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Creating life in the context of death: the maternal exercise in militancy situations during the Military Dictatorship in Brazil (1964-1985)/Gerando vida em contexto de morte: o exercicio materno em situacoes de militancia durante a Ditadura Militar no Brasil (1964-1985).

Introducao

O periodo da Ditadura Militar no Brasil ocorreu em meio a mudancas e transformacoes dos costumes, em que as fronteiras entre publico e privado se modificavam, principalmente, em funcao do processo de modernizacao e industrializacao do pais (Matos, 1995; Biasoli-Alves, 2000). De acordo com Almeida e Weis (1997), o periodo de 1964 a 1985 foi caracterizado por um gradativo endurecimento do Regime, instituido por meio dos Atos Institucionais (AI) que marcam importantes divisoes que caracterizam as mudancas politico-sociais durante o periodo autoritario (8). Do "AI ao AI-5", o Brasil passou por ciclos de abertura e fechamento do espaco publico, tanto em relacao aos movimentos politicos, e das liberdades, quanto a vida individual e coletiva. Formaram-se e fortaleceram-se, neste periodo, partidos politicos de esquerda, o movimento estudantil, atraves da Uniao Nacional dos Estudantes (UNE), alem de outras associacoes que iam as ruas questionar a ordem estabelecida autoritariamente (Almeida & Weis, 1997). Para estes autores, este foi um momento de ambiguidade das fronteiras entre proibido e o permitido e entre o espaco publico e privado. Antes da promulgacao do Ato Institucional de numero 5 (AI-5) em 13 de dezembro de 1968, havia ainda um clima de esperanca, muito fortalecido pelos ideais socialistas revolucionarios, que envolvia parte dos manifestantes, nesta altura, considerados como comunistas e perturbadores da ordem publica.

Grande parte destas pessoas pertencia a classe media brasileira, formada por universitarios, intelectuais e artistas, que se engajaram no movimento contra o Governo autoritario, principalmente com o endurecimento repressor que se deu apos a instituicao do Al-5--os chamados "Anos de Chumbo". Neste periodo, intensificou-se a censura e a restricao a liberdade de expressao politico-social, institucionalizando as praticas de cassacao, prisao e tortura contra aqueles considerados opositores ao regime, nomeados pelo Estado de "subversivos" e/ou "terroristas".

Dentro destes grupos de esquerda destaca-se a importancia social da participacao de mulheres na militancia em oposicao a Ditadura Militar. Segundo Ferreira (1996), esta participacao configurava-se em uma contravencao em relacao a dois pontos especificos: "... as militantes estavam desempenhando um papel duplamente transgressor: enquanto agentes politicos (insurgindo-se contra o Regime) e enquanto genero (rompendo com o padrao vigente)" (p. 152). Por outro lado, a militancia feminina foi tambem questionada e criticada inclusive por outras mulheres, que nao aderiram a este tipo de luta e mantinham a tradicao, reconhecendo o "seu" lugar de mae, esposa e dona-de-casa, apoiando e legitimando o Regime Militar, criando inclusive movimentos como as "Marchas da Familia com Deus pela Liberdade" (Ridenti, 1990, p. 3).

Varios estudos enfatizam as importantes transformacoes que se deram em relacao ao lugar social feminino e a insercao da mulher no contexto de militancia politico e social, durante e apos a Ditadura Militar (Ridenti, 1990; Ferreira, 1996; Colling, 1997; Goldenberg, 1997; Sarti, 2004). Sistematizar e trazer a tona a historia dessas mulheres nos permite compreender a construcao da identidade feminina por meio das vivencias, marcadas por mudancas e continuidades. No entanto, se mudancas podem ser vistas no cenario publico/politico em relacao a acao feminina, no que tange aos aspectos referentes ao privado, pouco se tem investigado, e uma destas dimensoes e o exercicio da maternidade em meio a militancia (Veloso, Gianordoli-Nascimento & Ferreira, 2010; Gianordoli-Nascimento, Trindade & Santos, 2012).

Conforme aponta o estudo realizado por Veloso et al. (2010) sobre a representacao social da maternidade entre mulheres militantes, ser mae e ser militante apresentava certa ambivalencia, pois se contestavam de um lado, os padroes vigentes, e do outro, se repetia o que era tradicional, configurando-se como um conflito para as mulheres militantes, que tiveram que decidir entre o exercicio pleno da maternidade ou pela continuidade da militancia. De outra forma, a condicao da maternidade "... tambem representou para essas mulheres a possibilidade de reconstrucao de suas vidas, motivo pelo qual precisavam enfrentar a realidade apos o aniquilamento sofrido na tortura ..." (p. 7). A estas mulheres se colocava, contudo, a decisao entre uma condicao ou outra, e o contrabalanco entre os projetos individuais e coletivos.

Remontar esse cenario politico em que as mulheres se inseriram e de suma importancia para o entendimento acerca desse contexto social, que modificou as relacoes de genero e o lugar social da mulher. Sendo assim, a atuacao destas mulheres favoreceu novos modelos e configuracoes sociais que contribuiram para a insercao da mulher em uma nova ordem social, diluindo as fronteiras entre a vida publica e privada, o que nos permite investigar as dinamicas da maternidade nesse contexto, compreendendo que a maternidade se constitui como um dos pilares fundamentais da identidade feminina (Carson, 1995).

Sendo assim, o objetivo geral deste estudo e compreender a experiencia da maternidade conjugada a militancia politica, enfatizando a compreensao do lugar social da mulher militante a partir das experiencias, das lembrancas e narrativas de suas vivencias. Para tanto, esta investigacao se embasa em producoes cientificas que se debrucem sobre as vicissitudes da vivencia da maternidade em situacoes-limite, e em especial durante o periodo da ditadura militar, articulando analiticamente as dimensoes do genero e da militancia.

Neste sentido, cabe enfatizar que ha poucos trabalhos que exploram essas conexoes, situacao que reflete um quadro mais amplo da composicao da memoria social do periodo, que mesmo apos quase trinta anos do final do regime ainda obscurece aspectos das vivencias de varios segmentos sociais que atuaram direta ou indiretamente na cena politico-social do Brasil. Assim, ao trabalharmos com os relatos orais das entrevistadas entramos em contato com vivencias que ilustram as transformacoes da identidade feminina, advindas do rompimento de padroes socialmente esperados em relacao a atuacao publica e a experiencia privada de mulheres.

Estas mulheres vivenciaram situacoes-limites apos a entrada na militancia, romperam com seus vinculos familiares e assumiram riscos sociais ao: engravidarem solteiras; serem presas gravidas; sofrerem abortos sob tortura; terem seus partos durante a prisao, clandestinidade e exilio, sem assistencia medica pre e pos-parto; alem de serem apartadas de seus bebes sem amamenta-los e sob ameaca de nao mais te-los nos bracos.

Tais situacoes exigiram destas mulheres capacidades de resistencia e superacao frente ao adverso, principalmente no periodo pos-prisao, quando tiveram que reconstruir suas vidas e lacos sociais, conjugando maternidade, carreira e sobrevivencia em um amalgama pouco experienciado pelas mulheres de classe media daquele periodo historico. Investigar a participacao da mulher dentro desta conjuntura social, dimensionando o lugar da maternidade e suas nuances nas trajetorias de militancia, prisao-tortura e pos-prisao, pode oferecer importantes informacoes que colaborem para um entendimento mais geral da construcao social da identidade feminina e para a construcao de uma memoria historica do periodo.

Trabalhos dessa natureza, ao revelar um cenario pouco explorado nos documentos historicos, apontam:

... como as memorias pessoais dizem nao apenas de um passado vivido .... mais tambem de um fato historico cujos elementos podem ou nao estarem presentes na memoria coletiva. Alem disso, podem se caracterizar como memorias historicas orais, uma vez que retratam nao apenas as vivencias de familiares ou militantes, mais de um periodo historico no Brasil. (Gianordoli-Nascimento, Veloso, Silva, Cruz & Oliveira, 2012, p. 3).

Este trabalho baseia-se em memorias pessoais--construidas pela propria pessoa acerca do seu passado, mas que podem envolver fatos sociais vivenciados--e memorias comuns nascidas de fatos e informacoes guardados por individuos que viveram as mesmas situacoes, mesmo sem estarem reunidos ou as elaborarem conjuntamente--ainda que estas nao componham uma memoria coletiva do periodo, o que se faria apenas pela interacao entre os individuos e a elaboracao conjunta sobre o passado. Trabalhamos, portanto, com memorias autobiograficas, isto e, relatos mais extensos registrados no sentido de documentar a titulo de esclarecimento lembrancas de pessoas que desejavam fornecer tais informacoes (Sa, 2013), memorias que produzem rica contribuicao para a memoria historica do periodo, sendo essenciais para o conhecimento do periodo por geracoes futuras.

Os relatos trabalhados, portanto, apontam o aspecto dinamico da memoria social (Sa, 2013), pois o campo da memoria remete a batalhas constantes entre aquilo que e lembrado e esquecido, tendo em vista a permanente negociacao entre passado e presente na composicao da memoria (Pollak, 1989; Sa, 2007).

A escassez de registros historicos sobre a atuacao socio-politica feminina sinaliza que na escrita da historia nao e democratica a experiencia de todos os atores sociais envolvidos na dinamica social. Como salientado por Perrot (2005) o registro oral, bem como, os registros privados sao via privilegiada de acesso as memorias das mulheres, tendo em vista que de forma hegemonica a narrativa que predomina na historia e a dos fatos publicos registrados e protagonizados por homens. Tratamos, portanto, de memorias de mulheres, ou seja, aquelas invisibilizadas nas leituras oficiais e que ganham corpo na oralidade (Perrot, 2005), no registro transmitido sobre a esfera privada, que neste momento da historia do Brasil encontrava-se permeada por mudancas politicas, mas tambem por mudancas nos costumes que marcam os lugares socialmente ocupados por homens e mulheres.

Maternidade e Militancia: ou isto ou aquilo

A imagem da mulher esta socio-historicamente associada a maternidade, ja que sua feminilidade se vincula ao aparato biologico ao envolver seu ciclo reprodutivo. Nesse sentido, ha uma naturalizacao da maternidade como fator constitutivo da identidade feminina, reforcada pelo que se convencionou chamar de instinto materno (Badinter, 1985), elemento amplamente valorizado nas representacoes sociais da mulher na sociedade moderna.

Segundo Badinter (1985) a crenca no amor materno instintivo e fruto de um processo historico-social construido e reforcado na medida em que as mulheres sao reconhecidas e valorizadas pelos atributos que a fazem 'aptas' ao exercicio materno, e quando ausentes estas caracteristicas, sao consideradas relapsas ou maes mas.

Esse sentimento pode existir ou nao existir; ser e desaparecer. Mostra-se forte ou fragil. Preferir um filho ou entregar-se a todos. Tudo depende da mae, de sua historia e da Historia. Nao, nao ha uma lei universal nessa materia, que escapa ao determinismo natural. O amor materno nao e inerente as mulheres. E "adicional" (Badinter, 1985, p. 366).

A divisao sexual dos espacos sociais provocou a total entrega da mulher aos filhos e a esfera domestica. O homem, por sua vez, continuou exercendo atividades ligadas aos seus atributos identitarios, atuando no ambito publico do mundo do trabalho, a fim de garantir sua funcao de provedor financeiro. Isto, porem, o afastou do universo do lar, tolhendo-o do exercicio da paternidade, por meio da ausencia do contato e cuidado dos filhos (Badinter, 1985; Trindade, 1998). As concepcoes naturalizadas de que os homens nao teriam habilidades suficientes para cuidar, sustentavam essas tradicoes. Assim, maternidade e paternidade tambem se constituem como construcoes sociais (Trindade, 1998).

Rompendo com essa configuracao, ser mulher e ser militante exigia das mulheres algumas decisoes que impunham renuncias dolorosas e com altos custos sociais quanto a suas relacoes com seus grupos de pertencas, ja que suas identidades sociais se construiram por meio do amalgama formado pelo pleno exercicio da mulher-mae. Implicacoes estas que nao se colocavam para os homens, visto que suas identidades, relacionadas ao exercicio da paternidade, nao se estabeleceram socialmente (Gianordoli-Nascimento et al., 2012).

Ter que decidir entre a militancia e o exercicio da maternidade indica que a mulher militante estava em um lugar improprio, pois o lugar da mae seria no seio da familia, no recondito privado, e nao nas ruas e na politica. Assim, ser militante se torna sinonimo de ser transgressora, ao manchar a identidade da mulher mae-esposa (Ridenti, 1990).

Desse modo, ser militante marca a trajetoria de "... mulheres que nao puderam ter filhos ou os tiveram na clandestinidade, na mais absoluta precariedade e solidao, mulheres que foram obrigadas a se separar de seus filhos" (Goldenberg, 1997, p. 361) e que, ate no presente, sofrem as vicissitudes desta condicao. A vivencia da maternidade, no periodo ditatorial ou na atualidade, estabelece, contraditoriamente, uma dificil decisao para a mulher por sua condicao: ou sera isto, ou aquilo.

Metodologia

Trata-se de uma pesquisa qualitativa de carater exploratorio que apresenta os relatos de militantes sobre sua experiencia de conjugacao entre maternidade e militancia. Este estudo foi composto por quatro (04) entrevistas realizadas com mulheres que participaram de organizacoes politicas clandestinas e militaram em oposicao ao regime ditatorial, durante o periodo da ditadura militar no Brasil (1964-1985), e que nesta epoca engravidaram, conceberam ou tiveram a gravidez interrompida.

A coleta de dados se deu por meio de entrevistas realizadas de forma individual, seguindo-se um roteiro de entrevista semiestruturado composto de duas partes: I) caracterizacao das entrevistadas na epoca de militancia e no periodo atual (idade, escolarizacao, estado civil, tempo de militancia, numero de filhos, etc.); II) tematicas relacionadas as experiencias de maternidade antes, durante e depois da militancia.

As entrevistas foram realizadas nos estados de moradia atual das entrevistadas: duas (02) coletadas no Estado de Sao Paulo, uma (01) em Minas Gerais e uma (01) em Brasilia. O tempo medio de duracao foi de tres a doze horas, conforme a disponibilidade das entrevistadas. Todas as entrevistas foram gravadas em fitas cassetes e em formato digital MP3, apos a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisa da UFMG (COEP), sob o numero 0633.0.203.000-09.

Posteriormente as entrevistas foram submetidas a analise de conteudo seguindo as orientacoes de Bardin (2009) e Minayo (2010), e enquadra-se no que se chama de analise tematica. A analise foi composta pelas seguintes etapas: 1) transcricao dos dados brutos que permite a "pre-analise" (leitura exploratoria, leitura flutuante); 2) criacao de categorias; 3) separacao do conteudo a partir das categorias criadas; 4) composicao de "inferencias e interpretacao dos dados" (Bardin, 2009, p. 121).

A partir da identificacao das unidades de analise, foi possivel realizar a categorizacao das respostas que serviram de prisma para organizar, analisar e interpretar o conjunto de dados obtidos. Posteriormente, estas categorias foram organizadas em eixos tematicos que estavam interligados em seus sentidos e conteudos, considerando-se, para isso, o cenario socio-historico e as experiencias com as quais se articulavam. A analise e interpretacao dos dados encontramse embasadas em producoes cientificas que articulam as dimensoes de genero e militancia, que serao fontes para a compreensao mais ampla do fenomeno da maternidade vivenciada por mulheres que militaram contra a ditadura militar no Brasil, problematizando aspectos ainda pouco priorizados nos estudos deste periodo historico.

Resultados e discussao

A tabela 1 refere-se aos dados de caracterizacao das participantes no periodo de sua militancia (9). As mulheres entrevistadas tiveram insercoes politicas diversificadas, sendo que a idade de entrada na militancia variou entre 15 e 20 anos. Todas passaram por experiencias de clandestinidade, prisao e tortura quando tinham entre 23 e 27 anos. Em relacao a origem, tres das entrevistadas nasceram em cidades interioranas, e uma em uma capital. Quanto a classe social, durante a ditadura, houve variacao, sendo duas de classe media e duas de classe baixa.

Antes e apos as prisoes, as participantes viveram periodos de clandestinidade, gravidas ou com filhos ainda bebes. Considerando que algumas mulheres vivenciaram experiencias de partos e gravidezes em momentos diferenciados nas trajetorias pessoais de cada uma, podemos observar algumas semelhancas nas vivencias da clandestinidade, exilio e prisao. Alem disso, algumas mulheres tiveram mais de uma gestacao, o que tambem reserva singularidades em relacao as outras experiencias da propria militante. Das oito gestacoes relatadas, seis se deram em contextos de clandestinidade, sejam elas antes da prisao (duas delas durante a guerrilha rural ou urbana), apos a soltura ou no exilio. Apenas duas gestacoes ocorreram em contextos de pos-soltura ou pos-exilio. Assim, todas descobriram pelo menos a primeira gravidez ja na clandestinidade. Em relacao aos partos, dos oito relatos quatro foram em contextos de clandestinidade, dois na prisao e dois na pos-soltura ou pos-exilio. Seus partos foram realizados em hospitais, seja em instalacoes para as quais foram levadas durante o periodo de prisao, ou com o auxilio de medicos ou profissionais de saude que conheciam e agiram clandestinamente, ou em hospitais regulares apos o exilio ou soltura. Na tabela 2 estao identificados os dados referentes as gravidezes e aos partos. Apenas uma das entrevistadas relatou uma interrupcao da gravidez.

Maternidade e Militancia: compreendendo as tensoes entre o individual e o coletivo

Parece-nos que a experiencia das mulheres entrevistadas, envolvendo a participacao no exercicio politico, associado ao aumento da escolarizacao e a profissionalizacao, introduz, na construcao de suas identidades de genero, a dimensao da participacao publica. Sao dimensoes sociais que atualmente se consolidam, principalmente, por meio do trabalho feminino, contribuindo para a ampliacao da configuracao da identidade da mulher, antes associada apenas ao casamento e a maternidade. Embora ainda se mantenha uma hierarquia entre esses elementos, esta ampliacao coaduna com a visao de Carson (1995), na qual a identidade feminina e constituida por tres pilares fundamentais:
   1) A maternidade e o ser mae. 2) O matrimonio ou a uniao e o ser
   esposa ou companheira. 3) O trabalho ou a profissao e o ser
   trabalhadora ou profissional. A identidade de genero das mulheres
   em um tempo e em um espaco historicamente determinados e produto da
   articulacao especifica desses tres eixos (p. 209).


Segundo o autor, estes eixos conceituais nao se tornam elementos estruturadores da identidade somente por meio da consolidacao empirica. Atuam, entao, como simbolos que se organizam, desenvolvem e adquirem relevancia diferente ao longo da vida de cada mulher. Em funcao da maneira que a articulacao entre eles se recompoe e se reacomoda, produz continuas transformacoes a partir de pertencas grupais e sociais das mulheres

... e perdura do nascimento ate a morte..... Eles estao sempre presentes, porque sao formas sociais que orientam a conduta, perfilam e valorizam as formas de atuacao e, dessa maneira, participam da definicao do que e 'proprio' do genero feminino. Nesse sentido, eles participam como simbolos que descrevem e designam, organizam e acomodam, nomeiam e qualificam detalhadamente o que significa ser mulher.....Nao ha uma etapa na qual as mulheres finalizam o processo de consolidacao da sua identidade de genero. O que pode ser pensado atraves de etapas nao e a resolucao, mas as modificacoes que a identidade sofre em funcao das experiencias que cada mulher vive, incorpora, valoriza, simboliza (Carson, 1995, pp. 210-211).

Compreendemos, portanto, que a definicao dos lugares sociais ocupados por homens e mulheres foi construida ao longo dos seculos, nao sendo diferente em termos da construcao social da maternidade ou do ideal de amor materno (Badinter, 1985; Trindade, 1998), ideia fortalecida por discursos biologizantes que circulam em nossa sociedade, definindo praticas, e sendo propagados pela midia e nas conversacoes cotidianas.

As transformacoes e o clima de mudancas a partir dos anos de 1960, associados a progressiva entrada das mulheres de classe media nas universidades e no mercado de trabalho, alteraram essa dinamica. Diferente do que era disponibilizado na geracao de suas maes, estas mulheres puderam transitar entre o espaco publico e privado, a partir da sua insercao em diversas dimensoes da vida publica. No caso especifico das mulheres militantes, vemos a importancia de sua formacao sociopolitica, e, neste ponto, a insercao no mundo da militancia pode-se comparar a insercao atual no mundo do trabalho, tendo em vista que isso representava a ocupacao de um espaco publico, fora do restrito espaco domestico do lar. A partir de seus relatos, vislumbra-se a dificil tarefa que tiveram em conjugar maternidade, relacao afetiva com seus companheiros e a vida na militancia.

No periodo anterior a promulgacao do AI-5, as mulheres entrevistadas adentravam para a militancia politica organizada e ja nao estavam mais sobre a tutela dos pais. Neste cenario, todas conheceram seus companheiros afetivos, com quem posteriormente tiveram filhos, nao necessariamente por meio do casamento. Neste sentido, estavam diferenciando-se do modelo de feminilidade estabelecido na epoca; por isso, algumas delas, como nossas entrevistadas, Mariana e Sofia, destacaram que foram comparadas, ou assumiram posturas tidas como masculinizadas, o que facilitava serem aceitas entre os seus pares. Embora os jovens contestassem os valores tradicionais e a ordem instalada, no que tange as diferencas de genero, Sofia relatou os embates com alguns homens, tambem militantes, em relacao as suas tarefas, ponderando os riscos que corria em algumas acoes noturnas por ser mulher. Destacou ter se trajado como homem para sentir-se segura, principalmente durante as madrugadas, horario em que a presenca de mulheres nas ruas significava estar disponivel a prostituicao e expostas a violencia:
   E o [companheiro de militancia disse]: 'mas voce nao e uma mulher
   emancipada?' [ela responde]'eu sou! Mas o mundo nao e. E eu to no
   mundo... ta certo?! Nao adianta!. Voces num sao homens emancipados?
   Fala com a mae de voces que sua amiga vai ficar na sua casa com
   voce ate duas horas da manha!'. (Sofia)


Colling (1997) afirma que para assumirem um lugar dentro das organizacoes de esquerda, as mulheres precisaram negociar dimensoes de sua condicao feminina. "Por serem espacos fundamentalmente masculinos, as mulheres se impunham a negacao de sua sexualidade, para conquistarem um lugar de igualdade ao lado dos homens ... Os homens militantes, em contrapartida, viam as companheiras militantes como mulheres sexuadas" (p. 117). Nesse sentido, esse olhar para as militantes como mulheres 'diferentes', se relacionava a comparacao entre o modelo feminino de referencia da epoca, 'mulher para casar', e o comportamento adotado pelas militantes.
   Os meninos meus colegas morriam de medo de mim, (risos) falavam que
   eles nunca casariam comigo, que eu era uma mulher muito esquisita!
   Muito diferente!.... mas era o fato de que enfrentava policia, era
   o fato de que eu ia nas reunioes clandestinas ate de madrugada ...
   tinha atitudes, acoes, posturas, que na epoca eram considerados
   atributos unicamente masculinos! Nao eram atributos femininos! A
   mulher era pra ser mais timida, a mulher era pra ser mais meiga,
   mais submissa, ne, mais medrosa, certo. Caracteristicas de
   capacidade de direcao, coragem, ... isso era masculino! ...
   (Mariana)


A problematizacao e a interpretacao das entrevistadas acerca das estrategias de ocupacao do espaco publico/politico das mulheres que militaram, no que se refere a posturas que eram distanciadas do feminino, compoem uma leitura atual possibilitada somente pelo distanciamento que o tempo produz. Isso se da no ambito da memoria na medida em que as transformacoes observadas e vividas no campo social, em relacao a presenca feminina protagonizada por essas mulheres, redefinem suas identidades em relacao ao "ser mulher militante" (Gianordoli-Nascimento, Trindade & Santos, 2007, p. 7). Portanto, vale enfatizar que, no momento dos acontecimentos, a tonica era contestar o regime. Somente no processo de construcao da memoria social por meio das memorias pessoais e comuns, as questoes de genero ganham relevancia, articulando novos significados para suas experiencias pessoais/privadas (casamento-maternidade) e coletivas/publicas (militancia politica).

Neste sentido, ainda que as memorias pessoais sejam aquelas relacionadas as experiencias de vida das pessoas em determinado contexto e apesar de serem particulares, nao sao individuais, por serem por meio da linguagem, construidas socialmente (Sa, 2013). Este elemento ja presente em Halbwachs (1990) postula que nenhuma memoria e individual, ha um elemento social no registro da lembranca intrinseco a comunicacao. Tais aspectos ficam evidentes nos relatos acima por meio de selecao de temas e acontecimentos que abarcam a percepcao de uma leitura/linguagem critica das relacoes de genero entre os militantes homens e mulheres, que em geral, nao estava presente na dinamica dos acontecimentos no momento no qual se davam, mas que foram problematizados anos depois pelos movimentos feministas pos anos 1970 e compartilhados pelas mulheres que atuaram na militancia politica no periodo.

Desta maneira, ainda que nossas participantes nao tenham entre si a oportunidade de compartilhar experiencias, a leitura de seus relatos revela claramente a presenca de memorias comuns, que enfatizam acontecimentos e analises relacionadas as experiencias vivenciadas no mesmo periodo e contexto que guardam entre si semelhanca em suas narrativas sobre a tematica da maternidade em contexto de clandestinidade, prisao, o exilio.

A vida e trajetoria das (os) militantes foram totalmente modificadas pela conjuntura sociopolitica e pelas ambiguidades entre o que era permitido e o que era proibido no ambito privado e no ambito social (Almeida & Weis, 1997; Gianordoli-Nascimento et al., 2012). Assim, as organizacoes reforcavam as regras de seguranca individual e coletiva, estabelecendo normas de conduta e comportamento na vida clandestina de militancia. Almeida e Weis (1997) apontam que nesta condicao, era preciso aprender a viver aparentando certa regularidade no que tange os codigos e modelos sociais vigentes "... talvez o aspecto mais dificil da condicao de clandestino, era construir um cenario de normalidade" (p. 378).

Suely e seu companheiro afetivo, tambem militante, ao passarem a viver juntos, na mesma casa sem estarem oficialmente casados, simulavam a condicao social de "casal recemcasado" como fachada para os vizinhos da casa onde residiam, ja que o local era um 'aparelho' do partido onde aconteciam reunioes politicas e funcionava uma grafica clandestina, servindo de esconderijo para outros militantes que estavam sendo perseguidos. Ela, gravida, frequentava esporadicamente a casa dos vizinhos para demonstrar que viviam uma vida "normal" como qualquer casal, mas sem aprofundar nas relacoes. Assim, o exercicio da politica que esteve anteriormente a 'todo vapor' nas ruas, nos movimentos sociais, nos sindicatos com as greves, nos debates publicos permeados pela imprensa, foram interiorizados e exercidos na vida privada. As casas, ou aparelhos, que serviam de moradia, alem de serem o lugar de se fazer e desenvolver acoes politicas, eram tambem o unico espaco de convivencia e relacao social/pessoal possivel entre os militantes. Estas praticas se faziam necessarias na medida em que as representacoes que circulavam na sociedade, deveriam ser sustentadas com objetivo nao levantar suspeitas, assim ao agirem da forma socialmente esperada sustentavam as representacoes tradicionais de casamento e da propria maternidade mantendo a estabilidade no convivio social.

As quatro entrevistadas (Mariana, Silvia, Sofia e Suely), se descobriram gravidas em pleno acirramento das forcas repressivas do Estado e tiveram a primeira gravidez nesta situacao de clandestinidade, apresentando, assim, memorias comuns destas experiencias. Para Mariana, Silvia e Sofia, descobrir-se gravida foi um "susto" e nao uma "surpresa", ja que nenhuma delas concebia a possibilidade de ter um filho naquele contexto, mesmo que em meio a intensidade das relacoes amorosas que relatam terem vivido com seus parceiros afetivos. Partindo das construcoes sociais de genero, no que tange a maternidade e paternidade (Trindade, 1998), as mulheres dimensionavam de maneira diferente dos homens, o impacto da gravidez e do nascimento de uma crianca.

Silvia relatou que seu companheiro afetivo ja havia se referido a possibilidade/desejo de terem um filho, mas ela foi contraria considerando o contexto de militancia perigoso e levando em conta, tambem, a falta de contato com os familiares e ao isolamento:
   ao mesmo tempo que a gente tava fazendo planificacao para sair,
   para nos incorporarmos a algum foco rural, ele falava em ter
   filhos. Eu dizia: '[...], nao tem sentido! Como e que nos vamos
   fazer uma vida de luta armada, de clandestinidade e ter filhos?'
   ele dizia: 'a gente da um jeito!'. E foi uma loucura, uma loucura!
   ... (Silvia)


Mariana e Sofia, relatam memorias comuns acerca da desigualdade existente entre as responsabilidades envolvidas na paternidade e na maternidade, enfatizando a situacao de conflito entre dar continuidade a militancia ou viver integralmente a maternidade:
   ... por causa de filho, quem abandonaria era a mulher ... como
   sempre, e claro! Mesmo hoje ... nao ta na ditadura. Mas se voce tem
   filho, por mais cabeca aberta que seja o teu marido, a ... vamos
   dizer, a responsabilidade da crianca e dez mil vezes mais sua do
   que dele! Entendeu? Vai afetar dez mil vezes mais a sua vida do que
   a dele ... Entao, ah ... voce tem que ter muito mais forca e
   descobrir [mais] formas [de conjugar insercoes], muito mais do que
   os homens numa situacao de ter filhos. (Mariana)


Embora estes casais rompessem com elementos que caracterizam as representacoes tradicionais e os lugares de genero no casamento, viviam os conflitos permeados por essa conjugacao de valores. Sofia refletiu como a maternidade relacionada a conjugalidade, na condicao de clandestinidade e guerrilha, teve dimensoes diferentes para ela e para seu companheiro afetivo, estabelecendo conflitos no momento da descoberta da gravidez. E interessante notar que em um contexto tradicional de relacoes amorosas, apoiado nos referenciais do "amor romantico", a postura do parceiro afetivo em desejar a gravidez pode ser interpretada pelas mulheres como atitudes que espelham romantismo e prova de amor. No entanto, para as nossas entrevistadas, que nao partilhavam e nem viviam cotidianamente relacoes amorosas prescritas, o posicionamento dos companheiros afetivos nao era interpretado por meio destas representacoes:
   Porque pra um homem e tranquilo ter um filho ne? Quando ele
   descobriu que eu estava gravida ate arranjou um nome para ele. Ele
   tem o nome que o pai escolheu. Agora, para ele [referindo-se ao
   parceiro] era mais tranquilo, tipo: 'nao, voce tem o filho, nao e
   problema.' Agora para mim, eu ficava assim: 'um filho vai me
   prender....' Tanto que eu vim para ca, tive o filho e ele ficou la,
   ne?! [no Araguaia] Pro homem e mais facil do que para a mulher ...
   o filho nao separa da gente com o cordao umbilical, ele dura mais
   tempo, ne?! Entao, eu ... por isso que eu tinha essa ...
   contradicao! Ter o filho ou nao ter o filho?! Entendeu?! Porque
   isso me incomodava. (Sofia)


O conflito aparece na situacao de militancia justamente pelo fato de que o modelo de maternidade hegemonico preconizava a dedicacao exclusiva da mulher aos filhos, sendo esta a principal e mais importante atuacao feminina internalizada pelas mulheres. Neste periodo historico, se impunha a elas o exercicio materno em detrimento de qualquer outra participacao social, que so podia ser exercida enquanto a maternidade nao se colocava (Bassanezi, 2004). Um dos pontos que chama atencao no relato das militantes e que, embora a maternidade implicasse na exclusao do exercicio politico expressado pela conflituosa decisao de se viver "ou isto ou aquilo", algumas vezes apresentada por parte do companheiro afetivo e/ou das organizacoes politicas, o conflito para elas nao se dava em termos representacionais, no que se refere ao "mito do amor materno" (Badinter, 1985), mas em termos instrumentais no que tange a articulacao de conjugar exercicio materno, nas condicoes impostas socialmente, e o exercicio politico, nas condicoes impostas pelo regime militar. O que estava em jogo para estas mulheres nao era a maternidade como elemento da identidade feminina, mas como elas poderiam vivencia-la naquele contexto.

Diante deste conflito, Mariana exemplificou seu posicionamento na gravidez:
   E eu me lembro que eu conversei com um companheiro de militancia
   que era da direcao de AP ainda, antes de ... do PCdoB, e ele
   falando comigo que, eu tinha que escolher: ou a luta, ou o filho. E
   ai eu falei com ele o seguinte: "Eu vou ter! E eu quero lhe dizer
   uma coisa ... No dia, que eu falhar como revolucionaria, no dia que
   eu deixar de cumprir minhas tarefas, ou que eu colocar a luta em
   risco, voce tem o direito de falar alguma coisa. Mas enquanto eu
   nao colocar ninguem em risco, nao falhar, nao deixar de cumprir,
   nao abandonar a luta, voce nao tem o direito de falar nada! Porque
   e o meu filho, ta no meu corpo, e no meu corpo quem manda sou eu!"
   E nao e facil essa escolha! ... Isso foi um dirigente, companheiro
   de luta, que era meu dirigente. E eu o enfrentei mesmo, e ai o [meu
   companheiro afetivo] se colocou, perfeito: "Se voce decidir
   interromper, eu to com voce! Se voce decidir ter, eu to com voce, e
   nos vamos ter!" Ai eu comuniquei pra ele: "Vou ter!"... "Entao,
   vamos ter!". (Mariana)


Sofia tambem passou por este conflito. Clandestina na guerrilha do Araguaia, ja havia passado por tensoes junto aos dirigentes da organizacao em funcao da sua uniao conjugal com um militante guerrilheiro. A descoberta da gravidez e a preparacao para falar com a direcao trouxeram muitos conflitos para ela, que internamente fazia a avaliacao sobre sua trajetoria e insercao politica:
   ... agosto de 1972 eu tava gravida, ne?!.... [com a perda do
   contato com militantes] a direcao achou que eu devia ir pra Sao
   Paulo, porque uma gravidez la ia ser uma coisa muito dificil, no
   meio da guerrilha. Eu vinha pra ca, fazia o aborto ou tinha o filho
   e ai via as condicoes.... eu tinha um objetivo na vida, ta certo. E
   nao incluia maternidade naquele momento. (Sofia)


De acordo com Rocha-Coutinho (2009), diante destas contradicoes, as mulheres e quem sao socialmente ensinadas a fazer uma opcao: entre o trabalho e a construcao de uma carreira profissional ou a pausa na vida para o momento da maternidade, como se nao pudessem conjugar a maternidade a outras atividades. Dessa forma, a autora define um modelo tradicional de maternidade, que estaria ligado ao tamanho da prole (nos anos de 1930/40/50) ainda numerosa, sendo a principal funcao da mulher: ser "boa mae" e "boa esposa". Estas sao exatamente as representacoes de maternidade a partir das quais as mulheres entrevistadas foram socializadas para cumprir, mas com o qual romperam em alguma medida, abrindo a possibilidade para outros modelos, que nao sem onus, possibilitaram a mulher a conjugacao e a ampliacao de suas insercoes (Vaitsman, 1994). De acordo com Rocha-Coutinho (2009), esta seria a nova mulher moderna, que alem de conjugar casamento e trabalho, exerce um novo modelo de maternidade repleto de tensoes no que se refere as seguintes decisoes: opcao de ter ou nao filhos; adiar a gravidez em detrimento da carreira; quando e quantos filhos ter. Ainda hoje a decisao de ter ou nao ter filhos preocupa as mulheres, mesmo que novos elementos simbolicos venham negociar a possibilidade de nao te-los, diante das representacoes tradicionais que ainda circulam em nossa sociedade, tal escolha nao e sem consequencias para as mulheres (Barbosa & Rocha-Coutinho, 2007, 2009).

Considerando todos os aspectos que abrangem as situacoes de imposicoes sociais veladas e simbolicas que envolvem a continua construcao da identidade de genero feminina, preferimos, analiticamente, considerar que as mulheres revelam memorias comuns de uma 'tomada de decisao conflituosa' na qual se somam sentimentos de incompletude e culpa por terem decidido entre uma coisa ou outra, ou por considerarem as perdas que a sobrecarregaram na conjugacao da maternidade e o ser esposa com a carreira/trabalho.

Para os homens, isso nao se faz como questao, ate porque socialmente nao sao educados para exercer a paternidade. "Quase como uma decorrencia natural dos modelos tradicionais de genero, o homem adquiriu o privilegio da paternidade voluntaria, enquanto a mulher se submete a maternidade obrigatoria" (Trindade, 1999, p. 35). Tradicionalmente, eles podem estar apartados do exercicio das praticas de cuidado com os filhos, porque sua funcao principal e a provisao (por meio do trabalho) e nao a procriacao e o cuidar, considerados atributos identitarios femininos. Por outro lado, mesmo quando os exerce, o conflito pessoal/identitario nao se instaura quando deixam os filhos para a realizacao de outras atividades. "Nao existem sancoes sociais para o homem quando se nega a ter filhos e nem mesmo quando nao reconhecem um filho" (Trindade, 1999, p. 35).

Das quatro militantes entrevistadas, Suely e a unica que relatou ter desejado e planejado ter um filho aguardando a gravidez, confirmando-a desde o inicio: "[A gravidez] foi querida, ..., a escolha de ter um filho naquelas circunstancias num foi acidental, foi procurado, eu quis e ele quis tambem. E (pausa longa) e ... fiquei gravida, foi uma felicidade muito grande pra gente, pra ele." Condicao bem diferente das outras mulheres, que se descobriam gravidas depois de alguns meses de gestacao (entre dois e quatro meses) por meio do atraso menstrual consecutivo, sem a possibilidade de fazerem um exame que comprovasse a gravidez, significando tambem que nao sabiam com seguranca o tempo que tinham de gestacao. Mariana revelou que so soube que estava gravida de gemeos, e com sete meses de gestacao, no momento em que foi atendida clandestinamente em condicao de urgencia em um hospital, em trabalho de parto prematuro.

Os relatos revelam memorias comuns de como estas mulheres, apesar de viveram condicoes extremas e diferenciadas diante do embate politico, ainda assim, buscaram se dedicar em cumprir o papel de mae conforme foram socializadas. Essas militantes tiveram que conjugar a maternidade com a vida politica em um contexto de perseguicao e ameaca, na qual a vida publica passou a ser exercida de forma privada e clandestina, vivendo de forma "paralela" a realidade (Pietrocolla, 1996; Gianordoli-Nascimento et al., 2012). Neste contexto, as militantes foram induzidas, por suas insercoes e trajetorias na militancia, a viver o que era possivel em uma situacao limite: "Na verdade... as possibilidades de escolha que eu tive na vida, foram poucas." (Silvia).

Nascendo nos poroes da ditadura: gerando vida em um contexto de morte

As memorias pessoais e comuns sobre a maternidade das militantes que tiveram seus filhos nos figurados 'poroes da ditadura' (Almeida & Weis, 1997; Gianordoli-Nascimento et al., 2012) carregam, no que se remete ao parto, aspectos que na atualidade podem ser inimaginaveis.

As diferentes vivencias das militantes em relacao a gravidez e ao parto em situacao de clandestinidade, prisao, pos-soltura e exilio trouxeram um novo significado a experiencia de maternidade das mulheres nesse contexto. Esta questao, alem de abordada no momento da entrevista, ganhou relevancia a partir da analise dos resultados quando identificamos que de forma compartilhada os partos aconteceram em ambientes e situacoes incomuns, cercados de sentimentos como de medo e iminencia de morte, alem do temor sobre o que poderia acontecer posteriormente com seus filhos, elementos ricamente marcados nos relatos orais. "A tensao, medo/culpa das mulheres ira aparecer constantemente no relato de seu contato com a repressao" (Colling, 1997, p. 78).

Na epoca em que nossas entrevistadas estavam gravidas e foram parturientes, nao tiveram a oportunidade de viverem "um misto de ansiedade e alegria" ao terem seus bebes nos bracos e confirmarem a expectativa de que estavam saudaveis (Sarmento & Setubal, 2003, p. 264), diferente da maior parte das mulheres no momento do parto. A preocupacao dessas militantes era em relacao a sobrevivencia do bebe diante de um regime autoritario que as perseguia. As entrevistadas Suely e Sofia, passaram parte de suas gestacoes no carcere, relatando de forma comum que, durante a prisao, o sentimento que mais as tomavam era o de medo ao darem a luz:
   ... imagina uma mae gerenciar a prisao dela, a militancia dela ...
   E saber que de um momento pra outro podia acontecer da policia
   levar os filhos na frente dela, para ser torturado, entendeu?.... o
   maior drama duma mae e: ou voce ta parindo um filho e ter medo que
   desaparecam com teu filho; ou entao, esse negocio de voce ver
   maltratar teu filho. Eu nao digo nem torturar, maltratar! ... Que
   ja maltratar tem um significado muito mais restrito, entendeu?....
   e as criancas foram maltratadas e foram praticamente torturadas,
   quer dizer, tinha crianca que apanhava, tinha crianca que era
   humilhada. Porque torturar seria o maximo da perversidade humana!
   (Suely)


Estes sentimentos fizeram do momento do parto um momento de ambiguidade e conflitos para as mulheres, principalmente para Sofia e Suely, que foram presas com aproximadamente seis meses de gravidez e deram a luz em hospitais militares em um clima de tensao e pavor que nao apenas as colocava em inseguranca, mas tambem seus filhos, que estavam prestes a nascer:
   [na hora do parto] ai veio essa questao de novo, a contradicao ...
   queria ter meu filho, sabia que eu tinha que ter, mas falei assim:
   "A hora que me separar dele, vai ser pra sempre, os caras vao levar
   ele." Entao, isso me deu muita dor, porque eu tinha contracao e eu
   fazia forca pra sair e fazia forca pra voltar, eu fazia tudo,
   entende?! E tinha consciencia que eu tava fazendo tudo isso. Pra
   mim tava claro, o que me passava ... "Olha ce ta separando do seu
   filho ... ai eu fazia forca pra voltar.". (Sofia)


Da mesma forma, as memorias revelam de forma comum, lembrancas ambiguas no que se refere a gravidez como elemento que fragiliza, mas capaz de proteger. A protecao favorecida pela situacao de gravidez se relacionava a intensidade e as formas de torturas perpetradas contra as militantes. Desta forma, elas consideraram que o fato de estarem gravidas as protegeu da morte, apesar de nao as livrarem das sevicias e da violencia da tortura:
   ... a gravidez, ... de um lado, ela pode incomodar o torturador,
   porque limita ele, ... porque a barriga ia crescendo muito, ...
   eles so nao faziam as mesmas torturas que faziam nas outras
   mulheres, tipo, choque eletrico na vagina e nao sei o que ... Mas
   choque eletrico nos pes e nas maos eles davam. Era muito
   espancamento, principalmente com palmatoria nas maos e nas solas
   dos pes. E ... no rosto, ne?! Soco, tapa, murro na cabeca,
   sabe?!... E ameaca de morte, ne?, eles ameacavam de matar o bebe,
   ameacavam de ... de me matar ... E isso era o tempo todo ... [tinha
   tambem] tortura do tipo ... do isolamento ... ne?!. Te levar pra
   uma sala de interrogatorio, nao te interrogar e te deixava la
   horas, sem comer e sem beber ... (Sofia)

   ....faziam dez horas de interrogatorio numa mulher gravida, nao
   importa em que condicoes ... Isso por si mesmo ja e um crime! E nao
   podia sentar naquela hora e nem podia cair. Exercicio de segurar a
   barriga, Isso que eles me diziam. (Pausa) E as veias me lastravam
   nas pernas ... (Pausa) com as pancadas que eu recebia entre perna e
   costa e tudo mais! Nao da gente! Cinco, seis homens tratam uma
   mulher na prisao dessa maneira, gravida! (Suely)


Sofia ressaltou, ainda, que alem das torturas psicologicas cometidas contra ela, os conflitos passados dentro da prisao em relacao a luta pela sobrevivencia dela e de seu filho causavam uma situacao de tensao, em que os proprios pensamentos a castigava, o que nos permite compreender que uma das funcoes da tortura cumpria seu papel, a sua internalizacao:
   O tempo todo era esse negocio ... [eu pensava]: 'ganhei um dia, ja
   que hoje eles tiveram um contratempo, ganhei um dia! E ... Quantos
   dias eu consigo ganhar? Nao sei quantos, mas eu vou morrer...'.
   Entao voce fica naquela: 'mas sera que meu filho vai ... que que
   ele vai achar dessa vida, ele nao vai ter mae ... como vai ser.'.
   Tudo roda na sua cabeca, tudo te tortura. E uma tortura o tempo
   todo. Quando voce nao esta sendo torturado, essas ideias estao te
   torturando. E ... e era um negocio assim, ne ... voce passa a nao
   ter[futuro] ... o seu futuro e o dia seguinte: 'sera que eu vou
   viver amanha?'. (Sofia)


Chaui (1987), ao nos fazer refletir sobre "a experiencia da tortura" (p. 32), aborda que a consequencia desta experiencia-limite e a destruicao do outro enquanto sujeito. Assim, o torturador passa a estabelecer com o torturado uma relacao intersubjetiva em que ele, enquanto agente, penetra sua acao no torturado. Dai os relatos trazerem sempre dimensoes de resistencia, na qual o esforco principal era manter-se lucido, pensante, articulando estrategias psicologicas. A resistencia "e encarada como esforco gigantesco para nao perder a lucidez, isto e, para nao permitir que o torturador penetre na alma, no espirito do torturado.... isto e, nao permitir que o torturador se aposse ... de sua subjetividade, de sua humanidade." (Chaui, 1987, p. 34).

Compreende-se, assim, que a condicao feminina de ser mulher e militante e a condicao materna, isto e, de estar gravida ou de ter tido um filho, foi uma das formas utilizadas pela repressao para torturar as mulheres e para faze-las se sentirem culpadas por serem comunistas e estarem gravidas, sinalizando o aspecto de que nao seriam "boas maes" por fugirem do modelo de mae e mulher da epoca. Moralmente eram desvalorizadas por estarem gravidas e nao serem oficialmente casadas, consideradas, desta forma, mulheres de conduta imoral. "Para a repressao, a mulher militante sera definida sempre como 'puta comunista'" (Colling, 1997, p. 84).

Coimbra (2004), ao tratar a relacao entre genero e tortura, partindo do relato de sua propria experiencia, revela e analisa o quanto a tortura perpetrada contra a mulher era severamente e especialmente machista: "Inicialmente sao os xingamentos, as palavras ofensivas e de baixo calao ditas agressiva e violentamente como forma de anular a pessoa, o ser humano, a mulher, a companheira e mae" (p. 54), revelando uma dimensao de violencia voltada contra o lugar social da mulher. Sem duvida alguma, os relatos apresentados despontam a misoginia perpetrada pelos homens, e nao so pelos agentes torturadores. Esta dimensao pode ser percebida no que foi contado por Mariana ao dizer que o torturador, observando as cicatrizes recentes da cirurgia pos-parto, tomou tal aspecto como ponto para humilha-la e desmoraliza-la em sua condicao de mae e mulher, dizendo, sarcasticamente, que estava diante de uma autentica "puta--que--pariu". Tendo em vista a resistencia de Mariana, frente as torturas fisicas, sexuais e psicologicas, eles utilizaram da condicao materna, especificamente a ameaca de tortura da filha, como estrategia para faze-la sucumbir.
   Era uma coisa, terrivel! Eles me diziam: 'nao vamos matar ela nao!
   E nem voce ... Nos vamos quebrar todos os ossinhos dela, vamos
   derreter, ou torrar os miolos dela, e ela vai virar um monstrinho!
   E ai sabe o que nos vamos fazer? Nos vamos botar ela no seu braco
   pra voce passar o resto da vida sabendo, que voce e a culpada dela
   ter ficado desse jeito pelo fato de voce ser uma mae comunista,
   desnaturada, que a culpa e sua!'. Entao era, e um negocio
   terrivel!". (Mariana)


O uso da condicao feminina para torturar tem, segundo Colling (1997), a funcao de mostrar como essas mulheres eram desviantes do modelo, duplamente transgressoras (Goldenberg, 1997), porque estavam ocupando um lugar que nao era proprio para elas--o mundo da politica--e enfrentando e resistindo ao regime opressor (Ferreira, 1996; Colling, 1997; Goldenberg, 1997). Sofia, que ficou presa no DOI-CODI de Brasilia, sendo a unica mulher naquele periodo no presidio, refletiu sobre como se sentia em relacao aos militares, e como eles se comportavam em relacao a ela:
   Eu era do exercito inimigo, vamos dizer, entao eu era um soldado
   como eles, ta certo?!. E quando eles me viam como igual, ou como
   mulher gravida, eu acho que eles se sentiam assim, bem diminuidos,
   porque eles tinham tanto odio, mais tanto odio! A fala era de odio,
   sabe?! Alias, o que eles tinham, assim, de odio de mulher era um
   negocio impressionante! (Sofia)


Goldenberg (1997) pontua que "... o fato de ser mulher acirrava nos torturadores uma raiva maior [o que despertava] reacao de asco em seus torturadores [alem] das acusacoes de desvio a que eram submetidas" (p. 362).

Se o fato de serem mulheres e estarem naquele contexto ja as destoava do modelo esperado, colocando-as como "mulher desviante" (Collling, 1997, p. 80), a condicao de maternidade ainda lhes impunha uma desaprovacao maior. O exemplo de uma fala de Suely nos permite pensar como essa disparidade entre o modelo de ser mulher/militante e mae estava colocado. Suely estava passando por muitos conflitos na prisao e isto se intensificou quando foi informada sobre a morte de seu irmao militante, precisando, assim, ser atendida por um medico:
   O medico, me tirou a pressao, nao sei o que ... e disse pra mim
   (pausa breve): 'porque que a senhora foi se enfiar nessa? ...
   Gravida de uma crianca foi se enfiar nessa?!' Como se fosse dizendo
   pra mim: 'A senhora e uma irresponsavel, a senhora foi fazer
   militancia, pra depois se enfiar numa dessas. (Suely)


Por elas serem consideradas duplamente transgressoras, os agentes da repressao, e ate mesmo os medicos militares, consideravam que o nascimento ou a sobrevivencia do filho daquelas mulheres--especificamente os filhos de Sofia e Suely, que estavam gravidas, prestes a dar a luz, e de Mariana, que havia tido uma crianca--nao valia a pena, porque nasceriam novos comunistas. A partir da analise dos relatos, parece que a gravidez era percebida como uma ameaca para eles, pelo dever que tinham de exterminar os comunistas e o comunismo.

Sofia permaneceu 27 horas em trabalho de parto, tendo sido levada duas vezes ao hospital do exercito, onde os medicos se negaram a atender uma comunista e a fazer seu parto. Passou por experiencias ambiguas ao pensar que ela e o filho poderiam morrer, mas tambem pelo fortalecimento em seu desejo de ter aquela crianca:
   esse era um medico torturador ... eu falei assim: "mas meu filho
   nao vai sobreviver", ele falou assim: "ah, nao tem importancia e um
   comunista a menos!".... Ai [veio] essa questao de novo, a
   contradicao.... Ai eu fazia forca pra ele nascer e tinha aquele
   negocio [eu pensava]: "nao vai ser um comunista a menos, vai
   nascer! O que vai ser nao importa, mas vai nascer ..." (Sofia)


Durante o demorado trabalho de parto na prisao, a bolsa de liquido amniotico de Sofia, rompeu-se ainda dentro da cela "La tinha milhares de baratas, entao elas ficaram assanhadissimas com o liquido [amniotico], elas subiam na minha perna, querendo entrar na minha xoxota [vagina]". Depois de muito hesitarem em fazer o parto, realizado no Hospital de Guarnicao do Exercito de Brasilia, ela teve um parto de tipo normal, num ambiente totalmente carregado de tensoes, em um quarto cercado de militares: "ficava la o carinha com metralhadora". Como tinha formacao incompleta na area da enfermagem, Sofia percebeu que durante e apos o parto sofreu dores que, com o procedimento anestesico, poderiam ser poupadas; mas, novamente outras contradicoes apareciam para ela, por acreditar que ao ser sedada poderiam levar seu filho:
   ... ele fez a sutura da episiotomia, todinha sem nenhuma anestesia
   local. Eu sentia a agulha entrando na minha vagina (ashsss), assim
   ... sabe?! Ponto por ponto, ai eu comecei a chocar de dor. A entrar
   em estado de choque. Comecei a tremer, tremer, tremer, a pressao a
   cair.


Suely, tambem presa e levada para um hospital militar, esteve em um ambiente totalmente ameacador; no seu quarto havia militares durante todo o tempo. Ela teve um parto do tipo cesariana, "Eu nao consegui ter dilatacao. Eu tive contracao de parto, por quase vinte quatro horas, mas nao conseguia ter ..." Para ela, nao ter tido um parto normal foi sua salvacao, pois o que mais nos aparece nesses relatos e o medo que essas mulheres tinham de seus filhos nao sobreviverem, ou de serem apartadas deles e nao os terem em seus bracos:
   ... minha propria natureza, me impediu que eu estivesse um parto
   normal. Entao cesarea era como se fosse uma garantia a mais....
   Porque se eu tivesse tido no parto normal, eu imediatamente poderia
   ter sido separada dela. Rapidamente, eu poderia ter sido separada
   dela. O meu medo, o medo que eu vivi dentro daquele hospital, foi o
   medo de me separar dela. Naquele momento, eu me dei conta que
   eu.... corria risco com ela. Que ela corria risco, entendeu?! Entao
   eu tinha um medo que essa menina nascesse. Eu fiz uns ... uns dez
   dias, mais ou menos, de greve de fome la dentro, nao comia
   absolutamente nada, eu nao tocava em nada. Eu tinha medo que eles
   me dessem alguma coisa para abortar. Eu tinha algum medo que ...
   entendeu?! Para antecipar o parto, entendeu? Pra me tirar a crianca
   ... (Suely)


Notamos que a experiencia do nascimento dos filhos e rica em elementos de memoria que sao comuns entre as entrevistadas, seja por dados objetivos ou pela mobilizacao de sentimentos comuns. Mariana tambem passou por momentos ambiguos na prisao em relacao ao que os torturadores poderiam fazer com sua filha. O que mais lhe afetou psicologicamente, fazendo-a pensar que iria enlouquecer, eram as constantes ameacas de sequestro e tortura de sua filha de tres meses:
   Eles ficavam me descrevendo, dizendo que eles tavam revistando a
   casa de todas as minhas colegas do servico social, e que eles iam
   pegar minha menina. Ficavam me descrevendo as torturas que iam
   fazer com ela. Era um negocio terrivel! Nossa senhora! Aquilo pra
   mim era muito mais pesado do que todas as torturas fisicas, do que
   pau de arara, do que choque eletrico, do que estupro, do que tudo
   isso.... Era eles ficarem descrevendo o que iam fazer, com minha
   filha na minha frente. (Mariana)


Tais caracteristicas nao eram exclusivas do regime de excecao brasileiro, visto que, segundo Lozano (2007), nas ditaduras dos anos de 1970, na Argentina, o desaparecimento de criancas, filhas de militantes presos, se tornou uma das principais frentes de luta feminina contra o regime opressor do pais: as "abuelas de Plaza de Mayo", um movimento formado por avos que contestavam o desaparecimento de criancas, praticado por meio do aparelho repressivo argentino. Lozano (2007) relata que os desaparecimentos aconteciam principalmente apos o parto, sendo uma pratica frequente engendrada pelos agentes da ditadura: "Las mujeres parieron en centros clandestinos de represion recibiendo una atencion medica minima y sus hijos le fueron arrebatados inmediatamente despues del parto" (p. 77). Embora esta seja uma acao com poucos registros conhecidos ou revelados no Brasil, e que, portanto, nao compoem a memoria historica do periodo, as entrevistadas, Mariana e Sofia, relataram memorias pessoais e comuns sobre as ameacas de alguns militares. Sofia se sentiu ameacada por um oficial militar que, ao conduzi-la para o parto, enfatizou que se nascesse "um menino, branco e saudavel" ele o levaria para sua esposa.

Tambem notamos memorias comuns sobre a ausencia de acompanhamento pre-natal (duas em situacao de clandestinidade--Mariana e Silvia / e duas em situacao de prisao--Sofia e Suely). No momento do parto tiveram que vivenciar solitariamente a dor fisica e psicologica, com a pressao do ambiente e o temor de que algo acontecesse aos seus filhos. Suely, por exemplo, reconhecendo que a situacao de prisao a impediu de ter uma gravidez como de outras mulheres, ironizou a situacao: "Meu pre-natal foi na Operacao Bandeirantes (10)."

Segundo Scavone (2004), os fatores biologicos da gravidez estao atrelados aos significados sociais. Neste sentido identificamos, por meio dos relatos, que o preparo pre e pos-parto tem importancia psicologica e subjetiva para a mae e e culturalmente valorizado em nossa sociedade, significando atitudes de cuidados, dedicacao e responsabilidade por parte da mae. Sao praticas as quais essas mulheres nao puderam se dedicar devido ao contexto de clandestinidade e tambem apos o nascimento dos filhos por terem sido apartadas destes, como no caso de Sofia e Silvia.

Como ja dissemos, a busca por uma consulta medica, ou o acesso a um hospital era avaliado como uma acao de risco, pois precisariam fazer fichas, apresentar documentos, e se expor em diferentes espacos publicos. Para as mulheres vivendo na clandestinidade, a procura por um profissional de saude ou por um hospital, poderia ser uma forma de entrega de si mesmas para a prisao, colocando em risco a vida de seus companheiros de militancia, o que nao as isentava da preocupacao continua sobre o bem-estar de seus bebes.

Tais aspectos foram enfatizados tambem por Gianordoli-Nascimento et al. (2012), quando uma das mulheres por elas entrevistadas relatou a importancia e a responsabilidade que sentia, durante e apos a prisao, sobre os possiveis impactos negativos no desenvolvimento do seu bebe, devido a sua gestacao na prisao. A preocupacao em realizar o pre-natal foi um suporte instrumental de grande relevancia emocional para essa mulher, significando para ela a seguranca de que estava sendo uma boa mae e a sensacao de compensacao pelo sofrimento que, como ela acredita, ambos viveram. Nesse sentido, a maternidade pos-soltura representou seu plano de vida e a motivacao para retomar seus projetos pessoais de formacao e carreira, pois devia continuar vivendo por esse filho e precisava fazer isso sozinha. Dimensoes estas tambem presentes na experiencia das mulheres do nosso estudo.

Macedo, Progianti, Vargens, Santos e Silva (2005), a partir de uma abordagem humanizada de parto, ressaltam que estudos apontam para a importancia de um ambiente equilibrado para os momentos que antecedem ao parto, ja que o ambiente hospitalar em si, a saida do ambiente cotidiano, a falta de familiares, alem do peso da construcao sociocultural sobre a dor, influencia nao apenas na percepcao das mulheres em relacao ao incomodo sentido durante o parto, mas na propria dificuldade que esses aspectos causam a parturiente e ao bebe. "O relaxamento, a confianca, o repouso, a liberdade de se movimentar, o contato com pessoa amiga, o fato de estar ativa, descansada e alimentada, em ambiente acolhedor, confortavel e o mais silencioso possivel diminuem a percepcao da dor. " (Macedo et al., 2005, p. 307).

Estas recomendacoes, embora estejam ligadas ao desenvolvimento de estudos recentes sobre o parto humanizado e a influencia do ambiente na percepcao da dor de mulheres durante o trabalho de parto, nos ajudam a compreender o quanto a situacao de prisao, alem de todas as suas nuances ligadas a tortura, isolamento e ma alimentacao, tambem influenciaram de forma negativa o momento do parto das militantes.

Outro fator ressaltado pela literatura de cunho medico e a importancia do aleitamento materno, nao apenas nas primeiras horas de vida, onde e essencial para a prevencao de doencas e para fortalecer o contato da mae com o bebe, mas nos momentos posteriores da vida da crianca (Boccoline, Carvalho, Oliveira & Vasconcellos, 2011). Sofia contou que, ao pedir para ver o filho, foi repreendida pelo medico que disse estar ocupado com o procedimento cirurgico:

"Ele nasceu as duas da manha, foram me mostrar de tarde. Falaram assim: 'nao pode amamentar nao, porque e vinte e quatro horas em jejum, ele esta tomando soro... soro e muito bom! ... nao deixaram eu amamentar..."

Sofia e o filho permaneceram no hospital por 52 dias, onde o filho era alimentado a base de soro, alem de ter sido sedado com tranquilizantes porque chorava muito:
   Meu filho nesses cinquenta e dois dias passou por isso tudo! Muita
   tortura, em muito pouco tempo em uma crianca muito pequena!.... Meu
   filho com um mes estava pesando dois quilos e setecentas, meu filho
   nasceu com tres quilos cento e cinquenta!.... (Sofia)


Suely e Silvia tambem relataram a impossibilidade de amamentarem seus bebes. Silvia, ao ir para o exilio, deixou a filha de dois meses de idade no Brasil, sem te-la registrado, entrando em profunda depressao, inicialmente por nao suportar viver afastada de seu bebe, e, posteriormente, pelo nao reconhecimento e exercicio da maternidade, chegando a ser internada em clinica psiquiatrica e a tentar suicidio em mais de uma ocasiao.

Nestas condicoes, as redes de solidariedade se fizeram importantes antes, durante, e depois da prisao, ja que essas mulheres, distantes de seus familiares, precisaram do suporte de seus amigos militantes e de outras pessoas que se arriscavam ao se disponibilizarem para ajudar. Almeida e Weis (1997) ressaltam que, nas situacoes de clandestinidade e prisao, "... as minimas manifestacoes de solidariedade tinham enorme significado para quem recebia" (p. 392), e nestas situacoes de solidao, a relacao com um outro que reconhece pontos de identificacoes enquanto ser humano (Souza, 2004) tem suma importancia no sentido de tornar uma experiencia de medo, abandono e terror, em algo minimamente suportavel.

No momento anterior ao parto, ainda no periodo de gestacao, Silvia e Mariana, por exemplo, precisaram contar com o apoio de seus companheiros de militancia, pois nunca haviam feito uma consulta medica e estavam prestes a ganhar seus filhos. Ate hoje elas se referem de forma agradecida e sensibilizada, a arriscada solidariedade de medicos e /ou profissionais da saude, parceiros ou conhecidos pessoais de militantes das organizacoes politicas clandestinas, que as auxiliaram na realizacao do parto em condicoes precarias e de risco, dando suporte para que suas criancas pudessem nascer amparadas por um aparato medico e de saude, o que garantiu a protecao e sobrevivencia, delas e de seus filhos.

Mariana e Suely recordam-se de forma comum de terem recebido ajuda de outras mulheres militantes que doaram enxovais para suas criancas: "[Os companheiros do partido foram] ... procurar companheiras que tivessem tido, nenem, colegas, ex-colegas minhas, pra pedir roupinha de crianca" (Mariana). Suely, mesmo na prisao, experimentou a solidariedade de suas amigas militantes que lhe enviaram, de um presidio no Rio de Janeiro, um enxoval:
   [o bebe] nao tinha enxoval. Depois chegou um enxoval do Rio de
   Janeiro, dado por uma mae de uma companheira que estava presa,
   mandou para o presidio Tiradentes, do presidio Tiradentes foi dado
   para mim. Que era o enxoval para 'essa crianca' que ia nascer, que
   todo mundo sabia que nao tinha roupa, que tava pelada. (Suely)


Ja Sofia, que nao se permitia dormir com medo de que seu filho fosse sequestrado, recebeu a solidariedade de um soldado que fazia a vigilia em seu quarto, se oferecendo para vigiar seu bebe enquanto ela dormia. Esta atitude significou um carater humanizante naquela conjuntura ameacadora, o que de certa forma "... amenizava um pouco a tremenda sensacao de terror, solidao e desamparo" (Almeida & Weis, 1997, p. 392). "Ali tinham tipos humanos diferentes. " (Sofia).

Com base no trabalho realizado por Bonomo, Trindade, Souza e Coutinho (2008), podemos observar que as acoes de solidariedade entre mulheres, principalmente em relacao a gravidez, as aproximam no que se refere a sua identidade genero. E como se elas pudessem compartilhar e compreender sua condicao feminina, por serem mulheres, o que, de certa forma, se liga tambem a ideia do mito do amor materno (Badinter, 1985), no aspecto instintivo.

Estes lacos de solidariedade sao marcas das memorias pessoais e comuns relatadas pelas militantes. Alem disso, tais lacos tambem eram notados no contexto externo a militancia, seja pelo auxilio de vizinhos ou pelo suporte dado por familiares, como, por exemplo, durante a infancia das criancas, quando as militantes e seus companheiros afetivos precisavam se ausentar para atividades politicas ou de trabalho remunerado:
   Tinha sempre vizinhas que a gente tratava pra ficar com as meninas
   quando a gente saia. Um povo muito legal, muito bom, muito
   solidario. A gente falava que era pra trabalhar. Entao, muitas
   vezes era, mas muitas vezes era para o trabalho clandestino
   politico ... Elas foram criadas sempre com gente boa cuidando
   delas, ne? Eu tive muita sorte! (Mariana)


As maes das militantes tambem tiveram papel fundamental no momento de pos-soltura, quando retomavam suas vidas conciliando maternidade e trabalho: "Ai eu fui pra casa dos meus pais (...) fui morar la com as criancas, entao eu dividia a tarefa com aminha mae, eu assumia uma parte e ela dividia comigo o cuidado das criancas ..." (Sofia). Alem do proprio filho, Sofia ainda cuidava de seus dois sobrinhos, pois sua irma e cunhado estavam presos. Suely, por exemplo, teve o apoio e suporte da mae durante os longos anos de exilio.

Mariana, como gesto de gratidao por tudo que os parentes haviam feito para a primeira filha e por ela propria, ao escolher o nome de sua segunda filha, os homenageou: "Eu decidi que, se fosse menino, ia [ter o nome do meu cunhado] e se fosse menina ia [ter o nome da minha irma]. E independente do significado reais dos nomes, significaria "muito obrigada por terem salvado a [Maria]".

A escolha do nome como forma de homenagem foi elemento que se repetiu nas memorias relatadas pelas entrevistadas. Sofia conta que o proprio companheiro afetivo, ao saber da gravidez, escolheu o nome de um guerrilheiro que era companheiro de ambos, na guerrilha do Araguaia, e que havia morrido em uma acao. O nome da filha de Suely tambem foi uma homenagem ao pai da crianca, militante morto sob tortura antes de conhece-la. Silvia, em sua terceira gravidez, ja no exilio, homenageou seu medico obstetra: "Eu coloquei o nome nele de (...) porque era o nome do meu ginecologista-obstetra. Ele me dava uma seguranca! Eu tava muito grilada...e tinha a historia [da morte do segundo filho]... entao tinha todos aqueles traumas. " (Silvia)

Contar com o auxilio de outras pessoas que nem sempre eram militantes, mas se simpatizavam com a causa, inclusive medicos e ate mesmo soldados (Almeida & Weis, 1997), teve grande relevancia na vida dessas mulheres, que se recordam e se sentem imensamente gratas pela ajuda dessas pessoas:
   Eu sou vitoriosa e realizada pessoalmente, entendeu? Pela amizade,
   pela solidariedade, que eu descobri no povo do Brasil afora,
   entende?! Uma coisa incrivel! Desconhecidos! ... Que nos receberam
   em situacoes de solidariedade, e o que nos demos de solidariedade
   tambem, e uma coisa, eu falava: 'Gente, o povo e muito bom! O povo
   e muito sofrido, mas e muito bom! Este povo merece que a gente
   lute! (Mariana)


Podemos perceber, assim, que essas historias nao sao apenas de dores e dissabores. Silvia refletiu que se nao tivesse sido mae pela terceira vez, nao teria conseguido suportar todo o sofrimento relacionado a maternidade e militancia: "(...) eu tinha um sentimento de responsabilidade, chamemos assim, com respeito [ao meu terceiro filho]. Inclusive eu acho que se nao tivesse tido [ele], eu nao sei o que teria sido, porque ele me manteve conectada minimamente a vida. " (Silvia). O que a experiencia dessas mulheres nos permite compreender e que mesmo em um contexto de morte, puderam gerar vida:
   ... quando tava tendo meu filho eu falei assim, 'que coisa, ne?
   Aqui, nesse lugar de morte surge a vida!" E ninguem fica preso
   eternamente, meu filho tava no utero ... sabe?! Eu acho que a hora
   que a gente sai do utero, a gente fala 'liberdade!' E voce quer
   andar, voce quer ver, voce quer a liberdade ... Eu acho que a
   liberdade e o sentimento do ser vivo! A vida exige liberdade.
   (Sofia)


De forma comum, a memoria que se pode depreender dos relatos orais fornecidos apresenta a experiencia da maternidade como fenomeno que fortaleceu estas militantes no que se refere ao desejo de viver para lutar hoje, nao apenas pelo pais, mas em prol de seus filhos que sobreviveram, bem como de tantos outros filhos e maes que nao puderam, junto com elas, contar suas historias. Fato que se anuncia quando estas rompem com o silencio, registrando atraves das memorias autobiograficas elementos ainda ineditos para a memoria historica do periodo.

Consideracoes finais

Ao entrar e participar ativamente no mundo da politica, as mulheres militantes romperam com a limitacao da atuacao feminina apenas no espaco privado. Numa atmosfera de abertura desses espacos, modificaram tambem as concepcoes de conjugalidade e maternidade assumindo novos modelos de ser mulher e mae. Contudo, entendemos que, apesar de mudancas, houve tambem continuidades em certos aspectos no que tange ao seguimento de valores tradicionais, ja que, antigos e novos elementos coexistem e mantem relacoes entre si nas representacoes do ser mulher. Entender que essas transformacoes influenciaram as concepcoes e a possibilidade da ocupacao das mulheres em diferentes espacos sociais foi sobremodo relevante, nos fazendo sentir herdeiras dessa historia, percebendo que so e possivel compreendermos o presente em relacao ao passado.

Nos relatos das mulheres militantes, chama-nos a atencao a recorrencia de elementos acerca das representacoes de comunista e de torturador. Tais palavras remetem ao pressuposto da comunicacao como algo que impede a classificacao das memorias como individuais. As militantes compartilham representacoes que se organizam na construcao da memoria, conforme salienta Vazquez (2001) "los discursos que creamos y las palavras que utilizamos generan realidades de las que, en ocasiones, nos resulta muy dificil desprendermos (...) nuestras palavras se incrustam en nuestras practicas de vida. " (p. 89).

Ainda em relacao a tortura em estudo sobre a memoria historica da ditadura militar, Sa, Oliveira, Castro e Moller (2009) revelam que este elemento e constituinte nas representacoes sobre o periodo, no que tange as evocacoes acionadas por pessoas adultas (que durante o regime tinham entre 15 e 21 anos), justamente a faixa etaria de nossas entrevistadas. No entanto, entre aqueles das amostras de jovens (nascidos apos o fim do regime) e idosos (possuiam mais de 24 anos durante o regime), nao apresentam o termo tortura como elemento central em suas representacoes. Neste sentido, os autores pontuam que "O sistema central da representacao dos adultos, que viveram o Regime Militar, quando eram jovens, e conciso, critico e acusador--'ditadura', 'mortes' e 'tortura'" (p. 254). Sao elementos que nao se apresentam nas representacoes de jovens e idosos, sendo "ainda mais negativa pelos jovens, embora talvez equivocada, e de forma bem menos rigorosa em idosos" (p. 255). Tais argumentos reforcam ainda mais a contribuicao que as memorias autobiograficas destas mulheres podem fornecer para a construcao da memoria historica do periodo, tendo em vista que as experiencias narradas, nao encontram muitas outras formas de registro e mobilizacao.

Desta maneira, entendemos que este estudo nao encerra e nem esgota o tema aqui abordado, tendo em vista que estas sao experiencias tao desconhecidas e profundas em seu significado. Mais do que discutir o sentido das realidades vividas, desnudam-se sentimentos, tensoes e falas que revelam aspectos da vida pouco compartilhados, mas que permeiam a historia do nosso pais. Compreender essas experiencias neste contexto de transformacoes torna-se tambem uma contribuicao para o campo de estudos entorno dos aspectos psicossociais da memoria, ao possibilitar, por meio dessas versoes, a construcao de uma memoria historica do periodo (Sa, 2007, 2009, 2013).

doi: 10.12957/psi.saber.soc.2015.10977

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Apresentacao: 15/05/2014

Aprovacao: 20/05/2015

Jaiza Pollyanna Dias da Cruz (1)

Ingrid Faria Gianordoli-Nascimento (2)

Flaviane da Costa Oliveira (3)

Thayna Larissa Aguilar dos Santos (4)

Barbara Goncalves Mendes (5)

Janaina Campos de Freitas (6)

Debora Barbosa dos Reis (7)

(1) Mestre em Psicologia pelo Programa de Pos-Graduacao em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais--Belo Horizonte, Brasil. E-mail: jaizacruzz@gmail.com.

(2) Doutora em Psicologia; Coordenadora do Programa de Pos-Graduacao em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais e docente do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais--Belo Horizonte, Brasil.

(3) Mestre em Psicologia pelo Programa de Pos-Graduacao em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais--Belo Horizonte, Brasil.

(4) Graduanda do curso de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais; Bolsista de iniciacao cientifica da Fundacao de Amparo a Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG)--Belo Horizonte, Brasil.

(5) Mestranda em Psicologia pelo Programa de Pos-Graduacao em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais--Belo Horizonte, Brasil.

(6) Mestranda em Psicologia pelo Programa de Pos-Graduacao em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais--Belo Horizonte, Brasil.

(7) Graduanda do curso de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais--Belo Horizonte, Brasil.

(8) Almeida e Weis (1997) propoem uma divisao didatica para as mudancas que caracterizam o periodo ditatorial brasileiro: do AI ao AI-5 (1964-1968); do AI-5 ao inicio da abertura (1969-1974); a longa transicao rumo ao governo civil (1975-1984).

(9) As organizacoes politicas de militancia, bem como os locais de prisao foram citadas por meio de siglas a fim de se adequar as tabelas 1 e 2, seguem em ordem citada: Acao Popular (AP); Partido Comunista do Brasil (PCdoB); Partido do Movimento Democratico Brasileiro (PMDB); Partido Comunista Brasileiro (PCB); Partido Comunista Brasileiro Revolucionario (PCBR); Movimento Nacionalista Revolucionario (MNR); Vanguarda Popular Revolucionaria (VPR); Rede Democratica (REDE); Acao Libertadora Nacional (ANL). Locais de prisao: Departamento de Ordem Politica e Social (DOPS) de Belo Horizonte (BH); Operacao

(10) Segundo Joffily (2013), a Operacao Bandeirante (OBAN) era composta pelas tres instancias das Forcas Armadas: Exercito, Marinha e Aeronautica. Sua principal acao era "identificar, localizar e capturar" (p.42) militantes politicos, os considerados "subversivos", a fim de obterem informacoes sobre as organizacoes e acoes dos grupos de esquerda durante longos interrogatorios e sessoes de tortura.
Tabela 1--Caracterizacao de aspectos politicos das entrevistadas.

                  Dados de          Idade de
Nome             Nascimento        Entrada na    Organizacao
Ficticio                           militancia   de Militancia
             Ano       Local       organizada

Mariana      1944    Interior--     20 anos       AP/PCdoB/
                         MG                         PMDB

Silvia       1945   Interior--ES    16 anos       PCB/PCBR

Sofia        1946   Interior--SP    15 anos       PCB/PCdoB

Suely        1949   Capital--RS     16 anos       MNR/VPR/
                                                  REDE/ALN

Nome          Duracao                      Prisao
Ficticio         da
             Militancia      Ano            Local           Tempo

Mariana      1964-1980      1969           DOPS/BH         1 ano e
                                        Penitenciaria      3 meses
                                      Feminina em Juiz
                                         de Fora/MG

Silvia       1961-1973      1972      Presidio Comum no    1--24hs
                                           Uruguai        2--7 dias

Sofia        1961-1979      1972          OBAN/SP,         5 meses
                                        DOI-CODI/DF,
                                         Hospital de
                                        Guarnicao do
                                          Exercito
                                         de Brasilia

Suely        1965-1973      1972      DOPS/SP, OBAN/SP,    3 meses
                                         Hospital do
                                       Exercito em SP.

Bandeirantes (OBAN) em Sao Paulo (SP); Destacamento de Operacoes de
Informacoes--Centro de Operacoes de Defesa Interna (DOI-CODI).

Tabela 2--Caracterizacao das entrevistadas conforme a situacao de
gravidez/parto.

  Nome      Idade na 1a     Ano      No total       Situacao de
Ficticio     gravidez      da 1a     de Filhos    militancia na(s)
                          gravidez                  gravidez(es)

Mariana       24 anos       1968        02       1 Clandestinidade

                                                  2 Pos-Soltura /
                                                  Clandestinidade

Silvia        23 anos       1968        03       1 Clandestinidade
                                         +
                                        (01
                                      aborto)        2 Exilio /
                                                  Clandestinidade

                                                   3 Pos-Soltura

                                                    4 Pos-Exilio

Sofia         26 anos       1972        01       Clandestinidade na
                                                  Guerrilha Rural

Suely         23 anos       1970        01       Clandestinidade na
                                                  Guerrilha Urbana

  Nome       Tipo de        Situacao de      Aborto
Ficticio     Parto(s)    militancia no(s)
                             parto(s)

Mariana       Normal     1 Clandestinidade    Nao

              Normal      2 Pos-Soltura /
                          Clandestinidade

Silvia       1 Normal    1 Clandestinidade    Sim/
            c/ Forceps                        1980

                2           2 Exilio /
            Cesariana     Clandestinidade

                3          3 Pos-Soltura
            Cesariana

             4 Aborto      4 Pos-Exilio

Sofia         Normal           Presa          Nao

Suely       Cesariana          Presa          Nao
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Author:da Cruz, Jaiza Pollyanna Dias da; Gianordoli-Nascimento, Ingrid Faria; Oliveira, Flaviane da Costa;
Publication:Psicologia e Saber Social
Date:Jan 1, 2015
Words:13205
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