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Do que o nosso cabelo gosta: Corporalidade e ativismo negro no discurso das Gurias Crespas e Cacheadas.

Introducao

Em um artigo que questiona "o que implica situar-se como negro, situarse como negra, em sociedades como as latino-americanas, que apagam a dimensao da racializacao das relacoes sociais, que invisibilizam as experiencias da diaspora africana nas Americas", Laura Cecilia Lopez (2015, p.324) chama atencao para a dimensao politica implicada no "corpo colonial", este entendido "como resistencia na esfera publica, a partir de sujeitos que afirmam sua humanidade frente a opressoes que os desumanizam." Segundo a autora, para compreender as mobilizacoes negras, e preciso atentar para as dimensoes performaticas e poeticas "que corporificam a diaspora, as memorias dos sofrimentos e das resistencias".

Tomando como pano de fundo a dimensao corporificada da experiencia feminina negra, este artigo vai explorar o tema da construcao de novas sensibilidades etnicas produzidas no contexto do grupo Gurias Crespas e Cacheadas, um coletivo de ativismo negro que atua no suporte da transicao e manutencao do cabelo "natural". (1) Para tanto, partimos das discussoes de uma Antropologia das Emocoes a fim de perguntar sobre a conformacao de novas formas de sentir e experienciar proporcionadas pelo convivio com um grupo, sugerindo que existe um aprendizado que se da pela convivencia, que trabalha o corpo e os sentidos subvertendo formas tradicionais de estar no mundo.

Entre outras coisas, esse aprendizado vai envolver o compartilhamento do que chamamos aqui de uma nova gramatica etnica, ou seja, de uma serie de elementos discursivos que, quando colocados em conjunto, conformam regras de como falar e sentir positivamente em relacao aos outros em uma sociedade racista. No caso analisado, essa gramatica e potencializada por um sistema de apoio mutuo que institui uma narrativa padrao (2) sobre a linha do tempo "individual", que valoriza aspectos de uma estetica negra tecida junto a memorias e afetos produzidos coletivamente.

A ideia de gramatica etnica e inspirada no conceito de gramatica emocional descrito por Claudia Rezende e Maria Claudia Coelho (2010), em trabalhos que, cabe ressaltar, versam sobre temas bem distintos do presente. Seu argumento no livro "Antropologia das Emocoes" (2010), em consonancia com a subarea de mesmo nome, e de que as emocoes e sentimentos nao apenas sao conformados em contato com o mundo social / cultural, como existem regras social e historicamente construidas que norteiam as diferentes formas de sentir. Sem nos ocuparmos em profundidade das problematicas do campo maior da Antropologia das Emocoes, ressaltamos apenas que as emocoes nessa perspectiva sao discursos produtivos--e nao apenas estados interiores de espirito ou humor--que afetam realidades. Estamos tratando aqui de emocoes como "discursos corporificados" (ABULUGHOD; LUTZ, 2011, p. 3) cujas dimensoes linguistica e performatica entendemos que devem ser valorizadas pela etnografia.

Para explorar essas dimensoes das emocoes, vamos retomar dados da dissertacao de mestrado "E pelo corpo que se conhece a verdadeira negra? Uma analise antropologica sobre a corporalidade negra feminina na cidade de Porto Alegre" (BUENO, 2017), baseada em uma pesquisa desenvolvida junto ao grupo "Gurias Crespas e Cacheadas" (3), que problematizou a construcao simultanea de corporalidades e subjetividades negras na sua relacao com produtos capilares utilizados ao longo da vida. (4)

O conceito de corporalidade considerado para esta reflexao destaca a importancia da presenca corporal no mundo, considerando o corpo nao como objeto, mas como sujeito da cultura, ou seja, a base existencial da cultura (CSORDAS, 2008, p.105-111). Considerar que o corpo e um "sujeito" informado que produz efeitos no mundo tem se provado potente em diferentes estudos antropologicos, como e o caso das pesquisas de Didier Fassin (2007) no livro "When bodies remember", que chama atencao para as implicacoes da corporificacao do mundo para a saude e para a vida de sujeitos historicos. Para ele, o corpo "nao e apenas uma presenca fisica, imediata, de um individuo no mundo; e tambem onde o passado deixa sua marca". Nas suas palavras: "o corpo e uma presenca em si mesma e no mundo, inscrita na historia que e tanto individual quanto coletiva: a trajetoria de uma vida e a experiencia de um grupo" (FASSIN, 2007, p. 175, traducao nossa).

Nessa mesma direcao, percebemos que os corpos das mulheres negras trazem consigo nao apenas a historia individual de cada uma, mas tambem a historia coletiva de uma segregacao racial, de um estar no mundo nesse contexto, que se faz presente nas diversas formas de sentir e agir.

"Para juntar as gurias": Os caminhos da pesquisa

A pesquisa desenvolvida entre os anos de 2013 e 2017 acompanhou as atividades do grupo nas suas manifestacoes no Facebook e WhatsApp, bem como em uma serie de encontros presenciais. Por sua descricao no Facebook como: "Grupo do Rio Grande do Sul, com objetivo de juntar as gurias do Estado para trocar informacoes e dicas sobre cuidados com os cabelos cacheados. A proposta e valorizar os cachos" compreende-se que quem aderia ao grupo desejava valorizar a textura "natural" do cabelo.

O grupo, composto por cerca de 2.000 mulheres autodeclaradas negras, em grande parte universitarias ou com atuacao profissional em cargos de nivel superior, opera como uma rede de apoio na qual dividem experiencias, frustracoes e expectativas. Alem das interacoes nessas redes sociais, a cada dois ou tres meses sao promovidos encontros presenciais.

Para a presente pesquisa, tambem foram entrevistadas individualmente tres mulheres participantes do coletivo, no intuito de aprofundar alguns aspectos de interesse para o trabalho. Esses relatos serao destacados mais adiante para detalhar aspectos da experiencia de transformacao capilar e politica das mulheres.

O trabalho de campo foi realizado em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, onde aconteceram os encontros presenciais, sempre em lugares publicos, como os Parques da Redencao e o Marinha do Brasil, e o Mercado Publico. Conforme informaram as participantes, a opcao por lugares onde circulam muitas pessoas e intencional: "Queremos ser vistas", "E muito chocante para essa gente branca de Porto Alegre ver mais de vinte pretas sentadas em roda num sabado a tarde", "A visibilidade tambem e politica!" Nesses espacos, sentam-se em roda, o que e assim justificado: 1) para que todas as participantes possam se enxergar, pois os contatos visuais sao fundamentais para a criacao de vinculos e permitem a cada uma a chance de ser vista por todas as outras durante o seu relato pessoal; e 2) o ato de sentar em formato circular esta associado, na visao das organizadoras, a praticas "ancestralicas" e ate mesmo subversivas e de resistencia corporal durante a escravidao (MUNANGA; GOMES, 2006). Os encontros sao divididos em tres momentos: a historia do cabelo; o piquenique; e o amigo secreto. Dados os objetivos e as dimensoes deste artigo, focaremos apenas no primeiro.

A "Historia do Cabelo"

Relatar a "historia do cabelo" para o grupo sentado em circulo e um procedimento que segue uma linha narrativa especifica: inicialmente, as participantes, uma a uma, se apresentam e explicam o que e descrito por elas como a "relacao com o cabelo durante a infancia e a idade escolar", seguida do "periodo da adolescencia", quando geralmente comecam a usar tratamentos com "quimicas" e, por ultimo, a fase adulta, de "afastamento das drogas" (expressao usada para se referirem a produtos alisantes), e a entrada no grupo "Gurias Crespas e Cacheadas".

Nesses relatos observa-se que cada periodo da vida e descrito como sendo marcado por intervencoes e modificacoes capilares distintas. Assim, contar a "historia do cabelo" tem como objetivo demonstrar o modo com que as relacoes com o corpo puderam ser alteradas e reelaboradas durante as trajetorias pessoais. Em outras palavras, ao longo do estudo percebemos que e a partir das intervencoes feitas nos cabelos que se modificam, simultaneamente, as relacoes com a corporalidade e com o mundo. A propria sequencia cronologica escolhida para apresentar a trajetoria capilar produz um sentido de evolucao de pensamento e de comportamento. De maneira geral, o relato das participantes e bastante similar, podendo ser entendido como um momento privilegiado de producao de uma narrativa caracterizada por alguns elementos discursivos recorrentes, brevemente mencionados a seguir e aprofundados na sequencia deste texto: 1 1

1. ao se referirem ao periodo da infancia, percebe-se uma reclamacao em relacao aos brinquedos dos anos 1980 e 1990, centrada na imagem das bonecas que, sem excecao, eram brancas, do mesmo modo que os personagens dos livros infantis;

2. a entrada na escola e relembrada como um periodo de certa tristeza, marcada pelos cuidados das maes em prender ou trancar os cabelos, o que gerava constrangimentos perante os colegas, como se percebe nas suas falas: "Minha mae fazia um penteado horrivel, uma tranca grossa de cada lado. Tive mil apelidos no colegio, chorava todos os dias. Nunca usava o cabelo solto"; "Usava trancas na epoca do colegio, me chamavam de caminho de rato, por conta dos desenhos que as trancas formavam na minha cabeca";

3. a passagem da infancia para a adolescencia e descrita como marcada pelo inicio do alisamento dos cabelos com produtos quimicos, um estilo que tinha como referencia a beleza branca com destaque para modelos identificados como da decada de 1990;

4. os relatos da fase adulta enfatizam o "resgaste da autoestima" e o "reconhecimento da etnia", especialmente porque esses elementos se associam, nessa gramatica etnica, a aceitacao e a valorizacao dos cabelos "naturais". Tambem e nessa fase que o uso de turbantes passa a ser incorporado no processo de construcao de uma identidade negra. O uso desse adereco gerou inumeras discussoes no grupo, especialmente por conta da "apropriacao cultural" (5).

Observa-se que essa producao discursiva sobre o percurso da vida a partir do cabelo, alem de colocar as emocoes no plano coletivo, define a propria existencia do grupo. Diante disso, pode-se sugerir que a "historia do cabelo" e bem mais do que a historia de cada uma. A historia comporta uma critica a formas de representacao feminina feitas atraves das bonecas e dos livros, que excluem as formas de percepcao de si das mulheres negras "crespas e cacheadas". E possivel sugerir, nesse sentido, que a "historia do seu cabelo", muito mais do que falar sobre textura e ondulacao, atualiza os sentimentos de inadequacao do mundo a realidade vivida por essas mulheres. Da mesma forma, o compartilhamento de dicas e produtos remetem a dimensao de uma historia coletiva, como uma participante comentou certa vez: "Nosso cabelo nao gosta de produtos com derivados do petroleo". Assim, o compartilhamento de produtos dos quais o "nosso cabelo gosta"--expressao escolhida por nos para dar titulo a este artigo--e, antes de tudo, o compartilhamento de um sentido renovado da identidade que implica, ao mesmo tempo, a producao de novas subjetividades atraves de uma transformacao na corporalidade.

A Centralidade do Cabelo: O "black", o "afro", o "natural" e a palavra "etnico"

Na obra "Trichologiques, une anthrologie des cheveux et des poils", o pesquisador Christian Bromberger (2010) defende que a importancia dos pelos em diferentes partes do corpo e capaz de marcar e transmitir significados distintos. O autor relata que, ao longo da historia da humanidade, os pelos corporais passaram a ser representados e interpretados de diferentes maneiras, de acordo com os diversos contextos culturais.

Nessa obra, o autor apresenta uma classificacao fenotipica que divide as pessoas em tres grupos etnicos distintos: o primeiro grupo, denominado leiotriches, seriam pessoas com a cor de pele branca e cabelos lisos; o segundo, nomeado cymotriches, a pele ja nao e tao branca e os cabelos sao levemente ondulados; e, por ultimo, o ulotriches, composto por pessoas com os cabelos em formato enrolado ou espiral e que apresentam caracteristicas fenotipicas de etnia negra. A classificacao descrita pelo autor considera que nao e apenas a cor da pele que atribui aos seres humanos determinado pertencimento etnico, mas tambem o formato do cabelo o assinala.

Apresentando uma serie de fotografias, pinturas e desenhos que vao desde a antiguidade (pintura de Jesus Cristo) ate periodos mais atuais (o jogador frances Bacary Sagna, em 2009), Bromberger ainda refere que as classificacoes etnicas e sociais sao variaveis e dependem muito da aparencia corporal, e em algumas regioes do mundo os pelos corporais poderao definir status, poder e beleza. O que ele tenta demonstrar durante toda a sua obra e o quanto os pelos corporais, em especial os cabelos, estao envoltos em codigos e significados que permitem compreender e adentrar determinados contextos historicos, politicos, sociais e culturais.

Uma outra obra importante para a nossa reflexao e o livro "Sem perder a raiz: corpo e cabelo como simbolos da identidade negra", de Nilma Lino Gomes (2008), no qual relata pesquisa desenvolvida em quatro saloes de beleza na cidade de Belo Horizonte, a fim de compreender a relacao dos negros com seus cabelos e suas esteticas. A autora analisa como a questao do cabelo do negro revela zonas de tensao, bem como os imaginarios em torno dele dizem muito sobre as relacoes entre negros e brancos no Brasil. Tambem afirma que os processos de rejeicao, aceitacao e ressignificacao sao fundamentais para compreender o lugar que o cabelo ocupa na vida dos negros, especialmente na vida das mulheres negras.

Diante das consideracoes de Bromberger e Gomes, pode-se considerar de que modo o cabelo constitui a corporalidade das pessoas. No caso do grupo pesquisado, observa-se que o cabelo crespo representa uma multiplicidade de texturas e estilos, sendo que vamos destacar aqui o "black', o "afro" e o "natural".

O cabelo crespo "black' geralmente refere-se ao volume--aqueles crespos bem volumosos e quase sem cachos. Percebe-se que essa adjetivacao, na verdade, e um diminutivo da expressao black power, pois nomea-lo "black' e fazer uma referencia direta ao movimento black power norte-americano, na decada de 1960 (6).

A adjetivacao "afro" tambem se refere aos crespos, mas "afro" pode ser um crespo com cachos ou que nao possua esse formato tao definido. Nomear o crespo de "afro" e tentar uma aproximacao com o continente africano com uma ancestralidade politicamente definida como comum. Se o crespo "black" e o "afro" remetem a questoes de unificacao, poder e negritude, nos perguntamos: o que significa nomear o cabelo crespo de "natural"?

No caso do grupo estudado, o cabelo crespo "natural" e aquele que nao e mais tratado com produtos quimicos alisantes. Isso nao significa que nao sejam utilizadas uma serie de intervencoes, por assim dizer, "artificiais".

Ja a palavra "etnico" cuja definicao remete ao pertencimento a povo ou raca, podendo assim referir-se a qualquer grupo racial, tornou-se na historia recente um adjetivo que se associa, em particular, aos negros. Essa representacao chamou atencao nos encontros presenciais quando varias integrantes do grupo expunham e comercializavam "roupas etnicas", "brincos etnicos", "pulseiras etnicas", "aneis etnicos", "batons etnicos" e "lencos etnicos" (turbantes). Observa-se assim que a palavra "etnico" adjetiva boa parte dos produtos que circulam no grupo.

"Meu passado me condena"

Durante a pesquisa de campo escutamos muitas vezes expressao "meu passado me condena" como parte dos relatos sobre o tempo em que o cabelo era alisado com produtos quimicos. Essa frase recorrente nas narrativas coloca o passado em um lugar que deve ser lembrado com alguma distancia e arrependimento. Trata-se de um passado adolescente condenavel que precisa ser superado por um presente adulto etnicamente correto. Uma das interlocutoras entrevistadas, que aqui chamamos de Ana (7), comentou que nao conseguia compreender por que as publicidades eram tao preconceituosas, mas acreditava que isso era reflexo da falta de publicitarios negros no mercado. Nessa mesma ocasiao, Ana mencionou alguns comerciais que fizeram sucesso durante a infancia e comentou: "Lembra do comercial da Barbie? Todas queriamos ser a Barbie!" (Ana, 27, jornalista).

Com o slogan "Barbie, tudo que voce quer ser!", a boneca Barbie chegou ao Brasil na decada de 1980 (ALTMANN, 2013, p. 275) e, desconsiderando todas as diferencas regionais e fisicas das mulheres brasileiras, apresentou a versao classica da boneca com pele branca, cabelos loiros e lisos, corpo esguio. E alem dessa versao, tambem havia a Barbie Medica, a Dentista, a Professora, a Bailarina, a Cantora, a Cheff, a Ginasta, e a Surfista. Diferentes, porem iguais, todas elas apresentavam o mesmo padrao corporal. Nem mesmo na versao surfista da boneca a cor da pele era "bronzeada".

Com o passar dos anos, a fabricante de brinquedos Mattel trouxe ao mercado a Barbie Negra norte-americana. Mesmo nao tendo tracos de uma mulher negra, nem cabelo crespo, a insercao da boneca no mercado constituiu-se uma alteracao bastante significativa, pois ja surgia uma nova perspectiva em que a boneca branca deixava de ser unica, sinalizando a possibilidade de um outro tipo de beleza. Hoje em dia, ja e possivel encontrar, no mercado, mesmo com muita dificuldade e preco elevado, Barbies Afro, com roupas tipicas e tracos reais de uma mulher negra de cabelos crespos.

"Tu nao vai dar um jeito nesse cabelo?"

Essa frase falada em um portugues popular tipico do Rio Grande do Sul, que emprega a segunda pessoa do singular conjugada com o verbo na terceira, descreve uma interacao recorrente com mulheres mais velhas da familia, maes ou tias das hoje participantes do grupo. A resposta de uma outra interlocutora, Brenda, ao ser perguntada sobre sua relacao com o cabelo na infancia aponta nessa direcao:

"Na infancia, acho que nao da pra dizer que existia uma relacao, nem existia na verdade ... eu usava Hene desde os onze anos e na realidade a gente nao aprende a cuidar do cabelo, ne? A mensagem e sempre que a gente tem que dar um jeito, ne? Nao e um cuidado, porque tratamento quimico nao e cuidado. Ele e uma transformacao do fio. E os cuidados vem depois com as hidratacoes e tudo mais que tu ja esta acostumada. Entao tu acaba nao tendo uma relacao com o cabelo, ele e uma coisa que tu tem que dar um jeito nele, nao pode ficar desse jeito, como diz a minha tia: 'Tu nao vai dar um jeito nesse cabelo?'.

Entao, a gente sai das trancas de crianca e cai direto no produto quimico, eu ainda dei sorte que foi aos onze anos, porque hoje em dia parece que ate com tres anos estao colocando quimica no cabelo das criancas".

[Brenda, 40, bibliotecaria]

A preocupacao de Brenda com o uso de produtos quimicos no cabelo das criancas negras aponta, por um lado, para o risco objetivo de intoxicacao e, por outro, para a dimensao subjetiva da construcao de uma autoimagem negativa a partir de um cabelo que seria, por principio, errado. Essa mesma ideia e expressa por Carla, uma outra interlocutora:

"Lembro que cheguei a passar ferro quente em algumas ocasioes, nas que tinhamos que sair e o cabelo tinha que estar "ajeitado". Minha mae comecou a passar quimica no meu cabelo quando eu tinha em torno de 9 anos. Comecou com o Hene (...), que era passado em casa por ela mesma e era de valor acessivel. Mas como meu cabelo era do crespo mais 'fechado', logo ela acabou partindo para algo mais "forte" porque o Hene nao dava um resultado duradouro no meu cabelo. Foi quando partimos para o relaxamento. Lembro do quanto aquele produto queimava, mas eu "aguentava" porque quanto mais tempo no cabelo mais "bonito" seria o resultado final". [Carla, 35, profissional de saude]

A saida da infancia representa um novo padrao de consumo e preocupacoes ligadas a aparencia que surgem nas falas das interlocutoras de maneira muito evidente. Se, na infancia, havia um relacionamento distante com os cabelos, a adolescencia e a fase de intensa relacao e preocupacao constante com a sua aparencia. Isso e evidenciado nas falas das interlocutoras, que apontam o periodo como marcado pelo uso de tecnicas de alteracao e ocultamento/disfarce dos cabelos crespos, entre elas, o Mega Hair, o pente-quente e o bone:

"Na adolescencia, comecei a me relacionar com meu cabelo, se e que da pra dizer assim. Fase de muitas alteracoes: usei Mega Hair, Hene, que foi minha primeira quimica, fiz amaciamento, relaxamento, fui no Marujo [cabelereiro especializado em alisamento em cabelo crespo], usei pente quente e na verdade a gente usa o pente quente pra deixar o cabelo mais liso, mas tambem se suava um pouquinho [risos]. Acho que devo ter o pente guardado ate hoje, minha?????? eu usava tambem. Usar o pente-quente e tipo avancar de fase...porque ele alisa mesmo, mas tambem eu vivia com a testa, orelhas e dedos queimados". [Brenda, 40, bibliotecaria]

"Na adolescencia nao foi muito diferente. Continuava usando produtos para relaxar, mas na maioria das vezes o utilizava preso por nao gostar da forma que o cabelo ficava. Nao demorava muito para a raiz aparecer e comecar aqueles dois 'tipos' de fio. E como e a fase dos grupos, namoradinhos e tal, sempre tinha alguem que fazia alguma piadinha ou debochava. Teve uma fase (entre 14 e 16 anos) que passei a usar bone para dar uma "disfarcada". Era algo que me "escondia", mas que por ora me fazia sentir melhor. Era melhor do que as pessoas rindo". [Carla, 35, profissional de saude]

Os relatos das mulheres, entre ironias e memorias de piadas e deboches, revelam uma dimensao de sofrimento na relacao com o cabelo na "fase dos grupos, namoradinhos e tal". E essa sensacao de inadequacao que vai ser transformada na fase de vida adulta, sendo a participacao no grupo um elemento fundamental na transformacao da sensibilidade estetica que, nesse caso, vem acompanhada de uma nova sensibilidade etnica.

O Cabelo como Resistencia

O modo como a "historia do cabelo" e contada depois da adolescencia aponta para a fase de vida adulta como um periodo de conscientizacao etnica e aperfeicoamento de si. O passado sofrido, seguido de um periodo de "transicao" (8) corajoso, contrasta de forma marcante com o presente empoderado. Observa-se, nao raro, que a transformacao capilar vem acompanhada por uma formacao universitaria e/ou transformacoes profissionais, como relata Brenda:

"Nesse periodo de transicao revi muitos pre-conceitos com relacao ao cabelo cacheado, como a crenca de que ele nao combinaria com momentos mais formais. Me formei na faculdade e fiz questao de estar com os fios naturais. Nao vejo meu cabelo apenas como estilo, mas como resistencia a um padrao que ja quis seguir. Atualmente, me sinto mais proxima as minhas raizes, mais compreensiva comigo mesma por me aceitar esteticamente do jeito que sou. E uma vida mais leve". [Ana, 27, jornalista].

O retorno de Brenda a textura original do cabelo coincide com transformacoes maiores na vida, inclusive com uma maneira "mais leve" de se sentir. O cabelo materializa a resistencia ao padrao de beleza branco e abre as portas para um outro eu mais "autentico", que tem como referencia "as raizes" e "a ancestralidade negra".

O relato de Carla sobre a idade adulta e consistente com o de Brenda, e fala de um periodo de afirmacao corporal e estetica que se inicia quando ela percebe o cabelo como parte fundamental de uma luta politica. O seu relato, transcrito a seguir, expressa de maneira exemplar a historia de muitas mulheres que participam do grupo e os caminhos da transformacao. Como se trata de um relato longo, optamos por apresenta-lo em partes seguidos de nossos comentarios e interpretacoes:

Em 2012 comecei a querer um outro tipo de cabelo, queria um cabelo "pra cima", um "black". Ate meu companheiro (na epoca) e quem comecou a fomentar e me incentivar nessa ideia. Foi ai que comecei a fazer pesquisas, descobri a transicao, descobri que um cabelo bonito exigia cuidados como hidratacoes, nutricoes, etc. que compunham o cronograma capilar, que existem varios fios de cabelo que vao dos cachos aos crespos/afros. Comecei a fazer receitas caseiras (que la na infancia raras vezes minha mae fazia, mas pensando que aquilo iria "domar" meu cabelo). No final de 2012 decidi nao utilizar mais nada de quimica. Em 2013 fiquei gravida e ai eu realmente nao tinha outra opcao a nao ser parar com a quimica. [Carla, 35, profissional de saude]

Nesse primeiro segmento, Carla fala do inicio da sua transformacao, quando um companheiro incentivou o uso de um cabelo "black", o que motivou tambem a descoberta da "transicao". Percebemos no relato de Carla que a "transicao" encontra sua mais completa expressao quando ela refere tudo o mais que acompanhou a alteracao capilar: a descoberta dos tipos de fio, dos cuidados, dos produtos, do cronograma capilar. Diante de um novo vocabulario, recuperar as receitas caseiras e ressignifica-las como um ato de resgate da historia das relacoes e praticas da sua mae acompanha a consciencia renovada de alguem que se prepara, ela propria, para a maternidade. Na continuacao do seu relato, ela discorre sobre os sentimentos que acompanharam a transformacao:

"Comecei cortando aos poucos e usando trancas rasteiras, me descobrindo e me percebendo. Muitas vezes me sentia mais horrivel ainda porque aquele cabelo nao se 'ajeitava' de forma alguma. Mas foi nesse momento que tambem passei a despertar para outras questoes que iam para alem do cabelo. Foi ai que comecei a perceber os olhares de estranheza das pessoas ao me olharem, mas nao era aquele mesmo olhar la da infancia, era outro tipo de olhar, como se tivesse algo errado comigo. Comecei a ler algumas coisas e perceber o que tudo isso que passei (desde a infancia, mas que ainda passo) representava, comecei a entender os impactos da discriminacao [racial], bem como a violencia que sujeitamos nosso proprio 'corpo' para se 'enquadrar' socialmente".

Parece significativo que o periodo inicial de experimentacao com o cabelo seja descrito como um momento de despertar para outras questoes. E particularmente instigante a sua atencao para as diferencas do olhar das pessoas, o que poderia ser entendido alternativamente como uma transformacao no seu olhar, que vai descobrindo a violencia e a discriminacao no "corpo" forcado a se "enquadrar". No final, Brenda reflete sobre o futuro, sobre seu papel e sua postura como mulher politizada que se tornou:

"Passei a refletir muito e me perguntar qual era o meu papel diante do que eu estava percebendo e descobrindo, mas quando descobri que minha gestacao daria luz a uma menina, junto a todas as questoes que envolvem o despertar (muitas vezes desesperador) da maternidade, decidi que tinha que fazer diferente, nao queria ela tendo estas mesmas "dores"... como eu faria, como agiria/falaria/me portaria? Como eu lidaria com essas questoes? Fiz dois cortes que tiraram, bem dizer, toda a quimica. Passei a usar turbantes. Passei a me enxergar e me entender melhor quando assumi meu cabelo. No final de 2015 comecei a usar trancas para estimular o crescimento. Nesta caminhada de (re)descobertas e estudos, passei a fazer parte de alguns movimentos que contribuiram muito no fortalecimento, resistencia e valorizacao desta estetica que me (re)compoe. Hoje percebo que, muito mais do que questao estetica, nosso corpo tambem perpassa por uma etica que nos representa. Hoje eu valorizo e percebo que este fato tambem e parte de uma militancia. Porque tornar-se mulher e negra e algo incomodo socialmente, e um ato politico... porque e estar na contramao de uma sociedade subversiva que a todo tempo nos "informa" o contrario e associa tudo que ha de negativo a imagem dos negros. Resgatar, valorizar e autoafirmar minhas raizes fortalece minha verdadeira origem, me fazendo (re)estabelecer minha identidade cultural que foi 'arrancada' quando reis e rainhas do Continente Africano chegaram nos poroes dos navios negreiros. E respeitar a ancestralidade, aqueles que lutaram para que hoje tivessemos condicoes melhores, ainda que esta luta continue. Hoje assumo meu cabelo rastafari, minha identidade cultural enquanto mulher negra e capoeirista. Mas so eu sei os olhares que ainda me cruzam nos locais que frequento... faculdade, ambiente profissional, supermercados... a diferenca e que hoje levanto minha cabeca e encaro bem nos olhos daquele que tenta me oprimir!".

Frente a frente com a maternidade e com as possiveis questoes que se colocariam, Carla reflete sobre o sentimento (desesperador) de despertar para o sentido da existencia e se pergunta sobre a etica que deseja que lhe represente. O caminho da militancia leva as "raizes", assim como as "raizes" levam a militancia em um processo de renovacao permanente da luta por melhores condicoes no mundo.

Consideracoes Finais

A titulo de consideracoes finais, retornamos a reflexao inicial sobre como a corporalidade e a subjetividade se articulam compondo novas maneiras de ser e de estar no mundo. Durante a pesquisa, constatamos que as novas maneiras de ser mulher negra passam por experiencias esteticas e que os cabelos se tornam um elemento central e disparador dessas novas maneiras, possibilitando outras sensibilidades etnicas.

Essas sensibilidades, construidas junto ao grupo Gurias Crespas e Cacheadas, traduzem e sao traduzidas por elementos discursivos. Ao serem colocados no plano coletivo, esses elementos conformam regras de como falar e sentir positivamente em relacao aos outros em uma sociedade racista, o que denominamos, aqui, "gramatica etnica". No caso analisado, essa gramatica e potencializada pelo grupo de ativismo e apoio mutuo que institui uma narrativa padrao sobre a linha do tempo "individual", valorizando aspectos de uma estetica negra construida junto a memorias e afetos produzidos coletivamente. A producao e manutencao dessa estetica esta vinculada a outra instancia de construcao das sensibilidades, na qual produtos e praticas capilares para o "nosso" cabelo fornecem ingredientes fundamentais, seja para a rejeicao de velhos padroes de beleza, caracteristicamente branca, seja para novas formas de reconhecimento de si atraves das "raizes". Em um processo de construcao do "corpo colonial", conforme descrito por Lopez (2015) como "performances poeticas que corporificam a diaspora, as memorias dos sofrimentos e das resistencias", as Gurias Crespas e Cacheadas se fazem mulheres e militantes com capacidades renovadas de transformacao do mundo.

DOI: 10.12957/irei.2018.35883

Referencias

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Recebido em janeiro de 2018

Aprovado em marco de 2018

Josiane Bueno *

Ceres Victora **

* Josiane Bueno e mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande Do Sul (UFRGS). E-mail: josy_bueno18@yahoo.com.br.

** Professora titular do Departamento de Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E-mail: ceresvictora@gmail.com.

(1) O grupo formou-se a partir do "Amigas Cacheadas" de Sao Paulo, que contava com a participacao de mulheres de todo o Brasil. A partir de uma enquete que perguntava "qual e sua cidade?", as integrantes de Porto Alegre resolveram se apresentar e formar um grupo local.

(2) Dentro dessa perspectiva, vamos nos valer de mais uma ideia de Coelho (2010) descrita no artigo "Narrativas de violencia: a dimensao micropolitica das emocoes". Nesse caso, ao entrevistar familias cariocas de classe media que foram vitimas de violencia urbana, a autora percebe uma semelhanca marcante na forma de fazer relatos, o que a autora traduz em termos de uma "narrativa padrao". A nocao de gramatica para ela e capaz de organizar os relatos, estabelecendo um certo padrao que se torna inteligivel quando colocado em conjunto.

(3) A dissertacao defendida junto ao Programa de Pos-Graduacao em Antropologia Social da UFRGS e derivada do trabalho de campo da primeira e sob supervisao da segunda autora deste artigo.

(4) Agradecemos aos professores Laura Cecilia Lopez, Sergio Baptista da Silva e Arlei Sander Damo pelos comentarios e sugestoes oferecidos durante a banca de avaliacao da Dissertacao de mestrado, as quais contribuiram para a construcao do presente artigo.

(5) A polemica do turbante foi motivo de rompimento de algumas participantes, que migraram para outros grupos a fim de discutir o assunto de maneira aprofundada. Embora esse acontecimento seja relevante para a presente discussao, devido a sua complexidade, nao sera possivel trata-lo no presente artigo.

(6) Disponivel em: http://www.afreaka.com.br/notas/black-power-instrumento-deresistencia-e-cultura/.

(7) Os nomes das interlocutoras citadas sao todos ficticios.

(8) A "transicao" consiste em um metodo em que se esperara o cabelo crescer gradualmente e As pontas do cabelo vao sendo cortadas aos poucos, mes a mes, ate que a quimica seja retirada por completo. Para uma analise mais detalhada sobre a "transicao", ver GOMES, 2017.
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Author:Bueno, Josiane; Victora, Ceres
Publication:Intersecoes - revista de estudos interdisciplinares
Date:Jan 1, 2018
Words:5539
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