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DA TRANSGRESSAO A PUREZA: SABER, PODER E POLITICA NO EDIPO DE FOUCAULT.

FROM TRANSGRESSION TO PURITY: KNOWLEDGE, POWER AND POLITICS IN FOUCAULT'S OEDIPUS

1. Introducao

POR PELO MENOS TRES DECADAS, o unico pronunciamento conhecido e amplamente estudado de Michel Foucault sobre o Edipo-Rei foi aquele realizado no Brasil entre os dias 21 e 25 de maio de 1973, e publicado um ano mais tarde nos cadernos da Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro com o titulo A verdade e as formas juridicas. Somente 35 anos depois, em 2008, o grande publico pode ter acesso a um novo parecer do pensador frances sobre o mais famoso drama do teatro grego, com a publicacao do curso Le gouvernement de soi et des autres, proferido entre os anos de 1982 e 1983.

Em 2011, devido ao lancamento do curso de 1970-1971, Lecons sur la volonte de savoir, passa-se a conhecer a aula de 17 de marco de 1971, a primeira de Foucault exclusivamente sobre o assunto, juntamente com um dos mais importantes e completos estudos seus sobre Edipo-Rei, chamado Le savoir d'OEdipe, proferido em marco de 1972 na State University of New York e, em outubro do mesmo ano, na Cornell University, ambas nos Estados Unidos. Em 2012(a), e publicado o curso de 1979-1980, Du gouvernement des vivants, no qual o pensador frances dedica especialmente as aulas de 16 e 23 de janeiro de 1981 ao heroi de Sofocles. E, por fim, um texto muito significativo e a conferencia de 28 de abril de 1981, editada pela Universidade de Louvain na Belgica tambem em 2012(b), sob o titulo Mal faire, dire vrai. Fonction de l'aveu en justice.

A publicacao da maioria dos cursos do pensador frances proferidos no College de France entre os anos de 1970 e 1984, e de outras conferencias realizadas em diferentes universidades do mundo no mesmo periodo, mostra que as analises realizadas por ele acerca da tragedia de Edipo sao mais recorrentes do que se imaginava. A visao geral que temos atualmente, tendo por base os textos publicados, nos leva a uma constatacao: as leituras de Foucault a respeito de Edipo iniciam no decorrer de suas pesquisas conhecidas como genealogicas e se estendem para seus ultimos escritos, que tratam das questoes concernentes a constituicao do sujeito etico. Nesse movimento, tres ideias atravessam suas analises e se colocam como fios condutores: 1) Edipo e uma historia sobre a descoberta progressiva da verdade, a partir da "lei das metades"; 2) trata-se do primeiro testemunho das praticas judiciarias gregas; 3) e uma tragedia do saber, do poder e do excesso.

Por outro lado, e relevante observar que, no interior da historia de Sofocles, ha uma serie de outros conceitos discutidos pelo pensador frances, diretamente relacionados as investigacoes desenvolvidas por ele, especialmente na decada de 1980. Destaca-se, por exemplo, a nocao de dizer-verdadeiro, no curso de 1979-1980; de confissao, na conferencia de 1981; e deparresia, no curso de 1982-1983.

Tendo por base esse breve itinerario intelectual de Foucault, atravessado pelas leituras de Edipo-Rei, pretendemos com este trabalho analisar, a partir dos tres textos da decada de 1970 ja citados (1), de que forma a peca de Sofocles se configura para o pensador frances como o ponto de emergencia de um longo processo de decomposicao que foi se estabelecendo, desde a Grecia, da relacao entre saber e poder, impondo, sobre a cultura ocidental, a ruptura entre poder politico e o saber.

2. Critica ao universalismo da psicanalise e a influencia nietzschiana

NO DECORRER DE SUA TRAJETORIA INTELECTUAL, Foucault manteve com a psicanalise um dialogo dinamico, intenso e, por que nao dizer complexo, na medida em que variou entre momentos de aproximacao e de afastamento (2). Levando em conta tal perspectiva, quando nos detemos com um olhar mais atento nos tres textos de Foucault da decada de 1970, um ponto se revela comum: eles contem uma critica a interpretacao universalista dada por Freud a trama que envolve o protagonista da peca de Sofocles (3). Em tais criticas o pensador frances explica, ja em sua primeira aula sobre Edipo, que a fabula de Sofocles, antes de significar o destino universal de nossos desejos, trata, sobretudo, de um sistema complexo de coacoes que sustenta, desde a Antiguidade grega, o discurso sobre a verdade no Ocidente. Coacoes que, por um lado, se expressam na exigencia politica, juridica e religiosa de converter o acontecimento num fato conservado definitivamente por meio da comprovacao das testemunhas e, por outro, na exigencia, tambem politica, juridica e religiosa de distribuicao do poder sobre o saber, permitindo o acesso a verdade somente aos detentores da sabedoria e da pureza.

O "engano de Freud" (Foucault, 2014, p. 177) estaria exatamente no fato de considerar que Edipo se situa no encontro entre desejo e verdade, avancando para a ideia da existencia de formas universais de desejo, esquecendo com isso, que a tragedia discorre sobre a coercao historica e politica que pesa sobre os sistemas ocidentais de verdade. Para Foucault, se de alguma maneira estamos submetidos a uma determinacao edipiana, essa nao e no nivel do desejo, mas, sim, no de nosso discurso verdadeiro.

Na conferencia de 1972, ainda que de maneira breve e sem mencionar Freud, Foucault (2014) endossa as criticas realizadas no ano anterior. Nelas, o pensador frances aponta que ao inves de reconhecermos a historia do heroi tragico como uma fabula dos excessos, onde tudo sobra--pais, irmaos, filhos--, ela e recorrentemente lida como ignorancia, culpa, inconsciencia e desejo, no qual o saber esta sempre relacionado a consciencia. Nesse sentido, desde as analises de Freud, para ele houve uma negativizacao da historia de Edipo, colocando o foco na problematica da "carencia do saber" (p. 236).

Em 1973, essa critica a Freud se estende tambem ao poder medico e psicanalitico que opera sobre o desejo a partir do "Complexo de Edipo". Por meio da reflexao do LAnti-OEdipe, de Deleuze e Guattari (1972), Foucault (2002) mostra como a teoria freudiana acerca do heroi de Sofocles significou para psicanalistas e psiquiatras um aparelho de contencao do desejo, tornando-se uma forma particular de estabelecimento das relacoes entre saber e poder, conhecimento e politica:
   Edipo nao seria, pois, uma verdade de natureza, mas um instrumento
   de limitacao e coacao que os psicanalistas, a partir de Freud,
   utilizam para conter o desejo e faze-lo entrar numa estrutura
   familiar definida por nossa sociedade em determinado momento (p.
   29).


E importante considerar que ao denunciar o imperialismo de Edipo, derivado da aceitacao moderna do triangulo edipico freudiano, pai-mae-filho e, ao abordar as condicoes da pre-subjetividade, a nocao de inconsciente e a relacao da psicanalise com estruturas economico-politicas, LAnti-OEdipe se configura como uma critica pos-nietzschiana ao que os autores consideram uma das fontes dos males sociais e individuais da sociedade ocidental: o modelo de familia "edipizada". Deleuze (2003) afirma que de la nascem, dentre outras coisas, as estruturas de repressao, a obsessao em relacao ao poder patriarcal, a sexualidade possessiva, o individualismo fragmentado e neurotico e, por fim, o capitalismo (pp. 25-52).

A partir disso, e a exemplo do que ja tinha feito Jean-Pierre Vernant (1999b) em seu artigo "Edipo sem complexo" de 1967 (pp. 53-71) (4), ve-se a clara intencao de Foucault (2002) de deslocar o centro da historia da problematica do incesto (p. 130)--marca indelevel da interpretacao psicanalitica do texto tragico--, para a compreensao de uma trama que se desenvolve em torno do campo juridico e religioso, por meio de uma serie de procedimentos perfeitamente representativos da Grecia classica, e que evocam o sentido profundo das mudancas que os campos do direito e da politica atravessavam na epoca em que foi apresentada a tragedia. Identificamos novamente tal perspectiva, quando o pensador frances entende que Edipo e "fundamentalmente o primeiro testemunho que temos das praticas judiciarias gregas", sendo "um procedimento de pesquisa a verdade que obedece exatamente as praticas judiciarias gregas dessa epoca" (Foucault, 2002, p. 31).

Se, por um lado, Foucault se mostra critico da interpretacao universalista de Freud, por outro torna-se inegavel a influencia de Nietzsche em seu trabalho, ao inserir o drama de Edipo-Rei num debate politico. Constata-se isso, por exemplo, no fato de que juntamente com o significativo texto Nietzsche, a genealogia e a historia (1999), de 1971, ha outros dois pronunciamentos sobre o filosofo alemao que se encontram no intervalo de suas primeiras analises a respeito do heroi de Sofocles. Tambem de 1971, ha a aula "Como pensar a historia da verdade com Nietzsche sem basear-se na verdade", nas Aulas sobre a vontade de saber. Curso no College de France (2014), pronunciada em Montreal, cujo conteudo esta muito proximo da primeira conferencia realizada em 1973, na Pontificia Universidade Catolica do Rio de Janeiro.

Na medida em que para Foucault (2002), Sofocles, e mais tarde Platao, introduzem no Ocidente um tipo de saber que tanto impoe a verdade mensuracao, constatabilidade, pureza e memoria como renuncia ao poder, excluindo toda forma de luta, de excesso e de transgressao, ele encontrara em Nietzsche--potencializando principalmente o aspecto critico e a utilizacao de alguns conceitos, como proveniencia, emergencia e invencao--, uma importante ferramenta teorica para questionar a vontade de saber que domina a cultura ocidental. Nesse sentido, o esforco do pensador frances esta em mostrar que nao ha harmonia na relacao entre sujeito e objeto, tampouco o conhecimento esta inscrito, como desejo e prazer, na natureza humana. Pelo contrario, o conhecimento e instinto, invencao, decorrencia da violencia, da dominacao, do poder e da violacao (p. 18) e a relacao entre sujeito e objeto e resultado de uma operacao complexa, que compreende maldade, astucia e pacto entre as paixoes. O que se tem entao, nao e um sujeito do conhecimento, mas o reverso disso, ou seja, um sujeito dividido e descentrado em seus desejos.

Quando tal influencia e levada para as analises de Edipo-Rei, Arianna Sforzini (2015) mostra como basta um olhar sobre os textos e fragmentos do jovem Nietzsche--Introducao as licoes sobre Edipo-Rei de Sofocles (2006) e O nascimento da tragedia (1992)--para se compreender que no interior do Edipo de Foucault se encontra o Edipo de Nietzsche, pois este revela ao homem ocidental seu segredo, que nao diz respeito ao enigma de seu desejo, mas sim de seu conhecimento (p. 174). Ela mostra que ao mesmo tempo em que e incestuoso, Edipo e aquele que resolve o enigma da Esfinge e pode fazer isso--se transformar no emblema da gnome, da sabedoria--, precisamente porque ele e o homem que profana os interditos da natureza, que se coloca "alem do bem e do mal". O saber entao e essa ferida que fende a natureza e coloca em jogo toda harmonia da representacao e do conhecimento. Nesse sentido, para Sforzini, o Edipo que Foucault quer questionar e exatamente esse que Nietzsche (1988) designa como "simbolo da ciencia" (p. 141, nossa traducao) (5), e o faz assumindo a ideia de Edipo-Rei como a encenacao da vontade de saber, ou seja, a expressao da batalha da verdade que se esconde sob o nascimento do conhecimento cientifico, a violencia que essa luta implica e as verdades outras que este saber reduziu ao silencio.

Com Nietzsche, Foucault (2014) critica a exclusao do devir em nome de uma ordenacao logica dos fatos do passado que conduzem a um resultado objetivo. Junto com o saber sofistico e a reminiscencia platonica, esse devir e a tragedia (pp. 14-18); saber excluido, que nao e o resultado da conaturalidade entre desejo e conhecimento, mas antes e expressado pelo enigma, pela duplicidade: 1) um saber temivel, "porque e ao mesmo tempo obscuro e promissor" (p. 14); 2); um saber que cega, "cujo olhar ofusca aqueles que fixa" (p. 14); 3) um saber que mata: "No momento [em que] recai sobre o heroi, este nao lhe resiste. O raio de luz e o da morte confundem-se" (p. 14).

3. Saber e poder em Edipo-Rei: transgressees e excessos

NAS ANALISES FOUCAULTIANAS DA DECADA DE 1970 acerca de Edipo-Rei, destacam-se duas caracteristicas do saber que, para o pensador frances, sao, ao mesmo tempo, singulares e complementares. A primeira delas trata-se da capacidade de encontrar ([phrase omitted]), propria de Edipo. Ja nas primeiras cenas de Edipo-Rei temos evidencia desse traco de personalidade. Diante do sacerdote e do povo, e ele quem deve encontrar ([phrase omitted], 42) (6) o socorro para curar o sofrimento que outra vez dissipa a cidade. Apos cautelosa reflexao toma (qupiCTKOv, 68) a unica medida aceitavel para o momento, que e enviar Creonte ao oraculo de Delfos. Nos versos seguintes, censura os cidadaos tebanos por nao haverem, no tempo certo, tentado descobrir ([phrase omitted], 108) o assassino de Laio.

Ha, para Foucault (2014), tres aspectos do encontrar ([phrase omitted]) edipiano. O primeiro deles se refere a um exercicio solitario, no qual ele deve "descobrir" sozinho. Em sua posicao de rei, ele quer "informar-se pessoalmente, encontrar pessoalmente, decidir pessoalmente" (p. 227). O segundo diz respeito a um exercicio que depende necessariamente de uma testemunha (p. 227). Ao mesmo tempo em que Edipo se reconhece protagonista, ou seja, aquele que deve resolver o problema da cidade, sente-se constrangido, pois naquilo que exige o oraculo--descobrir o assassino de Laio--, ele tanto nao tem a lembranca como nao estava la para ver com seus proprios olhos ([phrase omitted], 105). Por fim, o ultimo aspecto e a identificacao dos elementos visiveis que unem passado e presente, que acontece exatamente a partir da busca por indicios ([phrase omitted]), propria do nascente direito atico. Na medida em que estes indicios sao desvendados, Foucault (2002) considera que eles revelam que e por seu excesso de saber, por sua obstinacao pela verdade completa e pelo reconhecimento de sua identidade que Edipo cai na armadilha de seu destino.

A segunda caracteristica, propria do texto tragico, e a circulacao do saber entre os diferentes personagens da trama, estabelecendo um complexo jogo de completudes atravessado pelo poder. Para Foucault (2014), o mecanismo que rege esse deslocamento do saber e a lei das metades (loi des moities), que no interior da nocao juridico-religiosa grega de [phrase omitted], representa originalmente um sinal de reconhecimento entre os possuidores de cada uma das metades de um objeto partido em dois (p. 217). As partes quebradas, de acordo com o ritual, sao juntadas para se verificar a identidade do portador.

Na primeira parte da peca se revela--com o oraculo de Apolo e Tiresias e com os discursos de Edipo e Jocasta--, a verdade sobre o assassinato de Laio, e na segunda metade se juntam as partes sobre seu nascimento, com os testemunhos do mensageiro de Corinto e do pastor do Citerao. Mesmo cada uma dessas metades se subdivide em outras duas. No que se refere ao assassinato de Laio, acrescentam-se o relato de Edipo sobre como matou um desconhecido no caminho e, em seguida, a descoberta de que este desconhecido realmente e Laio. O relato sobre o nascimento tambem avanca por partes: "teremos a metade paterna e logo a metade materna, ate que o conjunto dos elementos reconstitua o conjunto da verdade" (Foucault, 2014, p. 214).

Com este esquema metodologico e quase matematico de Foucault (2014), o que se ve, entao, e que partindo dos deuses, passando pelos reis e chegando ate os escravos, o que ha na peca e o excesso de saberes: saber da escuta e saber da visao; saber longinquo e saber da presenca; saber dos reis e saber do fundo das cabanas dos escravos; saber da prescricao-predicao e saber-testemunho; saber que se retira voluntariamente do enigma e saber que se esconde sob o medo e que somente a ameaca consegue extrair (pp. 211-212).

Entre o saber oracular de Tiresias e o saber-memoria do escravo, "tambem Edipo e um homem do saber, de um saber muito particular que tem suas caracteristicas, suas condicoes de exercicio e seus efeitos" (Foucault, 2014, p. 220). Esse saber a meio-caminho, situado entre os deuses e os escravos e exatamente o do poder politico, ou seja, o saber-poder tiranico. Por isso, o heroi grego e, ao mesmo tempo, [phrase omitted], ou seja, alguem que desde seu saber especifico, toma e perde o poder. Dessa maneira, Edipo-Rei deve ser considerada, antes de tudo, uma historia do poder; uma fabula de como a descoberta de uma verdade "coloca em questao a propria soberania do soberano" (Foucault, 2002, p. 31).

Foucault (2002) delimita minuciosamente uma serie de caracteristicas da tirania, que se trata de uma forma de poder politico surgida na Grecia entre os seculos VII e VI a.C e que no seculo V, com o surgimento do periodo classico, encontra seu declinio (p. 50). Isso se confirma na conferencia de 1972, quando ele observa que "a tirania de Edipo, a forma de poder que ele exerce, a maneira como o conquistou, nao sao marginais com relacao a grande investigacao empreendida: trata-se de uma maneira completamente central nas relacoes entre o poder e o saber" (Foucault, 2014, p. 220). Um ano depois, na segunda conferencia realizada no Rio de Janeiro, ele sera ainda mais explicito: "Podemos notar a importancia da tematica do poder no decorrer de toda a peca. Durante toda a peca o que esta em questao e essencialmente o poder de Edipo e e isso que faz com que ele se sinta ameacado" (Foucault, 2002, p. 41).

De acordo com o autor frances ha ainda no texto de Sofocles uma serie de passagens que mostram como esse poder edipiano e "posto em jogo e questionado" (Foucault, 2014, p. 220). Dos primeiros aos ultimos versos, Edipo busca defender sua soberania, sem saber ainda aquilo que o destino reserva para ele. Ve-se isso, por exemplo, ja no inicio da peca, quando os habitantes recorrem ao seu poder para salvar a cidade da peste (33-34), tendo a promessa de que ele fara todo o necessario, principalmente pela preservacao de sua soberania para descobrir o assassino de Laio (139-140).

O embate com Tiresias, por sua vez, carrega a ambiguidade em relacao ao poder. Enquanto e do alto de seu reinado e em vista da libertacao da cidade que Edipo solicita a presenca do adivinho cego, e esse mesmo poder real que e ameacado pela profecia do duplo humano de Apolo (352). E na medida em que e acusado de assassinato, o que se ve por parte dele nao e um discurso em defesa de sua inocencia, mas sim a afirmacao da forca de seu poder (380-404).

No cerne do encontro de Edipo com Creonte (532-631), como recorda Foucault (2014), esta "realmente o poder, so o poder--e nao fatos, sinais ou provas" (p. 220). Por isso e que exatamente nesse momento o rei supoe um plano para tira-lo do cargo que ocupa. O que se ve na sequencia e uma serie de gestos de poder, comum daqueles que tem autoridade suprema: esta decidido inicialmente a cumprir a sentenca de morte que acabara de pronunciar contra Creonte, para depois mostrar sua benevolencia, ao aceitar o pedido de misericordia vindo de Jocasta e do Coro (658-659 e 669-672).

Ja nas cenas finais, depois de confirmar-se em sua gloria frente ao mensageiro de Corinto, que revela que ele nao e o filho consanguineo de Polibio (1063), Edipo preside, como um "chefe de justica", o interrogatorio e a ameaca de tortura sobre o detentor da ultima parte do segredo, o pastor do Citerao. Apos sua queda, lembra Foucault (2014, p. 235), as ultimas palavras dirigidas a ele, antes de ser conduzido para fora do palacio real, se referem a interdicao do novo rei Creonte: "Nao queiras poder tudo" (1524).

Ao explorar a problematica do poder, Foucault redefine, tambem, a figura do tirano. Situado entre os deuses e a terra, ele ocupa uma posicao fragil e perigosa como governante. Mesmo que todos lhe devam a salvacao, por ter livrado a cidade da maldicao da Esfinge, ele nao e cidadao entre os outros. E se recebeu a ajuda dos deuses para vencer a divina cantora, mostra-se, no decorrer da peca, incapaz de fazer reinar sobre a cidade os decretos divinos. Como Foucault (2014) recorda na conferencia de 1972 quanto ao destino de tirano, ele e "amado e depois rejeitado, depois causando piedade; obedecido em cada uma de suas vontades singulares, que valem como os decretos da cidade, depois banido e votado ao destino execravel quando a seu orgulho podem opor as leis formuladas pelos olimpicos" (p. 224).

E importante recordar que o tirano, no seculo V a. C., se situava num lugar ambiguo na medida em que apresentava, tanto no carater como na forma de governo, tracos positivos e negativos. Por isso mesmo, esta figura estava longe de ser considerada uma unanimidade entre seus concidadaos. O que se sabe e que boa parte do prestigio do tirano vinha do fato de que sua imagem se confundia com a dos herois gregos. Na propria historia de Edipo, por exemplo, nao e dificil de identificar elementos comuns as fabulas mitologicas. Rejeitado de maneira hostil pelo pai, por causa de pressagios anteriores ao seu nascimento, a crianca e abandonada para morrer numa floresta, no mar ou no rio. Em alguns mitos, o verdadeiro pai e um deus. Na juventude, da sinais de notaveis poderes. Quando cresce, realiza grandes obras, muitas vezes matando monstros. Por meio de seu talento, recupera o seu reino, ganha uma noiva, a figura do pai pune o mal, ate que descobre e restaura seus pais perdidos. Da mesma forma, e o solucionador bem-sucedido de enigmas que esta, por isso mesmo, sob pena de morte.

Mas certamente, a tirania continha um lado menos mitico. Sem hereditariedade, o tirano ascendia ao poder por uma via indireta. Sao suas proezas, sua sabedoria e seus atos que qualificam as suas conquistas. Como recorda Vernant, "ele reina nao pela virtude de seu sangue, mas por suas proprias virtudes; ele e o filho de suas obras ao mesmo tempo em que da Boa Sorte" (1999a, p. 86). Por ser investido de poderes extraordinarios, exatamente por conquistar de maneira incomum tudo o que possui, ocupava, por tempo determinado, o cargo de chefe absoluto da cidade.

Mas de longe isso significa que se tratava de alguem que contentava a todos. Em realidades conturbadas pelas disputas partidarias, era praticamente impossivel encontrar uma pessoa que conciliasse as diferentes necessidades e desejos. Assim, nao demorou muito para que o [phrase omitted] se afastasse de seu equivalente [phrase omitted], adquirindo um carater pejorativo. Isso principalmente por conta dos inimigos irreconciliaveis que essa forma de governo suscitou; pessoas contrarias aos detentores do poder absoluto, conquistado nao pelo acordo legitimo entre os partidos, mas pela insurreicao.

No intuito de controlar as possiveis rebelioes e protestos, em especial os dos mais pobres, o tirano acomodava as leis aos seus interesses particulares, garantindo que todas as suas acoes fossem permitidas. Junto com isso, embelezava a cidade com enormes construcoes, tinha especial atencao para a questao agraria, que exigia solucao rapida perante os camponeses, os quais com seu trabalho, garantiam a subsistencia da populacao e ofereciam ao povo festas magnificas com concursos liricos e representacoes teatrais.

Mas e impossivel negar que o tirano representava, sobretudo, uma figura de excessos e transgressoes, ja que e impossivel desvincular esse tipo de governo daquilo que pode se considerar historicamente como o pior de todos os regimes, pois se fundava na violencia e na elevacao de um homem acima das leis. Um indicio de que isso se confirma esta nos versos do famoso e obscuro segundo estasimo de Edipo-Rei (863-910), cantado pelo Coro diante de uma plateia que a esta altura da peca ja se mostra apreensiva com o desfecho da historia. Tais versos tem provocado, de geracao em geracao de estudiosos, uma serie de dificuldades de interpretacao. O Coro, deixado sozinho por Sofocles no palco como uma parabasis, fala das leis eternas que ninguem pode violar sem receber, em troca, castigos violentos. Menciona injurias e violencias de palavra e obra, alem de soberba e de lascividades. Pronuncia ainda maldicoes contra os insolentes ultrajadores dessa lei eterna e termina com uma oracao de louvor a Zeus e a seu dominio ante todas as coisas.

O que parece consenso para alguns estudiosos e que tais palavras repreendem a Edipo, condenando a desmesura do governante autoritario e despota. Em seu reconhecido estudo, Edipo em Tebas, Bernard Knox (2002) recorda que o titulo Ttipavvoc no seculo V a. C., ultrapassa a simples ideia do usurpador que toma o poder do rei hereditario. O tirano "era um aventureiro que, por mais brilhante e prospero que tenha sido seu regime, ganhara e mantivera o poder por violencia" (p. 47). E e pela violencia e pelo assassinato que Edipo chega ao poder.

O ingles Richard Jebb (1885), enfraquece, numa de suas notas analiticas acerca da peca, qualquer ideia que indique que a expressao [phrase omitted] tem por funcao a simples substituicao neutra a [phrase omitted]. Para ele, o efeito que se tem com as palavras do Coro e exatamente o contrario, ou seja, ha uma potencializacao plena do sentido historico e politico do termo: "Aqui nao se trata de um principe, nem mesmo no sentido usual grego, de um governante inconstitucionalmente absoluto (bom ou ruim), mas de um tirano, em nosso sentido" (p. 141).

O canto do Coro, situado precisamente no momento em que a fortuna e a sorte de Edipo comecam a cair, simboliza para Foucault (2014, p. 223) a reviravolta do [phrase omitted]; e a inversao da imagem positiva que ate ali se tem do tirano e e igualmente o momento no qual ao seu reino se opoe os vogot, "leis--altos pes!--a fixam, geradas atraves do uranio eter" (865-867). Este estasimo e uma ode a origem, natureza e fim do tirano e revela os tracos tradicionalmente atribuidos a essa figura, tais como presuncao, injustica, recusa de honrar os deuses, insolencia culpavel, ganhos injustos, sacrilegios, profanacao das coisas santas, recusa de escurar os oraculos, abandono do culto. Se no primeiro estasimo o Coro claramente defende o seu amado rei (7), neste que e posterior a discussao com Creonte, ele se expressa de maneira dura: "a desmedida gera a tirania" ([phrase omitted], 873). "E bem verdade que o Coro ainda sofrera uma nova reviravolta e, uma vez concluida a desgraca, se apiedara daquele que, por um momento, possibilitara que a cidade respirasse" (Foucault, 2014, p. 223).

Curiosamente, num pequeno mas intrigante texto intitulado El estasimo segundo del Edipo Rey de Sofocles, de 1952, Ignacio Errandonea sustenta a tese de que o canto do Coro nao se dirige a Edipo e ao seu governo. Para ele, levando em conta as manifestacoes de apreco e fidelidade que os cidadaos cantores pronunciaram ao seu amado governante ate aquele momento da peca, seria contraditorio que tais palavras, tao duras, fossem dirigidas a alguem que ainda nao carregava consigo culpa alguma. Mas a quem entao estao destinadas tao vigorosas advertencias ?

Para o jesuita espanhol a resposta e simples: "o estasimo segundo de EdipoRei se refere a Laio e se refere somente a Laio" (Errandonea, 1952, p. 57; nossa traducao) (8). E isso, de longe representa, para ele, uma imperfeicao artistica ou mesmo uma mudanca de foco de Sofocles, que se poderia imaginar, passou de um personagem principal--Edipo--para um secundario--Laio. E exatamente a centralidade no "pecado anterior" (9) de Laio que o torna o protagonista dos versos em questao. Para tanto, argumenta Errandonea que Euripedes teria levado ao teatro, alguns anos antes da representacao de Edipo-Rei, os dramas Enomao, Crisipo e As Fenicias, sendo que dos dois primeiros se conservaram apenas alguns fragmentos, mas suficientes para confirmar, juntamente com o ultimo, que permaneceu intacto, que o publico ja considerava Laio culpavel e castigado pelos seus ultrajes a Pelope (1952, p. 45).

Ainda que as descobertas de Errandonea nao corroborem, por exemplo, com os argumentos de Jebb, Knox e mesmo de Foucault, de que Edipo e efetivamente o personagem central do canto do Coro nesse importante estasimo, entre eles se pode encontrar um aspecto comum: os versos se dirigem aos abusos cometidos pelo tirano e a essa forma de governo que, entre tantos excessos, violam as leis da pureza e da castidade, as leis da hospitalidade, as leis do respeito aos deuses tutelares do lugar, ao rei e a sua familia, e as leis eternas da gratidao. Se Edipo certamente infringiu varias delas, Laio, por sua vez, com seu comportamento arrogante, violento e violador transgrediu a todas e, por isso mesmo, merece a condenacao do Coro, que exige em seu canto pureza integral tanto nas palavras como nas obras, sempre de acordo com as leis imortais.

Esta hipotese adquire valor na medida em que se assume que Laio e, ele tambem, um tirano, como expressa Sofocles por tres vezes (128, 799 e 1043) e de que as palavras do Coro, "a desmedida gera a tirania" (873), estao exatamente dirigidas a incontinencia dele. E somente tal violencia, propria de uma figura sombria como Laio, seria capaz de gerar por filho esse 'desconhecido' que agora buscam, igualmente amaldicoado pela desgraca que Pelope lancou sobre o cla dos Labdaciodos.

Ambas interpretacoes assinalam aquilo que e o mais execravel dos crimes do tirano: a prepotencia diante dos deuses e de suas leis. Ao desobedecer as ordens do oraculo em nao ter filhos, Laio expoe toda comunidade ao perigo da contaminacao, contrariando dessa forma o que deve ser a primeira das responsabilidades de um rei ([phrase omitted]): proteger a ordem social. Esquilo (2018), em Sete contra Tebas recorda que a resposta do oraculo a consulta de Laio foi a de que ele deveria morrer sem descendencia para salvar a cidade (748-749), o que nos leva a entender, seguindo os passos do autor tragico, que foi uma escolha, e nao uma necessidade conceber um filho. Tampouco ele e vitima das inexoraveis redes de maldicao mas, pelo contrario, foi de sua natureza violenta e lascivia, inclusive entregando seu filho a morte no intuito de reparar a fratura por ele mesmo gerada, que derivou todo mal para Tebas.

Na personalidade de Edipo vemos o mesmo impulso de fugir daquilo que ja estava determinado pelos deuses. O crime da prepotencia se repete. O dialogo que se trava entre a rainha e seu filho-esposo, posicionado entre os dois estasimos e, sobretudo, um jogo argumentativo em que os reis justificam seus esforcos para esgueirar-se das predicoes oraculares. Jocasta narra de que forma entregou o herdeiro do trono de Tebas ao campones para que fosse morto e Edipo, por sua vez, conta como fugiu as pressas de Corinto, a fim de que nao se cumprisse a profecia de que mataria seu pai. Sao os relatos dos processos humanos que tentam, de todas as maneiras, modificar o destino ja tracado.

Tanto o rei como a rainha se permitem negar os dois procedimentos de saber que ordenam o futuro. Primeiramente, aquele que consiste em procurar por meio de sinais obscuros o que cabe aos deuses esconder: "Mulher, qual o sentido de observar o recinto profetico de Piton, as aves como ululam ceu acima?" (964-965). Em segundo lugar, o procedimento que procura ver antecipadamente a parte do destino que foi fixada pelos deuses. "Fara sentido o padecer humano, se o Acaso impera e a previsao e incerta?" (977-978). E para nada que eles acreditam que estes decretos-predicoes podem levar: "Polibio tais oraculos consigo levou ao Hades, letra morta, nada" (971-972).

Foucault (2014) recorda que ao negar o procedimento oracular, Edipo escolhe outro tipo de saber a partir de um novo tipo de poder. E o recem-chegado procedimento juridico, que tem em sua estrutura interna a necessidade de descobrir a verdade por si mesmo, sem a ajuda dos deuses. Nao obstante, o que se ve neste processo e a anulacao desse saber proprio de Edipo como tirano. No espaco da cidade, na qual tudo o que acontece esta em consonancia com os desejos do Olimpo, torna-se desnecessario qualquer tipo de governo. O que comanda esse territorio sao as leis humanas que tem sua origem e seu fundamento na inspiracao dos deuses. Os procedimentos legais fazem Edipo chegar nele mesmo e confirmam o que ja estava escrito no destino. E nesta courbe soudaine que o saber-poder tiranico se apaga.

4. Da transgressao a pureza

HA NAS LEITURAS FOUCAULTIANAS DESSE PERIODO um denominador comum: a peca de Sofocles representa o exato momento do rompimento entre o poder e o saber, no qual este ultimo passa a ser visto, desde entao, "(...) em termos de justica, de pureza, de 'desinteresse', de pura paixao por conhecer" (Foucault, 2014, p. 236). Por isso, o que se deve excluir do espaco da cidade, com os novos procedimentos judiciais e o poder tiranico, ou seja, o poder daquele que governa desde um saber especifico, de uma [phrase omitted].

Na aula de 17 de marco de 1971, Foucault se propoe a ler a tragedia de Edipo a partir da ligacao originaria e fundamental que, em nossa cultura, estabeleceuse entre saber, poder e pureza, [phrase omitted]. A cidade esta contaminada pelo crime cometido. Sua ordem, sua estabilidade economica e social e, agora, a soberania que rege sua existencia estao fragilizadas. Tebas sofre de um loipoc, isto e, de um esgotamento das fontes de fecundidade: a terra, os rebanhos e as mulheres. Nada mais se gera, enquanto a peste dizima os seres vivos (25-27). Em seu territorio se veem somente doentes. A mancha, piaopa, se expressa tradicionalmente pela esterilidade, pela doenca e pela morte, e somente a expulsao da polucao da cidade resgatara o curso normal da vida. Essa condicao deve-se, principalmente, ao fato de que a mancha foi causada por um homicidio, crime esse que, pela impureza que reveste o culpado e pela ameaca de contaminacao da comunidade, e tido como um atentado contra os homens e contra os deuses (Glotz, 1980, p. 192).

O discurso do sacerdote na primeira cena, que apela para a ventura que reinava sobre Tebas antes do flagelo, nos da uma ideia de como a pureza e a divindade sao elementos intimamente ligados: Edipo e o libertador e o salvador, e em sua figura de rei concentram-se os poderes politicos e religiosos. Por isso, ele e considerado, ao mesmo tempo, o chefe de estado e o sumo-sacerdote. Venerado como um deus, as caracteristicas quase divinas de sua imagem que avanca para a entrada do palacio, sao evidencias de um ideal grego no qual o puro se confunde com o justo e o sagrado. "Edipo igual a um deus ? Nem eu nem os meninos incorremos nesse equivoco; um as te reputamos nas questoes de vida e no comercio com os deuses" (31-34).

O miasma ([phrase omitted]) impoe como condicao uma serie de rituais juridicos, sociais e religiosos de restauracao: e necessario saber se um crime foi cometido e por quem. O dialogo com o sacerdote e em torno da questao "o que se deve fazer", ainda que Edipo seja aquele que, diante da Esfinge, tenha respondido a pergunta pelo "quem" (Foucault, 2014, p. 167). Mais tarde, e o oraculo que, nas palavras de Creonte, retifica a questao recordando que "o que se deve fazer" e procurar "quem" (40-45). E nao se trata de buscar o assassino para que se inicie um longo processo de purificacao, mas antes, e principalmente, para que o criminoso seja exilado do espaco da cidade ou ate morto. Foucault (2014) indica que nao sera Tiresias, pela parte do deus, que nomeara o culpado, apesar de faze-lo de alguma maneira, mas serao os dois apavorados servos; aqueles que viram com seus proprios olhos e dos quais nao se espera nenhuma sabedoria (p. 167).

E a verdade, pois, a unica capaz de excluir a mancha da cidade; e ela que restabelece a realidade dos fatos; ela e o que permite excluir e separar o que esta perigosamente misturado; ela e o que divide o interior do exterior; e ela que determina os limites entre o puro e o impuro; ela e a unica passagem legitima da impureza ao que deve elimina-la. Dessa forma, a verdade passa a incorporar os grandes rituais juridicos, religiosos, morais, requeridos pela cidade, pois uma cidade sem verdade e uma cidade ameacada pelas misturas, pelas exclusoes nao acabadas. A verdade torna-se assim a condicao primeira ou, em todo caso, primordial da purificacao (Foucault, 2014, p. 168).

Mas qual e, para Foucault, a mancha que o rito da verdade deve restabelecer no Edipo ? A falta que atinge o impuro esta em ignorar uma lei que na cidade esta publicada e visivel para todos e que se projeta na propria ordem da natureza. Voluntaria ou involuntariamente, ele nao obedece o [phrase omitted]. Seus olhos estao fechados e sua mancha e caracteristica de um [phrase omitted]. O [phrase omitted] sao as leis que, distante da revelacao divina, se constituem em algo tao somente humano. A elas cabe a organizacao da justica distributiva ([phrase omitted]) e fora dela nao pode existir ordem ([phrase omitted]) (Aristoteles, 1998, 1287a). Trata-se de um dominio reconhecido pela coletividade e que significa, etimologicamente, um principio de reparticao. Como salienta Foucault, "a pureza e condicao para ter acesso a lei: para ver a ordem das coisas e para poder proferir o vopoc. Esse lugar mediano que, como vimos, e o lugar ficticio em que se coloca o legislador, como Solon, esse lugar mediano, apenas quem for puro pode ocupar" (Foucault, 2014, p. 169). Aquele que governa deve ser puro, uma vez que somente ele e capaz de dizer e ver o [phrase omitted] como desdobramento da ordem social.

O que relaciona entao, para Foucault, pureza e impureza a ordem social e o saber. Para que a pureza reine novamente sobre a cidade, e preciso que a verdade seja restabelecida. Na medida em que o crime produz a mancha e esta atinge a totalidade do territorio, torna-se necessario conhecer quem cometeu o homicidio e puni-lo. E isso exige uma investigacao. A verdade transforma-se entao numa tarefa politica, na qual a impureza e seus efeitos tem como exigencia a procura do que se passou. No Edipo-Rei, somente a descoberta da verdade tem o poder de purificar, restabelecendo a ordem perdida pelo crime cometido. E se outrora foi Edipo quem respondeu ao enigma da Esfinge e endireitou ([phrase omitted]) (10) a cidade, agora e ele mesmo, o impuro, que permanece cego ao vopoc mais fundamental: de conhecer sua ascendencia. Suas manchas, ou seja, o assassinato e o incesto, impedem-no de ver o que e preciso ser feito: "ele nao sabe mais qual e a ordem das coisas e a ordem humana" (Foucault, 2014, p. 169).

Com isso, Foucault sinaliza para um deslocamento do saber no interior da peca: do palacio imperial as cabanas do Citerao. Edipo deve buscar fora de seu espaco de soberano as respostas as suas perguntas. E a cada novo movimento de saber e a cada novo fragmento de verdade que se encaixa a tessera, mais um pedaco de poder edipiano vai sendo tomado. Aquele cujo saber-poder sustentava a cidade e agora incapaz de saber e igualmente incapaz de governar.

Ha, dessa forma, para Foucault, tanto em Sofocles--como em Platao--, uma desqualificacao do poder que se liga a um saber especifico, combatendo a tentativa dos tiranos e dos sofistas de reabilitarem a sobreposicao do poder com a ou a do poder magico religioso comum as civilizacoes orientais, em especial nos imperios assirios. Trata-se de uma clara resistencia ao modelo social no qual o soberano detinha o poder da mantica, da justica e da vida politica.

A tragedia de Edipo nada mais e, entao, que o ponto de emergencia de um longo processo de decomposicao que foi se estabelecendo na Grecia acerca da relacao entre saber e poder. Ela e o exato momento em que a politica se divorcia do saber, para dar origem entao ao homem do poder revestido de ignorancia: "cego, que nao sabia e nao sabia porque poderia demais" (Foucault, 2002, p. 50). O que Platao instaura e um movimento de antinomia entre saber e poder, no qual se valoriza o contato com os deuses e as lembrancas contidas na memoria, mas nunca a figura do politico: "o homem do poder e do saber, aquele que dominava tanto pelo poder que exercia quanto pelo saber que possuia" (Foucault, 2002, p. 49).

Diante dos excessos de Edipo e seu poder em demasia, pode-se afirmar com Foucault que ha uma nova compreensao de politica a partir do seculo V a. C. Juntamente com a imagem do rei sabio, que sustenta, governa, pilota, endireita a cidade e a livra da peste e da fome, e a sua versao rejuvenescida, o tirano, que salva a cidade, mas o faz desviando-se do oraculo dos deuses, o que desaparece com a historia edipiana e o saber-poder ligado as transgressoes e as lutas. E o que aparece no seu lugar e uma nocao de poder relacionada diretamente com a pureza, com o desinteresse e com a vontade inocente de conhecer. Nao ha mais, desde a saga edipiana, a verdade no poder politico; este e tido como ignorante, obscuro e cego.

5. Consideracoes finais

FOUCAULT NOS MOSTRA, em suas analises da decada de 1970, que Edipo-Rei e o ponto de eclosao para as formas de saber-poder que se estabeleceram no ocidente. Nesse sentido, trata-se para ele, de denunciar a vontade de saber que emerge de um modelo judiciario recem implantado e que impoe, por um lado, que a verdade, por meio do inquerito, seja algo visivel e mensuravel e, por outro, que essa mesma verdade esteja relacionada com a ideia de pureza e de ordem do mundo. Ou seja, o detentor do poder, aquele que governa a cidade, deve ser aquele capaz de acessar a verdade por um tipo de saber que se constitui "em termos de justica, de pureza, de desinteresse, de pura paixao por conhecer" (Foucault, 2014, p. 236).

Nesse desmantelamento entre o poder politico e o saber, o que desaparece com Edipo-Rei e a figura do tirano. Esse governante que e supernumerario do saber, detentor de um poder politico e de um saber especial que se correlacionam, mas que, desde entao, exatamente pela tentativa de escapar dos decretos dos deuses, torna-se incapaz de manter na cidade a "ordem do mundo". E o que se constroi para Foucault, como grande mito ocidental, a partir de Sofocles mas principalmente de Platao, e que o poder politico nao e detentor da verdade, pois este e cego e inconsciente, e que o verdadeiro saber e esse que emerge da memoria profunda, "quando olhamos o grande sol eterno e abrimos os olhos para o que se passou" (2002, p. 51). E se ha um convite de Foucault para pensar o presente e precisamente esse, que para ele Nietzsche comeca a demolir, "que por tras de todo saber, de todo conhecimento, o que esta em jogo e uma luta de poder. O poder politico nao esta ausente do saber, ele e tramado com o saber" (2002, p. 51).

doi:10.11l44/Javeriana.uph36-72.dtpf

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FABIANO INCERTI **

* Este artigo e resultado da investigacao desenvolvida no estagio pos-doutoral na Faculdade de Ciencias Sociais da Universidade de Buenos Aires. Alguns trechos foram anteriormente elaborados na minha tese de doutorado O visivel e o sonoro em Edipo-Rei: uma analise foucaultiana. Pontificia Universidade Catolica de Sao Paulo, 2013 (inedita).

** Pontificia Universidade Catolica do Parana.

Correo electronico: fabiano.incerti@yahoo.com

(1) Aula de 17 de marco de 1971, do curso Lecons sur la volonte de savoir, conferencia Le savoir d'OEdipe, de 1972 e a segunda conferencia de 1973, A verdade e asformasjuridicas.

(2) Ernani Chaves (2014), no prefacio a edicao brasileira do livro A psicanalise e um exercicio espiritual? de Jean Allouch afirma que "[...] O leitor e o pesquisador interessados podem dispor, hoje, da possibilidade concreta de reconstruir, a maneira de Foucault, isto e, arqueologicamente, seu longo trajeto de confrontacao com a psicanalise, desde a decada de 1950. Confrontacao que ora o aproximou dela, que ora o afastou - como na Historia da loucura em 1961 -; que ora voltou a reencontra-la com entusiasmo, como em As palavras e as coisas, em 1961, que nunca deixou de reconhece-la na sua ruptura com a psiquiatria, como na quinta conferencia de A verdade e asformas juridicas, proferida em maio de 1973, no Rio de Janeiro, mas que nao deixou de inclui-la no 'dispositivo psi, que rege, em grande parte, a sociedade disciplinar em Vigiar epunir, de 1975; ou ainda em A vontade de saber, primeiro volume da Historia da sexualidade, de 1976, no qual se reunem novamente a critica contundente a relacao estabelecida por Lacan entre o desejo e a lei, e mesmo a relacao entre poder e repressao, mas tambem o elogio a eficacia da critica psicanalitica da teoria da degenerescencia na epoca do nazismo. Mesmo o prefacio a Uso dosprazeres, o segundo volume da Historia da sexualidade, publicado em maio de 1984, ou seja, um mes antes de sua morte, continua criticando a consequencia que significaria continuar insistindo num 'pensamento comum, que faz da sexualidade um 'invariante' e considera suas formas historicas singulares apenas os efeitos 'dos mecanismos diversos de repressao a que se encontra exposta toda sociedade'. Com isso, continua Foucault, 'coloca-se fora do campo historico o desejo e o sujeito do desejo', fazendo com que a 'forma geral da interdicao de conta do que pode haver de historico na sexualidade'" (pp. 12-13).

(3) As criticas a universalizacao que a psicanalise freudiana faz de Edipo-Rei nao serao mais um proble ma nas analises que o pensador frances desenvolve da peca nos escritos da decada de 1980.

(4) Ademais, alem de Vernant, ha um grupo significativo de filologos e helenistas que relacionaram a tragedia grega as questoes juridicas, dos quais destacam-se Louis Gernet (1968), com Droit et institutions em Grece Antique; Werner Jaeger (1953), com "Alabanza de la ley: los origenes de la filosofia del derecho y los griegos"; Pierre Vidal-Naquet (1999) com "Edipo em Atenas" de 1973; e Marcel Detienne (1967), com Les Maitres de Verite dans da Grece archaique.

(5) "Oedipus Symbol der Wissenschafi".

(6) Para citacoes diretas e indiretas, tanto em portugues como em grego do texto de Sofocles, utilizare mos os numeros dos versos compativeis com a obra: Sofocles (2012). Edipo-Rei de Sofocles. (Trad. T. Vieira, edicao bilingue Grego-Portugues). Sao Paulo: Perspectiva.

(7) "Conforme eu disse, rei, mais de uma vez, seria um desatino (e eu um sem tino) se abandonasse a quem de novo trouxe a pratria, imersa em dor, a boa brisa" (690-695).

(8) "El estasimo segundo de Edipo-Rey se refiere a Layo, y se refiere solamente a Layo".

(9) Vernant (1999c) resume dessa forma o mito relacionado a maldicao que recai sobre as geracoes dos Labidacidas: "[...] Layo se enamora de Crisipo, un bellisimo muchacho que es hijo de Pelope. Lo corteja intensamente, lo pasea en su carro, se comporta como un hombre adulto respecto a otro mas joven, le ensena a ser un hombre, pero al mismo tiempo intenta tener con el una relacion erotica que el hijo del rey rechaza. Parece incluso que Layo se ha obstinado en conseguir por la fuerza lo que la seduccion y el merito no habian llegado a darle. Se cuenta tambien que Crisipo, indignado y escandalizado, se suicida. El caso es que Pelope dirige contra Layo una solemne maldicion en la que pide que el linaje de los Labdacidas no consiga perpetuarse, que sea abocado a la aniquilacion. El nombre de Labdaco significa 'el cojo', y el nombre de Layo no es demasiado claro; puede querer decir que es un caudillo popular, o que es un hombre 'torpe. Cabe observar, en efecto, que Layo estropea todas sus relaciones, a todos los niveles. Por una parte, desde el punto de vista de la sucesion, que a traves de su padre Labdaco, su abuelo Polidoro y su bisabuelo Cadmo, deberia llevarle directamente y establecerle en el trono de Tebas. Ahora bien, Layo ha sido apartado, soslayado y alejado de el: la sucesion, por tanto, ha sido desviada. Layo presenta tambien otra desviacion, ya que, a la edad en que podria pensar en casarse, se inclina hacia un muchacho. Pero, sobre todo, desvia el juego amoroso pretendiendo imponer con la violencia lo que Crisipo no esta dispuesto a ofrecerle espontaneamente, no existe ninguna reciprocidad entre ellos, no hay intercambio amoroso. El impulso erotico, unilateral, esta bloqueado. Ademas, Layo es el huesped de Pelope, y esta relacion de hospitalidad supone una reciprocidad de amistad, de regalos y de contrarregalos. Lejos de corresponder a quien lo ha acogido, Layo intenta poseer a su hijo en contra de su voluntad y provoca su suicidio" (pp. 176-177).

(10) Ver Edipo-Rei (2012), numeros 39, 46, 50, 51.

[Please note: Some non-Latin characters were omitted from this article.]
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Author:Incerti, Fabiano
Publication:Universitas Philosophica
Date:Jan 1, 2019
Words:9202
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