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Delfim F. Leao, A globalizacao no mundo antigo. Do polites ao kosmopolites.

DELFIM F. LEAO, A globalzacao no mundo antigo.

Do polites ao kosmopolites

Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012.

158 pp. ISBN 978-989-26-0267-7

Professor Catedratico de Estudos Classicos na Universidade de Coimbra, onde tem leccionado Historia da Antiguidade Classica, Delfim F. Leao constitui um dos mais dinamicos e criativos investigadores da nova geracao de especialistas em Estudos Classicos com origem naquela academia. Tradutor premiado, o A. oferece-nos agora um conjunto de estudos em torno do conceito de cidadania no mundo grego classico e da sua evolucao durante o periodo helenistico ate ao mundo romano. O texto traz a chancela da renovada Imprensa da Universidade de Coimbra, que o A. tambem dirige.

O volume esta dividido em oito capitulos que correspondem, pelo menos na sua origem, a outros tantos estudos publicados nos ultimos anos ou, creio, em vias de publicacao: embora se advirta o leitor para "o profundo processo de reescrita" (p. 9) de todo o conjunto, dificilmente se perde a impressao de estarmos perante uma colectanea de varios artigos, eventualmente subordinados a uma tematica comum.

O primeiro capitulo, "Enquadramento geral: do polites ao cosmopolites" (pp. 17-31), e o texto que procura dar unidade a todo o conjunto. O autor apresenta uma interpretacao da historia da polis ateniense, sobretudo desde as guerras medo-persas ate ao periodo helenistico. Com base apenas nesta cidade, o A. acaba por defender que no periodo classico a polis se caracterizaria pela preponderancia do colectivo de politai sobre o individuo, que subordinaria ou harmonizaria as suas vontades com o interesse do conjunto dos cidadaos; daqui, ter-se-ia passado para um periodo (o helenistico sobretudo) em que, ao inves, se privilegiaria mais a felicidade individual em detrimento do colectivo.

O segundo capitulo, "Licurgo: o mitico fundador da constituicao espartana" (pp. 33-48), centra-se na polis dos Lacedemonios e na figura mitica por tras da Rhetra. Ja na nota previa que antecede o conjunto dos capitulos, o A. refere que Esparta constituiria o exemplo mais acabado "da identificacao entre a polis e o polites" (p. 10). O capitulo divide-se, na realidade, em duas partes--uma sobre a "ideia de Esparta" desde Homero ate as Termopilas; a outra e uma analise da narrativa de Plutarco acerca de Licurgo. O texto e util e acessivel, embora fiquem por esclarecer as razoes mais concretas da identificacao cidade-cidadao em Esparta, decorrentes menos da Rhetra atribuida a Licurgo, objecto de estudo do A., do que da agoge nao licurguiana que a mantinha.

O terceiro, "Ideologia e imperio: o tema da autoctonia e da patrios politeia na Atenas do seculo V" (pp. 49-65), o quarto, "Polis, teatro e exercicio da cidadania" (pp. 67-83), e o quinto, "Polites, idiotes, kosmopolites. A Atenas de Focion" (pp. 85-96), capitulos referem-se a Atenas do seculo V. Aquele primeiro constitui um relevante estudo sobre a relacao entre cidadania e autoctonia (decorrente da famosa lei de Pericles de 451/0), a nocao de enkesis e a reflexao em torno da constituicao ancestral no contexto da guerra do Peloponeso. O segundo analisa o Ion de Euripides no ambito dos mitos sobre a autoctonia ateniense e do teatro atico e dos festivais dramaticos como fenomenos politicos, ou, como o A. refere, como "manifestacao da energia vital da polis" (p. 68). O ultimo analisa o exemplo do ateniense Focion, considerado como o "ultimo polites", por fim condenado a morte em 318 a.C. Considera o A. que o julgamento irregular de Focion sera sinal suficiente da decadencia da polis como comunidade de cidadaos, manifestando-se ja aqui os sentimentos individualistas dos idiotes sobre o interesse colectivo.

No sexto capitulo, "Alexandre Magno. Da estrategia pan-helenica ao cosmopolitismo" (pp. 97-110), inserindo a analise na narrativa das conquistas do rei da Macedonia, o A. debruca-se sobre a politica pan-helenica e de miscigenacao e/ou fusao politica e cultural levada a cabo por Alexandre.

O setimo, "Alexandria. Identidade e cosmopolitismo" (pp. 111-127), e o oitavo capitulos, "Paulo de Tarso e a justica dos homens. Helenismo e impiedade religiosa nos Atos dos Apostolos" (pp. 129-142), referem-se ja ao periodo pos-Alexandre. No primeiro, o autor estuda a fundacao de Alexandria e as suas caracteristicas como cidade helenistica. O A. alonga-se sobre o farol de Alexandria (porque o farol e nao a biblioteca ou o museu, simbolos bem mais evidentes do cosmopolitismo e da globalizacao caracteristicos do mundo grego?), preferindo nao desenvolver os elementos institucionais e civicos que permitem reconstituir Alexandria como polis helenistica. O A. decide antes analisar o politeuma judaico de Alexandria, para caracterizar uma comunidade de origem nao-grega numa polis no Egipto. O ultimo capitulo corresponde no essencial ao ensaio ja publicado em Paulo de Tarso: Grego e Romano, Judeu e Cristao (Coimbra-Lisboa, 2012, pp. 101-113). Aqui o autor procura situar Paulo no seu contexto "cosmopolita" e sobretudo analisar as acusacoes de asebeia a ele imputadas.

Naturalmente, o A. raramente procura a exaustividade: o equilibrio entre agradar a especialistas, estudantes ou interessados pela antiguidade classica (p. 13) assim o exigia. No final do volume, encontra-se ainda uma bibliografia de textos citados. Creio que teria sido util que se tivessem utilizado pelo menos os muito recentes Companion to the Hellenistic World (ed. A. Erskyne, Malden, Oxford, Victoria, 2003), o The Cambridge Companion to the Hellenistic World (ed. G. R. Bugh, Cambridge, 2006) ou o mais antigo volume de M. H. Hansen (ed.), The Ancient Greek City-State, Copenhagen (especialmente o capitulo de P. Gauthier, "Les cites hellenistiques"); ou a traducao portuguesa de J. Ferguson, A heranca do helenismo, Lisboa, 1973, com capitulos sobre polis e kosmopolis. O livro termina com os muito uteis "indice de nomes" e "indice de autores antigos".

Naturalmente, alguns dos pressupostos defendidos pelo A. merecem alguma reflexao. Creio que teria sido muito util que se tivesse apresentado um texto sobre o que era de facto uma polis e quais os pressupostos ideologicos que lhe estiveram subjacentes, ao longo do tempo (porque naturalmente o conceito nao permaneceu imutavel). A discussao nao e inutil. De facto, permitiria prevenir o leitor quanto a projeccao demasiado rapida sobre os seculos V e anteriores das reflexoes "constitucionais" e "politicas" do final do seculo V e seguintes. Seria tambem de avaliar o conceito de polis tendo em conta as coordenadas da diversidade espacial (todas as poleis obedeciam aos mesmos principios, independentemente do local onde se encontravam?) e da definicao de polites (que variava de polis para polis, nao apenas quanto as condicoes de acesso a essa categoria, como aos poderes que estavam atribuidos aos cidadaos, por vezes com razoavel grau de diversidade, mesmo dentro de cada comunidade).

De assinalar tambem o caracter demasiado paradigmatico concedido a Atenas, logo no primeiro capitulo, continuando ao longo dos restantes contributos (apesar do texto sobre Licurgo), como se as conclusoes para esta polis se pudessem aplicar a toda a Grecia. De facto, na Grecia do seculo V havia pelo menos varias dezenas de poleis. Naturalmente, sobre a maioria destas poleis sabemos hoje muito pouco; por isso Atenas nos surge hoje, como surgia aos olhos de muitos dos Atenienses cujos textos chegaram ate nos, como paradigma da polis, ou como a polis por excelencia. Contudo, nao pode deixar de ser ideologico afirmar-se ter sido na Atica que o sistema da polis atingiu a sua "realizacao mais perfeita", com a democracia (p. 18). Em bom rigor, creio que faltam argumentos que justifiquem esta avaliacao. De facto, ela supoe que existia um entendimento ideologico de polis que fosse o "correcto", e que seria em face dessa definicao que se deveria avaliar a Atenas de Pericles. Ora, esse entendimento esta longe de ser evidente pelo menos para o seculo V. Muitos Gregos e ate mesmo muitos Atenienses nao concordariam que a maneira particular como os Atenienses se governavam seria a melhor forma de organizar uma polis, com um larguissimo corpo de cidadaos, onde a ekklesia detinha um poder quase absoluto--Platao, Aristoteles ou Polibio, por exemplo, hao-de pensar de outro modo. Nem sequer havia apenas uma democracia--na Politica, Aristoteles distingue varios tipos de democracia, de acordo com o maior ou menor numero de cidadaos que participavam no governo da cidade. De facto, teria algum pejo em defender uma visao da Atenas de entre 480-430 como de "quase perfeicao", como diz o A. (p. 18): mesmo na Atenas de Pericles, se todos os cidadaos tinham "identicos poderes" na ekklesia, nao os tinham no acesso a boule nem as magistraturas principais, por exemplo; nem os conflitos entre faccoes aristocraticas abrandaram propriamente durante esse periodo (conhecemos para estes cinquenta anos pelo menos dez ostracismos de lideres politicos como Aristides, Hipias, Xantipo, Temistocles ou Cimon; e pelo menos o assassinio politico de Efialtes); e a propria Simaquia de Delos (como a Liga do Peloponeso), com as suas varias poleis, constitui um excelente exemplo de que a polis como entidade "autonoma" nao teria uma aplicacao pratica universal, ja no seculo V. De facto, escapam-me as razoes pelas quais a Atenas do seculo V seria uma polis "mais perfeita" do que Esparta ou do que Corinto--Pericles di-lo na celebre Oracao Funebre; mas o Pericles do ateniense Tucidides poderia dizer outra coisa?

Seria tambem de discutir as questoes do "fim da polis" (p. 23) e da decadencia do ideal de cidadania e de autonomia a ela associados sobretudo durante o periodo helenistico. Naturalmente, o A. nao e demasiado contundente e explica bem que as estruturas institucionais da polis classica se mantiveram; o que tera mudado tera sido a "dinamica" anterior. No entanto, creio, nao se trata aqui apenas de manter uma estrutura institucional quando muda de facto o contexto. Para compreender bem uma eventual "globalizacao", seria de assinalar e de discutir o facto de que, em bom rigor, o modelo organizacional da polis atinge agora o seu apogeu, com cidades que se fundam e refundam como poleis, as centenas, pelo Mediterraneo oriental, especialmente na Asia Menor e na Siria, mas tambem na Palestina ou na Mesopotamia. E, de facto, este parece-me ser um dos elementos mais caracteristicos do mundo helenistico--a expansao anteriormente inimaginavel do modelo politico grego. Ha agora poleis (ainda que algumas muito efemeras) nos actuais Afeganistao e Paquistao! Estas tendiam a construir as suas "novas" instituicoes sobre o modelo da democracia ateniense; em certo sentido, parece haver agora muito menos diferencas quanto ao que se entendia por polis do que antes. Naturalmente, continua a nao haver agora (como nao havia antes--Atenas era uma polis muito diferente de Esparta) uma uniformidade--as novas poleis da Asia eram diferentes das velhas poleis do Egeu, e ainda mais das poleis da Sicilia ou do Mar Negro, que nao eram propriamente "helenisticas".

Para o A., e particularmente importante a mudanca ideologica suposta pela especializacao profissionalizante dos servicos da cidade e a insercao da polis no contexto maior dos reinos helenisticos, que, necessariamente, condicionaram todo o seu modo de se organizar como entidades independentes. Contudo, e comecando por este ultimo ponto, isso seria aceitar que a autonomia era elemento essencial para definir a polis classica (e nao apenas Atenas). Ora, ja Mogens Herman Habens ("The <<autonomous city-state>>: ancient fact or modern fiction?", Studies in the Ancient Greek polis, Stuttgart, 1995, pp. 21-43) questionou, creio que com razao, a ideia de que a autonomia seria um elemento realmente definidor da polis ate finais do seculo V. A tese mais tradicional diz que sim; mas Habens defende bem a perspectiva contraria--para ele, a maior parte das poleis nao eram ou nao foram autonomas em algum momento da sua historia antes do seculo IV, sem nunca deixarem de ser, por isso, referidas como poleis. De facto, a existencia de poleis dependentes nao e propriamente um fenomeno novo da epoca helenistica--no seculo V, as poleis da Simaquia de Delos viram condicionada muita da sua autonomia, e nem sempre de livre-vontade. E neste contexto que se insere o pagamento de um phoros (ou de uma syntaxis na Segunda Confederacao, no seculo IV). Ainda no contexto da Simaquia de Delos, apenas Quios, Lesbos e Samos sao referidas explicitamente como autonomai; todos os restantes membros da liga surgem como hypekooi. E, nos seculos V e IV, o dominio exercido pelos Persas sobre as poleis da margem oriental do Egeu pode, com justica, ser considerado um antecedente do modelo de relacao entre a polis e uma qualquer entidade politica maior da epoca helenistica. Isso nao significa que a autonomia nao fosse valorizada pelas poleis do seculo V--era-o; mas nao parece que fosse uma condicao sine qua non para a existencia ou nao de uma polis. De resto, o topico da independencia da polis parece continuar a ser muito relevante mesmo no mundo helenistico--de facto, de um ponto de vista teorico, as poleis mantinham-se "estados independentes" dentro de um reino territorial maior com o qual mantinham alguma especie de relacao contratual (Hansen, Polis and City-State: An Ancient Concept and its Modern Equivalent, Copenhagen, 1998, pp. 46-7). Com autonomia variavel ao nivel da politica externa e de defesa, cada polis continuava a eleger anualmente os seus magistrados, a definir internamente as suas leis, a exercer a justica ou a organizar o seu abastecimento. Do ponto de vista do funcionamento interno, e certamente com uma enorme diversidade de situacoes, que apenas e maior agora porque o numero de poleis e muitissimo superior, nao creio que se percebessem modificacoes demasiado evidentes no funcionamento geral das poleis antigas e helenisticas. Veja-se, por exemplo, os preciosos fragmentos do codigo administrativo de Pergamo (OGIS 483): tal como as centenas de eleitos referidos para Atenas por Aristoteles, o largo corpo de magistrados que aqui se encontra era todo eleito pela assembleia de cidadaos e era responsavel perante esta, que mantinha uma actividade particularmente intensa. Os dados que possuimos para cidades como Halicarnasso ou Colofon confirmam que aqui as assembleias de cidadaos eram muito frequentadas e nao vejo porque tenhamos de avaliar os seus membros como meros idiotes egoistas e nao como politai mais ou menos abnegados e mais ou menos interessados pela sua cidade. A administracao da justica, um dos pilares essenciais da polis, mantem-se autonoma durante o periodo helenistico para a larga maioria das poleis. E mesmo a existencia de uma marinha de cidadaos esta atestada para algumas ilhas do Egeu como Cos ou Rodes; outras poleis mantinham exercitos proprios de politai e fortalezas junto das suas fronteiras; e a ephebeia e uma instituicao politica que se desenvolve precisamente na epoca helenistica e nao e caracteristica do periodo anterior. Rodes mantem a sua independencia efectiva durante todo o seculo III e parte do II a.C.; Atenas tambem, entre 229 e a primeira guerra contra Mitridates VI. O que muda agora, depois de Alexandre, e de forma radical, e de facto o contexto "global" em que tudo isto se passa, como o A. assinala--mas nao e necessariamente uma mudanca qualitativa para pior.

Naturalmente, um bom texto deve suscitar problemas, interrogacoes e questoes na comunidade cientifica. Este meu contributo insere-se precisamente neste espirito: sem retirar os meritos do volume, assinalados, creio que ele suscita questoes suficientemente pertinentes para lancar uma discussao. Perante uma academia, como a portuguesa, que tantas vezes esqueceu a historia da antiguidade como tema da sua investigacao, o A. apresenta um texto que merece sem duvida reflexao e debate.

RODRIGO FURTADO

Centro de Estudos Classicos da FLUL

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Title Annotation:V DISPUTATIONES
Author:Furtado, Rodrigo
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2013
Words:2522
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