Printer Friendly

Cristeman the terrible: a 16th Century Fait-divers/Cristeman, o terrivel: um fait divers do seculo XVI.

O material traduzido e comentado abaixo faz parte de um universo particular de narrativas do final do Renascimento frances, narrativas que mostram um quotidiano saturado de acontecimentos espetaculares, acoes demoniacas, catastrofes, crimes, assassinatos. Uma linhagem de impressos anteriores ao florescimento dos jornais, porem com diversas caracteristicas semelhantes. Decorrencia direta da prensa de tipos moveis de Gutenberg, gravadas em pequenos folhetos similares, no suporte, aos nossos livretos de cordel, essas narrativas circulavam na bagagem de ambulantes e camelos, e eram lidas, virtualmente, por todas as camadas da populacao. A critica moderna chamou esses suportes de canards ("pasquins") de faits divers--utilizacao anacronica de termos emprestados ao circuito jornalistico do seculo XIX, mas que serve, em linhas gerais, para unifica-los e estruturar-lhes uma topica comum: uma atividade intelectual de base sensacionalista, ou quase; uma relacao ambigua com o "fato" jornalistico (que deve muito a dinamica dos rumores); uma ergonomia informativa de tipo imanente e/ou pontual.

Minha proposta aqui e introduzir o leitor brasileiro nesse universo. O trabalho, na verdade, esta inserido numa pesquisa mais ampla, envolvendo nao apenas o fait divers renascentista, como tambem a novela, o tragico (em prosa) e a dinamica de circulacao dos rumores na Franca dos seculos XVI e XVII.

Na primeira parte deste artigo, ofereco uma breve historia, advinda de uma fonte (francesa mas de um caso supostamente alemao) do final do seculo XVI: Cristeman Gempertingua de Corpen, possivelmente o maior assassino serial de todos os tempos. Seu modus operandi, seu desprezo pelos sentimentos humanos mais elementares, seus butins e seu fim.

Antes de passarmos a analise do relato, no entanto, sera necessario constituir um contexto. Essa preliminar e importante, pois muito pouca coisa tem sido escrita a respeito do fait divers renascentista --os estudos classicos, esgotadissimos e sem referencia em nossas bibliotecas, datam ja de mais de meio seculo atras. Assim, a introducao geral, que constitui a segunda parte deste trabalho, servira, portanto, tambem de propedeutica para outras traducoes desse repertorio, que pretendo publicar mais adiante. Na terceira parte, faco algumas consideracoes especificas relativas ao material traduzido logo abaixo.

I. Discurso admiravel sobre os crimes e os assassinatos mais uma vez cometidos por um tal Cristeman, alemao condenado a morte na cidade de Berckessel, perto de Mayence, na Alemanha, que em seu processo confessou, entre outros crimes, ter matado e assassinado novecentas e sessenta e quatro pessoas (1)

Assim como a docura e a amizade sao coisas recomendaveis entre os humanos, pela mesma razao a crueldade e o homicidio lhes sao proibidos pelas escrituras santas e humanas: nos mandamentos do Decalogo, no amaras teu proximo como a ti mesmo; e no de nao matar nem assassinar ninguem. Esses mandamentos sao gerais e especiais. E, por meio de sua guarda e observacao, Deus estabeleceu sua Justica--embora possa ser por algum tempo obliterada, e atraves dela que todo maleficio e enfim conhecido, revelado e punido. Donde os numerosos exemplos, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, e nas historias profanas. Pois [Caim] sendo o primeiro do mundo a matar seu irmao, Abel, ainda que tivesse cometido o homicidio sem testemunhas, Deus justo quis que ele e sua posteridade fossem miseravelmente punidos e perecidos no diluvio. Joabe, condestavel do rei Davi, tendo morto por traicao Amasa e Abner, embora no tempo do rei seu mestre tais assassinatos tenham sido dissimulados, o rei Salomao, apos o falecimento de seu pai, o puniu. Em nosso tempo, encontram-se diversos homicidas e assassinos que reinaram em seus malfeitos por mais de dez ou doze anos. Mas nao se encontra, por mais que fossem iguais em intencao de cometer o mal, nenhum semelhante em crueldade ao dito Cristeman.

Crueldades de malfeitores existem em varios livros e tratados, como a do italiano morando em Anvers, que, tendo uma discussao com um amigo seu conterraneo, dissimulou o odio que tinha contra ele durante quatorze anos, ao fim dos quais, simulando ser seu servidor e amigo, convidou-o para jantar--no que o amigo, acreditando que o tempo tinha feito esquecer suas inimizades particulares, concordou--, e pondo-o em uma cadeira falsa feita para esse fim, matou aquele que tinha convidado a mesa como amigo.

O assassino, por muito tempo incognito, finalmente foi revelado e condenado a ser queimado na dita cadeira na cidade de Anvers.

Muitos assassinos foram executados por esta razao--apos terem reinado por algum tempo em seus maleficios, finalmente cairam na armadilha preparada por eles contra outrem. Tal como acontecera aos conspiradores e envenenadores que recentemente quiseram envenenar o senhor duque de Brabante e de Anjou, unico irmao do rei, e matar e assassinar outros principes contra todo direito, humano e divino. (2) Mas Deus, que conhece todas as acoes, nao quis permitir que coisas tao prodigiosas fossem cometidas por esses assassinos, executados ou nao executados. As Escrituras entretanto, tanto do Velho Testamento quanto as historias profanas lhe fazem fe, aquelas que por uma questao de brevidade permanecem por discorrer, imaginaram as crueldades de todos os ladroes que foram executados por conta de seu mal feito. [Mas] Neste [nosso caso], o superlativo da maldade os superou; sua confissao o demonstra, seus atos o condenam, e finalmente nao se pode dizer que o dito Cristeman nao tenha sido o mais celebre, sutil e cruel malfeitor que se possa pensar, nao tendo poupado ninguem, nem mesmo seus proprios filhos.

O que foi dito acima por prefacio e advertencia, e que nenhum pecado permanece impune seja qual for o tempo que corra. Pois como diz o poeta, temporibus peccata latent, et tempore patent: nao existe pecado oculto. (3) Eis portanto o discurso sobre a vida e os costumes do dito Cristeman, e de seu julgamento. No vigesimo setimo dia do mes de maio passado, foi preso e tomado prisioneiro em nossa vila de Berckessel, um bandido chamado Cristeman Gempertingua de Corpen (cidade a duas leguas de Colonia), (4) que, pelo espaco de treze anos, viveu como ladrao e durante sete morou numa floresta chamada Frasberg, a uma legua de nossa cidade, onde estava tao bem instalado que nao seria possivel ser melhor. Tinha se posicionado num lugar a partir do qual descobria facilmente todos os que passavam sobre as grandes rotas em direcao a Treves, Metz, Diessenhofen e ao Ducado de Luxembourg--onde diversos comerciantes fazem negocios. Esse infeliz sendo feito prisioneiro, confessou ter, desde a juventude, cometido novecentos e sessenta e quatro homicidios.

Isso seria considerado incrivel, se nao se tivesse encontrado em seu poder um caderno com todos os que ele matou, escrito de proprio punho, com o dia e o modo como tudo aconteceu. Ora, seu abrigo era naturalmente bem construido e recheado de poroes, gabinetes, celulas proprias para morada, e mobiliada com toda sorte de utensilios. Alem disso, havia provisoes de vinho e de carnes frescas e salgadas para durar um ano. Assim como armas de todos os tipos e em grande numero, como arcabuzes, espadas, morrioes, corseletes, que fariam sofrer os soldados que o prenderam--se ele nao tivesse sido surpreendido dormindo. Aqueles que caiam em suas maos, ele os punha a morrer sem remissao, depois os jogava num poco profundo, que ele tinha encontrado nos arredores, preparado para tal. Quanto aos despojos, como roupas, dinheiro, armas e bagagens, ele levava tudo ate a caverna, na qual se encontrou tambem todo tipo de mercadoria, roubadas de alemaes e de outros, em tal quantidade que poderiam abastecer uma feira e que muitos estimaram chegar a valer mais que de setenta mil florins de ouro da Alemanha. Confessou tambem que sua meta era matar ate chegar ao numero de mil pessoas, depois se dar um bom tempo sem matar nem roubar ninguem.

Mas bem quis Deus Todo-Poderoso, descobrindo esse assassino execravel pela boca de uma mulher que ele manteve sete anos inteiros em sua caverna. Essa mulher era de uma cidade chamada Popert sobre o Reno, e filha de um barriqueiro. Estando um dia na estrada para visitar seus irmaos, o malvado a atacou para mata-la. Mas [foi] vencido por sua beleza: "E preciso", diz ele, "que tu me facas companhia, senao te matarei como fiz aos outros". Ela, temendo a morte, concordou com o que ele quis e prometeu nao acusa-lo nem trai-lo. Entao, ele a levou para sua caverna, e durante os sete anos que ela ai ficou, teve seis filhos, que ele degolava assim que nasciam e os punha num lugar alto, e depois os pendurava pelos pes a fim de curti-los. E assim que o vento soprava de um lado a outro nessas pequenas criaturas, o cruel endemoniado dizia: "Dancem, dancem, meus queridos filhos! Pois Gempertingua, seu pai, da o tom da danca". Era um espantoso suplicio feito a esta pobre mulher, e para piorar sua infelicidade ele a acorrentava, por medo que fugisse, enquanto ele e seus companheiros saiam da caverna para roubar e matar os passantes. Apos te-los saqueados, querendo que tudo lhe pertencesse, levava seus companheiros para a caverna, onde misturava na bebida e na comida certo veneno tao violento que eles morriam cinco ou seis horas depois.

Ora, o Senhor Deus, querendo fazer justica, quis que esta mulher, que se arrependia continuamente dos pecados que cometera, e que invocava sua ajuda, obteve um dia autorizacao do assassino para ir uma vez visitar seus pais. Ela foi, mas, sem nada revelar na ocasiao, voltou a caverna. [Deus] lhe deu vontade de la retornar uma segunda vez, e fez de maneira que aquele o permitiu--fazendo, porem, que ela lhe prometesse, antes de partir, e com grandes recomendacoes, nao o trair. Ora, esta pobre mulher, entrando em nossa cidade de Berckessel, vendo as criancas que brincavam nas ruas, comecou a sentir sua consciencia, e tomada de emocao, se pos a chorar e a se desmanchar em lagrimas, dizendo: "O Deus que mantem todas as coisas, a quem meus pecados nao podem ser ocultos e que conhece o juramento que fiz sob coercao, eu imploro olhar com piedade para minhas angustias, que suportei em minha carne e em meu proprio sangue". Ela se lamentava e suspirava tao alto que as pessoas se acercaram dela para saber a causa de tal infortunio. Mas nao se lhe podia tirar nada senao uma infinidade de lagrimas. O que levou alguns a advertir a Justica, diante da qual ela foi levada --mas, inquirida pelos magistrados, nada quis confessar, dizendo ter feito juramento de nada dizer a ninguem. Entao, pressionaramna e rogaram, em nome de Deus, para esvaziar seu coracao, e que seria liberta de seu juramento, se o conhecimento de tal coisa nao ocasionasse a ruina de sua alma. Com isso, como recobrasse novos animos, ela fez um amplo discurso do ocorrido acima, para grande espanto de todos os oficiais de Justica--que, tendo decidido sobre o que era necessario, instruiram a mulher a respeito do que fazer.

Ela retomou seu caminho ate a caverna, carregando um saco cheio de ervilhas, (5) que derramava pelo chao ate chegar ao local, a fim de que trinta soldados bem armados pudessem sem problema achar a caverna, onde viram o bandido adormecido no colo da mulher. Pois ela o tinha entretido com belas frases, e fingindo procurar piolhos, o fez adormecer, de tal modo que ele se viu preso e enlacado ao acordar. "O puta desleal", gritou, "se eu tivesse imaginado isso, ja teria te estrangulado ha muito tempo". Se nao tivesse sido preso dormindo, teria dado trabalho aos trinta soldados, sendo homem robusto, muito bem armado e bem resguardado. Mas foi rapidamente amarrado e levado a Berckessel, onde, torturado, confessou, sem se fazer apressar, as maldades sobrescritas, ajuntando que estava resolvido a matar ate o numero de mil pessoas, e depois se aposentar.

Ele foi condenado a ter os bracos e as pernas arrancados, depois ser posto na [no suplicio da] roda para ai definhar, onde sobreviveu nove dias inteiros, durante os quais lhe forneceram carne e bebida para prolongar mais o suplicio, [embora] ele tivesse merecido [um] ainda mais horrivel, sem comparacao. Todos os bens encontrados na caverna foram levados a cidade e postos em lugar reservado, sem que se haja ainda resolvido o que se devera fazer deles. Estima-se que tal punicao servira de exemplo a outros.

Por este motivo, juizes que julgam a terra, reconhecam e facam com que a justica seja observada e guardada, os ladroes prontamente punidos e castigados, a fim de que sob o Seculo dourado, livremente em toda certeza, possamos amigavelmente comerciar juntos--homicidas e assassinos punidos.

FIM

II.

Pouco antes do aparecimento dos primitivos jornais (estruturas montadas para a transmissao impressa e periodica de noticias, com corpo relativamente organizado e recorrente de articulistas e colaboradores), (6) o cenario do circuito noticioso europeu foi invadido por uma grande massa de textos, de carater pontual, tratando de eventos particulares. Esses textos sao parte de um conjunto-universo novo, o dos hoje denominados boletins de informacao, ou ocasionais. (7)

Embora nao fossem os unicos veiculos de comunicacao no periodo imediatamente anterior ao aparecimento dos jornais (os mensageiros, os viajantes, soldados em campanha, os editos e diversos outros dispositivos escritos e orais, como os rumores, cumpriam esta tarefa), (8) a difusao de noticias teve, nos boletins publicados pontualmente--isto e, cada vez que um fato importante ou sensacional vinha a luz, dai o nome de "ocasional"--, um dos seus principais meios propagadores. (9) Na Franca, e alhures, eles foram um medium importante de circulacao de noticias para o grande publico ja no seculo XV: incluindo-se ai desde o iletrado--que ouvia os relatos lidos em voz alta pelos alfabetizados--ate o cronista e o historiador seus contemporaneos, que utilizavam esses boletins como fontes diretas ou indiretas. (10)

Trechos de cartas, relatorios, testemunhos em primeira mao (de atores ou observadores diretos, de coadjuvantes), mas tambem testemunhos indiretos, (retomados de outras fontes, mais ou menos confiaveis), ou simplesmente informacoes falsas ou de teor falacioso, esses textos, por conta de diversas circunstancias, foram publicados com crescente interesse pelos florescentes e ativos impressores do Renascimento. (11)

Normalmente de pequenas dimensoes--com poucas folhas e papel ruim, muitas vezes ilustrados, usando tipos ja gastos e as sobras da confeccao dos produtos editoriais de primeira linha (livros), numerosas imprecisoes ortograficas (uma mesma palavra escrita de maneiras diferentes na mesma pagina, por exemplo)--, esse material, feito visivelmente para consumo rapido e amplo, e hoje, por conta desses fatores de producao (e pelo fato, nao menos importante, de nao terem sido absorvidos pelas bibliotecas da epoca), considerado raro. (12)

A folha impressa dos ocasionais nao substituiu a circulacao de manuscritos dos cronistas (anonimos ou nao), que continuaram copiados e recopiados no mesmo sistema, mas algumas particularidades foram sendo sentidas na dinamica da informacao em papel. Os boletins, que, de inicio, tal como no caso das cronicas e das memorias classicas e medievais, se concentraram sobre acontecimentos bastante aristocraticos (entronizacoes, casamentos reais, grandes batalhas, golpes de estado), (13) vao, aos poucos, oferecendo um quadro mais amplo, levando ao seu publico tambem noticias sobre a atualidade geral--quer dizer, noticias cujo fundo e interesse nao era necessariamente aristocratico. Essa mudanca de conteudo dos ocasionais politicos e historicos do seculo XV para os do seculo XVI, de espectro mais largo, e de fundamental importancia para todo o circuito de narrativas produzidas no seculo XVI --e nao somente no que diz respeito as gazetas e periodicos posteriores. E tal como no caso do livro, mas ampliado aqui por conta das vicissitudes do formato, a facilidade de imprimir copias a partir de uma matriz (inerente ao sistema de prensa de tipos moveis de Gutenberg) lhe forneceu, portanto, um meio de producao eficiente, massivo e relativamente barato. (14)

Efetivamente, a partir do comeco da decada de 1530, na continuidade desse mercado, os boletins franceses comecaram a mostrar tambem um interesse sistematico pelo acontecimento puramente quotidiano, i.e., o acontecimento sem necessariamente uma implicacao politica, economica ou religiosa clara ou ao menos declarada. Em outras palavras, por esta epoca, os editores tambem comecaram a publicar aquilo que modernamente chamamos de fait divers. (15)

Essa mudanca de atitude com relacao aos "fatos" da "vida ordinaria" e uma verdadeira revolucao. De 1529 em diante, os faits divers entrarao no circuito do noticioso como uma forca autonoma e decisiva, de apelo e consumo populares. Seu veiculo de proliferacao sera o canard--definido, para todos os efeitos, embora tautologicamente, como o ocasional que compila um fait divers. (16)

A definicao de canard aceita aqui e aquela dada por Jean-Pierre Seguin:
   (...) est un imprime vendu a l'occasion d'un fait divers
   d'actualite, ou relatant une histoirepresentee comme telle.

   Il peut avoir des liens plus ou moins etroits et avoues avec les
   evenements politiques et religieux contemporains, mais le fait
   divers y demeure le principal motif dinteret et si propagande il y
   a, celle-ci passe sous son couvert.

   Le canard peut etre imprimeau recto seuld'une feuille degrand
   format illustree, comportant assez de texte pour se differencier de
   l'image, mais il se presente presque toujours sous la forme d'une
   brochure d'un ou de deux, tres rarement de trois cahiers,
   generalement composee a la hate, sur un papier de mediocre qualite.
   *


O termo canard e empregado por Seguin numa dimensao conceitual e tecnica, claro, mas ele ja e popularmente corrente, no seculo XVI, para designar noticias impressas vendidas nas ruas.. Neste sentido, existiria uma clara continuidade entre o noticiario oral de atualidade e seu "homonimo" impresso, pois "canard' traduz bem, em ultima analise, o estado ordinario "oral" de circulacao da informacao: publicados as vezes em cadernos de ate 25 paginas (embora normalmente oscilando em pecas in-8[degrees] de 10 a 16 paginas), frequentemente com a folha de rosto ilustrada (ainda que as gravuras pouco tenham a ver com o conteudo), (17) canards e bulletins nao eram comercializados em bancas, lojas ou casas de edicao, mas por ambulantes (colporteurs e vendeurs a la criee) que gritavam o seu conteudo nas ruas. (18)

Concomitantemente, por funcionarem num registro, por assim dizer, sensacionalista, os bulletins e, sobretudo, os canards guardam, embora suportes impressos, algo da dinamica dos rumores, da fofoca e, logo, da comunicacao oral.

De tematica ampla, indo de catastrofes naturais a prodigios, de processos de bruxaria a assassinatos, o canard e evidentemente um veiculo novo, que veio estabelecer um universo diferente, ainda que solidario, daquele dos boletins de informacao anteriores. Ele acompanha de perto a intensificacao da informacao impressa na Europa, mas com uma dinamica que lhe e particular, sobretudo no aspecto espetacular. (19) Muito embora nem sempre digno de credito por seus contemporaneos intelectualizados, e visto com simpatia e interesse pelo publico das cidades e dos campos--o que reproduz, avant la lettre e guardadas as proporcoes, muitas das questoes em torno da objetividade e da imparcialidade dos meios de informacao dos jornais nossos contemporaneos. (20)

Trata-se, efetivamente, de um fenomeno midiatico: se, entre 1529 e 1550, temos apenas 18 titulos de canards sobreviventes (descontadas as eventuais copias do mesmo titulo), passamos a 39 entradas entre 1550 e 1575; a 110 entradas entre 1575 e 1600; e a 323 entradas entre 1600 e 1631. ** Nesse caso, considerando apenas os exemplares que chegaram ate nos, temos no minimo um titulo de canard por mes nos primeiros trinta anos do seculo XVII. Evidentemente, o aumento do numero bruto dos canards tambem se deve a proliferacao de editores capaz de imprimi-los (estamos no primeiro grande boom editorial da Europa moderna apos a invencao de Gutenberg), mas, dadas as condicoes materiais precarias e inerentes a esse tipo de suporte (tornando impossivel saber ao certo quantas pecas foram de fato impressas nos periodos citados), o aumento proporcional entre os decenios mostra que, ao final de Renascimento, o canard e um claro sucesso de publico. Muito embora popular, por volta da ultima metade do seculo XVI, ainda nao existem editores totalmente especializados em sua producao, mesmo em Paris (o maior centro consumidor e produtor). Lucro quase certo, o canard permanece, portanto--enquanto produto na linha de montagem editorial--, secundario e de circunstancia. (21) Entre as razoes de seu sucesso, certamente esta o preco: canards sao midias baratas se comparadas aos livros--variando entre 1 e 5 sols franceses por peca. (22) Seria dificil medir esses valores em termos de moedas de hoje, mas as diferencas de preco entre livros e canards e, proporcionalmente ao menos, bastante significativa.

Dos 517 titulos de canards repertoriados e estudados por Seguin, numa amostragem que vai de 1529 a 1631 (ou seja, um seculo de producao), 109 sao relatos de crimes; 116 de calamidades diversas (enchentes, tempestades etc.); 95 de fenomenos celestes; e 180 descrevem eventos mais ou menos maravilhosos. (23) Ao menos tematicamente, portanto, o sucesso do canard esta ligado ao interesse popular pelo fait divers--o que pode parecer redundante, uma vez que a definicao de canard se confunde com a deste ultimo. Mas esse interesse nao e uma especialidade apenas do canard. O fait divers tambem ocupa um lugar importante na composicao dos journaux (diarios) que lhe sao contemporaneos, como o Journal d'un bourgeois de Paris sous le regne de Francois I (autor anonimo, 1515-1536); e nos congeneres de Pierre Driart (Chronique parisienne, 1522-1535), de Nicolas Versoris (Livre de Raison, 1519-1530), de Claude Haton (Memoires, 1553-1582), de Gilles de Gouberville (Journal, 1549-1562), entre outros. (24) No mais antigo, o Journal dun bourgeois de Paris ..., aparece, ja em junho de 1515 (bem antes da voga dos faits divers), uma nota breve sobre um assassinato que poderia, perfeitamente, se enfeitado com mais retorica, figurar nas paginas de um canard. (25) O texto e ainda mais surpreendente porque e o unico do genero dentre as anotacoes registradas pelo Bourgeois de Paris nesse mesmo ano--todas as outras sao, sem excecao, exclusivamente aristocraticas, quer dizer, no regime tematico dos occasionnels, nao dos canards. Em outro exemplo, o relato de um enforcamento fracassado (ocorrido em 19 de setembro de 1528), com todas as tintas de um legitimo fait divers, ocupou as atencoes de Versoris, de Driart e, novamente, do Bourgeois de Paris. *** Era algo que estava, pois, no ar do tempo.

III.

Pelo tema, nosso texto se situa no rol dos canards criminais ou, mais propriamente, no dos "canards sanglants". (26) Podemos discutir sua insercao na dinamica especifica que constitui estes ultimos, mas, seja como for, temos ai alguns componentes dispersos que definem, em grande parte, a estrutura de um canard em sua generalidade. O fait divers contem elementos conteurs (ou novelisticos) e informacionais, oscilando entre a narrativa fantastica e o "fato" jornalistico: o nivel diegetico e recheado de referencias tanto biblicas quanto do noticiario politico contemporaneo (Caim e Abel; Salomao e Joabe; Balduino, Salcedo e o Duque de Anjou; o italiano de Anvers), bem como localizado numa topografia plenamente reconhecivel e recuperavel: Corpen, Mayence, Berckessel, Alemanha, Treves, Ducado de Luxembourg etc. A hiperbole, dispositivo retorico inerente as histoires admirables tipicas do canard--uma das garantias de interesse narrativo negociadas com seu publico leitor e/ou ouvinte--esta anunciada desde o titulo: contar-se-a a historia veridica do assassino de incriveis 964 almas. Alem disso, uma linguagem supostamente intelectualizada, de vies teologico-juridico-moral em nosso caso, enverniza o contexto, dando-lhe ares de importancia erudita, bem como um referente retorico da cronica historica medievo-renascentista. Esses vetores alimentam as discussoes que conformam o canard enquanto veiculo de deleite e informacao.

De que maneira esta dinamica "conteur X informacao" e trabalhada pelo publico da epoca? E possivel falar ai de uma pura dinamica de ficcao (decididamente novelistica) ou, ao contrario, de uma pura recepcao informacional? Nao e facil dizer. Mas nao nos enganemos. Em certa medida, a situacao do leitor atual e praticamente a mesma do leitor seu contemporaneo: dificilmente se poderia saber se se trata de um hoax ou de uma noticia veridica, de um fato ou de uma invencao. O narrador parece se comprazer nessa imprecisao, anunciando o problema metapoeticamente numa secao importante do texto: tudo isso seria incrivel (em outras palavras, "eu mesmo nao acreditaria nisso"--artificio a partir do qual ele mimetiza todos os seus leitores potenciais) se o proprio Cristeman (um "proprio" que talvez nao exista no mundo real) nao tivesse anotado, de proprio punho, cada uma das suas mortes num caderno, terrivel e bizarra agenda macabra. O serial killer seduz nao pelo misterio de uma acao abrupta, imediata, irracional e sem sentido, e sim pela frieza do calculo infinitesimal: ao que se soma a justeza simbolica do numero 1000, score que selaria, como a obsessao do milesimo gol, sua aposentadoria (tao proxima que sentimos ate certa decepcao por ele nao ter conseguido chegar ate la). (27)

Mas o caderno macabro e, evidentemente, um objeto anodino, funcionando como peticao de principio, sem nada provar (onde esta o caderno? quem sao os mortos?). Peticao de principio que se responde a si mesma, porem, em diversos niveis do proprio canard. O registro contabil pressupoe uma racionalidade (dirigindo e amplificando a credibilidade do canard) e uma demonstracao circunstancial da veracidade dos fatos. Pois a autoridade imputada ao escrito, ao valor do escrito como contraparte da instancia oral (operacionalidade dinamica que, entre outras coisas, constitui o canard enquanto meio de informacao), a mera enunciacao de existencia de um suposto escrito, por mais macabro que seja, por si so ja comprovaria por inteiro todas as outras facetas do fait divers, reduzindo a hiperbole "admirable" das inumeras mortes (dispositivo novelistico) a um conjunto crivel, "real" e aceitavel (fato jornalistico) pelo leitor-ouvinte. (28)

Desdobramento importante, pois e o mesmo dispositivo que esta em operacao junto a "nos", leitores atuais do texto: a racionalidade do computo e do ato da sua escrita, do controle quotidiano que ele pressupoe, e um codigo que atravessa e substitui, mais forte e mais perene, a propria mensagem, irradiando o fait divers com uma possibilidade de verdade que quase se basta a si mesma para garantir o edificio retorico do texto inteiro. O serial killer e, essencialmente, uma persona antissocial com uma obsessao levada ao extremo (29), etiologia que a imagem dos recem-nascidos, sistematicamente mortos e escorcados a cada ano, flutuando no varal ("dancem, dancem, meus queridos filhos!", sadicos trofeus de pele sob uma enunciacao jogralesca e ironica da paternidade (30)), ajuda a cristalizar de modo permanente. (31) Tal etiologia (proveniente da Psiquiatria contemporanea e garantida narrativamente pela suposta existencia do caderno macabro), no entanto, nao faz mais que realimentar, para nos, o enquadramento do recit, confrontado com seu componente aritmetico obviamente absurdo, na escala das coisas possiveis (pois o serial killer age como tal) mas improvaveis.

Para o leitor contemporaneo ao canard, porem, privado deste nosso insight etiologico, o caderno macabro e sintoma, nao de uma logica do possivel/impossivel (uma vez que o impossivel pode acontecer por diversas razoes sobrenaturais ou preternaturais (32)), mas sobre tudo de uma logica do provavel. Para a repeticao crivel de um fenomeno nao diretamente visto--pois, apesar disso, bandidos existem, bandidos matam pessoas em emboscadas na estrada, sobretudo se agem sem punicao "pelo espaco de treze anos" (33)--bastaria a existencia (suposta) de um registro das maos dos proprio psicopata: eis tudo o que e necessario para torna-lo um fato inequivoco. (34) Portanto, sem o movimento critico-epistemologico contrario de uma verdadeira auctoritas para contrabalanca-lo--provido, por exemplo, por um teologo ou por um jurista (dai, alias, a importancia do verniz intelectual de legitimacao na retorica do nosso canard)--, o fait divers tem uma credibilidade narrativa inercial veloz e dificil de ser contida. Em outras palavras, esse "dispositivo do provavel", em certa medida, e o mesmo do rumor, a nocao cientifica e empirica de veracidade nao se aplica aqui, pois o rumor e uma deliberacao coletiva. (35) Neste sentido, esse dispositivo acaba reforcando uma possibilidade magica do mundo concreto--a de se reinventar a partir de uma pequena fresta do imaginario e do condicional, o que permite modelar inumeraveis mundos possiveis onde o incrivel Cristeman poderia efetivamente estar e agir. Um contexto apocaliptico, milenarista ou escatologico, por exemplo, no qual as misteriosas interfaces do comportamento divino (sempre em jogo no nosso fait divers) incitariam a imaginacao e o engendramento de quimeras incompreensiveis, e o tipo de contexto que permitiria essa modelagem contrafactual contrabandeada para o real (seja la o que for o real). (36)

Sem contar, claro, que esses componentes, as vezes distintos as vezes simbioticos, fornecem uma obvia musculatura midiatica e iconica que certamente concorreu para a perpetuacao e a disseminacao editorial do nosso canard. (37)

Alem disso, temos outra negociacao, ainda mais sutil, indireta, entre o extraordinario (definindo o espaco conteur-novelistico do canard) e o banal (que define o espaco ordinario e concreto do leitor-ouvinte). Pois o canard rapidamente se desembaraca do incrivel, do admirable numero de vitimas de Cristeman Gempertingua para se concentrar na aventura singular da "mulher": anonima, como convem a "mulher", essa vitima infeliz porem bela (beleza que lhe salvou a vida mas que lhe custou a liberdade, verdadeira fabula da opressao generica), sequestrada e mantida em cativeiro durante sete anos, e uma versao renascentista das Nataschas Kampusch, das Jaycees Dugard, das Michelles Knight, das Elisabethes Fritzl (em outras palavras, um fait divers em si). (38) Genitora "que se arrependia continuamente dos pecados que cometera (sic)", zelosa de um juramento completamente absurdo diante das circunstancias, que precisa ser previa e excepcionalmente absolvida de perjurio pelos magistrados (instancias essencialmente masculinas) interessados em sua historia "desde que", e claro, "isso nao represente a perdicao de sua alma". E como saber se o que ela entende por salvar sua propria alma obedece aos mesmos criterios? E como "mulher", com artificios tipicos da tromperie feminina (o uso de "belas frases"; o cafune sordido que adormece o troglodita em seu colo no leito conjugal) que ela vira o jogo; e como estereotipo que ela segue para enganar Cristeman e entrega-lo a seus algozes. E, finalmente, e como "puta desleal", titulacao dada pelo monstro que aqui se transmuta subitamente em pobre marido enganado, que ela desaparece por completo da cena do canard: depois de cumprir seu papel (um papel secundario, portanto, apesar de fundamental) nos insondaveis propositos divinos, diversas vezes invocado pelo narrador como aspecto moralizante prioritario do fait divers. Nada mais ordinario que uma mulher em sua ordinaria condicao de "mulher".

Sem nos darmos conta, o texto, apesar das intencoes declaradas e aparentemente imediatas do narrador (falar a respeito do maior serial killer de todos os tempos), e na verdade a historia de uma vinganca divina e feminina, onde esta se traveste daquela. E gracas a mais banal das caracterizacoes genericas, a mulher-trompeuse, a mulher-infiel, a mulher-traidora, que a narrativa consegue ser resolvida--tanto no nivel subtextual quanto no teologico-juridico-moral. E atraves da traicao da mulher que os planos divino e humano se encontram novamente estaveis, e as justicas, divina e humana, tao conclamadas pelo texto, podem finalmente ser cumpridas: mas supliciado na roda, alimentado e hidratado para sofrer o maximo possivel, sem bracos nem pernas, Cristeman Gempertingua nao deixara de surpreender--durara nove dias. (39) Assim seja.

Rafael Marcelo Viegas

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Rafael Marcelo Viegas e Bacharel em Filosofia (1997, IFCH-UERJ), Mestre (2001) e Doutor (2008) em Saude Coletiva pelo Instituto de Medicina Social (IMS) da UERJ, Doutor em Letras Neolatinas pela Faculdade de Letras da UFRJ (2014). E-mail: <rafaelmviegas@gmail.com>.

* (SEGUIN, Jean-Pierre. L'lnformation en France avant le periodique, op. cit.: 8.)

** (Cf. SEGUIN, Jean-Pierre. L'Information en France avant le periodique. op.cit.: 14)

*** (Cf. ANONIMO. journal d'un bourgeois de Paris sous le regne de Francois ler (1515-1536). Paris: Societe de l'histoire de France, 1854: 372-373; VERSORIS, Nicolas. Livre de raison de Maitre Nicolas Versoris, avocat au parlement de Paris (1519-1530). Paris: Societe de l'histoire de Paris, 1885: 116; DRIART, Pierre. Chronique parisienne de Pierre Driart, chambrier de Saint-Victor (1522-1535). Paris: Memoires de la societe de l'histoire de Paris et de l'Ile de France, vol. 22, 1895: 135)

(1) Discovrs admirable des mevrdres et assasinatz de novveau commis par un nomme Cristeman Alemand, execute a morte en la ville de Berckessel, pres de Mayence en Allemagne, lequelpar son proces a confesse auoir entre autres crimes tue & assassine neuf cens soixante & quatre personnes. Iouxte la copie, Imprimee a Mayence. M.D.LXXXII. Este fait divers, impresso em 8 paginas e em formato in-8, encontra-se no catalogo da BNF sob a cota MP 3287. Reproduzido, com grafia modernizada, em LEVER, Maurice. Canards sanglants, Paris: Fayard, 1993: 7178. A lingua e o moyen-francais, com uma pontuacao frequentemente confusa e uma sintaxe bastante truncada. O texto original foi estruturado em apenas quatro grandes paragrafos--reorganizados aqui para facilitar a leitura. No repertorio Seguin, este fait divers e o de no. 33.

(2) Em agosto de 1582, descobriu-se uma conspiracao para matar Francisco, duque de Anjou, quarto filho de Henrique II e de Catarina de Medicis, e irmao de Henrique III. Liderada por Balduino e por Salcedo, o Jovem (filho de um espanhol morto no Massacre de Sao Bartolomeu), o episodio aparece no Journal de Pierre de L'Estoile, que data a morte do primeiro em agosto de 1582 e a execucao do segundo em 23 de outubro de 1582.

(3) Versos de Catao: Nolo putes prauos homines peccata lucrari:/ Tempore si peccata latent, et tempore parent. [Nao pense que os malvados vencerao / Ocultos por um momento, o tempo mostra seus pecados]. Disticha Catonis, II, 8.

(4) Atual Kerpen, 30 km a leste de Colonia.

(5) Literalmente "poix" [piche] no texto original. Lever transliterou como "pois", o que neste caso teria de ser traduzido como "ervilhas"--transliteracao que sigo aqui.

(6) Na Franca, a imprensa periodica so aparecera em 1631, com a publicacao do primeiro numero do semanario La Gazette, impresso por Theophraste Renaudot. Minha definicao do jornal do seculo XVII nao difere muito daquela do jornal tal como a conhecemos hoje--exceto, talvez, neste caso, pelo papel dado a publicidade --, mas, como se trata apenas de uma definicao contextual, nao entrarei no merito de sua especificidade.

(7) Uma arqueologia exaustiva da pre-historia dos jornais deveria retroagir ate contemplar uma analise dos Acta diurna do Imperio Romano--publicacoes diarias [diurna] que circulavam trazendo todo tipo de informacao (de casamentos a cronicas esportivas e teatrais), redigidas pelos diurnarii [diaristas] (ancestrais dos jornalistas modernos). Salustio, por sua vez, um dos protegidos de Julio Cesar, era o redator de uma publicacao periodica, o Commentarius Rerum Novarum [Cronica das novidades], semanario que empregava 300 escravos escribas com 10 mil exemplares por edicao (Cf. Wolgensinger, Jacques. LHistoire a la Une. La grande aventure de la Presse, Paris: Gallimard, 1989: 14-15). Nao sendo o objetivo ultimo deste artigo fazer uma historia da imprensa, mas a contextualizacao do noticiario no final do Renascimento, me desincumbo desta tarefa historiografica geral.

(8) "De facon generale, le role fundamental que joue la rumeur dans Lespace public reste a decouvrir, alors quelle agit a la fois comme information et comme contestation de l'information dans les milieuxpopulaires." (Billore, Maite; Soria, Myriam. La Rumeur au Moyen Age. Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 2011: 27).

(9) Lembro que essas denominacoes ("ocasional", "boletim de informacao", "fait divers") sao retroativamente anacronicas em relacao ao periodo considerado aqui, final da Idade Media e Renascimento, uma vez que se trata de uma nomenclatura jornalistica que vem do seculo XIX.

(10) Essa nova dinamica da informacao nao e, claro, especifica a Franca. Em algumas regioes, como na Italia, na Alemanha e nos Paises Baixos, a producao de boletins e ocasionais reunia uma verdadeira estrutura de noticias--a qual faltava somente periodicidade para ser considerada como jornalistica. No caso desses paises, os ocasionais operavam com conteudos de interesse direto para o comercio: " Quant aux nouvellistes [i.e., os profissionais de noticias] vivant de leur profession, ils devinrent tres nombreux. Certains avaient de veritables bureaux bien organises: Jeremie Krasser dirigea un bureau de ce gen-re a Augsbourg, qui fut repris apres sa mort pour Schiffle; tous les deux travaillaientpour les Fugger etpour d'autres clients. Les electeurs de Saxe payaient de nombreux correspondents (parmi lesquels figure Hubert Languet) pour leur envoyer les feuilles dont la collection est conservee aujourdhui a Dresde. Certains nouvellistes chercherent a etendre leur clientele. Un temoin du XVIe siecle voit a Hambourg un bureau de ce gen-re, ou les diplomates et bien d'autres personnes viennent se procurer des nouvelles manuscrites et imprimees. C'est en Italie surtout que le commerce des fogli a mano se vulgarise. A Venise on les vendit publiquement sur le Rialto dans une boutique; nombreux etaient dans cette ville les professionnels, appeles tour a tour menanti, novellanti, rapportisti, gazettanti. Ce dernier terme nous rappelle que, dfapres la tradition, le mot<<gazette>> vient de la petite piece de monnaie venitienne (gazzetta) qui payait la feuille mise en vente (...)" (WEILL, Georges. Le Journal. Origines, evolution et role de la presse periodique, Paris: Renaissance du livre, 1934: 11-12).

(11) Na Franca, a voga comecou com as Guerras da Italia: "Sous Charles VIII, de nombreuses pieces de cette nature avaient fait connaitre, parfois presque jour apres jour, a un public assoiffe de nouvelles, les peripeties des campagnes dltalie. D'autres reproduisaient les textes de traites importants ou relataient les circonstances d'entrees de souverains; d'autres, enfin, vulgarisaient le texte de la lettre de Christophe Colomb ou racontaient de passionnants faits divers. Au debut du XVIe siecle, les bulletins d'information se font de plus en plus nombreux, et leur clientele saccroit. Les regles du genre, dans le choix de nouvelles et dans leurpresentation, s'elaborent telles quon les retrouvera pratiquees par les editeurs de gazettes, par les canardiers et par les journalistes a venir." (SEGUIN, Jean-Pierre. LInformation en France de Louis XII a Henri II. Geneve: Droz, 1961: 7).

(12) O acervo da Bibliotheque Nationale de France [BNF] possui a mais importante colecao de occasionnels em lingua francesa, alguns deles ja digitalizados e oferecidos na base Gallica. Os principais estudos de conjunto sobre essa colecao foram publicados a partir do final dos anos 1950, sendo os dois livros de Jean-Pierre Seguin, L.Information en France de Louis XIIa Henri II (1961) e LInformation en France avant leperiodique (1964), ainda fundamentais. Este ultimo livro e a reuniao corrigida de artigos publicados anteriormente na revista Arts et traditions populares. Fundamental para o estudo do canard., ele foi publicado como sequencia de artigos em ATP T. XI no. 1, Janvier-Mars 1963: 20-32; ATP T. XI no.2, Avril-Juin 1963: 119-145; e ATP T. XI no.3-4, Juillet-Decembre 1963: 203-280.

(13) Excecao feita aos boletins do final do seculo XV, sobretudo na Italia e nos Paises Baixos, que tambem traficavam informacoes de carater funcional para o comercio.

(14) Para os impressores do Renascimento, o valor economico dos boletins de informacao e, desde o inicio, bastante significativo, mas de modo pontual: "S'il existe deja quelques specialistes [em imprimir ocasionais]--P le Carron et J. Lhomme surtout ont droit a ce titre--pour la plupart des autres imprimeurs, les bulletins d'information netaient quun moyen, plus ou moins souvent employe, de realiser une bonne affaire en vendant rapidement, a une clientele etendue, une marchandise produite a peu frais." (Seguin, Jean-Pierre. LInformation en France de Louis XII a Henri II, op. cit.: 50).

(15) "Pour la periode 1488 a 1529, J.-P Seguin a retrouvepres de 200 occasionnels, mais aucun ne relate un fait divers, ce qui est assez curieux. A partir de cette date, les canards se multiplient. Le Journal d'un bourgeois de Paris [sous le regne de Francois I], de 1515 a 1536, en consigne dlnnombrables. Pierre Boaistuau en rassemble dans un recueil sous le titre Histoires prodigieuses en 1560 (Bellanger, Claude et allii. Histoire generale de la presse francaise. 1, Des origines a 1814. Paris: PUF, 1969: 41). Aproprio-me, aqui, como se ve, de um conceito classico de fait diver --tal como o usado, entre outros, por Roland Barthes (Barthes, Roland. "Structure du fait divers" [original 1962] in Barthes, Roland. Essais Critiques, Paris: Seuil, 1964: 188-197). Lembro novamente que, embora de uso corrente pelos especialistas (em particular por Seguin), o emprego do termo fait divers aqui e anacronico: so comecou a ser utilizado no circuito jornalistico no primeiro terco do seculo XIX (o Robert traz a data de 1838), designando uma rubrica noticiosa reunindo os acontecimentos menores do quotidiano--quer dizer, aqueles sem lugar nas grandes rubricas de um jornal (Politica ou Economia, por exemplo). Importa dizer que, se exagero essa ideia de canard "sem implicacoes" e "fora das rubricas classicas", e unicamente com fins didaticos--pois os canards estao cheios de implicacoes ideologicas dos mais diversos niveis, destacaveis a partir de uma analise mais fina e especifica que a proposta meramente introdutoria que faco aqui.

(16) Preferi nao traduzir canard por "pasquim", que seria o termo equivalente em portugues, por tres motivos: 1). trato aqui de fontes francesas; 2). por ser o termo pasquim demasiadamente ligado entre nos a uma tradicao de satira e critica politica--o que nao e necessariamente o caso no canard (veja-se a etimologia proposta por Houaiss, Dicionario da lingua portuguesa, entrada "pasquin-"); 3). e tambem porque canard (literalmente "pato") conserva em si, por sinedoque, uma referencia ao aspecto oral (o grasnar agudo do pato) da circulacao de noticias que nao deve ser esquecido em nosso contexto. A obra essencial para a analise do canard frances da epoca aqui considerada e Seguin, Jean-Pierre. L'Information en France avant leperiodique. 517 canard imprimes entre 1529 e 1631. Paris: G.-P Maisonneuve et Larose, 1964). Algumas pecas do repertorio de 517 canards, boa parte dele inventariado a partir do acervo da Bibliotheque Nationale no final da decada de 1950, foram perdidas--ao que parece, extraviaram-se no proprio acervo da BNF, segundo o que pude constatar em pesquisa local. Desde entao, outros canards foram descobertos em bibliotecas menores e acervos diversos, mas o inventario de Seguin permanece referencia obrigatoria para o estudo desse material. O mais antigo canard frances de que se tem noticia se intitula Le grand Miracle Dung enfant ne Par la voulente de Dieu en la ville de Norden, au pays de Frise, en Allemagne (abril de 1529) e foi modernamente publicado no: Bulletin du bibliophile, mai-juin 1890: 201-208.

(17) "C'est ainsi que la crue de la Seine en 1579 est illustree par une vue de Venise en 1480", entre outros tantos exemplos. (Cf. Wolgensinger, Jacques. LHistoirea la Une. La grande aventure de la Presse, op. cit.: 17).

(18) Colporteurs no campo e "vendeurs a la criee" (literalmente, "vendedores na base do grito") nas cidades, com seus cestos cheios de impressos pendurados em torno do pescoco (Cf. Wolgensinger, Jacques. LHistoire a la Une. La grande aventure de la Presse, op. cit.: 17; duas ilustracoes de gritadores em acao na p. 13 desse volume). Pierre de L'Estoile da, em seu diario, uma ideia de como funcionava esse comercio: "Le jour mesme [2 de agosto de 1611] on crioit un Discours du marquis des Sorciers, fait par un nomme La Fontaine, medecin du Roy, sur les subject du proces fait auprestre de Marseille, sorcier, nommeLouis Gaufridi. M'a couste deux sols." (L'Estoile, Pierre de. Memoires-Journaux, Vol. XI. Paris: Alphonse Lemerre, 1906: 135). Evidentemente, nao sao apenas canard ou bulletins que sao vendidos dessa maneira, tampouco a tradicao da vente a la criee e especificidade dos ambulantes de noticias: os cris de Paris sao uma verdadeira instituicao, que existe ate hoje, sendo catalogada por observadores e artistas de diversas epocas (uma celebre chanson polifonica renascentista de Clement Janequin, usando exclusivamente frases cantadas por comerciantes de rua e de feiras parisienses, se intitula justamente Les Cris de Paris', existe gravacao em CD feita por Dominique Visse com o Ensemble Clement Janequin). A figura do crieur publico, por sua vez, o portador de noticias oficiais do governo ou de instituicoes publicas ou privadas, embora vista com frequencia em diversos filmes retratando a Idade Media, e ainda relativamente pouco estudada. Para uma analise recente do papel desse tipo de funcionario, ver Offenstadt, Nicolas. En place publique: Jean de Gascogne, crieur du XVe siecle. Paris: Stock, 2013.

(19) Jean-Pierre Seguin tenta isolar o conteudo e as estrategias do canard em relacao ao boletim de informacao: "(...) emporte par son sujet et desireux d'en accentuer le cotesensationnel, le narrateur empiete unpeu dans le domaine de la fiction. Un de ses congeneresy glisse franchement, dans un autre texte relatant ^apparition d'un dragon dans le ciel de Paris. Cette fois, comme toujours en pareil cas, les elements empruntes au reel ont pour but de faire passer un fait imaginaire, que le lecteur aura plaisir a croire vrai." (SEGUIN, Jean-Pierre. information en France de Louis XII a Henri II. op. cit.: 41). Mais adiante, diz que o interesse documentario no boletim de faits divers 11 nest pas exactement de meme nature que celui des autres bulletins, ni tout a fait semblable la maniere de leurs auteurs". (Ibidem: idem).

(20) Atraves de Pierre de L'Estoile, "nous savons que la masse, emotive etpassionnee, prenait souventpour argent comptant toute fable imprimee. Nous connaissons aussi les reactions des esprits cultives et critiques don't il est le representant: la liste est longue des termespejoratifs quil emploiepour qualifier les occasionneh en general et ceux de faits divers enparticulier: <<balivernes, fadezes, fables, bagatelles, baguenaudes, trique niques, drolleries, amusebadaus, sornettes, charlatanneries, folastreries, fables>>, etc. (Seguin, Jean-Pierre. L'Information en France avant le periodique op. cit.: 23). A nomenclatura usada por L'Estoile nao e, evidentemente, precisa. Fadeze, sornettes, fables, charlatanneries (termos negativos e derrisorios) nao sao empregados em seu diario apenas no contexto de documentos impressos, mas servem tambem, como adjetivos e substantivos, a uma ampla gama de circunstancias--normalmente de cunho fraudulento. O contexto geral e o da tromperie, nocao importante no contexto dos fabliaux e da novela renascentista. No entanto, a partir do final de 1606, L'Estoile comeca a preferir os termos fadeze e, sobretudo, bagatelles quando se refere particularmente aos canards.

(21) "A Paris, les plus gros editeurs de canards ne sont aucunement specialises dans la production de livrespeu couteuxpour un public <<populaire >> mais, a l'occasion, font rouler leurs presses inoccupes pour imp-rimer ce materiel auprix de revient faible et a la large diffusion." (Chartier, Roger. "Strategies editoriales et lectures populaires, 1530-1660" in Martin, Henri-Jean; Chartier, Roger. Histoire de ledition francaise. I, Le livre conquerant: Du Moyen Age au milieu du XVIIe siecle. Paris: Promodis-Ed. du Cercle de la librairie, 1983: 597). Em Lyon, por sua vez, o mercado de canards era dominado por um unico impressor, Benoit Rigaud, "qui imprime pres du quart des editions faites dans la ville. Pour lui, la publication des occasionnels s'insere dans une activite centree sur l'edition des livrets bon marche--ce qui ne veut pas dire destines a un meme public--: almanachs etpredictions, chansons etpoesies, actes officiels" (Chartier, Roger. "Strategies editoriales et lectures populaires, 1530-1660", op. cit.: 597).

(22) No sistema monetario do Antigo Regime, 1 sol era subdividido em 12 deniers e, por sua vez, valia 1/20 de uma livre tournois--sendo esta a proporcao monetaria de referencia na Franca, de 1200 (quando a livre tournois substituiu a livre parisis) ate o seculo XVII. Pierre de L'Estoile nos diz, em suas Memoires, que, em setembro de 1608, pagou 48 sols pelos dois tomos das Fleurs des exemples de Antonie d'Avroult (coletanea de milagres e narrativas catequeticas ou edificantes); 20 sols pelo 5 tomo da Historiarum sui tempo-rum, de Jacques Auguste de Thou; 10 sols por um Edict et declaration du Roy Henry Quatriesme de France, et 3 de Navarre ... (203 paginas a proposito da incorporacao patrimonial da coroa de Navarra pela coroa francesa), publicado por Pierre de Belloy; e 70 sols por uma edicao de cerca de 1.000 paginas do Discours des Spectres de Pierre Le Loyer. Todos os volumes com costura e capa de pergaminho. Por outro lado, em janeiro do mesmo ano, comprara duas novas "bagatelles" (Un Deffy du GrandSophi de Perse au Grand Turq e o canard Histoire tragique de la constance d'une dame enver son serviteur ...) pagando, por ambas as pecas, a quantia de 2 sols. Mais tarde, em marco de 1609, pagou 1 sol pelo canard Discours veritable de l'execrable cruaute commise par une femme nommee Marie Hubert ...; e 3 sols pela Histoire prodigieuse de Vassassinat commis en lapersonne d'un jeune advocat ... Em 23 de abril, comprou o canard Histoire nouvelle etprodigieuse d'une jeune femme laquellependit sonpere ... pela quantia de 1 sol.

(23) Essa divisao nem sempre fica clara na leitura dos textos, pois nao quer dizer que temas diferentes nao possam se interpenetrar num mesmo canard. Vale lembrar, tambem, que as entradas do repertorio de Seguin incluem duplicatas e referencias a outros suportes (como os diarios), o que praticamente duplica o numero total de seus faits divers.

(24) Ha edicoes on-line (Google Books, Gallica, Archive.org) de todos esses textos. E bem verdade que a maior parte dos memorialistas franceses nao partilha do interesse pelo quotidiano comezinho da vida ordinaria: seja porque suas cronicas sao politicamente engajadas (estao a servico do rei, ou da nobreza, ou de si mesmos nesse contexto aristocratico, tratando exclusivamente de assuntos dessa natureza), seja porque nao faz parte da genealogia intelectual do genero que entendem estar prolongando (seus arquetipos sao as classicas memorias politicas latinas e as cronicas medievais que lhe constituem a sequencia): quer dizer, sao cronicas historico-politicas, nao cronicas de costumes. Google Books e Archive.org oferecem todos os volumes das duas series da Collection des Memoires relatifs a lHistoire de France, editadas por Petitot no inicio do seculo XIX. Embora editorialmente antigas, elas permitem reconstituir facilmente o contexto contemporaneo dessas narrativas e avaliar a significacao discursiva do surgimento do fait divers.

(25) Neste caso, faltaria somente que a narrativa ocupasse ao menos uma pagina completa, em vez de um unico paragrafo: "En l'an 1515, le vendredy vingt deuxiesme de juing, fut decapite un homme a Paris qui avoit tuesa femme, et estoit fiance a une autre femme, pres dAmiens. Et mena icelle femme au bois de Senac, pres Paris, auquel lieu il l'estrangla de sa ceincture, apres avoir eu sa compaignie. Et vouloit espouser celle quil avoit fiancee, dont il fut accuse et finableraent decapite, comme dit estC (Journal d'un bourgeois de Paris sous le regne de Francois 1er (1515-1536). Paris: Societe de l'histoire de France, 1854: 14).

(26) Na feliz expressao de Maurice Lever. Ha 109 entradas de canards diretamente relacionados a crimes (duelos, roubos etc.) no repertorio de Seguin; os canard sangrentos, mais explicitos na descricao de mortes e suplicios, constituem cerca de 90 entradas e 150 exemplares.

(27) "How many murders constitute a series? Authorities and sources disagree on that point, demanding anywhere from two to five or six sequential crimes. The Federal Bureau of Investigation (FBI) defines serial murder as 'three or more separate events in three or more separate locations with an emotional cooling-off period between homicides'. Unfortunately, that definition makes no allowance for killers like Jeffrey Dahmer, who murder all their victims in one place, or for those who are caught after only two murders. The National Institute of Justice (NIJ) published a broader definition in 1988, describing serial murder as *a series of two or more murders, committed as separate events, usually, but not always by one offender acting alone. The crimes may occur over a period of time ranging from hours to years'. Today, while even some FBI agents prefer the NIJ's version, other researchers insist on their own definitions." (NEWTON, Michael; FRENCH, John. Criminal Investigations: Serial Killers. New York: Chelsea House Publishers, 2008: 16).

(28) Em certo sentido, o proprio canard pode ser considerado como um caderno macabro.

(29) Grato a Jairo Gama (IMS-UERJ) pela justeza tecnica da definicao.

(30) "In addition to victimology, modus operandi, and signature aspect, the organized/ disorganized classification of serial killers is extremely important in criminal profiling. Organized offenders are hypothesized to kill after undergoing some sort of precipitating stressful event, are of average intelligence, are socially competent, are apt to plan his offenses, use restraints on his victims, take "trophies" or "souvenirs" (items, of little extrinsic value, which belong to the victim and serve to later stimulate the offenders fantasy), bring a weapon to commit the murder and take it with him when he leaves the crime scene." (LABRODE, Rebecca Taylor. "Etiology of the Psychopathic Serial Killer: An Analysis of Antisocial Personality Disorder, Psychopathy, and Serial Killer Personality and Crime Scene Characteristics" in Brief Treatment and Crisis Intervention, Vol. 7, no. 2: 151-160).

(31) Evidentemente, relatos de sadicos hiperbolicos do mesmo naipe ja circulavam em territorio europeu: Gilles de Rais (1405-1440), na Franca; e Vlad III Tepes (1431-1476), na Valaquia, regiao dos Carpatos (conhecido por conta de diversos relatos em russo, romeno e alemao), sao os exemplos classicos--muito embora, controversos. No caso de Vlad III, sua fama de assassino sanguinario foi construida principalmente por seus inimigos, sendo ele heroi popular na Romenia: para um dossie com as fontes ver McNally Raymond; Florescu, Radu. Em Busca de Dracula e outros Vampiros (1992), Sao Paulo: Mercuryo, 1995. No caso de Gilles de Rais, companheiro de Joana D'Arc posteriormente condenado por uma serie de crimes (que incluiam infanticidios, sodomia, invocacoes demoniacas), foi reabilitado por diversos autores modernos. Ver Bossard, Eugene. Gilles de Rais, Marechalde France, Paris: Honore Champion, 1885; Bataille, Georges. "Le Proces de Gilles de Rais" in Bataille, Georges. CEuvres completes, Tome X. Paris: Gallimard, 1987: 271-571; e Parsons, Ben. "Sympathy for the Devil: Gilles de Rais and His Modern Apologists" in Fifteenth Century Studies, Vol. 37, 2012: 113-137.

(32) Trata-se, pois, de uma longa discussao, que envolve uma sistematica fenomenologica na qual o reino das coisas nao se restringe unicamente ao mundo natural (com leis imutaveis e constantes), mas que tambem envolve o sobrenatural (divino) e o preternatural (a hachura que intersecciona os dois anteriores e que corresponde a acao de seres e eventos extraordinarios, como demonios, portentos e prodigios) e que pode ser modificado segundo certas circunstancias: "From the point of view of causal analysis, the preternatural posed special problems, largely because it was a negative category--and a negative category, furthermore, whose limits were defined in practical terms by a pair of unstable criteria both of which depended on the experience and knowledge of the viewer: that which was infrequently experienced or that at which the ignorant wondered. As a result, the preternatural consisted of a stratigraphy of heterogeneous phenomena, built up in layers from several different traditions with no internal coherence except their awkward relationship to scientia in the Aristotelian sense. These phenomena might include (depending on the author in question): conjuring tricks; natural substances (domestic and, especially, exotic) endowed with occult properties, as well as other staples of the ancient paradoxographical tradition; necromancy and other forms of demonic intervention; and chance or accidental phenomena as defined by Aristotle himself. Although thirteenth- and fourteenth-century philosophers might agree on the importance of supplying natural causes for such effects, they differed significantly as to the specific sorts of causes involved, particularly once the influx of Arabic philosophical writing in the twelfth century had vastly expanded the very limited repertory of causal mechanisms previously available to Latin writers" (Daston, Lorraine; Park, Katharine. Wonders and the Order of Nature (1150-1750), New York: Zone Books, 1998: 126). Ver tambem Daston, Lorraine. "Marvelous Facts and Miraculous Evidence in Early Modern Europe" in Critical Inquiry, Vol. 18 no. 1, 1991: 93-124.

(33) Nao e a toa que o caso Cristeman propriamente dito e precedido, e ele proprio recheado, de referencias a sistemas quantitativos: "Crueldades de malfeitores existem em varios livros e tratados (...)"; "Muitos assassinos foram executados por esta razao (...)"; "As Escrituras entretanto, tanto do Velho Testamento quanto as historias profanas lhe fazem fe (...)"; "provisoes de vinho e de carnes frescas e salgadas para durar um ano (...)"; "armas de todos os tipos e em grande numero"; "todo tipo de mercadoria, roubadas de alemaes e de outros, em tal quantidade que poderiam abastecer uma feira (...)"; "muitos estimaram chegar a valer mais que de setenta mil florins de ouro da Alemanha " etc., ate finalmente chegarmos a frase capital "sua meta era matar ate chegar ao numero de mil pessoas". O numero, neste caso, e uma maquina de credibilidade.

(34) A demonologia renascentista utiliza esse mecanismo. E obvio que, de seu ponto de vista, certas coisas impossiveis sao, de fato, impossiveis; mas certas coisas impossiveis, se inseridos ai determinados elementos disruptivos, tornam-se, senao totalmente possiveis, ao menos provaveis. Eis a suposicao que importa para o demonologo. E por esse motivo que, embora voar pelos ares numa vassoura seja um "fato" alegado mas obviamente jamais aferido em flagrante por nenhuma instan cia penal conhecida (inquisitorial ou laica), ele podera sempre enviar a masmorra um acusado desse tipo de proeza: e a soma das narrativas (neste caso, eruditas e/ou populares) que afirmam o fenomeno preternatural que torna sua existencia real. "L'interrogation sur le statut des operations diaboliques, realite ou illusion, s'insere en effet sans doute dans uneproblematique plus generale qui touche a l'evolution des concepts de fiction, de croyance et de probabilite. La seconde moitie du seizieme siecle est l'epoque ou commence a se faire jour une pensee autonome de la fiction poetique comme domaine de l'imaginaire, ou s'impose la notion de croyance (comme s'appliquant a des objets inexistants), et ou evolue le concept de probabilite. Le debat, central pour la demonologie, porte encore pendant la Renaissance essentiellement sur le statut de l'opinion sur laquelle se fonde le probable : recouvre-t-il ce qui est cru par le vulgaire ou ce qui est atteste par des autorites? Cependant, la notion de probabilite commence justement a se detacher de Ropinion, tandis que s'imposera dans la deuxieme moitie du dix-septieme siecle Robjectivation du probable, cest-a-dire l'idee qu'il se fonde sur la frequence statistique" (Lavocat, Francoise. "L'Arcadie diabolique" in Lavocat, Francoise; Kapitaniak, Pierre; Marianne Closson. Fictions du diable, Geneve: Droz, 2007: 59).

(35) Kapferer, Jean-Noel. Rumeurs. Le plus vieux media du monde. Paris: Seuil, 2009: 17. Para a discussao, ver SHIBUTANI, Tamotsu. Improvised News. A Sociological Study of Rumor. Indianapolis: The Bobbs-Merril Company, 1966; PAILLARD, Bernard. "La rumeur, ou la preuve ordinaire" in Communications, Vol. 84, 2009: 119-135; RENARD, Jean-Bruno, Rumeurs et legendes urbaines, Paris: PUF, 20073; CAMPION-VINCENT, Veronique. La Societeparano. Theories du complot, menaces et incertitudes. Paris: Payot, 2007.

(36) No momento atual, diversos tipos de fenomenos "preternaturais laicos" (os da esfera midiatica, por exemplo), sem necessariamente se estabelecerem em con textos de ordem escatologica, foram contrabandeados do "mundo provavel" para o "nosso" mundo real. Podemos ver a fabricacao desse tipo de fenomeno, por exemplo, na progressiva naturalizacao do Slender Man: uma criatura sinistramente neutra, esguia, tentacular e sem rosto, vestida como um executivo de Wall Street, criada por Erik Knudsen para um forum na web em 2009, corporificada a partir de diversas contribuicoes narrativas e artisticas e que existe hoje como lenda urbana. Um fait divers recente (31 de maio de 2014) relata as maquinacoes de duas pre-adolescentes americanas, Morgan Geyser e Anissa Weier, de 12 anos, moradoras de Waukesha (Wisconsin), que convidaram uma amiga para um passeio, lhe desferiram 19 facadas pelo corpo e a deixaram agonizante em um bosque. Seu proposito: cometer um assassinato para tornarem-se "representantes da criatura, provando de fato a sua existencia" (Cf. Gusmao, Gustavo. "Jovens tentam assassinar colega para 'agradar' Slender Man, lenda urbana surgida na web" In: Info Online. Disponivel em: http://info.abril.com.br/noticias/ internet/2014/06/jovens-tentam-assassinar-colega-para-agradar-o-slender-man. shtml. Acesso em 03/06/2014).

(37) E pouco provavel que se saiba algo a respeito da circulacao concreta deste fait divers a fim de se poder quantificar seu sucesso publico, mas sua existencia no acervo da BNF talvez seja ai um indice importante. Em todo caso, nos EUA de hoje, o serial killer e intensamente explorado pelos veiculos de comunicacao, criando uma verdadeira economia cultural, a murderabilia: " The celebrity culture around serial killers has developed so far that one can now purchase the nail clippings and hair of some killers, as if they were religious icons. (SCHMID, David. Natural born celebrities: serial killers in American culture. Chicago: The University of Chicago Press, 2005: 3).

(38) O relato autobiografico de Kampusch (sequestrada aos dez anos em Strasshof an der Nordbahn, perto de Viena, pelo tecnico em comunicacoes Wolfgang Priklopil e mantida em cativeiro de 1998 a 2006) foi publicado em 2010. Nele, Kampusch transfigura magistralmente a idealizacao feminina da infancia em perfeito realismo, coroado com a aplicacao do dado cientifico: "Na epoca, eu tinha uma imagem clara das vitimas de sequestro: meninas louras, pequenas e muito magras, quase transparentes, que flutuavam pelo mundo de modo angelical e indefeso. Eu as imaginava como criaturas com cabelos tao sedosos que era preciso toca-los. Sua beleza paralisava homens doentes, transformando-os em bandidos violentos para mante-las por perto. Eu, ao contrario, tinha cabelos escuros e me sentia gorda e normal. E na manha do sequestro, mais do que nunca, eu me sentia assim. Nao me adequava a imagem que fizera de uma menina sequestrada. Hoje acho que essa imagem era falsa. Criancas pouco atraentes, com baixa autoestima, e que sao escolhidas como vitimas de sequestradores. A beleza nao e um fator quando se trata de violencia sexual. Pesquisas mostram que deficientes fisicos e mentais, assim como criancas sem ligacoes familiares correm maior risco de se tornar vitimas de um sequestrador." (KAMPUSCH, Natascha. 3096 dias. Campinas: Verus Editora, 2010 3: 67).

(39) "Un edit de 1534 reserva la roue aux parricides et aux voleurs a main armee ; mais Henri II etendit la punition aux assassins : elle devint des lors tres populaire, voire banale. (...) En realite, les juges autorisaient dans la majorite des cas, l'etranglement du criminel [o chamado retentum] avant le bris de ses membres. (...) Quand les juges navaient pas prevu de 'retentum et que le voleur faisait preuve d'une grande resistance physique, il fallait solliciter lautorisation expresse de l'etrangler. Le nomme Desmoulins, age de dix-sept a dix-huit ans <<a ete rompu mardi (18 decembre 1742), a midi. C'etait un garcon si robuste et meme tres resolu, quil est reste vingtdeux heures vif sur la roue. On a relaye des confesseurspendant la nuit, d'autant que la place sur un echafaud est un peu froide. Et ledit Sieur Desmoulins a bu plusieurs fois de leau et a beaucoup souffert. Enfin, voyant quil ne voulaitpas mourir, et que le service etait long, M. le lieutenant criminel a envoye demander a messieurs de La Tournelle la permission de le faire etrangler>>" (VILLENEUVE, Roland. Le musee des supplices. Paris: Ed. Azur, 1968: 114 e 115).
COPYRIGHT 2014 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras (UFRJ)
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2014 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Viegas, Rafael Marcelo
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Date:Jul 1, 2014
Words:10297
Previous Article:History of forms and the tones of criticism: on Roland Barthes' Writing Degree Zero /Historia das formas e os tons da critica: uma releitura de O...
Next Article:Joao do Rio, Alcantara Machado, Alberto Cavalcanti: between paper film and celluloid newspaper /Joao do Rio, Alcantara Machado, Alberto Cavalcanti:...

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2021 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters |