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Correlation between agricultural production, clinical and demographic variables and prostate cancer: an ecological study/Correlacao entre producao agricola, variaveis clinicas-demograficas e cancer de prostata: um estudo ecologico.

Introducao

O cancer de prostata e a neoplasia maligna mais frequente no sexo masculino em todas as regioes brasileiras (1). As taxas de mortalidade por esse cancer no Brasil superam os valores observados em alguns paises da America do Norte e da Europa (2). A titulo de exemplo, o periodo 2005-2009, as taxas padronizadas de mortalidade por cancer de prostata nos Estados Unidos e na Franca correspondiam, respectivamente, a 9,8 e 10,0 mortes por 100.000 homens, enquanto as observadas na maioria dos estados brasileiros eram de valor superior (1,2). Estudos epidemiologicos realizados no Brasil tem evidenciado, a partir dos anos 1980, tendencia de crescimento dessas taxas em diferentes regioes geograficas (3-6).

Apesar da extensa atividade de pesquisa sobre os fatores envolvidos no processo de carcinogenese da prostata, ainda pouco se conhece, de forma conclusiva, sobre suas causas (7). Idade avancada, historia familiar, dieta alimentar rica em carne e obesidade sao alguns dos fatores de risco que tem apresentado associacoes consistentes com o desenvolvimento desse cancer na literatura (8). Por outro lado, habitos alimentares como a ingestao de frutas e vegetais, que atuariam como fatores de protecao, tem apresentado associacoes inconsistentes (7).

Nas ultimas duas decadas, tem sido observada associacao entre exposicao a agrotoxicos e cancer de prostata em estudos epidemiologicos (9,10). Essas substancias agem como disruptores endocrinos, ocasionando disturbios relacionados a reproducao humana, infertilidade masculina, anormalidades do desenvolvimento sexual e o surgimento de tumores hormonio-dependentes, como os canceres de ovario, mama, prostata, testiculos e tireoide (10). Os agrotoxicos, utilizados na agricultura e em outras atividades economicas, se dispersam pelo ar, agua e solo, expondo, de maneira intensa, nao somente os trabalhadores, mas tambem a populacao circunvizinha ao local de sua utilizacao (11,12). Nesse sentido, pode-se vislumbrar que as consequencias a saude publica da exposicao a esses agentes quimicos seriam de grande magnitude.

Diante deste quadro, o presente estudo teve como objetivo realizar uma analise exploratoria das relacoes entre as variaveis sociodemograficas, as relativas a agricultura, as de consumo alimentar e as relativas a utilizacao de servicos de saude e taxas padronizadas de mortalidade por cancer de prostata com base em dados populacionais dos estados brasileiros.

Material e metodos

Estudo ecologico, de carater exploratorio, no qual foram incluidos dados populacionais de todos os estados brasileiros. As variaveis independentes selecionadas para o estudo foram obtidas no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (13) e encontram-se descritas a seguir.

As variaveis sociodemograficas analisadas foram: proporcao de populacao de 60 anos, proporcao de populacao de 80 anos, proporcao de populacao de 60 sem instrucao ou < 1 ano de estudo, proporcao de populacao de 60 anos com renda domiciliar per capita abaixo 1/2 salario e proporcao de populacao de 60 anos aposentada/ pensionista e media do Produto Interno Bruto (PIB) agropecuario 2005-2009.

As variaveis relativas as atividades agricolas foram: numero estabelecimentos agropecuarios, numero de estabelecimentos com lavouras permanentes, hectares plantados de lavouras permanentes, numero de estabelecimentos com lavouras temporarias, hectares plantados de lavouras temporarias, numero de trabalhadores, numero de estabelecimentos com plantacao de milho, toneladas de milho produzidas, numero estabelecimentos com plantacao de soja, toneladas de soja produzidas, numero de estabelecimentos com plantacao de trigo, toneladas de trigo produzidas, toneladas de cana produzidas e numero de estabelecimentos com plantacao de cana.

As variaveis de consumo alimentar utilizadas foram: total kcal/dia per capita, cereais kcal/dia per capita, carnes kcal/dia per capita, laticinios kcal/dia per capita, frutas kcal/dia per capita, hortalicas kcal/dia per capita, oleos e gorduras kcal/dia per capita, acucares kcal/dia per capita, bebidas alcoolicas kcal/dia per capita, alimentos preparados kcal/dia per capita.

As variaveis relativas a utilizacao de servicos de saude foram: numero de unidades de saude, proporcao da populacao que realizou consulta medica no ultimo ano, proporcao da populacao com cobertura de plano de saude e proporcao da populacao com internacao no ultimo ano.

Para obtencao dos dados relativos a variavel dependente taxa de mortalidade por cancer de prostata, seguiram-se os procedimentos descritos adiante. Foram selecionados, no Sistema de Informacao sobre Mortalidade (SIM) do Ministerio da Saude, os obitos com causa basica codificada como C61, no capitulo II da 10a Revisao da CID, segundo distribuicao por estado. A populacao residente nos estados no periodo de estudo foi obtida no site do Departamento de Informatica do Sistema Unico de Saude e tem como base de calculo o censo populacional de 2000 e as estimativas para os anos intercensitarios da Fundacao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica. Com base nesses dados, calcularam-se as taxas de mortalidade por cancer de prostata para o periodo 2005-2009, padronizadas por idade, pelo metodo direto, utilizando-se como padrao a populacao mundial.

Os dados geograficos e espaciais, contemplando as variaveis latitude, longitude e localizacao da capital de cada estado, foram obtidos no site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) (13).

Analise estatistica

Para avaliar conjuntamente os indicadores associados a mortalidade por cancer de prostata, as variaveis do estudo foram agrupadas em quatro blocos: o primeiro foi constituido pelos indicadores sociodemograficos; o segundo, pelos dados de producao agricola; no terceiro bloco foram incluidas variaveis relativas a utilizacao de servicos de saude; o quarto bloco foi formado pelas variaveis de consumo alimentar.

Na analise bivariada avaliou-se a correlacao entre as variaveis distribuidas nos blocos descritos anteriormente e as taxas de mortalidade por cancer de prostata por meio do coeficiente de correlacao de Pearson (r). Para essa analise, todas as variaveis foram padronizadas com media zero (0,0) e desvio padrao igual a um (1,0), devido as suas diferentes dimensoes, o que prejudicaria sua inclusao e interpretacao no modelo.

Em cada bloco, as variaveis que apresentaram correlacoes estatisticamente significativas com a variavel dependente foram selecionadas para serem testadas no modelo final por meio da analise de regressao multipla espacial. Alem disso, algumas variaveis dos mesmos blocos, que poderiam atuar como possiveis variaveis de confundimento, foram tambem testadas no modelo multiplo, independentemente de terem apresentado associacao com significancia estatistica.

Para inclusao ou retirada das variaveis no modelo multiplo, foram utilizados os seguintes criterios:

1. Selecao de variavel com maior correlacao estatistica;

2. Inclusao de variaveis que, analisadas conjuntamente, obtiveram maior F na analise de regressao simples;

3. Inclusao de variaveis que na correlacao parcial, controlada pelas que ja estavam no modelo, apresentaram correlacao estatisticamente significante com a variavel dependente.

O criterio de exclusao das variaveis foi o valor de p maior ou igual a 0,05.

A qualidade do ajuste do modelo de regressao espacial e semelhante a do de regressao multipla tradicional, sendo verificada por meio da analise de residuos e tambem com base no indice de Moran. Na verificacao dos pressupostos da regressao linear, foram efetuadas analises graficas entre residuos padronizados, valores observados e preditos, alem do diagnostico de normalidade, por meio de graficos Q-Q plot. Tambem foram aplicados os pos-testes de Breusch-Pagan e Koenker-Bassett para verificacao de heterocedasticidade. Verificou-se, tambem, a nao autocorrelacao espacial dos residuos quanto ao modelo final.

Finalmente, foi efetuada analise exploratoria univariada dos dados espaciais para investigacao de autocorrelacao espacial global das taxas de mortalidade por cancer de prostata nos estados brasileiros, atraves do indice I de Moran, sob as suposicoes de normalidade e de randomizacao. A distribuicao de valores do indice de Moran varia entre -1,0 e +1,0 e testa se areas conectadas apresentam maior semelhanca quanto ao indicador estudado, do que seria esperado num padrao aleatorio.

As analises de dados foram efetuadas com os softwares Stata 11.0, SPSS 18.0 e GeoDa 0.95-i.

O projeto de pesquisa que originou este estudo foi aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

Resultados

Quanto a analise bivariada, apresentada na Tabela 1, as producoes de soja e milho e consumo de bebidas alcoolicas se correlacionaram positivamente com as taxas de mortalidade por cancer de prostata (p < 0,05). Notam-se tambem correlacoes negativas e estatisticamente significativas entre as variaveis cobertura de planos de saude e proporcao de habitantes que realizaram consulta medica e as referidas taxas de mortalidade.

Considerando-se os criterios estabelecidos, no bloco das variaveis sociodemograficas foram selecionadas para serem testadas no modelo multiplo: proporcao de populacao de 60 anos; proporcao de populacao de 80 anos; PIB agropecuario per capita. Quanto ao bloco das atividades agricolas, foram analisadas no modelo multiplo as variaveis: hectares plantados com lavouras permanentes; toneladas de milho produzidas e toneladas de soja produzidas. No bloco do consumo alimentar, foi selecionada a variavel consumo de bebidas alcoolicas e no bloco de utilizacao de servicos de saude, foram selecionadas: a proporcao da populacao que realizou consulta medica no ultimo ano e a coberta por plano de saude.

No modelo final da analise de regressao multipla espacial (Tabela 2), encontram-se as variaveis que apresentaram associacao estatisticamente significativa com as taxas de mortalidade por cancer de prostata: toneladas de soja produzidas, toneladas de milho produzidas, proporcao da populacao com 80 ou mais anos de idade e consumo de bebidas alcoolicas. Optou-se por manter a variavel PIB agropecuario no modelo, pois essa possibilitou um melhor ajuste do modelo.

A Figura 1 apresenta a distribuicao espacial das taxas de mortalidade por cancer de prostata. Observa-se uma distribuicao heterogenea, caracterizando tres grupamentos distintos, com elevada autocorrelacao espacial (I = 0, 210; p-valor < 0,05 para 999 permutacoes). Todos os estados da regiao Sul, dois estados da regiao Centro-Oeste (Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), Rio de Janeiro e Espirito Santo na regiao Sudeste e Pernambuco, Piaui e Sergipe na regiao Nordeste constituiram o grupo com as maiores taxas de mortalidade por esse cancer.

Discussao

O envelhecimento e um importante fator para o desenvolvimento de cancer (14) e em estudos de necropsias tem sido observado que o risco do de prostata eleva-se progressivamente com o aumento da idade (15). No presente estudo apenas as proporcoes de populacao com 60 anos ou mais e com 80 anos ou mais apresentaram correlacao estatisticamente significativa com as taxas de mortalidade de cancer de prostata. Contudo, a distribuicao etaria das faixas mais idosas e mais homogenea entre os estados e nao poderia, por si so, explicar as taxas mais elevadas de mortalidade em determinadas areas geograficas. Tal fato sugere a coexistencia de outros fatores, alem do envelhecimento, influenciando no padrao observado.

Em estudo ecologico realizado em tres estados da regiao Sul e Sudeste do Brasil, com o objetivo de relacionar taxas de mortalidade por doencas do aparelho circulatorio e indicadores socioeconomicos, abrangendo o periodo 1980-2008, verificou-se forte correlacao entre a variacao do

PIB per capita e a reducao de mortes, nao apenas por doencas do aparelho cardiovascular, mas por todas as causas (16). No presente estudo, o PIB agropecuario, embora mantido no modelo final com o objetivo de melhorar o ajuste, nao apresentou correlacao estatisticamente significativa com as taxas de mortalidade por cancer de prostata.

O acesso a servicos de saude tanto para o rastreamento, quanto para o diagnostico e o tratamento, tem um impacto favoravel na sobrevida do paciente com cancer (17). Nos Estados Unidos, a disponibilidade de acesso ao tratamento curativo tem levado a reducao da mortalidade por cancer de prostata nas ultimas decadas (18). No presente estudo foi encontrada correlacao negativa das taxas de mortalidade por esse cancer com os indicadores "proporcao da populacao que realizou consultas medicas anuais" e "proporcao da populacao coberta por plano de saude", ambos relacionados ao acesso aos servicos. Embora tais indicadores nao sejam especificos para avaliar a qualidade de servicos de saude, eles podem refletir parcialmente a cobertura da rede assistencial de saude e o acesso a mesma. Dessa forma, a correlacao negativa observada poderia ser explicada pela facilidade de acesso ao diagnostico precoce do cancer e ao seu tratamento ainda em fase inicial, reduzindo a mortalidade pela doenca. Tem sido demonstrado que a melhoria das estrategias de deteccao, a reducao da morbimortalidade relacionada a prostatectomia e a introducao de terapeuticas para o tratamento de tumores mais agressivos, tem ocasionado a melhora na sobrevida por esse cancer (15,19-21).

Fatores da dieta sao responsaveis por 30% dos casos de cancer nos paises ocidentais, o que faz da alimentacao a segunda principal causa passivel de prevencao, apos o fumo (22). Pesquisas tem procurado estabelecer associacoes entre certos habitos alimentares e o cancer de prostata, mas ate o momento ainda nao existem evidencias solidamente estabelecidas (7,8). Neste estudo, entre as variaveis alimentares avaliadas, somente o consumo de bebidas alcoolicas esteve relacionado as taxas de mortalidade por cancer de prostata. Em alguns estudos epidemiologicos foi encontrada associacao positiva entre consumo de alcool e cancer de prostata, embora esta ainda nao esteja definitivamente estabelecida (7,23).

Entre as variaveis agricolas, foi possivel estabelecer correlacao positiva entre toneladas de soja e de milho produzidas e mortalidade por cancer de prostata. A soja e a monocultura que consome mais agrotoxicos no pais, sendo responsavel por cerca de 40% do volume total dessas substancias utilizado no Brasil (11). Ressalta-se que em algumas regioes brasileiras existe a pratica da plantacao do milho safrinha, que e aquele cultivado logo apos a colheita da soja, fazendo com que, muitas vezes, a distribuicao geografica dessas duas culturas seja coincidente (24).

A associacao entre exposicao a agrotoxicos e cancer de prostata tem sido bastante estudada nos ultimos anos (9,25). Fungicidas, herbicidas e outros compostos utilizados na agricultura podem agir no organismo humano como disruptores endocrinos e como genotoxicos, produzindo varios efeitos nocivos a saude (9,10,26). Em um estudo de coorte com mais de 50.000 trabalhadores agricolas e aplicadores de agrotoxicos realizado na Carolina do Norte e em Iowa nos Estados Unidos, verificou-se que esses individuos experimentaram um pequeno, porem, estatisticamente significativo, excesso de cancer de prostata, quando comparados com a populacao geral daqueles dois estados (25). Em um estudo ecologico foi demonstrada, em alguns estados brasileiros, a correlacao entre consumo de agrotoxicos, volume de agrotoxicos vendidos em 1985, e manifestacoes endocrinas na populacao exposta, que apareceram anos depois da exposicao, com efeitos diretos no aparecimento de cancer de prostata, entre outras condicoes de saude (27).

Destaca-se, no modelo final da analise de regressao espacial multipla, a correlacao positiva entre toneladas de soja plantada e a mortalidade por cancer de prostata. O cultivo da soja e caracterizado pela utilizacao de extensas areas de terras, mecanizacao do plantio e da colheita e pelo uso de agrotoxicos em grande quantidade (24). Tais caracteristicas propiciam uma exposicao ambiental que extrapola os limites da plantacao, expondo nao apenas trabalhadores rurais, mas tambem a populacao geral, residente proxima destas lavouras e/ou consumidora de alimentos e agua contaminados (12). Em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso, foi realizado um estudo no qual se detectou que 88% das amostras de sangue de trabalhadores e de residentes do municipio estavam contaminadas por glifosato e que 61% das amostras de urina eram positivas para pelo menos um tipo de inseticida organoclorado (24).

Neste estudo ecologico exploratorio, foi possivel observar a distribuicao geografica das taxas de mortalidade por cancer de prostata no pais. Verificou-se que taxas de maior magnitude se apresentam em areas de intensa atividade agricola e consumidoras de grande volume de agrotoxicos. Essas areas sao produtoras de soja e milho (estados das regioes Sul e Centro-Oeste), de cana de acucar (Pernambuco, Alagoas e Rio de Janeiro), de cafe (Espirito Santo) e de arroz e soja (Piaui.) (11,13,28).

A producao agricola brasileira e dependente da utilizacao de agrotoxicos e de fertilizantes quimicos, sendo que, nos ultimos anos, o pais tornou-se o maior consumidor mundial destes produtos (11). Somente no ano de 2009, foram utilizados cerca de 3,7 litros de agrotoxicos por habitante e, em alguns estados, este consumo foi ate dez vezes maior (12). Em Mato Grosso, por exemplo, entre os cinquenta agrotoxicos mais utilizados, encontram-se vinte para os quais ha evidencias epidemiologicas de que, alem de atuarem como desreguladores endocrinos, sao agentes mutagenicos e teratogenicos (24). Considerando a diversidade de compostos quimicos utilizados na agricultura como agrotoxicos, possivelmente, alguns deles podem estar relacionados ao desenvolvimento do cancer de prostata (10,25).

As consequencias desta pratica a saude publica sao de grande magnitude, pois envolvem nao somente os trabalhadores em atividades com exposicao direta aos agrotoxicos, mas tambem, toda a populacao que reside em areas proximas as lavouras (11,29).

Este estudo apresenta algumas limitacoes proprias da metodologia empregada e seus resultados devem ser interpretados com cautela, devido a possivel existencia de um vies de agregacao ou falacia ecologica. Em estudos ecologicos, a observacao da existencia de uma relacao entre duas variaveis no nivel agregado nao implica, necessariamente, que essa relacao se mantenha no nivel individual. Alem disso, as variaveis utilizadas neste estudo sao provenientes de varias fontes e podem apresentar diferencas quanto a qualidade. Outra questao a ser considerada e a limitacao inerente a utilizacao de dados de mortalidade como medida de desfecho, que podem ser influenciados pelo acesso ao diagnostico e tratamento e sobrevida da doenca. As taxas de incidencia refletiriam com mais acuracia o risco da doenca, porem nao se dispoe desses dados para o Brasil e seus estados. Alem disso, a heterogeneidade da qualidade dos dados de mortalidade entre as regioes brasileiras pode influenciar na generalizacao dos resultados observados. Visando reduzir algumas destas limitacoes, este estudo trabalhou com variaveis disponiveis em bancos de dados de abrangencia nacional, rotineiramente utilizados em pesquisas e informacoes de mortalidade por cancer que tem sido consideradas mais fidedignas (30). Alem disso, e importante apontar que em estudos recentes tem sido demonstrada tendencia de reducao dos obitos por causas mal definidas e melhor qualidade das informacoes constantes nas declaracoes de obitos (31-33). Destaca-se ainda, que em um estudo de tendencia de mortalidade por cancer de prostata no periodo 1980-2011 nas regioes brasileiras, as taxas de mortalidade quando ajustadas pela proporcao de causas mal definidas, foram pouco divergentes daquelas nao ajustadas, indicando, indiretamente, que a qualidade das informacoes constantes nas declaracoes de obito, era boa o suficiente para nao influenciar nos resultados encontrados no estudo (6).

Por outro lado, destaca-se, ainda, a dificuldade para se trabalhar com informacoes relativas a comercializacao de agrotoxicos, tanto por incompletude das mesmas, quanto pela restricao de acesso aos bancos de dados. No Brasil, embora por lei seja obrigatoria a apresentacao de receituario agronomico, muitas vezes a norma e burlada, decorrendo em uma imprecisao do real volume de agrotoxicos utilizados no pais (34). Uma vez que as informacoes de acesso publico sobre comercializacao de agrotoxicos sao escassas, foi necessario trabalhar com informacoes relativas as areas e toneladas de lavouras plantadas, ao inves de quantidade de agrotoxicos comercializada, que seria o indicador ideal.

A metodologia empregada possibilitou encontrar, no modelo final da analise, uma correlacao positiva entre toneladas de soja plantada e mortalidade por cancer de prostata e, indiretamente, formular a hipotese da existencia de uma relacao entre exposicao a agrotoxicos e o desenvolvimento desse cancer.

Os resultados encontrados, nesta etapa exploratoria de pesquisa, fornecem fundamentacao teorica para futuros estudos que testem a hipotese levantada. Nesse sentido, estudos epidemiologicos analiticos de coorte ou caso-controle sao necessarios para investigar a associacao entre a exposicao a agrotoxicos e a ocorrencia de cancer de prostata em grupos populacionais brasileiros.

Colaboradores

JFS Silva, IE Mattos e AMC Silva trabalharam na concepcao do estudo, definicao de seu desenho, pesquisa bibliografica, analise de dados, redacao e revisao do artigo. L Lima-Luz e RD Aydos participaram na pesquisa bibliografica, redacao e revisao do artigo.

DOI: 10.1590/1413-81232015209.00582015

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Artigo apresentado em 04/11/2014

Aprovado em 18/03/2015

Versao final apresentada em 20/03/2015

Joao Francisco Santos da Silva [1]

Ageo Mario Candido da Silva [2]

Laercio Lima-Luz [3]

Ricardo Dutra Aydos [1]

Ines Echenique Mattos [3]

[1] Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Cidade Universitaria s/n[degrees]. 79080190 Campo Grande MS Brasil. joaofranciscosilva4@ gmail.com

[2] Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto de Saude Coletiva.

[3] Fundacao Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saude Publica.

Tabela 1. Matriz de correlacao entre as taxas de mortalidade por
cancer de prostata e variaveis selecionadas nos diferentes blocos da
analise.

              ZTXPROST   ZPOP60   ZPOP80   ZPIB2    ZMILHO

ZTXPROST            1

ZPOP60           0,10        1
ZPOP80         0,34 *    0,42 *       1
ZPIB2            0,26    0,47 *    0,23        1

ZMILHO         0,37 *    0,37 *   -0,13    0,80 *       1
ZTOTLAVPERM      0,18     0,12     0,16    -0,08     0,06
ZSOJA          0,34 *    0,37 *    1,00    0,88 *   -0,13

ZBEBIDAS       0,39 *    0,51 *   0,89 *   0,58 *    0,13

ZCONSMED      -0,31 *    0,54 *   0,97 *   0,41 *   -0,01
ZCOBERTPLAN   -0,35 *    0,37 *    1,00    0,63 *   -0,15

              ZTOTLAVPERM   ZSOJA    ZBEBIDAS

ZTXPROST

ZPOP60
ZPOP80                               Variaveis sociodemograficas
ZPIB2

ZMILHO
ZTOTLAVPERM            1
ZSOJA               0,15        1

ZBEBIDAS            0,17    0,89 *         1

ZCONSMED          0,21 *    0,96 *    0,91 *
ZCOBERTPLAN         0,16    0,97 *    0,90 *

              ZCONSMED              ZCOBERTPLAN

ZTXPROST

ZPOP60
ZPOP80
ZPIB2

ZMILHO        Variaveis de producao agricola
ZTOTLAVPERM
ZSOJA

ZBEBIDAS      Variaveis
              alimentares
ZCONSMED               1    Variaveis de atencao a saude
ZCOBERTPLAN       0,96 *                 1

* p < 0,05

Legenda: ZTXPROST: taxa de mortalidade por cancer de prostata
padronizada por idade; ZPOP60: proporcao da populacao de 60 ou mais
anos de idade; ZPOP80: proporcao da populacao de 80 ou mais anos de
idade; ZPIB2: media do Produto Interno Bruto agropecuario 2005/2009;
ZMILHO: toneladas de milho produzidas; ZTOTLAVPERM: hectares
plantados com lavouras permanentes; ZSOJA: toneladas de soja
produzida; ZBEBIDAS: bebidas alcoolicas kcal/dia per capita;
ZCONSMED: proporcao da populacao que realizou consulta medica no
ultimo ano; ZCOBERTPLAN: proporcao da populacao com cobertura de
plano de saude.

Tabela 2. Modelo final da analise de regressao multipla espacial.

Variaveis                                Coeficientes   Erro-padrao

Toneladas de soja produzidas                 0,679         0,184
Toneladas de milho produzidas               -0,106         0,344
Proporcao da populacao com 80 anos e +       0,791         0,243
PIB agropecuario per capita                 -0,091         0,435
Consumo de bebidas alcoolicas                0,762         0,199

Variaveis                                  t     p-valor

Toneladas de soja produzidas              2,31     0,030
Toneladas de milho produzidas            -1,37     0,018
Proporcao da populacao com 80 anos e +    7,22   < 0,001
PIB agropecuario per capita              -0,79     0,439
Consumo de bebidas alcoolicas             5,43   < 0,001

[R.sup.2] ajustado: 0,71; p valor < 0,001.
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Title Annotation:texto en portugues
Author:da Silva, Joao Francisco Santos; da Silva, Ageo Mario Candido; Lima-Luz, Laercio; Aydos, Ricardo Dut
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Date:Sep 1, 2015
Words:4763
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