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Contributions from an unreflective consciousness theory to a philosophy of freedom on La Transcendance de l'Ego/Contribuicoes de uma teoria da consciencia irrefletida para uma filosofia da liberdade a partir de A transcendencia do Ego.

Introducao

A obra A transcendencia do Ego desempenha um papel fundamental no contexto da instauracao do discurso fenomenologico sartriano, apontando para seu carater intermediario em relacao a passagem do projeto fenomenologico ao projeto etico, sendo este desenvolvido com base nas teses levantadas no texto em questao.

O primeiro ponto desse estudo consiste na breve retomada do posicionamento de Sartre frente a seus principais interlocutores: os estudiosos da escola neokantiana e Edmund Husserl, responsaveis por instaurar a compreensao de fenomenologia como ciencia de estudo e por disseminar suas principais teses, como o problema decorrente da dicotomia "consciencia e mundo".

Em seguida, trataremos da divisao da consciencia em niveis, tendo como foco a importancia do cogito cartesiano na elaboracao da distincao entre consciencia de primeiro grau e consciencia de segundo grau, o que culminara no assunto do topico seguinte, a saber, a consciencia de terceiro grau, e na analise da natureza e da constituicao do Ego como fator responsavel por direcionar a consciencia a apreensao do Eu como objeto que se da no mundo.

Por fim, cabera relacionar brevemente o projeto fenomenologico de Sartre a sua filosofia da liberdade, tendo como base as principais teses desenvolvidos ao longo d'A transcendencia do Ego, como a afirmacao de que o Ego esta situado no mundo e de que o mundo e objeto da consciencia, o que evidencia a passagem de um discurso fenomenologico para uma ontologia que visa apreender o fenomeno de ser apontando para o carater etico decorrente de sua condicao fundamental de existencia: ser-no-mundo.

1 O projeto sartriano frente ao neokantismo e a fenomenologia de Husserl: o problema "consciencia e mundo"

Nosso foco e tratar de alguns aspectos da Fenomenologia no jovem Sartre, suscitada a partir da instauracao da fenomenologia de Husserl e do posicionamento de Sartre frente ao projeto filosofico kantiano, mais precisamente a sua retomada com o neokantismo. E a partir deste posicionamento que surge, entao, o projeto de A transcendencia do Ego, como j a foi exposto, no qual Sartre afirma que o Ego nao e um habitante da consciencia, uma vez que se encontra lancado no mundo. (1)

Cabe explicitar, primeiramente, a maneira pela qual Sartre se posiciona frente a tradicao neokantiana e a fenomenologia husserliana, apontando para a existencia de um sentido "realista" na transcendencia do Ego em relacao ao elemento constitutivo existente em Kant, ultrapassando a validacao do conhecimento kantiano e buscando verificar como o sentido obtem validade como tal.

A esse questionamento surge como resposta a nocao de que, para a fenomenologia, no ato de apresentacao da materia empirica ja ocorre o elemento normativo, nao havendo distincao entre o empirico e o transcendental, o que assinala uma grande distincao entre o projeto kantiano e o projeto fenomenologico. E nesse ponto que reside tambem a divergencia de Sartre em relacao a Husserl, uma vez que este buscou reduzir o problema constitutivo para tentar identificar onde poderia ocorrer, em algum momento, uma hierarquia logica entre o transcendental e o empirico.

Para Sartre, todavia, o transcendental e o empirico formavam uma so coisa, ou seja, aquilo que seria conhecido como um nucleo concreto. Para o existencialismo frances, do qual Sartre fazia parte, o transcendental e o empirico eram indistintos e formavam a concretude das vivencias em fluxo. A nocao de concretude surge enraizada na concepcao de intencionalidade (2), pois esta passa a ser a condicao para que aquela se de. Em outros termos, e na intencionalidade da consciencia, compreendida entao como a atividade realizada pela consciencia enquanto consciencia de algo, que se da a concretude, formada por meio da juncao/indistincao entre o campo das vivencias no mundo da vida (Lebenswelt) (3) e as proprias condicoes de possibilidade de realizacao de tais vivencias.

Com a fenomenologia de Husserl, em grande parte influenciada por seu professor Franz Brentano (4), criou-se uma especie de dualismo entre consciencia e mundo, uma vez que Husserl concebia o mundo como um objeto da consciencia. Havia uma relacao de dependencia mutua entre consciencia e mundo, pois este nao poderia ser concebido sem que uma consciencia lhe desse sentido. As sim, o mundo sem a consciencia cairia numa total obscuridade. De maneira similar, a consciencia sem mundo, para Husserl, tampouco seria possivel, pois ela e marcada pela intencionalidade, devendo ser sempre consciencia de algo, o que faz com que necessite de um objeto para existir. Como Hannah Arendt afirma,

Husserl afirmou que por meio deste desvio pela consciencia e iniciando por uma apreensao completa de todos os conteudos factuais da consciencia (uma nova mathesis universalis) ele seria capaz de reconstruir o mundo que havia se despedacado. Tal reconstrucao do mundo a partir da consciencia igualar-se-ia a uma segunda criacao, ja que nessa reconstrucao seu carater contingente, que e ao mesmo tempo seu carater de realidade, seria removido, e o mundo nao mais apareceria como algo dado ao homem, mas como algo criado por ele (ARENDT, 2002, p. 17).

Trata-se da tentativa de Husserl de recriar o mundo desconstruido pelos filosofos da tradicao idealista alema, que, a partir de Kant, conceberam apenas as condicoes de possibilidade da consciencia empirica, sem estabelecer, contudo, uma consciencia anterior a ela. O que Husserl faz, entao, e estabelecer um estudo acerca da consciencia transcendental e da reducao fenomenologica, que seria conhecida como [phrase omitted], (5) responsavel por suspender todo juizo da consciencia fazendo com que o objeto apreendido se mostre em sua mais plena pureza. Assim, a consciencia transcendental seria responsavel por constituir a consciencia empirica, estando, ao mesmo tempo, submetida a ela.

Reformulando as ideias fenomenologicas de Husserl, Sartre questiona a dicotomia entre consciencia e mundo pondo em foco a existencia de outra consciencia, anterior aquela, capaz de por como objeto a consciencia que tem como objeto o mundo. Trata-se da criacao de niveis de consciencia, o que respondera ao problema da interdependencia entre consciencia e mundo posto pela fenomenologia husserliana.

A primeira etapa, conforme a sistematizacao sartriana, e a consciencia de primeiro grau, que pode ser compreendida como consciencia originaria ou consciencia irrefletida. Tal consciencia e responsavel por por e apreender, num mesmo ato, o objeto. A segunda etapa e a da consciencia reflexiva, ou consciencia de segundo grau, que ocorre a partir do momento em que a consciencia irrefletida, que posiciona o objeto e que toma a si mesma como consciencia nao posicionada, passa a se posicionar, dividindo-se em consciencia reflexionante e consciencia reflexionada. Por fim, tem-se a consciencia de terceiro grau, tambem concebida como esfera do "psiquico". Desse modo, Sartre apresenta tres niveis de consciencia, que estabelecem relacoes internas e a passagem do eu psiquico para o eu psicofisico.

Os estudos acerca do conhecimento voltam-se para a intencionalidade da consciencia, que passa a ser compreendida como um campo transcendental no qual se da a aparicao fenomenica. Tal campo serve de limite para as formulacoes da fenomenologia e se mostra sempre de forma nao categorial, marcado pela agramaticalidade da experiencia antepredicativa em si mesma, isto e, pela recepcao passiva que constitui o mundo da vida e que antecede toda forma de juizo. (6) E com base em tais formulacoes que Sartre chega a nocao de intencionalidade como pura atividade agramatical que funda o empirico, uma vez que o transpassa sem se misturar com ele.

E entao que se evidenciara a passagem que leva Sartre de sua fenomenologia a concepcao de sua moral, tendo por base a nocao de que o Ego esta fora do ambito da consciencia, uma vez que se encontra lancado no mundo. Nao se trata, portanto, de um polo formal unificador das consciencias e das vivencias, tampouco um substrato material para as vivencias psicologicas, ao contrario do que Husserl propos por meio da concepcao de Ego transcendental.

2 A consciencia irrefletida, o cogito e a consciencia refletida

Conforme explicitamos, Sartre responde a questao posta pela fenomenologia husserliana acerca da dicotomia consciencia e mundo sistematizando niveis de consciencia, a partir dos quais seria possivel conceber a principal tese de sua obra A transcendencia do Ego: de que o Ego esta situado no mundo.

Para estabelecer a divisao da consciencia (ou das consciencias) em niveis, Sartre utiliza o cogito cartesiano como ponto de partida. E a partir da afirmacao "Penso, logo existo" (Cogito, ergo sum) que Sartre concebe a existencia da consciencia de segundo grau, isto e, o cogito representa a constatacao de uma consciencia que apreende a si mesma enquanto atividade. Em outros termos, com a consciencia de primeiro grau, irrefletida, o "si" nao era posto no plano do objeto, uma vez que esta e incapaz de refletir acerca de si mesma de forma posicional; com a existencia do cogito (uma consciencia capaz de colocar a si mesma como objeto posicional) surge a nocao de uma consciencia anterior a consciencia irrefletida, capaz de apreender a si mesma. Alem disso, quando tomada como atividade, passa a ser consciencia de primeiro grau. Como mostra a citacao,

como ponto de partida, nao pode existir outra verdade senao esta: penso, logo existo; e a verdade absoluta da consciencia que apreende a si mesma. Qualquer teoria que considere o homem fora desse momento em que ele se apreende a si mesmo e, de partida, uma teoria que suprime a verdade, pois fora do cogito cartesiano, todos os objetos sao apenas provaveis e uma doutrina de probabilidades que nao esteja ancorada numa verdade desmorona no nada; para definir o provavel, temos que possuir o verdadeiro. Portanto, para que haja uma verdade qualquer, e necessario que haja uma verdade absoluta; e esta e simples e facil de entender; esta ao alcance de todo mundo; consiste no fato de eu me apreender a mim mesmo, sem intermediario (SARTRE, 1987, p. 15).

Sartre evidencia o carater absoluto da verdade existente no cogito cartesiano. Noutros termos, o fato de o individuo ser capaz de apreender a si mesmo como consciencia que toma a si como objeto e o pressuposto para se compreender seu projeto fenomenologico, o que culminara em sua ontologia fenomenologica, o que sera mostrado adiante.

Apos formular, sob a influencia do cogito cartesiano, a divisao em niveis da consciencia, Sartre mostra o que seria esta consciencia de primeiro grau, conhecida tambem como consciencia irrefletida: trata-se de uma consciencia que tem por atividade ser consciencia de um objeto transcendente, sua existencia e marcada pelo fato de ser consciencia apenas do objeto que se mostra a ela, apreendendo o concreto (em-si), no momento ontologico do modo de aparicao. Em outros termos

a certeza do cogito e absoluta pois, como diz Husserl, ha uma identidade indissoluvel da consciencia reflexionante e da consciencia refletida (na medida em que a consciencia reflexionante nao saberia existir sem a consciencia refletida). Nao resta duvida que estamos em presenca de uma sintese de duas consciencias em que uma e consciencia da outra (SARTRE, 2010, p. 191).

Dessa forma, a consciencia irrefletida conhece a si mesma como interioridade absoluta. Esta, por sua vez, e uma consciencia axiomatica, irreferencial, prescinde de uma gramaticalidade na medida em que e indice/referencia dela mesma. Sendo plena, o "si" da consciencia irrefletida esta no plano da atividade. Logo, a atividade da consciencia irrefletida corresponde ao "eu" da refletida, uma vez que este se da como um "falso objeto". Contudo, cabe ressaltar que apesar de o Ego ser posto como objeto para a consciencia, ele (o ego) nao pode ser determinado como um habitante da consciencia em questao, na medida em que e dado como uma presenca material, pois determina, de fora, o escopo e a estrutura da consciencia--o ego transcendental e um ponto fora do fluxo da consciencia, necessario para que se de o modo de aparicao.

Percebe-se que Sartre partiu da tese cartesiana do cogito para fundamentar a existencia de uma consciencia anterior aquela que poe e apreende os objetos dados no mundo. A consciencia cuja marca constitutiva e ser consciencia de um objeto transcendente Sartre deu o nome de irrefletida. Ja a consciencia oriunda do posicionamento de si propria enquanto consciencia foi denominada de refletida e e esta a responsavel por posicionar a consciencia do sujeito pensante como um objeto para si propria no cogito. Cabe, agora, pensar essa teoria acerca dos niveis de consciencia em relacao a conclusao de que o Ego esta situado no mundo. Para tal, sera necessario, primeiramente, compreender o seguinte trecho:

Husserl e o primeiro a reconhecer que um pensamento sofre uma mudanca radical tornando-se reflexivo. Mas cabe necessariamente limitar esta modificacao a uma perda de "ingenuidade"? O essencial da mudanca nao seria a aparicao do Eu? E necessario evidentemente recorrer a experiencia concreta e ela pode parecer impossivel, ja que, por definicao, uma experiencia deste genero e reflexiva, isto e, provida de um Eu. Para isto basta procurar reconstituir o momento completo em que aparece esta consciencia irrefletida (o que e, por definicao, sempre possivel) (Idem, p. 191-2).

A grande importancia da aparicao do Eu a consciencia da-se na medida em que esta passa a ser considerada refletida, ou reflexiva. Para examinar como ocorre a aparicao do Eu a consciencia, Sartre propoe uma retomada na analise acerca da consciencia irrefletida: ocasiao em que o Eu ainda nao ocupava posicao na consciencia. Ao procurar reconstituir o momento no qual se constitui a aparicao de um dado objeto transcendente, nao se faz necessario posicionar a consciencia irrefletida como objeto da reflexao, pois, no momento em que tal consciencia poe e apreende o objeto, o unico foco dessa consciencia e o objeto que esta sendo apreendido como fenomeno. Para exemplificar tal problematica, Sartre cita o momento em que se esta lendo um livro: enquanto o livro esta sendo lido, a consciencia toma por objeto apenas o livro, seus personagens, sua historia; assim, o Eu que estava lendo o livro nao habitava essa consciencia como objeto, uma vez que esta era apenas consciencia do objeto (nesse caso, do livro) e consciencia nao posicional dela mesma. Noutras palavras, na consciencia irrefletida nao havia o Eu, do que decorre que, para que o Eu se de como objeto da consciencia, esta deve tomar a si mesma como objeto, como ocorre no cogito cartesiano, no qual a consciencia se torna objeto de outra consciencia, anterior categoricamente, aquela, que nao possui categorias. Porem, cabe ainda questionar como se da essa apreensao do Eu pela consciencia de segundo grau, como ocorre no cogito. Para tal, cabe citar uma passagem de Sartre, na qual ele pergunta: quando uma consciencia reflexiva apreende o Eu penso, e dado a ela apreender uma consciencia plena e concreta recolhida em um momento real da duracao concreta? (Ibidem, p. 194).

Esse questionamento poe em foco o posicionamento de Sartre frente as concepcoes de um Eu cujo modo de existencia se daria como habitante da consciencia, e de um Eu como substrato material para as vivencias. O Eu nao se da como habitante da consciencia na medida em que nao ocorre como um momento concreto. Nao se trata, portanto, de uma estrutura captada pela consciencia durante o modo de aparicao: o Eu esta alem de todas as consciencias, ele nao aparece para a reflexao como consciencia refletida: ele se da por meio da consciencia refletida (Ibidem, p. 195). Logo, o Eu possui uma existencia concreta, real, o que faz dele um existente, cujo modo de ser e transcendente. Todavia, cabe salientar que o Eu so aparece a partir do ato reflexivo, como uma especie de elemento decorativo, que so se mostra quando nada realiza--o Eu constitui o objeto transcendente do ato reflexivo, enquanto que nos atos irrefletidos o que ocorre e uma reflexao sem o Eu.

Com a distincao entre dois tipos de consciencia capazes de realizar acoes diversas, cabe agora examinar uma questao que diz respeito a estrutura dos atos reflexivos, assim como tambem a dos atos irrefletidos. Sabe-se que a estrutura de acao da consciencia refletida e tomar a consciencia como objeto, posicionando-a. Ja a consciencia irrefletida tem por estrutura a apreensao de um objeto transcendente que ela mesma poe, isto e, a consciencia irrefletida volta-se apenas para o objeto que esta sendo apreendido no momento do modo de aparicao.

Para descrever tal atividade, Sartre cita n'A transcendencia do Ego o exemplo da consciencia que apreende Pedro precisando de socorro. Para a consciencia o unico objeto existente naquele momento e "Pedro-que-deve-ser-socorrido", em outros termos, a consciencia volta-se apenas para a necessidade de socorrer Pedro sem se posicionar a si mesma como objeto. Assim, o fato de Pedro precisar de socorro impulsiona a consciencia como uma especie de forca motriz, levando-a a acao de socorrer Pedro. Conclui-se, portanto, o que ja havia sido formulado anteriormente: nao ha um Eu na consciencia irrefletida, pois se trata de uma consciencia impessoal. Como afirma Franklin Leopoldo e Silva,

nao ha, pois, Eu no plano da consciencia irrefletida: ha o apelo dos objetos, estou no mundo dos objetos e sao eles que constituem a unidade que posso encontrar na consciencia que deles tenho. Nao se trata de uma desatencao momentanea do Eu para consigo mesmo, trata-se da estrutura da consciencia (SILVA, 2004, p. 41).

Percebe-se que a consciencia irrefletida nao necessita posicionar-se a si mesma como objeto para existir, ela e autorreferencial, e indice de si mesma. Para existir, tal consciencia nao precisa de uma reflexao, basta a existencia de um objeto para preencher seu vazio constitutivo. Assim, a consciencia e vazia porque e sempre plena de algo que nao e ela mesma; e preenchida por um objeto transcendente que a requisita para a obtencao de sentido. E desse modo que a consciencia irrefletida assinala uma prioridade ontologica sobre a consciencia refletida, uma vez que esta so pode existir a partir de uma reflexao, o que depende da consciencia de segundo grau. Nas palavras de Sartre:

sem duvida, pode-se conceber que uma consciencia apareca imediatamente como refletida, em certos casos. Mas assim mesmo, entao, o irrefletido tem prioridade ontologica sobre o refletido uma vez que ele nao tem nenhuma necessidade de ser refletido para existir e que a reflexao supoe a intervencao de uma consciencia de segundo grau (SARTRE, 2010, p. 199).

A consciencia irrefletida diferencia-se, dessa forma, da refletida pelo fato de ser autonoma e impessoal. Alem disso, a qualidade do desejo irrefletido e de se transcender a medida que apreende no objeto a qualidade desejavel (Idem, p. 199). E no plano irrefletido que ocorrem as acoes altruistas, por exemplo: eu socorro Pedro porque ele deve ser socorrido, esta diante de mim como um objeto que necessita de socorro, para que minha consciencia tome este fato como objeto e me leve a socorrer Pedro nao e necessaria nenhuma reflexao, basta a apreensao do "adiante-para-ser-socorrido", como coloca Sartre.

E com base em tais conclusoes acerca das concepcoes de consciencia refletida e consciencia irrefletida que surge a necessidade de se pensar o projeto etico sartriano. A consciencia irrefletida esta diretamente ligada a um projeto altruistico na medida em que dispoe o ser humano ante a um dever, ao qual e impulsionado antes mesmo que ocorra o plano da reflexao. Tomando como base tais afirmacoes, cabe agora questionar: em que ponto e de que forma a teoria acerca da existencia de niveis de consciencia formulada por Sartre contribui para uma filosofia voltada a liberdade do individuo e a sua moral? Como, ainda, relacionar a teoria de uma consciencia irrefletida com a conclusao obtida por Sartre de que o Ego estaria no mundo, e nao, como se supunha, na consciencia? Para tal, cabe examinar, primeiramente, a natureza e a constituicao do Ego, pois ao tracar as estruturas correspondentes as consciencias refletidas e irrefletidas, ficou demonstrado o fato de o Eu ser passivel de ser captado apenas pela consciencia reflexiva, sendo, portanto, existente e transcendente; sua realidade e similar a realidade dos objetos, apesar de serem diferentes, o que fica claro a partir do seguinte trecho:

o Eu e exterior a consciencia espontanea e captado apenas sempre pela consciencia reflexiva. Nao e originario. O que pode ser dito tambem em outras palavras: o Eu e um existente e sua realidade transcende a consciencia, tal como a realidade dos objetos, dos quais ele evidentemente se diferencia (SILVA, 2004, p. 41).

3 Natureza e constituicao do Ego e consciencia de terceiro grau

Apos tracar as diferencas existentes entre o plano refletido e o irrefletido, cabe agora questionar o modo de aparicao do Ego, bem como sua natureza e sua constituicao. Como foi suscitado no fim do topico anterior, o Ego e caracterizado por ser captavel apenas pela consciencia reflexiva, ou de segundo grau; ele possui existencia real e transcende a consciencia. Como, entao, Sartre chega a tais conclusoes?

N'A transcendencia do Ego, Sartre questiona como se da sua presenca na consciencia, isto e, se se trata de um principio de unificacao ou de uma presenca real, estando ambos relacionados a suposicao do Ego como habitante da consciencia. Assim, o Ego, que e a juncao do Eu e do Mim (je + moi), e considerado um objeto, pois transcende a consciencia durante sua apreensao. Por ser objeto, o Ego possui uma aparencia passiva, na medida em que alem de ser apreendido ele tambem e constituido pela consciencia reflexiva. E no objeto Ego que a consciencia projeta sua propria espontaneidade. Contudo, o Ego tambem possui um aspecto ativo, pois produz os estados existentes nele. Ao ser produtor dos estados e tambem passivo, o Ego e capaz de sofrer um contrachoque oriundo dos estados por ele criados, transformando-se numa sintese de passividade e atividade.

Alem de produzir seus estados, e Ego tambem e responsavel por sustentar suas qualidades, produzindo uma espontaneidade conservadora. Trata-se de uma espontaneidade de certa forma "encantada" (SARTRE, 2010, p. 212) que, mesmo possuindo um aspecto racional, guarda ainda um fundo de inteligibilidade, uma especie de "procissao magica" que culmina na seguinte conclusao: a espontaneidade do Ego escapa de si mesmo, sendo este sempre ultrapassado por aquilo que produz, ainda que o Ego e sua producao sejam o mesmo. (7) Como Sartre afirma,

a ligacao que ele poe e perfeitamente irracional porque o produtor e passivo em relacao a coisa criada. (...) E nos compreendemos o sentido disso: o Ego e um objeto apreendido mas tambem constituido pela consciencia reflexiva. E um lar virtual de unidade, e a consciencia o constitui em sentido inverso aquele que segue sua producao real: o que e realmente primeiro sao as consciencias, por meio das quais se constituem os estados, depois, mediante os estados, o Ego. Mas como a ordem e invertida por uma consciencia que se aprisiona no Mundo para escapar de si, as consciencias sao dadas como emanando dos estados e os estados como producidos pelo Ego. Segue-se que a consciencia projeta sua propria espontaneidade no objeto Ego para lhe conferir o poder criador que lhe e absolutamente necessario (SARTRE, 2010, p. 213).

A passagem supracitada assinala diversos aspectos importantes acerca da constituicao do Ego, a saber: a irracionalidade existente na relacao entre produtor e producao, uma vez que o produtor e passivo, e nao ativo como deveria ocorrer no processo de criacao; o fato de o Ego ser responsavel por unificar e, ao mesmo tempo, produzir, os estados e acoes; e, por fim, de ser considerado o objeto no qual a consciencia projeta sua espontaneidade, conferindo-lhe, "magicamente", seu poder criador. Assim, a capacidade de uma passividade criar outra passividade de maneira espontanea, como ocorre no Ego, tem como fundo a permanencia de uma lembranca da espontaneidade da consciencia, responsavel por transferir ao objeto o poder criador. (8) A consciencia confere tal capacidade ao objeto, neste caso ao Ego, porque esta aprisionada no Mundo em um movimento de fuga de si mesma, uma vez que o "si" da consciencia aparece como o objeto que se poe na aparicao. E por esses motivos que o Ego e passivel de ser afetado e a consciencia nao: nada age sobre a consciencia porque ela e a causa de si mesma. Ja em relacao ao Ego, alem de sofrer o contrachoque citado anteriormente, os estados e acoes voltam-se sobre Ele a fim de qualifica-lo.

A relacao Ego-consciencia e marcada por dois fatores: intimidade e indistincao. Intimidade na medida em que o Ego ocorre como se fosse intimo a consciencia, dela se diferindo apenas por sua opacidade, que sera a marca constitutiva da indistincao, ou seja, de uma interioridade vista de fora ou, em outros termos, de uma projecao degradada da interioridade. Dessa forma, trata-se de uma intimidade/interioridade que e exterior aquilo a que se refere, o que faz do Ego tambem uma sintese de interioridade e transcendencia: para conhecer-se e necessario tomar para si o ponto de vista do outro. (9)

A irracionalidade presente nas relacoes das quais o Ego faz parte, juntamente a ligacao "magica" pela qual se da a espontaneidade desta consciencia, correspondem aquilo que sera denominado consciencia de terceiro grau, na qual impera o dominio do psiquico. Tal dominio e considerado nao-fenomenologico, uma vez que seu objeto e o corpo e este possui um carater mistificador. Assim, o instrumento para investigacao do campo psiquico sera aquilo que Sartre denomina reflexao impura, que ocorre na medida em que um vivido imediato existente no campo irrefletido passa a situar-se no campo psiquico, isto e, tal reflexao engloba o vivido imediato no campo psiquico. Como exemplo, cabe citar a relacao entre o odio e a repulsa exposta por Sartre: sendo o odio um estado, este se da como intermediario entre o corpo e o vivido, assim, a relacao do odio ao vivido particular de repulsa nao se da logicamente, mas por meio de uma ligacao "magica", uma vez que a repulsa surge a reflexao como uma emanacao espontanea do estado, neste caso, do odio. Sao tais relacoes que marcam a irracionalidade presente na esfera do psiquico. Sua atividade difere-se da reflexao pura, pois nao rastreia o momento originario em que uma aparicao se manifesta como sentido. Em outros termos, no psiquico nao se questiona como se da a emergencia do sentido, isto e, o momento originario da vivencia.

Sendo o Ego uma unidade transcendente de estados e acoes, surge a necessidade de se conceber um intermediario entre eles: a qualidade. Esta se caracteriza como uma disposicao psiquica e, enquanto tal, como um objeto transcendente, que representa o substrato dos estados como os estados representam o substrato dos vividos (Erlebnissen) (10) (Idem, p. 206). Cabe explicitar as diferencas essenciais entre a qualidade e o estado, a saber, o estado e unidade noematica (11) de espontaneidades, a qualidade e unidade de passividades objetivas (Ibidem, p. 207). Ou seja, quando nao se tem a consciencia do odio, este ocorre como existente em ato.

O motivo de unir em um so topico a consciencia de terceiro grau e a natureza do Ego consiste no fato de este aparecer a reflexao como um objeto que realiza uma sintese permanente do psiquico, estando, ao mesmo tempo, ao lado dele, pois se trata de um Ego psiquico--nao psicofisico. O Ego e transcendente aos estados que unifica, tornando-se uma totalidade infinita de estados e acoes. Logo, o Ego esta para os objetos psiquicos assim como o Mundo esta para as coisas (Ibidem, p. 209). Por estar situado junto ao psiquico, o Ego aparece como um objeto de natureza duvidosa, ele so aparece quando nao e olhado, em outros termos, o Ego so aparece no horizonte, atras do estado, quando o olhar reflexivo se fixa sobre a vivencia. Quando se pretende alcanca-lo sem atravessar a vivencia e o estado, diretamente, voltando-se para ele, o Ego se esvai. Nas palavras de Sartre: procurando apreender o Ego por ele mesmo e como objeto direto de minha consciencia, eu caio sobre o plano irrefletido e o Ego desaparece com o ato reflexivo (Ibidem, p. 218). A partir dai, percebe-se que o Ego possui uma natureza fugidia, e que, quando fixado em si mesmo, passa do plano refletido ao irrefletido, degradando-se mediante a perda de sua intimidade com a consciencia.

No plano refletido, isto e, na consciencia refletida, o Ego atua realizando uma sintese de imanencia e interioridade. Ja por meio da intuicao o Ego sintetiza transcendencia e intimidade, e, no psiquico, unifica os estados e acoes tendo como agente intermediario a qualidade. Ao cair para o plano irrefletido, com a consciencia de primeiro grau, o Eu-conceito passa a se constituir de um vazio transcendente, marcado pela perda da intimidade. Assim, o corpo passa a ser considerado um preenchimento ilusorio deste Eu, situando-se no dominio do psicofisico.

Com a passagem para o eu psicofisico e o retorno a consciencia irrefletida, apos estruturar a constituicao do Ego, cabe agora examinar em que sentido o ato de por e apreender o objeto da consciencia irrefletida esta relacionado ao engajamento proposto por Sartre em seu projeto etico. Tais assuntos serao brevemente abordados no topico seguinte desse estudo, que apresentara as possiveis conclusoes acerca dos assuntos ja abordados.

4 Como a teoria da consciencia irrefletida contribui para uma filosofia da liberdade

Resumidamente, Sartre partiu da fenomenologia de Husserl para elaborar o seu projeto fenomenologico: assimilou a nocao de intencionalidade visando estabelecer a maneira pela qual se daria o modo de aparicao, a apreensao da realidade, e o problema concernente a dicotomia consciencia e mundo, visando, por fim, alcancar um proposito etico.

Da nocao de intencionalidade surgiu a necessidade de repensar o cogito cartesiano, aplicando-lhe o metodo fenomenologico. Assim, chegamos a duas conclusoes: primeiro, a consciencia e vazia porque esta sempre preenchida de algo que nao e ela mesma, ou seja, de um objeto transcendente que necessita da consciencia para obter sentido, tal consciencia, responsavel por por e apreender num mesmo ato o objeto, foi denominada consciencia irrefletida, ou de primeiro grau; segundo, a consciencia responsavel por apreender a consciencia do "Eu penso" no cogito cartesiano foi denominada consciencia reflexiva, ou consciencia de segundo grau. A diferenca crucial entre ambas e o fato de que a consciencia irrefletida e consciencia nao-posicional de si mesma, enquanto que a reflexiva posiciona o "si" de si mesma como objeto.

Dos dois niveis de consciencia ja mencionados Sartre parte para a elaboracao de um terceiro nivel, denominado consciencia de terceiro grau, ou, em outros termos, psiquico, regiao marcada pela irracionalidade e pela presenca de ligacoes peculiares nas relacoes entre o Ego e seus estados, qualidades e acoes, na medida em que o Ego os unifica juntamente as vivencias. Com o estudo do dominio do psiquico, chega-se a conclusao de que o Ego so pode ser apreendido por meio da consciencia irrefletida, isto e, no momento em que a consciencia apenas se volta ao objeto, sem fixa-lo diretamente.

Se o Ego so pode ser apreendido em si mesmo pela consciencia irrefletida, conclui-se que sua existencia e situada no Mundo, uma vez que compartilha com os demais objetos a "objetualidade" e a realidade que o caracterizam tambem como um objeto transcendente. Em outros termos, o Ego nao e um habitante da consciencia como se supunha ate entao, mas um objeto que esta lancado no mundo, em meio a contingencia, a espera de uma consciencia que lhe conferira sentido no instante em que o apreender. Dessa forma,

ser e explodir para dentro do mundo, e partir de um nada de mundo e de consciencia para subitamente explodir-como-consciencia-no-mundo. Se a consciencia tentar se reconstituir, coincidir enfim consigo mesma, entao imediatamente, a portas fechadas, se aniquilara (SARTRE, 2005, p. 55).

Outro ponto importante que corrobora a elaboracao do projeto etico sartriano no esteio da fenomenologia e a concepcao de exterioridade do Eu: a afirmacao de que o Eu e sempre lancado para fora, no mundo. Como consequencia de tal afirmacao surge a conclusao de que o conhecimento de si proprio advem apenas do ponto de vista alheio. Se se concebe, entao, que o Eu e exterior, o individuo deixa de ter certeza de seu proprio Eu, isto e, gera-se uma inseguranca perante o fato de meu Eu ser exterior como os dos outros individuos. Sendo o Ego um ser no Mundo, nossa existencia e projetada para um agir-no-mundo, uma vez que a consciencia precisa de tal Mundo para existir, preencher-se, completar-se; e o Mundo precisa da consciencia para obter sentido.

A nocao de Ego como ser-no-mundo une-se tambem a concepcao de espontaneidade da consciencia como algo originario, em detalhes: na medida em que a espontaneidade da consciencia desvela o fato de esta nao poder ser de outro modo que nao o de si propria, a consciencia aprisiona a si mesma em sua propria lucidez, fazendo com que o individuo seja "obrigado" a ser livre, pois e pleno de uma consciencia lucida acerca de si mesma como projecao de um Ego que esta situado em um Mundo, dai resulta o fato de o Ego ter-que-ser um ser-no-mundo. A consciencia projeta-se no Ego e, por consequencia, no Mundo, a fim de escapar de si mesma, desse estado pleno de lucidez e espontaneidade que a remete a uma constante angustia oriunda da contingencia que perpassa o individuo frente a liberdade que lhe aparece como uma fatalidade causada por sua propria consciencia. Como afirma Franklin Leopoldo e Silva,

sendo o Eu exterior, nao estou mais seguro do meu proprio Eu do que da egoidade dos outros, pois o meu Ego e um ser no mundo, assim como o de todos os outros. Mas, seguramente porque a espontaneidade da consciencia aparece como originaria, isto e, a liberdade aparece como se fosse uma fatalidade, algo de que nao podemos escapar, a consciencia constitui o Ego e nele se projeta como para escapar de si mesma, da propria espontaneidade que, por nao se reportar a nenhum solo fundador, e angustiante pelo que apresenta de instavel e movedica (SILVA, 2004, p. 45).

Dessa forma, o fato de a consciencia ter que ser como e e nao poder ser de outro modo assinala que esta tem a si mesma como base, ou seja, so pode encontrar sentido para sua existencia em si propria e nao nas coisas alheias, pois nesse caso ela estaria fugindo de sua espontaneidade, aprisionando-se, negligenciando a liberdade que lhe e propria e constitutiva: a liberdade nao e, com efeito, uma qualidade da consciencia, ela e a propria existencia, anterior a toda definicao ou determinacao (DARTIGUES, 2005, p. 88-9).

Porem, cabe ressaltar que essa liberdade constitutiva da existencia so e possivel quando inserida no mundo, isto e, e necessario que haja um mundo para que se de a existencia, e assim, a liberdade. Estando o Ego lancado no mundo e sendo esse mesmo Ego responsavel por se projetar na consciencia, o mundo e indiretamente tambem projetado na consciencia; e vale ressaltar: nao apenas projetado, como tambem posto e apreendido pela consciencia, na medida em que o Mundo se constitui como correlato da consciencia e tem como fio condutor para tal correlacao o Ego. Como correlato do Mundo, a consciencia e responsavel por desvelar a contingencia do individuo compreendido como ser-no-mundo 12; a consciencia traz ao mundo as possibilidades oriundas do carater de pura possibilidade do Eu, caracteristico da liberdade que lhe e imposta.

Com a concepcao de que o individuo e constituido de algo que lhe e exterior, findou-se, entao, o dualismo que costumava opor interioridade e exterioridade, como se o exterior nao pudesse proporcionar conhecimento da interioridade. Noutras palavras, com o Ego lancado no mundo, o individuo, a fim de se conhecer, passou a ter a necessidade de trazer para si o ponto de vista do outro, projetando suas acoes com base neste mundo ao qual esta inserido. Assim, foi a representacao do Ego o fator responsavel por trazer as questoes eticas ao discurso fenomenologico proposto por Sartre.

A ontologia fenomenologica sartriana foi concebida como meio de responder a dicotomia problematizada por Husserl entre transcendental e empirico, uma vez que para Sartre ambos se uniam para formar aquilo que seria denominado concretude. Com tais afirmacoes, o ser tambem passou a ser concebido como aquilo que se dava no modo de aparicao, fazendo com que a fenomenologia fosse compreendida e utilizada como um metodo, e nao como uma ciencia de rigor tal como propunha Husserl. Foi assim que o ser passou a ser posto pela consciencia por meio de sua intencionalidade, dai a frase que serve de titulo a obra A transcendencia do Ego: a afirmacao de que o Ego e um objeto transcendente que e posto e apreendido, num mesmo ato, pela consciencia irrefletida, que se situa no mundo como pura atividade.

5 Consideracoes finais

Procuramos mostrar como a divisao da consciencia em niveis corroborou para a elaboracao de um projeto etico cujo fator principal e a liberdade. Assim, a consciencia irrefletida, como consciencia nao posicional dela mesma, apenas poe e apreende os objetos transcendentes. Nesse ato realizado pela consciencia por meio de sua intencionalidade, visa-se apenas o objeto que esta sendo posto e apreendido. E entao que o Eu aparece: no plano irrefletido.

A consciencia irrefletida apreende o Eu porque a existencia humana pressupoe a sua propria insercao no mundo, isto porque o Ego esta no mundo e nao na consciencia como se costumava supor. Percebe-se, entao, que o Eu aparece no plano irrefletido porque a consciencia irrefletida, enquanto objeto da consciencia de segundo grau, esta no mundo como pura atividade.

Se o individuo deve ser compreendido como ser-no-mundo porque este e o objeto da consciencia irrefletida, o Ego so pode estar lancado no mundo e, portanto, sujeito a espontaneidade da consciencia que projeta no individuo uma liberdade que deve ser necessariamente assumida, como uma especie de imperativo etico. Em outros termos, o individuo esta fadado a ser livre porque a consciencia se autoprojeta no mundo, gerando o fator determinante da liberdade e constitutivo da contingencia: a possibilidade.

Logo, tendo o mundo como objeto, a consciencia percebe o que Sartre denomina de fatalidade da espontaneidade e passa a se angustiar na medida em que assume o fato de seu Eu ser apenas um objeto transcendente que participa das possibilidades do mundo que lhe aparecem como alternativas, opcoes que ele deve escolher porque e livre. (13) Seu Eu nao e, portanto, mais certo que os demais, o que obriga a consciencia irrefletida a determinar-se, instantaneamente, como uma existencia impessoal.

Referencia Bibliografica

ARENDT, Hannah. "O que e a filosofia da Existenz?" In: A dignidade da politica: ensaios e conferencias. Traducao de Helena Martins e outros. Rio de Janeiro: Relume-Dumara, 1993.

DARTIGUES, Andre. O que e a fenomenologia? Traducao de Maria Jose J. G. de Almeida. Sao Paulo: Centauro, 2005.

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MOURA, Carlos Alberto Ribeiro de. "Prefacio". In: HUSSERL, Edmund. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenologica: introducao geral a fenomenologia pura. Traducao de Marcio Suzuki. Aparecida, SP: Ideias e Letras, 2006. (Colecao Subjetividade Contemporanea).

SARTRE, Jean-Paul. "A transcendencia do Ego esboco de uma descricao fenomenologica". In: Cadernos Espinosanos / Estudos sobre o seculo XVII. Vol. XXII. Traducao de Alexandre de Oliveira Torres Carrasco. Sao Paulo: Departamento de Filosofia da FFLCH-USP, 2010.

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ZAHAVI, Dan. A fenomenologia de Husserl. Traducao de Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita, 2015.

D01: 10.12957/ek.2018.39631

Dnda. Deborah Moreira Guimaraes

deborahkiedis@hotmail.com

Universidade Federal de Sao Paulo

Esse artigo e resultado das pesquisas feitas durante o periodo de cumprimento dos creditos necessarios a pos-graduacao, sobretudo, por ocasiao das disciplinas de Metafisica e Filosofia Contemporanea, em 2012 (Sartre) e em 2015 (Husserl).

(1) Cf.: "Pretendemos mostrar aqui que o Ego nao esta nem formalmente nem materialmen te na consciencia: ele esta la fora, no mundo, e um ser do mundo, como o Ego do outro" (SARTRE, 2010, p. 183).

(2) A nocao de intencionalidade foi elaborada por Husserl como a atividade que a consciencia realiza, trata-se de sua marca constitutiva: o fato de a consciencia sempre ter que ser consciencia de algo, a fim de preencher seu vazio, por meio da sintese das vivencias em fluxo na vida. Assim, a consciencia e vazia porque e sempre plena de algo diferente dela mesma. Conferir, por exemplo: SARTRE, Jean-Paul. "Uma ideia fundamental da fenomenologia de Husserl: a intencionalidade". In: Situacoes I. Traducao de Cristina Prado. Sao Paulo: Cosac Naify, 2005.

(3) A expressao "mundo da vida" (Lebenswelt) foi cunhada por Husserl para se referir ao mundo das vivencias pre-teoricas, isto e, ao mundo no qual impera a experiencia antepredicativa, no qual os sentidos ja aparecem como dados na concretude que caracteriza as vivencias cotidianas.

(4) Franz Brentano (1838-1917) e considerado um dos grandes responsaveis pelo surgimento da fenomenologia. Entre suas obras, cabe destacar a "Psicologia do ponto de vista empirico", publicada em 1874.

(5) Proveniente do grego, o termo erco%n (epoche) significa, de modo amplo, "colocar entre parenteses" e "suspensao do juizo", e refere-se a atitude, oposta ao dogmatismo, de neutralidade (suspensao) frente a enunciados, juizos e proposicoes.

(6) Husserl utiliza a expressao "experiencia antepredicativa" para se referir ao carater receptivo a partir do qual as coisas aparecem na cotidianidade. So e possivel conceber o pre-predicativo a partir da desconstrucao do esquema posicionador, originariamente cartesiano, empregado de modo frequente na tradicao filosofica, sobretudo, na tradicao metafisica. O antepredicativo prescinde da necessidade do campo objetual tal como este e situado no problema do acesso ao mundo exterior e na dicotomia interioridade versus exterioridade, uma vez que parte do pre-dado com vistas as operacoes das sinteses passivas.

(7) Cf.: "Seria interessante estudar os diversos tipos de procissoes do Ego a seus estados. Trata-se, na maior parte do tempo, de uma procissao magica. Algumas vezes ela pode ser racional (no caso da vontade refletida, por exemplo). Mas sempre com um fundo de ininteligibilidade cuja razao apresentaremos adiante" (SARtRe, 2010, p. 212).

(8) Cf.: "Ocorre que esta espontaneidade, representada e hipostasiada em um objeto, torna-se uma espontaneidade bastarda e degradada, que conserva magicamente seu poder criador na exata medida em que se torna passiva" (SARTRE, 2010, p. 213).

(9) Ha uma caracteristica fortemente empatica no processo de sintese entre interioridade e trans cendencia que nos remete a possiveis influencias de Dilthey a obra de Sartre. Dilthey (2010) define compreensao como um "reconhecimento do eu no tu", isto e, ele busca resolveu o problema do acesso ao mundo exterior por meio de um processo no qual a intersubjetividade e assegurada pela verificacao da interioridade na exterioridade, compreendendo a objetividade como outras subjetividades possiveis.

(10) Devido a forte influencia da recepcao francesa da fenomenologia, diversas vezes nos deparamos com traducoes que buscam elucidar a fenomenologia como ciencia dos vividos, uma vez que o vocabulo Erlebnis aparece traduzido em frances pelo termo vecu. Conforme nossa compreensao, em alemao, a palavra Erlebnis nao contem o carater participial passado que a traducao francesa sugere. Erlebnis deriva da composicao entre o verbo erleben (vivenciar) e o sufixo -nis (geralmente usado para criar substantivos a partir de verbos e adjetivos), que denota um carater produtivo, isto e, resultante. Nesse sentido, a vivencia seria o resultado da acao vivenciar, que, sendo em fluxo, possui um sentido simultaneamente passado e presente.

(11) Cabe citar que o termo noema refere-se a dicotomia noesis-noema proposta por Husserl. Noesis refere-se ao ato de perceber; enquanto que noema ao objeto da percepcao. O noema e a coisa-em-si, como fenomeno da consciencia.

(12) Podemos conceber essa concepcao de ser-no-mundo como contingente como uma marca da forte influencia da analitica existencial de Heidegger. Em Ser e tempo, texto publicado em 1927, Heidegger sistematiza sua hermeneutica da facticidade a partir de um fenomeno estrutural: ser-no-mundo, cuja indeterminacao ontologica originaria aparecera a partir da capacidade de se assumir possibilidades de ser abertas pela compreensao na facticidade.

(13) Podemos citar a "escolha" como uma das divergencias entre os sistemas de Heidegger e de Sartre. Em ambos os autores podemos identificar um projeto de fenomenologia da liberdade, isto e, de desobstrucao de preconceitos sedimentados a partir da concepcao de que nao ha uma necessidade, ou uma causalidade, que determine o campo das vivencias humanas. Contudo, a assuncao de possibilidades, em Heidegger, nao se da de modo aleatorio uma vez que tais possibilidades se originam do mundo factico em questao--como numa especie de possivel conciliacao entre a causalidade e a contingencia embasadas na indeterminacao ontologica originaria. Portanto, nao cabe falar em escolha, na analitica existencial, porque nao ha um ato de vontade que se estabeleca anteriormente a existencia: o que ocorre e, de modo simultaneo, abertura de campos de sentido e atualizacao/mobilizacao de possibilidades de ser decorrentes dessa abertura.
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Author:Guimaraes, Deborah Moreira
Publication:Ekstasis: Revista de Hermeneutica e Fenomenologia
Date:Dec 1, 2018
Words:7482
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