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Detection and quantification of aflatoxins in samples of peanut grains and derivatives traded in the Marilia-SP region, 2002-2009/Deteccao e quantificacao de aflatoxinas em amostras de graos de amendoim e derivados comercializados na regiao de Marilia--SP, 2002-2009.

INTRODUCAO

As aflatoxinas sao substancias quimicas de baixo peso molecular produzidas como metabolitos secundarios durante o crescimento de fungos filamentosos. Estes fungos pertencem a algumas especies do genero Aspergillus e a producao de aflatoxinas varia tanto qualitativa como quantitativamente entre cepas de uma mesma especie. Os quatro principais tipos de aflatoxinas sao denominados [B.sub.1], [B.sub.2], [G.sub.1] e [G.sub.2] com base na fluorescencia emitida quando expostas a luz ultravioleta ("Blue" ou "Green") e mobilidade relativa durante cromatografia de camada delgada. A contaminacao de produtos agricolas utilizados na alimentacao com cepas de fungos toxigenicos representa um serio problema de saude publica e para a economia de areas produtoras, podendo ocorrer durante o cultivo, colheita ou armazenamento. (IARC, 2002; BENNETT; KLICH, 2003; KENSLER et al., 2011).

A ingestao de produtos alimenticios contendo aflatoxinas pode resultar em efeitos adversos agudos ou cronicos. (BENNETT; KLICH, 2003). Em animais, a aflatoxicose aguda e caracterizada principalmente por alteracoes no figado e alta letalidade, enquanto na intoxicacao cronica ocorre mais acentuadamente a reducao da taxa de crescimento de animais jovens. (PIER, 1992). Em seres humanos, o consumo de alimentos contaminados tem sido associado ao desenvolvimento de cancer hepatico, sendo que diversos estudos epidemiologicos em populacoes expostas e experimentos com animais forneceram evidencias suficientes para a classificacao das aflatoxinas como agentes carcinogenicos do Grupo 1 pela Organizacao Mundial da Saude. (IARC, 2002). Surtos de aflatoxicose aguda em seres humanos foram identificados em alguns paises em desenvolvimento, e a principal caracteristica clinica observada foi falencia hepatica potencialmente letal. (STROS-NIDER et al., 2006).

Aflatoxinas tem sido detectadas em diversos produtos agricolas, especialmente no amendoim e no milho. (STROSNIDER et al., 2006). O amendoim pertence ao grupo das plantas leguminosas oleaginosas que tem grande importancia economica pelo fato de seus graos terem alta qualidade nutricional e serem ricos em oleo comestivel. Os graos de amendoim sao consumidos nas formas "in natura" e processados, sendo uma das principais materias primas da industria de confeitos. No Brasil, tem sido verificado um aumento da producao e uma melhoria na qualidade do amendoim nos ultimos anos gracas ao desenvolvimento de novas tecnologias e do Programa de Autorregulacao e Expansao do Consumo do Amendoim (Pro-amendoim). A Regiao Sudeste, principalmente o Estado de Sao Paulo, e responsavel por grande parte da producao, processamento e distribuicao deste produto agricola. As regioes conhecidas como Alta Mogiana e Alta Paulista no Estado de Sao Paulo concentram a maior area produtiva. (LOURENZANI; LOURENZANI, 2009).

O laboratorio de referencia do Estado de Sao Paulo para analises de alimentos (Instituto Adolfo Lutz) possui uma unidade regional no municipio de Marilia que atende as demandas da vigilancia sanitaria deste e de outros municipios da regiao da Alta Paulista. O objetivo do presente trabalho foi analisar retrospectivamente a ocorrencia e a quantidade de aflatoxinas [B.sub.1], [B.sub.2], [G.sub.1] e [G.sub.2] em amostras de graos de amendoim e derivados coletadas em estabelecimentos comerciais da regiao de Marilia, Estado de Sao Paulo, no periodo 2002-2009.

MATERIAL E METODOS

Um total de 75 amostras de graos de amendoim cru e derivados (amendoim frito, com cobertura de chocolate, com cobertura colorida, amendoim tipo japones e pacoca), coletado aleatoriamente em diferentes estabelecimentos comerciais da regiao de Marilia, Estado de Sao Paulo, Brasil, foi submetido a pesquisa qualitativa e quantitativa de aflatoxinas no periodo 2002 a 2009. Amostras de 5 kg de graos de amendoim cru e de 1 kg de derivados foram trituradas, homogeneizadas e submetidas (aliquotas de 50 gramas) a extracao liquido-liquido de aflatoxinas de acordo com o metodo descrito por Soares & Rodrigues-Amaya (1989). Os extratos foram entao submetidos a cromatografia em camada delgada. A quantificacao das aflatoxinas foi realizada por comparacao visual com os padroes quantitativos, e a confirmacao foi atraves de derivatizacao com acido trifluoroacetico em cromatografia em camada delgada. (SOARES; RODRIGUES-AMAYA, 1989). As analises foram realizadas em duplicadas e o limite de deteccao do metodo e de 2 [micro]g/kg.

RESULTADOS E DISCUSSAO

Como pode ser observado na tabela 1, 12 (16%) das 75 amostras analisadas continham niveis detectaveis de aflatoxinas ([greater than or equal to] 2 [micro]g/kg), sendo 4 (5,3%) amostras de amendoim cru e 8 (10,7%) amostras de pacoca. Ao contrario da pacoca, as amostras contaminadas de amendoim foram coletadas em quatro anos distintos. Duas amostras de pacoca contaminadas foram coletadas em anos distintos (2003 e 2009), tres amostras em 2002 e tres amostras em 2007. A aflatoxina do tipo [B.sub.1] foi detectada em todas as amostras, isoladamente ou em combinacao com os tipos [B.sub.2], [G.sub.1], e [G.sub.2]. Considerando o somatorio das concentracoes de cada tipo detectado, niveis de contaminacao nas amostras de amendoim cru variaram de 2 a 300,0 u.g/kg, enquanto nas amostras de pacoca a variacao foi de 9,0 a 466,0 [micro]g/kg.

Em estudos realizados no Estado de Sao Paulo ate 2001, as proporcoes de amostras de amendoim e/ou produtos contendo amendoim contaminadas por aflatoxinas variaram de 44 a 64%. (RODRIGUEZ-AMAYA; SABINO, 2002; SHUNDO et al., 2003). Amostras comercializadas na mesma regiao geografica do presente estudo apresentaram a maior frequencia de contaminacao. (SHUNDO et al., 2003). A deteccao de aflatoxinas em apenas 16% das amostras comercializadas no periodo estudado (2002-2009) indica que os esforcos governamentais e da iniciativa privada iniciados em 2001 para a melhoria da qualidade da producao e processamento de amendoim resultaram no surgimento de melhores produtos para o consumidor.

Uma das estrategias governamentais para reduzir a exposicao a aflatoxinas consiste no estabelecimento de concentracoes maximas permitidas em certos produtos agricolas destinados ao consumo humano e animal. (IARC, 2002; BENNETT; KLICH, 2003). No Brasil, a concentracao maxima de aflatoxinas tolerada em amendoim e produtos contendo amendoim para o consumo humano e de 20 [micro]g/kg, sendo considerado o somatorio das concentracoes dos quatro tipos. (BRASIL, 2011). Entre as 87 amostras analisadas por Shundo et al. (2003), no periodo 1999-2001, 34 (39%) continham teores de aflatoxinas acima do limite maximo tolerado. No presente estudo, apenas 6 (8%) das 75 amostras analisadas apresentaram teores acima do limite (duas amostras de amendoim e quatro de pacoca). Oliveira et al. (2009) relataram uma proporcao ainda menor (3,7%) de amostras contaminadas com niveis de aflatoxinas superiores ao limite maximo em um estudo realizado em municipios da regiao nordeste do Estado de Sao Paulo no periodo de junho de 2006 a maio de 2007.

Entre as acoes desenvolvidas pelo setor privado merece destaque o Programa de Autorregulamentacao e Expansao do Consumo de Amendoim (Programa Pro-amendoim), criado em 2001, cujo objetivo e estimular toda a cadeia produtiva para a obtencao de amendoim em conformidade com os limites estabelecidos para a concentracao de aflatoxinas. As empresas tem investido muito para a melhoria da qualidade do amendoim produzido no Brasil, implantando Boas Praticas de Fabricacao (BPF), Analise de Perigos e Pontos Criticos de Controle (APPCC) e monitoramento laboratorial dos produtos industrializados para verificar se o produto atende aos requisitos minimos estabelecidos pela legislacao. Em 2002, a Associacao Brasileira da Industria de Chocolate, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (ABICAB) criou o selo "Amendoim de Qualidade ABICAB" para estimular o consumo de amendoim e assegurar a qualidade dos graos processados e seus derivados. Atualmente, este selo e denominado "Selo Qualidade Certificada Pro--amendoim ABICAB". (PRO-AMENDOIM, 2011).

A escolha adequada de variedades e tecnicas de manejo na producao do amendoim, assim como procedimentos de colheita, beneficiamento e armazenamento do produto sao muito importantes para prevenir o desenvolvimento dos fungos toxigenicos que comprometem a qualidade do grao e, consequentemente, dos seus derivados. (FACCA; DALZOTO, 2010). Considerando que ainda existem duvidas se as concentracoes maximas de aflatoxinas toleradas em certos alimentos destinados ao consumo humano nao constituem risco a saude publica (KENSLER et al., 2011), os niveis de contaminacao por estas micotoxinas deverao ser tao baixos quanto razoavelmente possivel. Para tanto, a continuidade e a otimizacao do controle de qualidade pela cadeia produtiva e das acoes governamentais para avaliacao da qualidade destes produtos sao essenciais para que se evitem riscos a saude do consumidor e prejuizos economicos.

Recebido em: 07/01/2012

Aprovado em: 03/03/2013

REFERENCIAS

BENNETT, J. W.; KLICH, M. Mycotoxins. Clin. Microbiol. Rev., v. 16, n. 3, p. 497-515, 2003.

BRASIL. Ministerio da Saude. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria. Resolucao RDC no 7, 18 de fevereiro de 2011. Dispoe sobre limites maximos tolerados (LMT) para micotoxinas em alimentos. Diario Oficial [da] Republica Federativa do Brasil, Brasilia, 9 mar. 2011. p.66.

FACCA, M. C. J.; DALZOTO, P. R. Aflatoxinas: um perfil da situacao do amendoim e derivados no cenario brasileiro. Biologico, v. 72, n. 1, p. 25-29, 2010.

INTERNATIONAL AGENCY FOR RESEARCH ON CANCER. Some traditional herbal medicine, some mycotoxins and styrene. In: --. Monographs on the evaluation of carginogenic risks to humans. Lyon, 2002.

KENSLER, T. W. et al. Aflatoxin: a 50-year odyssey of mechanistic and translational toxicology. Toxicol. Sci., v. 120, s. 1, p. S28-S48, 2011.

LOURENZANI, W. L.; LOURENZANI, A. E. B. S. Perspectivas do agronegocio brasileiro de amendoim. Inf. Econ., v. 39, n. 2, p. 55-68, 2009.

OLIVEIRA, C. A. F. et al. Determination of aflatoxins in peanut products in the northeast region of Sao Paulo, Brazil. Int. J. Mol. Sci., v. 10, p. 174-183, 2009.

PIER, A. C. Major biological consequences of aflatoxicosis in animal production. J. Anim. Sci., v. 70, p. 3964-3967, 1992.

PRO-AMENDOIM. Selo de qualidade: garantia de qualidade. 2011. Disponivel em: http://www.proamendoim. com.br/selo.php. Acesso em: 26 ago. 2011.

RODRIGUEZ-AMAYA, D. B.; SABINO, M. Micotoxins research in Brazil: the last decade in review. Braz. J. Microbiol., v. 33, n. 1, p. 1-11, 2002.

SHUNDO, L.; SILVA, R. A.; SABINO, M. Ocorrencia de aflatoxinas em amendoim e produtos de amendoim comercializados na regiao de Marilia--SP, Brasil no periodo de 1999-2001. Rev. Inst. Adolfo Lutz, v. 62, n. 3, p. 177-181, 2003.

SOARES, L. V.; RODRIGUES-AMAYA, D. B. Survey of aflatoxins, ochratoxin A, zearalenone and sterigmatocystin in some Brazilian foods by using a multitoxin thin-layer chromatographic method. J. AOAC Int., v. 72, n. 1, p. 22-26, 1989.

STROSNIDER, H. et al. Workgroup report: public health strategies for reducing aflatoxin exposure in developing countries. Environ. Health Perspect., v. 114, n. 12, p. 1898-1903, 2006.

Rosangela Aguilar da SILVA *

Isabel Tacaco YAMAMOTO *

Luci Ochi FERREIRA *

Lilian Regina Macelloni MARQUES *

* Centro de Laboratorio Regional--Instituto Adolfo Lutz de Marilia--IV--17506-210--Marilia--SP--Brasil. E-mail: rasilva@ial.sp.gov.br.
Tabela 1--Ocorrencia e quantificacao de aflatoxinas em amostras de
graos de amendoim e derivados comercializados no periodo de 2002
a 2009.

                                   Amostras
                                      (%)
Produto    Total        Contaminadas com Aflatoxina(s)

                   [greater than    [B.sub.1]       [B.sub.1],
                   or equal to] 2                   [B.sub.2]
                     [micro]g/
                       kg **

Amendoim   10      4 (40)           2 [5-9,5] ***
Pacoca     47      8 (17)           6 [9-65]        1 [66-400]
Outros *   18        0                --              --
Todos      75      12 (16)          8 (11)          1 (1,3)

                Amostras (%)
             Contaminadas com
Produto        Aflatoxina(s)
                 [B.sub.1],
                 [B.sub.2],
                 [G.sub.1],
                 [G.sub.2]

Amendoim         2 [2-196]
Pacoca           1 [6-130]
Outros *            --
Todos             3 (4)

* amendoim frito, com cobertura de chocolate, com cobertura colorida
e amendoim tipo japones;

** Limite de deteccao do metodo;

*** Concentracao minima e maxima detectada.
COPYRIGHT 2013 Faculdade de Ciencias Farmaceuticas UNESP
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Author:da Silva, Rosangela Aguilar; Yamamoto, Isabel Tacaco; Ferreira, Luci Ochi; Marques, Lilian Regina Ma
Publication:Alimentos e Nutricao (Brazilian Journal of Food and Nutrition)
Date:Jan 1, 2013
Words:1860
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