Printer Friendly

Cuide de voce: mediacao e estetica do jogo em Sophie Calle.

Uma nova curiosidade parece caracterizar as praticas artisticas nos ultimos anos. Para alem da discussao sobre suportes e linguagens, condicoes de producao e circulacao, parece-nos que e mais diretamente sobre os processos de mediacao e de subjetivacao que tratam certas producoes de arte na atualidade. Hoje tambem se faz arte com lixo, com o corpo, genes, odores, ruidos e celulares, alem de pintura, escultura, fotografia, cinema e video, e preciso se perguntar finalmente sobre o que nos informam tais praticas artisticas.

Ha algum tempo venho propondo pensar a arte como um campo rico para a observacao e analise dos fenomenos da cultura e da comunicacao (Goncalves, 2007; 2009). Parto do principio de que a arte pode ser considerada como operador discursivo dentro de um campo de producao simbolica onde se forjam novas formas de olhar e de estar no mundo.

Arte como experiencia de comunicacao

As praticas artisticas vao interessar aos estudos da comunicacao especialmente pela aventura de carater estetico e subjetivo a que pode dar lugar--onde o estetico diz respeito a formas de sensibilidade criadoras e o subjetivo, a producao social de estilos de vida, no sentido dado a esses termos por Felix Guattari (1993). Um dos argumentos centrais deste texto e que algumas das producoes artisticas hoje apresentam um curioso aspecto relacional, onde alem de sua materialidade imediata (video, performance, fotografia, instalacao) importa tambem perceber as complexas operacoes de combinacao e mediacao que elas constituem (Arderme, 2001; Danto, 2003).

O que parece caracterizar essas operacoes e a mobilizacao e articulacao de diferentes atores e elementos do quotidiano, que conferem a obra um carater de construcao coletiva e que emerge em rede (Ladagga, 2006). O trabalho que resulta desse tipo de criacao deixa de ser apenas visto como processo ou objeto para contemplacao para ser percebido tambem como conjunto heterogeneo de acoes que surgem de operacoes de mediacao.

Esse trabalho com as formas sensiveis a partir de elementos e vivencias do quotidiano pode ser considerado um trabalho de comunicacao. Ao criar aquilo que Deleuze e Guattari (1992, p. 264) chamaram de afetos e perceptos (2), ou seja, modos de "tornar sensiveis forcas insensiveis", o que os artistas fazem e capturar e mostrar "pedacos do caos numa moldura". No caso em questao, "pedacos" das dinamicas e configuracoes da vida social para formar especies de "imagens sensiveis" dessas configuracoes. Esse tipo de producao simbolica em que formas sociais sao tornadas objetos artisticos sem, contudo, constituirem formas de representacao (3), chama nossa atencao exatamente pela possibilidade de produzirem cartografias poeticas do nosso presente (Goncalves, 2009). Mapas que nos permitem falar de modos de amar, de perder, de comunicar, de sentir, de aprender, lembrar, esquecer, ferir, de cuidar-se e dar-se a ver em nossas sociedades. Atos aparentemente banais, essas experiencias sao explorados pelas artistas, articuladas e traduzidas em formas sensiveis.

Ao trazer para discussao os trabalhos da artista francesa Sophie Calle, o objetivo e analisar como, particularmente na exposicao Cuide de voce, se elaboram os processos relacionais que constituem o rico aspecto comunicativo de sua obra. A partir dos conceitos de mediacao e traducao em Michel Serres (1984), Bruno Latour e Michel Callon (2006), nos interessara discutir como a artista cria mecanismos que mobilizam e poem em relacao distintas instancias--artisticas, tecnicas, comunicativas--, que se afetam mutuamente e permitem pensar questoes como, por exemplo, intimidade e identidade enquanto producoes discursivas dentro de uma cadeia heterogenea de outros enunciados.

Seguindo uma historia

Um homem rompe com a amante por e-mail e termina o texto com um Cuide de voce. Seguindo o conselho do ex-namorado, um famoso escritor, a mulher resolveu "cuidar de si" convidando 107 outras mulheres para analisarem o documento e responde-lo em seu lugar. A mulher e Sophie Calle, artista francesa com mais de trinta anos na cena artistica contemporanea e Cuide de voce e uma de suas mais conhecidas exposicoes, que percorreu varios paises antes de chegar ao Brasil no final do ano passado, apos estrear na Bienal de Veneza em 2007.

Num corpo de trabalho que discute vulnerabilidade humana, identidade e intimidade, Calle ficou conhecida por sua habilidade de investigacao da vida alheia e da exposicao de suas "experiencias pessoais" como material de criacao. E como diversos artistas que trabalham com o autobiografico ou com a intimidade do outro, nao se trata ai meramente de uma operacao narcisista ou de simples voyeurismo. A experiencia esta mais proxima daquilo que Annie Ernaux (1994) chamou de "eu transpessoal", onde o si nao constitui forma de construcao de uma identidade, mas de compreensao dos signos de uma realidade familiar, social ou passional. O resultado e um mergulho do espectador num espaco que e ao mesmo tempo individual--pela identificacao com situacoes pessoais banais que podem ocorrer com qualquer um--e social--pela dimensao que esse genero de experiencia pode criar, uma vez mediatizada. Portanto, nao e o si ou o outro que de fato interessa no trabalho da artista, e sim a experiencia social da intimidade, do publico e do privado, vivida de forma individuada como figura de uma producao subjetiva.

Situado por alguns criticos na tradicao da arte conceitual dos anos 60 e 70, Calle ficou conhecida por criar um corpo de obra formado por estranhas obsessoes e estrategias. Fascinada pela interface entre vida publica e "eus" privados, a artista se interessou no inicio de sua carreira pelos padroes de comportamento de anonimos e, para investiga-lo, utilizou tecnicas pouco ortodoxas, semelhantes as dos detetives particulares. Tambem se interessou em investigar o seu proprio comportamento, para que elementos de sua propria vida funcionassem como ponte de partida para suas criacoes. Uma forma de arrumar e dispersar memorias (suas e dos outros) e de rearranja-las.

Um de seus primeiros e curiosos trabalhos foi Les Dormeurs, de 1979. Calle conta que certo dia uma amiga pediu para dormir em seu apartamento e acabou dividindo a cama com ela. A artista achou interessante a ideia de compartilhar um espaco intimo e resolveu chamar outros 28 conhecidos e desconhecidos para repetir a experiencia (4). Cada pessoa passava 8h em seu leito a qualquer hora do dia. Durante esse tempo Calle filmava, fotografava e entrevistava os convidados. O resultado foi um documentario dividido em blocos com o nome de cada visitante e um resumo de sua estada, acompanhado de fotos PB. Aos poucos a artista ficaria conhecida como uma "contadora de historias". "Historias" que ela contaria de forma bastante particular.

Em outros de seus primeiros trabalhos, Calle encontra gente ao acaso nas ruas e as segue, faz fotos e filmes. Logo, porem, o desejo de observar o comportamento e as acoes de estranhos a levaria a interessar-se pela questao da identidade e da vigilancia. Depois de seguir e fotografar estranhos em Paris e Veneza, decidiu pedir a mae para contratar um detetive para segui-la. Logicamente, tudo e pensado nos menores detalhes e a operacao torna-se uma especie de performance. Ao mesmo tempo, as historias sao todas "verdade", como ela fez questao de dizer. Verdade da ficcao. Verdade inventada. E que a artista nao esta interessada em seu proprio comportamento ou em colocar-se no lugar do outro, mas simplesmente em vivenciar a experiencia de ser seguida. Como em muitos trabalhos, ela estabelece regras, como num jogo.

No caso em questao, levou o detetive a seus lugares preferidos e o resultado foi La Filature (1981). Nele, Calle exibe o conjunto das fotos dela feitas pelo detetive, os textos dos relatorios de seus movimentos diarios e seus relatos sobre a experiencia de ser seguida. Inclui tambem fotos do proprio detetive (5) e uma curiosa passagem em que ela vai ao Louvre ver um de seus quadros favoritos e fica la intencionalmente por horas, de pe, diante do quadro, obrigando-o a admirar a obra tambem.

Desde seus primeiros trabalhos, filmes, fotografias e textos sao recorrentes e existem em uma estrutura circular auto-referente: os elementos mencionados no texto sao encontrados novamente nos filmes e nas fotografias, mas o seu papel como primeira evidencia narrativa e (re)construido atraves da narrativa do conjunto da obra-historia, cuja credibilidade esta exclusivamente nas maos da artista.

Nesse mesmo periodo, Calle vai explorar tambem questoes relacionadas a privacidade. O formato e igualmente documental: preto e branco, justaposta com textos descritivos. O resultado e um olhar intrigante da relacao obsessiva de Calle com seus anonimos. E uma relacao em que Calle conhece as pessoas nao por meio de sua existencia direta, mas atraves dos vestigios que deixam para tras.

O que chama a atencao sao seus metodos, as vezes bastante controversos. Em L'Hotel (1981), por exemplo, a artista se faz contratar por cerca de um mes como camareira em um hotel em Veneza. Ela limpa os quartos para ter acesso a eles e poder assim espionar a intimidade dos hospedes. Olha o interior de malas e armarios, le suas cartas e documentos, tira fotos e faz anotacoes. Apesar da tatica invasiva, o objetivo nao e simplesmente devassar a vida dos outros para conhece-la melhor. Ela coleta evidencias que servem apenas como elementos para a criacao de um jogo narrativo. O texto escrito pela artista combina fato, ficcao e impressoes dos hospedes cujos quartos espreitava. Em 1984 ela publica as fotografias dessas "invasoes" acompanhadas das descricoes de seus "diarios de campo".

Se, de certa forma, Calle transforma o espectador ou o leitor em cumplice de seu "voyeurismo", e importante notar que ela parece faze-lo animada por um desejo de auscultar a esfera da vida privada (que ela adentra sem ser convidada, porem, sem ser completamente antietica). Na mesma linha de raciocinio encontra-se Le Carnet d'adresses.

Calle encontra, em 1983, uma agenda na rua, que devolve mais tarde ao dono. Antes, porem, decide fotocopia-la, ligar para alguns dos numeros de telefone e falar com as pessoas sobre o seu dono (6). A artista depois transcreveu essas conversas e adicionou fotografias das atividades favoritas do homem (simuladas ou registradas com outras pessoas), criando assim um retrato de alguem que ela nunca conheceu, por meio de seus conhecidos. As conversas foram publicadas na forma de 28 artigos no diario frances Liberation. Quando descobriu, o proprietario da agenda, um documentarista, ameacou processar a artista por invasao de privacidade. Calle conta que achou a reacao muito interessante e que o proprietario, tendo descoberto mais tarde uma fotografia dela nua, exigiu que o jornal a publicasse em retaliacao por aquilo que ela lhe havia feito. Le Carnet d'adresses consistiu entao na exposicao dos textos publicados pelo jornal, as mencionadas fotos das atividades do dono da agenda e o registro de suas acusacoes.

Controversias a parte, e interessante observar que Calle produz com seus projetos uma especie de ficcao da intimidade, que cumpre uma dupla funcao: primeiramente, questiona e embaralha a relacao espectador x sujeito/objeto, revelando suas armadilhas e ilusoes. Em segundo lugar, como historias deliberadamente inventadas, funcionam como um mecanismo que questiona a natureza da intimidade e da verdade sobre o outro, expon do-as como jogo narrativo, evidenciando assim seu aspecto de construcao social e discursiva.

Finalmente, e curioso perceber como, ja em seus primeiros trabalhos, a artista vai mobilizando e enredando diferentes elementos em sua obra, que se constitui a partir de uma operacao de conexao e combinacao. E justamente esse aspecto dos trabalhos de Calle que estou chamando de "relacional" e que procurarei aprofundar a seguir.

Cuide de voce

Tarde escaldante no Rio. Mais um domingo de praias lotadas. Decido ir ao MAM (7) ver a exposicao de Sophie Calle, que chegara a cidade no inicio de dezembro, depois de ter passado por Sao Paulo e Salvador.

O espaco do museu dedicado ao trabalho da artista fica no segundo andar, juntamente com outra grande exposicao. O salao e amplo e ladeado por janeloes transparentes que vao do piso ao teto e dao vista para os predios do centro, de um lado, e para a Baia de Guanabara, do outro. O calor intenso nao afasta os visitantes, que se contam as dezenas e que iam se sucedendo ao longo das 5h que passo no MAM.

A entrada, o visitante se depara com uma grande parede negra onde estao dispostas 34 fotos coloridas em tamanho grande de algumas das mulheres convidadas pela artista para "responder" o e-mail de X, escrito no estilo de uma carta comum. Do outro lado da parede, uma video-instalacao composta por telas de grandes e pequenos formatos apresenta "respostasperformance" de diversas artistas, dentre as quais Laurie Anderson, Jeanne Moreau, Maria Medeiros e Victoria Abril.

As 107 mulheres--das quais a exposicao no Rio mostrou 46--foram escolhidas por suas profissoes, mas com uma particularidade: todas deveriam trabalham com a interpretacao de textos. Entre anonimas e conhecidas, as mulheres receberam uma copia do e-mail e foram convidadas a responde-lo "de um ponto de vista profissional", cada qual do seu jeito e dentro da linguagem que caracterizava sua expertise. As "respostas" sao, na verdade, diversas formas de reacao ao e-mail, como comentarios, interpretacoes e/ou apropriacoes do documento. Fotos, videos, contos, traducoes, partituras musicais, performances, analises juridicas, balancos contabeis, analises de discurso e de lexicometria, pareceres clinicos, analises sociologicas, tabelas, torpedos SMS, mensagens cifradas em codigo morse compunham entao o trabalho.

Na exposicao, os discursos sao apresentados e distribuidos de diversas maneiras, a comecar por copias gratuitas do e-mail-carta de X para os visitantes e um livreto com a traducao dos textos expostos para consulta. Em seguida, instalado em diagonal, ha um longo muro branco que atravessa a imensa sala, dividindo-a em dois. Afixados nele, podemos ver, de ambos os lados, fotos de algumas das mulheres acompanhadas da reproducao de suas "respostas". No final do muro branco, um enorme telao exibe mais alguns videos-resposta, como uma danca oriental e uma sessao de tiro tendo a carta como alvo.

Embora Cuide de voce parta de um acontecimento intimo, pessoal, Calle faz questao de lembrar que nao e essa a questao do trabalho. A artista afirma que seu interesse nao e nem exibir seus sentimentos nem tratar de emocoes. Ela tampouco se interessa pelo conteudo em si das "respostas". O que lhe importa e mobilizar pessoas e sensibilidades e produzir uma historia formada por multiplas formas de narrativas. Como em alguns de seus trabalhos anteriores, chama atencao o fato de tantas pessoas (algumas conhecidas suas, a maioria, anonimas) terem aceito esse tipo de convite e de se engajarem tambem em dar uma "resposta" para um assunto que nao lhes diz respeito, ao menos diretamente. Contudo, e esse o tema do trabalho: o por em relacao diferentes perspectivas numa logica de jogo.

Tanto por parte da artista quanto por parte das mulheres, o que sobressai no conjunto da exposicao nao sao os elementos de uma autoexpressao, mas a formacao de um mecanismo de producao de discurso, de distribuicao de saberes e de deslocamento de pontos de vista. O e-mail de rompimento, de pessoal e banal, passa a ser fato cultural e objeto de analise em um dominio mais amplo. E que, enquanto "resposta", o trabalho pode ser viso como uma "pergunta" e nao simplesmente como forma de "curar" uma dor intima.

Esse aspecto de producao discursiva (obra) a partir da convocacao de multiplas vozes nao passou despercebido por alguns dos visitantes da exposicao. M, 27 anos, administradora, afirmou (8) que o que mais a impressionou foi a justamente a diversidade das perspectivas: "achei interessante a ideia em si, como as diferentes perspectivas imprimem uma marca nas analises e nas respostas". Mas houve tambem quem dissesse que nao entendia a razao de tudo aquilo e que achou a exposicao um exagero, como a estudante K, 15 anos: "Muito barulho por nada. Eu li a carta e nem achei tao agressiva assim. Pra que fazer tudo isso? E inutil... improdutivo. E as fotos sao esteticamente sem interesse". Ou quem achasse que a artista nao soubera lidar com a perda, mas que nem por isso deixara de fazer dinheiro e de se promover com a experiencia, como H, 49 anos, dona de casa.

Polemicas a parte, muitos visitantes pareciam absorvidos pela exposicao. Em duplas, sozinhos ou pequenos grupos, alguns se deixavam ficar longamente assistindo os videos, sentados. Muitos carregavam o livrinho especialmente criado para a exposicao com a traducao dos textos para poderem entender e apreciar as "respostas". Alguns tinham ate as suas preferidas, como H, estudante de Direito de 24 anos, que afirmou nunca ter visto esse tipo de trabalho em um museu. Ao perguntar-lhe qual das "respostas" mais chamou sua atencao, ele diz ter sido a de Ambre, 9 anos e meio. A menina estranha palavras como "irremediavel" e "farsa"; afirma nao entender a razao do homem dizer que ama a mulher mas que nao quer mais ficar com ela; e que quando X diz que gostaria que as coisas terminassem de outro jeito, isso pareceu dizer que elas iam terminar mal. Ou da ja citada M., que afirmou ter gostado muito da analise do comportamento de X feita por H.B, headhunter, para quem X e um candidato com um perfil "instavel" e "auto-centrado" e, por isso mesmo, "complicado".

Mesmo que a impressao da maioria dos visitantes sobre o trabalho girasse em torno dos fatos que lhe serviram de suporte--a carta de rompimento e as "respostas" -, foi curioso perceber que, em certa medida, o trabalho parecia engaja-los tambem subjetivamente. E se isso nao aconteceu com todos, pelos menos alguns pareceram, pelos comentarios que faziam e que pude ouvir, enredados pela teia formada a partir de uma experiencia pessoal: as reacoes das mulheres e a apropriacao e mobilizacao de seus saberes pela artista.

Nesse processo de enredamento, chamou particularmente minha atencao o modo como ocorre o agenciamento dessas multiplas vozes: a artista muito habilmente cria um circuito de criacao coletiva, arruma os discursos e os distribui como elementos plasticos e esteticos. Estes, por sua vez, vao gerar outros tipos de percepcao do fato que originou a obra. Finalmente, nessa rede discursiva, as vozes vao poder circular, produzir e engajar outros discursos (como a deste pesquisador, por exemplo).

De fato, a ideia da convocacao dessas vozes, os criterios de escolha da natureza dos pontos de vista, a producao de distintas perspectivas e seus modos de apresentacao parecem cumprir uma dupla funcao. Primeiramente, diluem o carater pessoal e intimo da experiencia do rompimento amoroso. Em seguida, deslocam o fato de seu aspecto individual para seu aspecto social, atraves de uma operacao de despersonalizacao e distanciamento, dado que cada reacao remete a modos de apreensao e interpretacao marcados por determinados modos de construcao de discurso. Cabe ressaltar, porem, que apesar da artista ter colocado como condicao as respostas serem dadas de um ponto de vista profissional, ela nao esta necessariamente interessada em seu conteudo enquanto funcao enunciativa (Foucault, 1984), mas enquanto possibilidades e variacoes discursivas.

E assim, por exemplo, que Micheline Renard, linguista, faz uma analise lexicometrica da mensagem de X, em que sublinha a recorrencia de determinados termos e a complexidade das construcoes frasais; Michele Delmas, criminologista, vai ver X como um sedutor e manipulador, incapaz de enfrentar conflitos; X, juiza, faz uma analise da relacao de ambos como sendo altamente contratualizada e vai ver X como alguem que justamente quebra um contrato; Caroline Mecary, advogada, invoca artigos do codigo civil para enquadrar o comportamento de X como fraude e sugere dois anos de prisao ou multa de 37.500 euros; a jornalista do Liberation, Florence Aubenas, da 5 razoes para nao publicar a carta por nao atender a nenhum criterio relevante de noticiabilidade do fait divers; Nilufer Golle, sociologa, vai falar da exacerbacao do amor heterossexual no ocidente, que segunda ela refletiria o "espirito do tempo" de nossas sociedades; Anna Bougureau, uma adoles cente, responde com um SMS que diz apenas "ele se acha"; Monique Sindler, sua mae, se solidariza com a filha, sugere que ela nao hiperdramatize a situacao e transforme a experiencia numa obra de arte; a curadora de museu sugere que ela prepare uma pilha de copias do email para visitantes levarem no caso de uma eventual exposicao.

Ao apresentar esses fragmentos, desejou-se tao somente ilustrar os tipos de "respostas" dadas e nao reforcar relacoes do tipo "tal pessoa representa tal profissao" e/ou "tal profissao produz tal tipo de discurso", o que seria cair nos imbroglios da representacao. E claro que, uma vez que cada profissao implica determinadas formas de saber e de poder, essa implicacao deixa marcas nos discursos dos sujeitos (9). Mas esta parece ser apenas uma das pontas ou dos nos do circuito que a obra cria. O que parece realmente interessar a artista nao e representar formas dos discursos, mas sim jogar com as representacoes: apresentar e organizar distintas narrativas e poder contar uma historia feita de outras historias.

Curiosamente, pode-se tambem perceber que a artista mescla as respostas com ponto de vista profissional com outras que fogem a essa regra. E o caso das respostas da menina de 9 anos e meio, da adolescente e da mae. Sao vozes aparentemente exteriores ao jogo, mas que apesar disso sao tambem mobilizadas enquanto funcoes enunciativas para, em seguida, serem integradas na rede que compoe o trabalho de Calle com os discursos. Esse e o jogo.

O trabalho de Hermes

Depreende-se que o objeto da exposicao nao sao as respostas ao email, mas o circuito de discursos formados por diferentes narrativas. O trabalho apresenta assim um interessante aspecto relacional, que consiste na criacao de um espaco por onde circulam afetos, discursos e praticas sociais. Embora esse aspecto relacional seja percebido como fato comum em certas praticas artisticas contemporaneas, como sugere Nicholas Bourriaud (1998), e que podem ate oferecer ferramentas para mudar a percepcao da realidade e criar formas de sociabilidade, percebemos que na obra de Calle "relacao" nao e necessariamente partilha ou troca, e sim, jogo, como sugere Anne Sauvageot (2007) na analise de sua obra.

De fato, como comenta Sauvageaot (2007), Calle nao parece estar preocupada com a constituicao de uma rede de solidariedade nem em entender e diluir sua dor por meio de diferentes pontos de vista. Segunda ela propria afirma, nao e a emocao que esta em jogo em seus trabalhos, e sim a verdade da ficcao, das historias que deseja contar. De forma que me parece ser preciso entender o aspecto relacional e de comunicacao de sua obra sob outro angulo. E e em Michel Serres, Bruno Latour e seu ex-colega da Ecole de Mines de Paris, Michel Callon, que procurei algumas pistas e encaminhamentos.

Em seu livro sobre a comunicacao, Serres (1984, p. 180) analisa o metodo foucaultiano da arqueologia e sublinha seu aspecto "geometrico", que punha num mesmo plano ou diagrama dominios distintos, como as praticas sociais, politicas e economicas, para entao cruza-los, de modo a poder tracar sua historia da loucura, da prisao, etc. E esse conectar diferentes elementos num mesmo diagrama que para Serres seria o trabalho de Hermes, deus dos caminhos, das encruzilhadas, da comunicacao.

Ao mesmo tempo, Serres (1984, p. 5) define comunicacao como um ato de viajar que nos permite "passar para o sitio do Outro, assumir a sua palavra como versao, menos subversiva que obliqua, comercializar objetos pagos". E esse trabalho de Hermes que Calle parece realizar: ela estabelece um espaco de comunicacao, de circulacao de discursos, que sao postos habilmente em relacao para constituir uma rede signica. Nela, ha passagens de sitio, trocas e encontros de fluxos.

E precisamente essa criacao de encontros que formam improvaveis trajetorias que consiste num trabalho de comunicacao realizado no interior da obra de Calle.

Para contar suas historias, ela simplesmente nao as inventa. Ela as faz emergir de um de conjunto complexo que funciona como uma especie de dispositivo relacional (10). Vejo uma proximidade desse dispositivo produtor de relacoes com aquilo Callon e Latour chamam de "rede", mecanismo que torna visiveis microinteracoes (Callon, 2006, p. 274). Para estes autores, esse espaco das redes segue a logica das conexoes e por isso mesmo esta intimamente ligada, como veremos mais adiante, as suas nocoes de "mediacao" ou de "traducao". Essas nocoes sao centrais em suas analises sobre os modos de construcao dos discursos e das praticas cientificas, mas que podem tambem ser estendidos a outros dominios, como as praticas cotidianas ou a arte, por exemplo.

Porem, para esses autores, mais do que mapear os distintos enunciados que constituem a Ciencia como rede de atores humanos e nao humanos, e preciso compreender o modo como se da a producao desses enunciados. Para eles, isto ocorre atraves dos mecanismos da traducao. E esta se da precisamente na propria cadeia heterogenea de que participam os enunciados. Ou seja, no processo mesmo da fabricacao dos enunciados, como afirma Callon (2006, p. 235): "cada elemento permite ao outro funcionar e cada um tira sua significacao e sua dimensao das relacoes que tecem uns com os outros". Por isso mesmo, como considera Serres, comunicar e tambem traduzir: fazer "passar para o sitio do Outro", ou seja, fazer passar de um regime de signos a outro ou produzir um outro campo signico.

Inspirados em Serres (1984), Latour (2000) e Callon (2006) tambem vao trabalhar com a ideia de traducao como operacao de producao de sentido, mas vao faze-lo para construir as bases de sua "antropologia da ciencia e da tecnica", atraves de um trabalho empirico sobre "a ciencia em acao" (Latour, 2006). A Latour e Callon interessam, por exemplo, chegar "antes que fatos e maquinas se transformem em caixaspretas" e relevar as controversias que permitam problematizar a ciencia como pratica "pura" e "racional" (Latour, 2000, p. 421).

Os autores consideram a traducao como processo que constroi as praticas e os discursos cientificos e lhes confere um carater de autonomia e verdade. Ele afirma que a Ciencia so adquire esse carater por causa de um complexo trabalho invisivel de alianca entre distintos elementos, que eles chamam de "humanos" e "nao-humanos": laboratorios, tecnologias, consumidores, trabalhadores, pesquisadores leis, patentes, politicas publicas, mercado e meios de comunicacao. A nocao de traducao como mecanismo de mediacao fica mais clara na explicacao de Leticia Freire:

Traduzir (ou transladar) significa deslocar objetivos, interesses, dispositivos, seres humanos. Implica desvio de rota, invencao de um elo que antes nao existia e que de alguma maneira modifica os elementos imbricados. As cadeias de traducao referem-se ao trabalho pelo qual os atores modificam, deslocam e transladam os seus varios e contraditorios interesses (Freire, 2006, p. 51).

Callon (2006) e Latour (2006) costumam usar o termo "traducao" para indicar entao uma dupla operacao: a primeira e a mobilizacao e conexao dos elementos que vao circular e a segunda e a transformacao desses elementos que se afetam e que poderao constituir discursos e praticas nao-discursivas. Para melhor ilustrar esses dois processos, Latour e Callon tomam emprestado a imagem da "malha de tecido sem costura" de Thomas Hughes. Os trabalhos de traducao implica um movimento que vai justamente construir "uma malha com multiplos ornamentos e bordados, que costura junto elementos tao estranhos quanto numerosos: pedras e leis, reis e eletrons, telefone e amor, medo e atomos, estrelas e trabalhadores" (Latour, 2006, p. 98).

A aplicacao da nocao de traducao ao campo da analise das praticas cientificas me parece util para se pensar tambem certas praticas artisticas como a de Sophie Calle. A artista parece realizar tambem esses trabalhos de Hermes e das redes. Ao construir um espaco de comunicacao e de circulacao de discursos, ela parece estar produzindo exatamente uma operacao de traducao.

Observando "Cuide de voce", e possivel considerar que Calle promove nao apenas uma proliferacao de discursos que irao constituir uma malha signica ou uma rede de atores humanos e nao-humanos formada por mulheres, profissionais, discursos, saberes, instituicoes e tecnologias. Ela cria um espaco de circulacao que favorece a um so tempo a producao de sentido para esse espaco e a emergencia e proliferacao de praticas e discursos.

A exposicao e o resultado desse trabalho de traducao realizado pela obra (espaco de forcas), composta por distintas linguagens, praticas sociais e saberes e no qual cada um desses elementos afeta e interfere no outro e constitui o enunciadoobra. No vocabulario de Latour (2006) e Callon (2006), a artista poderia ser considerada uma "mediadora", figura que articula o processo de mediacao que produz essa rede heterogenea. Mas e a obra que promove efetivamente a mediacao e a traducao dos enunciados e as afetacoes nos espacos de relacao (rede formada por museus, visitantes, imprensa, patrocinadores, curadores, escolas de arte, etc).

Assim, a convocacao de subjetividades (atriz, jurista, jornalista, dancarina, escritora, medica, musica, linguista, crianca, adolescente, mae etc) e de sensibilidades (respostas-performance, respostas-parecer, respostas-conto, respostasrelease, resposta-danca etc) e sua orquestracao pela artista vai compor uma teia onde se tecem relacoes entre palavras e coisas (email, amor, video, texto, fotografia, museu), saber e poder (discursos, tecnologias, instituicoes, midia, circuito de arte, mercado etc) que, por sua vez, vao afetar e engajar outras subjetividades (espectador, imprensa, artista, pesquisador, professor etc).

O fato de muitos artistas realizarem hoje obras que discutem as relacoes entre fatos do quotidiano, objetos tecnicos, instituicoes e suas logicas e discursos so evidencia o quanto tais praticas se inserem nessas praticas que mesclam distintas instancias e atores sociais, humanos e nao-humanos, como dizem Latour (2006) e Callon (2006). E nesse sentido que entendo as dinamicas relacionais e comunicativas das praticas artisticas como praticas de mediacao e de traducao.

Finalmente, ao operar no campo da producao estetica, campo do sensivel, como propoem Deleuze e Guattari (1992), a arte participa tambem dos processos de producao de sentido e de subjetividade. Por isso mesmo possibilita a investigacao sobre algumas das dimensoes atuais da experiencia humana e social, na medida em que a obra e um espaco de forcas que cria e faz circular sensacoes, discursos, visoes de mundo e estilos de vida.

No caso em questao, atraves de sua estetica do jogo, Calle nos apresenta em Cuide de Voce, por exemplo, nao apenas formas de lidar com a dor da perda no contexto de uma relacao amorosa. Discute tambem como nocoes como "privacidade" e "intimidade", longe de ser uma experiencia individual, participa de uma rede de interacoes sociais com diversos atores humanos e nao-humanos (pessoas, situacoes, objetos, regras sociais, discursos), sendo, portanto, uma experiencia social de producao subjetiva.

REFERENCIAS

ARDENNE, Paul. Pratiques contemporaines: l'art contemporain comme experience. Paris: Dis Voir, 2001.

BOURRIAUD, Nicholas. Esthetique relationnelle. Paris: Les Presses du Reel, 1998.

CALLON, Michel. Quatre modeles pour decrire la dynamique de la science. In: AKRICH, Madeleine (Org). Sociologie de la Traduction: textes fondateurs. Paris: Mines Paris, 2006.

DANTO, Arthur. Despues del fin del arte. Buenos Aires: Paidos, 2003.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. O que e Filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.

ERNAUX, Annie. Vers un Je transpersonnel, autofictions et Cie. In : Cahiers RITM, n. 6, p. 218-221, Paris, Universite Paris X- Nanterre, 1994.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitaria, 2004.

FREIRE, Leticia de Luna. Seguindo Bruno Latour: notas para uma antropologia simetrica. Disponivel em: <http://www.facha. edu.br/publicacoes/comum/comum26/artigo2.pdf>. Acesso em 12 ago. 2009.

GONCALVES, Fernando. Tecnologia e cultura: usos artisticos da tecnologia como pratica de comunicacao e laboratorio de experimentacao social. In: Revista Famecos, Porto Alegre, n. 38, v. 1, p. 100-110, 2009.

--. Comunicacao, Arte e Cultura Contemporanea. In: Revista Contemporanea, Rio de Janeiro, n. 8, v. 16, 2007. Disponivel em: <www.contemporanea.uerj.br/anteriores/ index08.html>.

GUATTARI, Felix. Caosmose. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.

LADAGGA, Reinaldo. La estetica de la emergencia. Buenos Aires: Hidalgo, 2006.

LATOUR, Bruno. Le prince : machines et machinations. In AKRICH. Madeleine (Org). Sociologie de la Traduction: textes fondateurs. Paris: Mines Paris, 2006.

--. Ciencia em Acao: como seguir cientistas e engenheiros sociedade a fora. Sao Paulo: Edusc, 2000.

--. Jamais fomos modernos. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994. LINS, Consuelo. O documentario expandido de Mauricio Dias e Walter Riedweg. Video Brasil, Festival Internacional de Arte Eletronica. Disponivel em: <http://www.sescsp.org.br/sesc/ videobrasil/site/dossier028/apresenta.asp> Acesso em 28 set. 09.

SAUVAGEOT, Anne. Sophie Calle: l'art cameleon. Paris: PUF, 2007.

SERRES, Michel. A comunicacao. Lisboa: Res, 1984.

Fernando do Nascimento Goncalves

Professor do Programa de Pos-Graduacao em Comunicacao da UEPJ/PJ/BP.

azert46@yahoo.com

NOTAS

(1) Trabalho adaptado do originalmente apresentado ao Grupo de Trabalho "Comunicacao e Sociabilidade, do XIX Encontro da Compos, na PUC-Rio, Rio de Janeiro, RJ, em junho de 2010.

(2) Estes elementos, explicam os autores, nao se confundem com a sensacao ou a percepcao de algo que nos e exterior, mas consistem em uma especie de relacao de forcas ou sensacoes que nos afetam e transformam num nivel sutil mas nao negligenciavel que e o da producao subjetiva.

(3) Lembremos que o que e proprio da arte contemporanea e sua busca de discutir os fenomenos da cultura, de reapresenta-los, e nao de representa-los. Aprofundei essa discussao no artigo Comunicacao, Arte e Cultura Contemporanea (2007b). Disponivel online: <http://www. contemporanea.uerj.br/anteriores/index08.html>.

(4) Ao todo foram contatadas 45 pessoas, das quais 13 recusaram. Das que aceitaram, 5 nao compareceram.

(5) Segundo a artista, feitas por uma amiga, just in case, ja que Calle nao confiava totalmente no detetive porque, segundo ela, ainda nao conhecia muito bem.

(6) Em entrevistas e palestras, como a que assisti em 09 de dezembro de 2009, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, a artista afirma que muitas pessoas teriam se recusado a participar da proposta. Outras, curiosamente, teriam aceitado.

(7) Museu de Arte Moderna, no centro da cidade. Visita em 08 de fevereiro de 2010.

(8) Consegui entrevistar cinco visitantes na saida da exposicao, ainda no MAM, antes de ser proibido de faze-lo.

(9) Embora nao seja nossa questao aqui, eu diria, apoiado em Foucault (1984), que as mulheres e seus discursos aparecem na obra como uma "funcao enunciativa", que operaria e faria circular "ordens de discurso". No trabalho de Calle, relacao entre os sujeitos, suas profissoes e seus discursos devem ser vistos mais como tracos de processos de subjetivacao do que como marcas identitarias e que vao servir como variedades discursivas com as quais a artista vai trabalhar para compor seu trabalho.

(10) O termo e inspirado em Consuelo Lins (2009), quando ela trata da obra dos video-artistas Dias & Riedweg como um mecanismo produtor de relacoes.
COPYRIGHT 2010 Editora da PUCRS
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2010 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:CULTURA E MEDIACAO
Author:do Nascimento Goncalves, Fernando
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Article Type:Report
Date:Sep 1, 2010
Words:6339
Previous Article:Politicas de visibilidade como fatos de afeccao: que etica para as visualidades?
Next Article:Elementos para a critica do jornalismo moderno: conhecimento comum e industria cultural.

Terms of use | Copyright © 2017 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters