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Criterios de construcao e relato da analise prototipica para representacoes sociais.

Criteria Related to the Realization and Reporting of Prototypical Analysis for Social Representations

A abordagem estrutural e uma escola dentre as diversas existentes para o estudo do fenomeno das representacoes sociais. Trata-se de uma perspectiva que concebe representacoes sociais como estruturas de conhecimento sobre temas da vida social, compartilhadas por grupos e formadas por elementos cognitivos ligados entre si. A principal teoria da abordagem estrutural e a teoria do nucleo central, que defende que as representacoes sociais sao um duplo sistema formado por dois tipos de elementos: um nucleo central e o sistema periferico. O nucleo e composto por um conjunto restrito de elementos que define a representacao social e a organiza; e fortemente compartilhado pelo grupo. O sistema periferico compreende a maior parte dos elementos da representacao, os quais possuem natureza condicional e tem carater mais flexivel e pratico, adaptando a representacao as experiencias cotidianas (Sa, 1996; Flament & Rouquette, 2003).

A analise prototipica (tambem chamada analise de evocacoes ou das quatro casas) e uma das tecnicas mais difundidas para caracterizacao estrutural de uma representacao social. No entanto, ocasionalmente os relatos dessa analise nao contem indicacoes essenciais para que ela seja transparente. O presente texto visa a sistematizar e indicar algumas dessas informacoes que deveriam estar presentes na descricao de resultados da analise prototipica, discutindo brevemente os pros e contras de algumas opcoes de realizacao da analise. Para tanto, e feita uma breve introducao da analise prototipica (a qual nao substitui a leitura das fontes classicas indicadas no texto) e posteriormente se passa a consideracoes tecnicas acerca da analise.

Apresentacao da analise prototipica

Verges (1992) desenvolveu uma tecnica para caracterizar a estrutura de uma representacao social a partir de evocacoes de palavras. Essa tecnica constitui-se de duas etapas: a primeira, chamada analise prototipica, baseia-se no calculo de frequencias e ordens de evocacao das palavras, enquanto que uma segunda etapa centra-se na formulacao de categorias englobando as evocacoes e avalia suas frequencias, composicoes e co-ocorrencias.

A analise prototipica tornou-se uma das estrategias mais populares para estudar representacoes sociais, em pesquisas de base (Morin & Verges, 1992; Salesses, 2005; Gurrieri, Wolter & Sorribas, 2007; Wolter, Gurrieri & Sorribas, 2009) e, especialmente, em pesquisas aplicadas, cujo objetivo nao e a contribuicao direta para as teorias do pensamento social, mas fundamentalmente a compreensao e diagnosticos ligados a temas sociais, de modo a instrumentalizar intervencoes profissionais. Na America Latina, a maior parte das pesquisas sobre estrutura de representacoes sociais consiste em diagnosticos ligados as areas da saude (Tura, 1998; Gomes, Oliveira & Sa, 2008) e educacao (Ferreira & Souza, 2001; Oliveira, Sa Fischer, Martins & Teixeira, 2001; Ribeiro & Jutras, 2005; Camargo, Barbara & Bertoldo, 2007; Naiff, Soares, Azamor & Almeida, 2008).

Essa popularidade deve-se a relativa simplicidade para conseguir resultados pertinentes a partir de dados pouco estruturados. Caracterizacoes estruturais ligadas a pesquisas de base ou entao aprofundamentos acerca de um diagnostico representacional vinculado a um grupo geralmente sao mais precisos apos o emprego de tecnicas confirmatorias como as tecnicas do "questionamento" (mise en cause) (Moliner, 1989, 2001) e dos esquemas cognitivos de base (Guimelli & Rouquette, 1992; Rouquette & Rateau, 1998). No entanto, para estudos com finalidade exploratoria a tecnica de Verges da indicacoes provaveis de centralidade validas. Tambem contribuiu para a difusao da tecnica a criacao de um programa de computador chamado Evocation (Verges, Scano & Junique, 2002), o qual permite efetuar todos os procedimentos de classificacao e calculo exigidos pela analise prototipica.

A analise prototipica parte do pressuposto que os elementos da representacao social com importancia em sua estrutura sao mais prototipicos, isto e, mais acessiveis a consciencia (Verges, Tyzska & Verges, 1994). E uma tecnica que se aplica a respostas de associacao livre, ou seja, frases ou expressoes curtas fornecidas a um estimulo indutor, que geralmente e o termo que se refere a um objeto de representacao social (Jodelet, 1965; Flament & Rouquette, 2003).

A analise prototipica geralmente e aplicada sobre dados na forma de palavras ou expressoes evocadas por participantes ao lerem ou ouvirem um termo indutor. Assim, restringe-se a expressao da representacao social por meio de material verbal recolhido como evocacoes; cabe apontar, de todo modo, que esse tipo de material nao permite uma varredura completa do campo representacional; pesquisas sobre o mascaramento de representacoes sociais apontam que frequentemente nocoes importantes de representacoes sociais nao sao evocadas quando ha pressoes normativas contrarias (Flament, Guimelli & Abric, 2006). Alem disso, o fato de que alguns elementos sejam consensualmente nao partilhados tambem reflete uma dimensao coletiva que delimita o campo da representacao.

As pesquisas que empregam analises prototipicas tipicamente solicitam de tres a cinco respostas por participante, mas a principio a tecnica poderia ser empregada tambem com numero de respostas diferente, e mesmo sem restricoes de quantidade. Nada impede, a rigor, que seja utilizada junto a evocacoes forcadas, isto e, solicitando-se uma classe ou tipo de palavra especifico; porem nesse caso provavelmente os resultados deveriam ser interpretados tendo-se em mente que nao sao tao espontaneos quanto os gerados pela tecnica padrao, e que concluir acerca da estrutura de uma representacao social a partir deles pode ser questionavel; nao obstante, essa alternativa pode ser pertinente para fins diferentes de pesquisa, como, por exemplo, o estudo do processo cognitivo de evocacao em si mesmo.

Conforme o procedimento inicial detalhado por Verges em 1992 (para uma descricao detalhada em portugues do procedimento, ver Oliveira, Marques, Gomes e Teixeira, 2005), as respostas fornecidas pelos participantes tem duas de suas coordenadas calculadas: a frequencia no corpus do grupo e a ordem media de evocacao, isto e, o valor resultante de uma media em que o valor 1 e atribuido para a resposta que e fornecida em primeiro lugar, 2 para a segunda resposta fornecida pelo participante, e assim por diante; como variante, ha a possibilidade de pedir para os participantes realizarem uma classificacao de importancia, sendo atribuido valor 1 para a resposta mais importante, 2 para a segunda mais importante, etc. (Abric, 2003).

Conforme os valores de suas coordenadas, as palavras ou expressoes sao entao classificadas em "alto" ou "baixo", conforme um valor de corte de referencia, diferente para cada uma das duas coordenadas; serao discutidos aspectos tecnicos acerca da determinacao do valor do ponto de corte na proxima secao do texto. As palavras com frequencia alta sao aquelas com frequencia superior ou igual ao valor de corte de referencia para essa dimensao, enquanto que aquelas com valores inferiores situam-se na zona de baixa frequencia. A classificacao para a coordenada de ordem de evocacao e identica; cabe ressaltar, porem, que sao as palavras com baixas ordens de evocacao, lembradas primeiro, que trazem maior interesse. Segundo Flament e Rouquette (2003), a analise prototipica nesse ponto baseia-se no principio segundo o qual o quanto antes uma pessoa se lembra de uma palavra, maior e a representatividade dessa palavra num grupo formado por pessoas com perfil semelhante; os autores referem-se a esse principio como lei de Marbe. Assim, os criterios de frequencia e ordem de evocacao se complementam e fornecem dois indicadores coletivos para caracterizar a saliencia de uma palavra num corpus gerado a partir de um grupo.

O cruzamento das duas coordenadas, classificadas em valores altos e baixos, gera quatro zonas que caracterizam a tabela de resultados da analise prototipica. A zona do nucleo central compreende palavras com alta frequencia e baixa ordem de evocacao: ou seja, respostas fornecidas por grande numero de participantes e evocadas prontamente. Os elementos do nucleo central das representacoes sociais tem boa probabilidade de estarem representados por algumas das palavras contidas nessa zona. No entanto, cabe ressaltar que nao ha uma equivalencia imediata entre nucleo central e a zona do nucleo na analise prototipica: esta fornece apenas hipoteses de centralidade, que necessitam de verificacao por meio de outras tecnicas (Sa, 1996; Abric, 2003; Flament & Rouquette, 2003). Talvez apenas em casos em que alguns elementos se destaquem muito dos demais, por exemplo com frequencias muito maiores que os demais componentes da zona do nucleo, seja possivel afirmar diretamente que se trata de um elemento central. De modo complementar, pode ser util registrar a proporcao de ocorrencias de cada forma na ordem de evocacao 1: um estudo de Wachelke (2008) indica que essa informacao esta relacionada com um maior valor simbolico dos elementos da representacao, caracteristica tipica de elementos centrais, e que em alguns casos nao ha coincidencia entre uma alta proporcao na ordem 1 e uma baixa ordem media de evocacao.

As demais zonas referem-se a elementos que muito provavelmente sao perifericos. A zona da primeira periferia inclui as respostas com alta frequencia e alta ordem de evocacao. Sao respostas com saliencia, mas que indicam elementos secundarios da representacao (Abric, 2003). Cabe indicar, porem, que alguns autores (Pecora & Sa, 2008; Sa, Oliveira, Castro, Vetere & Carvalho, 2009) apontam para a possibilidade de que alguns elementos centrais possam vir a compor a primeira periferia.

Dentre as respostas com frequencias de evocacao inferiores ao ponto de corte, ha a segunda periferia, que inclui aqueles que sao evocados como ultimas respostas. Essa zona refere a elementos pouco salientes nas duas coordenadas, e portanto menos interessantes para a estrutura da representacao do grupo social, trazendo aspectos mais particularizados. Ja as respostas com baixas frequencias que sao evocadas cedo no discurso formam o que se chama de zona de contraste: sao respostas minoritarias que podem indicar duas possibilidades: ou sao apenas complementos da primeira periferia, ou indicam a existencia de um subgrupo que valoriza consistentemente alguns elementos distintos da maioria, talvez ate mesmo com um nucleo central diferente (Abric, 2003).

Em sentido estrito, a analise prototipica e uma convencao de apresentacao de dados, nao uma analise estatistica padrao. Nao e um procedimento de calculo de parametros e niveis de significacao, mas sim um padrao de organizacao de informacoes relativas a evocacao de formas verbais de modo sintetico. Nao ha consenso acerca de diversos aspectos dessa organizacao, ainda que uma leitura atenta dos relatos de pesquisa aponte rapidamente para o emprego mais comum de alguns deles.

Aspectos tecnicos referentes a realizacao da analise e descricao dos resultados

Apos a apresentacao das caracteristicas fundamentais da analise prototipica, e necessario discutir com maior detalhe alguns desses aspectos tecnicos que lhe sao inerentes, bem como as decisoes de procedimento que sao implicadas por cada um deles: a quantidade de participantes, o tratamento de equivalencia dado as respostas, a definicao dos valores minimos de frequencia e dos valores de ponto de corte para as duas coordenadas.

Quanto a quantidade de participantes por amostra, nao ha indicacoes precisas acerca de um minimo para ter resultados validos. Ha casos em que e possivel chegar a resultados conclusivos ate mesmo com um grupo de 25 participantes (Wolter, Gurrieri & Sorribas, 2009), no entanto talvez se trate de um caso extremo nao praticavel com todas as configuracoes de dados. De modo geral, quanto mais numeroso o grupo de participantes, mais estaveis serao os resultados, afinal uma amostra maior tende a gerar resultados menos suscetiveis de influencia pela presenca de casos extremos e aproximar-se da realidade observada na populacao de que e extraida; ou seja, permite estimativas mais confiaveis das ocorrencias do fenomeno na populacao. Por essa razao, as amostras geralmente sao maiores, realizadas com cerca de 100 (Gomes, Oliveira & Sa, 2008) ou 200 (Sa, 1998) participantes.

A respeito do tratamento dado as respostas, alguns autores optam por agrupar respostas por criterios semanticos, classificando-as conforme um significado em comum. Assim, respostas "amigos", "amiga" e "amizade" poderiam ser agrupadas numa categoria intitulada ou pela resposta mais frequente entre elas, ou pela resposta que melhor traduzir a classe geral que reflete o que elas tem em comum. Outra possibilidade e a de realizar agrupamentos somente de palavras que compartilhem o mesmo radical e classe, o que recebe o nome de lematizacao. Nesse caso, o agrupamento reune apenas respostas masculinas e femininas, e no singular e plural. Dentro do exemplo mencionado, "amigos" e "amiga" seriam agrupadas numa so forma, intitulada segundo a resposta mais frequente dentre elas ou, no caso de frequencias iguais, na forma masculina e/ou singular, como convencao. Dentro de uma perspectiva propriamente estrutural, a segunda alternativa e a mais adequada, por duas razoes. Primeiramente, evita ambiguidades e divergencias a respeito da categorizacao dos conteudos (Rouquette & Rateau, 1998; Flament & Rouquette, 2003), tornando o processo replicavel com maior facilidade. Alem disso, segundo Verges (1992), a analise prototipica baseia-se em uma distribuicao de respostas que se aproxima da distribuicao de Zipf--trata-se de uma distribuicao aplicavel ao vocabulario de diversas linguas, que estabelece que a frequencia de palavras num corpus esta relacionada com o posto da palavra em termos de frequencia por meio de uma lei de potencia inversa com expoente proximo de 1; essa relacao implica que algumas formas verbais possuem muitas ocorrencias e a grande maioria aparece apenas poucas vezes. A categorizacao semantica das respostas tende a alterar a distribuicao dos dados, aumentando a homogeneidade das frequencias; trata-se de uma distorcao que pode enviesar o criterio do ponto de corte, a depender do criterio escolhido para tal, ou a composicao dos quadrantes.

Acerca da composicao do quadro de resultados, nao ha tambem indicacoes consensuais acerca da frequencia minima para incluir respostas na apresentacao da analise. Nesse caso, o mais importante e indicar a frequencia minima escolhida para cada estudo e a quanto esse valor equivale em relacao ao total de participantes. E necessario tambem relatar a proporcao de evocacoes que e representada no quadro apos a exclusao dos termos com frequencias inferiores a frequencia minima determinada.

Quanto a definicao dos pontos de corte para as duas coordenadas de frequencia e ordem de evocacao, e importante mencionar que nao ha uma equacao ou criterio unico utilizado. A literatura indica consideravel espaco de variacao na escolha dos autores acerca do valor dos pontos de corte. Essa variacao e menor no que diz respeito a ordem de evocacao; geralmente se adota simplesmente como ponto de corte a mediana do numero de evocacoes, quando este e impar. Para 3 evocacoes, seria 2 o ponto de corte, e para 5, este tem o valor 3. No caso de uma quantidade par de solicitacoes de resposta por participante, e necessario calcular a media das ordens de evocacao e utilizar o valor resultante como ponto de corte. Outra possibilidade diz respeito a calcular a ordem media de evocacoes levando em consideracao somente as palavras incluidas na analise, isto e, descartando-se as palavras abaixo da frequencia minima estabelecida; os resultados sao ligeiramente diferentes dos obtidos por meio da mediana ou media do total de respostas.

Ja no que diz respeito ao ponto de corte relativo a frequencia, as variacoes sao mais amplas. O procedimento original proposto por Verges (1992) e o calculo da frequencia media dentre as respostas, apos exclusao das evocacoes com baixas frequencias. Quando e intencao obter um quadro mais equilibrado na distribuicao das formas verbais pelos quadrantes, pode ser util a alternativa de calcular a mediana de frequencia dos termos incluidos na analise (apos a exclusao dos termos com frequencias baixas) em vez da media, procedimento realizado por Wolter (2008). Outras possibilidades voltadas para os padroes da distribuicao de respostas podem ser derivadas a partir de caracteristicas da tecnica, e mostrar-se validas. Assim, uma alternativa e fixar um ponto de corte referente a proporcao de evocacoes contido na zona de alta frequencia (por exemplo, cerca de 30%), e outra e escolher um ponto em que exista um salto perceptivel na continuidade das proporcoes de evocacoes (por exemplo, observando-se a distribuicao de evocacoes num grafico). Por fim, no caso em que ha uma ou duas formas com muito mais ocorrencias que as demais, a utilizacao dos criterios ja mencionados pode ser pouco util, por incluir muitas formas na zona de alta frequencia, e que ao mesmo tempo destoam muito em termos de ocorrencias. Uma boa medida pode ser entao adotar como ponto de corte a metade da frequencia da forma com mais ocorrencias em todo o corpus. Caso a configuracao dos quadrantes seja muito diferente com esse criterio seja muito diferente da propiciada por meio dos criterios convencionais, talvez seja melhor optar pelo criterio alternativo, que forca uma diferenciacao de algumas formas que se distinguem fortemente das outras e, possivelmente, apresentam fortes indicios de constituirem o nucleo central da representacao.

Nao parece haver motivos explicitos ou claros para opcao por um ou outro criterio na inclusao de palavras para analise e determinacao dos pontos de corte relativos as coordenadas de frequencia e ordem de evocacao. A escolha dos autores por um ou outro procedimento e geralmente realizada por razoes particulares, talvez por facilidade de interpretacao ou necessidade de ilustrar algum aspecto especifico de resultados de pesquisa. Assim, e imprescindivel que ao se realizar e relatar uma analise prototipica, sejam fornecidas informacoes referentes ao tratamento de equivalencia das evocacoes, da distribuicao das formas evocadas no corpus e da construcao dos quadrantes de analise. Na Tabela 1 indicamos as informacoes que julgamos necessarias no relato de toda e qualquer analise prototipica. Evidentemente, a opcao por criterios alternativos pode ser feita, desde que esses criterios sejam devidamente informados e justificados.

Exemplo de relato de analise prototipica

De modo a ilustrar os principios comentados no texto, apresentamos a seguir um exemplo de relato resumido de resultados de analise prototipica. Entre parenteses buscamos evidenciar o tipo de informacao da Figura 1 a que se refere cada aspecto do relato. Trata-se de uma analise realizada a partir das respostas de 151 estudantes universitarios (tamanho da amostra), dentre os quais 110 mulheres, matriculados no curso de psicologia de uma universidade do norte da Italia, os quais forneceram tres respostas de evocacao a palavra-estimulo "trabalho"; e um estudo voltado para a exploracao inicial da estrutura da representacao social sobre trabalho. Os dados foram analisados com o auxilio do programa Evocation.

Sem casos omissos, houve 453 evocacoes (total de evocacoes), e uma media geral de frequencia de 2,45 (frequencia media das evocacoes). As evocacoes foram agrupadas conforme procedimentos de lematizacao (tratamento de equivalencia). A frequencia minima considerada para inclusao das palavras nos quadrantes foi de 5, pouco mais de 3% do tamanho da amostra (frequencia minima para inclusao no quadro).

Referente as determinacoes dos pontos de corte para as coordenadas dos quadrantes, foi empregado o criterio da mediana nas ordens de evocacao; como havia 3 respostas por participante, o valor do ponto de corte foi 2 (criterio do ponto de corte da ordem de evocacao). Palavras com ordem media de evocacao inferiores a 2 foram classificadas como tendo baixa ordem de evocacao. Quanto ao criterio de frequencia, optou-se por incluir nos quadrantes de alta frequencia uma proporcao minima de 30% das evocacoes (criterio do ponto de corte para frequencia); no caso da presente analise, isso se deu a partir da frequencia 11; palavras com essa frequencia ou valores superiores corresponderam a 31,6% do total de evocacoes.

A Tabela 2 apresenta os resultados da analise prototipica mencionada. A analise foi realizada integralmente em italiano, mas para a apresentacao dos resultados foi realizada traducao das palavras incluidas no quadro para o portugues. As duas palavras que provavelmente se referem a elementos centrais da representacao social sobre trabalho sao "cansaco" e "comprometimento", ambas com altas frequencias (maiores que 11) e ordens medias de evocacao inferiores a 2. Ou seja, o conhecimento compartilhado por esses estudantes italianos caracteriza-se por conceber um trabalho como uma atividade que necessariamente e cansativa e exige dedicacao. O elemento "dinheiro", apesar de nao estar na zona do nucleo central por ter uma ordem de evocacao mais alta que o ponto de corte, tambem deveria ser analisado em pesquisas futuras, por ter alta frequencia; note-se que a palavra "salario" tambem tem significado semelhante e e lembrada mais prontamente, o que sugere que aspectos ligados a remuneracao em dinheiro sejam investigados posteriormente com tecnicas confirmatorias. E pertinente apontar o contraste dos aspectos de obrigacao e esforco ligados ao trabalho, vistos como essenciais, com "realizacao", "paixao", "satisfacao" e "prazer", todos perifericos. Trabalhar, para os participantes dessa pesquisa, esta mais proximo de "trabalhar duro para obter uma remuneracao" que de "trabalhar para obter realizacao pessoal".

Conclusao

Mesmo na ausencia de um consenso acerca das indicacoes para relato de alguma analise cientifica, a principal diretriz a se levar em conta e provavelmente a transparencia acerca dos criterios escolhidos para orientar a analise, de modo que todas as informacoes necessarias para caracterizar os resultados sejam relatadas. Somente com o fornecimento dessas informacoes, os resultados tornam-se plenamente pertinentes para a comunidade academica que se ocupa do estudo das representacoes sociais, possibilitando o entendimento e a avaliacao dos esforcos de pesquisa realizados de modo integral. Sendo a objetividade uma caracteristica sempre desejavel de estudos cientificos, e ao se considerar que ela pode ser atingida por meio desse tipo de indicacao, ressaltamos a importancia de que os resultados de pesquisa sejam transparentes, para a construcao de um corpo de conhecimentos solido e replicavel.

Por fim, cabe enfatizar que a analise prototipica e apenas uma das diversas tecnicas de caracterizacao existentes para as representacoes sociais, e sublinhar suas limitacoes. E um recurso pratico mas que permite apenas a identificacao de compartilhamento acerca de elementos da representacao por meio de padroes de consenso intragrupo quantitativo mais evidentes, no que diz respeito a frequencias superiores ao ponto de corte estabelecido. Assim, interessa-se explicitamente as palavras invariantes para o grupo. As palavras que compoem quadrantes perifericos, especialmente as de baixas frequencias, apontam para aspectos em que existe variabilidade no grupo, mas sao elementos colocados em segundo plano pela analise; na etapa em que se mostra util para pesquisas exploratorias, a analise prototipica contribui ao identificar os elementos menos suscetiveis a variacoes desse tipo; um estudo da variabilidade em si seria melhor proporcionado com o auxilio de outras tecnicas como a analise de correspondencias aplicada ao estudo das representacoes sociais (Doise, Clemence & Lorenzi-Cioldi, 1992), que busca precisamente identificar tomadas de posicoes especificas frente a principios organizadores compartilhados, por meio de associacoes de variaveis nominais. Quanto a variabilidade intergrupo acerca de uma representacao social, a analise prototipica pode fornecer informacoes uteis, mas somente se for realizado um estudo comparativo das zonas dos nucleos centrais de grupos diferentes acerca do mesmo objeto; considera-se que dois grupos tem representacoes diferentes quando seus nucleos centrais sao diferentes. Ou seja, a analise de um grupo isolado pouco pode ajudar para entender o fenomeno das representacoes sociais: e necessario sempre ter em vista o contexto social em que grupo e objeto estao inseridos, para dar conta de uma compreensao satisfatoria do fenomeno.

Referencias

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Recebido em 15.01.2010

Primeira decisao editorial em 08.11.2010

Versao final em 26.11.2010

Aceito em 01.02.2011

Joao Wachelke (1)

Universita degli studi di Padova

Rafael Wolter

Universidade do Estado do Rio de Janeiro

(1) Endereco para correspondencia: R. Octavio Lebarbenchon 69, Florianopolis, SC, CEP 88037-290. E-mail wachelke@yahoo.com
Tabela 1. Informacoes essenciais para relato de analise
prototipica.

Informacoes referentes ao tratamento de equivalencia dado as
evocacoes

* Lematizacao (reducao ao radical), categorizacao por conteudo, ou
outra possibilidade Informacoes referentes a distribuicao de
palavras

* Tamanho da amostra

* Total de evocacoes

* Frequencia media de evocacoes

* Frequencia minima das evocacoes para inclusao no quadro (ex.:
proporcao do total de participantes; corte de frequencia
preestipulado...)

Informacoes referentes aos criterios de construcao dos quadrantes

* Ponto de corte para frequencia entre as zonas de alta e baixa
frequencia (ex.: frequencia maior que a media das formas incluidas
na analise; frequencia maior que a mediana das formas da analise;
escolha por manter uma proporcao pre-determinada de evocacoes na
zona de alta frequencia; observacao de um "salto" na distribuicao
de Zipf; metade da frequencia da forma com mais ocorrencias no
corpus...)

* Ponto de corte para ordem media de evocacoes (ex.: ordem
correspondente ao ponto medio das possibilidades de resposta da
tarefa de evocacao; media da ordem de evocacao das formas incluidas
na analise...)

Tabela 2. Analise prototipica referente ao termo indutor
"trabalho" (N = 151).

                     Ord. med. evoc. < 2        Ord. med. evoc. >= 2

              Palavra            Freq.   OME    Palavra      Freq.

Freq. >= 11   cansaco             38     1,76   dinheiro      31
(31,6%)       comprometim.        30     1,70   satisfacao    21
                                                ganhar        16
                                                realizacao    11
Freq. < 11    salario              7     1,57   paixao         8
              atividade            7     1,71   obrigacao      5
              profissao            7     1,71   seguranca      5
              responsibilidade     7     1,86   prazer         5
              fragilidade          5     1,00   vida           5
              escritorio           5     1,40

              Ord. med.
              evoc. >= 2

                 OME

Freq. >= 11      2,10
(31,6%)          2,11
                 2,00
                 2,18
Freq. < 11       2,00
                 2,00
                 2,00
                 2,20
                 2,60
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Author:Wachelke, Joao; Wolter, Rafael
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Article Type:Report
Date:Oct 1, 2011
Words:5509
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