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Crise da modernidade em perspectiva historica: da experiencia empobrecida a expectativa decrescente do novo tempo/Crisis of modernity in historical perspective: from impoverished experience to decreasing expectation of the new time.

Passados quase cem anos, marcados por violentas guerras e calamidades humanitarias, desde as primeiras reflexoes que, do ambito da concepcao critica da historia, anteciparam-se em denunciar a crise da civilizacao moderna capitalista, novamente a "crise da modernidade" ganha protagonismo nos debates das Ciencias Historicas e da Filosofia. Como importantes chaves para esse questionamento estao o declinio da experiencia humana e a ascensao e queda das expectativas, fenomenos que caracterizam a era moderna e que se articulam com a restrita nocao tecnica ou instrumental adquirida pelo conceito de progresso nos ultimos seculos.

A diferenca que atualmente emerge para a reflexao contemporanea e a de que, ja ha algumas decadas, a crise do capitalismo se explicita com mais constancia e mostrase agravada em diversos aspectos. Desde uma perspectiva socioeconomica--e de acordo com diversos enfoques analiticos hodiernos--, a crise ja nao pode mais ser entendida apenas como um problema conjuntural, mas, sobretudo, apresenta sintomas de uma ampla crise das estruturas ou dos fundamentos que regulam o metabolismo social, cuja resolucao ja nao pode ser buscada internamente ao sistema gerido pelo capital. Portanto, para se compreender tal questao em sua complexidade, discutem-se neste trabalho alguns aspectos historicos e filosoficos da evolucao da modernidade e da crise que a acompanha, atentando a necessidade de uma abordagem que compreenda o problema em sua dimensao ampliada.

Inicia-se investigando o processo de declinio da experiencia, fenomeno caracteristico dos tempos modernos, e que se relaciona com a desorientacao de um modelo de progresso restrito ao mero avanco tecnico--tematica que Walter Benjamin e um dos pioneiros a analisar, em seu profundo ensaio "O narrador", escrito na desilusao do periodo entre-guerras.

Este tema sera, a partir de meados do seculo XX, examinado em detalhes por Reinhart Koselleck--um contundente critico da modernidade, cujas conclusoes corroboram e ampliam aquelas do marxista alemao nos anos 1930. Conforme percebe Koselleck, ha estreitos vinculos entre a empobrecida "experiencia historica" e o inflado "horizonte de expectativas" da modernidade; de acordo com suas constatacoes, a sociedade moderna e marcada desde sua origem por um estado de "crise permanente", sintoma que ele atribui ao movimento no qual a burguesia europeia em ascensao desprezou os saberes das tradicoes, afirmando sua particular "filosofia do progresso" como sendo universal, e fazendo com que tal perspectiva--iluminista e etnocentrica--, com seu modelo ideologico de "desenvolvimento tecnico", se expandisse enquanto "mundial".

Em seu segundo momento, este trabalho articula os conceitos anteriormente apresentados com a questao contemporanea, pondo seu foco no contexto atual da crise da modernidade --que se aprofunda com a globalizacao neoliberal. Abordamse, assim, os dialogos que o revigorado pensamento critico desenvolvido por Paulo Eduardo Arantes trava com a teoria da historia de Benjamin e com a historia dos conceitos de Koselleck, dentre outras impactantes correntes questionadoras da modernidade, como a critica do valor, com vistas a compor seu conceito de "crise do novo tempo"; em suma: um periodo de desesperanca, de "expectativas decrescentes", em que o sistema desnuda seu lado violento, explicitando a condicao estagnada de suas estruturas e a impotencia da sociedade--capitalista--em oferecer solucoes efetivas para os problemas humanos mais basicos.

A perspectiva de analise aqui proposta origina-se da percepcao de que, no atual contexto historico, a crise moderno-capitalista nao pode mais ser reduzida tao somente a um desequilibrio que se repete ciclicamente, mas, segundo variados analistas do tema, o que vemos hoje sao sintomas de agravamento da crise sistemica--um problema portanto interno, oriundo da propria logica estrutural do sistema capitalista, de sua configuracao produtiva caotica, sem planejamento ou orientacao racional. Pautado por uma nocao ideologica de "progresso", que reduz o desenvolvimento a seu valor instrumental. (1) o sistema hegemonico capitalista se mostra impotente diante de problemas humanos cruciais, como o desemprego cronico (que cresce com a automacao) e a cada vez mais preocupante crise ambiental, aspectos estruturais da crise que, conforme afirmam diversos pensadores, agrava-se e pode estar a conduzir a sociedade para um estagio de colapso.

Converge no pensamento dos tres autores a ideia de que a modernidade capitalista consiste em uma abrangente e duradoura crise, iniciada em seus primordios quando comeca a promover o desprezo das experiencias tradicionais e poe toda sua fe apenas na fragil promessa de progresso futuro; um estreito progressismo que, em seu aspecto nuclear, relativo ao desenvolvimento propriamente "humano" da sociedade, nao se realizou nem da mostras de que seja capaz de rumar no sentido de solido bem-estar social. Assim, essa ideia geral acerca da permanencia da crise sistemica e, no inicio deste novo seculo, atualizada por Arantes, que explica por que a sociedade moderna, carente de experiencias--de saberes advindos do passado--, passa agora tambem a perder sua crenca no progresso vindouro, tornando-se cada vez mais desesperancada, niilista, violenta; tal fenomeno se aprofunda e torna mais nitido apos o agravamento das consequencias globais da crise estrutural do capitalismo, cujo emblematico climax se da em 2008 com a explosao da crise economica mundial, face dessa ampla crise inerente a estrutura logica do sistema.

Preludio da crise moderna: do declinio da experiencia de Benjamin, a crenca no progresso tecnico de Koselleck

Severo critico do modelo moderno de progresso, que considera ideologico--sem um sentido evolutivo efetivamente social, Walter Benjamin e um dos primeiros teoricos criticos a perceber que o declinio da experiencia e um fator central de tal desorientacao. Em seu breve, mas denso ensaio "O Narrador", de 1936, expoe sua analise de como a "experiencia" humana, esse fundamento da "sabedoria"--aqui entendida como o "conhecimento" em perspectiva mais ampla, vem "definhando", declinando manifestamente desde a Primeira Grande Guerra.

Trata-se do cume de um processo de empobrecimento que se inicia junto com os tempos modernos, em um periodo no qual a arte de narrar comeca a perder protagonismo social; fenomeno que ganha corpo na passagem do seculo XVIII para o XIX, quando a burguesia firma seu poder, tendo, para tanto, a ascendente imprensa como um dos seus mais importantes instrumentos. Em detrimento da narrativa, com seu "ensinamento moral", e a superficial "informacao" que emerge como nova forma hegemonica de comunicacao humana.

Na sociedade ocidental moderna, pondera Benjamin, com a consolidacao da imprensa, a arte de narrar, a arte de transmitir a "sabedoria"--o saber, que e o "lado epico da verdade"--perde sua centralidade na formacao humana. Com tal declinio da experiencia, inaugura-se, pois, a "crise" dos saberes da modernidade. Paulatinamente, a informacao objetiva, com reduzidas frestas que permitam a indagacao, assume a condicao de cerne do ensinamento. O "saber" e assim cada vez mais restrito aos diversos conhecimentos tecnicos --conhecimentos compartimentados em especializacoes que nao logram abarcar uma compreensao total das necessidades humanas, que obnubilam um necessario saber panoramico que auxilie o homem a construir adequadamente sua historia. As ciencias, em seu curso desesperado e irrefletido, ja nao dao conta de conceber o todo humano, nao conseguindo, portanto, estabelecer diretrizes de fato "humanas" que sirvam como guia para um desenvolvimento de vies social (BENJAMIN 1994, p. 197-203).

A nocao reduzida de desenvolvimento como "progresso tecnico", caracteristica dos tempos modernos, e pautada pela supremacia de uma razao instrumental que visa submeter a natureza e tambem o proprio homem, segundo um modelo que viria a se mostrar nefasto, tanto etica e culturalmente, quanto em aspectos economico-estruturais.

Esse processo fica explicito com as carnificinas consumadas pelo "progresso", durante o que Hobsbawm (1995) chamou de "era da catastrofe", epoca autodestrutiva e quase sem nenhuma tregua que foi o "breve seculo XX"; ou ainda com as crises do trabalho e socioambiental, as quais se agravaram vertiginosamente nas ultimas decadas, legando a exclusao social imensos contingentes humanos e aproximando o planeta de um provavel ponto de nao-retorno.

A arte de narrar definha na modernidade, diz Benjamin, e isto e tanto mais notavel, conforme se consolida a imprensa de massas, instrumento fundamental para o fortalecimento do capitalismo. O conhecimento perde, entao, sua perspectiva mais ampla, deixando de ter um real protagonismo na educacao do homem; toma seu lugar uma "informacao" compartimentada, fragmentada, pobre de valores e que nao suscita reflexoes aprofundadas. A "explicacao", uma caracteristica desse novo conhecimento que se efetiva mediante o saber "fechado" promovido pela "informacao", nao permite a "interpretacao"--e ai radica o declinio da experiencia contemporanea: nao mais se interpreta, nao mais se experimenta algo com profundidade, mas apenas absorvemos o conhecimento minimo que nos e "explicado", que nos e oferecido pronto e acabado, nao se incentivando a meditacao criadora (BENJAMIN 1994, p. 200-203 e 209).

Ademais, a propria "essencia da informacao", mais interessada em obter audiencia, de que em resolver os problemas humanos efetivos, desvia a atencao da sociedade daquilo que deveria ser pauta de reflexao e debate, segundo uma irracional desproporcao de enfases. "Claramente"--pondera o pensador marxista--"o saber que vem de longe encontra hoje menos ouvintes que a informacao sobre acontecimentos proximos", de modo que, citando a sintese despudorada do diretor de grande jornal frances: "o incendio num sotao do Quartier Latin e mais importante que uma revolucao em Madri". E note-se que o "longe" aqui se refere tanto ao "longe espacial das terras estranhas", como ao "longe temporal contido na tradicao".

Constituimos, dessa maneira, uma sociedade privada da faculdade de intercambiar experiencias, incapaz de recorrer ao saber que nos oferece a historia; uma sociedade alienada do grande acervo humano vivido--o que inclui "a propria experiencia", mas tambem "em grande parte a experiencia alheia" (BENJAMIN 1994, p. 202-203 e 220-221).

O conhecimento hegemonico em nossa sociedade e, portanto, fechado a riqueza de outros saberes possiveis --possiveis, para alem e apesar do restrito cientificismo eurocentrico moderno.

Por um outro vies analitico, mas com conclusoes convergentes e complementares, tambem Reinhart Koselleck percebe a modernidade como um tempo de "censura" da "experiencia historica", da experiencia fundada na tradicao. (2) De acordo com a interpretacao do historiador alemao, tal restricao se torna viavel em nome de um prometido "horizonte de expectativas", o qual, desde o seculo XVIII, com a Revolucao Francesa e o surgimento da ideia de"progresso", cresceu desmesuradamente, ao menos ate antes da radicalizacao conservadora neoliberal do fim do seculo XX, como se quer mostrar. Com as conquistas propiciadas pelas Grandes Navegacoes, a promoverem com saberes e recursos naturais a Revolucao Cientifica, na passagem do seculo XVI ao XVII e, em seguida, com o desenvolvimento e propagacao das ideias iluministas, o mundo e levado, segundo Koselleck, a experiencia moderna fundante da Revolucao Francesa; era o primordio de um novo tempo historico, no qual o olhar e posto no futuro e os saberes da tradicao, desprezados. Citando imagem de Tocqueville, o historiador alemao sintetiza o advento deste "novo tempo": "Desde que o passado deixou de lancar luz sobre o futuro, o espirito humano erra nas trevas" (KOSELLECK 2006, p. 47-48).

Trata-se de um tempo em que cresce drasticamente a diferenca entre o "espaco de experiencia" e o "horizonte de expectativa", parametros chave para se compreender um "tempo historico", de forma que a modernidade ja nasce sob o signo deste desequilibrio. Koselleck, atraves de seu potente instrumental historiografico dito "historia dos conceitos" (atento a historicidade das terminologias), percebe que a emergencia dos "tempos modernos" tem por caracteristicas o olhar ansioso para o futuro, e o desprezo pelo passado.

E a epoca em que o termo germanico plural Historie ("historias"), deixa de se referir as diversas e nao entrelacadas narrativas particulares, para se tornar a maiuscula "Historia", em alemao geschichte, a "historia em si", termo de significado "singular coletivo" que faz referencia a uma cadeia unificada de acontecimentos. A partir de entao, passa-se a conceber a realidade como um todo enquanto historica (KOSELLECK 2006, p. 236 ss). Isso se da, decerto, segundo o prisma hegemonico eurocentrico, que impoe a historia europeia como sendo uma suposta marcha unica e universal da humanidade: o discurso do vencedor.

Emergindo com as "tempestades" da Revolucao Francesa, ruptura que Koselleck entende como "revolucionaria", se consolidara com a industrializacao, em um processo delineado segundo os propositos e as concepcoes do Ocidente. Ao explodir o espaco da experiencia das tradicoes, dissociando passado e futuro, tal movimento acaba por promover a crenca de que o homem dispunha de poder para decifrar sua "futura direcao" historica. Tal perspectiva "progressista", ademais de uma "maneira ideologica" de se enxergar o futuro, e um novo modo de se conceber a experimentacao do cotidiano, cujo efeito deleterio e fazer com que a historia perca o lugar de destaque que ocupara desde a Antiguidade, enquanto transmissora dos saberes tradicionais--"historia magistra vitae", na expressao de Cicero, que concebe a historia como a grande escola "mestra da vida". "Nao se pode mais esperar conselho a partir do passado, mas sim apenas de um futuro que esta por se constituir" (KOSELLECK 2006, p. 80-82 e 58), afirma Koselleck sobre a modernidade que se ergue.

Passa-se, entao, a olhar com ansiedade para o futuro e querer planeja-lo, segundo o mito iluminista de "progresso", um modelo ideologico de "desenvolvimento tecnico" que, mediante o instrumental das ciencias naturais e suas tecnicas, volta-se ao dominio da natureza, a revelia do "progresso moral e politico", cujo "retardamento" com o tempo sera constatado --como bem observa o historiador. Essa nocao instrumental de progresso funciona como o substrato empirico da concepcao ideologica eurocentrica de "historia absoluta", consistindo portanto em uma maneira restritiva e parcial de se pensar o futuro (KOSELLECK 2006, p. 320-321, 123 e 81).

Enquanto foram poucas as experiencias historicas modernas, foi tanto maior a expectativa--e e essa "assimetria" que Koselleck (2006, p. 326-327) considera como uma "formula" para designar a "estrutura temporal" da modernidade. Contudo, na medida em que os projetos politicos modernos se tornam realidade, surgem tambem as frustracoes para com essas novas experiencias oferecidas pela historia, o que desgasta as expectativas, tornando-as mais "cautelosas", ainda que tambem mais "abertas" a novas concepcoes.

Note-se, porem, que essa sua interpretacao foi realizada ja ha algumas decadas, abrangendo o periodo da modernidade que vai ate o final dos decepcionantes "anos dourados" do capitalismo, na passagem da decada de 1960 a de 1970, de modo que, com as mais recentes e graves crises do capitalismo globalizado, tambem as expectativas viriam a declinar, bem como ocorrera com as experiencias, inaugurando novos tempos de desesperanca, em que as engrenagens do sistema passam a cobrar da populacao que trabalha seus minimos direitos sociais duramente conquistados e suas perspectivas de um futuro melhor.

Tal fenomeno denota que a modernidade, nao obstante o espetaculo montado em torno da evolucao da ciencia e tecnologia, foi incapaz de evoluir efetivamente no sentido de um bem-estar social--de um progresso efetivamente humano, e, ainda, mostra que sua tendencia "logica", a medida do avanco da crise civilizacional de face "estrutural", e a de piorar as condicoes de sobrevivencia para as cada vez mais amplas classes exploradas.

Mas observemos antes como o mito ideologico do progresso moderno se relaciona com a crise permanente da modernidade. Desde uma atual perspectiva historica, pode-se hoje observar que, no turbilhao do progresso tecnocientificista, distante dos exemplos para a vida, antes legados pelas tradicoes, a modernidade daria espaco para se agravarem, no seculo XX, fatos hediondos como a carnificina da Primeira Guerra e a barbarie nazista--movimento ideologico derrotado militarmente, mas ainda com forte influencia na sociedade moderna--, alem de provocar uma crise ambiental, hoje cientificamente incontestavel, e a perda de uma imensa fortuna de outros saberes. A degradacao da experiencia historica, empobrecida pelo afastamento dos saberes tradicionais e fundada em um modelo mecanico e ideologico de progresso, pode tambem ser observada nos seguintes fenomenos, que marcam negativamente os tempos modernos e vem ganhando visibilidade no ambito da tradicao critica--como e o caso de ecossocialistas, criticos descoloniais e criticos do valor, dentre outras correntes contemporaneas: desestruturacao de diversas sociedades anteriormente sustentaveis; ampliacao da fome a imensos contingentes populacionais, marcado por aumento nao so absoluto, mas relativo; poluicao de rios, solos e, portanto, dos alimentos gerados nessa situacao (3); falta de parametros eticos solidos, conformismo disseminado como valor para as massas, a partir de discurso autoindulgente das classes dominantes; ou o alastramento de ideologias irracionais, o fenomeno da fascistizacao social, releitura da brutalidade arcaica, com valores de competicao pautados pela forca fisica, economica ou intelectual do individuo. (4)

Diante desses graves sintomas da modernidade e a eles intrinsecamente conectada, a inflada "utopia historico-filosofica" (KOSELLECK 2006, p. 130), fundada no mito moderno do "progresso", desempenharia a funcao de amainar os conflitos sociais. Marco do dogma sociocultural--que se abre em 1789 com sua desmesurada aposta no futuro, e e renovado apos 1945 com o advento do Estado do bem-estar social welfare state, mito moderno que serve para amparar abstratamente os excluidos, mediante promessa de dias menos amargos, o que desvia as atencoes do cerne do problema e acaba por agravar a situacao de crise generalizada, estrutural e etica de que ora tratamos.

Sobre essa caracteristica dos tempos modernos como epoca marcada pela crise, Koselleck (1999, p. 9-13,), em sua tese doutoral dos anos 1950 (Critica e Crise), ja afirmara que, de acordo com um "ponto de vista historico", a atual crise mundial deve ser vista como resultado da propria "historia europeia", uma historia regional que se expandiu ideologicamente como sendo uma "historia mundial" e cumpriu-se nela, ao exportar seu processo conflitivo continuado, fazendo com que o mundo como um todo ingressasse em sua "crise permanente"--condicao que e a propria essencia da modernidade, com seu modelo de progresso reduzido ao ambito tecnico-cientifico, o qual obstaculiza a evolucao social. Esse problema tem seu marco no seculo XVIII, quando a sociedade burguesa europeia, que se desenvolvia, renega o mundo antigo, calando nao so suas proprias tradicoes, mas tambem quaisquer outros saberes nao europeus, excetuando-se aqueles conhecimentos de cunho tecnico-pratico de que se apropriaria para seu usufruto mercantil. Com a grande revolucao de fins do seculo XVIII havendo desafiado a "sabedoria historica"--a partir de que a historia a ser compreendida como "inteira e unica"--, tambem o futuro comeca a ser concebido como sendo um e somente um. Assim, a burguesia europeia passaria a reclamar como universal sua particular "filosofia do progresso", um pensamento portanto etnocentrico, unificado pelo "centro europeu"--novo centro para onde se desloca o protagonismo economico. Em nome dessa suposta "unidade" humana, a burguesia submeteria o resto do mundo a um estado de crise social e politica continuada, que se desdobraria em aspectos eticos e estruturais: os tempos modernos.

Fruto das utopicas Luzes, essa filosofia da historia, portanto, alem de se colocar como fundamento intelectual para justificar a ascensao burguesa, tambem inaugura a crise permanente do mundo moderno, ao enfrentar o Estado absolutista e abrir passo para a Revolucao Francesa, inicio de uma epoca de perenes conflitos sociopoliticos. Essa crise, porem, seria minimizada, segundo a ideia de que, sendo um processo "moral", teria um "fim previsivel e inexoravel", ou seja, a propria vitoria burguesa.

Com relacao a esse conceito de crise permanente, observese que, em Koselleck, ele e visto de um angulo historiografico e sociopolitico; ja desde a perspectiva da tradicao critica, como se mostrara a seguir, a questao da duradoura permanencia da crise, acrescenta-se ainda o fator economico estrutural, inerente e inter-relacionado com o aspecto social e politico; isso, contudo, nao pressupoe que a crise logica capitalista tenha por fim necessario o colapso total do sistema, pois que nao se trata de um processo meramente economico ou automatico, mas, antes, de um ato politico popular. (5)

Outro ponto chave notado por Koselleck e que, ao enfrentar o Antigo Regime segundo um dualista discurso de bem e mal, a "vontade burguesa continua a ocultar sua agressividade". A historia se tornara agora um campo aberto, sujeita a confrontos: "Assim, o caminho do futuro nao era mais, somente, o do progresso infinito, mas continha a questao aberta de uma decisao politica" (KOSELLECK 1999, p.148-150, 160 e 137-140; 2006, p. 132). Tal questao, contudo, se verificaria irresoluta dentro dos limites capitalistas, dada a estagnacao de suas estruturas, como se expora.

Cabeainda observarque Koselleck, apesar de sua justificada compreensao negativa da modernidade, entende que nela se situa, em meio a seus tantos aspectos problematicos, um marco positivo de abertura ao pensamento critico--que se estruturaria com Marx e Engels--, pois no mesmo processo de ruptura, que acabaria por consolidar as restritas e restritivas filosofias lineares do progresso, nas quais se sustenta a "crise permanente", deu-se, outrossim, o inicio da "elaboracao critica do passado", ou a "formacao da escola historica", fenomeno que permitiria ao homem compreender a historia como um processo nao mais sujeito a determinacoes naturais, mas dialeticamente desencadeado por acoes humanas concretas (KOSELLECK 2006, p. 319).

Este movimento teorico da historia--como explica o autor --tera um ponto culminante com exposicao da concepcao materialista da historia de Engels e Marx, em A ideologia alema, obra de 1846 (mas so publicada no seculo XX), na qual os dois autores, ao criticarem "toda concepcao de historia que ate hoje existiu", superam com "vantagem decisiva" as teorias "unilateralmente isoladas" de ate entao, ou seja: a ideia voluntarista de que a historia e feita livremente pelos homens, e a ideia apassivante que poe a estrutura historica acima da capacidade de intervencao humana. Efetivamente, de acordo com o marxismo, "os homens fazem sua propria historia", ainda que "nao elejam as circunstancias" nas quais estao lancados (KOSELLECK 2004, p. 141 ss). (6)

Novo tempo da crise: o esgotamento das esperancas

No breve percurso temporal que cobre o ultimo quarto do seculo XX e o inicio do XXI, as expectativas mais "cautelosas", ja mencionadas por Koselleck nos anos 1970 e que sao fruto dos desgastes da experiencia moderna ate meados do seculo passado, acabariam por declinar violentamente. Esse novo espirito historico--distopico--advem do fim do aquecimento economico artificial, antes impulsionado pela reconstrucao europeia e pela competicao ideologica do pos-Segunda Guerra, processo que resulta na desesperanca que acomete o contemporaneo: um sintoma do aprofundamento da crise estrutural do sistema.

Paulo Arantes, em O novo tempo do mundo (2014), por meio de argumentacao critica que dialoga com Benjamin e outras correntes do ambito da concepcao dialetica da historia e que guarda afinidades com conceitos centrais de Koselleck, estende as analises acerca das "experiencias" humanas e, especialmente, das "expectativas" na modernidade, atualizandoas para nossos tempos de "perpetua emergencia", periodo em que se agiganta a ansiedade por um futuro que, embora nao experimentado, passa a impressao de que ja chegou.

Com a derrota sovietica na Guerra Fria e o decorrente desmantelamento do welfare state keynesiano no centro sistemico ocidental--analisa o pensador brasileiro--, o "horizonte do mundo encolhera vertiginosamente", dando lugar a um "novo tempo" menos paciente e mais cetico: uma era de "expectativas decrescentes", na qual os riscos de catastrofes e a inseguranca socioeconomica passam a ser o padrao universal, inclusive nos paises centrais do capitalismo, que ate entao desfrutavam de alguma protecao social (ARANTES 2014, p. 55 e 46).

Trata-se de um processo que remonta a meados dos anos 1960, quando as elites perifericas, aliadas aos superfortalecidos Estados Unidos do pos-Guerra, logram minar as principais revolucoes modernizadoras de suas nacoes, promovendo diversos golpes militares na America, cujo caso no Brasil de 1964 -- golpe que adquiriria nuances fascistas e deixaria legado estrutural--e um dos primeiros e mais impactantes reveses.

Prenunciada na periferia, onde costumam ser mais claras as evidencias, a crise do novo tempo logo alcancaria os centros do sistema, colocando em xeque as anteriores grandes expectativas, as quais entao agonizariam desde a "Grande Recusa" ou "Derrota" de 1968, ate tombar com a "Queda do Muro" de Berlim, obrigando o movimento socialista a ter de se repensar em profundidade. Sobre esse lugar "periferico" de observacao privilegiada e antecipada, vale aqui mencionar que, conforme observa Florestan Fernandes (1994-1995, Mariategui, marxista oriundo da periferia global e contemporaneo de Benjamin, foi um dos primeiros pensadores da tradicao critica a atentar ao fato de que, desde a perspectiva "eurocentrica", a realidade de "barbarie" do modelo de progresso capitalista e sempre subestimada. (7) Alias, cabe ressaltar tambem que Marx logra transcender seu inicial eurocentrismo justamente ao perceber esse fato no processo de colonizacao indiano, quando a Inglaterra passa a promover atrocidades em um grau ate entao impensavel na realidade de industrializacao dos paises centrais; analisando dialeticamente as contradicoes presentes no movimento da historia, o pensador, com humildade, retratase de suas posicoes etnocentricas anteriores, ao se dar conta que o capitalismo estava efetivamente piorando a situacao humana na India, que ja era bem ruim (MARTINS FONTES 2017).

Deflagrada de modo generalizado, a crise do novo tempo faz com que novamente se tornem evidentes as contradicoes do sistema. Assim, a ideia de progresso, construida ha quase dois seculos, como marco cultural da economia-mundo capitalista, ou "geocultura" (no conceito desenvolvido por Immanuel Wallerstein), passa a declinar. Usando-se dessa concepcao, Arantes (2014, p. 33 ss) afirma que a "fe geocultural" no mito do progresso moderno, este outrora onipresente legado iluminista, em resposta ao Absolutismo, utopia que desde o delicado periodo de reconstrucao do pos-Segunda Guerra vinha sendo a "estrela guia" do novo impulso modernizador, mostrase agora como uma "quimera em queda livre". (8)

Aqui, contudo, nao nos esquecamos que, se a crise cronica da modernidade teve um breve periodo de "tregua" social no pos-Segunda Guerra, tal tregua teve alcances duvidosos e ambiguos no sentido de uma evolucao humana duradoura que pudesse ser contabilizada positivamente a combalida modernidade, pois que, ao lado do breve respiro por reformas da periferia global, ate meados dos anos 1960, e do bemestar social restrito ao diminuto centro do capitalismo (paz que duraria algumas decadas a mais), deu-se a corrida por armamentos nucleares--tecnologia moderna avancada que poria nas maos de alguns poucos individuos a capacidade de destruicao completa da especie humana. Inclusive, em sentido mais estrito, a tregua na periferia do capitalismo, como bem observa o pensador uspiano, so se daria a rigor entre 1945 e 1947, quando os primeiros golpes contra as esquerdas ja explodem na America; no Brasil, neste ano de 1947, o Partido Comunista do Brasil (PCB) e posto na ilegalidade--o Tribunal Superior Eleitoral cancela seu registro, alegando que o partido era instrumento da intervencao sovietica no pais. Apesar de efemera, essa tregua de poucos anos iludiria o "imaginario progressista" com a ideia de que, em se havendo derrotado o nazifascismo, reabria-se a perspectiva de transformacoes reais--naquele periodo que foi, apesar de Hiroshima, tido por muitos como o "verdadeiro marco zero de uma nova civilizacao" (ARANTES; MARTINS FONTES 2017, p. 175 ss).

Esse erro faria os socialistas pagarem um brutal preco politico, ao se ofuscarem com a falsa fisionomia pacificada capitalista, dando campo para as vindouras "ditaduras exterministas" dos militares--"catastrofes inaugurais" que destruiriam as esperancas reformistas perifericas a partir dos anos 1960 (ARANTES 2014, p. 224-229).

Mas de volta ao centro sistemico global, o capitalismo, tendo experimentado um longo e intermitente periodo de crise aberta --que vai de 1914 ate 1945, passando pela Quebra de 1929--, desde meados do seculo XX, tomava folego e se redesenhava segundo o consenso keynesiano-fordista (que mesclou o bemestar, promotor de alguma coesao social, com a "loucura racional" do trabalho na sociedade totalmente administrada, de que trata Adorno): uma "saida de emergencia" que, no entanto, ia contra a "natureza" espacosa do capital, limitando-o a uma prospera "maquina economica" sujeita a "contraprestacoes sociais". Mas sendo uma tregua emergencial, o capital logo se desvencilharia de suas restricoes tecnocraticas. Tal processo ja se agitava nas crises de legitimidade do sistema na decada de 1960, cujo ano de 1968 foi um climax de alcance mundial, quando amplos setores da sociedade, inclusive no centro global, dao-se conta de que o tal "progresso" novamente se estagnara em sua face social: o novo capitalismo, um devaneio do pos-Guerra, ja nao cumpria suas promessas no tocante ao bem-estar humano. Em 1971, a potencia estadunidense da um golpe em acordos internacionais e rompe a conversibilidade dolar-ouro, impondo-se como uma especie de banco central do mundo, passo para que gradualmente promovesse a violencia da financeirizacao, a qual nao e propriamente uma causa, mas um paliativo que adia a manifestacao concreta da crise estrutural, o que desembocaria na crise economica mundial de 2008, a primeira comecada no coracao do sistema desde 1929. Duas decadas depois, a Uniao Sovietica, ja nao podendo suportar aquele esquema de guerra economica--em que se misturavam contraditoriamente uma feroz concorrencia comercial externa, frente as nacoes capitalistas e segundo suas regras do jogo, com protecoes sociais internas--, viria a se desintegrar, fazendo com que a humanidade se afundasse em um periodo de unipolaridade neoliberal estadunidense nos anos 1990, no qual a inseguranca e a barbarie foram constantes, gerando o atual e indefinido "estado de alerta" (ARANTES 2014, p. 88, 291, 211 e 135; MESZAROS 2010 [1994], p. 27 ss, e 695 ss). (9)

Sob outro angulo, anteriormente Arantes ja mostrara, em Zero a esquerda (2004, p. 37 e 51-59), como a questao da barbarie se colocou com protagonismo no mundo contemporaneo, transcendendo suas fronteiras da periferia global, rumo ao centro do capitalismo--em um processo de "periferizacao" do nucleo organico do sistema, o que ele chama tambem de "fratura brasileira do mundo". A sociedade contemporanea, regida por uma "vanguarda mercantil" com prevalencia absoluta da "razao economica", e marcada por uma falta de "nexo moral"; o ilusorio desenvolvimentismo, a partir do progresso tecnico, acentua a exclusao social, abrindo, assim, uma "fratura do mundo" de carater social, cultural, territorial-urbano. Em uma politica de producao sistematica de desigualdades, ainda que ja estejam dadas as condicoes tecnicas para a superacao da sociedade da escassez, no neoliberalismo os direitos humanos foram e vem sendo desgastados; gesto violento que responde a progressiva supressao de empregos resultante do processo de automacao industrial, em especial a partir do advento da microeletronica, hiperdimensionando, por conseguinte, o exercito industrial de reserva e legando a miseria imensos contingentes populacionais. Tal situacao de crise, como mostrado, ja atinge ha decadas ate mesmo os paises europeus ocidentais, povos que, diferentemente do caso brasileiro e do latino-americano, desde meados do seculo passado haviam conseguido erguer um razoavel Estado de bem-estar social--que agora se precariza aceleradamente.

Com o avancar da globalizacao financeira, tornase emblematico o caso da estrutura social dos Estados Unidos, tambem afetada pela contrarrevolucao neoliberal implementada por Ronald Reagan, em que a classe media se "desaburguesou", enquanto os operarios se "reproletarizavam", desnudando, inclusive no centro do sistema, a falacia do progresso instrumental. Houve ai, conforme analisa Paulo Arantes (2004, p. 31-34), uma "brasilianizacao da sociedade", que pode ser constatada na divisao etnica de classes, em que o topo e maiormente branco-europeu, enquanto a base da piramide e composta por negros, indigenas e mesticos. Inclusive, a rigidez social e tal, que se pode perceber ai ate mesmo um "sistema informal de castas", pois que uma vez nascido pobre, nao se deixara jamais essa posicao social, obviamente em se falando de atividades dentro de parametros tanto legais como eticos. Uma outra e perigosa caracteristica desta "brasilianizacao" social--a qual cabe a tradicao critica atentar--esta na "dimensao horizontal da guerra de classes", o que leva ao contraditorio quadro em que a polarizacao social acaba por favorecer o poder dominador da oligarquia branca. Enquanto numa sociedade menos desigual, a tendencia da atual concentracao de riqueza e poder seria uma ebulicao social, todavia, o que vem ocorrendo e que as elites encontram frente a si uma sociedade rachada, dividida mediante um racismo estrutural. (10) ainda que imersa em uma cultura comum. Dessa maneira, o "ressentimento" dos trabalhadores causado pela decadencia economica dirige suas energias antes contra outros grupos da propria base popular, do que a rebelioes contra os de cima--em um processo que, diante da realidade da migracao internacional (forcada pelas guerras imperialistas), vem promovendo uma acelerada fascistizacao da sociedade, especialmente nas nacoes centrais. Assim, no centro ou na periferia, o que se ve e uma sociedade partida, em que a agonica maioria e comprimida entre uma massa de excluidos sem esperancas e uma classe superior, que "recusa quaisquer obrigacoes civicas"--composta pela plutocracia tomadora de decisoes, e por seus mediadores, os super-remunerados funcionarios de nivel superior, manipuladores dos meandros tecnocraticos, formados em determinadas instituicoes de elite, que tem por funcao a execucao, o mais discreta e eficientemente possivel, das decisoes de seus patroes; por sua vez, a esses chefes, e interessante conceder poderes politicos a essa camada de intermediarios, de forma a se prosseguir com o "fingimento" de que a politica institucional pode ser um espaco para reais transformacoes sociais. O reflexo mais desumano desse cenario pode ser visto na explosao sem precedentes do "encarceramento em massa" daqueles seres desnecessarios e incomodos ao capital, que ocorre paralelamente a "evasao" urbana das "elites emparedadas em comunas fechadas", ou seja, na autossegregacao que se observa em condominios, vilas luxuosas e bairros privados destinados a oligarquia, em que se restringe ainda mais as experiencias humanas. (11)

No entanto, as esperancas de superacao da crise parecem anestesiadas. Segundo Arantes, a intrincada configuracao da nova ordem mundial relegou os homens a uma posicao contemplativa: meros observadores a quem nao se permite nada. Ante as grandes catastrofes provocadas pelo progresso instrumental desordenado, mesmo que ainda hegemonicamente vendidas como calamidades naturais, o homem se sente impotente, angustiado, sem esperancas. Promove-se, assim, a despolitizacao: uma sociedade de apenas espectadores (ARANTES 2007, p. 28 ss).

As reflexoes do pensador brasileiro transcorrem como um vasto dialogo com diversos representantes de uma revigorada teoria critica dialetica, que emergiu no atual cenario quaselimite de crise estrutural do capitalismo, crise sistemica que, conforme analisa Javier Amadeo (2007, p. 78 ss e 91), veio a se impor como uma "condicao negativa" que impulsionou a "renovacao" do marxismo, oferecendo-lhe nao apenas novos elementos, que constituem uma "justificativa historica" excepcionalmente palpavel, como ainda a ocasiao para uma "autocritica radical" da propria tradicao critica de maneira geral. (12)

Em seus pertinentes ensaios aqui abordados, Arantes corrobora e atualiza, atraves de novos dados e argumentacoes, algumas das mais destacadas criticas da modernidade realizadas no periodo anterior ao agravamento do processo de globalizacao. E o caso tanto da ja apresentada analise de Koselleck, como dos estudos de Moishe Postone, desde a dimensao filosofica e economica da teoria do valor-trabalho, autores com os quais a interpretacao do filosofo guarda interessante proximidade.

Como se pode observar, de acordo com concepcao da historia de Arantes, a modernidade capitalista e, grosso modo, um sistema em perene situacao conflitiva, em permanente crise, assim como tambem o entende Koselleck. Por outro lado, sua critica, sensivel aos graves retrocessos sociais que atingem a sociedade global a partir da crise economica de 2008, parte da constatacao desse estado continuo de crise, para confirmar a interpretacao de Postone acerca do que denomina "modernidade per se".

Para este historiador, a modernidade e um sistema ensimesmado, per se, que, apesar de extremo progresso tecnico, e incapaz de evoluir em suas estruturas produtivas; isso tem por consequencia que, a cada crise, venha a se reestabelecer sua face violenta e alheia a qualquer efetivo desenvolvimento social (POSTONE 2006, p. 5-14). E importante aqui pontuar que, apesar das reconhecidas proximidades entre a interpretacao da crise de Postone e aquela dos chamados criticos do valor. (13) o canadense, contudo, poe sua enfase em que, no capitalismo, as relacoes sociais se apresentam sob uma aparencia de objetividade, de modo fetichizado; ja na mencionada corrente critica consolidada em torno da revista Krisis, a qual tem Robert Kurz por expoente, o foco da questao e que, com o desenvolvimento do processo produtivo, o sistema prescinde crescentemente do trabalho humano, a substancia criadora do valor, fenomeno que consistiria em um limite interno do sistema, ainda que tal limite nao seja absoluto, nao implicando necessariamente em colapso, senao mediante a acao revolucionaria. (14)

Paulo Arantes (2014, p. 31, 44 e 177), no mesmo sentido de Moishe Postone, desde uma perspectiva da filosofia politica afirma que o "movimento ascensional" da modernidade "nao conduz a um futuro qualitativamente diferente": as transformacoes tecnologicas nao melhoram a condicao de vida humana; pelo contrario, a pioram, dado que agravam a situacao cronica de desemprego estrutural. Com efeito, este limitado "progresso" serve sobretudo para reforcar a estrutura vigente. Tal situacao se configura tanto atraves do controle social, que se extrema na politica do seculo XX enquanto um "estado de excecao" transformado em "regra", como ja o notara Benjamin em suas Teses sobre a Historia; como tambem mediante o exterminio direto e indireto do ser humano, em eventos em grande medida programados, como a fome e as guerras, inclusive as "urbanas", como se ve nas intervencoes militares em favelas. Trata-se, em suma, de um sistema que caminha sem sair do lugar, mantendo-se restrito ao "sempre igual da acumulacao como fim em si mesmo".

Consideracoes finais

A crise em que o homem contemporaneo esta imerso e, portanto, inerente a logica capitalista, ao seu modelo de progresso tecnicista e eurocentrico, o qual despreza os saberes da experiencia, centrando-se apenas em seu proprio e ensimesmado processo de crescente controle do homem e da natureza; uma crise que tanto mais se agrava, quanto mais tratam de dissimula-la as elites dominantes, bracos e cerebros do poderoso "mercado", que e avido por luxos, mas tambem se dedica com afinco a competicao, alcada como o grande valor humano, em um mecanismo gerador de imenso desperdicio vital e de recursos naturais finitos.

Com isso, o sistema gerido pelo capital criou a maior massa de excluidos e famintos da historia, cujo marco e a crise dos precos dos alimentos de 2007/2008, momento em que se mostram nitidos os resultados da aplicacao da austeridade neoliberal aos trabalhadores da cidade e do campo). Tal crise, tambem dita "alimentar", fruto da crise da experiencia, da permanencia conflitiva, mas que se entrelaca intimamente a permanente crise "estrutural" do sistema produtivo, teve por consequencia que se gravasse na trajetoria humana, segundo relatorio das Nacoes Unidas (2009), o contundente recorde de um bilhao de famintos, fenomeno que resulta em razoavel medida da financeirizacao neoliberal da agricultura, vista como um otimo novo negocio para se adiar a crise estrutural, a revelia das culturas tradicionais, que historicamente promoveram a subsistencia de amplas massas agricolas. (15)

Tal cenario se mostra tanto mais absurdo, em uma conjuntura na qual a sociedade ja alcancou um nivel de produtividade suficiente para resolver os problemas materiais basicos de toda a populacao planetaria--tal como a producao de alimentos, hoje maior que a demanda (NACOES UNIDAS 2016). (16)

No entanto, embora as "bases tecnicas" para a "superacao da pre-historia da humanidade" estejam finalmente dadas, pondera Paulo Arantes (2014, p. 222), esse "limiar emancipatorio" brilha ainda sob um "atoleiro sem fim". O "reino da liberdade" de Marx ja esta "enfim a vista", porem, as redeas da modernidade capitalista, que agoniza, mas nao morre, nos dirigem paradoxalmente a "morrer na praia da mais crassa necessidade material".

Aqui portanto um panorama de como a duradoura "crise da modernidade", que e, desde seu principio, a imagem da propria civilizacao ocidental capitalista, avancaria por sobre qualquer minima pretensao de reforma social, esvaziando a utopia moderna.

REFERENCIAS

AMADEO, Javier. Mapeando o marxismo. In: BORON; AMADEO; GONZALEZ (orgs). A teoria marxista hoje. S. Paulo/B. Aires: Clacso; Expressao Popular, 2007.

ARANTES, Paulo. Extincao. Sao Paulo: Boitempo, 2007.

ARANTES, Paulo. O novo tempo do mundo. Sao Paulo: Boitempo, 2014.

ARANTES, Paulo. Zero a esquerda. Sao Paulo: Conrad, 2004.

ARANTES, Paulo; MARTINS FONTES, Yuri. A teoria critica de Paulo Arantes (entrevista). Revista Mouro, n.11, jan. 2017.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas (vol. I). Sao Paulo: Brasiliense, 1994.

FERNANDES, Florestan. Significado atual de J. C. Mariategui. Colecao Principios, num. 35, 1994-1995.

HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1995.

KOSELLECK, Reinhart. Critica e crise: um estudo acerca da patogenese do mundo burgues. Rio de Janeiro: Eduerj / Contraponto, 1999 [1954].

KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado. Rio de Janeiro: Contraponto; PUC-RJ, 2006 [1979].

KOSELLECK, Reinhart. Historia, historia. Madri: Minima Trotta, 2004.

MARTINS FONTES, Yuri. Marx na America: a praxis de Caio Prado e Mariategui. Sao Paulo: Alameda; Fapesp, 2017.

MESZAROS, Istvan. Mas alla del capital. La Paz: Vicepresidencia de Bolivia, 2010 [1994].

NACOES UNIDAS. Adopting a territorial approach to food security and nutrition policy. Paris: FAO-ONU, 2016.

NACOES UNIDAS. Numero de famintos ultrapassa 1 bilhao, diz FAO. ONU News, 19/06/2009. Disponivel em: encurtador. com.br/fsY29. Acesso em: 15 jun. 2017.

POSTONE, Moishe. Tiempo, trabajo y dominacion social. Madri: Marcial Pons, 2006 [1993].

Yuri Martins Fontes

https://orcid.org/0000-0003-0895-8961 [iD]

AGRADECIMENTOS E INFORMACOES

Yuri Martins Fontes [iD]

yurimfl@usp.br

Universidade de Sao Paulo

Sao Paulo

Sao Paulo

Brasil

Este artigo e resultado de pesquisa continuada sobre a relacao entre a crise da modernidade e os saberes originarios, desenvolvida em dois trabalhos pos-doutorais: Etica e Filosofia Politica/ Programa de Pos-Doutoramento do Departamento de Filosofia/ FFLCH-USP (2017); e Historia, Cultura e Trabalho/ Programa de Estudos Pos-Graduados em Historia/PUC-SP (2018)--com financiamento PNPG/CAPES.

RECEBIDO EM: 05/ABR./2019 I APROVADO EM: 31/AGO./2019

(1) - Das varias criticas a ideologia moderna de progresso (reduzida ao aprimoramento tecnico), vale se remeter a Adorno e Horkheimer, com seu conceito de "razao instrumental" (racionalidade operacional voltada a dominacao); vide "Dialetica do esclarecimento" (1944).

(2) - Sobre a censura ideologica da experiencia ocorrida no processo eurocentrico de construcao da modernidade, vale verificar o trabalho dos pensadores criticos descoloniais, em especial Anibal Quijano e Enrique Dussel.

(3) - Ver a respeito da desestruturacao social e sua relacao com a fome: CASTRO, Josue de. Geopolitica da Fome [1951]; MARIATEGUI, Jose Carlos. Siete ensayos de interpretacion de la realidad peruana [1928]; NACOES UNIDAS. Fatos sobre alimentacao. ONU Brasil, 2012.

(4) - Sobre a ideologia conservadora contida no discurso de valorizacao do "competitivo", da "competencia", ou seja, da "guerra de todos contra todos", vide: CHAUI, Marilena. Ideologia da competencia. Sao Paulo: Autentica/ Perseu Abramo, 2014.

(5) - Vide a ressalva de Paul Mattick (Crisis y teoria de la crisis, 1974), que concebe a crise permanente nao como um fim "automatico" e identifica o colapso do sistema com a acao politica, mas como algo nao facilmente "superavel" dentro dos atuais parametros.

(6) - Em sua argumentacao, Koselleck cita, de Marx, alem de A sagrada familia, tambem O Dezoito Brumario.

(7) - No tocante ao caso brasileiro, vide sobre o tema da perspectiva periferica, a polemica de Caio Prado Junior com o PCB: As Teses e a Revolucao Brasileira, de 1960.

(8) - Sobre o conceito de "geocultura", ver a obra de Wallerstein: Geopolitica y geocultura, de 1991.

(9) - Apos a decada neoliberal, o centro capitalista encontra forte resistencia anti-hegemonica (ainda que nao anticapitalista) de organizacoes interestatais de nacoes semiperifericas, o que molda um novo panorama geopolitico, ainda recente para ser estimado.

(10) - Ou seja, uma sociedade em que a desigualdade racial, injustica fundada na falaciosa nocao de "racas", e um dos elementos estruturadores das relacoes sociais.

(11) - Sobre a fascistizacao dos centros sistemicos no "novo tempo", veja-se a forca que a extrema-direita angariou nas ultimas decadas; e o fascismo social incrustado no cotidiano: intolerancia, racismo, xenofobia, carencia de alteridade e direitos humanos, etc.

(12) - Deste movimento de "renovacao"(quarto final do sec. XX), citam-se os seguintes nomes levantados por Amadeo: I. Meszaros, E. Hobsbawm, S. Amin, A. G. Frank, A. Quijano, Th. dos Santos, I. Wallerstein, D. Losurdo, M. O'Connor e Bellamy Foster, entre outros.

(13) - Ambas as perspectivas tem abordagem da crise com enfase no processo de criacao do valor, defendendo uma analise centrada nas categorias basicas da critica da economia politica de Marx, tais como o valor, o trabalho.

(14) - Sobre as diferencas dessas duas linhas interpretativas, ver: MAISO; MAURA. Critica de la economia politica, mas alla del marxismo tradicional: Moishe Postone e Robert Kurz. Isegoria, n. 50, 2014.

(15) - Sobre as tramas por adiar os efeitos da crise, veja-se a recente proposta de congressista brasileiro prevendo o pagamento de trabalhadores com casa e comida, ou as "contrarreformas" trabalhista e previdenciaria, que apontam para decadas de retrocesso social.

(16) - Acerca da real possibilidade de hoje se solucionarem problemas materiais basicos, como a habitacao, saude e educacao publica, ou a reforma agraria e incentivo ao pequeno produtor rural, a documentacao e abundante e ha varios relatorios da ONU a respeito.

DOI 10.15848/hh.v12i31.1474
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Author:Fontes, Yuri Martins
Publication:Historia da Historiografia
Date:Sep 1, 2019
Words:8180
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