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Constitution of the experience of motherhood and infant development risk/Constituicao da experiencia da maternidade e risco ao desenvolvimento infantil.

* INTRODUCAO

Cuidar de um filho demanda energia, afeto e atencao. A mae necessita estar disponivel psicologicamente para transmitir carinho e educacao, o que implica um envolvimento emocional materno para que a crianca se desenvolva mais segura [1]. Se a mae esta com algum sintoma emocional, isso pode gerar consequencias ao desenvolvimento do filho, como demonstrou um estudo de coorte nos servicos de saude publica Noruegues. Realizado com 900 familias, esse estudo afirmou que criancas submetidas a um ambiente de estresse e angustia sao mais vulneraveis a desenvolver problemas emocionais no futuro [2].

Isso possivelmente ocorra em funcao do reflexo do estado emocional materno sobre responsividade da mae as demandas do filho. A responsividade materna se caracteriza por comportamentos maternos contingentes, apropriados e imediatamente relacionados aos comportamentos do filho, como a sincronia, a reciprocidade nas respostas, a repeticao das sequencias dos jogos, a focalizacao mutua da atencao e a partilha dos estados afetivos. Ela sofre multiplas influencias e deve ser compreendida em um sistema amplo de referencia que envolva variaveis biologicas e contextuais da historia da diade, bem como aspectos culturais mais amplos [3]. Um estudo com 21 diades mae-bebe revelou essa multiplicidade por meio da comparacao da responsividade de sete maes solteiras e quatorze casadas, o qual demonstrou maior responsividade das maes casadas no que se refere ao choro e a vocalizacao dos bebes. Esses resultados corroboram parte da teoria que indica que as maes solteiras podem sofrer maior estresse, quando precisam suprir sozinhas as demandas do bebe, principalmente no seu primeiro ano de vida [4]. Portanto, nao apenas a posicao materna e importante na relacao da diade mae-bebe, como tambem o apoio do conjuge, que em geral, ocupara a posicao paterna.

As criancas que experienciam uma relacao mae-filho desestruturada podem manifestar

respostas afetivas diminuidas, dificuldades de socializacao com estranhos, perturbacoes do sono, ansiedade de separacao exacerbada, perturbacoes gastrointestinais, falta de apetite ou episodios constantes de vomitos [5], bem como dificuldades na aquisicao e desenvolvimento da linguagem [6].

As pesquisas afirmam que o bebe imaginado durante a gestacao tem um importante impacto para a futura interacao mae-bebe, pois a mae investe a sua libido no intuito de constituir espaco subjetivo para receber o bebe da realidade. Ha, portanto, que se analisar tambem as condicoes do bebe ao nascer, sua apetencia simbolica, esta conceituada como impulso inato para buscar o outro humano, e a possibilidade de isso ter influencia nas respostas maternas [7,8]. Sabe-se que o bebe sofre mudancas expressivas nos primeiros meses como o surgimento do sorriso social, uma forma de comunicacao intencional, alicercada nas primeiras trocas intersubjetivas estabelecidas com adultos, que possuem reflexos na cognicao social e aquisicao da linguagem [7]. Tais caracteristicas dos bebes se combinam complexa e singularmente com as possibilidades do adulto para cuidar e interagir, em distintos estilos, ancorados em bases culturais diversas [9,10].

Essas observacoes teoricas permitem a compreensao da enorme importancia do estabelecimento e da satisfacao das primeiras relacoes, da possibilidade de um bebe ter para si uma mae engajada e de ele ser um bebe apetente simbolicamente. Isso ira se refletir em uma protoconversacao ja nos primeiros anos de vida. A protoconversacao se caracteriza pelo dialogo no qual o adulto falante sustenta enunciativamente o bebe, ainda nao falante, por meio da oferta de sentidos as manifestacoes corporais do bebe (vocalizacoes, choro, sorriso, balbucio, gestos corporais, olhar). O manhes [6] e uma evidencia dessa protoconversacao inicial [0,11]. Quando essa protoconversacao nao ocorre a contento, ha a possibilidade de o bebe apresentar risco psiquico ou risco ao desenvolvimento [11]. O risco psiquico define-se como a presenca de sinais de sofrimento psiquico evidenciados em series barulhentas (inconsolabilidade, disturbios do sono como nao dormir bem, disturbios alimentares, etc) ou em series silenciosas (dormir o tempo todo, nao apresentar qualquer iniciativa para interacao com o outro, etc), que incidem diretamente sobre a estruturacao psiquica. Ja o risco ao desenvolvimento relaciona-se a efeitos do risco psiquico ou de alteracoes biologicas do bebe em outros aspectos estruturais como a cognicao e em aspectos instrumentais do desenvolvimento como a psicomotricidade e a linguagem enquanto funcao comunicativa [11,12].

Uma pesquisa multicentrica brasileira, com bases teoricas psicanaliticas, demonstrou que 18 indicadores, propostos para criancas ate 18 meses, e investigados em um estudo de coorte de criancas de 1 a 36 meses, permitiram prever risco ao desenvolvimento infantil, e alguns deles foram mais especificos para prever risco psiquico [12]. Tal pesquisa investigou variaveis sociodemograficas, obstetricas e psicossociais, bem como aspectos especificos do desenvolvimento infantil. O desfecho dessa pesquisa deu-se pela avaliacao psicanalitica e psiquiatrica das criancas aos tres anos. A pesquisa deixa claro que a analise dos indices de risco ao desenvolvimento infantil (IRDIs) se da na observacao da relacao entre aqueles que exercem as funcoes parentais e o bebe. O foco interacional, adotado nos indices mencionados, permite lancar a hipotese desta pesquisa de que a analise dos IRDIs poderia refletir problemas tanto da apetencia simbolica do bebe quanto da presenca de dificuldades na constituicao da experiencia da maternidade. Essas dificuldades podem relacionar-se a estados emocionais maternos alterados [13-15], ou a dificuldade de se imaginar no papel materno, entre outros elementos que podem interferir nessa constituicao [7,9,16,17].

Considerando tais aspectos evidenciados em pesquisas anteriores, este estudo objetiva analisar a associacao entre dificuldade na constituicao da experiencia da maternidade e a presenca de indices de risco ao desenvolvimento infantil, bem como a interferencia ou nao de variaveis socioeconomicas, demograficas, obstetricas e psicossociais na associacao estudada.

* METODOS

Esta pesquisa foi aprovada pelo comite de etica institucional sob numero de CAAE 0284.0.243.000-09, da Universidade Federal de Santa Maria--RS.

Esta pesquisa e do tipo quantitativa descritiva, com carater casual comparativo sobre as manifestacoes comportamentais do processo interativo mae-bebe [18]. A amostra foi constituida de 182 maes e seus bebes, estes nascidos a termo ou pre-termo, em um hospital universitario da regiao central do Rio Grande do Sul, cujos bebes passaram pela triagem auditiva neonatal no periodo de marco a junho de 2010. O calculo dessa amostra se deu tomando por base a media de 900 atendimentos anuais de bebes na triagem auditiva neonatal, e a prevalencia de estados emocionais maternos como ansiedade e/ou depressao estimada em 15% em varios estudos da realidade brasileira, o que poderia explicar, ao menos em parte, dificuldades na constituicao da experiencia da maternidade. Nao foram encontrados estudos da prevalencia de dificuldades na constituicao da experiencia da maternidade na realidade brasileira ou internacional.

Foram excluidos da pesquisa os bebes que nasceram com malformacoes ou sindromes e deficiencia auditiva, devido ao comprometimento que esses fatores acarretam ao desenvolvimento da crianca e tambem bebes cujas maes apresentaram estrutura psiquica muito comprometida tais como psicoses, etc.

De acordo com as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa com seres humanos (Resolucao 196/96 do Conselho Nacional de Saude), as maes foram contatadas no servico de triagem auditiva neonatal e convidadas a participar da pesquisa. Elas foram esclarecidas acerca dos objetivos e dos procedimentos da pesquisa e, apos a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, assinaram-no se voluntarias da pesquisa.

A coleta dos dados foi realizada pela psicologa/ pesquisadora em uma sala reservada para essa finalidade, no proprio hospital,com duracao aproximada de 30 minutos, por meio de entrevista semi-estruturada acerca da experiencia da maternidade elaborada e padronizada por Schwengber e Piccinini [18]. Esta entrevista tem por objetivos investigar a historia obstetrica das maes e obter os dados socioeconomicos, demograficos, obstetricos e psicossociais. Durante a entrevista a psicologa/ pesquisadora ja identificava a necessidade de exclusao ou nao da diade a partir da observacao de comprometimento psiquico da mae e/ou limite biologico evidente do bebe.

As variaveis socioeconomicas foram renda familiar, escolaridade e profissao. As variaveis demograficas foram idade, estado civil e numero de filhos. As variaveis obstetricas foram numero de gestacoes, numero de partos, historia de aborto, partos prematuros, tipo de parto, numero de consultas pre-natais, planejamento da gestacao, baixo peso, intercorrencias com o recem-nascido e tipo de aleitamento. As variaveis psicossociais foram suporte social, historico de doenca mental na familia e dificuldade na constituicao da experiencia materna.

Os dados obtidos nessa entrevista foram codificados e foi construido um banco de dados em uma planilha eletronica (Excel). Entre eles, criou-se uma codificacao para a presenca ou ausencia de dificuldade na constituicao da experiencia materna (DCEM). Tal dado foi avaliado a partir de duas questoes abertas presentes na entrevista do protocolo, que foram: se havia historico de doenca mental na familia (familiares da mae, do marido ou de convivio proximo); e se a mae estava passando por alguma crise situacional, ou seja, se havia algum problema familiar, pessoal, no momento, que gerasse sentimentos e dificuldades em relacao a maternidade. As respostas a essas questoes foram anotadas durante a entrevista, e codificadas como presenca ou ausencia de dificuldade, sem mensuracao da gravidade ou nao da mesma. Para codificar a presenca de dificuldade na constituicao da experiencia materna, observou-se na entrevista falta de manejo com os bebes, sentimento de incapacidade para cuida-los, cansaco exagerado, desesperanca, apatia, tensao e irritabilidade, alem de conflitos familiares (sogra quer separar, prisao do marido, dificuldade no relacionamento com os pais), e ainda conflitos conjugais (brigas constantes com o marido, separacao recente e marido deprimido). Por outro lado, a codificacao para a ausencia de dificuldade foi identificada na entrevista em que as maes demonstravam boa interacao com seu bebe, tinham bom suporte social, nao possuiam historico de doenca mental na familia ou crise situacional evidente.

Como os bebes avaliados estavam na faixa etaria de 0 a 4 meses, os cinco indices risco da primeira fase dos IRDIs iniciais foram observados na interacao entre mae e bebe. Em caso de ausencia de algum indice na interacao com a mae, o mesmo foi testado com a pesquisadora, principalmente o indice 3 que versa sobre a crianca reagir ao manhes. Os cinco indices analisados foram:

1--Quando a crianca chora ou grita, a mae sabe o que ela quer. Este indice foi observado a partir de situacoes em que a mae supunha que o bebe queria algo e se ela conseguia atribuir uma interpretacao possivel a esta demanda como, por exemplo, comer, dormir, mudar de posicao, etc.

2--A mae fala com a crianca num estilo particularmente dirigido a ela (manhes). Aqui foi analisada a interacao entre a mae e a crianca em termos de sintonia, nao so se a mae falava em manhes, mas se sua fala era sintonizada as producoes do bebe.

3--A crianca reage ao manhes. Neste item se observou se a crianca se engajava na protoconversacao, e, sobretudo, se buscava ativamente tal participacao. Como algumas maes, em funcao do estado emocional depressivo e/ou ansioso, nao conseguiam conversar com os filhos de modo sintonizado, a pesquisadora buscou fazer isso com os bebes e analisar tal resposta quando isso ocorria.

4--A mae propoe algo a crianca e aguarda a sua reacao. Aqui foi observada a capacidade de a mae esperar a resposta do filho, ou seja, de conferir-lhe turno durante a protoconversacao.

5--Ha trocas de olhares entre a crianca e a mae. Este item foi observado apenas com a mae durante os momentos de protoconversacao e/ou de trocas silenciosas entre mae e bebe.

A metodologia deste trabalho seguiu a marcacao IRDIs da pesquisa multicentrica de indicadores de risco para o desenvolvimento infantil [11], que consiste na anotacao da presenca do indice como ausencia de risco ao desenvolvimento, ou em caso de sua ausencia, como indicador de presenca de risco. A presenca de risco psiquico foi considerada apenas quando os cinco indices da fase estivessem ausentes conjuntamente, conforme preve a pesquisa multicentrica citada.

Cabe ressaltar que os indices foram observados durante a entrevista com a mae e logo apos a mesma. A seguir foi Almada uma breve interacao da mae com o bebe durante 10 minutos. Tal filmagem foi realizada a uma certa distancia de modo a interferir o minimo possivel na relacao da diade. A instrucao dada as maes e que conversassem e/ou brincassem com seus bebes como fazem em casa. O objetivo de tal filmagem foi registrar a interacao para que houvesse uma segunda avaliacao dos cinco indices por outro revisor experiente. Como alguns bebes estavam dormindo durante e apos a entrevista, no prazo de uma semana buscou-se reavaliar os indices em seu domicilio. Portanto, houve a conferencia de todos os indices de risco ate que se pudesse obter um valor (presente ou ausente) para cada um.

A analise quantitativa dos dados foi efetuada por meio da estatistica descritiva e inferencial. Foi utilizado o teste nao-parametrico de independencia do qui-quadrado com nivel de significancia de 5%. Tais analises foram realizadas por meio do pacote computacional Statistics 9.0.

* RESULTADOS

Na Tabela 1, sao apresentadas as frequencias de ausencia e presenca de Dificuldade na Constituicao da Experiencia Materna (DCEM).

Observa-se na Tabela 1 que 36,3% das maes apresentaram alguma dificuldade na funcao materna.

Os niveis de risco para o desenvolvimento infantil sao apresentados na Tabela 2.

Percebe-se, na Tabela 2, que a maior parte da amostra (75,4%) nao apresentou indices de risco, ou seja, as diades estao com boa interacao e saudaveis. Observa-se que 24,6% das diades deste estudo apresentaram pelo menos um indicador de risco.

Na Tabela 3, estao representadas as frequencias dos IRDIs em relacao aos fatores de risco socioeconomicos e demograficos.

Observa-se que nao existe diferenca significante nas proporcoes dos IRDIs nas faixas das variaveis socioeconomicas e demograficas testadas.

As frequencias dos IRDIs em relacao aos fatores de risco obstetricos e psicossociais sao apresentadas na Tabela 4.

Observa-se que, na maioria das variaveis, nao existe diferenca significante nas proporcoes dos IRDIs nas faixas das variaveis obstetricas e psicossociais testadas. Somente no tipo de aleitamento, observa-se que as maes que utilizam mais de uma maneira de aleitamento simultaneamente apresentaram uma maior proporcao de indices de risco (40,5%), o que se diferenciou estatisticamente em relacao as maes que so amamentavam naturalmente ou artificialmente (p = 0,027).

Na Tabela 5, estao representadas as frequencias de presenca ou ausencia de indicadores de risco para o desenvolvimento infantil (IRDIs) em relacao a dificuldade na constituicao da experiencia materna (DCEM).

Em relacao ao fator de risco DCEM, observou-se que os IRDIs sao significantemente maiores (p = 0,000) entre as maes com presenca de dificuldade em realizar a funcao materna do que com as que nao apresentaram essa dificuldade, ou seja, ha maior proporcao de bebes com presenca de indicadores de risco em maes com dificuldade para realizar a funcao materna.

* DISCUSSAO

Os resultados desta pesquisa, apesar da baixa frequencia de DCEM na amostra estudada, demonstraram que a dificuldade na constituicao da experiencia materna correlaciona-se de modo significante a presenca de IRDIs, ou seja, os bebes dessas maes apresentaram risco maior do que os bebes de maes que nao apresentaram tal dificuldade.

Tais resultados sugerem que varios fatores concorrem para os riscos psiquico e do desenvolvimento, inclusive alguns constitucionais dos bebes [19], o que demonstra que a dificuldade na constituicao da experiencia da maternidade pode prejudicar as trocas comunicativas entre mae e bebe, mas nao se constitui no unico fator a ser considerado na explanacao da presenca de risco ao desenvolvimento infantil.

Em outro estudo, demonstrou-se que as criancas de maes que apresentam depressao pos-parto, comparadas com aquelas de maes nao deprimidas, mostram menor frequencia de expressoes faciais positivas e mais expressoes negativas e maior probabilidade de desenvolver, numa idade precoce, a depressao [5]. Ja em relacao a depressao masculina (pai), pesquisas demonstram que tem origem nos sentimentos de exclusao face a diade mae-bebe. Como efeito dessa exclusao, o homem passaria a se ver apenas como uma pessoa provedora, que deve trabalhar e satisfazer as exigencias impostas pelo puerperio da mulher [20], o que limitaria o bom convivio familiar. Ambos estudos demonstram que estados emocionais dos progenitores podem prejudicar a dinamica familiar e dificultar a constituicao do casal em suas funcoes parentais. No entanto, tais estados nao se refletem de modo importante na constituicao da experiencia da maternidade se ha fatores de protecao familiar, como o apoio do conjuge. Ja fatores como o nao planejamento da gravidez parecem ter efeito mais nocivo tanto para o surgimento de estados emocionais maternos alterados quanto na constituicao da experiencia da maternidade [20,21]. Nesta pesquisa, este efeito nao foi observado quando se analisaram as variaveis obstetricas e psicossociais, em relacao a diferenca entre maes com e sem DCEM.

Diversos autores tem enfatizado que a relacao da mae com o bebe existe desde antes da gravidez, nas fantasias da mulher relacionadas com a possibilidade de ter um filho. Isso faz que, durante a gravidez, a mae antecipe o nascimento do filho, a partir das marcas deixadas pela sua propria historia e personifique o feto por meio da atribuicao de caracteristicas e personalidade. Assim que o bebe nasce, essa imagem sera mais ou menos confirmada, o que leva a mae a interpretar e adivinhar suas necessidades, pois o nascimento de um bebe nunca corresponde completamente aquilo que a mae esperava antes do nascimento [7]. Diante disso, a mae necessita fazer o luto do feto e o da gravidez, para focar sua atencao na relacao com seu bebe, que deve ter a referencia no pai da crianca e no seu nome. Possivelmente, muitos fatores, ainda nao detalhados nesta analise, tenham influenciado as maes com DCEM desta amostra para apresentarem dificuldades em fazer tal transicao. Por hora, e possivel afirmar, no entanto, que tais fatores apresentam uma relacao estatisticamente significante com a alteracao na protoconversacao inicial entre mae e bebe, visualizavel pela presenca de risco ao desenvolvimento, medido por meio do teste estatistico nao-parametrico de independencia do qui-quadrado.

Novas analises dos dados serao necessarias, pois se sabe que multiplos sao os fatores que interferem em cada espaco de cuidado da mae em relacao ao seu bebe. Isso fica claro em estudos sobre aleitamento [22]; sobre disturbios alimentares [1], e sobre as interacoes iniciais [23].

Cabe ressaltar, por fim, o dado da analise qualitativa dos indices mais frequentemente alterados, como a identificacao pela mae do que o bebe quer (IRDI 1), o uso de linguagem particular pela mae dirigida ao bebe (IRDI 2) e a troca de olhares entre mae e bebe (IRDI 5), que apontam problemas no eixo de suposicao de sujeito, estabelecimento de demanda e alternancia entre presenca e ausencia. Sabe-se que o dialogo e feito da alternancia entre os interlocutores e, no caso da interacao entre o adulto e um bebe que ainda nao fala, pela suposicao de um sujeito, o interlocutor, observa-se em tais alteracoes o risco para a aquisicao da linguagem do bebe, quando consideradas propostas clinicas que tomem a interacao como central para a aquisicao e desenvolvimento da linguagem [24,25]. Talvez a dificuldade na transicao entre a gravidez e o lidar com o bebe recem-nascido sejam fatores intervenientes no estabelecimento desses eixos. Os IRDIs alterados sugerem maes que se fazem presentes ou ausentes de modo excessivo e que possuem dificuldades no investimento dialogico com o bebe, pela ausencia de um estilo de linguagem particular dirigido ao filho. Esse fato e de especial relevancia para o desenvolvimento da linguagem e comunicacao, se considerados os estudos psicolinguisticos e psicanaliticos sobre a importancia do manhes [6,10,25].

* CONCLUSAO

A dificuldade na constituicao da experiencia materna e um fator de risco grave para o aparecimento de indicadores de risco para o desenvolvimento infantil, ou seja, as maes com essas dificuldades tem maior propensao a nao estabelecer alguns eixos basicos do relacionamento com o bebe como a suposicao de um sujeito, estabelecimento de demanda e de alternar presenca e ausencia.

Alguns dos IRDIs avaliados podem estar relacionados mais diretamente com a aquisicao da linguagem, como o uso do manhes e da fala sintonizada as acoes do bebe, a possibilidade de a mae propor algo e aguardar a resposta do bebe, o que permite afirmar a importancia da identificacao precoce de dificuldades de na constituicao da experiencia da maternidade para o campo fonoaudiologico.

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http://dx.doi.org/10.1590/1982-0216201421712

Recebido em: 17/09/2012

Aceito em: 08/05/2013

Endereco para correspondencia:

Luciane Beltrami

Rua Mal. Floriano Peixoto, 1000/33

Ed. Rio da Prata--Centro

Santa Maria, RS--Brasil

CEP: 97015-370

E-mail: lucianebeltrami@terra.com.br

Luciane Beltrami (1), Anaelena Braganca de Moraes (1), Ana Paula Ramos de Souza (1)

(1) Universidade Federal de Santa Maria--UFSM, Santa Maria, RS, Brasil.

Trabalho realizado na Universidade Federal de Santa Maria -UFSM

Conflito de interesses: inexistente
Tabela 1--Frequencias da ausencia e presenca
de dificuldade na constituicao da experiencia
materna

DCEM       f(%)

Nao     116 (63,7)
Sim      66 (36,3)
Total   182 (100,0)

Tabela 2--Representacao percentual dos niveis
de risco para o desenvolvimento infantil

Nivel de risco de                    f(%)
desenvolvimento infantil (IRDIs)

Sem risco                         137 (75,4)
1 a 2 ausentes                     29 (15,9)
3 a 4 ausentes                     15 (8,2)
5 ausentes                          1 (0,5)
Total                             182 (100,0)

Legenda: IRDIs-indices de risco ao Desenvolvimento Infantil

Tabela 3--Distribuicao dos indices de risco ao desenvolvimento
infantil e seus fatores de risco socioeconomicos e demograficos para
a amostra (n = 182) do estudo

Fatores de risco        No. maes (%)      Indices de risco (IRDIs) (%)
Socioeconomicos
                                         Ausente    Presente      p

Renda familiar (s.m.)

Menos de 1                52(28,6)      35(67,3)    17(32, 7)   0,120
Mais de 1                 125(68,7)     98(78,4)    27(21,6)

Escolaridade

Fundam./analfabeto        78 (42,9)     56(71,8)    22(28,2)
Medio                     90 (49,5)     70(77,8)    20(22,2)    0,662
Superior                  13 (7,1)      10(76,9)     3(23,1)

Profissao

Dona de casa              98 (53,8)     70(71,4)    28(28,6)    0,194
Outra                     84 (46,2)     67(79,8)    17(20,2)

Demograficos

Idade (anos)

Menor que 20              34 (18,7)     26(76,5)     8(23,5)    0,565
20 a 34                  117 (64,3)     90(76,9)    27(23,1)
35 ou mais                31 (17,0)     21(67,7)    10(32,3)

Estado civil

Casada/uniao consen.     156 (85,7)     120(76,9)   36(23,1)    0,207
Solteira                  26 (14,3)     17(65,4)     9(34,6)

Numero de filhos

1 ou 2                   1421 (77,5)    108(76,6)   33(23,4)    0,444
3 ou mais                 41 (22,5)     29(70,7)    12(29,3)

Total                    182 (100,0)    137(75,3)   45(24,7)

s.m. = salario minimo. Dados faltantes: renda familiar (5);
escolaridade (1). Teste estatistico nao-parametrico de independencia
do qui-quadrado. * Significante p [less than or equal to] 0,05.

Legenda: IRDIs-indices de risco ao Desenvolvimento Infantil

Tabela 4--Distribuicao dos indices de risco ao desenvolvimento
infantil e seus fatores de risco obstetricos e psicossociais para a
amostra (n = 182) do estudo

Fatores de risco     No. maes (%)       Indices de risco (IRDIs) (%)
Obstetricos
                                      Ausente    Presente      p

No. de gestacoes

1                      77 (42,3)     57(74,0)    20(26,0)
2 a 4                  88 (48,4)     70(79,5)    18(20,5)    0,183
5 ou mais              17 (9,3)      10(58,8)    7(41,2)

Historia de aborto

Sim                    32 (17,6)     27(84,4)    5(15,6)     0,189
Nao                   150 (82,4)     110(73,3)   40(26,7)

Partos prematuros

Sim                    50 (27,5)     38(76,0)    12(24,0)    0,889
Nao                   132 (72,5)     99(75,0)    33(25,0)

Tipo de parto

Vaginal                68 (37,4)     50(73,5)    18(26,5)    0,673
Cesarea               114 (62,6)     87(76,3)    27(23,7)

Gestacao

Planejada              81 (44,5)     62(76,5)    19(23,5)
Nao planejada          95 (52,2)     72(75,8)    23(24,2)    0,343
Indesejada              6 (3,3)       3(50,0)    3(50,0)

Intercorrencias com RN

Sim                    59 (32,4)     46(78,0)    13(22,0)    0,684
Nao                   121 (66,5)     91(75,2)    30(24,8)

Tipo de aleitamento

Materno exclusivo     127 (69,8)     99(78,0)    28(22,0)   0,027 *
Artificial             18 (9,9)      16(88,9)    2(11,1)
Misto                  37 (20,3)     22(59,5)    15(40,5)

Psicossociais

Suporte social marido

Nenhum                 34 (18,7)     25(73,5)    9(26,5)     0,376
Marido                 44 (24,2)     30(68,2)    14(31,8)
Outros                104 (57,1)     82(78,8)    22(21,2)

Historico de doenca mental na
familia

Nao                   146 (80,2)     111(76,0)   35(24,0)    0,636
Sim                    36 (19,8)     26(72,2)    10(27,8)

Total                 182 (100,0)    137(75,3)   45(24,7)

RN = recem-nascido; DCEM = dificuldade na constituicao da experiencia
materna. Dados faltantes: intercorrencias com RN (2). Teste
estatistico nao-parametrico de independencia do qui-quadrado. *
Significante p [less than or equal to] 0,05.

Legenda: IRDIs-indices de risco ao Desenvolvimento Infantil

Tabela 5--Distribuicao da frequencia dos indices de risco ao
desenvolvimento infantil em funcao da presenca ou ausencia de
dificuldade na constituicao da experiencia materna

DCEM           No.                   IRDIs (%)
           diades (%)
                         Sem risco   1 ou mais      P
                                     ausentes

Ausente    116 (63,6)    98(84,5)    18(15,5)    0,000 *
Presente    66 (36,3)    39(59,1)    27(40,9)

Total      182 (100,0)   137(75,3)   45(24,7)

Teste estatistico nao-parametrico de independencia do qui-quadrado. *
Significante p [less than or equal to] 0,05.

Legenda: IRDIs-indices de risco ao Desenvolvimento Infantil
DCEM-Dificuldades na constituicao da experiencia da maternidade
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Author:Beltrami, Luciane; de Moraes, Anaelena Braganca; de Souza, Ana Paula Ramos
Publication:Revista CEFAC: Atualizacao Cientifica em Fonoaudiologia e Educacao
Date:Nov 1, 2014
Words:4979
Previous Article:Phonological processing in subjects with specific language impairment/Processamento fonologico em criancas com disturbio especifico de linguagem.
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