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Conspiracy theories: Meanings in the Brazilian context/Teorias da conspiracao: significados em contexto brasileiro.

Na sociedade contemporanea as pessoas sao frequentemente confrontadas com eventos que ameacam a ordem social, tais como ataques terroristas, guerras e crises economicas. Tais eventos, por vezes, dao origem a teorias da conspiracao, que podem ser definidas como crencas explicativas utilizadas para compreender as acoes de grupos ou organizacoes que se unem em um acordo secreto e tentam atingir um objetivo oculto, sendo este percebido como ilegal ou malevolo (Barron, Morgan, Towell, Altemeyer, & Swami, 2014).

A internet, por exemplo, reune varios casos de tais teorias da conspiracao. Por exemplo, sugere-se que os ataques terroristas de 11 de setembro foram conduzidos pelo governo do ex-presidente estadunidense George Bush e que a guerra do Iraque foi resultado de um plano secreto promovido por empresas poderosas do setor petrolifero. E nesse sentido que os termos "conspiracao", "conspiracionismo", ou, ainda, "pensamento conspiratorio" sao disseminados no cotidiano e fazem parte do vocabulario dos individuos, sobretudo no contexto das redes sociais (Bessi et al., 2015).

Nessa conjuntura, as teorias da conspiracao vao estar associadas a criacao de uma explicacao "alternativa" ou "fantasiosa" para fatos que normalmente contrariam a versao oficial e politicamente correta de um determinado acontecimento (Van Prooijen & Acker, 2015). Os criadores e adeptos de tais teorias, em geral, apresentam um olhar cetico frente a algumas explicacoes dadas a eventos controlados por instituicoes e pessoas poderosas, por vezes atribuindo um significado interpretativo diferente ao acontecimento (Brotherton & Eser, 2015), comumente sugerindo explicacoes pouco sustentaveis moralmente.

Uma das principais caracteristicas das teorias da conspiracao diz respeito a fornecerem explicacoes causais para eventos sociais complexos. A proposito, Hofstadter (1966) indica que a ideia conspiradora esta enraizada em uma tendencia geral de explicar e racionalizar fenomenos complexos do mundo real em um conjunto coerente de pressupostos sobre a existencia de um inimigo poderoso e malvado, e ademais, destaca a necessidade de as pessoas explicarem eventos que sao dificeis de compreender. Isso sugere que a crenca em teorias da conspiracao reflete um metodo sistematico de processamento de informacao, que enseja uma visao de mundo geral capaz de explicar eventos tidos como ameacadores ou desconhecidos (Jolley, Douglas, & Sutton, 2017; Leman & Cinnirella, 2013).

Durante muito tempo as teorias da conspiracao foram deixadas, quase que completamente, a merce de disciplinas como Historia e Ciencias Sociais. Porem, dado o aparente aumento da popularidade desse modelo explicativo leigo, diversos psicologos passaram a dar atencao ao fenomeno. A proposito, no final dos anos 1980, Carl Graumann observou que, embora as teorias da conspiracao fossem consideradas um topico de "interesse psicologico intrinseco", nao havia a presenca de um corpo substancial de pesquisas psicologicas dedicadas especificamente a essa tematica (Van Prooijen & Acker, 2015). Nessa conjuntura, diversos estudos comecaram a explorar os fatores psicologicos que poderiam explicar a suscetibilidade que as pessoas apresentavam a crencas conspiratorias, e promoveram, assim, um gradual surgimento no interesse da Psicologia em estudar essa tematica (Byford, 2014).

Ha alguns anos as teorias da conspiracao estiveram atreladas a visoes politicas extremistas e, por conseguinte, deixaram de lado a importancia que poderiam ter na explicacao de eventos sociais. No entanto, nas duas ultimas decadas houve uma transformacao importante na percepcao publica dessas teorias (Lobato, Mendoza, Sims, & Chin, 2014). Especificamente, as ideias ou crencas conspiratorias passaram a ser vistas nao mais como uma simples prerrogativa de extremistas, mas como uma forma de explicacao social cotidiana e uma maneira cada vez mais comum de compreender questoes diversas, como o contexto politico, o aumento da vigilancia, a ameaca a privacidade proveniente do desenvolvimento da tecnologia ou o aumento do poder das corporacoes transnacionais (Jolley & Douglas, 2014a). Seguindo essa linha de pensamento, as teorias da conspiracao passaram a ser vistas como uma forma de dar sentido a incerteza cognitiva do cotidiano. Ao serem confrontadas com informacoes sobre um evento considerado inexplicavel, as pessoas procuram minimizar a incerteza por meio de "atalhos cognitivos", que fazem com que os individuos sigam a logica de ideias conspiratorias (Jolley et al., 2017).

A relevancia das teorias da conspiracao e sustentada por sua recente insercao no campo de pesquisa da Psicologia (Jolley et al., 2017; Lobato et al., 2014; Oliver & Wood, 2014; Swami, Voracek, Stieger, Tran, & Furnham, 2014) que, em sintese, da enfoque na identificacao de fatores que distinguem os individuos que endossam crencas conspiratorias daqueles que nao o fazem. Alem disso, as pesquisas nessa area tem se centrado em identificar os deficits perceptuais ou cognitivos que levam os individuos a adotar explicacoes conspiratorias. Nessa direcao, de acordo com Kruglanski (1987), as teorias da conspiracao podem ser sustentadas por ilusoes cognitivas capazes de dar coerencia a uma realidade nao explicavel. Parece mesmo inegavel a influencia que as teorias da conspiracao exercem no cotidiano dos individuos; por meio de uma pesquisa de opiniao realizada por Byford (2011), por exemplo, verificou-se que uma proporcao substancial (cerca de 90%) de pessoas no mundo ocidental admite acreditar em alguma forma de teoria conspiratoria.

Por serem disseminadas na sociedade, as teorias em questao vao ocasionar consequencias sociais tanto positivas quanto negativas na vida dos individuos. Por exemplo, embora a crenca em teorias da conspiracao possa promover uma maior transparencia politica (Swami & Coles, 2010) e contestacao das estruturas ideologicas dominantes (Sapountzis & Condor, 2013), ha evidencias de que a exposicao a tais teorias leva a uma reducao na intencao de se envolver em politicas voltadas a reducao de monoxido de carbono (Jolley & Douglas, 2014a), nas atitudes positivas em relacao a vacinas (Jolley & Douglas, 2014b) e no engajamento em comportamentos positivos no ambito da saude (Oliver & Wood, 2014). Bogart e Thorburn (2006), por exemplo, mostraram que a exposicao de teorias da conspiracao entre os afro-americanos esteve associada a atitudes negativas em relacao a comportamentos contraceptivos, e gerou consequencias negativas quanto a prevencao de gravidez e incidencia de doencas sexualmente transmissiveis.

Apesar de serem identificados estudos sobre a tematica no contexto internacional no campo da Psicologia (Oliver & Wood, 2014; Sapountzis & Condor, 2013), sobretudo investigacoes de cunho quantitativo e experimental (Lobato et al., 2014; Moulding et al., 2016), ainda sao escassas as pesquisas no Brasil que se dedicam a estudar esse fenomeno. Buscas realizadas em bases de dados brasileiras em 13 de janeiro de 2018 (IndexPsi, PePSIC, SciELO e Lilacs), com o uso dos descritores "teorias", "conspiracao" e "Psicologia", nao encontraram nenhum estudo empirico que tivesse sido publicado nos ultimos cinco anos. Ao ampliar a busca ao Google Academico, empregando-se os mesmos descritores, foram localizados 4.370 registros. Porem, esses registros nao contemplavam a Psicologia, mas areas conexas (Ciencias Sociais, Comunicacao, Historia), que frequentemente abordavam o tema de forma teorica ou discursiva (Nicolas, 2017; Trifonova, 2017).

A partir do anteriormente descrito e tendo em conta a centralidade que as teorias conspiratorias assumem na vida das pessoas, parece justificavel realizar esforcos para entender os significados que estas atribuem ao construto. Desse modo, o presente estudo teve como objetivo conhecer os significados que as pessoas associam as teorias da conspiracao. Tal empreendimento apresenta relevancia social, tendo em vista que essas teorias persistem como um meio popular de articular oposicao as forcas do capitalismo internacional e da globalizacao (Byford, 2011), possibilitando o enfrentamento as hierarquias sociais estabelecidas e oferecendo entendimentos alternativos sobre eventos da realidade social (Sapountzis & Condor, 2013).

Metodo

Participantes

Participaram deste estudo 383 estudantes universitarios de uma instituicao publica de Joao Pessoa (PB), cujas idades variaram entre 18 e 54 anos (M = 21,9; DP = 5,07), sendo a maioria do sexo feminino (54,6%), solteira (93,8%), catolica (40,8%) e heterossexual (84,8%). Tratou-se de uma amostra de conveniencia (nao probabilistica), composta por pessoas que, solicitadas a colaborar, aceitaram faze-lo voluntariamente.

Instrumentos

Os participantes foram solicitados a preencher um questionario com uma unica pagina que reunia perguntas de carater demografico para caracterizacao da amostra (idade, sexo, estado civil, orientacao sexual e religiao) e duas questoes abertas que indagavam (1) o que a pessoa entendia por teorias da conspiracao e (2) o que lhe vinha a cabeca quando ela pensava em teorias da conspiracao.

Procedimentos

A coleta de dados foi realizada por dois colaboradores devidamente treinados. Esta teve lugar em ambiente coletivo de sala de aula, apos autorizacao dos professores responsaveis pelas turmas, sendo as respostas dadas individualmente. Garantiu-se o carater anonimo e a natureza voluntaria da participacao, bem como foi assegurado o direito de desistencia sem quaisquer consequencias aos participantes, que tiveram que assinar um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), de acordo com o que estabelece a Resolucao 510/16, do Conselho Nacional de Saude (CNS). O projeto correspondente foi aprovado pelo Comite de Etica em Pesquisa da Universidade Federal da Paraiba (UFPB) com seres humanos (CAAE no 76972917.8.0000.5188). Em media, os participantes levaram dez minutos para completar a tarefa.

Organizacao do banco e analise dos dados

Os dados textuais foram transcritos no programa OpenOffice Writer, sendo organizados em um unico arquivo equivalente as duas perguntas anteriormente apresentadas, e reunidos em um unico corpus. Apos ajustes e organizacao do corpus, o arquivo foi importado para o Bloco de Notas do Windows e salvo na codificacao UTF-8 para analise no Iramuteq (Ratinaud, 2009), executado com o programa R (R Development Core Team, 2012). Realizaram-se tres tipos de analises: (1) Classificacao pelo metodo de Reinert--efetuou-se uma Classificacao Hierarquica Descendente (CHD), nos quais os segmentos de texto sao classificados segundo seus vocabulos e seu conjunto e dividido com base na frequencia das formas reduzidas, formadas a partir do radical das palavras (lemmatisation) (Camargo & Justo, 2013); (2) Nuvem de palavras--representa graficamente e organiza as palavras de acordo com suas frequencias; por ser uma analise que facilita a identificacao de palavras-chave a partir do banco de dados (corpus), e utilizada em contextos que necessitam expor de maneira objetiva as informacoes (Ratinaud, 2009); e (3) Analise de similitude--baseia-se na teoria dos grafos e identifica as coocorrencias entre as palavras, que resultam na identificacao de suas conexoes e auxilia na visualizacao grafica da estrutura do corpus (Ratinaud & Marchand, 2012).

Resultados

O corpus analisado foi composto por 383 unidades de contexto iniciais, representando a totalidade de participantes do estudo. Foi apresentada uma media de 18,2% de formas (o numero de formas diz respeito ao numero de palavras com radicais diferentes contidos no texto) por Segmento de Texto (ST), num total de 8.130 ocorrencias (totalidade de palavras contidas no corpus). Estas correspondem a 84,6% de aproveitamento das unidades de contextos elementares de ST do corpus, o que e uma porcentagem adequada para extracao do banco de dados textuais (Camargo, 2005).

Inicialmente, procedeu-se a Classificacao Hierarquica Descendente (CHD), tendo sido identificadas cinco classes que aparecem no dendograma (Figura 1), no qual sao apresentadas as palavras de cada classe juntamente com os valores dos respectivos qui-quadrados e a frequencia de cada palavra. Ressalta-se que foram incluidas apenas as palavras cujos valores de qui-quadrados eram mais altos, sendo tres vezes maior que o valor minimo estabelecido [[chi square] (1) [greater than or equal to] 11,52, p < 0,05], a fim de trabalhar com a menor margem de erro em cada associacao da palavra com sua respectiva classe.

Com o objetivo de melhor compreender o processo de divisao do conteudo textual e da constituicao das classes, o dendrograma possibilita visualizar os agrupamentos possiveis a partir da CHD. Dessa forma, e possivel identificar nao apenas a relacao entre as classes, mas tambem os vocabulos mais associados com cada uma delas. No caso, ao observar o dendograma em sentido horario, e possivel interpretar as classes como segue:

A Classe 2 foi denominada de "Teoriassem embasamento cientifico" ([ST.sub.classe2] = 58, explicando 21,5% do total). Ela representa a ideia de que as teorias da conspiracao sao apenas opinioes criadas pelo senso comum, utilizadas para contradizer os fatos que sao divulgados por organizacoes governamentais. Dessa forma, sao entendidas como teorias hipoteticas que a populacao cria para entender eventos sociais, tais como decisoes tomadas pelo governo ou implementacao de novas tecnologias. Essa classe pode ser exemplificada a partir de falas como "teorias que nao tem um embasamento cientifico, que vem do senso comum"; "sao ideias ou teses que a populacao leiga cria a respeito de decisoes governamentais sem embasamento consistente"; e " sao um conjunto de hipoteses mirabolantes sem comprovacao alguma e que buscam explicacoes complexas para os eventos".

A Classe 1 recebeu o nome de "Manipulacao de grupos secretos" ([ST.sub.classe1] = 60, explicando 22,2% do total). Esta relacionada a crenca de que grupos anonimos possuem poder para influenciar certos acontecimentos, tais como disseminacao de doencas e divulgacao de informacoes falsas. E possivel exemplificar o porque de algumas pessoas acreditarem que as teorias da conspiracao sao provenientes de uma alianca secreta de organizacoes e individuos poderosos a partir de trechos como "sao ideias resultantes de condicoes adversas que advem de conspiracoes criadas por um grupo que domina o mundo", "teorias que afirmam a existencia de grupos secretos que controlam a informacao, tecnologia e economia para manter o mundo da forma que eles querem" e "teorias de que determinados grupos definem os acontecimentos dentro do meio social e politico e que grupos secretos estao no controle das decisoes da sociedade".

A Classe 3 foi denominada de "Explicacao da realidade social" ([ST.sub.classe3] = 55, explicando 20,4% do total), uma vez que se refere a propensao que as teorias conspiratorias apresentam de fornecer explicacoes causais para eventos sociais complexos. Dessa maneira, apresenta a ideia de que tais teorias constituem uma tendencia de racionalizar e explicar eventos que sao de dificil compreensao (ataques terroristas, proliferacao de doencas). Sao exemplos de trechos que descrevem essa classe: "teorias da conspiracao sao teorias que tentam explicar algum evento que aconteceu e acontece, com outros argumentos ou pontos de vista deferentes do que e explicado para o resto da populacao; eu penso em algumas teorias como a do ataque as torres gemeas nos EUA" e "sao uma forma de explicar o porque de a populacao mundial ser tao manipulada. Eu penso nas informacoes e acontecimentos que sao ocultos do conhecimento das pessoas porque eu acho que toda a sociedade, a politica e os meios de comunicacao conspiram para que as pessoas se comportem dentro de um padrao".

A Classe 5 foi nomeada como "Contestacao de fatos sociais" ([ST.sub.classe5] = 32, explicando 11,9% do total). Esta ligada a ideia de que teorias conspiratorias sao explicacoes alternativas que contradizem os fatos divulgados pela midia e o governo e estao associadas a criacao de interpretacoes que vao contra a versao oficial e politicamente correta de um determinado acontecimento. Exemplificam essa classe respostas como " teorias que desenvolvem explicacoes alternativas as oficiais para determinados acontecimentos, tais como a chegada do homem a lua organizada pela CIA", " hipoteses que as pessoas criam para explicar certos acontecimentos por nao acreditarem nas explicacoes oficiais, como os ataques do 11 de setembro e de que Michael Jackson nao morreu" e " teorias que tentam dar um novo significado para fatos que ja possuem uma explicacao oficial e aceita pela maior parte da populacao".

Finalmente, a Classe 4 foi denominada "Controle de informacao" ([ST.sub.classe4] = 65, explicando 24,1% do total). Relacionada a Classe 5, refere-se ao fato de que muitas informacoes importantes (cura para doencas como cancer e o Virus da Imunodeficiencia Humana (HIV, Human Immunodeficiency Virus); assassinato de figuras importantes) nao sao repassadas para o publico. Trechos que exemplificam essa classe sao: "teorias que vao contra o que esta estabelecido e partem do saber popular envolvendo acoes que o governo promove as escondidas, como assassinatos de figuras publicas e doencas incuraveis", " atos e manobras que sao realizados com o intuito de controlar a opiniao das pessoas na sociedade, controlando a sociedade conforme seus interesses" e " uma forma de controlar a massa e encobrir certas informacoes".

Uma vez conhecidas as classes que surgiram, procurou-se uma solucao grafica capaz de representar as palavras mais frequentemente utilizadas no corpus de maneira geral. Nesse sentido, realizou-se uma analise de nuvem de palavras (Figura 2), a qual dispoe os termos em razao de suas frequencias, sendo os termos mais frequentemente utilizados aqueles centrais e de tamanhos maiores.

Pode-se observar que alguns termos mais frequentes e que atuam como palavras-chave do corpus foram: secreto, governo, manipular, pessoa, teoria, fato e controle. De forma geral, essa disposicao grafica dos dados corrobora os achados anteriores expressos nas classes da CHD, no tocante a ideia da existencia de grupos secretos que controlam e manipulam decisoes importantes com o intuito de atingir interesses proprios. Ademais, a presenca destacada de vocabulos como explicar, informacao, pensamento e acontecimento indica que as teorias da conspiracao sao tidas como uma forma de explicar os eventos da realidade social, para os quais os individuos criam interpretacoes "alternativas", especialmente em eventos de alta complexidade, como o assassinato de pessoas importantes e a disseminacao de doencas.

Por fim, no intuito de complementar a nuvem de palavras, realizou-se uma analise de similitude. Tambem fundamentada na frequencia com que as palavras ocorrem, essa analise permite indicar a conectividade entre os vocabulos em auxilio a identificacao da estrutura e representacao do corpus. A Figura 3 representa a arvore de coocorrencias.

E possivel observar que a arvore de coocorrencias e composta, principalmente, por quatro eixos centrais, formados pelos termos teoria, acontecimento, grupo e governo. Precisamente, esses eixos centrais dao origem a proposicao de que as teorias da conspiracao decorrem da acao de um grupo, organizacao ou instituicao que, por meio de planos secretos, executa acoes ilegais ou prejudiciais a sociedade em geral.

Discussao

Como previamente indicado, pretendeu-se no presente estudo identificar os significados atribuidos as teorias da conspiracao a partir da analise das falas das pessoas. Isso pareceu justificavel, pois apesar de a literatura internacional reunir informacoes sobre essas teorias e seu impacto na vida das pessoas e organizacoes sociais, pouco se sabe a respeito do fenomeno no ambito da Psicologia brasileira, mesmo que se conheca a associacao das crencas nessas teorias com comportamentos prejudiciais (problemas de saude, extremismos ideologicos, hostilidade e menor engajamento em comportamentos ambientais e politicos; Jolley & Douglas, 2014b; Swami & Furnham, 2012; Van Prooijen, Krouwel, & Pollet, 2015).

A necessidade de manter controle sobre o meio social pode explicar a razao de as teorias da conspiracao ganharem impulso particularmente apos eventos sociais impactantes, que provavelmente sao experimentados como ameacas de controle por parte dos cidadaos (ataque terrorista, guerra, desastre natural; Swami & Furnham, 2012). Nesse cenario, a Psicologia tem como papel analitico enfatizar o motivo pelo qual as pessoas acreditam em certas ideias conspiratorias para explicar a realidade social, ao evitarem classificar as teorias da conspiracao como provavelmente "verdadeiras" ou "falsas" (Douglas & Sutton, 2008).

Os resultados previamente descritos convergiram com estudos internacionais que procuram conceituar as teorias da conspiracao. Por exemplo, coerentes com o que se indica na Classe 2 (Teoriassem embasamento cientifico), Bessi et al. (2015) destacam que as ideias conspiratorias tendem a reduzir a complexidade da realidade, de modo a explicar aspectos politicos ou socials como se organizados por Individuos ou organizacoes secretas. Tais explicacoes fazem com que as pessoas rejeitem argumentos baseados no conhecimento cientifico e adotem discursos alternativos para substituir evidencias proporcionadas pela ciencia. Desse modo, as pessoas que negam a relacao entre HIV e AIDS (Acquired Immunodeficiency Syndrome), por exemplo, acreditam que esta e uma doenca criada pelo governo dos Estados Unidos para contaminar a populacao afro-americana. Na mesma direcao, Swami e Coles (2010) postulam que a adocao de crencas conspiratorias decorre da incapacidade que os individuos tem de exercer um julgamento critico a partir de dados cientificos.

No que concerne a Classe 1 (Manipulacao de grupos secretos), observou-se maior ocorrencia de palavras ligadas as expressoes "secreto" e "plano", de forma congruente com o que descreve Goertzel (2010) ao afirmar que as teorias da conspiracao sao vistas muitas vezes como ligadas a individuos ou grupos poderosos e secretos que ocupam posicoes de autoridade. Nessa mesma direcao, Drinkwater, Dagnall e Parker (2012) sugerem que as teorias contemporaneas da conspiracao focam na existencia de forcas secretas e malignas que agem dentro de industrias de medicamentos, multinacionais e laboratorios de pesquisa, produzindo as enfermidades.

A Classe 3 (Explicacao da realidade social) reuniu palavras como "acontecer", "pensar", "conspirar" e "influenciar", suscitando a ideia de que as teorias conspiratorias constituem recursos cognitivos que atendem a necessidade de se explicarem eventos complexos e perturbadores, como a disseminacao de doencas contagiosas e a morte repentina de celebridades (Wagner-Egger et al., 2011). A proposito, Knight (2008) sustenta que essas teorias decorrem da necessidade de entender a causalidade e as consequencias de eventos significativos, nocao que e sustentada tambem por Goertzel (1994). Este autor sugere que as teorias da conspiracao fazem parte de um sistema de crencas que permite aos individuos compreender fenomenos ocorridos na realidade social, e indicam o porque de eventos significativos ou impactantes serem frequentemente acompanhados de explicacoes leigas e especulativas.

A Classe 5 (Contestacao de fatos sociais) abordou como principais descritores as palavras "acontecimento", "explicacao", "oficial" e "forjar". Isso e coerente com o que descrevem Aaronovitch & Langton (2010), que percebem as teorias da conspiracao como frequentemente endossadas e aceitas quando nao ha uma explicacao definitiva para um evento, ou quando a versao oficial de um acontecimento nao e considerada veridica. Na mesma linha de pensamento, Van Prooijen e Acker (2015) alegam que a aprovacao de tais teorias como forma de contestacao de fatos sociais faz com que os individuos criem argumentos divergentes da versao considerada "politicamente correta".

Por fim, a Classe 4 (Controle de informacao) se referiu a vocabulos como "governo", "divulgar", "publico", "ato" e "envolver". Parece evidente que essa classe converge para a crenca de que as teorias conspiratorias envolvem organizacoes ou grupos que se unem com o objetivo de controlar, influenciar as informacoes fornecidas pela midia, disseminar versoes convenientes de acontecimentos de dificil explicacao ou que favorecam interpretacoes especulativas (Moulding et al., 2016).

De maneira geral, os resultados observados (CHD, nuvem de palavras e analise de similitude) reforcam os obtidos em pesquisas internacionais realizadas na Psicologia. Essencialmente, sugerem que as teorias da conspiracao podem ser compreendidas como tendo uma funcao explicativa e estando associadas a processos mentais que visam considerar o mundo como ordenado, compreensivel e previsivel (Brotherton & Eser, 2015). Portanto, tais teorias sao concebidas como um conjunto de pressupostos para explicar a existencia de um "inimigo" e evidenciam a necessidade intrinseca que os individuos tem de explicar eventos sociais complexos (Van Prooijen & Jostmann, 2013).

A partir da atencao que a tematica tem recebido no contexto internacional, e perceptivel que as teorias da conspiracao se revelam como um construto importante para explicar diversas condutas sociais (confianca interpessoal, engajamento em politicas de saude, contestacao das estruturas ideologicas dominantes); (Leman & Cinnirella, 2013; Oliver & Wood, 2014; Sapountzis & Condor, 2013). Sendo assim, justificam-se novos esforcos para compreender fatores psicologicos subjacentes a esse fenomeno (Jolley et al., 2017). Desse modo, a presente pesquisa apenas buscou contribuir ao dar os primeiros passos, no intuito de sistematizar os significados que as pessoas atribuem a tais teorias no contexto brasileiro. No caso, adotou-se uma abordagem qualitativa e exploratoria, o que propiciou o surgimento de significados livres de conotacoes negativas, e possibilitou o entendimento de como, efetivamente, as pessoas percebem essas teorias.

Por fim, apesar da relevancia dos resultados ora descritos, que foram coerentes com os significados atribuidos as teorias da conspiracao (explicacao de eventos sociais, existencia de grupos secretos, controle de informacoes); (Jolley & Douglas, 2014a; Swami et al., 2014), como qualquer outro estudo, este nao esta isento de limitacoes. Por exemplo, a amostra reduzida e nao-probabilistica impede generalizar os resultados para alem do grupo de participantes, estudantes universitarios. Desse modo, parece interessante que sejam realizados estudos com outros grupos amostrais, incluindo pesquisa na internet com o uso de questionarios online, divulgacao do tema em foruns e posterior analise dos discursos veiculados. Parece igualmente relevante conhecer os correlatos das crencas nas teorias da conspiracao, que podem incluir engajamento politico e comportamentos ambientais (Jolley & Douglas, 2014b), ideologia (Byford, 2014), heuristicas e equilibrio cognitivo (Leman & Cinnirella, 2013), tracos de personalidade (Swami, Weis, Lay, Barron, & Furnham, 2016) e valores humanos (Gouveia, 2013), por exemplo. Nessa direcao, talvez um passo preliminar compreenda contar com algum instrumento (escala, inventario) adequado a realidade brasileira, a fim de reunir evidencias de seus parametros psicometricos.

Colaboradores

Todos os autores participaram na concepcao, coleta e analise de dados, bem como na redacao e revisao do artigo.

http://dx.doi.org/10.1590/1982-0275201936e180010

Recebido: janeiro 26, 2018

Versao final: maio 23, 2018

Aprovado: agosto 17, 2018

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ALESSANDRO TEIXEIRA REZENDE (1) [ID] 0000-0002-5381-2155

FLAVLA MARCELLY DE SOUSA MENDES DA SILVA (1) [ID] 0000-0001-8834-9466

MARIA GABRIELA COSTA RIBEIRO (1) [ID] 0000-0001-6920-9070

GLELDSON DIEGO LOPES LOURETO (1) [ID] 0000-0002-0889-6097

OLLNDLNA FERNANDES DA SILVA NETA (1) [ID] 0000-0002-5785-3536

VALDINEY VELOSO GOUVEIA (1) [ID] 0000-0003-2107-5848

(1) Universidade Federal da Paraiba, Centro de Ciencias Humanas, Letras e Artes, Programa de Pos-Graduacao em Psicologia. Cidade Universitaria, Campus I, s/n., Castelo Branco III, 58051-085, Joao Pessoa, PB, Brasil. Correspondencia para/Correspondence to: A.T. REZENDE. E-mail: <alessandro.teixeira.rezende@gmail.com>.

Artigo elaborado a partir da dissertacao de A.T. REZENDE, intitulada "Entendendo as teorias da conspiracao: contribuicao dos tracos de personalidade e valores humanos". Universidade Federal da Paraiba, 2018.

Caption: Figura 2. Nuvem de palavras.

Caption: Figura 3. Arvore de coocorrencias--analise de similitude.
Figura 1. Dendograma da representacao dos vocabulos das classes.

Classe 2

Teorias sem embasamento
cientifico

Palavra          f    [chi square]

Realidade        14       36,1
Comum            15       32,2
Extraterrestre   8        30,1
Prova            10       28,9
Senso            9        25,0
Pouco            8        21,3
Sentido          11       17,8
Cientifico       7        17,5
Embasamento      4        14,8
Gerar            4        14,8
Comprovacao      4        14,8

Classe 1

Manipulacao de grupo
secretos

Palavra          f    [chi square]

Secreto          33       42,9
Plano            10       27,6
Acreditar        21       20,7
Sociedade        23       17,1
Manter           6        13,2

Classe 3

Explicacao da realidade
social

Palavra          f    [chi square]

Acontecer        22       40,4
Pensar           10       31,0
Conspirar        11       26,6
Forma            26       24,7
Coisa            35       23,9
Pensamento       17       16,5
Exemplo          4        15,8
Afim             4        15,8
Alguma           15       15,3
Diferente        6        15,0
Algum            28       13,0
Influenciar      9        12,3
Negativo         3        11,8

Classe 5

Contestacao de fatos sociais

Palavra          f    [chi square]

Acontecimento    43       44,0
Explicacao       17       38,3
Oficial          5        37,8
Forjar           4        30,2
Tentar           13       23,0
Buscar           10       23,0
Usar             5        22,6
Explicar         26       19,5
Alternativa      6        17,6
Certo            28       12,3

Classe 4

Controle de informacao

Palavra          f    [chi square]

Governo          45       48,1
Divulgar         9        29,3
Publico          13       27,3
Levar            6        19,3
Ato              10       17,7
Envolver         10       17,7
Assassinato      7        14,9
Sua              9        14,6
Midia            9        14,6
Controlar        14       13,0
Historia         4        12,8
Maconaria        4        12,8
Importante       10       11,0
Massa            10       11,9
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Title Annotation:SOCIAL AND ORGANIZATIONAL PSYCHOLOGY: PSICOLOGIA SOCIAL E ORGANIZACIONAL
Author:Rezende, Alessandro Teixeira; de Sousa Mendes da Silva, Flavla Marcelly; Ribeiro, Maria Gabriela Cos
Publication:Estudos de Psicologia
Date:Jan 1, 2019
Words:5627
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