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Curricular supervised traineeship: perceptions of student-therapist in speech, language and hearing sciences in a hospital/ Estagio curricular supervisionado: percepcoes do aluno-terapeuta em fonoaudiologia no ambito hospitalar.

INTRODUCAO

E recente a atuacao do fonoaudiologo nos hospitais. Sua insercao, especificamente nas unidades de terapia intensiva (UTI), teve inicio com a demanda de pacientes com transtornos da degluticao decorrente desordens neurologicas e, posteriormente, com a conquista de um espaco nas demais unidades de atendimento aos pacientes com disturbios de linguagem, traumas faciais, queimaduras e disfagias mecAnicas [1].

Com o crescimento do mercado de trabalho na area hospitalar, os curriculos oferecidos pelos cursos de graduacao em fonoaudiologia vem estabelecendo disciplinas teoricas, acerca da fonoaudiologia hospitalar nas visoes biologica e humanista; e praticas, onde o academico tem a oportunidade de desenvolver todo o atendimento fonoaudiologico ao paciente hospitalizado, prestando cuidado individualizado de acordo com as necessidades basicas de saude biopsicossocial.

Para que isto ocorra, torna-se indispensavel a parceria da universidade com os servicos de saude e a comunidade, possibilitando a insercao do academico no cotidiano de trabalho para um desempenho produtivo e consistente. A partir deste principio, surge o estagio curricular supervisionado em fonoaudiologia hospitalar, que oportuniza uma vivencia relevante ao academico devido a autonomia e a interacao que este experiencia, em sua intervencao no processo saude-doenca, com os diferentes atores sociais [2].

A complexidade do estagio curricular supervisionado ocorre quando, o aluno, que adquiriu um conteudo teorico especifico, utiliza este conhecimento para a resolucao dos problemas da populacao atendida. Nesta etapa, o academico desenvolve competencias tecnicas e humanisticas para o exercicio da profissao, por meio das orientacoes e feedback, de um docente ou supervisor, acerca do seu desenvolvimento profissional e educacional, objetivando o realizar de um atendimento adequado; o ampliar do seu conhecimento teorico-pratico; e o formar de um profissional critico e reflexivo, capaz de atuar dentro do cenario experenciado, apto as demandas sociais [3].

O ambiente de estagio no Ambito hospitalar tras preocupacoes adicionais as avaliacoes curriculares, pois o academico deve contribuir no atendimento a pacientes acamados que merecem cuidados, compreensao e respeito [4]. Em adicao, o hospital e considerado um ambiente estressante tanto para o paciente, quanto para a propria equipe que nele atua [5].

Estudos que avaliaram academicos da area da saude sugerem a existencia de uma relacao entre a escolha e o desempenho profissional com as caracteristicas pessoais do individuo [6, 7]. Entre as caracteristicas essenciais ao Ambito hospitalar, sugere-se: o autocontrole emocional, as relacoes interpessoais, a habilidade de trabalhar em equipe e a consciencia humanistica [6, 8].

Na literatura fonoaudiologica, ha uma escassez no conhecimento psicologico dos academicos dentro do estagio curricular supervisionado hospitalar. Pouco se discute a respeito do que o individuo pensa, sabe, conhece e espera desta experiencia. Estudos referem que o estagio curricular supervisionado pode ser uma experiencia rica no ponto de vista clinico, porem e fragmentada e pontual, onde os academicos nao buscam identificar suas limitacoes e sentimentos, devido a ausencia de vinculos solidos e pequena duracao oferecida, o que leva ao individuo a pensar em seu proprio beneficio do que no impacto da atuacao na melhora do paciente [7].

Diante do exposto, pretende-se com este estudo construir uma descricao da percepcao dos estagiarios do curso de fonoaudiologia, tendo como base sua insercao e vivencia junto a pratica em leito hospitalar, baseando-se em suas reflexoes no que concerne as experiencias na constituicao do eu, da formacao e (trans)formacao nas praticas em saude, sociais e interculturais e, entre os espacos e aprendizagens, bem como os territorios da formacao humana.

METODO

O presente trabalho foi realizado durante a disciplina de Estagio Supervisionado II em Fonoaudiologia do ultimo semestre do Curso de Graduacao em Fonoaudiologia da Universidade de Fortaleza UNIFOR, na cidade de Fortaleza, Ceara, no periodo de fevereiro a junho de 2010.

Optou-se por uma abordagem qualitativa de pesquisa, baseada em Minayo [9], registrando-se inicialmente, por parte dos estagiarios-pesquisadores, suas impressoes pessoais, dentre valores, opinioes, representacoes, crencas e outras categorias que implicam fenomenos complexos e subjetivos nas acoes em saude, mais especificamente, no atendimento junto a pacientes neurogenicos a beira do leito. Tais impressoes foram coletadas a partir de suas praticas durante o estagio curricular supervisionado em uma instituicao hospitalar publica municipal de referencia terciaria e abrangencia Estadual e Municipal.

Foram utilizados como instrumentos de coleta de dados o diario e notas de campo realizados durante o periodo de estagio curricular supervisionado de sete alunos do curso de fonoaudiologia, etapa esta seguida pela analise cultural dos dados colhidos. A partir da analise dos diarios e notas de campo, os dados foram categorizados, analisados e confrontados com a literatura encontrada.

Paralelamente foi realizada uma revisao de literatura ancorada em pesquisa utilizando os termos: recursos humanos em saude, pesquisa qualitativa, educacao profissional em saude, ensino-aprendizagem e estagio curricular nos bancos de dados do Scielo, Google e Google academico, acrescentando uma revisao nao sistematica de sites na internet.

RESULTADOS

Apos leitura dos relatos dos diarios de campo, os mesmos foram organizados em categorias e subcategorias, de acordo com as impressoes de cada aluno.

As categorias encontradas dividiram-se em: ansiedade e frustracao; inseguranca e incapacidade; angustia, tristeza e medo; empoderamento profissional; empatia e lembrancas e; sentimentos negativos.

Alguns alunos, em sua experiencia inicial de estagio curricular supervisionado, expressaram sentimentos de ansiedade em relacao aos procedimentos tecnicos e no relacionamento com o paciente e o docente.

CATEGORIAS E SUBCATEGORIAS

1. Ansiedade e frustracao

1.1 Pressa para agir--o atendimento

A ansiedade do aluno leva a pressa para chegar ao leito, conhecer e realizar procedimentos tecnicos junto o paciente.

"Muita ansiedade, vontade de chegar logo no hospital para poder conhecer como era a realidade de la." (ALUNO 7) (comentario 1) "Acho que estava tao ansioso que nao queria saber da historia do paciente, so me interessava ver qual o acidente que ele sofreu e como ele estava no dia atual, e entao, ir direto ao leito para saber mais por la mesmo. Eu sei que isto nao e o correto, e como eu disse, fui ansioso."(ALUNO 4) (comentario 2)

1.2 Sensacao de incapacidade frente a necessidade do paciente

A ansiedade e a inseguranca tambem foram referidas na realizacao dos procedimentos, principalmente durante o primeiro contato com os pacientes e pelo medo da nao aceitacao por estes.

"Mas eu lembro que fiquei meio frustrado por ver que eles estavam tao acometidos que nao podiam fazer"nada". Mas desse "nada" que eu fiz, eu ainda gostei." (ALUNO 4) (comentario 3)

"Me senti um pouco desmotivada, pois a acompanhante parecia nao ter interesse no que era passado, parecia que tudo aquilo que eu estava falando nao ia surtir efeito, tentei acordar o paciente, mas nao foi possivel." (ALUNO 1) (comentario 4)

"(...) nao me sinto preparada emocionalmente para enfrentar certas situacoes vividas no hospital, no leito hospitalar." (ALUNO 3) (comentario 5)

1.3 Impotencia do profissional

Foi considerado que o relacionamento do estagiario de fonoaudiologia com a equipe medica e restrito, pois nao ha na instituicao, ainda, a vivencia que possibilite este contato com os medicos e os demais profissionais da saude.

"Na hora que chegamos no posto de enfermagem pedimos um canudo a enfermeira disse que nao tinha, e nem tinha como conseguir" (ALUNO 2) (comentario 6)

2. Inseguranca e incapacidade

2.1 A presenca do desconhecido

O estagiario enfrenta uma serie de dificuldades no inicio do estagio curricular supervisionado, como o fato de tocar uma pessoa desconhecida.

"... A sensacao que tive foi de muito medo, nao conseguia entrar no leito, foi preciso a professora entrar comigo, me "empurrar" ate o paciente. E nao consegui tambem ter uma conversa com eles... " (ALUNO 2) (comentario 7)

"... Senti-me insegura em relacao ao meu desempenho junto aos pacientes, nunca tinha entrado em hospital, entao pra mim aquilo foi um choque... " (ALUNO 2) (comentario 8)

2.2 A experiencia faz falta...

Os estagiarios enfatizaram o medo de errar, o que pode estar relacionado a falta de vivencia.

"... Nao tinha experiencia nenhuma, nao sabia como funcionava a vida hospitalar, mais sabia que ia ver muitos casos de doencas, mas tambem nao sabia como ia agir, pois nao tinha visto nada na teoria... " (ALUNO 2) (comentario 9)

"... Nao que eu nao goste de linguagem, eu adoro afasias, mas apesar de adorar eu sei que nao sou bom nessa area porque me falta muito estudo." (ALUNO 4) (comentario 10)

2.3 O desempenho pessoal junto ao paciente e perante os colegas

Ao se deparar com a responsabilidade da atuacao profissional, o estagiario buscou o amparo, a atuacao "protegida", ou seja, supervisionada.

"... eu nao consigo ser desenvolto em um local que nao esteja apenas eu e o paciente, e eles precisam de algo que eu nao con seguia oferecer, que era isto." (ALUNO 4) (comentario 11)

"... o sentimento de incapacidade tambem surgiu, a vontade de reverter o quadro dos pacientes e evitar o seu sofrimento, ao mesmo tempo, senti a vontade e a necessidade de ficar conversando com eles e seus acompanhantes pra, de certa forma, os confortar, dar uma palavra amiga, de apoio, mas me senti envergonhada diante dos meus colegas... " (ALUNO 3) (comentario 12)

3. Angustia, tristeza e medo

3.1 Situacao do paciente

A maioria dos estagiarios manifestou os sentimentos de tristeza, angustia e medo, que podem ser causados pelo fato do aluno estar lidando com algo novo e desconhecido, isto e, o primeiro contato com o paciente.

"Me deu pena, tristeza, mas tentei nao passar pro paciente o que eu estava sentindo." (ALUNO 2) (comentario 13) "O primeiro dia de atendimento me deixou triste por eu nao gostar de ver pessoas em hospital passando por algum tipo de sofrimento." (ALUNO 3) (comentario 14)

"Na hora que cheguei ao hospital, senti aquele clima de tristeza das pessoas." (ALUNO 5) (comentario 15)

3.2 A vida e um jogo: pode acontecer comigo!

O contato com a realidade desconhecida do ambiente hospitalar levou aos estagiarios a colocarem-se no lugar do paciente e sua familia.

"... isso me deu uma angustia, pensei que pode acontecer com qualquer um de nos!" (ALUNO 5) (comentario 16)

"... nervosa com o que eu poderia encontrar de inicio pensava na patologia que eu poderia me deparar, queria algo que me sentisse a vontade em atender, que nao envolvesse tanto contato "pele a pele"." (ALUNO 1) (comentario 17)

3.3 O sofrimento e a solidao

Os sentimentos afluem quando o estagiario inicia a escrita do diario de campo e entra em contato com suas percepcoes. Esses sentimentos sao importantes para que se tenha uma reflexao critica da sua atuacao atual, da realidade e futura profissao.

"Apareceram sentimentos de medo, pena, nervosismo, incapacidade, inseguranca e ate mesmo o receio de ter que fazer limpeza oral em um paciente." (ALUNO 3) (comentario 18)

"A sudorese tomou conta do meu corpo. Me senti em uma sauna, mao gelada e face demonstrando medo e pena. Tentei interagir com o paciente mais nao obtive sucesso o que me deixou mais incomodada por ele nao conseguir se comunicar." (ALUNO 3) (comentario 19)

"Nesse momento minha cabeca se enchia de pergunta, duvidas e muito medo passava pela minha cabeca." (ALUNO 5) (comentario 20)

"...sentir-me um pouco angustiada, pois naquele momento nao podia ajudar em muita coisa, mas conseguir conter a emocao fui confiante durante as orientacoes passada para a mae." (ALUNO 1) (comentario 21) "Ela estava acordada, com um olhar fixo para o teto, e foi nesse momento que todos os meus sentimentos vieram a tona. Medo, inseguranca, aflicao, pena, angustia."(ALUNO 5) (comentario 22)

4. Empoderamento profissional

4.1 Identificacao profissional

Com esse estudo, verificou-se que apenas tres estagiarios referiram identificar-se com ambiente hospitalar.

"(... ) sempre tive vontade de atuar na area hospitalar." (ALUNO 1) (comentario 23) "Eu sempre esperei por essa disciplina, porque e a area que almejo trabalhar." (ALUNO 4) (comentario 24)

"(... ) A sensacao que tive foi de muita alegria pela confirmacao de que estava certa quanto a minha escolha profissional." (ALUNO 6) (comentario 25)

4.2 Reconhecimento da importAncia da profissao

Foi identificado pelos estagiarios a necessidade da atuacao fonoaudiologica junto aos pacientes hospitalizados e a procura do servico fonoaudiologico pelos demais profissionais.

"(... ) Percebi a importAncia do nosso trabalho fonoaudiologico diante dessas pessoas";

(ALUNO 3) (comentario 26)

"(... ) senti muito a importAncia da minha profissao e o quanto os outros profissionais de saude sao leigos em relacao ao trabalho fonoaudiologico" (ALUNO 5) (comentario 27) "(...) passei a manha imaginando como seria o atendimento aos pacientes que tanto precisavam da nossa ajuda". (ALUNO 6) (comentario 28)

4.3 A Interdisciplinaridade funciona Sobre o topico interdisciplinaridade, os estagiarios perceberam o quanto esta e necessaria:

"(... ) foi proveitoso, pois teve interdisciplinaridade com maior resolutividade para o paciente." (ALUNO 1) (comentario 29) "(...) a interacao dos profissionais tambem e um fato importante, que nao se consegue trabalhar se nao for em conjunto, porque muitas vezes, para se realizar um procedimento, e necessario antes o procedimento do outro profissional." (ALUNO 3) (comentario 30)

5. Empatia e lembrancas

5.1 Reconhecer-se no outro

Alem disto, os estagiarios relataram que o paciente que necessita de ajuda, muitas vezes nao consegue diferenciar o profissional da saude em sua especialidade, acreditando que todos estao aptos a tratar qualquer problema que ocorra.

"O paciente hospitalar nao faz diferenciacao da sua profissao com os demais encontrados pra eles somos profissionais da saude, que qualquer um ali pode resolver seu problema." (ALUNO 5) (comentario 31)

"Saber que a vida da gente pode mudar em questao de segundos, que somos imortais e que ninguem deve se vangloriar dizendo ou pensando que isso so acontece com o proximo." (ALUNO 4) (comentario 32)

5.2 Estar perto e estar longe da situacao

A forma de atendimento ao enfermo foi observada como crucial e, algumas vezes, com retorno gratificante. Os relatos demonstraram que o terapeuta deve agir com razao e emocao e compreendendo que esta tratando seres humanos e nao simples objetos.

"As vezes eu me sinto muito frio em relacao a pessoa, principalmente quando eu me comparo com as outras alunas. Eu me sinto diferente delas e isso faz eu me sentir um pouco mal." (ALUNO 1) (comentario 33)

5.3 Pequenos atos fazem a diferenca

Nos pequenos atos proporcionados pelos profissionais o paciente e a familia muitas vezes se sentem empoderados e se tornam o diferencial no tratamento:

"Percebi a importAncia do nosso trabalho fonoaudiologico diante dessas pessoas, que muitas vezes um simples Boa tarde, um gesto, um olhar, pode trazer beneficios para eles, pode fazer a diferenca no seu dia." (ALUNA 5) (comentario 34)

"A vontade que me dar e fazer algo por toda essa gente que precisa de cuidados, informacoes e medidas de prevencao que sao capazes de fazer com que eles nao cheguem a esse ponto de intervencao que sao submetidos." (ALUNO 3) (comentario 35)

6. Sentimentos negativos

6.1 A situacao do sistema de saude publica

Nao apenas motivacoes relacionadas ao salario, mas tambem, ao proprio ambiente em que o profissional ira atuar, foram observados no relato:

"Ao chegar ao hospital tive o aspecto de sujo, macas pelo corredor, elevadores antigos e muita gente esperando o atendimento. Fiquei assustada com o que presenciei, mas o pior estava por vir." (ALUNO 5) (comentario 36) "Ao chegar ao sexto andar do hospital, vi aquele corredor sombrio com aquelas pessoas deitadas nas macas dentro dos leitos, tao debilitadas, as vezes sozinhos, alguns por muito tempo no hospital. Fiquei chocada quando vi!" (ALUNO 7) (comentario 37) "Senti algo diferente, a movimentacao de um andar para o outro, a maioria dos pacientes estavam em estado de alerta, porem com fraturas expostas, com bom nivel de consciencia, eles aparentavam sentir sufocados com tudo aquilo o calor sufocante" (ALUNO 1) (comentario 38)

6.2 A humanizacao pela janela

Observou-se que a falta de motivacao ambiental e mesmo psicologica, pode levar a criacao de profissionais "nao humanizados". O atendimento do profissional pode ser afetado tambem pela relacao que este possui com os familiares e/ou cuidadores.

"... nao queria saber da historia do paciente, so me interessava ver qual o acidente que ele sofreu e como ele estava no dia atual". (ALUNO 4) (comentario 39)

"Perguntamos se o paciente tinha engasgos, e ela disse que sim e com frequencia. Orientamos que nao era seguro para o paciente ser alimentado naquela posicao, porem ela nao deu muita credibilidade para nos." (ALUNO 7) (comentario 40)

DISCUSSAO

Os sentimentos percebidos de ansiedade e frustracao pelos estagiarios podem ser explicados pela entrada brusca dos mesmos numa situacao desconhecida e pode ser um fator desencadeante de tensao e ansiedade, que interferem negativamente no aprendizado. Assim, torna-se imprescindivel a presenca de um docente consciente em campo de estagio que colabore e tenha atitudes de compreensao para com o estagiarios [10].

Os sentimentos de ansiedade descritos pelos alunos no primeiro contato com o paciente comprometem a sua atuacao, bloqueando a acao de cuidar efetivamente do mesmo [11].

A constante tensao vivida pelos estagiarios, em relacao ao que tem que ser feito para ajudar os pacientes e aquilo que conseguem realizar, leva-os a sentimentos de frustracao e ansiedade [11].

Diante das dificuldades para realizar os encaminhamentos necessarios e das cobrancas em diminuir o sofrimento e controlar os riscos de casos graves, o profissional da saude que atua no ambiente hospitalar e submetido a um estresse cronico. Por conta disso, incumbe-lhes tomar decisoes delicadas que mobilizam forte carga afetiva, uma vez que convivem com a angustia dos familiares, necessitando lhes dar suporte em uma experiencia emocional critica, alem de fazer adaptacoes radicais no processo de trabalho, quase sempre sob condicoes bastante precarias [5].

Os aspectos relacionados a inseguranca e a incapacidade podem ser percebidos pelos estagiarios, quando estes sentem medo do desconhecido, diante da relacao vivida entre o estagiario e o paciente, e nas descobertas do processo de cuidar no inicio da pratica profissional. Sao aspectos considerados como algo novo, causando, portanto, ansiedade [10].

A inabilidade em atuar com seus sentimentos e o dos pacientes e; a dificuldade para associar a teoria a pratica, que sao evidenciadas quando lhe e cobrado um desempenho junto ao paciente [12].

O estagio curricular supervisionado introduz o estagiario na pratica, propiciando ao graduando experimentar sentimentos ambivalentes. Por um lado ele iniciara o estagio e ira sentir-se, pela primeira vez, inserido na profissao; por outro, ele experimentara a angustia relatada por colegas que ja fizeram a disciplina [10].

As dificuldades e as angustias que o estagiario vivencia no relacionamento com o paciente, o docente e o ambiente podem produzir efeitos positivos e negativos referentes as primeiras experiencias praticas do estagiario junto aos pacientes [10].

A partir destes fatos, o estagiario manifesta a necessidade de apoio das pessoas que lhes sao proximas nesta vivencia, como seu o colega de grupo ou o docente, a fim de que possa superar suas dificuldades [12-13].

Considera-se que o aluno estabelece um relacionamento interpessoal tanto com o objeto de sua atuacao, o paciente, quanto com o docente que lhe acompanha em campo. Acredita-se que as relacoes humanas sao ricas de significacoes e contradicoes, e que se tornam fonte de conhecimento da realidade vivida [12].

Diante dos sentimentos percebidos de angustia, tristeza e medo, entendeu-se que a sensacao de tristeza manifestada pelos alunos em seus relatos demonstra que o lado sentimental nao pode se desvincular do profissional. Colocar-se no lugar do paciente e praticar a humanizacao, tao valorizada no Sistema Unico de Saude (SUS) [14].

No Brasil, os profissionais de saude como fisioterapeutas, enfermeiros, fonoaudiologos, medicos e terapeutas ocupacionais encontram-se em estado de insalubridade ocupacional que, consequentemente, atinge o emocional repercutindo na assistencia oferecida ao paciente ou a si mesmo [15].

O fato destes profissionais de saude estar em contato constante com um local de pratica que transmite sensacoes pessimistas, como amargura, angustia e frustracoes, faz com que o profissional se coloque no lugar do paciente [16-17].

O medo, a ansiedade e a angustia podem ser minimizados pela assistencia do docente que acompanha o estagiario no momento do atendimento, demonstrando a importAncia da assistencia emocional ao aluno de estagio curricular supervisionado em contato com o paciente [18].

Em relacao ao empoderamento profissional, o profissional que atua em instituicoes hospitalares esta exposto a diversos fatores que afetam diretamente o seu bem estar. Dentre varios, podem-se citar as longas jornadas de trabalho, o numero insuficiente de pessoal, a falta de reconhecimento profissional, a alta exposicao do profissional a riscos quimicos e fisicos, assim como o contato constante com o sofrimento, a dor e muitas vezes a morte [15].

O desempenho destes profissionais envolve uma serie de atividades que necessitam forcadamente de um controle mental e emocional muito maior que em outras profissoes [19]. Eles devem manejar os pacientes em estado grave e compartilhar, com o enfermo e seus familiares, a angustia, a dor, a depressao e o medo de padecerem [20, 21].

Para tanto e necessario que haja notoria identificacao com a area de atuacao de sua profissao [6, 7].

Tenta-se fortalecer a profissao e divulgar a importAncia da atuacao do profissional nos diversos segmentos da sociedade [16]. O reconhecimento responde aqueles que querem provar o desmerecimento do profissional fonoaudiologo na atuacao hospitalar.

O trabalho em equipe na area da saude distingue-se pela homogeneidade dos objetivos propostos. Assim, a equipe interdisciplinar, descrita como um grupo de profissionais de diversas formacoes atua de forma interdependente, interrelacionando-se num mesmo ambiente de trabalho, por intermedio de comunicacoes formais e informais, sendo imprescindivel no atendimento hospitalar [22].

A empatia e as lembrancas podem ser observadas diante de situacoes estressantes, onde a equipe de saude precisa considerar as necessidades da familia. O estabelecimento do plano de cuidados a familia deve ser construido por meio do dialogo e da busca dos significados que as experiencias de doenca geram em cada pessoa [23].

A afetividade proporcionada aos familiares e ao paciente e fundamental para a recuperacao deste, sendo a comunicacao, sob suas diferentes formas, o principal meio para favorecer a interacao entre a equipe de saude, o paciente e os seus familiares [24].

O profissional da saude, muitas vezes, pode se colocar no lugar do paciente para compreender as suas angustias, medos, insegurancas e demais sentimentos. Isto contribui para uma maior seguranca e desempenho profissional durante a intervencao, assim como para melhorar o vinculo familiar [25-26].

O profissional da saude deve estar preparado para enfrentar os desafios do cotidiano, precisando agir com razao e emocao e compreendendo que esta tratando seres humanos e nao simples objetos.

Para compreender o ser humano como sujeito, o profissional da saude deve realizar um exercicio de autoconhecimento, por meio de um esforco de empatia e/ou de projecao. Porem, observa-se, em muitos destes profissionais, uma individualizacao que os torna alheios ao outro devido a limitacao da compreensao do sujeito [25].

As acoes de cuidado sao colocadas em pratica no momento em que se transmite ou que se recebe o cuidado. Este e percebido e entendido por meio de comunicacao verbal ou nao-verbal, incluindo gestos, olhares, dentre outros. Qualquer acao humana so e reconhecida quando ha valorizacao do individuo em qualquer contexto que se encontre [27].

O atendimento humanizado e crucial e, muitas vezes, o retorno e gratificante. Ao receber uma resposta positiva dos pacientes e de seus familiares, percebe-se a valorizacao do profissional enquanto ser humano capaz de melhorar a vida do proximo [26].

Os sentimentos negativos percebidos muitas vezes estao relacionados as condicoes de trabalho, fisicas, emocionais e psicologicas, as quais os profissionais estao submetidos.

Sabe-se que a realidade do leito hospitalar em uma instituicao publica difere de uma particular. E preciso uma politica de recursos humanos que vise a melhoria da relacao qualidade e quantidade dos profissionais do setor, objetivando uma produtividade mais adequada [28]. Esta produtividade e influenciada por mecanismos mais flexiveis e de motivacao [29].

A crise na saude tem causado a diminuicao da qualidade do atendimento e o aumento das filas de espera, indo contra a insaciavel demanda dos consumidores por atendimento de alta qualidade [29].

A propria sobrevivencia do hospital depende da aprovacao pelo paciente. Muitas estrategias para melhoria de servicos de saude estao baseadas na satisfacao do paciente. Ouvir e observar o comportamento dos pacientes dentro dos hospitais e fundamental para a compreensao e melhoria da organizacao do servico e do ambiente hospitalar [30].

Estudos acerca da humanizacao do profissional que atua no leito hospitalar observam um distanciamento do profissional, quando experiente, que ja esta "acostumado" em ter contato com a dor e o sofrimento do paciente, levando-o a agir com indiferenca em relacao a estes aspectos [31].

A relacao de ajuda e um instrumento de grande valor para que se estabeleca uma comunicacao direta, esclarecedora e eficaz [32].

CONCLUSAO

Concluiu-se com este trabalho que as percepcoes referidas pelos estagiarios-pesquisadores estao diretamente relacionadas ao impacto emocional.

Foram referenciados sentimentos de ansiedade e frustracao; inseguranca e incapacidade; angustia, tristeza e medo; empoderamento profissional; empatia e lembrancas e; sentimentos negativos, principalmente ao contato inicial com o paciente no Ambito hospitalar.

A falta da vivencia interfere na atuacao do estagiario, fazendo-o buscar o apoio do docente. E pela experiencia, imbuida da pratica, que o estagiario adquire conhecimento tecnico-pratico, proporcionando uma reflexao critica que o leva a autoconfianca.

A importAncia de levar o aluno ao pensamento critico-reflexivo torna-o um profissional consciente de seu papel na sociedade, possibilitando a um atendimento mais humanizado e diferenciado implicando em uma melhora na qualidade de atendimento do paciente debilitado.

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Moises Andrade dos Santos de Queiroz (1), Camila Lima Verde Teixeira (2), Cleiciane Martins Braga (3), Kelly Alves de Almeida (4), Rakel Ximenes Pessoa (5), Rita de Cassia Araujo Almeida (6), Thamyris Marron de Mesquita (7), Maria Claudia Mendes Caminha Muniz (8)

(1) Fonoaudiologo; Mestrando em Ciencias Medicas pela Universidade Federal do Ceara, UFC, Fortaleza, Ceara, Brasil.

(2) Fonoaudiologa graduada pela Universidade de Fortaleza, UNIFOR, Fortaleza, Ceara, Brasil.

(3) Fonoaudiologa graduada pela Universidade de Fortaleza, UNIFOR, Fortaleza, Ceara, Brasil.

(4) Fonoaudiologa; Mestranda em Saude Coletiva pela Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, Cuiaba, Mato Grosso, Brasil.

(5) Fonoaudiologa graduada pela Universidade de Fortaleza, UNIFOR, Fortaleza, Ceara, Brasil.

(6) Fonoaudiologa graduada pela Universidade de Fortaleza, UNIFOR, Fortaleza, Ceara, Brasil.

(7) Fonoaudiologa graduada pela Universidade de Fortaleza, UNIFOR, Fortaleza, Ceara, Brasil.

(8) Fonoaudiologa; Professora Assistente do curso de Fonoaudiologia da Universidade de Fortaleza, UNIFOR; Mestre em Saude Coletiva pela Universidade de Fortaleza, UNIFOR, Fortaleza, Ceara, Brasil.

Conflito de interesses: inexistente

http://dx.doi.org/10.1590/S1516-18462012005000082

RECEBIDO EM: 08/04/2011

ACEITO EM: 05/08/2011

Endereco para correspondencia

Moises Andrade dos Santos de Queiroz

Rua 1044, 16, Conjunto Ceara Fortaleza--CE

CEP: 60532-820

E-mail: moisesandrade@live.com
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:de Queiroz, Moises Andrade dos Santos; Teixeira, Camila Lima Verde; Braga, Cleiciane Martins; de Alm
Publication:Revista CEFAC: Atualizacao Cientifica em Fonoaudiologia e Educacao
Date:Jan 1, 2013
Words:5138
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