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Culture And Politics, Yesterday And Today. An Interview With Roberto Schwarz/Cultura e politica, ontem e hoje. Entrevista a Roberto Schwarz.

Ao longo de seu trabalho como critico literario, Roberto Schwarz investigou as literaturas e culturas do Brasil sempre em dialogo com o contexto politico e socioeconomico do pais, bem como, ao mesmo tempo, tentando compreender a realidade local como parte do sistema desigual das relacoes internacionais impostas pela modernidade capitalista ocidental. A combinacao do materialismo marxista com a leitura detalhada do New Criticisim e da Teoria Critica levou-o a desenvolver uma pratica analitica original, iluminando particularmente o contexto pos-colonial brasileiro. Em seu diagnostico panoramico das manifestacoes artisticas, uma preocupacao recorrente esteve ligada as transformacoes do campo cultural brasileiro a partir das recomposicoes politicoeconomicas introduzidas sistematicamente na regiao na decada de 1950 --restruturacoes inauguradas por uma serie de regimes ditatoriais que geraram um colapso de alguns paradigmas da luta politica e um salto para uma sensibilidade pos-nacional com a instalacao do mercado como eixo articulador das logicas estatais e sociais. O novo programa para o Brasil e para America Latina e agora ditado pelo neoliberalismo. E ainda que as Americas lusofona e hispanofona tenham percorrido vias paralelas nas ultimas decadas, as reflexoes conjuntas sobre essas transformacoes ainda sao escassas, tomando como base a teoria produzida na propria regiao. Em este contexto, quisemos dialogar com Roberto Schwarz e com seu trabalho sobre as mudancas experimentadas no Brasil e nas Americas, apontando para avaliacoes criticas e interpretativas de nossos passados recentes e nossos possiveis futuros.

Bruna Della Torre (BDT) y Monica Gonzalez Garcia (MGG): Como critico literario, um dos autores que voce estudou com mais detalhe e originalidade e o romancista Machado de Assis. Sobre ele voce diz que as vezes surgem certas obras que conseguem caracterizar e sintetizar a historia de um pais que ainda nao tem uma historia cultural consistente e propria, e que entao se nutre de modelos estrangeiros como os que provem da Europa. Esse foi o caso do Brasil durante um periodo extenso apos a Independencia, mas tambem o caso das republicas latino-americanas que, depois de se livrar da Espanha, continuaram a olhar para a Europa em busca de modelos de arte, cultura e pensamento. Neste sentido, voce acha que podemos ler a literatura de Machado nao so como uma "alegoria do Brasil" mas tambem das aspiracoes das elites latino-americanas, aspiracoes sempre questionadas por um entorno dependente, subdesenvolvido, periferico, neocolonial--para usar so alguns dos conceitos que nas ultimas decadas procuraram descrever e explorar os paradoxos regionais?

Roberto Schwarz (RS): A obra de Machado de Assis sempre foi um problema para a nossa critica. Durante muito tempo ela foi vista como um corpo estranho na literatura brasileira. Fugindo a voga do romantismo patriotico e pitoresco, posterior a Independencia, ela pareceu pouco nacional a muitos leitores, para nao dizer estrangeirada e sem sangue nas veias. Tambem o seu gosto pela analise, em prejuizo da aventura, apontava nessa direcao. Ja aos contemporaneos naturalistas, fixados nas fatalidades de raca e clima, ela parecia alheia ao novo espirito cientifico. Para eles, um romance brasileiro nao seria moderno sem os ingredientes apimentados da mesticagem e do tropico. Ainda assim, por razoes dificeis de explicar, Machado era reconhecido como o maior escritor do pais e o unico com estatura universal. Uma sintese desse paradoxo se encontra num ensaio injusto e agudo de Mario de Andrade, que nao incluia nenhum de seus romances entre os dez melhores de nossa ficcao (!), embora se orgulhasse do compatriota genial, que o mundo ainda iria reconhecer como um dos grandes. Hoje ha certo consenso quanto a extraordinaria acuidade social e nacional de seus contos e romances, sem falar em seu alcance critico e modernidade estetica.

A viravolta se deu devagar e passo a passo. Em 1935 Augusto Meyer publicou um conjunto de pequenos artigos que mudavam o quadro. Em lugar do mestre da lingua e do decoro, um tanto engravatado e insosso, que merecia o aplauso do establishment, entrava um Machado perverso, um modernissimo "monstro cerebral", proximo de Dostoievski, Nietzsche e Proust. O prosador arqui-correto, amigo dos classicos, a quem nunca faltava uma citacao de Aristoteles, Santo Agostinho, Erasmo, Pascal, Schopenhauer etc. etc., na verdade escondia um escritor de ponta, dos mais irreverentes. Meyer arrancava Machado a companhia dos literatos oficiais e convencionais e o aproximava dos grandes espiritos do tempo, o que ajudava muito a perceber a sua genialidade, mas tornava mais dificil ainda entender a sua relacao com o acanhamento da cultura nacional.

O problema seria solucionado por Antonio Candido, num capitulo de sintese sobre a nossa ficcao romantica. A tese do Machado universalista, influenciado pelos grandes da literatura ocidental, mas indiferente as letras e realidades locais, era posta em xeque. Ao contrario da voz corrente, Candido observava que o romancista havia estudado e aproveitado em detalhe a obra de seus predecessores brasileiros, figuras secundarias, muito menores do que ele, mas cuja contribuicao foi substantiva (436-437). Este ponto e central.

Sob o signo da cor local e de sua magia, a ficcao romantica havia cumprido um programa de incorporacao literaria das regioes, dos costumes e das realidades sociais do pais, recentemente emancipado. Tratava-se de um programa patriotico e quase sociografico, o qual em pouco tempo produziu uma pequena tradicao de romances mais ou menos estimaveis, que satisfaziam o gosto de um publico pouco exigente embora sequioso de identidade nacional (Candido 432-434). Pois bem, com memoravel tino critico Machado soube enxergar nesses livros provincianos um substrato de outra ordem, com possibilidades diferentes, de grande literatura, o qual iria explorar. Algo como um negativo da modernidade, a qual eles aludiam por contraste e, bem pesadas as palavras, por ingenuidade e pelo que deixavam a desejar, projetando um avesso insuspeitado. Por inesperado que isso fosse, a trivialidade amavel do localismo romantico trazia latente um fundo poderoso, o complexo tao brasileiro do liberalescravismo clientelista, com seu labirinto proprio, sem nada de ameno. Este fazia ver--desde que os oculos fossem machadianos--uma insercao diferenciada no presente do mundo. Em suma, as relacoes sociais nao burguesas da ex-colonia (escravidao, dependencia pessoal direta, pseudo ordem burguesa), bem como a sua elaboracao pela prosa romantica, forneceram a Machado uma argamassa historica densa, de imprevista repercussao contemporanea, que lhe permitiu a aventura de sua obra modernissima. Dificil e profundamente dialetica, essa conexao e um dos segredos da literatura machadiana. O prosador erudito, impregnado de classicos e cosmopolitismo elegante, que havia monopolizado ate entao as atencoes da critica, nao desaparecia, mas era sobredeterminado, com infinita ironia, pelo conjunto das relacoes sociais locais em que banhava, que eram tudo menos requintadas. Nesta dissonancia surpreendente, a estreiteza provinciana adquiria um relevo e uma profundidade notaveis, que eram uma qualidade nova, de alto humorismo, alem de exata socialmente. Encasacado em seu repertorio culto e europeizante, evoluindo numa situacao retardataria, marcadamente de segunda classe, a que nao faltava o elemento barbaro, o narrador machadiano transformava-se em personagem emblematica e problematica, na verdade um grande achado realista. Reconfigurado pelo contexto, encenava uma comedia ideologica original, caracteristica da vida na periferia da ordem burguesa, ou melhor, nas sociedades em processo de descolonizacao.

Assim, voltando a suas perguntas, Machado nao comecava do zero. Quando escreveu as Memorias Postumas de Bras Cubas, seu primeiro grande livro, em 1880, ele dava continuidade a quarenta anos de tentativas ficcionais anteriores--resta ver, e claro, que tipo de continuidade. Com mais e menos talento, os seus antecessores haviam escolhido e fixado um acervo de paisagens, situacoes caracteristicas, tipos sociais interessantes, conflitos de classe, timbres de prosa e humor, pontos de vista narrativos, modelos estrangeiros etc. Tomadas em si mesmas, essas opcoes iam do desastrado ao divertido, do banal ao curioso, do conformista ao irreverente, mal ou bem colocando em perspectiva e formalizando algum aspecto da realidade local. O conjunto e modesto e representa o esforco de autoconhecimento e auto-figuracao de uma sociedade nacional incipiente, que procurava a si mesma por meio da imaginacao romanesca. Talvez nao seja injusto dizer que a atencao que esses livros ainda hoje merecem do leitor exigente se deve a seu papel na preparacao da obra machadiana --preparacao naturalmente involuntaria.

Com efeito, Machado nao so levou em conta esses romances medianos, como enfiou neles a "faca do raciocinio"--expressao sua--, para lhes testar a substancia, tanto social como artistica, e tirar as consequencias do caso, como escritor que nao aceitava ser iludido. Com perspicacia absolutamente fora do comum, que ate hoje deixa boquiaberto, ele pos a prova da realidade e da consistencia interna o trabalho literario de seus confrades, o qual retificava. Entusiasmo patriotico, santidade das familias, ordem social, normalidade psiquica, solucoes de linguagem e forma, importacao de modas literarias, ideias correntes, certezas do progresso, tudo foi examinado criticamente, estabelecendo um patamar de consciencia inedito no pais (embora nao reconhecido) e raro em qualquer parte. Digamos entao que a continuidade refletida com uma tradicao de segunda linha lhe permitiu dar um passo extraordinario, uma superacao critica em grande estilo, paradoxalmente moderna, que talvez seja a sua maior licao como artista pos-colonial.

Ainda em relacao a sua pergunta, o salto qualitativo de que falamos tem varios ensinamentos contra-intuitivos. 1) A forca negadora e superadora da grande literatura pode ter uma divida importante com as limitacoes do universo artistico a que ela se opoe. 2) Em paises perifericos, a invencao formal nao nasce da recusa dos modelos metropolitanos, mas de sua verificacao critica pela experiencia local, a qual se transcende e universaliza atraves desse confronto. 3) Talvez seja verdade que a producao artistica de paises na periferia tenda a adquirir uma dimensao suplementar de alegoria nacional, ja que a experiencia de incompletude e inferioridade relativa e um fato ubiquo da vida nesses paises, experiencia inescapavel, que tinge os seus esforcos de superacao e neste sentido os alegoriza. Entretanto, em romances de tipo mais ou menos realista, a substancia do trabalho artistico esta na incorporacao e transfiguracao de relacoes reais, que lhes dao o peso representativo, que so secundariamente participa do convencionalismo da abstracao alegorica. 4) De fato, o narrador machadiano passeia o seu refinamento cosmopolita pelo ambiente pitoresco da ex-colonia, entre relacoes atrasadas e bisonhas, sem proporcao com a envergadura e a complexidade dele proprio, o que pode ser visto como um emblema das elites latino-americanas, que nalguma medida compartilham essa situacao. Mas por que "alegoria"? Ele nao e a figura convencionada de uma entidade abstrata--suponhamos a Justica, a Industria, a Financa, o Brasil--e sim a sintese de uma condicao historica real, apreendida num lance de genio. Dito isso, esta apreensao e apenas a metade da proeza. A outra metade, maliciosa ao extremo, esta na transformacao desse narrador--uma personagem decididamente criticavel--em principio formal, em gerador da invencao literaria e em organizador da ficcao.

BDT y MGG: Voce afirma, no seu livro Martinha versus Lucrecia, que tanto o Tropicalismo quanto a Antropofagia de Oswald de Andrade eram programas esteticos do Terceiro Mundo. O que voce quis dizer com isso? Poderia explicar melhor? Por outro lado, mas tambem nesse contexto, voce nao acha que e um pouco injusto com Oswald de Andrade ao aproxima-lo tanto do Tropicalismo? Afinal, a Antropofagia dele vestiu-se de vermelho e O rei da Vela, apesar do que se fez depois, era uma peca de critica da burguesia e de sua alianca com o capital estrangeiro. Sera que nao ha uma "performance de identidade" em grau muito mais elevado na estetica tropicalista do que no modernismo de Oswald?

RS: A poesia antropofaga de Oswald de Andrade, que e piadista desde o titulo, tem uma formula simples e genial no seu minimalismo. Tratase da contraposicao a seco, em espirito de montagem vanguardista, de imagens representativas do Brasil moderno e arcaico, escolhidas a dedo pela vivacidade do contraste. Muito dissonante, com algo de blague e disparate, o resultado e visto como alegoria humoristica do pais, captado em seu afa comovente de superar o atraso. Como o procedimento artistico e de ponta, impregnado da irreverencia da revolucao literaria europeia, o conjunto respira otimismo e leveza, e como que promete uma colaboracao feliz, para nao dizer utopica, de seus tres tempos desencontrados--premoderno, moderno e revolucionario--que convivem dentro do poema.

Em 1967, quarenta anos depois, tambem o Tropicalismo acopla o ultrapassado e o ultramoderno, a data vencida e o dernier cri, ou melhor, justapoe imagens tomadas ao antigo Brasil patriarcal e tecnicas do Pop internacional mais recente. O ar de familia com a antropofagia oswaldiana e evidente, com uma diferenca. Enquanto em Oswald o entrechoque dos tempos e a promessa de um futuro nacional alegre, em que passado e modernidade se integram sob o signo da invencao e da surpresa, no Tropicalismo ele e a encarnacao do absurdo e do desconjuntamento nacionais, de nossa irremediavel incapacidade de integracao social, enfim, do fracasso historico que seria a nossa essencia. Como diz o proprio Caetano Veloso, a proposito de seu momento mais radical, nunca a cancao popular no pais havia chegado a tal grau de pessimismo. Em perspectiva historica, tratava-se--a meu ver--de uma formalizacao poderosa e sarcastica da experiencia social-politica de 1964, quando a contrarrevolucao conjugou a modernizacao capitalista a reiteracao deliberada das iniquidades sociais de sempre, as quais reconfirmava. A imagem-tipo do Tropicalismo encapsulava a experiencia tao desconcertante, e latino-americana, do progresso que repoe o atraso em lugar de supera-lo. Poesia em pilulas, como em Oswald, mas cuja substancia era uma especie de reincidencia no erro, contemplado com repulsa e fascinacao--o famoso Absurdo Brasil.

Assim, Antropofagia e Tropicalismo sao programas esteticos do Terceiro Mundo, que respondem as questoes da modernizacao retardataria. Oswald com certa euforia, no inicio do processo desenvolvimentista, e Caetano com desencanto estridente, quando as perspectivas do nacionaldesenvolvimentismo parecem se fechar. A captacao da energia historica e vigorosa nos dois casos--vestida de vermelho ou nao--, que por isso mesmo sao momentos incontornaveis de nosso debate cultural. Como observa Enzensberger, e mais facil transformar o subdesenvolvimento em arte do que supera-lo (196). A observacao e interessante, mas, como notou Vinicius Dantas, tambem a crise do Primeiro Mundo e mais facil de transformar em arte que de superar.

BDT y MGG: Talvez possamos utilizar a descricao da literatura de Machado de Assis como capaz de "caracterizar e sintetizar o momento historico de um pais", para pensar o filme Terra em Transe estreado por Glauber Rocha em 1967. Muitos criticos literarios e culturais da esquerda coincidem em qualifica-lo de profetico quanto ao que viria a acontecer no Brasil apos o AI-5, mas tambem na America Latina com o assassinato de Che Guevara no mesmo ano de 1967 e o inicio das ditaduras militares no Cone Sul--metaforica e sinistramente 'irmanadas' pelo voo do condor. O Glauber inspirou-se em Che Guevara para imaginar a personagem de Paulo Martins e inclusive teve a ideia de fazer outro filme sobre os ultimos anos do guerrilheiro argentino em conjunto com Cuba.

RS: Ate onde vejo, o foco de Terra em transe esta na crise de 1964, quando o vasto processo da democratizacao brasileira foi derrotado pela direita civil-militar, com apoio americano. O filme esta vivo ate hoje gracas a coragem e a exaltacao operistica com que enfrenta os impasses da esquerda. O auto-exame se faz atraves da figura de Paulo Martins, um poeta-jornalista sequioso de absoluto, criado entre as benesses da oligarquia e convertido a causa popular e a estrategia do Partido Comunista. Deliberada e impiedosamente problematica, a personagem se debate entre os chamados do erotismo, da revolucao, do privilegio, da disciplina partidaria e da morte, a cujo encontro vai na cena final, de metralhadora na mao. Entre esperancas, lutas, discussoes politicas violentas, contradicoes, traicoes e recuos, o conjunto encena um percurso intelectual em direcao a luta armada. A caminhada com certeza e representativa daquele momento, mas o achado que torna profundo e enigmatico o filme depende de mais outra dimensao. Desde o comeco, ha um baixo-continuo popular que destoa da acao, composto por tambores, cantos e dancas rituais, pela massa mestica e miseravel, subalterna, alheia a discussao politica entre os brancos, vivendo outro tempo. E o aspecto tropicalista de Terra em transe, em que os procedimentos vanguardistas do filme, bem como a sua intriga moderna, se contrapoem com incongruencia ostensiva ao substrato de relacoes coloniais que continua vivo no pais. E um descompasso de alcance historico-politico incalculavel, codificado na realidade brasileira e tambem continental, na estetica tropicalista e, de outro modo, na ficcao de Machado de Assis. Quanto a semelhanca entre Paulo Martins e Guevara, posso estar enganado, mas nao me convence.

BDT y MGG: Falando do critico literario ou cultural como um "metapensador", como voce o definiu em uma oportunidade, a nossa regiao apresenta desafios e problematicas diversas das examinadas por Antonio Candido em um texto como "Literatura e subdesenvolvimento" ou por voce em "Cultura e politica, 1964-1969", mas sao desafios e problematicas herdados daquele intenso momento historico que voces analisam nessas reflexoes. Voce gostaria de comentar?

RS: "Literatura e subdesenvolvimento" faz pela literatura o que os outros classicos da teoria do subdesenvolvimento fizeram para a economia e a sociologia. E um ensaio para ler e reler. E dessas raras reflexoes que organizam a experiencia cultural de um pais e de um continente. No essencial estuda a superacao da velha e acomodada "consciencia amena do atraso", que vinha da Independencia e do Romantismo e para a qual o progresso era algo que chegaria naturalmente, mera questao de tempo. No polo oposto a esse otimismo provinciano e quase infantil, de ex-colonia, ira surgir a "consciencia agonica" desse mesmo atraso, visto como catastrofe contra a qual e preciso lutar com urgencia. Noutras palavras, o sentimento autocomplacente do "pais novo", cheio de promessas mas conservador no fundo, cede o passo a consciencia realista do "pais subdesenvolvido", com adversarios externos e internos e para o qual o futuro e um problema. A inflexao comeca por volta de 1930 e se aprofunda nos anos de 1950. No Brasil a sua primeira manifestacao foi o romance do Nordeste, que trouxe a miseria e o atraso da regiao ao debate nacional. No decenio de 50 o problema ganhou dimensao conceitual na teoria do subdesenvolvimento, com desdobramentos em todos os planos da vida, que de repente se descobria subdesenvolvida de A a Z. Como comecava a ensinar Celso Furtado, o subdesenvolvimento nao e uma etapa transitoria, que precede o desenvolvimento pleno, mas um estagio e um modo de viver que tendem a se reproduzir ou agravar caso nada seja feito. Na esfera da cultura, por exemplo, o sonho dorminhoco e regressivo da originalidade nacional absoluta, que no limite exigia a "supressao de contatos e influencias", tem de ser substituido pela constatacao sobria mas polemica da dependencia e, no melhor dos casos, da interdependencia generalizada, que leva ao questionamento estetico-politico em toda a linha. E claro que o abandono das ilusoes iniciais de autarquia tem algo de progresso critico, apontando para um horizonte menos iludido, ou mais relacional, em que a originalidade almejada resulta da influencia reciproca e livre entre as nacoes. Por outro lado, e claro tambem que este horizonte e ilusorio por sua vez, pois as realidades do Imperialismo e de nossas estruturas sociais inaceitaveis, postas em evidencia pela teoria do subdesenvolvimento, fazem da reciprocidade universal um voto pio. No passo seguinte, o enfrentamento continuado com a iniquidade das estruturas e do Imperialismo tende a criar o intelectual revolucionario, cuja figura assinala um novo patamar.

Por sua vez, "Cultura e politica, 1964-1969" recapitula a movimentacao intelectual e artistica do primeiro periodo da ditadura em seguida ao golpe da direita. Dentro de muita diversidade, a franja avancada das artes--arquitetura, cinema, teatro, cancao, artistas plasticos--bem como do movimento estudantil e da propria discussao politica havia reagido com valentia ao truncamento do processo democratico que apontava para o socialismo. Em todas estas esferas a interrupcao antidemocratica foi recebida como um acinte, uma volta a formas de vida mesquinhas e superadas, que seria grotesco tolerar. A indignacao correspondente esteve na base das posicoes artisticas do periodo, e tambem da passagem duma fracao dos estudantes a luta armada, sem falar noutros setores dispostos a enfrentar algum grau de ilegalidade. Nesta linha, refletindo sobre as razoes da derrota de 1964, uma parte da esquerda responsabilizou pelo desastre a politica de conciliacao de classes recomendada pelo Partido Comunista, que havia naufragado sem luta, a despeito da amplitude do movimento. Muito convincente ate segunda ordem, a critica de esquerda empurrava a radicalizacao em todos os campos, seja esteticos, seja politicos, desembocando na alternativa ainda nao testada, a oposicao pelas armas. A opcao parecia uma vitoria da consequencia sobre a acomodacao e prometia abrir horizontes historicos novos--que em seguida provariam ilusorios por seu turno, com a vitoria brutal mas relativamente facil da ditadura, que triunfava sobre a esquerda pela segunda vez. A derrota da conciliacao seguia-se a derrota da radicalizacao, deixando por terra o socialismo e anunciando o que talvez seja o horizonte contemporaneo, de capitalismo sem alternativa a vista.

Tanto "Literatura e subdesenvolvimento" como "Cultura e politica" tinham a possibilidade da revolucao como uma de suas coordenadas. Os dois ensaios foram publicados em 1970, inicialmente no estrangeiro, pouco depois de decretado o AI-5, que conferiu a ditadura a sua feicao mais tenebrosa. Na esfera politica, talvez se possa dizer que a luta armada se bateu por um imenso campo popular, rural e urbano, desassistido e em boa parte analfabeto (50% a epoca), o qual contudo nao tomou muito conhecimento do que se passava. A implantacao rarefeita, para nao dizer minima, que tornava improvavel o apoio social a luta, se traduziu tambem na qualidade intelectual de seus escritos ou panfletos, que lidos hoje dao uma impressao terrivelmente irreal. Nao assim no ambito da cultura, onde a despeito da derrota politica os resultados foram excelentes e duradouros. Aqui, o mesmo desejo revolucionario de ruptura vanguardista e inclusao popular teve eco profundo, de outra densidade. A revolucao consistia em forcar a estreiteza da cultura burguesa, em reinventar as formas culturais e artisticas com vista na massa dos excluidos e semi-excluidos, a saber, segundo a circunstancia, os estudantes pobres, os trabalhadores urbanos e mesmo o povo rural. Esta aspiracao convergia com o espirito meia-oito internacional, com tendencias profundas do Modernismo brasileiro, que a seu modo havia visado algo parecido na decada de 1920, alem de responder a realidade social do pais, a qual dava visibilidade, com resultado artistico muito bom. Sem prejuizo da derrota politica, o movimento cultural do periodo, com as suas ousadias formais e tematicas, tornava presente o valor da radicalidade estetica e extra-estetica. A vitoria da direita nao impediu que as posicoes da esquerda daquele periodo alimentassem o melhor da cultura brasileira de entao ate hoje, cinquenta anos depois. Dito isso, e claro que o atual aprofundamento da mercantilizacao e o enquadramento consumista-miserabilista dos antigos excluidos sao adversarios quase invenciveis, que requerem respostas novas.

BDT y MGG: Agradecemos o dialogo e esperamos, com ele, estimular a reflexao critica e conjunta sobre a nossa regiao.

doi: 10.5354/0719-4862.50862

Bruna Delia Torre

Universidade de Sao Paulo, Brasil

bruna.della.lima@usp.br

Monica Gonzalez Garcia

Pontificia Universidad Catolica de Valparaiso, Chile

monica.gonzalez@pucv.cl

* Entrevista para o volume Dialogos Sur-Sur. Transformaciones culturales desde la decada de 1960 en Brasil y America Latina. Homenaje a Roberto Schwarz, em preparacao.
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Author:Torre, Bruna Delia; Garcia, Monica Gonzalez
Publication:Meridional. Revista Chilena de Estudios Latinoamericanos
Article Type:Entrevista
Date:Oct 1, 2018
Words:3826
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