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Connections on transformation of mental suffering experience: relationship between memory and history/Conexoes na transformacao da experiencia do sofrimento psiquico: articulacao entre memoria e historia.

O cenario das praticas territoriais em saude mental e dos modos de atencao inovadores junto a sujeitos com experiencia do sofrimento psiquico conta, atualmente, com uma pluralidade significativa de proposicoes, e, mesmo que consideradas a partir de perspectivas distintas, um elemento comum e a afirmacao de que o cuidado em liberdade e exercido em um tecido social e primordial. Essas diferentes praticas se baseiam em determinados conjuntos de teorias e conceitos especificos, de modo que alguns sao intrinsecos as diretrizes atuais para a construcao de novas praticas em saude mental no campo da saude publica, sendo expressiva a relevancia da perspectiva da desinstitucionalizacao que afirma os direitos e a cidadania de sujeitos com experiencia do sofrimento psiquico, enquanto outros exigem critica e revisao para sua operacionalizacao nesse campo, tais como tradicionais conceitos do campo psicanalitico.

Importante notar que, ainda que nos modos de atencao aos sujeitos com experiencia do sofrimento psiquico seja possivel encontrar distintos campos de referencia nas discussoes, na dimensao das praticas muitas propostas de atencao tendem a se localizar entre os campos, em um hibridismo. Assim, uma articulacao entre diferentes campos ocorre na pratica, e porque da pratica emerge a necessidade de reinventar a teoria, e preciso, de um ponto de vista critico, a reflexao e reproposicao de conceitos-chave tradicionais do campo psicanalitico, em uma releitura que compreende os atravessamentos de distintos campos de conhecimento. Nessa linha, entende-se que a reconsideracao conceitual pode contribuir para a compreensao dos modos de atencao, reconhecendo as interfaces que sao produzidas no proprio campo das praticas.

Ora, tendo em vista o lugar social e historico da psicanalise na construcao dos modos de atencao em saude mental, propoe-se retomar um de seus principais conceitos, o de memoria, e compreender como podemos recoloca-lo no contemporaneo. De partida, assinala-se que, segundo Derrida, a memoria e "a propria essencia do psiquismo" [1] (p. 185), sendo preciso considerar o sofrimento psiquico em uma intima relacao com a memoria. Nessa perspectiva, a matriz do sofrimento psiquico estaria relacionada a impossibilidade de conciliacao de ser e tempo no interior da memoria, com uma "quebra da capacidade de construir uma fala de si que seja a narracao do trabalho da memoria" [2]. Nao sem razao os modos de atencao aos sujeitos com experiencia do sofrimento psiquico, em particular os de orientacao ou influencia psicanalitica (doravante denominados de clinicas), se transformaram em clinicas das memorias, que compreendem o ato de rememorar como horizonte fundamental de intervencao, sendo o ato de intervencao o de reinscricao da memoria em uma historia.

Desse modo e nessa chave de leitura, para a investigacao teorica desse conceito e de tal clinica de um ponto de vista reflexivo e critico, e preciso compreender a nocao de memoria na psicanalise e sua relacao com a nocao de historia. Ainda, com o horizonte afirmado pela pratica, de que e imprescindivel a dimensao dos encontros com outros nos territorios para a compreensao e transformacao da experiencia do sofrimento psiquico, e porque e a pratica que exige novos conceitos, nesse processo investigativo uma narrativa literaria oferecera a sustentacao da discussao. Tal narrativa e apresentada enquanto uma escrita que se relaciona com um devir, no sentido de que o que e apresentado e "um processo, ou seja, uma passagem de vida que atravessa o vivivel e o vivido" que busca "instaurar uma zona de vizinhanca [...] sob a condicao de criar os meios literarios para tanto" [3] (p. 11). Nessa perspectiva, tais passagens literarias nao se constituem "por excesso de realidade ou de imaginacao", mas seguem a "via inversa"; do lugar de fabulacoes, se instalam "descobrindo sob as aparentes pessoas a potencia de um impessoal, que de modo algum e uma generalidade, mas uma singularidade no mais alto grau" [3] (p. 13). Nao se trata, pois, de relato de caso, mas, antes, de uma historia que oferece subsidios para uma revisao critica de conceitos-chave dessas clinicas.

O inicio de um percurso

Miranda e um homem adulto com um historico de experiencia do sofrimento psiquico. Na epoca em que essa narrativa ocorreu, era um usuario de um servico de saude mental de base territorial, um Centro de Atencao Psicossocial (CAPS). Nao tinha um diagnostico medico preciso, sendo a ele atribuidas inumeras identidades nosograficas e oferecidos diferentes psicofarmacos como modos de tratamento em outras instituicoes no decorrer de sua vida. No CAPS, ao me apresentar, Miranda olha para mim e afirma: "nao ha nada aqui". Assim mesmo. Afirmava uma nao existencia. Pergunto para ele: "como assim?". E ele repete sua afirmacao anterior, dizendo nao existir. Declarava que frequentava tal servico porque assim lhe era dito para fazer e acreditava que um dia alguem se daria conta de sua nao existencia. Naquela epoca lhe foi sugerida, por um profissional, a escrita de um livro de memorias. Miranda dizia que isso e a medicacao eram "bobagens". Mesmo assim, se, por um lado, recusava a medicacao, por outro, afirmava que precisava aprender a mexer em um computador para escrever tal livro, afirmando que era algo que iria realizar; o CAPS e os profissionais eram um lugar de referencia importante para ele. Passam-se alguns encontros com Miranda e sempre o encontro no servico. A sua fala continuava a mesma: "para que tomar remedio se nao existo?", "nao ha nada aqui", "preciso aprender a usar o computador".

Se, em um primeiro momento, a fala "nao ha nada aqui" anuncia um certo tipo de ser sem identidade, e preciso ir adiante em outra camada para compreender que a ideia de identidade, na chave de leitura da psicanalise, e antes de tudo ter a consciencia de uma certa continuidade no interior do tempo, com a possibilidade de construcao de uma historia de si [2]. Justamente, nessa perspectiva, e a impossibilidade de o sujeito construir uma historia de si mesmo, e de se implicar em sua historia e em seus processos, que constitui experiencias de sofrimento; dito de outro modo, a matriz de sofrimento psiquico e a nao conciliacao de ser e tempo no interior da memoria com uma quebra da capacidade de construir uma fala de si. Assim, a aposta de uma leitura nessa perspectiva clinica, nesse caso, nao esta em "ele nao e" no sentido de ele nao existe, mas, antes, em que ele afirma sua nao existencia na medida em que nao pode falar de si; ele experiencia um sofrimento porque nao pode falar de si. Ou seja, haveria uma quebra da continuidade do ser.

Tratava-se de um sujeito com uma experiencia de corpo disciplinado, que diferentes profissionais que encontrou em sua vida buscavam ordenar sem se ater a um primeiro paradoxo posto: em tal perspectiva, como narrar uma historia de si quando esta anunciada a quebra da conciliacao entre ser e tempo? Ora, submeter a vida a uma narrativa com uma rede de causalidades, como poderia ser a proposta de escrita de uma especie de autobiografia, e, ao mesmo tempo, tomar posse dela e perde-la. Assim, possivelmente, a aposta dessa estrategia parecia ser a de que Miranda, ao lembrarse de memorias suas, pudesse criar algum grau de realidade de si no mundo. No entanto, em uma perspectiva psicanalitica, essa perda da vida se da, de certo modo, por nao ser possivel considerar o que estaria sob a forma de contingencia pela tentativa de reordenar a continuidade historica em uma suposta rede de causalidades.

Nietzsche (p. 30) descreve um mundo em que os sujeitos sao incapazes de esquecer e, por isso, incapazes de narrar o que acontece a nao ser pela narrativa linear com relacoes causais--como se isso permitisse nao apenas compreender, mas voltar a desejar; segundo o autor, "em meio a um excesso de historia a vida se desmorona e degenera", sendo necessario a propria vida o esquecimento [4]. O que temos a dizer nao leva em conta as contingencias dos acontecimentos, e, assim, narrar uma historia nao e necessariamente sinonimo de falar por si mesmo.

Ademais, nesse tipo de proposicao opera uma clinica que trata o processo saude- doenca como duas dimensoes estaticas (saude e doenca), que necessitariam de intervencao externa para movimentalo. De outro modo, considera-se, aqui, a saude em um processo e como a possibilidade de o sujeito criar novas normas de vida para si, onde "ser sadio significa nao apenas ser normal em uma situacao determinada, mas ser, tambem, normativo, nessa situacao e em outras situacoes eventuais" [5]; nesse sentido, a saude e a "possibilidade de ultrapassar a norma que define o normal momentaneo, a possibilidade de tolerar infracoes a norma habitual e de instituir normas novas em situacoes novas" [5] (p. 148). Saude e, entao, poder de revisao e instituicao de novas normas para si frente as instabilidades do meio, onde a norma e individual e e reinvindicacao do uso de liberdade: as normas sao produzidas pela vida para mais vida.

Como afirma Canguilhem, "a vida e, de fato, normativa" (p. 86) e a normalidade de alguem se refere a sua propria normatividade [5]. Ora, o limite entre normal e patologico (e, tambem, entre saude e doenca) se torna assim impreciso se considerarmos diversos sujeitos ao mesmo tempo, ja que o "normal nao tem a rigidez de um fato coercitivo coletivo, e sim a flexibilidade de uma norma que se transforma em sua relacao com condicoes individuais"; o patologico ou a doenca nao e, entao, a ausencia completa de normas, mas, sim, e uma "norma inferior, no sentido que nao tolera nenhum desvio das condicoes em que e valida, por ser incapaz de se transformar em outra norma" [5] (p. 135). Assim, o sujeito doente seria um organismo completamente adaptado e fixo ao meio, que nao tem possibilidades de se ajustar conforme as imponderabilidades da vida porque perdeu sua capacidade normativa; ele esta doente "em relacao a si mesmo" [5] (p. 97), sendo a doenca uma nova dimensao do viver.

Se viver e confrontar riscos e supera-los ou, como afirma Canguilhem, "estar em boa saude e poder cair doente e se recuperar" [5] (p. 150), podemos considerar que o sofrimento e esse momento de crise, em que e preciso que o sujeito crie para si uma nova normatividade vital. Nao se trata, pois, de ordenar uma suposta normalidade, mas, sim, de possibilitar que ele invente suas proprias normas nessa situacao de sofrimento; em uma perspectiva da clinica, possibilitar que crie para si uma narrativa.

Na compreensao exclusiva de uma causalidade organica nao ha historias, e na tentativa de ordenacao de uma serie historica podem surgir historias lineares, mas, nao, acontecimentos, sendo que qualquer possibilidade de transformacao continua bloqueada. Justamente, a producao de acontecimentos transformadores e uma questao importante para as clinicas do sofrimento psiquico. Mas, mesmo assim, tantas vezes, percebe-se no discurso de profissionais diversos uma tentativa de ordenar fatos historicos de um sujeito em uma rede de causalidades formada pelo proprio profissional, de modo que, em discussoes, os 'casos clinicos' acabam sendo apresentados de modo sequencial: conta-se quantos anos o sujeito tem, ocupacao principal, parentescos e depois uma sucessao de fatos de sua historia de vida em uma arranjada ordem cronologica, da infancia a vida adulta, para assim poder ser apresentado ou formulado um diagnostico ou uma leitura. Esse discurso esta relacionado a um modelo de memoria como estoque de experiencias e de historia como sendo de carater linear; um modelo em que nao ha espaco para escuta da historia tal como narrada pelo sujeito e da propria vida (e, tampouco, dos processos inconscientes). Este e o risco: a descricao de uma rede de causalidades na narracao de uma biografia, como se isso, por si so, fosse explicar o sofrimento do sujeito e possibilitar a constituicao de processos terapeuticos.

O entrelacamento de memoria e historia na psicanalise

Dando seguimento a seu projeto terapeutico singular e diante de sua afirmacao de que precisava fazer um curso de informatica, acompanhei Miranda a um outro CAPS que oferecia o tal curso; tratava-se de uma tentativa de aproximacao de um entre-dois. Como o imponderavel e constituinte da vida, naquele espaco, ele encontrou Paulo, com quem havia ficado institucionalizado em um hospital psiquiatrico por mais de 10 anos. Tambem inesperado era o fato de que eu tambem conhecia Paulo, pois ele participava das atividades de um grupo--um coletivo de criacao--, do qual eu tambem fazia parte. Algo ali se passou para Miranda. Um entrecruzamento entre passado e presente. Um passado que nunca deixou de ser. Miranda foi convidado por Paulo (e nao por mim) a participar desse grupo. Apareceu por la e, continuamente, nos muitos encontros, afirmava a sua nao existencia--enquanto Paulo insistia em trazer a tona historias do tempo em que estiveram institucionalizados juntos em um hospital psiquiatrico.

As experiencias estao nesse espaco que e da contingencia. Por isso--porque a experiencia e aberta, nao e definida a priori--ao rememorar, o sujeito pode reconstruir seu lugar no mundo. Para Freud [6], rememorar a experiencia significa reelabora-la a partir das experiencias em ato, construindo outra historia de si. Mas, nessa perspectiva, quando este processo esta interrompido ou, mesmo, quando ha uma ruminacao incessante de um acontecimento sem sua elaboracao, nao sendo possivel, ao sujeito, criar para si novas normas, tem-se a instauracao de uma experiencia do sofrimento psiquico.

Da historia, e dita ser continua por se tratar de uma serie em processo. Trata- se de um sistema de definicoes em que, ao acrescentar um outro acontecimento no interior desta serie--que e a historia--, todos os acontecimentos anteriores se reconfiguram [2]. O acontecimento e entendido, nessa concepcao, como aquilo que deixa marcas mimesicas: para ser acontecimento, sao necessarios esses tracos que modificam o universo simbolico. Assim, e por estar inserido nessa serie que se pode dizer de um lugar subjetivo do sujeito, em que ele produz sentidos para sua existencia quando acontecimentos criam marcas nessa cadeia e modificam todos os elementos anteriores, dotando de novos sentidos tais elementos. Esta concepcao de historia oferece a base para o conceito de rememorar elaborado por Freud [6], pois, neste campo aberto de possibilidades de significacoes de toda a serie historica do sujeito, e possivel a reorganizacao simbolica da mesma, reconstruindo e reescrevendo fatos e acontecimentos. Justamente, a clinica de orientacao psicanalitica trata disso: repetir, rememorar e reelaborar para que, por meio de um acontecimento, o sujeito possa dotar de novos sentidos a sua historia.

Se o quadro teorico da psicanalise trata de compreender o psiquismo e sendo a memoria a propria essencia do psiquismo, e preciso considerar o sofrimento psiquico em uma intima relacao com a memoria. Para a teoria psicanalitica, a memoria tem papel essencial no aparelho psiquico e e um ato continuo de reconstrucao do passado a partir do presente. As representacoes de lembrancas nao sao conteudos arquivados, mas incessantes ressignificacoes que dialogam com o presente: a triade passado-presente-futuro deixa de ser pensada como sucessao e passa a ser pensada como conexao, estando a memoria ligada ao tempo. Ainda, para Freud [6], rememorar a experiencia significa reelaborar uma experiencia, construindo outra historia de si. Destarte, o rememorado nunca e um mero fato, ja que o que e rememorado diz respeito as experiencias do sujeito. Tendo em vista o proprio conceito de memoria, rememorar nao e a procura de objetos primeiros intocados e conservados em um estoque de experiencias, mas, sim, a tentativa do sujeito em construir para si outras referencias no mundo, criando novas associacoes que possibilitem tipos de agenciamento mais potentes para a producao de vida. Nessa linha, o ato de intervencao analitica e de reinscricao da memoria.

Pois e nesse sentido que, na clinica psicanalitica, a associacao livre ocupa o lugar privilegiado de vencer as resistencias da rememoracao pela analise da "superficie psiquica apresentada pelo analisando, utilizando a arte da interpretacao essencialmente para reconhecer as resistencias que nela surgem e torna-las conscientes" [6] (p. 195). Trata-se de um trabalho de deslocamento do problema para a analise das resistencias do sujeito em rememorar; por isso, Freud afirma a necessidade de analisar a superficie psiquica e as resistencias, partindo da ideia de que, superadas as resistencias, o proprio analisando rememoraria.

O trabalho na psicanalise e, entao, compartilhado: o analista analisa as resistencias e o sujeito analisado se sente liberado para trazer o material que provocou a situacao que se encontra. Com a associacao livre, a concepcao de rememoracao sofre um movimento: rememorar deixa de ser reviver o passado para se tornar um processo de construcao. Com a criacao da tecnica da associacao livre, o analisando nao tem a tarefa de lembrar-se de algo, mas de, no setting psicanalitico, "conjurar uma fracao da vida real", ou seja, repetir [6] (p. 202).

O conceito de repeticao, para Freud [6], esta vinculado a possibilidade de transferencia: na cena psicanalitica, o sujeito repete aquilo que nao pode acessar conscientemente porque esta bloqueado, sendo a transferencia um fragmento da repeticao; o conceito de repetir tem como sentido atuar, posto que "o analisando nao reproduz como lembranca, mas como ato, ele o repete", sem que isso seja consciente [6] (p. 200). Essa repeticao e uma quebra da linearidade temporal, em que passado e presente se contraem em um tempo so, e essa e a condicao para a rememoracao ser possivel. Isso leva a afirmacao de que a transferencia e fragmento da repeticao, sendo a repeticao transferencia de um passado esquecido. Sendo assim, a repeticao transferencial e uma das bases da clinica psicanalitica e consiste na aposta de que as resistencias podem ser suspensas para uma posterior modificacao da relacao do sujeito com seu sofrimento.

Dessa maneira, a associacao livre e a repeticao transferencial implicam uma forma de acessar um passado esquecido; e se, antes, o sofrimento psiquico deveria ser superado, com o metodo da associacao livre e com a aposta na relacao transferencial, o sofrimento passa a ser considerado como parte essencial do viver que, para perder sua forca, tem de ser integrado a vida do sujeito; ha o que Freud denomina de "reconciliacao com o reprimido" [6] (p.203). Tal mudanca torna-se possivel pela reelaboracao ou rememoracao da experiencia de uma serie historica, com o sentido de trabalhar novamente, de retomar o processo em uma tomada de consciencia.

O entrelacamento entre historia e experiencia do sofrimento psiquico: a conexao com o coletivo

Em uma perspectiva critica, a historia deixa de ser considerada como uma arte narrativa de estocagem de lembrancas [7], para ser entendida como sendo dotada de uma funcao critica. Nessa linha, rememorar a experiencia significa reelaborar uma experiencia, construindo outra historia de si, de tal modo que a historia e entendida como um tempo que admite rupturas e que visa a transformacao de si. O sujeito, ao compreender o tempo do qual faz parte--na tomada de consciencia--, pode se transformar.

Porem, quando este processo esta interrompido ou, mesmo, quando ha uma ruminacao incessante de um acontecimento sem sua elaboracao--nos termos de Nietzsche, o nao esquecimento--, nao sendo possivel, ao sujeito, criar para si novas normas, pode ocorrer a instauracao de um sofrimento psiquico: "ha um grau de insonia, de ruminacao, de sentido historico, no qual o vivente se degrada e por fim sucumbe, seja ele um homem, um povo ou uma cultura" [4] (p. 10). A ideia de memoria patologica encontra-se nesse cenario e esta, necessariamente, relacionada com a dimensao historica do ser.

Assim, a capacidade de falar por si e de elaborar uma historia, construindo normatividades singulares, e o que possibilitaria uma situacao de saude mental. Ja estar estancado em um dado acontecimento, sendo o sujeito incapaz de esquecer, e a ideia da historia como adoecimento, no sentido de que se articula a uma impossibilidade de o sujeito inventar outras formas de ser e estar no mundo frente a um dado acontecimento. Se, como afirma Canguilhem [5], esse processo se da em relacao a um meio e se, como afirma Freud de modo geral em sua obra, um sujeito necessariamente precisa do outro para viver, e preciso afirmar que as historias de uma sociedade e de um sujeito particular, com seus sofrimentos, estao profundamente interligadas: e na conexao com outros que um sujeito faz parte da historia e pode reconstruir a historia de si.

Como afirmado, na transformacao de uma historia de si, com a compreensao do tempo em relacao ao qual o sujeito faz parte, e possivel a tomada de consciencia. Isso se coloca porque, com o advento dessa concepcao de historia, a nocao de consciencia se altera. A depender da perspectiva, a ideia de consciencia esta vinculada a um ato de operacoes do pensar voltados para si mesmo--como evidenciado na segunda meditacao cartesiana. Em outro entendimento, ter consciencia significa habitar um tempo elastico, e nao mais instantaneo, onde passado, presente e futuro se entrelacam. Tal como Lacan afirma, "a historia nao e o passado. A historia e o passado na medida em que e historiado no presente--historiado no presente porque foi vivido no passado" [8] (p. 21). Nesse sentido, a historia pode impedir o "isolamento da consciencia na figura do individuo atomizado, isto ao mostrar como a essencia da consciencia encontra-se na reconciliacao de seu ser com um tempo social rememorado" [2].

O sujeito com seu sofrimento, necessariamente, faz parte de um coletivo que perdura no tempo. A historia e, nesse cenario, ato continuo de reelaboracao porque e um processo de compreensao da experiencia social e subjetiva dos sujeitos; e e quando a historia traz a instabilidade dos conflitos passados, que os sentidos das tensoes das experiencias podem ser elaborados.

Vale notar que o termo que defende por exclusao a consciencia historica e a consciencia alienada, que nao tem acesso a totalidade da experiencia social. A consciencia alienada e aquela que se encontra em um processo de reificacao de algo porque so enxerga este algo, um fato especifico; por nao haver a compreensao historica, nao e possivel a reconstrucao de uma realidade. Justamente, retomando Nietzsche [4], "e impossivel viver, em geral, sem esquecimento", e aquele que nao esquece adoece; assim, como processo singular inserido em uma experiencia social, e preciso que o sujeito:

saiba mesmo tao bem esquecer no tempo certo quando lembrar no tempo certo; que se pressinta com um poderoso instinto quando e necessario sentir de modo historico, quando de modo a-historico. Esta e justamente a sentenca que o leitor esta convidado a considerar: o historico e o a-historico sao na mesma medida necessarios para a saude de um individuo, um povo e uma cultura [4]. (p.11)

Assim, as historias de uma sociedade e de um sujeito particular estao profundamente interligadas: e na conexao com outros que um sujeito faz parte da historia e pode reconstruir a historia de si; a possibilidade de saude tal como descrita por Canguilhem [5] esta inscrita nesse cenario, ja que poder regular-se em relacao a um meio, considerando o historico e o a-historico, e sinal de saude.

Se, em uma perspectiva, a historia e entendida como simples descricao dos fatos em uma visao de testemunho, e o ato de rememorar e compreendido como estocagem; em outra leitura, pode-se compreender a historia como ato de se apropriar conscientemente de nossas acoes, refletindo sobre as mesmas. E, por meio da historia, que ser e tempo se reconciliam no interior da memoria [2], sendo a memoria esse espaco de conexao entre ser e tempo, e estando essa definicao articulada ao que podemos entender por sujeito--a ponto de que um sujeito desprovido de memoria (e historia) e um alguem em estado de alienacao.

A aposta da escrita de um livro de memorias poderia ser a de que, supostamente, ao preencher o sujeito de memorias, ele seria retirado de um estado de alienacao. No entanto, e o que essa proposicao provoca de circulacao no territorio e o reencontro com Paulo, que insistia em narrar a sua verdade historica, mais com um carater afetivo do que de conteudo, e que ja era, em si, uma reconstrucao, que provocou deslocamentos; um reencontro nos territorios de vida.

O vinculo entre historia e ser no interior do tempo

Miranda fazia parte do coletivo de criacao. Certo dia, fomos as ruas fotografar cenas urbanas para compor um video. Dias depois, em outro encontro, Miranda olha para as fotografias ja reveladas e espalhadas no chao e, nelas, olha para uma imagem de si mesmo, se reconhecendo. Assustado, questiona quem e aquele--e as pessoas lhe dizem que aquele era ele mesmo. Fica calado durante um longo periodo. Algum tempo depois, Miranda pede ao grupo um momento para falar: desenha uma cruz gamada--uma suastica invertida--e comeca uma longa explanacao sobre aquele simbolo, relacionando sua origem ao significado de mudanca e comparando-o ao simbolo nazista. Os demais presentes apenas escutam e o olham sem entender o que era tudo aquilo. Subitamente, Miranda se levanta e vai embora.

Naquele momento ninguem entendeu o que estava acontecendo com Miranda. Ele foi embora muito rapidamente. Diante do presente--afetos, pessoas, fotos -, ele parece ter organizado algo de um modo singular; pode ser que tenha havido uma articulacao entre memoria e historia naquele momento. Em geral, o passado e campo de significacao do proprio presente e esta em constante movimento e reordenacao; para Miranda, isso parecia estar paralisado, mas, naquele momento, algo foi deslocado em razao de um acontecimento. E a memoria, no sentido vivo, e nao no sentido de estoque de lembrancas, que impulsiona a dinamica de um processo bloqueado. Memoria que esta articulada a historia, e historia que e de mais de um: e de um coletivo. Aquele que se dizia nao-ser parecia ter reconstruido uma historia de si. O que restava saber era qual seria a possibilidade de Miranda de frente a um acontecimento reconstruir outra norma.

Na semana seguinte, o encontro no CAPS. Ele esta diferente e solicita conversar. Comeca falando que saiu abruptamente daquele ultimo encontro porque nao entendeu o que estava fazendo ao falar sobre a suastica invertida. E narra que, ao entrar no onibus, aquilo o estava incomodando profundamente, pois nao conseguia encontrar uma explicacao do porque havia falado aquilo para o grupo, nao encontrava sentido no que havia feito. Entao, em suas palavras, algo "destravou", e ele afirmou: "eu percebi: eu falei aquilo porque sou louco! Eu sou completamente louco!". Diante da minha surpresa, ele continua: "E ai eu entendi que se eu sou louco, eu sou alguma coisa ...". Olhou para mim e, enquanto tocava em seu proprio ombro, falava: "olha so, eu tenho corpo, faz barulho, eu estou aqui".

Uma dinamica afetiva ganha estabilidade e novos horizontes. Vale destacar que nao se trata aqui de buscar uma categoria nosografica de qualquer ordem para esse sujeito. Mas, antes, assinalar que a possibilidade de transformacao de uma experiencia do sofrimento psiquico esta relacionada com as conexoes que podem ser produzidas no encontro com outros, nos territorios de vida.

A clinica produz tentativas de ordenadores, mas a historia apresentada pelo sujeito traz uma multiplicidade e tal imprevisibilidade que nao pode ser contida por quaisquer clinicas. O sujeito esta inserido em um campo de experiencias compartilhadas, tomando parte em experiencias sociais com outros. Assim, e preciso deixar a multiplicidade das relacoes, dos contextos e da vida invadir os modos de atencao e o espaco dos servicos, criando raizes com o mundo. Nesse sentido, a aposta necessaria para a producao de saude e de ultrapassar quaisquer paredes, seja de um servico, seja de um enquadre teorico, e de explorar as potencias das relacoes em um territorio social, abrindo para novos sentidos e redes de significacoes e compreensoes.

Como exemplo, vale a leitura da proposta de compreensao de Deleuze e Guattari [9] acerca do caso O Homem dos Lobos [10]. Deleuze e Guattari [9] (p.54), ressignificando esse caso, afirmam que o problema e que nenhum analista foi capaz de reconstruir o significado da ideia de lobo, ninguem explorou outras reverberacoes do significado, fazendo sempre um "retorno a unidade". Ao contrario, era preciso abrir os sentidos, vincular a historia trazida a outras dimensoes, agenciar a rede de significacoes: "o lobo e a matilha, quer dizer, a multiplicidade apreendida como tal em um instante" [9] (p. 58); assim, mais do que compreender, e necessario explorar as ambivalencias e intensidades das relacoes. Para tanto, para Deleuze, e preciso explorar os agenciamentos estabelecidos pelo desejo em um coletivo. Nesse caso, indagar: "onde passa meu desejo na matilha? Qual e minha posicao na matilha? Sou exterior a matilha?" [11].

Ora, acerca do desejo, Deleuze afirma que esse "constroi agenciamentos, se estabelece em agenciamentos, poe sempre em jogo varios fatores", enquanto "a psicanalise nos reduz sempre a um unico fator, e sempre o mesmo, ora o pai, ora a mae, ora nao sei o que, ora o falo (...), ignora tudo o que e multiplo" [11]. Deleuze, para exemplificar tal questao, relata que, certa vez, Jung contou a Freud que "sonhou com um ossuario", e que Freud nao compreendeu isso, afirmando que "se sonhou com um osso, e a morte de alguem, quer dizer a morte de alguem"; mas, para Deleuze, "Freud nao compreende. Nao ve a diferenca entre um ossuario e um osso, ou seja, um ossuario sao centenas de ossos, sao mil, dez mil ossos", concluindo que isso, o ossuario, "e uma multiplicidade, e um agenciamento" [11].

Assim, na perspectiva de Deleuze, as pessoas "desejam sempre um conjunto" [11]. Justamente, e nesse sentido que se pode afirmar que o delirio, que esta "ligado ao desejo", estabelece agenciamentos em um coletivo, de modo que "nao se delira sobre seu pai e sua mae, delira-se sobre algo bem diferente, e ai que esta o segredo do delirio, delira-se sobre o mundo inteiro, delira-se sobre a historia, a geografia, as tribos, os desertos, os povos" [11]. Nesse episodio da narrativa, portanto, nao se trata de fazer qualquer tipo de interpretacao, mas de assinalar a necessidade de procurar outros agenciamentos, complexificando a compreensao dos contextos e das multiplas relacoes; em sintese, "o delirio e geografico-politico" [11].

Nesse sentido, e preciso afirmar que o sujeito esta inserido em um campo de experiencias compartilhadas, tomando parte em experiencias sociais com outros, em camadas temporais que nao se esgotam em uma individualidade. O processo da clinica nao se ocupa apenas das experiencias particulares, mas, tambem, dos impactos de experiencias transindividuais, dos encontros. Nessa narrativa literaria, em uma leitura a partir da perspectiva da clinica, a reconciliacao entre ser e tempo no interior da memoria se deu, duplamente e concomitantemente, por um processo singular de criacao de outras normatividades diante daquele meio e pela vivencia de experiencias compartilhadas. A rememoracao enquanto sintese do tempo em uma unidade implicou justamente nisso: Miranda pode apresentar, para si mesmo, outra narrativa possivel que significasse aquela experiencia a partir do encontro com outros no mundo.

Assim, o sofrimento psiquico vivenciado por um sujeito deixa de ter um carater particular, para compor com o social e no social, sendo possiveis as transformacoes no encontro em um solo comum: Miranda, com os outros, se descobre louco. Vale destacar que nao ha um carater determinista neste acontecimento, e nao cabe aqui tracar uma relacao causal do tipo: reencontro com antigo colega retorno para experiencias passadas--ver-se no presente--transformacao do sofrimento. Novamente, nao se trata de uma relacao determinista, mas, ao contrario, de afirmar a necessidade de abertura para uma rede de possiveis significacoes que escapam de uma unica unidade narrativa; afirmar a importancia das conexoes com o territorio, em uma rede de relacoes.

Um parentese

Afirma-se, aqui, que a possibilidade de rememoracao esta para alem de uma relacao dual. Ora, na clinica de orientacao psicanalitica, a analise e uma experiencia de reelaboracao e so o sujeito pode operar esse processo. O que se defende aqui, e que, mesmo nesse cenario, as condicoes de enunciacao da questao se dao para alem de um encontro dual analista-analisando, dado que o processo de constituicao psiquica ocorre em relacoes interpessoais. A intervencao dessas clinicas pode ocupar esse lugar de, em uma fala performativa, fornecer condicoes para que o sujeito possa organizar o sofrimento psiquico em uma historia, organizando a historia de seu desejo. Mas, esse processo de rememoracao esta profundamente ligado a historia, que esta inscrita em campo maior do que a vida particular do sujeito, que e a historia de um coletivo. Assim, e preciso reconhecer a alteridade e a multiplicidade como constituintes do proprio psiquismo dos sujeitos, e valorar a propria repeticao em seu sentido positivo, dando lugar, nao para aquilo que se encadeia e que produz causalidade, mas para os esquecimentos e para o que e descontinuo e da contingencia, que e de onde podem surgir acontecimentos.

Tracos de uma conclusao

De modo geral, como foi assinalado, na dimensao das novas praticas em saude mental, compreende-se que, para a transformacao de um processo, e necessario investimento em multiplas conexoes entre os sujeitos e um certo tecido social, abrangendo os territorios e os coletivos, com o cuidado exercido em liberdade. Na perspectiva da desinstitucionalizacao, afirmam-se, ainda, os direitos e a cidadania dos sujeitos com experiencia do sofrimento psiquico, assinalando a necessidade de transformacao das relacoes produzidas em um contexto social. Buscando avancar na compreensao de conceitos do campo psicanalitico, nesse estudo, foi feita uma investigacao, em uma perspectiva critica, que procurou desenvolver uma articulacao teorica entre memoria e historia na interface com as discussoes da filosofia, enfatizando a importancia das conexoes entre sujeitos e coletivos nos territorios. Assim, no ambito das clinicas, e preciso investir em modos de atencao aos sujeitos com experiencia do sofrimento psiquico que reconhecam que e apenas nos territorios reais de vida e em um contexto de multiplas conexoes com outros que e possivel produzir transformacoes de si e de um tecido social.

DOI:10.1590/1807-57622016.0477

Submetido em 07/06/16. Aprovado em 01/11/2016.

Referencias

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Claudia Pellegrini Braga (a)

(a) Curso de Terapia Ocupacional, Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, Faculdade de Medicina, Universidade de Sao Paulo (USP). Rua Cipotanea, 51, Cidade Universitaria. Sao Paulo, SP Brasil. 05360-000. claudia.braga@usp.br
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Title Annotation:texto en portugues
Author:Braga, Claudia Pellegrini
Publication:Interface: Comunicacao Saude Educacao
Date:Oct 1, 2017
Words:5801
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