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Crescimento e nutricao mineral de milho forrageiro em cultivo hidroponico com soro de leite bovino.

Growth and mineral nutrition of forage corn cultivated hydroponically with serum of cow milk

INTRODUCAO

A agricultura organica e baseada na aplicacao de tecnologias nao prejudiciais ao meio ambiente e reduz consideravelmente a necessidade da utilizacao de insumos externos, por nao utilizar fertilizantes e defensivos quimicos ou outros produtos industrializados (Gonella et al., 2002).

O soro do leite e o liquido resultante da separacao da caseina e da gordura do leite no processo de elaboracao do queijo, apresentando alto valor nutricional, com mais da metade dos solidos presentes no leite integral original, incluindo a maior parte da lactose, minerais e vitaminas hidrossoluveis e cerca de 20% das proteinas do leite. Embora o soro de leite contenha substancias de alto valor nutricional (Huraguchi et al., 2006; Silva et al., 2004), ainda e pouco aproveitado e grandes volumes sao desperdicados, sendo constituinte das aguas residuarias advindas dos lacticinios e direcionado diretamente aos corpos receptores ou em sistemas de tratamento com baixa eficiencia, contaminando drasticamente o meio ambiente, caracterizando grave impacto negativo das industrias de laticinios no mundo (Hosseini et al., 2003).

O aproveitamento de residuos organicos minimiza os efeitos devastadores que provocam ao meio ambiente (Fernandes & Testezlaf, 2002). O soro de leite pode ser considerado um poluente extremamente problematico devido a sua elevada carga organica e grande volume gerado, devendo ser tratado antes de descartado, visto que o soro bruto possui uma demanda bioquimica de oxigenio (DBO) de 30.000 a 60.000 mg [L.sup.-1], sendo a lactose responsavel por aproximadamente 90% da carga organica do soro (Ghaly & Kamal, 2004; Florentino, 2004). Com uma DBO mais de 10 vezes superior ao esgoto domestico bruto, 250 a 350 mg [L.sup.-1], o soro e um dos mais poluentes de todos os efluentes. Alem da poluicao ambiental, o descarte do soro e tambem um desperdicio de material proteico e de outros nutrientes, uma vez que retem cerca de 55% dos nutrientes do leite (Almeida et al., 2001).

A identificacao de alternativas para um aproveitamento adequado do soro de leite e de fundamental importancia em funcao de sua qualidade nutricional, do seu volume e de seu poder poluente (Reis, 1999). Nesse caso, o ideal sao alternativas sustentaveis que conciliem a reducao do impacto ambiental a destinacao nobre para o soro de leite, dentro de atividades economicas atrativas.

Estudos recentes demonstram a possibilidade de aumento na producao agricola com aproveitamento do soro do leite. Gheri et al. (2003), trabalhando com a utilizacao de soro no solo (500 [m.sup.3] [ha.sup.-1]) para producao de capim tanzania, observaram nao so aumento significativo no acumulo de massa fresca dessa forrageira, sem registro de impacto ambiental em relacao ao teor de nitrato no solo, mas tambem o aumento significativo na quantidade de nutrientes absorvidos, principalmente de K, P e Ca. Neste mesmo contexto, Santos et al. (2006) utilizaram o soro na ensilagem de capim elefante como fonte de bacterias laticas, visando melhorar o perfil de fermentacao das silagens e verificaram menores valores de pH e N-amoniacal nas silagens tratadas com soro nao comprometendo, assim, a composicao bromatologica da silagem.

O soro de leite pode ocasionar grandes desequilibrios ao ambiente; no entanto, quando bem utilizado pode proporcionar beneficios. Brown et al. (1998) e Lehrsch et al. (2008), estudando a aplicacao de soro de leite em sulcos de irrigacao, verificaram efeito promissor do soro sobre o aumento na estabilidade de agregados e reducao da erosao em um solo calcario estruturalmente degradado.

Nao se tem registro de relatos da utilizacao de soro de leite como fertilizante organico no cultivo de forragem hidroponica, embora a destinacao de aguas residuarias para a hidroponia venha sendo investigada como alternativa produtiva, possivel de aliar a producao agricola, com a possibilidade de um controle ambiental maior (Soares et al., 2006; Keller et al., 2008; Santos et al., 2010; Gomes et al., 2011). Em se tratando do aproveitamento dessas aguas, a precocidade e a rapidez no crescimento vegetal sao caracteristicas desejaveis, uma vez que um tempo menor de exposicao implica em menor absorcao e acumulo de ions nas plantas (Soares et al., 2010); tal precocidade e benefica para o melhor aproveitamento do soro de leite, considerando-se sua elevada DBO e a depreciacao da qualidade da solucao nutritiva.

Nesse contexto, a producao de forragem hidroponica se destaca pela possibilidade de se produzir um alimento altamente nutritivo e em curto espaco de tempo, empregando-o na dieta animal da mesma cadeia produtiva de queijos (FAO, 2001; Amorim et al., 2005; Muller et al., 2006a, b). Na hidroponia, as solucoes nutritivas provenientes de fertilizantes quimicos industriais, de elevado custo, dificultam a adocao da tecnica pelos produtores menos capitalizados ou interessados em sistemas organicos de producao, o que tem conduzido aos estudos envolvendo solucoes nutritivas organicas (Villela Junior et al., 2003; Dias et al., 2009). Considerando a composicao quimica do soro de leite, supoe-se que esse efluente pode ser empregado em cultivos hidroponicos, como componente ou mesmo substituto alternativo de solucoes nutritivas convencionalmente preparadas com fertilizantes quimicos. Na literatura pertinente nao ha relatos da utilizacao de soro de leite como fertilizante organico no cultivo de forragem hidroponica; portanto, objetivou-se no presente trabalho avaliar a producao e a composicao de forragem hidroponica de milho utilizando diferentes diluicoes de soro de leite como solucao nutritiva.

MATERIAL E METODOS

O experimento foi conduzido no periodo de 17 de fevereiro a 04 de marco de 2009, em casa de vegetacao, no Departamento de Tecnologia Rural da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Recife, PE.

O delineamento experimental adotado foi inteiramente casualizado, com seis tratamentos e cinco repeticoes. O tratamento usado como testemunha foi uma solucao nutritiva (Tabela 1) usualmente empregada para forragem de milho hidroponico; os demais tratamentos constaram de niveis de diluicao do soro de leite em agua de abastecimento, quais sejam: 20, 40, 60, 80 e 100% de soro.

O soro de leite utilizado foi proveniente da fabricacao de queijo tipo coalho (soro acido) a partir do processamento industrial do leite bovino, transportado em tambores de 50 L (sem refrigeracao) e armazenado em freezer a 0[grados]C, sendo retirado apenas no momento das regas.

O substrato empregado no cultivo hidroponico de milho foi o bagaco de cana-de-acucar, escolhido por razao da sua disponibilidade regional e por ser recomendado para a producao hidroponica de forragem (Santin et al., 2005). O bagaco de canade-acucar empregado como substrato foi triturado em maquina forrageira, peneirado, posto em reservatorio com agua corrente durante de 24 h para retirada de acucar e evitar ataque de formigas; apos este processo o material foi espalhado em lonas, em camadas finas e uniformes, para sua secagem; posteriormente, foram coletadas amostras para analise quimica do substrato (Tabela 1).

O sistema hidroponico foi disposto em trinta bandejas plasticas (50 x 35 cm) posicionadas a 0,80 m de altura do solo, sobre bancadas de ferro, com uma inclinacao de 4%; adotouse o sistema hidroponico fechado, ou seja, com reaproveitamento das solucoes dos tratamentos; as bandejas foram perfuradas na lateral, a qual se conectou uma mangueira, objetivando-se drenar as solucoes irrigadas para os coletores (2 L de capacidade), os quais armazenavam o volume drenado a ser reutilizado na proxima irrigacao.

Utilizaram-se sementes de milho nao tratadas, uma vez que sementes quimicamente tratadas nao sao recomendadas para forragem hidroponica, considerando-se o risco de intoxicacao para os animais (Amorim et al., 2005). A viabilidade dessas sementes foi previamente determinada atraves de um teste de germinacao, em que as sementes foram postas em papel toalha e com ele cobertas, mantendo-as sempre umidas pelo tempo de 48 h; em seguida, o poder germinativo foi avaliado em cerca de 80%; amostras de sementes foram utilizadas para as analises quimicas, visando-se determinar seus teores dos nutrientes minerais (Tabela 1).

As sementes de milho foram selecionadas atraves da escolha manual; e posteriormente as selecionadas passaram pelo periodo de quebra de dormencia, fase que corresponde a sua submersao em agua, por 24 h.

A densidade de semeadura foi de 2,5 kg [m.sup.-2] (FAO, 2001); cada bandeja (0,175 [m.sup.2]) recebeu 400 g de sementes de milho, que foram distribuidas sobre uma camada de 80 g de substrato, dispostas uniformemente e cobertas com outra camada de 120 g de substrato. O periodo de germinacao durou sete dias, sendo irrigadas durante esta fase em que as sementes foram irrigadas apenas com agua potavel, seis vezes ao dia (8, 10, 12, 14, 16 e 18 h); logo apos a germinacao iniciou-se a irrigacao com solucao nutritiva (tratamento controle) com soro de leite diluido, conforme tratamento; as irrigacoes foram realizadas manualmente, da mesma forma adotada na fase da germinacao, sendo que em cada evento de irrigacao foi tomada a precaucao de nao se deixar o soro de leite e a solucao nutritiva entrarem em contato com as folhas, para evitar absorcao e, por conseguinte, toxidez.

A colheita feita 15 dias apos a germinacao correspondeu a 21 dias apos a semeadura; com o auxilio de uma tesoura, a parte aerea das plantas foi cortada rente ao substrato; posteriormente, obteve-se, em balanca de precisao, a massa fresca da parte aerea (MFPA) e a massa fresca do substrato com as raizes (MFPR); tres dias apos a secagem em estufa com circulacao forcada e temperatura controlada em 65[grados]C, foram obtidas as massas de materia seca da parte aerea (MSPA) e do substrato com as raizes (MSPR); em seguida, as amostras secas foram trituradas em moinho tipo Willey para as determinacoes quimicas (Bezerra Neto & Barreto, 2004); preparou-se um extrato nitro-perclorico, no qual se determinou fosforo espectrofotometricamente, potassio e sodio por fotometria de chama e calcio, magnesio, ferro, cobre, zinco e manganes em espectrofotometro de absorcao atomica; o nitrogenio foi determinado por arraste de vapor em extrato sulfurico e o cloreto pelo metodo de Mohr em extrato aquoso.

Os resultados obtidos com as diferentes concentracoes de soro de leite foram submetidos a analise de regressao, buscandose ajustar modelos de tendencia; os modelos foram selecionados com base na significancia indicada pelo teste F a 5% de probabilidade e nos valores dos coeficientes de correlacao; a significancia dos coeficientes do modelo ajustado foi avaliada pelo teste t em nivel de 5% de probabilidade; tambem foram contrastados os resultados obtidos com a solucao nutritiva convencional e com cada concentracao de soro de leite diluido em agua, mediante comparacao de medias, pelo teste t. As analises estatisticas foram conduzidas no software SAS.

RESULTADOS E DISCUSSAO

Constatou-se significancia (P < 0,01) nas variaveis: MFPA, MSPA, MFPR e (P < 0,05) na variavel MSPR. As equacoes de regressao que melhor se ajustaram foram lineares para MFPA, MSPA, MSPR e quadratica para MFPR (Figura 1).

[FIGURA 1 OMITIR]

O aumento das doses de soro de leite utilizadas como solucao de cultivo levou a reducao linear da producao de forragem de milho hidroponico, em termos de acumulo de MFPA e de MSPA (Figura 1A e B); a producao na parte radicular apresentou comportamento oposto, aumentando a produtividade com o aumento nas concentracoes de soro de leite. Com base no modelo ajustado, a estimativa da producao de MFPA obtida com soro diluido a 20% foi de 1,639 kg [m.sup.-2], enquanto com soro nao diluido (100%) foi de 0,415 kg [m.sup.-2], uma queda de 74,7%.

Extrapolando-se tais valores para produtividade por hectare, as plantas cultivadas com soro de leite diluido a 20% produziram 16,39 t [ha.sup.-1] somente da parte aerea em um unico ciclo de cultivo. Admitindo que se possa realizar mais de 20 ciclos de cultivo por ano, e possivel conseguir 300 t [ha.sup.-1] (materia fresca). A literatura (FAO, 2001) menciona que e possivel se obter, em um ano, mais de 2.000 t [ha.sup.-1] de massa fresca, somando-se a massa fresca da parte aerea com a massa fresca do sistema radicular. Extrapolacoes do presente trabalho atingem o valor de 128,9 t ha-1 somente em um ciclo de producao, obtendo-se, em um ano, aproximadamente 2.578 t [ha.sup.-1] [ano.sup.-1] (parte aerea mais raizes e substrato).

Em comparacao com a testemunha, a producao de forragem hidroponica (MFPA e MSPA) com soro de leite foi significativamente menor em todas as doses avaliadas (Tabela 2); este resultado demonstra que o emprego direto e exclusivo do soro em concentracao igual ou superior a 20% foi incapaz de reproduzir o mesmo rendimento que se pode obter com uma solucao nutritiva balanceada, preparada mediante fertilizantes soluveis.

Na massa fresca e seca total (folha+colmo+substrato+raizes), a testemunha obteve producao 1 1 ,79 e 2,10 kg [m.sup.-2], respectivamente, ultrapassando o resultado de massa fresca (9,05 kg [m.sup.-2]) encontrado por Muller et al. (2006), cultivando trigo hidroponicamente, com solucoes nutritivas preparadas com sais fertilizantes.

O acumulo da massa fresca do sistema radicular (MFPR) tendeu a aumentar ate as concentracoes intermediarias de soro, seguindo-se uma reducao nas concentracoes mais elevadas; a dose de soro de leite que proporcionaria a maior producao de MFPR foi estimada em 73,15%, com base na derivada do modelo ajustado; esse comportamento quadratico pode ser explicado pela progressiva incorporacao de solidos no substrato a medida em que se aumentou a concentracao de soro de leite, ocorrendo, como contrapartida desse aumento, a diminuicao da producao de raizes; por outro lado, deve-se registrar que houve diminuicao no consumo hidrico e, consequentemente, no volume de solucao aplicada (Figura 2), razao pela qual e possivel que tenha ocorrido menos incorporacao de solidos no substrato com o acrescimo das doses de soro de leite.

Comercialmente, a forragem hidroponica e fornecida como o conjunto planta mais substrato. No presente trabalho o aumento da producao de MFPR ate os niveis intermediarios de concentracao de soro deve ser tomado com ressalva pois nao apresentam necessariamente, os niveis de maior producao de forragem; o acumulo de massa no bagaco representa tambem a incorporacao dos solidos dissolvidos e materiais em suspensao no soro do leite, havendo substancias organicas que podem depreciar a qualidade fisico-quimica e organoleptica do substrato. Nao foi objetivo deste trabalho a abordagem do efeito do soro na qualidade organoleptica da mistura do substrato com as raizes.

[FIGURA 2 OMITIR]

As plantas irrigadas com 20% de soro nao apresentaram diferenca significativa na producao de MFPR em relacao a solucao testemunha (Tabela 3). Em analise visual observouse, na colheita, que as plantas submetidas as maiores doses de soro apresentaram menos raizes, significando que doses elevadas de soro implicam em maior producao de MFPR por incremento da incorporacao de residuos no substrato e nao necessariamente pelo proprio crescimento das raizes.

Com o aumento das doses de soro de leite, notou-se acrescimo linear nos teores de N da parte aerea havendo tendencia quadratica na parte radicular do milho hidroponico (Figura 3A).

De acordo com o teor de proteina bruta encontrado por Muller et al. (2006a) (18,25%) no cultivo de milho hidroponico produzido aos 10 dias, admite-se teor de N de 29,2 g [kg.sup.-1], semelhante ao resultado encontrado na parte aerea, ou seja, semelhante ao de Amorim et al. (2005) que detectaram teor de 13,1% de proteina bruta na parte aerea da forragem hidroponica de milho, produzida aos 28 dias, utilizando-se, como substrato, bagaco de cana, podendo-se admitir, entao, teor de N de 20,96 g [kg.sup.-1]. Segundo Lara Cabezas et al. (2004) em plantas de milho ha uma intensa absorcao de N nas fases iniciais de desenvolvimento.

O soro de leite nao proporcionou efeito significativo sobre os teores de P na parte aerea da forragem enquanto na porcao radicular houve reducao significativa e linearmente, em resposta as doses crescentes de soro. Os teores de P na parte aerea foram mais elevados que nas raizes devido, certamente, ao fato de que as raizes foram analisadas conjuntamente com o substrato, que e pobre neste nutriente mineral, como constataram Rodrigues et al. (2008).

Os teores de P na parte aerea das plantas submetidas ao soro de leite, com excecao do teor encontrado na solucao com 80% de soro, nao foram estatisticamente diferenciados do teor registrado com o uso de solucao nutritiva convencional (Tabela 2), em que se pode admitir que o soro do leite proporcione P suficiente para producao hidroponica de milho; portanto, o cultivo de milho hidroponico com diluicoes de 20, 40, 60 e 100% pode proporcionar teores de P equivalentes aos da solucao nutritiva.

Os teores de K na parte aerea da forragem mostraram-se estaveis ao longo dos tratamentos com soro, ocorrendo um acrescimo suave (P < 0,01) nos teores deste macronutriente, na parte radicular (Figura 3E). As plantas nutridas com solucao nutritiva convencional (testemunhas) apresentaram 5,05 g [kg.sup.-1] de K na parte aerea; em contrapartida, as plantas tratadas com soro apresentaram mais de oito vezes K na parte aerea do que as testemunhas, cujos resultados podem acarretar em uma competicao com outros cations, como o Ca e Mg.

Os teores de Ca e Mg na parte aerea apresentaram o mesmo comportamento observado com o P, isto e, reducao linear e acrescimo linear nas raizes (raiz + substrato), em resposta ao aumento nas doses de soro (Figura 3D, B). A salinidade do meio de cultivo pode ter afetado os teores de Ca nas folhas, efeito semelhante ao observado por Garcia et al. (2007), em que o aumento da salinidade ocasionou decrescimos nos teores de Ca.

E provavel que o aumento nos teores dos nutrientes na raiz, juntamente com o bagaco de cana (Figura 3D, E) tenha ocorrido nao necessariamente pela absorcao dos nutrientes e incorporacao ao tecido radicular, mas devido ao acumulo de solidos totais agregados ao substrato, em virtude do reaproveitamento da solucao de cultivo empregada, e a concentracao ocorrida em razao da diminuicao na evapotranspiracao.

A diminuicao nos teores de Ca e Mg na parte aerea pode ser atribuida ao antagonismo com o K e com o Na (Prado, 2008), nutrientes estes absorvidos em proporcoes elevadas; ainda que o teor de K na parte aerea tenha diminuido com o aumento da dose de soro de leite, deve-se ponderar que esse nutriente foi destacadamente absorvido, sendo que seu teor na forragem, obtida com a menor dose de soro (20%) foi cerca de nove vezes superior ao obtido com a testemunha; ja o ion Na aumentou linearmente na forragem a medida em que se elevou a dose de soro (Figura 5A e B).

[FIGURA 3 OMITIR]

Os teores de enxofre aumentaram significativamente na porcao aerea (Figura 3C), enquanto na porcao radicular (raiz + substrato) nao houve efeito significativo; os teores de S na forragem de milho cultivado com 20 e 40% de soro de leite nao diferem estatisticamente da solucao convencional, apresentando efeito semelhante ao encontrado com o uso da solucao testemunha (Tabela 2).

Os teores de N e S na forragem submetida as maiores concentracoes de soro foram superiores aos obtidos com a solucao nutritiva testemunha, revelando que o soro do leite pode prover N e S para o milho hidroponico a partir de suas formas assimilaveis pelas plantas, mas se deve atentar para eventuais efeitos de antagonismo sobre outros nutrientes. Segundo Rodrigues (2002), aumentando a concentracao de sulfato a absorcao de molibdenio e reduzida e o mesmo ocorre com outros nutrientes quando a concentracao de sulfato e P e aumentada.

A analise de regressao nao mostrou efeito significativo do soro de leite sobre os teores de Fe na parte aerea e no sistema radicular; contudo, as plantas cultivadas com soro a 20% ja se mostraram significativamente superiores as testemunhas, no que se refere ao acumulo de Fe, tanto na parte aerea como nas raizes.

As plantas irrigadas com as solucoes de menores concentracoes de soro de leite (20 e 40%) apresentaram, na parte aerea, diferenca altamente significativa nos teores de Fe (P < 0,01) em relacao a solucao convencional; no entanto, a solucao composta de 100% de soro de leite nao diferiu da solucao controle, o que pode ser atribuido a maior concentracao atrelada ao reaproveitamento da solucao empregada com intensa absorcao pela planta (100%), visto que em sua composicao o teor de Fe se mostra bastante superior ao constituido na solucao nutritiva; os teores de Fe obtidos nas folhas de milho, que variam entre 88,2 a 118,8 mg [kg.sup.-1], estao de acordo com os teores (50 a 250 mg [kg.sup.-1]) considerados adequados para a cultura do milho (Cavalcante, 2008). Os teores de ferro na parte radicular do milho hidroponico foram significativamente inferiores nos tratamentos com 20, 60 e 100% de soro, comparando-se com as plantas testemunhas (Tabela 3).

A analise de regressao tambem nao mostrou efeito significativo do soro sobre os teores de Cu na parte aerea e de Zn nas raizes (raizes+substrato). Com o aumento das doses de soro de leite, observou-se um acrescimo linear nos teores de Cu na porcao radicular e de Zn na parte aerea. Os teores de Mn, tanto na parte aerea como nas raizes, seguiram tendencia quadratica (Figura 4A e B). Os teores de Cu na parte aerea das plantas se encontram ligeiramente acima do teor considerado adequado (6 a 20 mg [kg.sup.-1]) para a cultura do milho (Cavalcante, 2008), nao ocorrendo diferenca significativa entre as doses avaliadas; contudo e se comparando a testemunha com as plantas irrigadas com soro, apenas a dose mais elevada nao diferiu significativamente da testemunha (Tabela 2); por outro lado, apenas as plantas tratadas com soro diluido 20 e 60% nao diferiram significativamente da testemunha.

A forragem de milho obteve aumento significativo (P < 0,01) nos teores de Zn na parte aerea, em resposta as doses de soro de leite. Tanto as plantas testemunhas como as tratadas com soro apresentaram teores de Zn na parte aerea bem mais elevados (acima de 86 mg [kg.sup.-1]) que os teores considerados adequados (15 a 50 mg [kg.sup.-1]) para folhas de milho (Cavalcante, 2008). Na porcao radicular todos os valores obtidos foram superiores a 190 mg [kg.sup.-1] (Tabela 3), promovendo maior absorcao do nutriente pela planta, como resultado de maior quantidade acumulada nas raizes, observando-se que a maior parte do Zn se acumulou na raiz sendo translocado para a parte aerea da planta (Saraiva et al., 2007), resultado que chama a atencao para o risco de fitotoxidez e desequilibrios nutricionais (Mann et al., 2001).

[FIGURA 4 OMITIR]

[FIGURA 5 OMITIR]

Os teores de Mn nas plantas de milho, na parte aerea ou radicular, seguiram tendencia quadratica (Figura 4A e B), em resposta as doses de soro de leite; na parte radicular os teores de manganes foram bastante inferiores aos teores na parte aerea devido, certamente ao baixo teor deste nutriente no substrato, e a participacao do substrato no conjunto analisado: substrato mais raizes. Nas forragens, o padrao de concentracao de Mn desejado para bovinos e ovinos e de 25 mg [kg.sup.-1] (MacPherson, 2000); por outro lado, o grao de milho apresenta reduzido teor de Mn, cerca de quatro vezes menos que a forragem cultivada com 20% de soro de leite.

Houve um aumento linear e crescente nos teores de Na, tanto na parte aerea quanto na porcao radicular da forragem de milho hidroponico, em funcao das doses de soro de leite (Figura 5A e B). Esta resposta se deve ao elevado teor desse elemento na composicao do soro (Tabela 1), onde se encontra presente em forma livre e assimilavel, mais de duas vezes superior ao conteudo de Mg e bastante superior tambem ao conteudo de Ca. Semelhante ao observado neste trabalho, Garcia et al. (2007), observaram aumentos nos teores de sodio nas folhas de milho cultivado em ambientes salinos.

As plantas tratadas com soro a 20% mostraram-se identicas em relacao aos teores de Na das plantas testemunha, nao diferindo significativamente na parte aerea nem na porcao radicular; no entanto, as plantas cultivadas com demais concentracoes de soro de leite diferiram da testemunha a 5% de probabilidade (Tabelas 2 e 3).

A maioria das plantas geralmente absorve Cl- em niveis acima do necessario ao seu metabolismo (Ferreira et al., 2007); sendo o cloreto um nutriente essencial requerido apenas em pequenas concentracoes, quando presente nas plantas em teores elevados causa problemas de toxidez (Prado, 2008). Os teores encontrados nas folhas de milho atingiram niveis que podem levar a facilitar sua ocorrencia a toxicidade, alem de ocasionar efeitos antagonicos. Observou-se decrescimo nos teores de [Cl.sup.-] na parte aerea e aumento na parte radicular (Figura 5C), em resposta as doses de soro; tanto na parte aerea como nas raizes, os teores de [Cl.sup.-] foram significativamente superiores nas plantas cultivadas com soro em comparacao com as testemunhas. Ferreira et al. (2007), ao cultivar plantulas de milho em ambientes com elevada salinidade, tambem observou aumento nos teores de cloreto.

CONCLUSOES

1. E viavel substituir a solucao nutritiva por soro de leite diluido a 20% em agua de abastecimento, na producao de forragem hidroponica de milho.

2. E inviavel produzir forragem hidroponica de milho com 100% de soro, em substituicao a solucao nutritiva convencional.

3. A substituicao da solucao nutritiva no cultivo da forragem hidroponica de milho por soro de leite a 20%, nao compromete os teores dos nutrientes N, P, Mg, S, Cu e Zn na planta.

4. A forragem hidroponica cultivada em soro de leite absorve menos Mn do que cultivada em solucao nutritiva convencional.

5. Os elevados teores de Na e K no soro de leite provocam reducao na producao da forragem de milho hidroponico.

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Leila de Paula (1), Mario M. Rolim (1), Egidio Bezerra Neto (2), Tales M. Soares (3), Elvira M. R. Pedrosa (1) & Enio F. de F. e Silva (1)

(1) DTR/ UFRPE, Av. Dom Manuel de Medeiros, s/n, Dois Irmaos, CEP 52171-900, Recife, PE. Fone: (81) 3320-676. E-mail: leiladipaula@yahoo.com.br, rolim@dtr.ufrpe.br, enio.silva@dtr.ufrpe.br, elvira.pedrosa@dtr.ufrpe.br

(2) DQ/ UFRPE. Fone: (81) 3320-6367. E-mail: egidiobn@yahoo.com.br

(3) NEAS/UFRB - CEP 44380-000, Cruz das Almas, BA. E-mail: talesmiler@gmail.com
Tabela 1. Composicao quimica das solucoes referentes aos tratamentos,
do substrato (bagaco de cana) e de semente de milho utilizada no
cultivo do milho hidroponico

Tratamentos          N      P     K      Ca     Mg     S     Na
(% de soro de
leite) (1)                          mg [L.sup.-1]

Testemunha (2)      62     8,9   49,7   49,4   6,2    8,1    --
T-100               860    300   1500   220    180    127   370
T-80                688    240   1200   176    144    101   296
T-60                516    180   900    132    108    76    222
T-40                344    120   600     88     72    51    148
T-20                172    60    300     44     36    25     74
Bagaco de cana     3,14    --    0,35   0,86   0,23   --    0,35
Semente de milho   10,99   --    3,54   1,02   0,88   --    0,18

Tratamentos          Fe       Cu      Mn      Zn         CE
(% de soro de                                            dS
leite) (1)               [micron]g [L.sup.-1]        [m.sup.-1]    pH

Testemunha (2)      938       35      438     88        0, 7      4,0
T-100              80.000   2.000    2.000   2.400      5,5       4,1
T-80               64.000    1600    1.600   1.920      4,4       4,1
T-60               48.000    1200    1.200   1.440      3,3       4,1
T-40               32000     800      800     960       2,2       4,1
T-20               16000     400      400     480       1,1       4,1
Bagaco de cana      202     30, 63   6,93     --         --        --
Semente de milho    110     36,22    6,94     --         --        --

(1) Diluido em agua de abastecimento

(2) Solucao nutritiva (Bezerra Neto & Barreto, 2004)

Tabela 2. Contraste entre massa fresca da parte aerea (MFPA) e massa
seca da parte aerea (MSPA) e teores de nutrientes na parte aerea das
plantas testemunha e das plantas cultivadas com soro de leite

          MF         MS          N            P          K

          kg [m.sup.-2]                g [kg.sup.-1]

Test    2,03       0,30      28,30        9,28         5,06
T20     1,64 **    0,25 **   26,51 (ns)   8,78 (ns)   46,36 **
T40     1,39 **    0,23 **   27,08 (ns)   8,83 (ns)   44,46 **
T60     0,97 **    0,19 **   30,40 (ns)   9,08 (ns)   44,14 **
T80     0,68 **    0,16 **   32,30 *      8,02 **     43,59 **
T100    0,46 **    0,16 **   34,21 **     8,64 (ns)   41,65 **
C.V.   13,08      10,45       7,75        6,45         6,80

          Ca          Mg           S            Na

                        g [kg.sup.-1]

Test    5,36       3,66         2,82         0,93
T20     4,57 *     3,47 (ns)    2,61 (ns)    1,14 (ns)
T40     3,62 **    3,47 (ns)    2,91 (ns)    2,26 **
T60     2,84 **    2,83 **      3,44 *       3,55 **
T80     3,01 **    2,50 **      3,56 *       4,23 **
T100    2,97 **    2,59 **      4,18 **      4,98 **
C.V.   15,37      10,57        13,06        18,94

           Fe            Cu            Zn           Mn         Cl

                               mg [kg.sup.-1]

Test   118,71        26,14         86,45         62,80       7,78
T20     95,63 *      23,31 *       98,24  (ns)   22,20 **   26,94 **
T40     93,08 *      21,40 **      98,88  (ns)   15,81 **   27,59 **
T60     88,13 **     22,08 **     106,74 **      15,63 **   25,48 **
T80     88,17 **     23,14 *      101,24 *       16,84 **   24,80 **
T100   103,69 (ns)   23,89 (ns)   116,89 **      17,26 **   22,65 **
C.V.    15,81         9,32         10,73          9,27      06,68

(ns), *, ** representam, respectivamente, nao significancia e
significancia a 1% e a 5% de probabilidade

Tabela 3. Contraste entre massa fresca da parte aerea (MFPR) e massa
seca da parte aerea (MSPR) e teores de nutrientes na parte radicular
das plantas testemunhas e das plantas cultivadas com soro de leite

           MF          MS           N           P          K

           kg [m.sup.-2]                 g [kg.sup.-1]

Test    9,76        1,80        18,84         2,37       2,81
T20    11,25 (ns)   1,90 *      19,73 (ns)    4,80 **    6,54 **
T40    13,82 **     1,85 (ns)   22,55 **      6,22 **   11,74 **
T60    13,29 **     1,88 (ns)   22,21 **      6,49 **   13,77 **
T80    13,59 **     1,91 *      22,61 **      6,21 **   16,78 **
T100   13,48 **     1,91 *      21,98 *       5,91 **   18,10 **
C.V.    9,62        3,71         8,70        10,93       6,80

          Ca         Mg          S          Na

                      g [kg.sup.-1]

Test    l,47       0,85      1,05        2,85
T20     2,59 *     1,10 *    1,05 (ns)   2,93 (ns)
T40     3,02 **    1,18 *    1,07 (ns)   5,41 **
T60     3,78 **    1,36 **   1,08 *      5,84 **
T80     4,27 **    1,23 **   1,08 *      5,74 **
T100    4,56 **    1,57 **   1,08 (ns)   6,43 **
C.V.   17,95      15,05      1,80        8,39

           Fe            Cu           Zn           Mn         Cl

                              mg [kg.sup.-1]

Test   241,72        12,67        241,72         1,14       3,89
T20    192,04 *      13,19 (ns)   192,04 *       0,69 **    5,30 *
T40    199,44 (ns)   18,00 **     199,44 (ns)    0,83 **   10,06 **
T60    190,29 *      13,71 (ns)   190,29 *       0,87 **   10,61 **
T80    213,96 (ns)   20,06 **     213,96 (ns)    0,76 **   11,29 **
T100   171,34 **     18,11 **     182,31 **      0,55 **   12,73 **
C.V.    13,52        14,17         13,81        11,78      10,61

(ns), *, ** representam, respectivamente, nao significancia e
significancia a 1% e a 5% de probabilidade
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:de Paula, Leila; Rolim, Mario M.; Bezerra Neto, Egidio; Soares, Tales M.; Pedrosa, Elvira M.R.; de F
Publication:Revista Brasileira de Engenharia Agricola e Ambiental
Date:Sep 1, 2011
Words:7033
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