metodologica. Jogos de contraposicoes marcam a ambigua (des)qualificacao da natureza do indicio (tracos, pistas) enquanto objeto que embasa o metodo por axiologia de revertida hierarquia (historiografica): pequeno ou minusculo (mesmo infinitesimal) versus grande; detalhe versus importante; trivial versus fundamental; parte versus todo; individual versus social; menosprezado versus eleito; restos versus proveito; baixo versus alto; inferior versus superior; marginal versus central; oprimido versus poderoso; tangivel, concreto versus imaterial, formal; opaco versus transparente; observavel versus invisivel; manifesto versus oculto; evidente versus latente; ciente versus inconsciente; reprimido versus idealizado, sublimado; superficial versus profundo; subterraneo versus celeste; trevoso versus brilhante; infernal versus divino. Jogo expresso em retorica de paradoxos ambiguos porque se proclama a capacidade cognitiva de metodo eficiente em detectar, alcancar e apreender a realidade historica maior a partir da menor. (2)

O motto virgiliano da Eneida em epigrafe do tratado freudiano emblematiza tal retorica de definicao do met-hodos dizendo a via ou caminho porque essa categoria epistemologica responde por sua propria etimologia definidora: Flectere si nequeo Superos, Acheronta movebo. (3) Uma nomenclatura conceitual, transitando dos antigos aos modernos, divinatio, especialmente articula as virtudes singulares dessa modalidade metodologica de conhecimento que opera por indiciamento na reconstituicao de realidade historica factual apurada e depurada por argumentos de veracidade.

Detalhes

A epigrafe com que Ginzburg encima a reflexao do ensaio Sinais por que aponta o sentido sintetico de seu alcance cognitivo diz: "Deus esta nos detalhes" (GINZBURG 1989, p. 143). Marco Bertozzi, em comentario ao ensaio de Ginzburg, contrapoe-lhe o aforisma atribuido a Karl Kraus que reconhecia que "nos detalhes, e o diabo que se esconde". Pelo que Bertozzi nos adverte:

Mas ao entrar nos detalhes, corremos o risco de ser o joguete de algum pequeno diabo divertindo-se as nossas costas. Nossos ancestrais diziam, quando alguma coisa escapava de suas maos e nao conseguiam agarra-la: Olhe! E o diabo que joga ... A investigacao e cansativa, nao chegamos sempre ao final na primeira tentativa. Os detetives e os sabios, na busca do culpavel, na busca da verdade relativa a sua investigacao, enroscam-se com frequencia em falsas pistas: a presa nao se deixa facilmente ser apanhada (BERTOZZI 2007, p. 29). (4)

Que seja! A caca indiciaria do diabo pela trilha de (alguns) detalhes ginzburgianos!

Ha algo de ilusionismo oportunista senao mistificacao proteica (5) que transparece das argumentacoes discursivas com que Ginzburg trama as intrigas de suas teses, especies de (dis)simulados icebergs de que se mostram apenas a ponta visivel acima da agua, (6) a vagar soltos, desgarrados da geleira narrativa da micro- porque atravessem o oceano epistemologico da historia.

Peter Burke comentando em resenha a Miti, emblemi, spie a vasta bibliografia mais extensas tematicas que alimentam o livro, aponta algo sucintamente: "Ginzburg e um leitor voraz" (BURKE 1990, p. 108). Desse ambiguo cumprimento por que se sauda o historiador italiano a aludir quer a sua sede de conhecimentos quer a pressa com que avidamente os sorve, dizem similarmente outros comentadores por formulacoes de criticas algo ambiguamente (dis)simuladas. O proprio Burke acresce: "os leitores sao levados a acabar cada ensaio com a cabeca repleta de questoes nao respondidas" (BURKE 1990, p. 110). (7) Assim tambem o faz David Herlihy: "os ensaios tem um alcance tao vasto, sao tao ricos e provocativos, que uma revisao completa acabaria por ser mais longa que o proprio livro" (HERLIHY 1991, p. 502). (8) Ja Tony Molho da sinais criticos mais claros: "gostariamos que Ginzburg tivesse adicionado algumas paginas a mais a fim de clarificar os obscuros, ainda indefinidos aspectos de sua formulacao. Ele aventurou-se nessa questao em incursoes posteriores. Mas, se formos julgar pelas respostas de alguns de seus criticos, nao o fez satisfatoriamente" (MOLHO 2004, p. 137). (9) E Perrine Simon-Nahum refere ja a idiossincrasia como estigma das leituras: "Carlo Ginzburg despeja um saber que nao pertence senao a ele, ousando analogias e ligacoes cujos detalhes fortuitos mascaram a erudicao prodigiosa sobre a qual repousam" (SIMON-NAHUM 2011). (10) Ambiguos cumprimentos que ponderam a conjugacao "virtuosa/viciosa" com que Ginzburg argumenta proposicoes reflexivas tao ricas de desafios quao insatisfatorias de (des) entendimentos.

Mais contundentemente o ajuiza James Elkins:

Existem muitos problemas neste ensaio, o qual tem sido, ao mesmo tempo, muito usado e pouco criticado; podemos questionar a sufocante voz autobiografica ao longo do ensaio, na qual o autor implicito torna-se ele mesmo um 'detalhe desprezado' e seus trabalhos tornam-se mais exemplos inconscientes do metodo "baixo" do que propriamente aplicacoes controladas dele; e somos levados a querer indagar sobre o sentido da curiosa, nao cientifica tentativa de Ginzburg em excluir do dominio da ciencia o que ele descreve como a intencao de observar sem teorizar (ELKINS 1996, p. 279-280). (11)

Por quais alternativas de prediletas exemplificacoes de indiciamento na reconstituicao de fatos avanca a argumentacao por que Ginzburg (com)prove sua efetividade operacional? Pelos inumeros indiciamentos bibliograficos referidos por Ginzburg, alguns especiais relatos ilustram a maravilhosa eficiencia do metodo indiciario em revelar a verdade, todavia oculta, de um acontecimento passado, justo apenas a inferindo a partir da concatenacao das pistas e indicios subsistentes.

Assim o conto dos Tres principes de Serendip que, ajuizando com argucia e pericia de discernimento o complexo de marcas deixadas pela trilha de um animal ao longo da estrada, sao capazes de descreve-lo com precisao rigorosa de detalhes apesar de jamais o terem visto: um camelo coxo (pelas marcas de passos de tres patas nitidas contra apenas uma outra arrastada), cego de um olho (pela falta de grama por ele comida apenas de um dos lados da estrada, entretanto ali menos verde), falto de um dente (pelas bolotinhas de grama semimastigada deixadas cair da largura de um), levando uma mulher (pelas marca de um calcado associadas as de um camelo ajoelhado deixadas junto a uma poca de urina feminina identificavel por odor mais gosto) gravida (pelas marcas de maos ao lado da poca porque apoiasse o esforco de se levantar) mais cargas de mel de um lado (pelas moscas atraidas para uma borda da estrada pelo que ali respingara) e de manteiga de outro (pelas formigas para a outra) (MESSAC 2011, p. 37-46). Similarmente ocorre em um dos contos integrados por Voltaire em Zadig, certamente inspirado nos originais orientais, com o decifrador de pegadas animais agora conseguindo reconhecer a passagem ou de uma cadela ou de um cavalo, por ele entao descritos em minucias e detalhes, nao obstante jamais te-los visto.

Tem-se por tais contos, acrescenta Ginzburg, a origem ou embriao das novelas policiais que narram historias de crimes misteriosos maravilhosamente descobertos por engenhosos detetives, tais como Dupin, na criacao de Edgar Allan Poe, e sobretudo Sherlock Holmes, pela de Conan Doyle, este ultimo justamente figurando como uma das instancias reflexivas porque se decanta a formulacao conceitual do paradigma indiciario por fins do seculo XIX.

Sim, certamente, nenhum dos tres principes de Serendip nem Zadig haviam visto anteriormente e por isso conheciam ou aquele camelo ou aquela cadela que tao maravilhosamente descreveram em abundantes detalhes. Tampouco Sherlock Holmes presenciara os crimes que tao inteligentemente descobre. E, no entanto, assim se representa ficcionalmente apenas o que o autor desses contos e historias de principio sabia plenamente, tendo imaginado ou a visao daqueles animais (12) ou o presenciamento destes crimes, de que a configuracao de atos e decisoes cognitivas atribuidas a seus personagens confunde a ilusao. Pois, se Zadig nao viu a cadela e o cavalo, Voltaire os viu, ja que os (re)criou. (13) E se Sherlock nao testemunhou o crime, Conan Doyle (14) o fez, tendo-o imaginado.

Ginzburg ilude por demonstracao comprovadora da eficiencia metodologica do paradigma indiciario, decifrador de realidade factual, a razao invertida da operacao logica implicada: da por inferencia conclusiva do acontecimento passado supostamente desconhecido, operada por meio da concatenacao dos indicios identificados como o que dele restou e existe presentemente manifesto, o que e tramado por intriga de decomposicao em indicios produzidos a partir do acontecimento ficcionalmente dado e conhecido de inicio, de modo que aquela inferencia conclusiva de apreensao do acontecimento reconstituido reduz sua validade logica a uma tautologia. Nao ha equivalencia de transitividade logica entre as duas vias, pois o todo e mais do que a soma das partes por supor justo a modalidade de razao ou nexo que as estrutura univocamente ou que, pelo contrario, as desestrutura pluralmente. E a decomposicao em indicios dispoe pluralidade de concatenacoes de versoes de diferenciadas semanticas de percepcao (re)constituidora. (15)

Os exemplares de indiciamentos configurados por esses contos orientais (16) em que se fundamenta a argumentacao de Ginzburg comportam a natureza fantasiosa correspondente as obras de relatos maravilhosos que os integram. Eles se ordenam na estruturacao narrativa do conto por um gradiente progressivo de fantasias que imaginam (ir)realidades (menos ou mais) maravilhosas tendo por designio simular provas de (menor ou maior) perspicacia com que se defrontam e resolvem a inteligencia e pericia superlativa dos protagonistas a, pois, apresenta-los por estatura heroica. Num primeiro nivel mais elementar de nexos indiciarios se os escalonam quer pelas formas distintivas de pegadas das patas (do camelo ou do cavalo ou da cadela), quer dos generos de alimentos por eles preferidos (gramineas para camelos, acucarados para moscas, gordurosos para formigas), quer de alguns de seus distintivos modos de comportamento (o espalhamento das fezes pela cauda na defecacao do camelo contra sua concentracao em bloco na do boi). Tais sao os tipos de indicios a que se apegam as argumentacoes quer de Messac, quer de Voltaire, e nessa esteira tambem Ginzburg, assim redutoramente condizentes com o foro de racionalidade factual mais plausivel (17) porque as conjecturas divinatorias ganhem aspecto comprovatorio de realidade. Pois, eles silenciam, elidem o prosseguimento da historia memorizada pelos contos orientais, as quais progridem aventando indiciamentos bem mais audaciosos e inauditos: a vinha (ou o trigo) plantada sobre um sepulcro de que fora fabricado o vinho (ou o pao) porque seu gosto inspira pensamentos funebres; o cordeiro que foi amamentado por uma cadela porque sua carne tinha tal paladar, ou o cabrito assim aleitado porque sua carne concentrava o deposito de gordura junto ao osso; o sultao que nao passa de um bastardo, filho de pai escravo e mae adultera, porque afeito a comportamento indigno de bisbilhotar escondido as conversas de seus hospedes.

Contos maravilhosos enquadrados, pois, por contextualizacoes topicas de historias de sucessao regia porque se memorizava a ideologia antiga de legitimacao do poder monarquico, figurando as virtudes e meritos superlativos do rei porque heroi. Memorias historicas que afirmam a arte da divinatio por sobreposicoes cumulativas de registros literarios e cientificos que as acompanham ao longo dos seculos de seu percurso pela historia da civilizacao humana, assim configurando codigos categorizadores de indiciamentos. Percurso, pois, milenar, porque a disponibilidade do nosso metodo indiciario encontra-se bem longe de qual remota origem paleolitica o tivesse inaugurado. Que o metodo, entao, remeta a perspectiva do olhar da historia pelo lado social inferior, marginal ou oprimido operando por intuicao baixa contraposta a alta, cientifica, responde antes pelos vezos da retorica ilusionista ginzburgiana, seja la a qual fantasia de oportunismo ideologico ela satisfaca. (18)

Condizente com a metodologia da microhistoria (19) de que Ginzburg figurava como seu proponente mais famoso e destacado, a formulacao do paradigma indiciario tanto a fundamenta em termos mais imediatos de proposicao de uma disciplina historiografica particular, quanto almeja conferir-lhe alcance de projecao modelar porque se generalize por essa modalidade de metodo a distintiva virtuosidade cognitiva da historia. Figuracao metodologica especialmente apropriada para o conhecimento historico que arvora capacidade de compor discurso assegurado por modos argumentativos estruturadores de declaracoes providas de referencialidade factual. E, todavia, da casuistica ampliada e extensa porque Ginzburg mapeia o espectro empirico comprovador da realidade historica do paradigma, percorrendo assim praticamente todo o percurso da historia humana, a indicacao do procedimento particularmente experienciado no dominio proprio da escrita da historia, que nao esse singular hors concours da microhistoria, nao se encontra pelo ensaio do historiador italiano qualquer evidenciamento exemplificador. Tanto mais paradoxal lapso por elipse ou esquecimento que, entretanto, as pistas aproximadoras de suas lembrancas afloram pelos argumentos entao explorados.

Peter Burke, em singular declaracao de critica expressa ao ensaio de Ginzburg, estranha que ele de a "divination" como sendo "o metodo" da praxis historiografica, quando antes apenas constitui um de seus procedimentos operacionais. (20) O comentario de Harry C. Paine aponta na mesma direcao pois, ao se referir a especificidade operacional da divinatio em termos de "instinct, insight, intuition", assimila o conceito pela ideia de genio como era definida por fins do seculo XVIII. (21) O que Payne assim alude apenas em termos genericos, comporta identificacao mais precisa e singularizada, pois foi precisamente como divinatio que Barthold Georg Niebuhr, (22) por inicios do seculo XIX, nomeou sua proposicao de metodo historico-filologico enquanto fundamento de uma historia de pretensao cientifica. A mesma nomenclatura comparece igualmente em Leopold von Ranke ainda por essa mesma epoca. Em ambos, Niebuhr e Ranke, a instancia modelar por que respondesse a proposicao do metodo historico, qual seja, Tucidides, e justamente figurada como "o genio" da historia.

Ja Francois Hartog aproximara a tese metodologica de Ginzburg da de Ranke, reconhecendo no designio factual da concepcao de historia do primeiro ecos seculares do famigerado lema que imortalizou o segundo: zeigen wie es eigentlich gewesen. Despistamentos de ressonancias historiograficas ainda mais antigas, milenares mesmo, se denunciam agora pela formula de algebra elementar com que Ginzburg reitera, em texto de 1991, a profissao de fe no aporte realista da historia que tem por vocacao decidir os fatos ocorridos:

Podemos concluir, entao, que a tarefa tanto do juiz como do historiador implica a habilidade de demonstrar, de acordo com regras especificas, que X realizou Y, onde X pode designar o ator principal, ainda que nao nomeado, de um evento historico ou de um ato legal, enquanto Y designa alguma forma de acao (GINZBURG 1991, p. 84-85). (23)

O que temos aqui se nao o travestimento da celebre definicao aristotelica da historia em oposicao a poesia, apenas transmutando em incognitas genericas "x" e "y" o que o filosofo declarara nominalmente: "o que Alcibiades fez ou experienciou"? Mas as ponderacoes aristotelicas suscitadas pela Poetica, Ginzburg as evita, escamoteia em sua argumentacao preterindo-as pelas da Retorica, assim operando um esquecimento de referencia analitica que justamente estorvaria a consecucao de seu proprio argumento. (24)

Ora, por aquele distico emblematico Ranke pondera similar aporte cognitivo ao que e referido por Ginzburg como marca de Aby Warburg, com o historiador alemao em 1824 definindo sua proposicao de escrita da historia em termos de apenas "dizer [mostrar] como realmente ocorreu". Mas o que em Ranke era profissao de fe luterano-pietista, em Ginzburg nao se sabe como (des)qualificar em termos de (des)crenca em Deus, ao que se pode apreciar por informe de entrevista em que ele antes diz de (in)certo ateismo. (25)

Elisoes historiograficas no ensaio sobre Sinais tanto mais surpreendentes quando Ginzburg desconsidera a contribuicao de Tucidides que justamente operara o indiciamento em suas reconstituicoes respeitantes ao passado historico na assim dita Arqueologia de sua Historia. Lapso algo estarrecedor por nao se tratar de ignorancia ou desconhecimento, ja que referida a lembranca tucidideana, todavia marginalizada, em nota-de-rodape, por assim ambigua (des)lembranca que (des)considerassesse sua (ir)relevancia enquanto instancia de contribuicao reflexiva sobre o paradigma

Lembranca mesmo (im)pertinente por interpelacao inaugurada ja no nascedouro do ensaio, entao formulada por Luciano Canfora no debate promovido em Milao no ano de 1980. Afinal, inquiriu Canfora a Ginzburg: como traduziria ele o tekmerion tucidideano? ... "indicio" ou "prova"? Pergunta capciosa! Pouco depois, mais dois anos (1982), Francois Hartog tambem estranha o silencio de Ginzburg: "podemos nos surpreender que C. Ginzburg, em seu artigo 'Sinais: tracos, pistas, raizes de um paradigma indiciario' nao se atenha, no que diz respeito a Grecia, a Tucidides" (HARTOG 1982, p. 25). (26) Pelo que prossegue o comentario de Hartog agora acrescendo alusao algo (des)velada quanto a (in)conveniencia porque (nao) respondesse o silencio ginzburgiano: "entendendo-se que, para Tucidides, o conhecimento por indicio e fundamentalmente insatisfatorio". (27) A critica retorna em texto recente em que Hartog novamente aponta as inconsistencias da (des)leitura ginzburgiana de Tucidides, nestes termos estabelecendo o contraponto apreciativo do movimento intelectivo que promove a dita "Arqueologia" do historiador ateniense: "vai-se do presente ao passado (inferior), revelando um modelo de inteligibilidade que depende mais de uma teoria do poder do que de uma historia antiquaria" (HARTOG 2011, p. 549). (28)

Vinte e cinco anos depois (2005), quando do coloquio promovido pela universidade de Lille em comemoracao do ja um quarto de seculo de repercussoes do ensaio original, Ginzburg (re)ativa a memoria porque agora ensaiasse (o arremedo de) sua resposta, tendo-a encontrado nos ensaios que compoem a coletanea de History, Rhetoric, and Proof, The Menahem Stern Jerusalem Lectures (GINZBURG 2007, p. 39-40). Ambiguo despiste de (nao) resposta tao sinuosa quao escorregadia que oscila a (des)dizer, interpelado acerca de Tucidides, o que por Flaubert e exemplificado, de modo a entao generalizar em (con)fusao as respectivas declaracoes porque (todos) os indicios sejam provas!

Pois, por quais teores argumentativos Ginzburg constroi os nexos de sua tese que projeta o paradigma indiciario como desdobramento de metodologia historiografica que articula em termos da categoria retorico-aristotelica da prova as concepcoes de Tucidides as de Lorenzo Valla?

Valla tucidideano

A Retorica de Aristoteles, mediada por Quintiliano, deu a Valla a oportunidade para escapar das limitacoes da retorica ciceroniana. Nao por acaso, em 1448, Valla comecou sua traducao de Tucidides, um historiador que Cicero desprezou por sua obscuridade, apontando-o como um modelo negativo a ser evitado pelos oradores (GINZBURG 1999, p. 64). (29)

Nesses termos, Carlo Ginzburg encerra seu argumento porque aproxima Lorenzo Valla de Tucidides, especialmente marcando os nexos de afinidades que solidarizam suas respectivas concepcoes de historia.

A aproximacao nao era nova, fora feita ja bem antes de Ginzburg, entao aventada por outros criticos. Justamente, a intriga maior porque varios comentadores assim associaram os nomes de Valla e Tucidides tem por acao catalisadora a respectiva fama de ambos, tidos como fundadores do metodo de critica historica de veracidade factual.

Para Valla, a obra que especialmente o qualifica nesse sentido e a Declamatio de falso credita et ementita Constantini Donationae, quando o humanista romano teria inaugurado modernamente os fundamentos da critica exegetica averiguadora da autenticidade dos documentos historicos por meio de ajuizamentos de racionalidade filologica. O ensaio compunha contundente refutacao das pretensoes papais firmadas pela Doacao de Constantino, desacreditando seu alegado fundamento historico. Pelo texto mesmo se denunciavam teores espurios e designios fraudulentos: anacronismos, quer de latim degenerado a acusar medievalidade barbara, quer de ignorancia historica a apontar rudezas de "um asno", mais varias ordens de incoerencias, contradicoes e equivocos a revelar rudimentariedade "estupida". Conjugando recursos de artes retorica e filologica, por argumentacoes de plausibilidade mais de evidenciacao e prova, o texto de Valla realizava obra de critica solidaria dos designios de patronato politico porque seu discurso precipuamente respondia: secretario e historiador real de Afonso de Aragao, rei de Napoles, desde 1435 a 1448, a Declamatio tinha alvo bem mirado, cortando as raizes da (forjada) legitimacao com que o Papado fundava suas pretensoes ao poder secular.

Em texto datado de 1921, Wilamowitz reconhecia inspiracao tucidideana na origem da praxis historiografica de Valla, dando-a por constatacao obvia e imediata, que nao reclamava de sua erudicao maior exame, razao porque a afirmou peremptoriamente: Valla "descobrira a falsificacao da Doacao de Constantino" apenas sob os efeitos do "contato com Tucidides", assim impregnado, como que por osmose, por seus criterios de juizo historico. O equivoco da tese, entretanto, foi apontado por Rudolf Pfeiffer, que nela acusou a grosseira inversao cronologica em que incidira o celebre filologo germanico: a Declamatio data de 1440, ao passo que a traducao de Tucidides lhe e posterior em oito anos, iniciada em 1448 (PFEIFFER 1976, p. 39). Ainda no entender de Pfeiffer, tambem as logicas de racionalidade critica de um e outro, Tucidides e Valla, operariam em termos de categorias conceituais diferentes enquanto fundamentacao de sua razao critica: ao passo que o ateniense baseava seu juizo em "cuidadosas inferencias derivadas de comparacoes, eikazei, que reclamam tekmeria e semeia, (30) Valla obra sua analise fundamentalmente por meio de argumentos linguisticos, consoante o mesmo "metodo empregue em seus outros escritos", que "um mundo de diferencas distancia do de Tucidides".

Uma vez acertada a cronologia que antes vitimara Wilamowitz, outros criticos renovaram argumentos insistindo na mesma tese porque se vinculassem preceitos metodologicos tucidideanos na base da modalidade de critica historica formulada por Valla. Edmund B. Fryde a insinua, ao lembrar que "Valla admirava enormemente Tucidides, por ele associado a Salustio como exponente de uma visao politica madura" (FRYDE 1983, p. 28). Giacomo Ferrau, seguido por Marianne Pade (PADE 2000, p. 256), a aventa mais claramente, apontando a "congenialidade entre o historiador grego e o pensamento do humanista romano no que tange ao metodo historico". Nestes termos Ferrau argumenta tal nexo tucidideano atuante "na concepcao historiografica de Valla" firmada nos Gesta Ferdinandi Regis Aragonum (FERRAU 1986, p. 270-1).

Pelo paralelismo metodologico estabelecido entre Valla e Tucidides, Ferrau diz da
   acuidade e da seriedade dos procedimentos na escrita da historia,
   nao somente enucleada sob a vertente da qualificacao tecnica, mas
   que ainda desemboca em uma firme reivindicacao da autoridade moral
   de que o historiador deve ser o portador, na fundamental capacidade
   de escrever sine ira et studio.


Pelo que, em Valla, "a imparcialidade pode ser assegurada pelo fato de que ele nao pertence a nenhum dos partidos em oposicao: pode assim, por essa dimensao, reivindicar uma funcao notarial, pretender para o historiador a mesma confianca na imparcialidade e boa fe que comumente se atribui a um notario-escrivao" (FERRAU 1986, p. 272). Anthony Grafton, por sua vez, a corrobora incisivamente com todas as letras (GRAFTON 1997, p. 12, 50, 52).

Foi por ocasiao do ensaio composto quando de sua participacao nas The Menachem Stern Jerusalem Lectures, por inicios da decada de 1990, (31) que Carlo Ginzburg rearticulou o exercicio hermeneutico porque outra vez se vinculasse a praxis historiografica de Valla a de Tucidides, agora encadeando seus nexos desde a Declamatio, passando pelos Gesta, ate finalizar pela traducao de Tucidides.

Seu ensaio define-se claramente como reacao contra a intrigante epistemologia pos-modernista em moda nos anos 1970 e 1980, a qual, em sua implicancia extrema voltada contra as orientacoes de cientificidade (dita) "positivista", quer a vetusta original, quer a renovada pelo "estruturalismo ciencia" ("o positivismo burgues das ciencias humanas) (GINZBURG 1999, p. 58), tendia a equiparar a escrita da historia com a ficcao literaria, insistindo que tivesse a historia uma dimensao de construto essencialmente retorico, razao porque a ideia de "prova" no oficio do historiador ficasse relegada a mera "ingenuidade positivista". Situando a inauguracao desse "linguistic trend" e sua "turn toward rhetoric" nos textos de Roland Barthes, Ginzburg volta-se, em particular, contra as teses de Nancy Struever que, em sua obra de 1970 (The Language of History), moldava por essa perspectiva a hermeneutica da historiografia do humanismo quattrocentista, a qual estaria antes alicercada em uma abordagem retorica "hostil a moderna nocao de filologia.

A nova moda epistemologica, diz Ginzburg, nao se deu conta do desvio de concepcao de arte retorica que assumira. Era a modalidade de teorizacao ciceroniana que se afastava das argumentacoes precisas de prova enquanto fundamentacao de verdade discursiva, antes operando sobre o jogo das emocoes e paixoes por que o orador "seduz os espiritos e convence as vontades" do publico a que se dirige. Pelo contrario, a teorizacao aristotelica contemplava justamente o "escrutinio das provas" enquanto fundamento operatorio essencial da arte retorica na apreensao racional da realidade referenciada pelo discurso (GINZBURG 1999, p. 63).

Ora, Lorenzo Valla na composicao da celebre Declamatio, por ele proprio avaliada como sua "peca a mais retorica", (32) instrumentara tambem sua argumentacao em convergencia com a operacao da categoria das provas preceituadas por Quintiliano em sua Institutio Oratoria, especialmente as documentais (tabulae), assim finalizando a evidenciacao de (ir)realidade historica do fato, por principios que remontam, na origem, a tradicao teorica aristotelica (syngraphai). Na linhagem de pensamento retorico que encadeia Aristoteles a Quintiliano, e este a Valla, retorica e prova nao sao incongruentes entre si, antes, esta e o nucleo racional basilar daquela (GINZBURG 1999, p. 60-62).

Mas se, ao que avanca a argumentacao de Ginzburg, a retomada, via Quintiliano, da tradicao aristotelica de arte retorica por Valla comporta verdadeiro paradoxo dada a "hostilidade" geral de seu pensamento em relacao as teorias do estagirita, e decididamente esta contraposicao que se impoe nos comentarios por ele externados sobre a escrita da historia nos Gesta Ferdinandi regis Aragonum. Polemizando contra a conceituacao aristotelica de historia consagrada na Poetica, Valla, pelo contrario, (re)valoriza a historia em termos da proposicao justo de um saber voltado para a apreensao do "universal" na conduta humana. Sua visao da historia era bem outra que a do estagirita, com Ginzburg expondo nestes termos as consideracoes do humanista romano: "escrever a historia e dificil, diz ele, como podemos ver a partir da divergencia entre testemunhos de determinado evento. Com o objetivo de estabelecer a verdade, o historiador precisa tanto acuracia quanto intuicao, assim como qualquer juiz ou fisico--uma dupla analogia particularmente intrigante" (GINZBURG 1999, p. 64). (33)

A melhor fundamentar a impressao deste seu ultimo comentario acerca da "intriga da dupla analogia" da figura do historiador como que situada entre "juiz e medico", Ginzburg remete para: o artigo de Arnaldo Momigliano, assim justamente intitulado ("History Between Medicine and Rhetoric"), mais ensaios de sua autoria ("Clues" e "Il giudice e lo storico"), e ainda, completando a atualizacao de suas referencias bibliograficas, para a obra de Paulo Butti de Lima ("L'inchiesta e la prova"). Que as alusoes da reflexao de Ginzburg apontem a presenca de concepcoes tucidideanas atuando na reflexao historiografica de Valla ("Gesta") e obvio ja pela inducao do paralelo de seus teores com a celebre declaracao de "metodo" formulada por Tucidides (I, 22.3), e tanto mais confirmadas pelas referencias bibliograficas anexadas por Ginzburg com esse proposito. Mas, curiosamente, o nome mesmo de Tucidides Ginzburg nao externa, ate aqui, em sua propria construcao reflexiva!

E, todavia, assim o faz tanto mais enigmaticamente no comentario com que fecha seu pensamento:

E dificil ver qualquer contradicao entre essa enfase no lado factual e antiquario da historia e a afirmacao, tambem feita por Valla na introducao de sua Gesta Ferdinandi, de que a retorica e a 'mae da historia'. A Retorica de Aristoteles, mediada por Quintiliano, deu a Valla a oportunidade para escapar das limitacoes da retorica ciceroniana. Nao por acaso, em 1448, Valla comecou sua traducao de Tucidides, um historiador que Cicero desprezou por sua obscuridade, apontando-o como um modelo negativo a ser evitado pelos oradores (Orator 9.30-32) (GINZBURG 1999, p. 64, grifos nossos). (34)

Que a estrategia discursiva de Ginzburg tenha clara teleologia polemizante, facilmente se percebe: a tessitura do argumento e catalisada pela contestacao das teses daquela epistemologia em moda, que desqualificara a conjuncao de praxis retorica com prova documental de realidade, entendendo-as como instancias historiograficas inerentemente incongruentes. Justamente porque retorica, mas de fundamentacao ultima aristotelica e nao ciceroniana, a escrita da historia opera categorias conceituais (prova, documento, testemunhos) e situa proximidades de oficio (juiz, medico) que referenciam a factualidade, isto e, o objeto real a que ela remete discursivamente. A imbricacao do nome de Tucidides nessa tessitura argumentativa de modo a selar pelo prestigio de sua marca historiografica o encadeamento consecutivo da obra valliana (Declamatio-Gesta-Tucidides), enquanto o passo a mais dado para a plena contundencia critica daquela teleologia, e, entretanto, estranhamente tortuosa.

No preciso momento reflexivo em que a indicacao do nome de Tucidides era evidente e impositiva, Ginzburg o elide! Ja quando, pelo contrario, o nomeia, mais confunde a argumentacao "comprovadora" de sua tese do que decisivamente a plenifique. Que precisa implicacao semantica tem aquele enigmatico "it is not by chance"? O que, decididamente, quer Ginzburg dizer com isso? A que sujeito, e sua correspondente proposicao deliberativa, se refere essa acao para que fique negada sua "casualidade"? Se assim for entendido que tal sujeito seja Valla mesmo, como parece induzir a frase de Ginzburg, tem-se um contrassenso, porque a iniciativa da traducao nao fora dele, mas a ele solicitada da parte de Nicolau V, sendo Valla, portanto, antes seu objeto! Se, pelo contrario, nos atemos ao entendimento suposto pelo efetivo sujeito referenciado pela frase de Ginzburg --ou o papa ou o cardeal Bessarion que (supostamente, ao que conjecturava o proprio Valla) recomendara os servicos do tradutor--, e a coerencia do objeto transitivo da acao que fica comprometida, assim implicando que pelo menos um destes dois ultimos, ou Nicolau ou Bessarion, estivesse ciente de que o pensamento e a obra de Valla fossem particularmente impregnados pela singular metodologia tucidideana, precisa razao porque se recomendava especialmente seu nome para aquela obra de traducao do historiador ateniense.

E, todavia, as intrigas dessa impregnacao de ecos tucidideanos na fundamentacao de sua metodologia critica parece que nao estivessem claras nem para o proprio Valla, a julgar pelos termos com que ele comenta sua traducao do historiador ateniense!

Os dizeres apologeticos com que o proprio Valla aprecia as virtudes da historia de Tucidides, externados na carta em que apresenta sua traducao ao papa Nicolau V, apontam outros teores de excelencia historiografica que nao sao precisamente aqueles que Ginzburg assim ressalta como sendo as marcas de atencao porque Valla valorizasse especialmente a obra do historiador ateniense. A avaliacao do desempenho historiografico tucidideano ali configurada reproduz os parametros de louvor mais os delineamentos conceituais porque os antigos romanos o haviam memorizado, como, alias, o declara o proprio Valla ao fazer, na conclusao de seu proemio, expressa mencao de que tal era o juizo "testemunhado pelos latinos".

Por um lado, Valla afirma a excelencia da obra tucidideana em termos que apelam essencialmente para a figuracao de autoridade: o historiador ateniense realiza com tal virtuosidade os fundamentos da linguagem discursiva da escrita da historia--"transparentes de seriedade, veemencia e veracidade"--que firma nos leitores a conviccao de que "tudo o que ele narra e verdade". Similarmente, Valla tambem a recomenda em termos das convencoes que, desde tempos romanos, mais particularmente a partir de Polibio, foram seladas para o oficio do historiador, lembrando, em especial, que "aquele que escreve a historia tenha visto as coisas de que fala respaldado por sua propria experiencia atuante". Por quais consonancias de supostos procedimentos "metodologicos" de critica analitica Valla atestasse a "comprovacao" de veracidade ou "realidade" dos fatos narrados por Tucidides, o humanista romano nao explicita, antes silencia.

Por outro, as virtudes porque mais detidamente Valla celebra o primor da historia tucidideana respeitam particularmente as figuras estilisticas que caracterizam sua narracao, entao diferenciadas pelo confronto com as de Herodoto. Tal juizo deriva, ainda outra vez, dos termos com que os antigos romanos haviam disposto tal paralelismo. Cicero (Orator 39) dissera que em Herodoto a escrita "fluia serena como as aguas de um rio que corre sempre tranquilo". Valla ecoa sua apreciacao, ainda mais a reforcando por imagens algo desdobradas, porque o elogia por estilo de "fluencia uniforme e facil, que desconhece qualquer aspereza, como um rio que corre docemente sempre igual, sem sobressaltos e sem ondulacoes". Diferente de Herodoto, o estilo de Tucidides, ao que dissera Cicero, se caracterizava pela escrita antes "mais fortemente vigorosa, com suas descricoes belicas como que soando as trombetas da guerra". Valla reproduz os dizeres de Cicero, (re)formulando-os em sinonimias: escrita de "curso mais impetuoso, que ao falar das coisas da guerra parece ali estar presente, a emitir os sinais de combate". As lembrancas dos ditos ciceronianos, Valla entao aduz o juizo de Quintiliano (Institutio oratoria X, 1.73) que mais o avaliza, agora expressamente citado e reproduzido em seu texto.

Tampouco os apontamentos marginais com que Valla ressaltou itens e aspectos da historia tucidideana, que dele reclamaram algum zelo elucidador, indiciam uma especial atencao porque o humanista romano destacasse na obra do historiador ateniense aquela ordem de reflexao (modernamente) "metodologica" assimilada a que ele mesmo, Valla, similarmente operasse em suas razoes de ajuizamento critico de textos historicos. Nas indicacoes registradas junto aos celebres capitulos (ditos) "metodologicos" de Tucidides (I, 20-22), o foco do interesse de Valla marca que neles o ateniense polemizava contra Herodoto, assim apenas reproduzindo noticias encontradas nas escolias antigas. (35) Tambem no desenvolvimento narrativo que Tucidides da no livro VI a reflexao externada no livro I (capitulo 20) em que denunciava as tradicoes orais com que os atenienses equivocavam-se ao memorizar como tiranicidio o atentado contra Hipias e Hiparco, a atencao de Valla nao manifesta ter-se impressionado com as virtudes de ajuizamento critico do historiador ateniense porque este "indiciava" o exercicio da tirania apenas por Hipias. Pelo contrario, o apontamento entao assinalado por Valla conjectura como a razao do interesse de Tucidides por aquele episodio impressionante por sua narrativa e loquacidade amplificada, devia-se antes, ao que entende Valla, a aspectos de ordem pessoal, dado que sua familia descendia da de Pisistrato. (36)

Tanto mais paradoxalmente perturbador, entao, aventarmos que a leitura valliana de Tucidides reconhecesse cabalmente no historiador ateniense a consciencia das manifestacoes daquela excelencia de "metodo critico" por que ele veio a ser posteriormente distinguido. (37)

Pelo que indiciam especialmente as partes submersas dos icebergs aristotelico-tucidideanos desprendidos por Ginzburg a enredar os nexos da historiografia retorica (e mutatis mutandis) da prova (38) porque se diz o telos do conhecimento historico em termos da algebra da realidade veridica do fato historico ("x did y ..."), emergem figuracoes discursivas que conjugam divinatio precipitada de associacoes conjecturais.

Pois, ha nos falsos que (des)amarram os lances de malhas que tramam a rede argumentativa de Ginzburg.

Recebido em: 7/11/2013

Aprovado em: 16/12/2013

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Francisco Murari Pires

murari@usp.br

Professor titular

Universidade de Sao Paulo

Av. Prof. Lineu Prestes, 338

05058-900--Sao Paulo--SP

Brasil

* O titulo presta homenagem a ideia do filme de Elio Petri protagonizado por Gian Maria Volonte: Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto.

(1) Os desvios e deslizes mais equivocos porque descai a reflexao nos termos em que a perpetra Ginzburg sao agudamente clarificados pela critica argumentada por Jacques Ranciere em seu ensaio (2011, p. 476-484).

(2) Nao deixa de ser ironico que a pretensao de operar a interpretacao mais axiologia metodologica proclamando-a pela hierarquia invertida a assim apreender a historia pelo lado do "baixo", "inferior", "marginalizado" como o declaram as proposicoes ginzburgianas tenham encontrado estranhamentos, senao rejeicoes, justo da parte dos agentes e sujeitos mesmos que ativam as razoes dos oprimidos: vejam-se as manifestacoes do revolucionario mais as da feminista a esse respeito, plenas naquele e parciais nesta, ambas integradas no artigo de Stephanie Jed (JED 2001, p. 372-384).

(3) "Se nao posso mover os deuses superiores, moverei o Acheronte".

(4) No original: "Mais en entrant dans les details, nous risquons a notre tour d'etre le jouet de quelque petit diable aimant a se moquer de nous derriere notre dos. Nos ancetres disaient, quand quelque chose leurs filai des mains et qu'ils ne parvenaient pas a l'attraper: Regardez! c'est le diable qui joue ... L'enquete est fatigante, on ne parvient pas toujours au but du premier coup. Les detectives et les savants, qui dans la recherche du coupable, qui celle de la verite relative a leur enquete, s'embrouillent souvent dans de fausses pistes: la proie ne se laisse pas facilement pieger".

(5) Emblematico o paragrafo no prefacio do livro Sinais em que, apresentando especie de mimesis de daimon socratico dada a guisa de argumento, o Autor intriga (con)fusao de (ir)reflexao (dis)simulada de autocritica com sua negligencia (GINZBURG 1989, p. 10-11).

(6) Para indicacoes das partes submersas que descobrem as insuficiencias mais deficiencias pontuais das argumentacoes de Ginzburg porque se possa suprir aquelas e concertar estas, confiram-se: VEGETTI 1980, p. 8-10; VATTIMO 1980, p. 23-24; ROVATTI 1980, p. 36-37; VALERI 1982, p. 141-143; HARTOG 1982, p. 25; LaCAPRA 1985, p. 45-69; BURKE 1990, p. 108, 110; DUMEZIL 1985, p. 985-989; ZAMBELLI 1985, p. 983999; BLACK 1986, p. 67-71; CARRIER 1987, p. 76-77; BARTLETT 1991; MARTIN 1992, p. 613-626; SCHUTTE 1992, p. 576; STRUEVER 1995, p. 1203; BUTTI de LIMA 1996, p. 8-9; UZEL 1997, p. 28, 31-32; EGMOND-MASON 1999, p. 241, 244-245, 247-250; AYA 2001, p. 151-152; JED 2001, p. 372, 373-374; COHEN 2003, p. ix; HARTOG 2005, p. 228-229; BORGHESI 2006, p. 110-111, 114, 118-119, 121-126; THOUARD 2007, p. 12-13, 16-17; BERTOZZZI 2007, p. 33; MOST 2007, p. 63, 65, 67-68, 70, 73; HAMOU 2007, p. 190-194; COHEN 2007, p. 222-223; DOJA 2007, p. 93-94); PAPE 2008, p. 1; OGAWA 2010; SIMON-NAHUM 2011, p. 2; VOUILLOUX 2011, p. 2-3, 4, 6, 7-8, 9-10; RANCIERE 2011, p. 474-484; HARTOG 2011, p. 540-552; BOULAY 2011.

(7) No original: "Readers are likely to finish each essay with their heads full of unanswered questions. If such abundance is a fault, it is one which is all too rare in historical writing today".

(8) No original: "The essays are so far-ranging, so rich, and so provocative that a full review would likely be longer than the book itself".

(9) No original: "One wishes Ginzburg had added a few more pages to clarify the dark, still undefined sides of his formulation. He ventured into this issue in subsequent forays. But, if one were to judge by the response of some of his critics, he did not do so satisfactorily".

(10) No original: "Carlo Ginzburg deaploie un savoir qui n'appartient qu'a lui, osant des analogies et des rapprochements dont les dehors fortuits masquent la prodigieuse erudition sur laquelle elles reposent".

(11) No original: "There are many problems with the essay, which has arguably been overused and undercritiqued: one might question the stifling of the autobiographical voice throughout the essay, so that the implied author himself becomes a "despised detail" and his works become unreflective examples of the "lower" method rather than controlled applications of it; and one might want to inquire into the meaning of Ginzburg's curious, unscientific attempt to exclude from the domain of science what he describes as the intention to observe without theorizing".

(12) Alias diversamente (re)criados de modo a conjugar diferencas de indicios assinalados conforme as variantes dos contos narrados correspondentes aos nexos imaginativos que distinguem cada versao (MESSAC 2011, p. 37-46).

(13) Afinal, alguem viu o animal (na origem cognitiva da codificacao categorizadora de suas pegadas) pois quem seria capaz de identificar pegadas de animal que jamais foi visto?

(14) A (con)fusao Sherlock Holmes por Conan Doyle e ou indireta ou alusivamente apontada ja pelos comentarios de Marcelo Truzzi: "a grande maioria das inferencias de Sherlock nao resiste a um exame logico. Ele as conclui satisfatoriamente pelo simples motivo que o autor das historias o permite" (1991, p. 79) e de Umberto Eco: "Como ele [Sherlock Holmes] tem o privilegio de viver em um mundo construido por Conan Doyle que, adequadamente, se encaixa em suas necessidades egocentricas, entao, ele nao carece de provas imediatas de sua perspicacia" (1991, p. 241). Considere-se ainda o que diz Umberto Eco sobre a estrutura teleologica do juizo operado por Zadig ao partir do principio de que os dados indiciarios em que se baseia "fossem harmoniosamente relacionados" (ECO 1991, p. 236), assim os sendo justo pela decisao criativa de Voltaire.

(15) Emblematico nesse sentido a reflexao proposta em Rashomon de Akira Kurosawa/Ryunosuke Akutagawa. Confira-se ainda a critica que Robert Bartlett dirige ao "metodo associacionista" de "alegados indicios" operado por Ginzburg em "Ecstasies" (BARTLETT 1991).

(16) Confiram-se os relatos apresentados por Roger Messac (2011, p. 37-46).

(17) Confira-se o comentario de Messac (2011, p. 39).

(18) Confira-se, similarmente, a critica de Dominick LaCapra ao livro de Ginzburg (O queijo e os vermes), introduzida por alusiva referencia ao "methodological populism" como uma tendencia presente em variantes da historiografia dos anos 1980 (LACAPRA 1985, p. 45-69).

(19) Os nexos que imbricam o ensaio "Sinais" com as proposicoes da microhistoria sao apontados pelo proprio Ginzburg no texto de 2007 "Reflexions sur une hypothese vingt-cinq ans apres" (GINZBURG 2007, p. 37-47).

(20) "No seu aspecto critico, o autor deixa para si mesmo muito pouco espaco para refinar seu contraste basico entre dois modos de investigacao - sua visao implicita 'do' metodo cientifico borra as distincoes entre experimentadores, observadores, entre outros, assim como nao considera a possibilidade de que o que ele denomina "divinacao" e um elemento presente em toda pesquisa seria, mais do que 'o' metodo de pesquisa em determinados campos". No original: "On the critical side, the author allows himself too little space to refine his basic contrast between two methods of inquiry- his implied view of "the" scientific method blurs the distinctions between experimenters, observers, and so on and does not allow for the possibility that what he calls "divination" is an element in all serious research, rather than "the" method of research in some fields" (BURKE 1985, p. 109).

(21) "A unica saida que ele encontra e um sistema que vincula de algum modo 'instinto, insight, intuicao', atraves dos quais quer significar um processo nao distinto de algumas definicoes oitocentistas do genio, isto e, a recapitulacao iluminada de um processo racional"'. No original: "The only way out, he finds, is a system that relies to some extent on "instinct, insight, intuition," by which he means a process not unlike some eighteenth-century definitions of genius, that is, "the lightning recapitulation of rational processes" (PAYNE 1992, p. 1176).

(22) Confira-se: MURARI PIRES 2012 (no prelo).

(23) No original: "We can conclude, therefore, that the tasks of both the historian and the judge imply the ability to demonstrate, according to specific rules, that x did y, where x can designate the main actor, albeit unnamed, of a historical event or of a legal act, and y designates any sort of action".

(24) A questao foi ja incisivamente marcada por Francois Hartog (2011, p. 546-550). Em obra anterior tambem a assinalamos ao analisar o dialogo justo contra a Poetica porque Lorenzo Valla elabora sua apreciacao da escrita da historia (MURARI PIRES 2007, p. 210-217).

(25) Confira-se a resenha de Harry C. Payne (1992, p. 1176).

(26) No original: "On peut s'etonner que C. Guinzburg, dans son article 'Signes: traces, pistes, racines d'un paradigme de l'indice', ne s'arrete pas, a propos de la Grece, a Thucydide".

(27) No original: "Etant entendu que pour Thucydide la connaissance par indice est fondamentalement insatisfaisante".

(28) No original: "on va du present vers le passe (inferieur), em deployant un modele d'intelligibilite qui releve plus d'une theorie de la puissance que de l'histoire antiquaire".

(29) No original: "Aristotle's Rhetoric, mediated by Quintilian, gave Valla the opportunity to escape from the limitations of Ciceronian rhetoric. It is not by chance that in 1448 Valla started his translation of Thucydides, a historian whom Cicero had despised for his obscurity, pointing to him as a negative model for orators to avoid".

(30) Para o e exame dessa questao, confira-se nosso ensaio "The Rhetoric of Method" (MURARI PIRES 1998).

(31) "Lorenzo Valla on the Donation of Constantine", publicado na coletanea de History, Rhetoric and Proof (GINZBURG 1999, p. 54-70).

(32) Carta de 31 de dezembro de 1443 a Aurispa.

(33) No original: "Writing history is difficult, he said, as we can see from the divergences among eyewitnesses speaking of a given event. In order to ascertain the truth, the historian needs as much accuracy and insight as any judge or physician--a particularly intriguing double analogy".

(34) No original: "It is hard to see any contradiction between this emphasis on the factual, antiquarian side of history and the statement, also made by Valla in the introduction to his Gesta Ferdinandi, that rhetoric is "the mother of history. Aristotles' Rhetoric, mediated by Quintilian, gave Valla the opportunity to escape from the limitations of Ciceronian rhetoric. It is not by chance that in 1448 Valla started his translation of Thucydides, a historian whom Cicero had despised for his obscurity, pointing to him as a negative model for orators to avoid (Orator 9.30-32)".

(35) Confiram-se os comentarios de Marianne Pade (2000, p. 272, 276).

(36) "Ideo tot uerbis de hac re loquitur Thucydides quia ipse a Pisistrato fuit oriundus" (PADE 2000, p. 279). A provavel fonte de que Valla deriva seu informe seria Marcelino, no entender de Fryde (1983, p. 90, 94). Este critico, entretanto, ao acusar a falha de juizo exegetico do humanista romano naquela: "Valla was guilty here of accepting uncritically an ancient authority who is most unlikely to have had any sources of information unknown to us", acaba (des)entendendo o comentario valliano, nele fazendo incidir sua propria ordem metodologica de analise documental, assim (con)fundida com o de Valla.

(37) Confira-se, por exemplo, como a atencao do critico moderno, Edmund B. Fryde (1983, p. 94), destaca como significativo que Valla acrescesse um apontamento, todavia apenas como glosa informativa traduzida de uma escolia, respeitante ao mito da morte de Itys, o que atestaria os ecos da consciencia critica tucidideana de ajuizamento historico em Valla, quando, pelo contrario, naquelas passagens em que Tucidides expressamente externa seus posicionamentos acerca dessa problematica que opoe a historia ao mito, Valla nada tenha assinalado no manuscrito de sua traducao! Sobre tal projecao operada pela critica dos seculos XIX e XX que faz aderir em Valla (ou Leonardo Bruni) a configuracao de modernidade "metodologica" antes atinente a esta (cons)ciencia historiografica atualizada, vejam-se nossos ensaios integrados em Modernidades Tucidideanas (MURARI PIRES 2007).

(38) Particularmente no que respeita aos desentendimentos das proposicoes da Retorica de Aristoteles aventados pelas articulacoes argumentativas de Ginzburg vejam-se as precisas analises de Francois Hartog (2011, p. 549-550). Confiram-se igualmente as analises de Carlos Eduardo de Almeida Ogawa em sua dissertacao de Mestrado Historia, Retorica, Poetica e Prova: a leitura de Carlo Ginzburg da Retorica de Aristoteles (2010).
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Title Annotation:dossier/Dossie
Author:Pires, Francisco Murari
Publication:Historia da Historiografia
Date:Dec 1, 2013
Words:10104
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