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D. Joao Marcos: Bishop and painter of altarpieces today/D. Joao Marcos: Bispo e pintor de retabulos hoje.

Introducao

D. Joao Marcos nasceu em 1949, na aldeia de Monteperobolso, em Almeida no distrito da Guarda em Portugal. Fez a formacao religiosa nos seminarios de Santarem, de Almada, dos Olivais e no Instituto Superior de Estudos Teologicos de Lisboa. Paralelamente realizou entre 1972 e 1976 a formacao artistica em Artes-Plasticas Pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL), atual Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL).

Ordenado sacerdote em 1974, foi paroco no Milharado, em Camarate e na Apelacao entre 1985 e 2002, foi diretor espiritual no Seminario dos Olivais desde 1995 e no Seminario Redemptoris Mater desde 2001 ate 2014. Foi membro do Conselho Presbiteral do Patriarcado de Lisboa desde 2001 e conego do Cabido da Se Patriarcal de Lisboa de 2003 a 2014. Em 10 de novembro de 2014 foi nomeado Bispo Coadjutor da Diocese de Beja. Nestes lugares e em todos estes cargos a sua atividade artistica deixou marcas. Deixou Obra enquanto Arte nascida da profundidade da sua Fe.

Os anos 70 foram uma decada pulverizada por diversos fatores como a guerra colonial, para a qual todos tinham uma participacao anunciada, as consequencias de um Concilio Ecumenico, as ramificacoes culturais do Maio de 68 e uma revolucao transformadora dos modos de estar, ver e compreender o mundo. Neste contexto, o tempo decorrido entre 1972 e 1976 correspondeu a anos conturbados, em Portugal e no mundo, tanto antes de 1974 como depois, com reformas e adaptacoes aos novos tempos. Nesta onda de mudancas, coube a Joao Marcos ser padre e ser artista, apesar de como artista se colocar num patamar muito especial: "Eu sou apenas o pincel ou a tinta que Cristo usa, mas e sempre Ele o artista" (apud A Voz da Verdade, 2014).

A opcao pela vida religiosa antecedeu a formacao artistica. A aproximacao a Pintura e uma consequencia natural de as igrejas tambem serem espacos de Arte, lugares de beleza, lugares diferenciados, lugares-tempo. Espacos plenos de coisas deslumbrantes aos olhos, ao pensamento e ao espirito. Em todas as igrejas os retabulos sao objetos de destaque, livros abertos, momentos de visualidades, obras que louvam Deus e demonstram a fe dos homens. Nao sera isto o mais relevante da coisa artistica?

1. Contexto historico

Em Portugal, a Igreja de Nossa Senhora de Fatima em Lisboa, projetada pelo arquiteto Pardal Monteiro, integrando obras de varios artistas, nomeadamente Almada Negreiros, marcou em 1933-38 o inicio da modernidade nos espacos religiosos. Posteriormente, nos anos 50, foi decisivo o papel Movimento de Renovacao da Arte Religiosa (MRAR), fundado por Nuno Teotonio Pereira (Pereira, 2000) em vesperas do Concilio Vaticano II.

Este Concilio, que se prolongou entre 1962 e 1965, convocado por Joao XXIII e concluido por Paulo VI, foi posto em pratica por Joao Paulo II, Bento XVI e ainda hoje pelo Papa Francisco. Nele sopraram os ventos do Espirito que vao reformulando a vida da Igreja e tendo consequencias diretas ou indiretas no desenho do mundo.

Em 1964 o pintor Kiko Arguello, nascido em Leon em 1939, fundou um movimento religioso muito dinamico, imbuido de uma estetica muito caracteristica. Este movimento, designado por Caminho Neocatecumenal, tem como objetivo suscitar nos cristaos uma fe adulta cultivada em pequenas comunidades, na sua vertente evangelizadora e batismal. Um movimento ao qual a pratica pastoral de Joao Marcos se encontra ligada, com consequencias visiveis e evidentes na sua obra pictorica.

2. Obra pictorica

Ordenado sacerdote em 23 de junho de 1974, Joao Marcos tambem tem tido como missao providenciar a presenca da arte do seu tempo no espaco religioso cristao. Reconhece que

as pinturas e esculturas que admiramos nos nossos museus sao maioritariamente obras de arte crista, e as igrejas sao, quase sempre, os edificios mais belos das nossas cidades, vilas e aldeias (...) Para nos cristaos, a beleza nao e um luxo que possamos dispensar; e propria da nossa condicao de filhos de Deus. Nao basta que a fe nos ilumine a inteligencia e que a vontade aprenda a obedecer, nao nos bastam a doutrina e a moral para darmos ao mundo sinais de que o Reino de Deus ja esta presente. E necessaria a beleza (Marcos, 2015).

Joao Marcos possui uma obra de pintura notavel simultaneamente pela qualidade e pela discricao. A qualidade advem de um saber adquirido e de uma pratica continuada e persistente, desde os anos 80, com a responsabilidade da intervencao estetica nos espacos religiosos cristaos ao servico da Fe e das comunidades. A discricao advem da satisfacao sentida no ato do fazer, como momento de oracao ou reflexao, onde a intimidade se confronta consigo propria. Mas em ambas as situacoes se verificam opcoes que deixam antever uma profunda consciencia sobre quais os modos que deve assumir o objeto artistico nas igrejas, de acordo com uma estetica crista.

Nos seus retabulos procura cruzar a tradicao iconografica crista com a expressao do pensamento atual sobre a necessidade na beleza nos espacos das liturgias (Marcos, 2005). A sua obra artistica encontra-se no centro do pais, entre Lisboa e Merceana, a regiao que o acolheu e onde exerceu a maior parte do seu sacerdocio. Mas esta producao artistica nao se trata do exercicio de dois ministerios em paralelo, o sacerdote e o pintor. Muito menos se trata de uma delas servir para sustentabilidade da outra. E ainda menos se trata de uma mera ocupacao de tempo. Os modos de operar de Joao Marcos correspondem ao de um artista totalmente ao servico da Igreja, privilegiando acima de tudo o momento sublime do fazer em franca sintonia com a dimensao espiritual do homem convicto da sua Fe e crente numa atividade artistica como momento de oracao. Os seus retabulos acabam por ser o resultado da sua missao. A missao de edificar, de construir e de oferecer uma abertura para o misterio de Cristo e da Igreja. Neles acontece o recuperar da tradicao iconografica crista apresentada em linguagem propria dos tempos de hoje (Silva, 2001), mas porventura com alguma densidade critica em relacao a outras solucoes esteticas contemporaneas ocorridas no espaco religioso cristao, mais proximas dos valores profanos do mundo da arte.

Da vasta producao de Joao Marcos destacam-se a tapecaria Ressurreicao (1985) na igreja de Rio Maior, O Misterio do Pentecostes (1986) na igreja de Casais Brancos da freguesia de Aldeia Galega da Merceana, Anastasis (1989) na igreja da Sagrada Familia no Bairro da Tabaqueira em Rio de Mouro, Em Nome do Pai do Filho e do Espirito Santo (1991) na igreja de Casais da Serra na freguesia do Milharado, concelho de Mafra, O Misterio da Igreja (1992) na igreja da Benedita concelho de Alcobaca, O Tumulo Aberto (1992) na igreja do Seminario de Penafirme concelho de Torres Vedras (Figura 1), O Misterio da Cruz (2003) na igreja de Roussada, Mafra (Figura 2), A Dormicao da Virgem (2004) na capela de Calvos, freguesia do Milharado, Mafra, A Vida Manifestou-se (2005) na igreja da Apelacao, Loures. Servir (2008) na Curia Diocesana de Setubal, Cristo Pantocrator (2005) na igreja da Ramada, Odivelas (Figura 3), A Pascoa do Senhor (2009) na igreja de Alfornelos, Amadora (Figura 4), O Batismo de Jesus (2013) na igreja de Ribamar da Lourinha (Figura 5), O Misterio da Virgem Maria (2013) na igreja de Nossa Senhora de Fatima do Jeromelo, Milharado, Mafra, A Deesis (2013) na igreja da Povoa da Galega, Milharado, Mafra, e Deus eAmor (2014) na igreja da Brandoa, Amadora.

Nas ultimas decadas foram construidas inumeras igrejas onde as imagens se encontram remetidas a condicao de mobiliario acessorio ou dispensavel ao culto, enquanto nas igrejas de epocas passadas por vezes sao utilizadas como fatores de legitimacao (Blanchy, 2004). Tais entendimentos nao se encontram nos retabulos de Joao Marcos porque sao obras autonomas, incutidas de uma dimensao espiritual centrada na sua propria delimitacao geometrica, harmonizadas por simetrias formais e cromaticas.

3. Simbolo, drama, doxologia

Na paisagem rural portuguesa dos anos 50 e 60, pontuada por mosteiros, conventos, capelas, igrejas e catedrais, e possivel uma aproximacao ao mundo das coisas belas, da memoria e do sublime. O deslumbramento por essas coisas, diferentes do mundo comum, pode ser experimentado nas igrejas, como museus repletos de dadivas, de arte, nem armazenada nem exposta, apenas como suporte de dialogos e oracoes.

O desfrute estetico que esses espacos propiciam atraves de imagens perenes aliadas a acontecimentos cenicos transitorios, fascina e aproxima o homem do divino e do artistico simultaneamente. Umas vezes reconhecemo-nos no templo, outras vezes reconhecemo-nos no museu (Pousseur, 1999).

No 41 Encontro Nacional de Pastoral Liturgica Joao Marcos refere que ... "vivemos hoje um tempo de graca em que e possivel recuperarmos as raizes da iconografia crista, superar o divorcio secular entre a Estetica e a Teologia e deixar para tras os equivocos e desencontros que os nossos antepassados tiveram de suportar ... Esta materia arte, estetica e cristianismo foi objeto de estudo para Hans Urs von Balthasar (1905-1988), um importante teologo que estara na base conceptual de notaveis realizacoes artisticas, de artistas como Rupnik (1954), Sieger Koder (1925-2015) ou Kiko Arguello (Marcos, 2015), e tambem Joao Marcos.

Uma recuperacao das raizes da iconografia crista feita pela palavra e pela imagem. Uma obra artistica com um implicito sentido de dadiva e de louvor, e com uma grande sensibilidade estetica organizada por um entendimento simbolico da vida crista, onde espetacularidades barrocas nao servirao. A proposito do retabulo O Tumulo Aberto, na igreja do Seminario de Penafirme (Figura 1), escreve

(...) Quem, habituado a outras formas de arte religiosa, se aproximar desta pintura buscando representacoes historicistas e alegorias moralizadoras, certamente se dara conta de que nao passa por ai o discurso nem o percurso aqui apresentado. Estas imagens sao simbolos que condensam a catequese da Igreja (Marcos, 1993).

Pode dizer-se que Joao Marcos "recria uma iconografia de raiz intemporal e essencialista, na tradicao iconologica protocrista, com passagens eletivas pela iconologia bizantina, por Giotto e por Cimabue" (Silva, 2001), ao mesmo tempo que se reconhece que

o aspeto mais interessante do trabalho deste autor consiste na sua linguagempictorica que se baseia nos icones ortodoxos. Trata-se de uma atitude estetica que merece reflexao, por ser uma tentativa de unir a tradicao artistica crista, no que ela tem de mais espiritual, com uma expressao contemporanea (Meneres, 2000).

Na sua obra nao se abordam as questoes da representacao, da espetacularidade e da genialidade, fatores enfatizados desde o seculo XV ate a atualidade. Escrevem-se e pintam-se as palavras e as imagens como metaforas e parabolas em livros abertos. Estes retabulos deixam-nos claramente perceber um processo de feitura essencial, onde o artista se encontra num estado de plena franqueza, de reflexao e de oracao.

Admitindo nao existir um estilo cristao, porque o cristianismo sempre aceitou e soube expressar-se nos estilos de todas as epocas, Joao Marcos refere-se a uma Ontologia da Beleza e a uma Estetica Crista caracterizada por tres palavras: simbolo, drama e doxologia (Marcos, 2015). Efetivamente estas categorias encontram-se tanto na obra de Joao Marcos, como na estetica do Caminho Neocatecumenal, o movimento fundado em 1964 por Kiko Arguello, e definido por Joao Paulo II como "um itinerario de formacao catolica, valida para a sociedade e para os tempos de hoje". Este movimento pretende renovar a Igreja, atraves de uma Iniciacao Crista num tempo em que o conceito de aldeia global se generaliza, recuperando e reatualizando uma estetica radicada nas decisoes do II Concilio de Niceia em 787.

Conclusao

O entendimento da igreja como lugar do sublime e do excecional na condicao humana, entendida tanto como palavra tanto como imagem, esta expresso nas palavras de Joao Marcos quando afirma que "tudo surgiu pela via estetica (...) Sempre gostei do que e bonito ... toda a gente gosta (...) Na minha terra, numa aldeia pobre, o que ha de bonito e de diferente? A Igreja, com imagens dos santos, as talhas douradas, os canticos" (apud A Voz da Verdade, 2014).

No ambito de uma cultura ocidental, de matriz eminentemente crista, herdeira e integradora de tradicoes culturais anteriores, os retabulos de Joao Marcos sao fe celebrada, catequese pintada e vida manifestada, com uma evidente dimensao simbolica, dramatica e doxologica. Sao expressao de uma estetica crista atual em que a Beleza e sinonimo de Gloria divina, esplendor do encontro da Verdade e do Bem, e em que a subjetividade do artista esta aberta para a comunidade que serve, oferecendo aos seus olhos uma expressao do misterio escutado e celebrado.

Artigo completo submetido a 30 de dezembro de 2015 e aprovado a 10 de janeiro de 2016.

Referencias

A Voz da Verdade (2014) "D. Joao Marcos nomeado Bispo Coadjutor de Beja: 'E sempre Ele o artista.'"[em linha] jornal, Patriarcado de Lisboa. [Consult. 2015-12-12] Disponivel em http:// www.vozdaverdade.org/mobile/link1.php?id=4249

Blanchy, L. (2004). Les Expositions d'art contemporain dans les lieux de culte. Grignan: Les Editions Cumplicites.

Figueiredo, Pe. Ricardo (Ed.) (2015) D. Joao Marcos: Imagens da fe, percursos iconograficos, teologicos e pastorais, Lisboa: Paulus.

Joao Marcos, E. N. (1993). O Retabulo da Igreja do Seminario de Penafirme. Pro-Manuscrito.

Marcos, D. J. (2015). "As Artes ao Servico da Liturgia." 41 Encontro Nacional de Pastoral Liturgica. Fatima: Boletim da Pastoral Liturgica.

Marcos, D. J. (2015, 26 de Fevereiro). A Palavra e o Pao. [Consult. 2015-11-29], de Diocese de Beja: http://www.diocesebeja.pt/site/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid =1382

Marcos, D. J. (marco de 2005). "A Estetica na Celebracao da Eucaristica". Novellae Olivarum, O Ano da Eucaristia, IV, no. 30, pp. 21-38.

Meneres, C. (2000). "Artes Plasticas de Tematica Religiosa". In M. B. Cruz, & N. Guedes, A Igreja e a Cultura Contemporanea em Portugal (pp. 43-72). Porto: Universidade Catolica Editora.

Pereira, J. C. (2000). "O Movimento de Renovacao da Arte Religiosa". Arte e Teoria no. 1, pp. 111-131.

Pousseur, R. (1999). Les Eglises seront-elles des musees. Paris: Les Edition de l'Atelier.

Silva, J. A. (2001). "Pintura." In C. Azevedo, Dicionario da Historia Religiosa de Portugal. Rio de Mouro: Circulo de Leitores.

ILIDIO SALTEIRO, Portugal, artista plastico / pintor. Membro do conselho editorial da revista. Licenciatura em Artes-Plasticas / Pintura, Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa (ESBAL). Mestrado em Historia da Arte, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciencias Sociais e Humanas. Doutoramento em Belas-Artes Pintura, Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes (FBAUL).

AFILIACAO: Universidade de Lisboa; Faculdade de Belas-Artes; Centro de Investigacao e Estudo em Belas-Artes. E-mail: ilidio. salteiro@gmail.com

Caption: Figura 1. Joao Marcos. Tumulo Aberto, 1992. Igreja do Seminario de Penafirme, Torres Vedras. Fonte: Figueiredo (2015).

Caption: Figura 2. Joao Marcos. O Misterio da Cruz, 2003. Igreja de Roussada, Mafra. Fonte: Figueiredo (2015).

Caption: Figura 3. Joao Marcos. Cristo Pantocrator, 2005. Igreja Paroquial da Ramada, Odivelas. Fonte: Figueiredo (2015).

Caption: Figura 4. Joao Marcos, A Pascoa do Senhor, Igreja de Alfornelos, Amadora, 2009. Fonte: Paroquia de Alfornelos.

Caption: Figura 5. Joao Marcos, O Batismo de Jesus, 2013. Igreja Paroquial de Ribamar da Lourinha. Fonte: Figueiredo (2015).
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Title Annotation:Original articles/Artigos originais
Author:Salteiro, Ilidio
Publication:Estudio
Article Type:Cover story
Date:Apr 1, 2016
Words:2458
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