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Coxiella burnetii and Q fever in Brazil: a public health issue/Coxiella burnetii e a febre Q no Brasil, uma questao de saude publica.

Introducao

A bacteria Coxiella burnetii e o agente etiologico da doenca conhecida como Febre Q, uma zoonose de distribuicao mundial. Geralmente a infeccao apresenta quadros leves, com simples manifestacoes febris, apenas em alguns casos evolui com manifestacoes clinicas graves (1,2).

Ha poucos relatos da doenca no Brasil, onde a notificacao dos casos em animais ou humanos nao e compulsoria. Em razao da sintomatologia nao ser especifica, o diagnostico clinico e dificultado, nao havendo um protocolo que defina orientacoes aos profissionais medicos e veterinarios sobre as manifestacoes clinicas da infeccao, tratamento e condutas a serem adotadas (2).

Na Europa e Oceania, especialmente na Australia onde foi descrita pela primeira vez, a doenca e bastante comum e de notificacao compulsoria. Apesar disso alguns autores a consideram subnotificada, tanto em animais como em humanos, em decorrencia das dificuldades encontradas em se realizar o diagnostico (2-5).

Nesse contexto esta revisao tem o objetivo de esclarecer alguns aspectos relacionados a zoonose, principais sintomas, metodos de diagnostico e tratamento, assim como possiveis complicacoes associadas a evolucao da doenca. Este conjunto de informacoes tem a finalidade de orientar profissionais da saude, estudantes, medicos veterinarios e a populacao em geral, especialmente o trabalhador rural que lida diretamente com a producao animal e seus subprodutos, fonte primaria da infeccao.

Materiais e metodos

Foi realizada uma revisao sistematica da literatura com o objetivo de levantar dados sobre a ocorrencia da febre Q no Brasil, bem como identificar as caracteristicas basicas do agente causador e da doenca. Sendo assim, a revisao foi elaborada por meio do levantamento de publicacoes disponiveis nas bases de dados Scielo, Pubmed e Science Direct, utilizando os descritores: Q fever; Coxiela burnetii; Endocarditis.

Historico

A febre Q foi descrita inicialmente na Australia em 1935, quando Edward Holbrook Derrick foi convidado a investigar uma doenca em um grupo de trabalhadores de um matadouro. Por desconhece-la, passou a denomina-la Query Fever. Ja em 1937, os pesquisadores Frank Macfarlane Burnet e Mavis Freeman classificaram o microrganismo causador da doenca como pertencente ao genero Rickettsia, passando a denomina-lo Rickettsia burnetii (2,3,6).

Enquanto isso em Montana, nos Estados Unidos, um grupo de pesquisadores liderados por Herald R. Cox, tambem desenvolvia trabalhos com um microrganismo desconhecido (inicialmente chamado agente Nine Mile). Somente mais tarde foi possivel perceber que se tratava do mesmo microrganismo estudado por Burnet e Freeman. Em 1948, apos identificacao molecular, a bacteria foi descrita como pertencente ao genero Coxiella. Assim, em homenagem aos dois grupos de pesquisadores recebeu o nome de Coxiella burnetii (2,3,6).

Apos esse periodo de reconhecimento e classificacao do agente etiologico varios paises vem notificando casos em animais e humanos, dentre eles a Holanda. Este pais registrou 4.000 casos em humanos no periodo de 2007 a 2010, somente em 2009 foram 2.361 casos com 6 mortes, ate entao a maior epidemia registrada na Europa. No ano de 2008, os EUA confirmaram 132 casos (117 casos de doenca aguda e 15 cronicos). No entanto, em ambos os paises a notificacao e compulsoria (7-10).

No ano de 2006, durante a reuniao anual da American Veterinary Association, em Honolulu, Hawaii, um estudo investigou 508 veterinarios que participavam da reuniao. Os participantes selecionados atendiam a criterios de risco ocupacional associado ao contato com a bacteria, tais como: idade superior a 46 anos, contato com gado bovino, suinos ou animais selvagens. Os resultados dos testes indicaram sorologia positiva para C. burnetii em 133 (26,2%) dos profissionais (5).

O Brasil apresentou o primeiro relato em 1953 (11). Desde entao, as publicacoes sobre a doenca sao escassas. Um dos primeiros estudos sobre a febre Q no Brasil foi elaborado por Ribeiro-Netto et al. (12), os autores analisaram o soro de 200 ordenhadores e tratadores de rebanhos bovinos do Vale do Paraiba, no Estado de Sao Paulo, desse total 17 amostras foram positivas.

Lemos et al. (1) desenvolveram um estudo que identificou a primeira prova molecular da bacteria no Brasil. Os pesquisadores utilizaram a tecnica de Reacao em Cadeia de Polimerase (PCR) para confirmar a infeccao em um homem de 47 anos, com relato de contato previo com cabras e produto de aborto de animais.

No Quadro 1 e apresentado um breve historico das pesquisas publicadas sobre a circulacao da doenca no pais. E importante que os dados sejam vistos como um alerta as autoridades sanitarias sobre a ocorrencia da doenca no Brasil.

Analisando a tabela podemos observar que os primeiros dados sobre a febre Q no pais sao da decada de 50, depois ha um lapso de tempo, em torno de 10 anos, entre as publicacoes na decada de 70. Apos um longo periodo, em torno de tres decadas, a partir do ano de 2005, as notificacoes tornam-se mais frequentes, porem, vale ressaltar que a confirmacao da doenca no pais, por metodos moleculares, so foi possivel no ano de 2011. Grande parte desses trabalhos foi concebido por meio dos esforcos de um grupo de pesquisadores do Laboratorio de Hantaviroses e Ricketisoses da Fundacao Osvaldo Cruz (Fiocruz).

Agente etiologico

Pelo fato do metabolismo ser exclusivamente intracelular, Coxiella burnetii foi anteriormente classificada no genero Rickettsia. Hoje se sabe, baseado em investigacoes filogeneticas do RNAr 16S, que essa bacteria pertence a ordem das Legionellales, grupo gama das Proteobacterias. Trata-se de um cocobacilo gram-negativo, intracelular obrigatorio e de alta resistencia (18,21).

O microrganismo apresenta alta resistencia ao calor, podendo suportar ate 30 minutos sob temperatura de 60[degrees]C. Em funcao dessa caracteristica, o metodo de pasteurizacao tradicional do leite sofreu alteracoes por nao atender aos padroes de seguranca alimentar. Durante a pasteurizacao rapida a temperatura do leite cru e mantida a 72[degrees]C, por um periodo de 15 segundos. Este metodo e considerado mais eficaz na destruicao do microrganismo e aceito pelas autoridades sanitarias (22).

Apos a invasao do organismo do hospedeiro, por meio das vias aereas, os alvos preferenciais da infeccao sao os macrofagos alveolares e as celulas de Kupffer presentes no figado. Por meio da fagocitose a bacteria e endocitada pelos macrofagos, formando um vacuolo parasitoforo (VP). No interior dessa estrutura, o microrganismo consegue retardar o processo de defesa do organismo, impedindo a ligacao inicial dos lisossomos ao VP por aproximadamente 2 horas. Apos esse periodo ocorre fusao das vesiculas lisossomicas a membrana do VP, tornando o ambiente acidificado pelos lisossomos, condicao propicia a multiplicacao da bacteria, que resiste a acidez e acao das enzimas no VP e se reproduz por divisao binaria (2,23,24).

Diferentemente de outros microrganismos intracelulares, uma importante caracteristica fisiologica da C. burnetii esta no fato da alteracao do pH do meio nao ser necessaria para inicio de sua replicacao. No entanto, o pH acido favorece o processo de assimilacao de nutrientes essenciais ao seu metabolismo, o que constitui consideravel obstaculo ao tratamento da infeccao. A maioria dos farmacos utilizados tem sua eficacia diminuida no ambiente acido dos vacuolos fagolisossomicos, produzindo apenas uma acao bacterios tatica (2,23,25).

No hospedeiro, a bacteria pode infectar varios tipos celulares: macrofagos, monocitos, fibroblastos e celulas epiteliais. Apos a infeccao, o desenvolvimento da bacteria pode ocorrer de duas formas: uma metabolicamente inativa e outra ativa.

A metabolicamente inativa e denominada Small-Cell Variant (SCV). E compacta, altamente resistente e permanece viavel por mais tempo no ambiente extracelular. A metabolicamente ativa e denominada Large-Cell Variant (LCV), e intracelular, maior e menos densa. Por meio de um processo de diferenciacao esporogenica (semelhante a esporulacao), a forma LCV pode converter-se na forma inativa SCV. A ruptura da celula hospedeira infectada libera a forma SCV, que pode ser dispersa no ambiente por meio de urina, fezes, leite e restos placentarios (2,3,6,9,10,16,18,25).

Coxiella burnetii apresenta, ainda, uma variacao de fase no decorrer da infeccao, o que acontece em funcao das mudancas observadas no lipopolissacarideo (LPS) presente na parede celular das bacterias gram-negativas. Essa alteracao antigenica e importante para o seguimento da doenca e seu diagnostico sorologico. A fase I possui uma sequencia completa de LPS, enquanto que na fase II o microrganismo apresenta modificacoes do antigeno da parede celular. Tal variacao permite distinguir as infeccoes agudas, onde a producao de anticorpos anti-C. burnetti em fase II e predominante. Quando a doenca evolui para a cronicidade, a presenca de anticorpos anti-C. burnetii fase I e mais acentuada (2,21,25).

Entre as principais caracteristicas da C. burnetti esta a resistencia aos agentes fisicos e quimicos. No solo, em temperatura ambiente, essa bacteria pode permanecer viavel por 4 meses, nas fezes de carrapatos resiste ate 36 meses, alem disso, e resistente tambem a radiacao ultravioleta. Em relacao aos agentes quimicos, a bacteria e resistente a solucao de hipoclorito de sodio 100mg/mL e as variacoes de pH. Sobrevive por cerca de tres dias em formol 0,5% e 15 minutos em contato com etanol 50% (2).

Alem da resistencia a C. burnetti tem elevado poder infectante, acredita-se que 1 a 10 celulas microbianas sejam suficientes para desencadear a doenca. Por esse motivo, o microrganismo recebeu do Center for Disease Control and Prevention (CDC), classificacao que o coloca na categoria B --microrganismos com potencial uso como arma biologica. Nessa categoria estao aqueles considerados faceis de disseminar e capazes de causar morbidade moderada e mortalidade baixa, sendo o segundo em uma escala de tres niveis: A, B e C (2,7,8,10,25,26).

Transmissao

Por ser amplamente distribuida na natureza, a bacteria Coxiella burnetii pode ser encontrada em animais domesticos, artropodes, aves, roedores e marsupiais. No meio rural, os animais infectados, geralmente bovinos e caprinos, funcionam como reservatorio da bacteria (3,18).

A transmissao por meio de vetores, como o carrapato, pode acontecer entre os animais, mas nao ha evidencias da transmissao para humanos (21). O risco de transmissao para o homem esta relacionado a liberacao da bacteria no ambiente, por meio da urina, fezes, leite e restos placentarios dos reservatorios animais.

Em bovinos e caprinos a doenca cronica pode provocar aborto e infertilidade (3,18). Nas femeas infectadas, a bacteria apresenta tropismo pelo utero e glandulas mamarias. Desta forma, o consumo do leite cru e seus derivados, ou mesmo a exposicao ocupacional durante a cadeia produtiva (ordenha, beneficiamento e transporte), bem como o contato com os restos placentarios dos animais nascidos a termo, ou produtos de aborto, constituem uma forma de transmissao relevante (2,3,16,18,27).

A bacteria liberada no ambiente pode ser livremente dispersa pelo vento e/ou poeira, certas praticas da agricultura, como o habito de espalhar o estrume pelo campo podem favorecer essa dispersao. Geralmente a infeccao acontece mediante inalacao de particulas em suspensao no ar ou aerossois, tambem pode ocorrer infeccao humana pelo contato direto com a fonte do mi crorganismo (3,7,9,10,16,23,27).

A transmissao interpessoal e incomum ou pouco relatada, porem, ha relatos de transmissao por meio do semen ou transfusao de sangue, risco que nao pode ser descartado, ja que a doenca muitas vezes apresenta-se assintomatica em sua fase aguda (3,8,25).

Manifestacoes clinicas

Fase aguda

A Febre Q e geralmente uma doenca autolimitada, permanecendo na maioria dos casos assintomatica, 40 a 60% dos pacientes infectados nao apresentam sintoma algum (28). A fase aguda da doenca manifesta-se por um acesso febril, calafrios, sudorese, dor de cabeca, fadiga, letargia, dor articular e muscular, alteracoes hematologicas, hepatite aguda e pneumonia atipica, acompanhada de tosse. Estes sintomas sao facilmente confundidos com uma gripe ou resfriado, logo, a fase inicial da doenca tem seu diagnostico dificultado (2,3,9,18,23,25,29,30).

Apos a infeccao, o periodo de incubacao varia de 10 a 21 dias e os primeiros sintomas podem surgir entre 10 e 90 dias. Periodos de tempo mais longos para a manifestacao dos sintomas estao geralmente associados ao contato com baixa carga infectante. Entretanto, condicoes como idade avancada, gravidez, doencas cardiovasculares ou estado de imunossupressao podem influenciar o curso da infeccao. Nas gestantes pode induzir partos prematuros e ate o aborto (2,3,18,23,29,30).

De acordo com Center for Disease Control and Prevention (CDC) cerca de 3% da populacao americana saudavel e, em torno de 10 a 20% dos profissionais que se expoem ao risco ocupacional, como veterinarios, agricultores e tratadores de animais, apresentam anticorpos para C. burnetii, indicando contato previo com a bacteria (7).

Fase cronica

Apos a fase aguda, 1 a 5% dos casos podem evoluir para a cronicidade. A forma cronica da doenca se da em funcao de uma resposta imune ineficaz e apresenta evolucao lenta, podendo se manifestar meses ou anos apos a infeccao (28).

Os grupos mais propensos a evoluir para cronicidade sao: mulheres gravidas, pacientes imunodeprimidos ou com algum defeito previo nas valvulas cardiacas (21).

Dentre as complicacoes associadas a essa fase, a endocardite e a manifestacao mais comum, apresentando elevada letalidade, principalmente em pacientes com historico de doenca valvar (6,18,26,28). Siciliano et al. (16) relatam um caso de endocardite por C. burnetii adquirida em territorio nacional que levou o paciente a obito.

Ainda, de acordo com Kampschreur et al. (28), 40% dos pacientes portadores de doenca valvar pre-existente e que adquirem Febre Q evoluem para endocardite.

Lamas et al. (19) investigaram casos de endocardite infeciosa em pacientes de um hospital no Estado do Rio de Janeiro. Durante um periodo de 12 anos (1998-2009), 64 pacientes com endocardite e cultura de sangue negativa foram submetidos a cirurgia para substituicao de valvula, deste total 51 tiveram amostras da vegetacao de suas valvulas cardiacas analisadas pela tecnica de PCR, para a deteccao de C. burnetii, Bartonella spp, Tropheryma whipplei, Staphylococcus aureus, Streptococcus oralis, Streptococcus bovis, Enterococcus spp, Mycoplasma spp e fungos. Os resultados indicaram 10 casos positivos, sendo S. oralis encontrado em seis amostras isoladamente, Bartonella spp., C. burnetii, S. aureus e a associacao S. oralis/Bartonella spp foram identificados em apenas uma amostra.

Entre as manifestacoes cronicas menos frequentes encontram-se aneurismas da aorta, fibrose pulmonar, infeccoes osseas e infeccoes do figado ou orgaos reprodutores (25).

Diagnostico

A confluencia de sintomas e similaridade com outras afeccoes expressa a importancia do diagnostico diferencial, entretanto, as dificuldades em realiza-lo corretamente sao percebidas tanto na fase aguda quanto na fase cronica da doenca (6,29).

A pesquisa do agente etiologico da febre Q pode ser feita por diferentes metodos, cuja escolha depende da finalidade da investigacao e tipos de amostra pesquisada (25,31). Os testes disponiveis podem ser classificados em dois tipos: diretos, que visam pesquisar a presenca do agente (analise histologica, analise molecular e isolamento) ou indiretos, que detectam por meio de analise sorologica os anticorpos produzidos durante a infeccao (2).

Os metodos sorologicos incluem a Imunofluorescencia Indireta (IFI), ELISA e Teste de Fixacao do Complemento (CFT). Dentre estes testes, a reacao de IFI e o teste padrao em humanos, apesar de suas limitacoes na fase aguda, em funcao da demora do corpo em produzir anticorpos. Quando amostras iniciais sao coletadas na primeira semana ou assim que os sintomas aparecem, e possivel perceber o aumento significativo em ate quatro vezes nos titulos de anticorpos, podendo manter-se elevados durante meses. A tecnica utiliza antigenos de fase I e II (2,10,25).

Segundo Borriello e Galiero (25), o teste de ELISA e mais indicado para deteccao da doenca em animais, apresentando boa especificidade e alta sensibilidade. Ja o CFT e o menos utilizado, em funcao da menor sensibilidade em relacao aos demais metodos indiretos. Entretanto, Wegdam -Blans et al. (30), ao testar a sensibilidade dos metodos sorologicos (IFI, ELISA e CFT) diante de amostras positivas, afirmam que todos apresentam resultado confiavel no diagnostico da febre Q aguda.

A tecnica de PCR e um metodo molecular direto que pode ser utilizado na deteccao de fragmentos de DNA em amostras biologicas (sangue e tecido). Pode ser empregada quando se necessita de um diagnostico precoce da doenca. Lemos et al.1 publicaram o primeiro estudo que utilizou essa tecnica em territorio nacional, comprovando a ocorrencia da Febre Q no pais.

Rozental et al. (18) utilizaram o marcador IS1111 no diagnostico molecular de um paciente internado, no estado do Rio de Janeiro, apresentando sintomas de febre, mialgia e tosse, inicialmente diagnosticado com pneumonia grave. Foram utilizadas amostras obtidas do lavado broncoalveolar. Foi o primeiro relato de diagnostico molecular utilizando esse tipo de amostra.

Nos casos de endocardite por C. burnetii, o exame histologico e o mais indicado. Entretanto, nao ha garantia de um resultado acertado, uma serie de interferencias como: fibrose, calcificacao, vasos deformados e inflamacao cronica podem mascarar o resultado, pois estes sao aspectos comuns em outras doencas (16).

Na pesquisa histologica, a bacteria pode ser identificada e visualizada pelo metodo de coloracao de Gimenez, desenvolvido para identificar Legionella spp. e Rickettsias. O metodo utiliza corantes biologicos para a deteccao de bacterias em amostras de tecido. Apesar de ser um microrganismo gram-negativo, a coloracao de gram nao e indicada como diagnostico (1,3,21).

As tecnicas que buscam o isolamento do agente podem ser utilizadas mediante a inoculacao da bacteria em ovos de galinha embrionados ou em cultura de celulas. Tal procedimento e relativamente perigoso do ponto de vista da seguranca do manipulador, visto que existe o risco de infeccao (25).

Recentemente, um grupo de pesquisadores descobriu uma forma de cultivo de Coxiella burnetii em meio axenico, o que tem revolucionado as pesquisas sobre a Febre Q e auxiliado a elaboracao de vacinas mais seguras (32-36).

Tratamento

O tratamento normalmente e indicado nos casos em que a doenca atingiu seu estagio cronico e consiste em antibioticoterapia. Nos casos de endocardite recomenda-se intervencao cirurgica (16).

A antibioticoterapia indicada na fase aguda emprega doxiciclina, rifampicina, ciprofloxacina, moxifloxacina e claritromicina. O clotrimazol tem sido utilizado em criancas menores de oito anos, o tratamento nessa idade, geralmente, e eficaz (8,18,29).

Diante da dificuldade de erradicacao da bacteria, o tratamento na fase cronica deve ser prolongado. Doxiciclina associada a hidroxicloroquina ou flouroquinolona sao opcoes de tratamento que devem ser avaliadas com cautela, em funcao da toxicidade dos farmacos e o tempo necessario, em torno de 18 meses, para erradicacao do microrganismo (16).

Na concepcao de Kampschreur et al. (28), o tratamento combinado de doxiciclina e hidroxicloroquina e o mais indicado para endocardite, havendo apenas uma distincao quanto ao tempo de tratamento. Nos casos onde o paciente nao realizou previa substituicao cirurgica de valvula, o tratamento deve durar por 18 meses e nos casos em que houve intervencao cirurgica, o tratamento se estende por 24 meses.

Na doenca cronica com predominio de lesao tecidual e titulos elevados de anticorpos IgA e IgG, Irwin et al. (29) citam o tratamento com doxiciclina, rifampicina e hidroxicloroquina, utilizados em associacao, como uma alternativa eficaz.

Prevencao

Todos os profissionais que lidam diretamente com animais devem utilizar equipamento de protecao individual, especialmente mascara, visto que a inalacao de celulas bacterianas suspensas no ar e aerossois contaminados sao as formas mais comuns de transmissao da doenca. Whitney et al. (5) empregaram as tecnicas de ELISA e Imunofluorescencia para determinar a sorologia e fatores de risco ocupacional em veterinarios nos EUA. Os resultados indicaram que a utilizacao de mascaras, durante o contato com animais, diminuiu de modo significante a probabilidade de contagio pela bacteria.

Em areas onde a doenca e mais prevalente, medidas de controle devem ser empregadas para conter a transmissao, tais como: controle de carrapatos, higiene constante dos locais de ordenha, adocao de praticas de antissepsia, bem como o uso de equipamentos de protecao individual. Em caso de surto, recomenda-se diminuir a circulacao de animais, separando animais doentes de saudaveis e promover o abate de animais doentes. Outras praticas que favorecem o controle do microrganismo envolvem: incineracao de materiais de alto risco como os produtos de aborto; tratamento do estrume com cal ou cianeto de calcio antes do espalhamento sobre o campo; evitar o consumo de leite ou derivados produzidos a partir do leite nao pasteurizado (3,37,38).

Uma forma de prevenir a disseminacao da zoonose em humanos consiste na vacinacao dos grupos de risco. Uma vacina obtida a partir da bacteria inativada, disponivel desde 1989, e utilizada nas populacoes de risco na Australia. De acordo com Irwin et al. (29), essa vacina e eficaz e confere imunidade celular. No Brasil, essa vacina ainda nao esta disponivel.

As vacinas disponiveis para Febre Q sao: Chlamyvax FQ--uma vacina combinada para animais, composta por C. burnetti fase II e Chlamydophyla abortus; Coxevac--obtida a partir de celulas inteiras da cepa Nine Mile; e Q-Vax para uso humano, obtida a partir de celulas inteiras de C. burnetii fase I. Todas as vacinas disponiveis sao inativadas e apenas uma delas destina-se ao uso em humanos (31,39).

Para Maurin e Raoult (21), as vacinas contra Febre Q podem variar de acordo com a fase do agente. Assim, vacinas preparadas com C. burnetii fase I sao mais eficientes e oferecem maior protecao do que aquelas preparadas com a fase II do microrganismo.

Em 2000, a Australia adotou o Programa Nacional de Manejo da Febre Q (NQFMP), implantado aos poucos nas diferentes regioes do pais. A vacinacao da populacao so foi iniciada apos investigacao previa do historico de contato com a bacteria, por meio de um teste de sensibilidade a vacina. O objetivo era excluir aqueles individuos com imunidade pre-existente para diminuir os riscos de reacao adversa a vacina. Primeiramente, foram vacinados trabalhadores dos matadouros e tosqueadores de ovelhas. Na segunda etapa, foram incluidos criadores de ovinos, criadores de gado de corte e de leite, funcionarios das fazendas e seus familiares (40).

Nos anos seguintes, ate 2006, quando o programa de financiamento cessou, as taxas de incidencia da doenca diminuiram. Antes do programa de vacinacao, eram notificados entre 600 a 800 casos por ano, apos seu inicio, esse numero caiu em aproximadamente 50% (27,41).

Consideracoes finais

O agente etiologico da Febre Q, Coxiella burnetii, e um microrganismo altamente resistente que pode permanecer viavel no ambiente por longo periodo de tempo e provocar uma doenca autolimitada, com alta infectividade e baixa letalidade. A infeccao e essencialmente ocupacional e, na maioria dos casos, afeta pessoas que exercem alguma atividade relacionada a pecuaria de corte e leite. A infeccao em humanos geralmente evolui de forma benigna, porem, em alguns casos pode evoluir para a forma cronica da doenca, podendo levar o individuo a um desfecho fatal.

Destaca-se a importancia de um diagnostico diferencial para a identificacao do agente causal. Se a endocardite for provocada pelo agente da Febre Q, a doenca requer um tratamento prolongado para sua completa remissao e, se nao tratada, pode levar a morte ou aumentar a necessidade de cirurgia. Dessa forma, a realizacao do diagnostico microbiologico em pacientes com endocardite faz-se necessaria, especialmente em locais onde a Febre Q e mais comum ou em pacientes com historico de exposicao ocupacional.

O Brasil possui o maior rebanho comercial do mundo, e o maior exportador de carne bovina, o segundo maior produtor de carne e o sexto maior produtor de leite (42). Tais numeros demonstram a magnitude e importancia economica da atividade pecuaria em territorio brasileiro e alertam para dois pontos criticos. Primeiro, o impacto a produtividade animal, em funcao da maior frequencia de abortos e diminuicao da fertilidade do rebanho e, segundo, a grande populacao de trabalhadores em condicao de risco, devido a exposicao ocupacional dos profissionais vinculados a pecuaria.

O diagnostico clinico da Febre Q torna-se relativamente complexo em virtude da sintomatologia inespecifica, gerando dificuldade de reconhecimento ou suspeita da doenca pelos profissionais da area da saude. Nesse contexto, acredita-se que a ocorrencia da Febre Q, no Brasil, seja mais comum do que se pensa.

No Brasil nao ha dados especificos de casos confirmados da zoonose, ja que as autoridades sanitarias dispensam sua notificacao. Diante da comprovacao molecular de casos existentes em nosso pais, torna-se necessaria a adocao de medidas como: alertar as autoridades sanitarias sobre ferramentas para um diagnostico rapido e seguro, orientar profissionais que se enquadram nos grupos de risco e elaborar planos para o controle da disseminacao da doenca.

DOI: 10.1590/1413-812320182312.27772016

Colaboradores

IAM Damasceno trabalhou na concepcao, escrita. RC Guerra trabalhou a concepcao, revisao critica e aprovacao da versao final do texto apresentado.

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Artigo apresentado em 06/10/2016

Aprovado em 26/01/2017

Versao final apresentada em 28/01/2017

Iangla Araujo de Melo Damasceno [1]

Ricardo Consigliero Guerra [1]

[1] Faculdade de Ciencias Humanas, Economicas e da Saude de Araguaina, Instituto Tocantinense Presidente Antonio Carlos. Av. Filadelfia 568, Setor Oeste. 77816-540 Araguaina TO Brasil. iangla@hotmail.com
Quadro 1. Trabalhos publicados sobre casos confirmados ou
diagnosticados no Brasil

Autores                     Data      Localidade

Brandao et al (11)          1953   Sao Paulo
Ribeiro-Netto et al. (12)   1964   Sao Paulo
Riemann et al. (13)         1974   Belo Horizonte
Riemann et al. (14)         1975   Belo Horizonte
Costa et al. (15)           2005   --
Costa et al. (6)            2006   Juiz de Fora--MG
Siciliano et al. (16)       2008   Sao Felipe--BA
Lamas et al. (17)           2009   Jacarepagua--RJ
Lemos et al. (1)            2011   Itaborai--RJ
Rozental et al. (18)        2012   Rio de Janeiro
Lamas et al. (19)           2013   Rio de Janeiro
Mares-Guia et al. (20)      2014   Itaborai--RJ

Autores                               Metodo diagnostico /
                                       especie pesquisada

Brandao et al (11)          Sorologia/humano
Ribeiro-Netto et al. (12)   Sorologia/humano
Riemann et al. (13)         Sorologia/humano
Riemann et al. (14)         Sorologia/humano
Costa et al. (15)           Sorologia/humano
Costa et al. (6)            Sorologia/humano
Siciliano et al. (16)       Sorologia e anatomopatologico/ humano
Lamas et al. (17)           Sorologia
Lemos et al. (1)            Sorologia e Molecular (PCR)/ humano
Rozental et al. (18)        Molecular/ Humano
Lamas et al. (19)           Molecular/ Humano
Mares-Guia et al. (20)      Sorologia e Molecular (PCR)/ 14 caes,
                            1 gato, 10 cabras, 3 ovelhas e 2 cavalos.

Fonte: Levantamento de dados da pesquisa.
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Author:de Melo Damasceno, Iangla Araujo; Guerra, Ricardo Consigliero
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Date:Dec 1, 2018
Words:5525
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