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Cooperative coordinated play and sharing intentions among children/Brincadeiras coordenadas cooperativas e o compartilhamento de intencoes em criancas.

O presente estudo investiga as estrategias utilizadas por criancas para iniciarem e manterem uma acao coordenada com parceiros de idade, sendo a interacao crianca-crianca o foco de analise. Segundo Carvalho, Imperio-Hamburger e Pedrosa (1998), ha interacao quando a acao de um componente do campo interacional e regulada por outro componente, mesmo quando esta regulacao nao e reciproca. Considera-se que o desenvolvimento ocorre nesse campo de regulacao entre coespecificos, de forma que a analise da interacao social e essencial para a compreensao do processo ontogenetico em curso (Carvalho, 1998). Um estudo com base nesse conceito nao foca as acoes das criancas como propriedades individuais, mas como produto e produtor da interacao social.

Wallon (1934/1971) destaca que a crianca e biologicamente predisposta e adaptada a interacao com o parceiro da especie. Essa perspectiva e defendida tambem por Tomasello (2003, 2011) e por Trevarthen (2006), que tem enfatizado a capacidade humana, biologicamente herdada, de viver culturalmente.

Tomasello (2003, 2011) tem dedicado grande parte de seus estudos a investigacao acerca da capacidade humana de compartilhar atencao e intencoes com os coespecificos. A partir de uma abordagem comparativa com primatas nao humanos, o autor e seus colaboradores (Grafenhain, Behne, Carpenter, & Tomasello, 2009; Liszkowski, Carpenter, Striano, & Tomasello, 2006; Moll & Tomasello, 2007; Tomasello, Carpenter, Call, Behne, & Moll, 2005; Warneken, Chen, & Tomasello, 2006) vem acumulando um vasto conjunto de dados empiricos que apoiam a hipotese de que a habilidade e a motivacao para se envolver em atividades coordenadas com compartilhamento de intencoes sao exclusivas da especie humana. Camaioni (1997) tambem argumenta que, diferente da especie humana, os chimpanzes nao sao capazes de reconhecer os outros como agentes psicologicos, ou seja, como sujeitos que possuem intencoes e estados mentais, o que, por sua vez, dificulta o engajamento em atividades coordenadas. Essas atividades envolvem a capacidade de o individuo perceber um mesmo fenomeno sob duas perspectivas distintas: a sua propria e a do parceiro interacional, de modo que aquele individuo "veja a cena de cima", como um todo, incluindo-se nela (Moll & Tomasello, 2007).

Em termos ontogeneticos, ao interpretar a acao da crianca, o adulto assume que ela tem uma intencao comunicativa e assim, nesse formato interacional, o bebe, em torno dos nove meses, passa a compreender que o outro tem objetivos e se comporta de forma a atingi-los (Bellegama, Camaioni, & Colonnesi, 2006; Tomasello, 2003). Comecam-se a estabelecer interacoes triadicas que envolvem a crianca, o adulto e alguma entidade externa para a qual ambos dirigem seus esforcos, formando o que Tomasello et al. (2005) denominaram atencao conjunta, habilidade essencial para a cognicao social infantil (Aquino & Salomao, 2009). Tonieto, Wagner, Trentini, Sperb e Parente (2011), ao analisarem as relacoes entre intencionalidade, linguagem e funcoes executivas, salientam que compreender o outro como um ser de intencoes, desejos e pontos de vista proprios e a base da Teoria da Mente, o que, por sua vez, e uma competencia essencial para o agir coordenadamente.

Segundo Moll e Tomasello (2007), a identificacao de uma acao cooperativa pode se basear em tres criterios: compartilhamento de um objetivo comum, possibilidade de inversao de papeis e motivacao para ajudar o parceiro em relacao a atividade realizada. A partir desses criterios, tem-se defendido que a capacidade de se engajar de maneira efetiva em acoes cooperativas seria propria da especie humana. Warneken et al. (2006) testaram essa hipotese em um estudo que visou comparar criancas e chimpanzes quanto ao nivel e a qualidade de atividades cooperativas. Criancas entre 18 e 24 meses e chimpanzes aculturados (criados como criancas humanas e expostos a um sistema de comunicacao semelhante a linguagem) foram submetidos a quatro tarefas previamente planejadas para serem realizadas em cooperacao. Em cada tarefa, o adulto (experimentador), em um determinado momento, parava de interagir com a crianca/chimpanze. Essa interrupcao visava perceber comportamentos os quais indicavam que o sujeito investigado compreendia que se tratava de uma atividade compartilhada.

De uma maneira geral, os resultados sugerem que, ao contrario dos chimpanzes, as criancas entendiam a estrutura colaborativa da atividade. Durante os periodos de interrupcao, todas as criancas manifestaram, pelo menos uma vez, tentativas de reengajar o parceiro na tarefa, por exemplo, apontando para o objeto envolvido na atividade ou vocalizando enquanto olhava para o experimentador. Grafenhain et al. (2009) aplicaram tarefas semelhantes as utilizadas por Warneken et al. (2006) com criancas de dois e tres anos e os resultados tambem ressaltam o alto indice de tentativas para reengajar o parceiro (experimentador) apos este ter interrompido a atividade.

O estudo de Warneken et al. (2006) tambem sugere que criancas de 24 meses mostram-se mais eficientes nas tarefas e fazem mais uso de linguagem verbal. Os autores levantam a hipotese de que o alto indice de colaboracao encontrado, mesmo em criancas mais novas, pode ser uma decorrencia de a interacao ter ocorrido com um parceiro mais competente, e sugerem a necessidade de pesquisas com parceiros de idade envolvendo atividades compartilhadas.

A interacao social com coetaneos foi estudada por Carvalho et al. (1998), que propuseram tres principios organizadores da sociabilidade humana a partir de observacoes videogravadas num ambiente de creche: a orientacao da atencao, a atribuicao de significados e a persistencia de significados. A crianca tem o coespecifico como foco privilegiado de atencao e pode se engajar em acoes compartilhadas por meio da atribuicao de significado as acoes do outro. Esses significados, por sua vez, podem persistir e a brincadeira passa a ter o potencial de integrar-se a cultura de um grupo de criancas e, ate mesmo, se estender a varios grupos e sociedades.

Eckerman e Peterman (2001) denominaram as brincadeiras compartilhadas entre criancas acoes coordenadas cooperativas, que se caracterizam pela existencia de influencia social mutua e o engajamento dos participantes em um mesmo topico de brincadeira. Segundo as autoras, antes dos 16 meses de idade, pares de criancas que nao se conhecem previamente tendem a nao estabelecer um significado comum sobre suas acoes, mesmo que a influencia social ja se faca presente. A capacidade de coordenar acoes em torno de um topico, de forma que seu significado seja compartilhado pelos componentes envolvidos na brincadeira, tem inicio com acoes imitativas.

Nadel e Baudonniere (1981) concebem as estrategias imitativas como o modo essencial de comunicacao entre infantes no terceiro ano de vida. Pedrosa e Carvalho (2006) tambem argumentam que, imitando o comportamento do coetaneo, a crianca parece sinalizar a intencao de brincar junto a seu par; pelo menos e assim que a imitacao repercute neste, tornando possivel o estabelecimento de uma acao coordenada.

Outra maneira de o infante se engajar numa brincadeira coordenada e por meio de acoes complementares, como por exemplo, brincadeiras de siga o lider e pega-pega. Warneken et al. (2006) observaram que criancas de 18 meses de idade, ao interagirem com o adulto experimentador, envolviam-se em acoes coordenadas com papeis complementares, mesmo fazendo uso de menos recursos verbais quando comparadas a criancas de 24 meses. Esses dados divergem, em parte, dos obtidos por Eckerman e Peterman (2001), que nao encontraram acoes complementares em criancas de 18 meses. Alem disso, estas autoras indicam que acoes coordenadas cooperativas iniciadas por linguagem verbal apenas ocorreriam a partir dos 28 meses de idade. Concluem que acoes imitativas nao verbais possibilitam que as criancas compreendam o que estao fazendo juntas e, portanto, e plausivel supor que tais acoes as instiguem a fazer uso da fala para se referirem a acoes, objetos e outros aspectos necessarios ao brincar.

Os diversos estudos de Tomasello e colaboradores (Grafenhain et al., 2009; Liszkowski et al., 2006; Moll & Tomasello, 2007; Tomasello et al., 2005; Warneken et al., 2006) tem sido realizados prioritariamente em contextos experimentais com foco na interacao adulto-crianca, enquanto os de Eckerman e Peterman (2001) focam prioritariamente em pares de criancas nao familiarizadas. Essas peculiaridades da selecao de sujeitos encontradas na literatura despertaram o interesse em realizar o presente estudo, que objetiva identificar as estrategias mais frequentemente utilizadas por criancas de 19 a 31 meses de idade ao iniciarem e manterem uma brincadeira coordenada cooperativa com parceiros com os quais estao familiarizadas, bem como discutir os achados em articulacao com a capacidade de compartilhar intencoes com coetaneos. Para isso, planejaram-se sessoes de observacoes das criancas em interacoes no contexto cotidiano de uma creche.

Metodo

Participantes

Foram observadas 12 criancas de ambos os sexos com faixa etaria de 19 a 31 meses de idade. O grupo frequentava a Sala 1 de uma creche da Regiao Metropolitana de Recife, a qual tem como publico-alvo familias de baixa renda. Todos os pais (ou responsaveis) assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), permitindo a participacao de seus filhos com divulgacao de imagens para fins de formacao de docentes e publicacao cientifica. As autorizacoes exigidas pelo Comite de Etica em Pesquisa foram anexadas ao protocolo e este foi aprovado (Registro CEP/CCS/UFPE No. 231/05).

Material

Para a realizacao das filmagens fez-se uso de camera de video, tripe para apoio da camera e fitas para registro e copias das sessoes de observacao. Para as brincadeiras livres as criancas utilizaram os proprios brinquedos e objetos da creche, tais como miniaturas e sucatas de uso cotidiano, acrescentando-se, se necessario, mais alguns objetos. Exemplos de sucatas ou miniaturas disponibilizadas as criancas foram: garrafas pet vazias, potes de iogurte, bolas, vai e vem, pratinhos, colheres, escovas de cabelo, carrinhos etc.

Procedimento de Coleta

As videogravacoes ocorreram em duas situacoes distintas. Na primeira, as doze criancas foram observadas em conjunto (situacao de grande grupo) em uma sala ampla, quase sem mobiliarios, e com os materiais ludicos disponibilizados no chao.

Nessa situacao de grande grupo, houve tres sessoes de observacao, tendo cada uma delas duracao de 40 minutos. No momento em que as filmagens eram realizadas, estavam presentes na sala, alem das criancas, a pesquisadora e a educadora. Esta era previamente orientada para nao interferir nas brincadeiras, salvo nas situacoes em que houvesse algum risco a seguranca das criancas ou em momentos que elas precisassem de conforto.

O foco da camera era dirigido pela pesquisadora, que procurava fazer tomadas incluindo todas as criancas presentes no ambiente. Algumas vezes, um subagrupamento de participantes era focado para se assegurar de detalhes da atividade que realizavam ou pequenos objetos que manuseavam. Em seguida, fazia-se uma varredura no ambiente, conferindo-se posicionamento e atividades das criancas e, entao, retornava-se ao registro de todo o grupo, com a maior abertura possivel do foco da camera. Por vezes, enquanto o foco era dirigido a um subagrupamento de criancas ou se fazia a varredura da sala, perdia-se o registro de parte do agrupamento social, limitacao imposta ao trabalho pelo fato de que nao se dispunha no ambiente cotidiano da creche de uma camera fixa, instalada no alto da sala, de modo a que todo o grupo fosse registrado durante toda a sessao.

Na segunda situacao de filmagem, as mesmas 12 criancas foram subdivididas em grupos de tres, formando um total de quatro trios. Considerando que as idades dos participantes variavam entre 19 e 31 meses, os trios foram compostos segundo a proximidade de idade entre eles, uma vez que diferencas em meses sao mais marcantes quando as criancas sao pequenas. Deste modo, haveria, presumivelmente, maior chance de compatibilizar interesses nos objetos e nas atividades. As tres criancas mais novas formaram um trio e, assim, sucessivamente. Elas foram convidadas a uma sala onde tinham sido disponibilizados materiais que nao faziam parte do cotidiano da creche, mas, supostamente, propiciavam interesse de manipulacao, tais como: dois tubos de papelao de diametros diferentes, podendo um ser colocado dentro do outro, argolinhas de madeira, palitos de picole, duas varetas (espetinhos de madeira para churrasco), caixas de tamanhos distintos, um pedaco de barbante, pedacos de elastico de espessuras diferentes etc. Estes objetos estavam previamente organizados sobre uma mesa ao redor da qual havia tres cadeiras; um grande espaco da sala encontrava-se livre para a circulacao das criancas.

Cada trio foi videogravado em dois momentos, com um intervalo em torno de 10 dias entre a primeira e a segunda sessao, com duracao media de 20 minutos. Nessa situacao de coleta, o unico adulto presente na sala era a pesquisadora, responsavel por conduzir a filmagem sem orientar as atividades das criancas, informando-lhes, apenas, que podiam brincar do que quisessem com os objetos e brinquedos que estavam ali (dispostos sobre a mesa). Ela tambem fazia algum comentario, nao sugestivo de atividades, de modo a tornar a situacao mais natural.

Essa segunda situacao de observacao, alem de disponibilizar material para a crianca manusear, diferente do que ela dispunha diariamente, permitia a observacao mais acurada dos infantes, uma vez que o foco do registro continuamente era dirigido ao trio. Tornava-se possivel melhor capturar as falas que porventura surgissem nas brincadeiras das criancas, ja que a pesquisadora poderia se localizar mais proximo delas, que predominantemente se concentravam em torno de uma mesinha. Alem disso, menor quantidade de criancas na sala diminui ruidos de movimentacoes e acoes, que sao tambem capturados pela videogravacao.

Procedimento de Analise

As sessoes videogravadas foram observadas diversas vezes visando selecionar episodios. Segundo Pedrosa e Carvalho (2005), episodio diz respeito a um segmento de video que apresenta alguns indicios do fenomeno que se quer estudar. Tendo em vista o objetivo da presente investigacao, foram considerados episodios de analise aqueles segmentos do registro em que era possivel identificar uma brincadeira coordenada. Supunha-se o compartilhamento de significados entre os parceiros a partir das acoes realizadas pelas criancas com orientacao de atencao reciproca. Serviam de indicios: olhar na direcao do olhar do outro, compartilhar objetos, gestos de apontar, expressoes faciais de sorrisos de uma para outra crianca, acoes imitativas, papeis complementares e fala direcionada ao parceiro.

Os episodios selecionados com base nesses indicios foram transcritos e analisados qualitativamente. Foram focalizados os recursos utilizados pelas criancas para se engajarem em brincadeiras coordenadas, examinando como tais recursos implicavam a habilidade de compartilhar intencoes.

Resultados e Discussao

Cada situacao de coleta, certamente, influencia as criancas de modo diferente: a escolha de atividades a serem realizadas por elas se ajusta ao arranjo espacial da sala, ao material deixado sobre a mesa, ao parceiro disponivel para brincar, entre outros aspectos. Optou-se, entretanto, por apresentar os resultados das duas situacoes em conjunto, uma vez que se desejava investigar as estrategias por elas utilizadas para iniciarem e manterem uma brincadeira coordenada cooperativa com parceiros de idade, independentemente do tipo de brincadeira, do objeto que manipulavam etc. A consideracao conjunta das duas situacoes propiciou mais densidade aos achados, na medida em que aos 120 minutos das tres sessoes de observacao do grande grupo (40 minutos por sessao), passou-se a dispor de cerca de 160 minutos a mais, correspondentes a 40 minutos de observacao de cada trio (20 minutos, duas vezes, para cada trio de criancas).

Foram recortados, ao todo, 30 episodios, sendo 16 referentes a primeira situacao de observacao (grande grupo) e 14 correspondentes a situacao de trios. Das 30 brincadeiras coordenadas cooperativas identificadas, 22 tiveram seu inicio com acoes imitativas, quatro foram iniciadas por acao complementar e quatro por linguagem reguladora da atividade do par. De uma maneira geral, portanto, as criancas observadas lancaram mao, preponderantemente, de meios de comunicacao nao verbais para negociar com o parceiro a brincadeira a ser realizada.

As acoes coordenadas cooperativas analisadas qualitativamente revelam a habilidade da crianca para compartilhar intencoes com parceiros de idade, uma vez que se observou o esforco empreendido para negociar o objetivo comum do jogo. Isso implica reconhecer que neste tipo de brincadeira esta subjacente a habilidade cognitiva para perceber o outro como agente intencional com quem a crianca pode construir um objetivo compartilhado.

Alguns exemplos dos dados empiricos ilustram as estrategias utilizadas pelos infantes na construcao e manutencao desses jogos que envolviam corregulacao. As estrategias nao sao "formulacoes bem elaboradas conscientemente, mas consideracoes feitas de modo intuitivo, em uso, postas a prova na interacao e que terao na acao do outro os parametros para os ajustes que se fizerem necessarios a acao propria (resposta)" (Medeiros, 2011, p. 55).

As Estrategias Imitativas

Das 22 acoes coordenadas cooperativas iniciadas por meio de estrategias imitativas, 12 ocorreram na primeira situacao de observacao, enquanto 10 foram observadas na situacao de trio. Em ambos os settings de videogravacao, a imitacao frequentemente envolvia a utilizacao de objetos, sendo recorrente a cena de uma crianca ir em busca de um material similar ao de outra crianca.

Resultados semelhantes foram encontrados por Nadel e Baudonniere (1981), que interpretaram a busca de objeto similar por parte da outra crianca do grupo como sinalizador de um desejo de fazer algo juntas, pelo menos e assim que repercute na primeira crianca (a crianca imitada). Os autores afirmam ser a imitacao o modo preponderante de comunicacao entre criancas do terceiro ano de vida. Nos dados da presente pesquisa, a busca de um objeto similar tambem pareceu comunicar o desejo de interagir com o parceiro; essa motivacao por vezes foi inferida pelo fato de a crianca nao apenas pegar um objeto similar, mas tambem se aproximar do par, trocar olhares e sorrisos. Esses tipos de interacao findavam em imitacoes reciprocas que, paulatinamente, culminavam na emergencia de um significado para a brincadeira em questao.

A brincadeira aqui utilizada para discutir mais minuciosamente a estrategia imitativa ocorreu na primeira situacao de observacao (grande grupo) e foi repetida, por mais tres vezes, com variacoes, nas outras duas sessoes de observacao do grande grupo. Para os propositos da presente pesquisa, o primeiro episodio sera apresentado em detalhes, tomando-o como exemplo empirico da imitacao como estrategia para o engajamento em uma acao coordenada cooperativa. Destaca-se que os nomes das criancas sao ficticios e as notacoes entre parenteses indicam o sexo e suas idades em meses.

Episodio 01--Arremessando objetos na prateleira Nuno (M/24m), Ino (M/24m), Jo (M/27m), Manu (F/31m), Mauri (M/27m), Lalo (M/24m), Bia (F/28m) Nuno e Ino jogam garrafas pela janela. Faz-se uma varredura no ambiente e o foco da camera e desviado da dupla durante alguns minutos. Ao voltar a focalizar o lugar em que Nuno e Ino se encontravam, avista-se Jo, Manu e Ino arremessando garrafas de plastico em duas prateleiras da sala, uma acima da outra. Nuno nao esta mais presente na brincadeira. Apos um tempo, Mauri imita os companheiros e se engaja na atividade. Ele joga a garrafa e acerta na segunda prateleira, que e a mais alta. Mauri sorri e pula, olhando para os parceiros de brincadeira. Lalo se aproxima das criancas e tambem comeca a arremessar garrafas; contudo, seu objetivo parece ser o de arremessar na primeira prateleira: o garoto busca sempre arremessar a mesma garrafa na prateleira mais baixa. Bia chega correndo com um objeto e o arremessa na segunda prateleira; em seguida, derruba todos os objetos que estavam ao seu alcance, na primeira prateleira. Fixa o olhar nos parceiros e se retira da brincadeira. Nesse momento, Lalo comeca a olhar para a segunda prateleira, mas, ao se registrar o detalhe da atividade de outra crianca, esta cena e interrompida por uns instantes. De volta ao foco que inclui Lalo, ele aparece tentando arremessar garrafas na segunda prateleira. A filmagem cessa.

Das sete criancas presentes na cena, podemos dizer que seis demonstram evidencias mais conspicuas de envolvimento numa acao compartilhada: Jo, Manu, Ino, Mauri, Bia e Lalo. As trocas de olhares e sorrisos entre as quatro primeiras criancas sao fortes indicios de que elas estao fazendo algo juntas e nao apenas "em paralelo". Esse tipo de comunicacao nao verbal reforca o argumento de que a interacao nao se restringe a ocorrencia de acoes similares, mas ilustra um compartilhamento de um mesmo proposito de brincadeira, do qual Lalo, mais tarde, tambem passa a fazer parte.

Observa-se que algo ocorrido provavelmente ao acaso --a garrafa ter alcancado a segunda prateleira--transforma o esforco do grupo para a consecucao do mesmo "intento". O riso, os pulos e o concomitante olhar de Mauri dirigido aos parceiros fazem emergir no grupo uma possivel variacao da atividade, um novo desafio: o grupo parece se organizar, ajustando-se a um esforco de acertar as garrafas na segunda prateleira, causando a impressao de que ha um novo objetivo a ser perseguido. Esse entendimento e corroborado ao se observar que o esforco despendido pelas criancas ao jogarem os objetos e acompanhado por sinais expressivos que se evidenciam no decorrer da brincadeira: o olhar das criancas sempre voltado para a prateleira mais alta e os sinais de satisfacao quando esse suposto objetivo e atingido.

Bia nao se engaja de maneira sistematica na brincadeira, como as outras criancas, mas se mostra orientada para a atividade ao arremessar um objeto na segunda prateleira, e ao derrubar todos os objetos da primeira, deixando-a totalmente vazia. Isso parece ter influenciado Lalo, que passa a mudar o alvo dos seus arremessos. De fato, nao havia indicacao de que este compartilhava o objetivo de jogar objetos na segunda prateleira, mesmo quando as outras criancas ja demonstravam ter se ajustado a esse desafio; Lalo parecia fazer uma atividade semelhante a acao das criancas, sem compartilhar precisamente do mesmo objetivo. Contudo, ao longo da sequencia, ele passa a arremessar garrafas na prateleira mais alta. Ha uma especie de refinamento de seu engajamento em uma mesma acao do grupo e isso ocorreu apos Bia ter retirado todos os objetos que estavam na prateleira mais baixa.

Baseando-se nas ideias de Tomasello e de seus colaboradores (Grafenhain et al., 2009; Tomasello, 2003, 2009, 2011; Tomasello et al., 2005; Warneken et al., 2006), acredita-se que esse refinamento, o qual culmina no compartilhamento de objetivos entre os integrantes da brincadeira, torna-se possivel na medida em que a crianca reconhece que o outro age intencionalmente. Se Lalo nao tomasse as acoes dos demais integrantes do grupo como intencionais, nao seria possivel um compartilhamento de intencoes que estabelecesse uma mesma tematica de brincadeira, qual seja, arremessar garrafas na segunda prateleira.

A brincadeira de arremessar ocorreu mais uma vez, na segunda sessao da primeira situacao de observacao (grande grupo), e outras duas vezes na terceira sessao. Contudo, houve variacao no numero de participantes da brincadeira, bem como refinamento de seus objetivos (Carvalho et al., 1998). Na segunda ocorrencia, Lalo, Jo e Ino arremessam objetos na segunda prateleira, embora com uma pequena variacao: os objetos arremessados nao se limitavam mais as garrafas. Na terceira ocorrencia o alvo da brincadeira parece ser a prateleira mais baixa, enquanto na quarta vez que o jogo e retomado duas criancas introduzem outro tipo de variacao: alternancia de turnos entre colocar a garrafa na primeira prateleira e derruba-la.

A repeticao de uma brincadeira ao longo de diferentes sessoes de observacao, em dias diferentes, e mais uma evidencia de que as criancas construiram e compartilharam um jogo comum. As variacoes no jogo ao longo dessas repeticoes sinalizam uma caracteristica basica das acoes compartilhadas: elas operam no modo grupal e nao no modo individual (Grafenhain et al., 2009). Este compartilhamento decorre de um ajuste de acoes a um foco especifico sem que haja, no entanto, uma combinacao previa entre os parceiros.

E interessante perceber que essas mudancas implicam habilidades comunicativas mesmo quando nao ha um acordo verbal. Na base dessas habilidades esta a capacidade de reconhecer que o outro age intencionalmente e que sua mudanca de comportamento durante o jogo comunica uma intencao de mudar o objetivo da brincadeira. Essa intencao passa a ser compartilhada pela estrategia da imitacao: ao imitar a variacao no conteudo do jogo, uma crianca comunica a outra que compartilha a nova proposta. Eckerman e Peterman (2001) afirmam que uma acao imitativa nao e apenas uma duplicacao da acao do par, uma vez que se acrescentam novos elementos que fazem emergir, por vezes, novos significados para a brincadeira.

Essas reconstrucoes dos significados da brincadeira indicam que interacoes sociais possibilitam inumeras construcoes conjuntas, promovendo ampliacoes de acoes outrora estabelecidas e revelando a cultura, seja micro ou macro, como algo essencialmente dinamico. Esse aspecto reforca tambem a ideia de Tomasello (2003, 2009, 2011) de que o compartilhamento de intencoes esta na base das praticas culturais. Pensando na interacao de criancas, ao compartilharem objetivos durante as brincadeiras, elas evidenciam um ativo esforco no processo de construcao e transmissao aos seus pares.

As Acoes Complementares

Um episodio, recortado da situacao em que as criancas brincavam em grupos de tres, servira de ilustracao para a discussao desse tipo de estrategia nao verbal e suas implicacoes na habilidade de compartilhar intencoes.

Episodio 02--Pega-pega com elastico Jo (M/28m), Mauri (M/28m)

Jo comeca a correr em circulo no centro da sala, olhando e sorrindo para Mauri. Este, com um elastico na mao, passa a correr atras dele, configurando uma brincadeira de pega-pega. Ao longo da brincadeira, Jo olha repetidamente para Mauri com sorrisos e gritinhos, enquanto Mauri, sorrindo, continua a segui-lo, tentando encostar o elastico no parceiro, ou entrega-lo. Apos certo tempo, Mauri pega outro elastico e tenta entregar a Jo; este, por sua vez, continua a correr do parceiro. Mauri para de segui-lo e a brincadeira se encerra.

Este episodio e ilustrativo do que Bichara, Lordelo, Carvalho e Otta (2009) denominam dinamica entre universalidade e diversidade, na medida em que as criancas reproduzem a brincadeira tipica de pega-pega em nossa cultura, mas, ao mesmo tempo, criam algo novo ao acrescentar o elastico como um elemento da brincadeira: o jogo e pegar o outro com o elastico. Nao importa se inicialmente a intencao de Mauri foi ou nao a de entregar o elastico a Jo; a reacao deste configurou um jogo de pega-pega, pois assim foi reconhecido por Mauri, que agiu em consonancia com a acao do parceiro.

Percebe-se que as acoes de Jo e Mauri tornam-se papeis complementares uma vez que Mauri assume a funcao de pegador, enquanto Jo, em complementaridade ao significado do jogo, tenta escapar de seu parceiro. Segundo Moll e Tomasello (2007), papeis complementares representam uma forte evidencia de uma atividade compartilhada.

E interessante perceber que Mauri parece atribuir um significado a acao de Jo, que corre em circulos ao redor da sala, e a partir de uma acao complementar constroi um sentido para brincadeira: pegar o colega. Jo parece interpretar que Mauri tem a intencao de pega-lo e por isso ele comeca a correr como se estivesse "fugindo" do parceiro. Se nao houvesse essa compreensao do outro como um ser de intencoes, provavelmente Mauri nao ajustaria seu comportamento as acoes do colega e eles nao chegariam a uma acao coordenada. Pedrosa e Carvalho (2009) apresentaram um forte indicio de atribuicao de intencionalidade de uma crianca a outra ao examinarem um episodio em que a primeira crianca observa a segunda, que tenta, sem sucesso, realizar uma acao; em seguida, a primeira demonstra como fazer, mas poe o objeto na posicao original, criando um espaco para que a parceira a realize.

Com base em Nadel e Baudonniere (1981), e possivel interpretar que, ao ofertar o elastico a Jo, Mauri tinha a expectativa de uma inversao de papeis, como se comunicasse ao parceiro: "agora voce me pega com o elastico". Entretanto, nota-se que a rapidez com que as criancas se engajaram na brincadeira de pega-pega nao ocorre quando o elastico e utilizado como elemento do jogo, provavelmente pelo carater imprevisivel e particular desse novo material na brincadeira.

A recusa de Jo em relacao a oferta do parceiro finda na nao continuidade da brincadeira; e como se, a partir desse momento, os objetivos das duas criancas em relacao ao jogo entrassem em discordancia, fazendo com que um mesmo tema de brincadeira nao mais fosse compartilhado e a acao coordenada cooperativa chegasse ao seu fim. Este fator atesta a necessidade de se negociar objetivos e intencoes para que nao apenas surja um jogo compartilhado, mas para que este possa ser mantido pelas criancas. Utilizando a linguagem de Tomasello et al. (2005), no momento em que uma crianca nao compreendeu ou recusou a intencao da outra, nao foi possivel dar continuidade a acao coordenada, reforcando a ideia de que esse tipo de jogo envolve a habilidade cognitiva de tomar a perspectiva do outro e negociar objetivos com o parceiro.

Comparando esse episodio com os dados da pesquisa de Warneken et al. (2006), nesta ultima, as criancas, principalmente as de 24 meses, fizeram uso frequente de estrategias para reengajar o parceiro (experimentador) na atividade durante um periodo de interrupcao. Em contrapartida, na cena aqui descrita, Mauri, de 28 meses, nao parece se esforcar para fazer com que Jo continue na brincadeira. Entretanto, nao se levanta a possibilidade de uma falta de motivacao para compartilhar a atividade; outras variaveis podem estar envolvidas na situacao interacional. Na medida em que, no estudo de Warneken et al. (2006), nao havia outros brinquedos e parceiros disponiveis, era mais esperado que as criancas, a partir de sua motivacao para brincar cooperativamente com o outro, empregassem mais esforcos para continuar a brincadeira iniciada com o experimentador. Em contraste, no episodio aqui descrito, a presenca de outros brinquedos e outro parceiro funcionava como um recurso para a construcao de novas acoes cooperativas, o que provavelmente fazia com que, em algumas situacoes, a crianca mudasse de jogo com mais frequencia, sem insistir que o parceiro continuasse na atividade desenvolvida inicialmente.

Na secao seguinte, sera ilustrado um episodio em que a conjugacao de diferentes estrategias culmina na permanencia de uma acao coordenada cooperativa que havia se iniciado, originalmente, por meio de linguagem verbal.

Os Recursos Comunicativos Verbais

Quatro episodios tiveram seu inicio por meio de linguagem verbal, mas em outros 11 episodios a utilizacao desse recurso tambem foi observada. Em alguns casos, a fala foi tomada como objeto de imitacao, enquanto em outros, ela deu continuidade a jogos iniciados, em sua maioria, por meio da imitacao. Tal fato levanta indicios acerca dos jogos imitativos serem instigadores de recursos comunicativos verbais, como afirmam Eckerman e Peterman (2001).

Dentre as sete criancas que fizeram uso de linguagem verbal, apenas duas tinham idade acima de 28 meses. Esses dados mostram-se um pouco distintos dos achados de Eckerman e Peterman (2001), as quais enfatizam que o uso da linguagem verbal em acoes coordenadas tem inicio aos 28 meses de idade. Por outro lado, os dados parecem congruentes com a pesquisa de Warneken et al. (2006), que destacam o uso de recursos verbais durante acoes cooperativas, frequentemente presentes em criancas a partir dos 24 meses.

Levanta-se a hipotese de que a utilizacao de tal recurso por criancas mais novas possa ser decorrente do fato de elas, na presente pesquisa, estarem familiarizadas umas com as outras, pois frequentavam a mesma creche e pertenciam ao mesmo grupo etario, bem como do fato de o proprio local onde ocorreram as filmagens ser de uso cotidiano das criancas. Estes aspectos diferenciam-se do estudo de Eckerman e Peterman (2001), o qual foi realizado em laboratorio, de modo a nao haver uma relacao previa entre as criancas participantes da investigacao. No caso do trabalho de Warneken et al. (2006), embora a interacao tambem ocorresse em laboratorio, o parceiro era um adulto com mais recursos interpretativos, o que provavelmente interferiu na interacao da diade.

O episodio aqui utilizado para ilustrar essa discussao ocorreu na primeira situacao de filmagem (grande grupo) e teve seu inicio a partir de linguagem reguladora da atividade do par.

Episodio 03--Carrinho de papelao Ino (M/24m), Bia (F/28m), Manu (F/31m), Lalo (M/24m), Lais (F/23m), Nuno (M/24m), Dede (M/19m) Ino coloca uma garrafa dentro de uma caixa que esta em cima da prateleira; ele tenta puxar a caixa, mas nao consegue. Bia, sentada no canto da sala, o observa; ela se levanta e puxa a caixa, que cai no chao. Manu avista a caixa, aproxima-se e entra nela, falando: "Bia, vem me empurrar". Bia nao atende ao seu pedido. Manu olha pra Jo e diz: "Empurra". Jo comeca a empurrar a caixa em que a amiga se encontra. Lalo, Ino e Lais se aproximam da brincadeira. Lais tenta entrar na caixa, mas Manu nao permite. Nuno chega e tambem observa a brincadeira. Lais comeca a chorar e a bater em Manu. Nuno tenta entrar na caixa e Manu fala: "Nao, sai daqui". Ino e Lalo se afastam. Manu bate na frente da caixa e olha pra Jo; este empurra a caixa e depois para. Dede tenta entrar na caixa e Manu exclama: "Nao!". Dede insiste e Jo bate no menino. Jo, entao, continua empurrando a caixa e Lais continua tentando bater em Manu. Mauri se aproxima da caixa e finge derramar algo sobre ela; Manu pega a garrafa de Mauri. Ino observa e tenta entrar na caixa. Manu reclama: "Voce nao vai entrar"; em seguida afasta as pernas e bate na caixa olhando para Mauri. Jo tenta entrar e e aceito por Manu e Mauri, que ja estavam na caixa. Lais comeca a chorar. A educadora retira a caixa e a brincadeira e finalizada.

Ao falar "Bia, vem me empurrar", sem que esta responda ao convite, Manu olha para Jo e diz: "Empurra". Instaura-se, entao, uma brincadeira coordenada com Jo, pois este, prontamente, atende a solicitacao dela. Jo indica sua motivacao para brincar cooperativamente com a parceira, indo empurrar a caixa.

A corregulacao entre os pares esta presente em toda a interacao, seja em forma de gestos ou de palavras, sendo Manu a crianca que decide quem participa ou nao da brincadeira. Ela bate em Lais cada vez que esta tenta entrar na caixa, sinalizando proibicao. Com outras criancas, entretanto, Manu faz uso de linguagem verbal: "Nao, sai daqui!"; "Voce nao vai entrar".

Essas falas podem ser categorizadas, de acordo com Eckerman e Peterman (2001), como uma regulacao da atividade do parceiro, uma vez que Manu impede que outras criancas entrem na caixa. Ha um jogo de intencionalidades expressas e que precisam ser ajustadas para que a brincadeira ocorra. Lais, Dede e Ino querem entrar na caixa, mas Manu nao quer que eles participem da brincadeira: nao havendo intencoes compartilhadas, nao ha jogo cooperativo entre as criancas. Novamente, fica evidenciado de que modo, durante jogos coordenados, a crianca desenvolve sua habilidade para compreender o outro como agente intencional.

E interessante notar que coexistem formas de comunicacao verbal e nao verbal. A utilizacao de gestos como sinais comunicativos esta presente quando Manu bate na caixa e olha para Jo; este compreende que ela quer que ele a empurre. E provavel que esse sinal de bater na caixa tenha sido compreendido por Jo pelo fato de, em momentos anteriores, Manu ter feito uso da linguagem verbal para comunicar-lhe seu desejo de ser empurrada. Assim, um recurso oral pode ter intermediado a compreensao de um gesto, o qual possibilitou que Jo apreendesse a solicitacao de retomar a brincadeira, indicando um grande ajuste entre as acoes das criancas.

Igualmente, com Mauri, Manu recorre a comunicacao gestual no momento em que afasta as pernas e bate na caixa, olhando para o parceiro que estava em pe fingindo derramar algo sobre sua cabeca, o que faz com que ele entre e sente na caixa. Observa-se, mais uma vez, que Mauri imprime uma intencionalidade a acao de Manu: "ela quer que eu entre na caixa". E, no momento em que ele atende esse pedido, ele passa a compartilhar a intencao de brincar junto com a colega.

E importante ainda destacar o comportamento de Jo, que, ao bater em Dede, parece ajudar Manu em sua intencao de nao deixa-lo entrar na caixa. Moll e Tomasello (2007) destacam que o suporte mutuo e uma caracteristica essencial das atividades cooperativas, as quais envolveriam uma motivacao para ajudar o parceiro. Jo parece ajudar Manu na intencao de continuar a brincadeira de empurrar a caixa sem a presenca de Dede. Isso demonstra que Jo age de forma a cooperar com sua parceira em um objetivo comum.

Conclusao

A maioria dos episodios de acoes coordenadas cooperativas entre criancas de 19 e 31 meses, analisados neste estudo, foi iniciada e mantida por meio de estrategias imitativas. Esses achados trazem uma contribuicao relevante para a area da psicologia do desenvolvimento infantil, na medida em que realcam a interacao e a construcao de jogos ludicos com os parceiros, sem intervencao direta do adulto; este apenas organizou o arranjo espacial da sala e disponibilizou objetos (brinquedos e sucatas) para que elas pudessem manipula-los livremente. Sendo, em sua maioria, criancas do terceiro ano de vida, os resultados nao apenas puseram em destaque a imitacao no percurso ontogenetico infantil, mas trouxeram evidencias de que elas compreendem o outro como agente intencional, ao negociarem e coordenarem com ele um topico comum de brincadeira. Os resultados tambem corroboram o estudo de Pedrosa e Carvalho (2009), que indica a competencia de criancas pequenas para refletirem sobre suas proprias acoes e as de seus parceiros e evidencia a potencialidade de diversos caminhos de aprendizagem. Mostram-se, ainda, coerentes com o trabalho de Nadel e Baudonniere (1981), assim como os de Warneken et al. (2006). Esses autores enfatizam que a partir dos 24 meses ha um maior engajamento em atividades que requerem compartilhamento de intencoes.

Por meio da analise qualitativa empreendida, o estudo aqui realizado permite expandir as ideias de estudos anteriores (Grafenhain et al., 2009; Moll & Tomasello, 2007; Tomasello et al., 2005; Warneken et al., 2006) para a interacao crianca-crianca, sugerindo de que modo os coetaneos compreendem um ao outro como agentes intencionais e negociam um tema de brincadeira. Os achados da presente investigacao revelam, principalmente, que criancas de dois anos sao competentes na construcao de atividades compartilhadas, mesmo quando o parceiro e outra crianca e nao um adulto.

O esforco para ajustar a propria intencao a intencao do par, com vistas ao compartilhamento da brincadeira, leva as criancas a utilizacao de diferentes recursos comunicativos e sociais, que, nos jogos aqui relatados, consistiram primariamente em estrategias imitativas. Assim, parece haver uma relacao reciproca entre comunicacao e compartilhamento de intencoes. Compartilhar intencionalidade exige o uso de recursos comunicativos, ao mesmo tempo em que estes sao aprimorados e complexificados durante as atividades que requerem intencionalidade compartilhada.

Como hipotese explicativa para o uso da integracao de meios verbais e nao verbais de comunicacao por criancas com menos de 28 meses de idade, tem-se a familiaridade entre os parceiros e a observacao de criancas no seu ambiente cotidiano. A familiaridade implica conhecimentos previos ja compartilhados; possivelmente implica tambem negociacoes mais precoces porque os parceiros estabelecem relacoes simetricas, diferentemente daquelas que sao estabelecidas com o adulto, em que este tende a ser benevolente e cuidadoso com os infantes. Esses achados sao sugestivos da necessidade de mais estudos que investiguem as competencias das criancas quando estas interagem com os pares de idade em seu ambiente cotidiano.

Quanto a brincadeira que persistiu ao longo da coleta (Arremessando objetos na prateleira), nao se tem informacao se ocorreram outros episodios apos o periodo de observacao. Importa, entretanto, ter sido identificado, durante o periodo de coleta, que as criancas reinstauraram a brincadeira no grupo, deram-lhe continuidade e a "embelezaram" com novos desafios. O formato do jogo foi rapidamente reconhecido entre as criancas, com chances de introducao de novos adeptos. Enquanto durou, a brincadeira fez parte da microcultura desse grupo de brinquedo.

Esse aspecto da persistencia da brincadeira nao implica que ela esteja imune a alteracoes. Mesmo persistindo e, portanto, sendo reconhecida pelo grupo, preservando um formato de participacao em que acoes sao ou nao pertinentes, a brincadeira pode vir a ser modificada. Isso evidencia sua natureza dinamica, aspecto inerente a qualquer fenomeno interacional, o qual envolve nao apenas construcoes, mas reconstrucoes constantes de significados. Esses achados reforcam a hipotese de Tomasello (2003, 2009, 2011) de que as manifestacoes precoces de habilidades de intencoes compartilhadas estao na base do compartilhamento de praticas culturais.

Em suma, os resultados indicam que a construcao de acoes coordenadas cooperativas envolve a habilidade cognitiva da crianca para compreender o outro como agente intencional: agir coordenadamente significa negociar e compartilhar intencoes. Na faixa etaria analisada, esse compartilhamento baseou-se, sobretudo, em estrategias imitativas, e realcou como o espaco ludico construido na interacao crianca-crianca se constitui como um propulsor do desenvolvimento de habilidades significativas para a ontogenese infantil. Ao permitir que a crianca brinque, reconhecendo sua motivacao intrinseca para brincar e cooperar com seus parceiros, o adulto propicia o envolvimento dos infantes em interacoes fluidas e dinamicas que instigam o uso constante da habilidade de compreender e compartilhar intencoes com os outros.

DOI: 10.1590/1678-7153.201427318

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Recebido: 22/10/2012

1a revisao: 22/01/2013

2a revisao: 20/06/2013

Aceite final: 20/06/2013

Karine Maria Porpino Viana *, (a) & Maria Isabel Pedrosa (b)

(a) University of Oslo, Oslo, Norway & (b) Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Pernambuco, Brasil

* Endereco para correspondencia: Departamento de Psicologia, Universidade de Oslo, Postbox: 1094, Blindern, Oslo, Noruega 0317. E-mail: karinepv@gmail.com e mariaisabel.pedrosa5@gmail.com
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Author:Viana, Karine Maria Porpino; Pedrosa, Maria Isabel
Publication:Psicologia: Reflexao & Critica
Date:Jul 1, 2014
Words:7321
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