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DAS MARGENS E AS MARGENS: LITERATURA E CRITICA LITERARIA NO BRASIL CONTEMPORANEO.

REFLETIR sobre a producao textual das margens no atual panorama sociocultural brasileiro tem exigido repensar os criterios em que a propria critica literaria esta assentada. Nocoes como as de autoria, criatividade, autonomia e canon literarios sao ora mobilizadas ora re-significadas no esforco de dar conta das vozes, escritas e imagens das margens: obras coletivas, testemunhais, indigenas, faveladas ou perifericas. Seja com entusiasmo, perplexidade ou ceticismo, a critica brasileira e brasilianista hoje se ocupa em recalibrar suas ferramentas historicas e conceituais para compreender o exito desses novos textos e autores na cena literaria brasileira contemporanea. Esta edicao especial da revista Romance Notes reune criticos de instituicoes academicas no brasil, Inglaterra, Estados unidos e portugal para refletir sobre esses novos atores e experimentos literarios, mas sobretudo sobre as novas vozes criticas e modos de producao que os acompanham.

Mais do que um panorama dos modos de expressao ditos marginais, os artigos aqui publicados reagem a diferentes desafios impostos por esses textos e tomam para si a tarefa de repensar os conceitos a partir dos quais a critica literaria e possivel. Nao obstante suas diferentes formas, o que se chama literatura marginal hoje tem em comum o fato de ser produzida desde as margens, ou seja, ser definida por aquele que e o produtor intelectual da obra e nao somente pelo motivo retratado. A uma literatura geralmente pautada pela critica social, ancora-se a questao da auto-representacao. Em contrapartida, comumente recai sobre estes textos uma critica ao mimetismo de realidades de exclusao que supostamente desembocariam em escrituras carentes de autonomia e imanencia. os artigos aqui reunidos sugerem que seus autores escrevem a partir de, ou sobre, condicoes que rechacam, alargam ou negociam com as nocoes de obra artistica, autonomia e criacao pressupostas na tradicao critica literaria. Sao monografias que abdicam de ser sentinelas da tradicao, mas que nao a ignoram como referencial, movendo marcos e distancias que caracterizam, com a metrica terca do centro, os territorios da marginalidade. Neste sentido, nao negligenciam a instabilidade e pluralidade do proprio conceito de margem, que e aqui posto desde uma perspectiva historica, seja recuperando debates do seculo xx acerca da nocao de autoria ou o uso do termo marginal para caracterizar os experimentos artisticos dos anos 60 e 70. Assim, os estudos aqui reunidos tambem contribuem, junto com outras iniciativas recentes, (1) para o mapeamento destas escritas, tanto as de hoje como as de outras epocas.

Frederico coelho abre esta coletanea com um texto que traca uma genealogia do uso do termo "cultura marginal" no Brasil. partindo do seu uso para nomear as transgressoes e experimentacoes que marcam a producao artistica dos anos 60 e 70, geralmente compreendidas a partir do conceito de contracultura, coelho discute as especificidades politicas e esteticas que distinguiram essa geracao de artistas brasileiros da chamada contracultura internacional. sem perder a inclinacao pela afirmacao da liberdade que caracteriza as variadas expressoes da contracultura no mundo, as producoes brasileiras sao marcadas pelo medo da prisao, do exilio, da tortura e da loucura. produzidas no contexto da ditadura militar, essas obras nascem, nas palavras do autor, "nos intersticios da razao e do totalitarismo." Ao ressaltar a relacao intrinseca entre estetica e politica que marca os primeiros usos da expressao no brasil, coelho oferece um ponto de partida para a leitura dos demais artigos deste volume, inserindo-os em um contexto dotado de uma historia mais ampla do que se pode a primeira vista supor.

Enquanto Frederico coelho propoe uma genealogia do conceito de marginal, Daniela Birman questiona a propria dicotomia centro-margem, sugerindo que a nocao de marginalidade deve ser pensada em suas diversas associacoes e negociacoes com o mercado editorial, a critica academica e a tradicao literaria. atraves de uma comparacao entre a publicacao dos diarios de carolina Maria de Jesus, em 1960, e, quatro decadas mais tarde, do romance Cidade de Deus, de paulo Lins, Birman analisa continuidades e rupturas na articulacao entre nocoes de autoria e praticas editoriais no tratamento de textos marginais. Enquanto no caso de carolina Maria de Jesus, o excessivo processo de edicao que modificou o texto da autora negra e favelada foi mascarado no processo de fabricacao de um testemunho que deve ser lido como "autentico," no caso de Paulo Lins, os novos modos coletivos de producao textual--que mesclam a etnografia, o testemunho e sua ficcionalizacao--geraram disputas legais sobre o direito de transformar historias pessoais em obra literaria (e, mais tarde, cinematografica). Atraves de uma analise minuciosa de manuscritos, obras publicadas e debates publicos nos meios de comunicacao, Birman mostra que para compreender o intrincado processo de invencao de uma tradicao marginal, o critico precisa ir alem de uma analise puramente textual e voltar-se para as engrenagens dos modos de producao, editoracao e distribuicao destes textos.

Aclamado pelo publico e pela critica, o escritor Luiz Ruffato suscita discussoes que ultrapassam a nocao de autoria. Em seu artigo sobre Vista parcial da noite, o terceiro livro da trilogia Inferno Provisorio, de ruffato, Marguerite Itamar Harrison investiga a relacao entre forma e critica social. a autora sugere que ao escrever fragmentos de vidas marginais, vinhetas de historias intimas da classe trabalhadora brasileira nas decadas de 60 e 70, ruffato mira aquilo que estrutura o centro da politica e do ethos nacionais durante a ditadura militar brasileira. o autoritarismo e os alicerces historico-politicos da desigualdade social sao abordados atraves de um olhar voltado para as micro-negociacoes de poder, enfermas dinamicas familiares e pequenas tragedias cotidianas. Desta estetica de ruinas, o fracasso da nacao emerge como legado compartido entre seus diferentes estratos sociais. se, como recordamos antes, a literatura marginal contemporanea e fortemente marcada por um desejo de auto-afirmacao, Harrison se incumbe de demonstrar como rufatto o recodifica como uma polifacetica auto-negacao de um pais e de suas bases morais.

Considerando outras faces da marginalidade, rex Nielson exemplifica, em sua analise do conto "entre dois mundos," de Francisco maciel, como o corpo negro masculino se converte em moeda corrente e passaporte nos traficos e trafegos que, entre centros e periferias, concretos e simbolicos, regulam a construcao de individualidades e de coletividades. Melson expande a nocao de marginalidade ao mostrar como maciel aborda a relacao entre masculinidade, raca e espaco urbano, atraves da trajetoria de um personagem que, da rica copacabana a periferica sao Goncalo, sofre as consequencias de nao se encaixar em categorias de masculinidade hegemonicas em nenhum destes espacos. Ao incorporar a possibilidade de contestacao (cada vez mais presente no debate publico brasileiro) de formas normativas de masculidade, Ac, o protagonista do conto, tem um final tragico: nao consegue se livrar do estigma da violencia lido nas indeleveis estampas do corpo negro. em termos de sua contribuicao para o estudo das escritas marginais, o artigo de Nielson nos lembra da impossibilidade de se isolar fatores de exclusao social como genero, raca e classe social.

Alva martinez Teixeiro, por sua vez, faz um ataque mais direto as resistencias da tradicao literaria brasileira diante da expansao da dita literatura marginal, e da determinacao desta de reagir as mazelas sociais atraves de textos de carater testemunhal. Teixeiro discorre sobre as funcoes dessa literatura, sua confrontacao do status quo social e tambem literario, ao mesmo tempo em que reconhece que a experimentacao formal, no caso das obras que analisa, e um elemento imprescindivel a consecucao da funcao a que se propoem. Mais ainda, a autora expande a geografia da marginalidade ao comparar os textos dos escritores Rodrigo ciriaco, criado na periferia paulistana, e da galega Iolanda Zuniga, que escreve as margens brasileiras a partir de margens foraneas, mesclando as girias das favelas com o galego. Assim, a leitura proposta por Teixeiro aposta no potencial da escrita marginal de criar novos vocabularios e linguagens.

Concluindo esta serie de artigos, Jamille pinheiro Dias expande o mapa periferico desta edicao ao incluir as culturas indigenas. A partir do estudo de caso da comunidade dos Marubo, do nordeste brasileiro, a autora demonstra a necessidade de se repensar parametros de analise literaria baseados em uma nocao de subjetividade individual ocidental. atraves de uma discussao de conceitos como os de autoria e imaginacao criativa, a autora propoe modos como a metodologia critica pode ser negociada para que outras manifestacoes culturais possam ser compreendidas a partir de seu proprio regime de saberes. assim como Birman e teixeiro, pinheiro dias propoe uma aproximacao a escrita marginal que parte da auto-reflexao, revelando pontos de contato entre a teoria critica, a antropologia e a critica literaria.

Como organizadores desta edicao de Romance Notes, agradecemos a iniciativa do seu editor, Du oswaldo Estrada, de destinar a literatura brasileira um volume especial, o primeiro celebrado na historia de mais de meio seculo da revista. Em meio a pletora de temas que aventamos como fio condutor desta revista academica, foi resoluta a escolha da tematica das escritas marginais. Isso nao somente reitera a importancia de tais manifestacoes na cena literaria brasileira contemporanea, mas tambem de seus, ainda pouco analisados, desdobramentos na teoria e critica literarias. como nota final, dedicamos este volume a dra. monica rector, e aos seus mais de 25 anos de dedicacao a lingua e as culturas lusofonas dentro do departamento de estudos romanicos da universidade da carolina do Norte em chapel Hill.

UNIVERSITY OF NORTH CAROLINA AT CHAPEL HILL

(1) Uma obra a que esta edicao busca encadeiar-se e Modos da margem: Figuracoes da marginalidade na literatura brasileira (2015), organizada por Alexandre Faria, Joao camillo Penna e Paulo Roberto Tonani do Patrocinio.
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Author:Carvalho, Carolina Sa; de Moraes, Wesley Costa
Publication:Romance Notes
Date:Nov 1, 2017
Words:1565
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