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Dictionary as genre: by a proposal for categorization/Dicionario enquanto genero textual: por uma proposta de categorizacao.

Introducao

Em face da infinidade de generos (textuais (1) ou discursivos (2)) na sociedade, existe um texto em especial, o dicionario, que sempre nos chamou a atencao devido ao fato de nao ser comum haver um consenso no mundo academico quanto a sua categorizacao: se um 'Genero textual' ou um 'Suporte de generos' (3) (doravante GT e SG, respectivamente). Muitos e distintos sao os estudos sobre os generos. Consequentemente, as teorias e suas terminologias divergem a depender da linha teorica que o pesquisador adota. Em Nadin (2013), por exemplo, defendia-se o dicionario como um suporte "[...] pelo qual veiculam-se diferentes generos textuais (4)" (Nadin, 2013, p. 143, traducao nossa).

Neste contexto, apresentamos neste artigo algumas reflexoes sobre o dicionario e sua categorizacao dentro dos estudos dos generos. Para tanto, orientamo-nos pelos principios teoricos relacionados aos GT e a Lexicografia--ciencia que se ocupa, entre outras questoes, da elaboracao de dicionarios (5).

Dos generos textuais

Em Bakhtin (1992), encontramos que o ser humano se serve da lingua e, a partir do interesse, intencionalidade e finalidade especificos de cada atividade, realiza enunciados linguisticos de maneiras diversas. As situacoes comunicativas em seus contextos estabelecem condicoes de comunicacao que variam de acordo com as distintas esferas sociais (cientifica, ideologica, oficial, cotidiana etc.) e, por consequencia, produzem seus "[...] tipos relativamente estaveis de enunciados [...]" (Bakhtin, 1992, p. 279). A estes enunciados, o autor os chama de generos do discurso ou discursivos.

Os generos discursivos estao nas diferentes esferas da atividade humana e refletem os objetivos comunicativos dos diferentes setores (Bakhtin, 1992). Por isso, os generos sao tipos e/ou formas como os enunciados escritos ou orais sao utilizados. Por exemplo, em um contexto de producao academico-cientifica em que devemos escrever um artigo para uma revista cientifica, devemos seguir algumas normas estruturais de forma e linguagem; ao escrevermos uma carta aberta, o mesmo acontece, uma vez que precisamos imprimir nesse genero suas caracteristicas que foram convencionadas pela sociedade ao longo dos tempos e de forma natural, de acordo com as necessidades comunicativas; da mesma forma, quando proferimos uma palestra ou conferencia de abertura de um evento ou mesa redonda, ha todo um protocolo que costuma ser seguido.

Bakhtin (1992), ao denominar os generos como tipos relativamente estaveis de enunciados, mostra que tais tipos podem sofrer modificacoes. Isso acontece porque as sociedades se desenvolvem e sao influenciadas por outras culturas, dependendo dos acontecimentos socio-historicos pelos quais passam e suas necessidades comunicativas. Assim, um genero que hoje possui uma estrutura mais ou menos estavel pode, no futuro, adquirir nova roupagem para atender as necessidades da sociedade. Para este autor,

As mudancas historicas dos estilos da lingua sao indissociaveis das mudancas que se efetuam nos generos do discurso. [...] Os enunciados e o tipo a que pertencem, ou seja, os generos do discurso sao correias de transmissao que levam a historia da sociedade a historia da lingua (Bakhtin, 1992, p. 285).

Percebe-se que as alteracoes nos generos com o passar dos tempos estao relacionadas as praticas sociais, ou seja, as mudancas na vida social que implicam mudancas nos discursos orais, escritos e, por consequencia, nos generos. Logo, e natural que haja heterogeneidade de generos para cada esfera da atividade humana que, por sua vez, produz generos que lhe sao necessarios.

No ambito da lexicografia ocorre o mesmo. Os dicionarios produzidos no Brasil no inicio do seculo XX, por exemplo, eram distintos dos que sao produzidos na contemporaneidade, pois a sociedade e suas necessidades mudaram. Da mesma forma, as orientacoes teoricas e metodologicas da Lexicografia tambem tem passado por diversas transformacoes.

Devido as incontaveis relacoes sociais presentes em cada cultura, bem como as distintas variedades de generos, Bakhtin (1992) os divide em dois grupos, a saber: primarios e secundarios. Sobre o assunto, o autor ressalta que:

Nao ha razao para minimizar a extrema heterogeneidade dos generos do discurso e a consequente dificuldade quando se trata de definir o carater generico do enunciado. Importara, nesse ponto, levar em consideracao a diferenca essencial existente entre o genero do discurso primario (simples) e o genero do discurso secundario (complexo) (Bakhtin, 1992, p. 280).

Os generos primarios relacionam-se as situacoes comunicativas cotidianas, espontaneas, informais, como a carta, o bilhete, o dialogo cotidiano. Os generos secundarios, por sua vez, se constituem como situacoes comunicativas mais complexas, como na esfera cientifica, religiosa, jornalistica, academica etc. Trata-se, pois, do uso mais elaborado da linguagem para construir uma acao verbal em situacoes de comunicacao mais complexas.

Marcuschi (2008, p. 149), em seu tempo, define genericamente GT como "[...] formas de acao social [...]" e tambem algo de dificil definicao formal. O autor propoe que, dependendo da perspectiva em que se observa, os GT podem ser: uma categoria cultural, um esquema cognitivo, uma forma de acao social, uma estrutura textual, uma forma de organizacao social e/ou uma acao retorica.

O autor sugere esse ponto de vista abrangente baseado no fato de que os GT sao entidades sociodiscursivas imprescindiveis a qualquer situacao comunicativa, seja ela escrita ou verbal. De acordo com esse autor, e impossivel nao se expressar atraves de textos. Os GT se configuram, pois, como textos sociocomunicativos utilizados no dia-a-dia. Assim, pode-se dizer que toda comunicacao ocorre por meio de um GT.

Como entidades sociodiscursivas, os generos manifestam, inclusive, as regras de funcionamento e ate de controle da sociedade. Segundo Marcuschi (2008), determinados generos expressam o exercicio do poder social e cognitivo realizado por alguns segmentos dando maior ou menor legitimidade ao discurso. Por exemplo, os textos passados de simples dizeres para um artigo cientifico, uma publicacao em alguma revista especializada ou em um jornal, ganham maior reconhecimento. Quanto a isso, Marcuschi (2005, p. 29) destaca que "[...] os generos textuais operam, em certos contextos, como formas de legitimacao discursiva, ja que se situam numa relacao sociohistorica com fontes de producao que lhes dao sustentacao muito alem da justificativa individual".

Nesse contexto, destacamos o dicionario que, pelos seus aspectos formais e funcionais, resulta em um texto possuidor de estrutura relativamente estavel dentro da sociedade e que reflete, assim como os diversos textos existentes em uma comunidade linguistica, as diferentes ideologias do povo de que e representante. No entanto, apenas essa definicao nao costuma dar conta de muitos questionamentos academicos quanto a categorizacao desse texto. Seria o dicionario um GT ou um SG? Com base nessa indagacao ja mencionada na introducao deste artigo, discorremos sobre essa problematica na sequencia e apresentamos uma proposta justificada de categorizacao de uma obra lexicografica.

Generos textuais, suportes de generos e dicionarios: definicoes e categorizacao

Comecemos nossa reflexao com as palavras de Marcuschi (2008, p. 173), quando afirma que "[...] equivocam-se os manuais quando falam no dicionario como portador de genero, pois ele proprio e um genero". Da mesma forma, equivocam-se quando tratam a "[...] embalagem como genero, ja que ela e um suporte [...]". Pontes (2009, p. 26), assim como Marcuschi (2008), ressalta a possibilidade de conceber o dicionario como um genero textual, considerando-o como passivel de ser entendido no ambito de analise da Linguistica Textual.

Nessa mesma linha de raciocinio, Berdet e Rodrigo (2002) ressaltam que o dicionario faz parte de um grupo de textos que podem ser classificados como textos cientificos e, como tal, possui unidade de significado de comportamento comunicativo, sendo uma estrutura simbolica formada por unidades menores que compartilham um proposito generico em comum dentro de uma dada sociedade. Krieger (2006, p. 142, insercao dos autores), por sua vez, considera que "[...] a obra dicionaristica nao se resume a uma listagem [de palavras], mas, como um texto, possui regras proprias de organizacao".

Como os autores supramencionados nao ressaltam caracteristicas mais detalhadas do dicionario enquanto genero como forma de justificar suas assertivas, apresentamos aqui algumas reflexoes com o objetivo de tentar legitimar o dicionario como GT em sua hiperestrutura (6) e funcionalidade e nao somente como um SG, pois cada parte do dicionario mantem relacao hierarquica e, pode-se dizer, de dependencia com outra.

O SG, de acordo com Marcuschi (2008, p. 174), e "[...] um locus fisico ou virtual com formato especifico que serve de base ou ambiente de fixacao do genero materializado como texto". Genero, por sua vez, sao discursos que se materializam na forma escrita ou oral. Essa distincao entre suporte e genero nem sempre e feita com precisao. Marcuschi (2008) afirma que ele mesmo, em trabalhos preteritos, identificou o outdoor como um genero, mas que hoje admite que o outdoor e um suporte publico para varios generos, com preferencia para publicidades, propagandas, convites, entre outros da esfera discursiva comercial. Ao utilizar o exemplo mencionado, o autor sugere que se trate o suporte na relacao com outros aspectos, quais sejam: dominio discursivo (7), formacao discursiva, genero e tipo textual (8). Para ele,

A relacao entre eles nao constitui uma ordem hierarquica, ja que nao ha um sistema de subordinacao interna. Vejase que o 'jornalismo' e um 'dominio discursivo', ao passo que o 'jornal' e seguramente um 'suporte' e que a 'ideologia capitalista norte-americana' se oferece como uma esfera de 'formacao discursiva' bastante nitida, sendo a 'reportagem jornalistica o genero textual' em questao e as sequencias 'narrativas' internas seriam o 'tipo textual' dominante no caso de uma 'reportagem' sobre a Guerra no Iraque publicada no New York Times (Marcuschi, 2008, p. 174, grifo do autor).

No caso do dicionario, podemos fazer uma adaptacao dos aspectos apresentados por Marcuschi. Vejamos: no ambito do 'dominio discursivo academico', temos o subdominio lexicografia; o dicionario, por sua vez, e o GT, pois todas as disposicoes textuais ali existentes dialogam entre si; o livro impresso, a internet ou qualquer meio eletronico pode servir como 'suporte' do dicionario; a 'ideologia' existente nas entrelinhas de um dicionario, especialmente nas definicoes, acontece de acordo com a esfera de 'formacao discursiva' do lexicografo ou da equipe de lexicografos, representantes da sociedade cujo dicionario e reflexo de aspectos inerentes a ela; 'os tipos textuais' dominantes em um dicionario dependem da tipologia de dicionario (9), suas diferentes partes, bem como das intencoes do lexicografo em relacao aos potenciais consulentes. Ou seja, a depender da tipologia do dicionario, distintas e complementares serao as tipologias textuais predominantes na front matter (doravante paginas iniciais) ou na back matter (paginas finais), assim como nos verbetes.

Se se trata de 'dicionarios para aprendizes' de uma lingua estrangeira ou 'dicionarios escolares', por exemplo, possivelmente a obra se caracterizara, de forma geral, como de tipologia textual descritiva, ja que esses tipos de dicionarios sao representantes de uma parte do lexico numa perspectiva sincronica e em contextos de uso. Servem, portanto, como modelo para as reflexoes dos consulentes e suas escolhas no momento de produzir ou compreender discursos.

Fuentes Moran (1997), ao discorrer sobre o plano hiperestrutural de um dicionario, ressalta que uma obra lexicografica como um texto esta composto por uma serie de componentes primarios organizados em uma estrutura global e que, com base nessa estrutura, e possivel caracterizar "[...] o tipo, o genero, a classe, etc. de texto de que se trata e determinar a ordem global de seus componentes10" (Fuentes Moran, 1997, p. 48, traducao nossa).

Ressaltamos, pois, que embora os textos presentes na hiperestrutura se diferenciem uns dos outros por seus conteudos e funcoes comunicativas, nao se pode olvidar que, na elaboracao de um dicionario, esses distintos textos se comunicam, ou deveriam se comunicar. Dessa forma, o dicionario e o resultado de intencoes comunicativas de carater informacional que, segundo Fuentes Moran (1997), pode ser caracterizado como um "[...] texto elaborado com uma construcao determinada que se descreve em uma estrutura global11" (Fuentes Moran, 1997, p. 49, traducao nossa).

O dicionario, assim sendo, possui uma estrutura formal, linguistica e funcional que, em sala de aula, nao consideramos pertinente que seja descrito ou analisado em suas partes isoladamente, pois se corre o risco de nao haver compreensao plena de todas suas possibilidades de informacao. Ou seja, ao lermos um 'prefacio de dicionario' com nossos alunos, o faremos de forma dialogica com as outras partes da obra. O mesmo acontece quando vamos diretamente as informacoes contidas em um verbete e nos deparamos com siglas, simbolos, abreviaturas, remissivas e que somente apos recorrermos as informacoes de uso nas partes iniciais do dicionario passamos a fazer uma leitura mais fluente do verbete, como demonstramos na sequencia de nossas reflexoes.

Vejamos, por meio da Figura 1, o esquema que propomos para representar o dicionario em sua categorizacao:

Pela figura, classificamos a Lexicografia como um 'subdominio do dominio discursivo academico' que, por sua vez, possibilita distintos GT. No ambito de nossas reflexoes, os principais GT do labor lexicografico sao os dicionarios, os glossarios, os vocabularios, por exemplo; e os secundarios, mas nao de menor valor, como as monografias, as dissertacoes, as teses, os artigos cientificos (12), todos com tematicas relacionadas a teoria e pratica lexicografica e que, por suas funcionalidades, possibilitam estudos de natureza metalexicografica que visam novos produtos lexicograficos condizentes com as diferentes necessidades existentes e emergentes.

Ressaltamos, nesse contexto, as palavras de Marcuschi (2008, p. 194): "[...] muitos generos sao comuns a varios dominios". Isso significa que os generos textuais que sao estabelecidos em situacoes comunicativas complexas, a exemplo da jornalistica e academica, tambem sao pertencentes a outros dominios discursivos, como os de natureza instrucional, o cientifico, o educacional, nas palavras do autor.

Todos os generos mencionados possuem estruturas formais, linguisticas e funcionalidades que variam de acordo com o publico-alvo. Muitos desses GT sao veiculados por meio de livros impressos, eletronicos e internet. O livro, por suas caracteristicas fisicas, serve de suporte para os mais distintos generos, assim como a internet. A 'dissertacao de mestrado, a tese de doutorado, o romance' sao exemplos de GT dispostos, em sua maioria, em 'suportes textuais' (13) dos tipos livro e internet.

Os dicionarios, por sua vez, tem sido organizados para ambos os suportes mencionados alhures, possibilitando, pois, uma maior abrangencia e facilitando o trabalho de consulta. Tomemos como exemplos para nossa explanacao o Dicionario didatico de portugues (1998, doravante DDP), de Maria Tereza Camargo Biderman. Trata-se de uma obra lexicografica destinada a escolares de lingua materna.

Primeiro, lembremos que todo GT e produzido em contextos comunicativos que visam a atender publicos bem especificos. O dicionario, como GT elaborado para sanar duvidas de potenciais consulentes, costuma ser estruturado conforme as intencoes do lexicografo que, por sua vez, objetivou elabora-lo consoante as necessidades de um publico-alvo.

No caso do dicionario de Biderman (1998), temos uma obra destinada prioritariamente para estudantes de lingua materna que se encontram na educacao basica, ou seja, do 1 ao 9 ano do Ensino Fundamental; e da 1a a 3a serie do Ensino Medio. Esta obra visa a atender as necessidades desses estudantes com informacoes organizadas em linguagem bastante compreensivel, de forma a assegurar "[...] um entendimento eficaz da palavra procurada" (Biderman, 1998, p. 5).

Conforme a autora, a principal caracteristica da obra, em comparacao com outros dicionarios destinados ao estudante do Ensino Medio, "[...] e o fato de este ser um 'dicionario contextual' da lingua portuguesa" (Biderman, 1998, p. 6, grifo nosso). A pesquisadora, ao discorrer sobre o papel dos exemplos e do contexto no prefacio do dicionario, esclarece que

[...] nao existe nenhuma entrada, ou acepcao de palavra, que nao esteja explicitada por um contexto. Na verdade, nao se consegue evidenciar claramente o significado de uma palavra, a nao ser colocando-a em contexto. Em menos ainda, o uso especifico de um dado registro de linguagem, ou uma regencia determinada de um verbo (Biderman, 1998, p. 5).

Um dos grandes diferenciais do DDP e a sistematicidade ao exemplificar os significados e usos de "[...] toda e qualquer palavra e de cada acepcao de um vocabulo" (Biderman, 1998, p. 5).

Desde o prefacio da obra, nas paginas iniciais, Biderman (1998) apresenta informacoes com linguagem clara e objetiva aos estudantes, apresentando conteudos informativos sobre: definicao e funcao do dicionario; a nomenclatura; o papel dos exemplos e do contexto. Ademais, em forma de texto escrito em prosa, a lexicografa discorre na sequencia sobre os tipos de informacoes existentes no dicionario. A autora descreve as caracteristicas do dicionario, principalmente aquelas voltadas as informacoes que podem ser adquiridas na microestrutura de cada verbete. Como informacao complementar, Biderman (1998) apresenta tambem, mais especificamente as paginas 12-19, uma retrospectiva historica da lingua portuguesa referente a formacao dessa lingua, assim como uma lista de abreviacoes. Ainda nas paginas iniciais, a lexicografa acrescenta, as paginas 20-28 e sob a denominacao de 'apendice', paradigma das tres conjugacoes regulares; locucoes prepositivas, adverbiais, conjuncionais, pronominais e denotadores expressivos; e nomes de paises, suas capitais e nomes gentilicos (patrios) correspondentes.

Como se percebe pelas descricoes anteriores, todas as partes do DDP se comunicam. Isso evidencia a natureza de genero do dicionario. Como ja explicitado anteriormente, quando estamos em sala de aula com nossos alunos e esses buscam significados de palavras, e natural que eles se deparem com sinais contidos nos verbetes que, sem a leitura sobre o que eles significam, tornariam problematico seu entendimento. Da mesma forma, se um aluno recorrer as informacoes de uso e ao prefacio de dicionario como generos independentes, possivelmente, tambem tera problemas de compreensao integral do conteudo, uma vez que precisara recorrer as diferentes partes da obra para poder visualizar as informacoes registradas no texto em questao. Vejamos um trecho do item 2. Gramatica (forma e funcao das palavras), em que Biderman (1998, p. 7, grifo nosso) informa: "Todas as palavras-entrada sao seguidas imediatamente da categoria gramatical (classe de palavras) em que ela se classifica: apurado adj., chamar v., funeral s.m., fundura s.f., etc. 'Cf. lista de abreviacoes'". Nota-se que a propria autora faz uma chamada para informacoes importantes para o entendimento dos verbetes. Outro fato que tambem nos chama a atencao nas informacoes de uso e quando a lexicografa alerta o consulente quanto a divisao silabica e a tonicidade das palavras, a saber:

Todas as entradas contem a divisao silabica da palavra, com a indicacao da silaba tonica do vocabulo. Por exemplo: a- puro, ro-che-do, mi-li-tan-cia, ques-tio-na-vel, in-ters-ti-cio, mi-no-ri-a, po-de-ri-o, le-nha, sa-ir. Contudo, as normas ortograficas nao estabelecem principios claros para a separacao silabica, quando ocorrem encontros vocalicos em que o primeiro elemento e uma semivogal /y/ ou /w/--grafada i ou u--podendo formar uma silaba com a vogal seguinte. Dependendo da velocidade da prolacao, pode-se pronunciar esse encontro como ditongo (dito crescente) ou como hiato. Assim, seguindo sugestao de Celso Cunha em sua gramatica, optei pela nao-separacao, sobretudo em silaba atona (pretonica ou postonica). Portanto, separou-se da seguinte forma: ca-rie, dia-go-nal, dia-le-tal, fa-mi-lia, es-pi-ri- tua-li-da-de, es-miu-car, fia-cao, mi-li-tan-cia, mo-ne-ta-rio, nu-tri-cio-nis-ta (Biderman, 1998, p. 6).

Um aluno que nao tenha se atentado para essas informacoes nas paginas iniciais do dicionario, possivelmente nao conseguira adquirir o maximo possivel de conhecimento oferecido na microestrutura. A titulo de exemplo, citamos abaixo um verbete com outros tipos de marcacoes que tambem carecem de entendimento por parte do aluno e que, consequentemente, induzira o leitor a reconhecer as paginas iniciais da obra:

beque s.m be-que. [e]. Jogador que joga na defesa entre a linha media e o gol. Vava jogava como beque. // pl: beques/ sin: zagueiro/ obs: orig. ingl. Back (Biderman, 1998, p. 141).

Sera que o aluno, sem antes ter lido as informacoes de uso, ou de forma contraria, ao ir buscar o significado da palavra 'beque' e se deparar com as seguintes marcacoes be-que [e], conseguira abstrair o necessario sobre a palavra, caso ele nao tenha ouvido alguem pronuncia-la?

Frente ao exposto e na esteira de nossas reflexoes, portanto, ratificamos a assertiva de Rodriguez Barcia (2016), para quem o

[...] dicionario e um genero discursivo singular no qual se registra um numero finito de palavras e locucoes de uma lingua ou de uma materia determinada junto com o significado delas, assim como outra serie de informacoes linguisticas de indole diversa; sua organizacao mais habitual e a alfabetica e a cultura da sociedade cuja obra e representante e sempre presente, da mesma forma que influencia de forma determinante na sociedade (Rodriguez Barcia, 2016, p. 17, traducao nossa) (14).

A autora, ao referir-se ao dicionario como um genero discursivo singular, permite-nos juntamente com Marcuschi (2008), Berdet e Rodrigo (2002), Krieger (2006) e tambem Abad Nebot (2001, apud Pontes, 2009) entender o dicionario como um GT possuidor de caracteristicas peculiares de composicao, dialogicas, de estilo, conteudo tematico e propositos especificos, consoante as explicacoes realizadas no decorrer deste artigo.

Consideracoes finais

As reflexoes fomentadas com este artigo tiveram a intencao de demonstrar a possibilidade de categorizar o dicionario como um GT. Pelo exposto, ratificamos epistemologias a respeito dos generos, sobretudo em relacao ao fato de apresentarem aspectos especificos que os definem em sua composicao. Nesse sentido, e em conformidade com a esfera comunicativa, o dominio discursivo, o proposito do enunciador e o contexto em que vai circular que se da a constituicao dos generos. No caso do dicionario, podemos entende-lo como um GT, uma vez que possui aspectos estruturais formais e funcionais mais ou menos estaveis que o caracterizam como tal.

Salientamos, nesse contexto, que embora possamos tentar trabalhar com nossos alunos de forma isolada com um determinado componente do dicionario, como o verbete, por exemplo, ainda assim, precisaremos recorrer as outras partes do dicionario com o intento de uma melhor compreensao. Isso ocorre devido ao fato de as partes constituintes de um dicionario manterem relacao dialogica. Todas as partes de um dicionario sao elaboradas com o objetivo de propiciar a melhor compreensao possivel aos potenciais consulentes.

Ressaltamos ainda que o dicionario entendido como um SG nao se adequa as teorias sobre os estudos a respeito dos GT, como explicitamos no decorrer deste artigo. Nos 'suportes', embora muitos abarquem diferentes generos de um determinado dominio discursivo, cada texto ali disposto pode possuir independencia, ou seja, pode ser lido ou estudado separadamente do conjunto de generos veiculado por um determinado suporte.

Doi: 10.4025/actascilangcult.v41i1.43835

Received on July 23, 2018.

Accepted on January 21, 2019.

Referencias

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Renato Rodrigues Pereira [1] * e Odair Luiz Nadin [2]

[1] Programa de Pos-Graduacao em Letras, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Av. Cap. Olinto Mancini, 1662, 79600-080, Tres Lagoas, Mato Grosso do Sul, Brasil. [2] Programa de Pos-Graduacao em Linguistica e Lingua Portuguesa, Universidade Estadual Paulista "Julio de Mesquita Filho", Araraquara, Sao Paulo, Brasil. * Autor para correspondencia. E-mail: renato.r.pereira@ufms.br

(1) Generos textuais "[...] sao formas textuais escritas ou orais bastante estaveis, historica e socialmente situadas" (Marcuschi, 2008. p. 155).

(2) A respeito das terminologias 'generos textuais' e 'generos discursivos' e suas distincoes, nao nos detemos a discorrer sobre essa problematica, uma vez que esse nao e nosso objetivo com este artigo. No entanto, aqueles que se interessarem pela tematica, podem consultar (Dias, Mesquita, Finotti, Otoni, Lima, & Rocha, 2011). Com a revisao bibliografica que as autoras oferecem ao discutir a diferenciacao existente entre as terminologias, o leitor pode adquirir uma visao ampla das linhas de raciocinio teoricas de diferentes estudiosos. Em nosso artigo, com excecao de quando nos referimos a Bakhtin, utilizamos o termo 'genero textual'.

(3) Sobre o assunto, sugerimos Cf. Wiegand e Fuentes Moran (2009).

(4) "[...] por el cual se vehiculan diferentes generos textuales".

(5) A lexicografia e uma ciencia cujos principios teoricos e metodologicos possibilitam estudos de diferentes ordens, a depender das intencoes investigativas do pesquisador. Investigacoes com objetivos de elaborar dicionarios de distintas tipologias, propor parametros de organizacao hiper, macro y microestruturais de repertorios lexicograficos, e tambem de como usar obras lexicograficas, enquanto material didatico que sao, demandam conhecimentos epistemologicos que, gracas aos avancos dos estudos de natureza etalexicografica existentes, hoje sao possiveis aos que se dedicam ao labor cientifico da lexicografia. Para mais informacoes acerca do assunto, conferir Fernandez Sevilla (1974), Werner (1982), Wiegand (1984), Hernandez (1989), Lara (1997), Porto Dapena (2002), Azorin Fernandez (2003) entre outros.

(6) O termo 'hiperestrutura' e apresentado por Wiegand (1988, apud Fuentes Moran, 1997) e serve para referir-se a estrutura geral do dicionario, em suas tres partes canonicas--front matter, word list e back matter.

(7) Marcuschi (2008, p. 194) nos explica que 'dominio discursivo' e uma "[...] esfera da vida social ou institucional (religiosa, juridica, jornalistica, pedagogica, politica, industrial, militar, familiar, ludica etc.) na qual se dao praticas que organizam formas de comunicacao e respectivas estrategias de compreensao".

(8) Entende-se por tipo textual, ou tipologias textuais, as sequencias linguisticas de enunciados, que podem ser narrativas, descritivas, dissertativas, preditivas etc. Marcusch (2008, p 154-161) e Schneuwly (2004, p. 19-34) discorrem a esse respeito.

(9) Como exemplo, citemos os dicionarios bilingues, os monolingues escolares ou para aprendizes, os semibilingues, os gerais, os etimologicos, entre outros.

(10) "[...] el tipo, el genero, la clase, etc. de texto del que se trata y determinar el orden global de sus componentes".

(11) "[...] texto disenado con una construccion determinada que se describe en una estructura global".

(12) Ressaltamos que as monografias, as dissertacoes, as teses e os artigos cientificos sao generos textuais escritos da esfera academica e, por isso, pertencentes tambem a outros dominios discursivos.

(13) Para mais informacoes sobre tipos de suporte, sugerimos a leitura de Marcuschi (2008).

(14) [...] diccionario es un genero discursivo singular en el que se recoge un catalogo de voces y locuciones de una lengua o de una materia determinada junto con el significado de estas, asi como otra serie de informaciones linguisticas de diversa indole; su ordenacion mas habitual es la alfabetica, y se nutre de la cultura en la que esta inserta, a la vez que influye de manera determinante en la sociedad.

Caption: Figura 1. Representacao do dicionario em sua categorizacao (elaboracao propria dos autores).
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Title Annotation:LINGUISTICS/LINGUISTICA
Author:Pereira, Renato Rodrigues; Nadin, Odair Luiz
Publication:Acta Scientiarum. Language and Culture (UEM)
Date:Jan 1, 2019
Words:4706
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