Printer Friendly

Conformity of nutritional labeling of energy-boosting products sold in Distrito Federal/Adequacao da rotulagem nutricional de repositores energeticos comercializados no Distrito Federal.

INTRODUCAO

Nao ha duvida de que, em atletas, a alimentacao e a hidratacao adequadas podem afetar a saude, peso e composicao corporal, disponibilidade de substrato durante o exercicio, tempo de recuperacao pos-exercicio e o consequente desempenho na atividade. A evolucao experimentada nas ultimas decadas nas areas de pesquisa relacionadas a nutricao e ao desempenho tem trazido contribuicoes significativas para o desporto de alto rendimento e novos estudos tem sido realizados para fundamentar estas interrelacoes.

Suplementos alimentares tem sido utilizados por consideravel numero de atletas e praticantes de atividades fisicas visando a melhoria do desempenho e, para atletas de alto rendimento, o uso de repositores energeticos pode contribuir para o retardo da fadiga, com consequente melhoria do desempenho e da potencia aerobia.

Entretanto, estes alimentos tem sido consumidos sem que se atente para a adequada recomendacao de seu uso no que se refere a quantidade, tempo e frequencia de ingestao. Ademais, tem sido observado o descumprimento dos dizeres obrigatorios da rotulagem e incorrecoes relativas a informacao nutricional. Isso assume relevancia na medida em que a escolha por determinado produto e realizada em funcao das informacoes nutricionais nele disponibilizadas, reafirmando, portanto, o papel desempenhado pela industria de alimentos e setor regulador na disponibilidade de alimentos que apresentem informacoes fidedignas e completas ao consumidor.

Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo avaliar a adequacao da rotulagem nutricional de repositores energeticos comercializados no Distrito Federal, em relacao as Portarias no. 29/1998 (Brasil, 1998a) e no. 222/1998 (Brasil, 1998b) e as Resolucoes RDC na 359/2003 (Brasil, 2003a) e RDC no. 360/2003 (Brasil, 2003b) da Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria, que estabelecem a rotulagem nutricional e a fixacao de identidade para alimentos para praticantes de atividades fisicas.

REVISAO DA LITERATURA

Desde os tempos antigos, atletas tem usado variadas substancias para beneficios ergogenicos (Nieper, 2005) objetivando melhoria do desempenho fisico, o que atualmente se traduz, entre outras acoes, no uso de suplementos alimentares (De Araujo e Soares, 1999). Destaque as discordancias de varios pesquisadores em relacao a eficacia na promocao dos efeitos ergogenicos e esteticos esperados e prometidos dos diferentes alimentos destinados a atletas e praticantes de atividade fisica, o aumento do consumo destes alimentos reflete-se na expansao deste setor: nos Estados Unidos, o mercado de suplementos alimentares nutricionais tem crescido exponencialmente em vendas nos ultimos anos: U$ 3,3 bilhoes em 1990, U$ 13,9 bilhoes em 1998 (Nieper, 2005) e U$ 46 bilhoes em 2001 (Maughan, King e Lea, 2004).

O aumento do consumo de suplementos alimentares por atletas e praticantes de atividade fisica, esporadica ou nao, tambem tem sido evidenciado no Brasil e em outros paises (Gomes e Tirapegui, 2000; Sancho citado por Borges e Sarmento, 2005). Nos Estados Unidos, seu uso e relatado por 25% dos atletas e praticantes de atividade fisica (Gomes e Tirapegui citado por Borges e Sarmento, 2005); na Coreia, foi encontrado o consumo por 35,8% e, no Reino Unido, 62% dos atletas relataram a ingestao (Nieper, 2005). No Brasil, estudo realizado por Pereira, Lajolo e Hirschbruch (2003) em academias da cidade de Sao Paulo evidenciou o consumo de suplementos por 23,9% dos frequentadores de academias de ginastica e, em Belem, a proporcao encontrada foi de 27% (De Araujo e Soares, 1999). Em pesquisa com participantes dos jogos esportivos sul-americanos, o consumo foi relatado por 50% da amostra, evidenciando a maior prevalencia de ingestao por atletas do que por praticantes de atividades fisicas (De Rose e colaboradores, 2006).

Maughan, King e Lea (2004) realizaram levantamento para avaliar o perfil dos consumidores de suplementos e as razoes para o seu uso. De acordo com estes autores, a prevalencia de uso varia segundo a modalidade esportiva e a idade, padroes de desempenho e questoes culturais. Alguns estudos apontam o consumo de suplementos por homens e mulheres (com predominancia do genero masculino), jovens e de alta escolaridade. A maior prevalencia de consumo por homens jovens tambem foi constatada por Krumbach e colaboradores (1999), Pereira, Lajolo e Hirschbruch (2003), De Araujo e Soares (1999) e De Rose e colaboradores (2006). Contrariamente, outras pesquisas nao encontraram associacao entre o uso destes alimentos e genero, etnia, estado civil, escolaridade, habitos alimentares ou estado do treinamento (Maughan, King e Lea, 2004), de modo a se considerar que nao ha um perfil determinado para os consumidores destes alimentos.

As razoes mais citadas para o uso de suplementos alimentares sao (i) compensar inadequacoes dieteticas; (ii) compensar demandas anormais de treinamento intenso ou competicoes frequentes; (iii) favorecer o desempenho; (iv) manter-se no time e (vi) recomendacoes do tecnico, pais ou outra influencia individual (Maughan, King e Lea, 2004; Bacurau, 2006). Niper (2005) observou que as razoes apontadas para o seu uso podem diferir entre os generos, de forma que as mulheres relataram que desempenho e forca sao considerados fatores de reduzida relevancia, ao passo que homens privilegiam os efeitos ergogenicos.

No que se refere a pressao exercida pelos membros do grupo no qual o individuo esta inserido, a falta de indicacao profissional para o uso desses alimentos e corroborada na Diretriz da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte (SBME, 2003) e foi constatada em estudo brasileiro, evidenciando a influencia de amigos, parentes, propaganda ou iniciativa propria na decisao quanto ao uso destes (De Araujo e Soares, 1999). Maughan, King e Lea (2004) afirmam ainda que, mesmo o atleta ciente da falta de necessidade do consumo de suplementos por adequacao dietetica e da normalidade dos parametros bioquimicos, seu uso persiste, sugerindo que a decisao quanto a ingestao nao seja racional.

De outro lado, o uso indiscriminado, na maioria das vezes, e feito sem considerar as possiveis consequencias negativas a saude, tais como sobrecarga do intestino, dos rins e do figado (McArdle citado por Borges e Sarmento, 2005; Mahan e Escott-Stump, 2002). Na cidade de Belem, uma pesquisa obteve que somente 3% dos participantes que nao faziam uso de suplementos referiram o conhecimento do risco de uso desses alimentos (De Araujo e Soares, 1999). Alem do desconhecimento quanto aos possiveis efeitos adversos a saude da ingestao de suplementos, outro estudo no Reino Unido indicou que 75% dos atletas gostariam de dispor de mais informacoes sobre o tema, ou seja, percentual importante dos consumidores nao se considera suficientemente seguro acerca do uso destes alimentos (Nieper, 2005).

Um dos fatores que pode condicionar a escolha de qual suplemento usar, seja pelo atleta ou praticante de atividade fisica, sao as informacoes declaradas nos rotulos desses alimentos. A rotulagem corresponde ao meio pelo qual se estabelece um canal de comunicacao entre empresas produtoras de alimentos e consumidores que desejam melhores informacoes sobre os produtos que compram (Araujo e Araujo, 2001). Todavia, ha muita informacao no rotulo que pode ser enganosa e, por isso, medidas legislativas, como e o caso das regulamentacoes sobre rotulagem alimentar, sao vistas como importantes atividades de promocao da saude (Celeste, 2001). O uso destas justifica-se como modo de auxiliar as pessoas a fazerem suas escolhas alimentares, a partir de uma informacao fidedigna, compreensivel e completa declarada no rotulo.

A simples presenca de informacoes nao e o que determina o uso das mesmas na escolha alimentar, ja que muitos consumidores, mesmo considerando importante essa informacao, nao a utilizam (Monteiro, Coutinho e Recine, 2005). Kreuter e colaboradores esclarecem ainda que, apesar da leitura e entendimento de rotulagem dos alimentos serem importante passo para alteracao do padrao alimentar, pouco se sabe sobre como os consumidores a utilizam e que efeitos exerce no comportamento alimentar (Araujo e Araujo, 2001).

Em vista da influencia da rotulagem sobre os consumidores, e fundamental nao apenas regulamentar as informacoes nutricionais dos alimentos para fins especiais, tais como os alimentos para praticantes de atividades fisicas, mas garantir o cumprimento da legislacao pela industria de alimentos. De acordo com Shank e Carson, (1994) o melhor sistema para proteger a saude do consumidor envolve dois niveis de controle: (i) de responsabilidade da industria, com a producao de alimentos seguros e (ii) de responsabilidade das agencias governamentais, monitorando para que a industria exerca sua funcao (Araujo e Araujo, 2001).

No Brasil, a Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria (ANVISA) e orgao federal responsavel pela normatizacao dos padroes de identidade e qualidade para alimentos para fins especiais e de criterios para a rotulagem. De acordo com a Portaria no. 29, publicada por esta Agencia no ano de 1998 (Brasil, 1998a), depreende-se por alimentos para fins especiais aqueles especialmente formulados ou processados nos quais se introduzem modificacoes no conteudo de nutrientes, adequados a utilizacao em dietas, diferenciadas e ou opcionais, atendendo as necessidades de pessoas em condicoes metabolicas e fisiologicas especificas. Os alimentos para praticantes de atividades fisicas, popularmente conhecidos como "suplementos alimentares", enquadram-se na categoria de alimentos para ingestao controlada de nutrientes, de acordo com este normativo.

Em Marco de 1998 foi publicada pela ANVISA a Portaria no. 222, que aprovou o regulamento tecnico para fixacao de identidade e qualidade de alimentos para praticantes de atividades fisicas (Brasil, 1998b). Consoante este documento, foram definidas seis categorias para esses produtos, dentre as quais os repositores energeticos, produtos formulados com nutrientes que permitam o alcance e ou manutencao do nivel apropriado de energia para atletas. Para a determinacao do padrao de identidade deste tipo de repositor, sua formulacao deve ser de, no minimo, 90% dos nutrientes energeticos, podendo opcionalmente conter vitaminas e ou minerais, ate o limite de 7,5 a 15% da Ingestao Diaria de Referencia (IDR) em 100ml e de 15 a 30% da IDR em 100g, desde que o consumo diario nao ultrapasse 100% em qualquer situacao.

A rotulagem de alimentos para praticantes de atividades fisicas corresponde a mesma aplicada para os alimentos embalados em geral, estabelecida pelas Resolucoes-RDC ANVISA na 359 e RDC na 360/2003 (Brasil, 2003a; Brasil, 2003b) e para os alimentos para fins especiais (Brasil, 1998a), tendo como particularidades (i) a presenca, nos demais paineis, da orientacao em destaque e em negrito "Criancas, gestantes e idosos, consumir preferencialmente sob orientacao de medico ou nutricionista" e (ii) a proibicao de expressoes tais como "anabolizantes", "body building", "hipertrofia muscular", "queima de gorduras", "fat burners', "aumento da capacidade sexual" ou equivalentes (Brasil, 1998b).

O Brasil nao dispoe de estudos em ambito nacional acerca da avaliacao da adequacao de alimentos para praticantes de atividades fisicas. Todavia, estudos pontuais ja evidenciaram a inadequacao de percentual importante destes alimentos para fins especiais em relacao a informacao nutricional e dizeres obrigatorios dos regulamentos de rotulagem nutricional (Graciano e colaboradores, 2000; Yoshizama e colaboradores, 2003; Freitas e colaboradores citado Silva, 2006; Araujo e Araujo, 2001; Borges e Sarmento, 2005).

MATERIAIS E METODOS

A analise foi realizada com suplementos alimentares do tipo repositor energetico para praticantes de atividade fisica, de diversas marcas, nacionais e importadas, disponiveis para venda em drogarias e lojas especializadas, escolhidas aleatoriamente, na cidade de Brasilia, Distrito Federal. A busca ativa teve como objeto de analise as informacoes constantes nos rotulos destes produtos, independentemente do tipo de estabelecimento comercial.

A analise das informacoes dos rotulos de repositores energeticos foi feita em conformidade as legislacoes vigentes para praticantes de atividades fisicas, de acordo com os parametros apresentados pela ANVISA nas Portarias na 29/1998 e no. 222/1998 e nas Resolucoes-RDC na 359/2003 e RDC no. 360/2003 (Brasil, 1998a; Brasil, 1998b; Brasil, 2003a; Brasil, 2003b). Foram avaliadas ainda as orientacoes do fabricante quanto ao modo de preparo com relacao a quantidade do suplemento indicada (em porcao ou medida caseira), frequencia e tempo de ingestao deste.

Em relacao a Portaria na 29/1998 (Brasil, 1998a), a qual fixa a identidade e qualidade para alimentos para fins especiais, foi analisado o item 8.1.1, o qual determina a designacao do alimento no rotulo, seguida da finalidade a que se destina em letras da mesma cor e tamanho. No que se refere a Portaria na 222/1998 (Brasil, 1998b), que regulamenta a fixacao de identidade e qualidade de alimentos para praticantes de atividades fisicas, foram avaliados:

a. Item 4, que trata do limite de adicao de vitaminas e minerais ate 15 a 30% da IDR em 100g ou 7,5 a 15% da IDR em 100ml;

b. Item 4.3.2, que trata da composicao dos repositores energeticos, os quais devem ser constituidos por, no minimo, 90% de carboidratos na sua formulacao, podendo opcionalmente conter vitaminas e minerais;

c. Item 9.1.2.1, que apresenta a obrigatoriedade dos dizeres em destaque e em negrito no rotulo "Criancas, gestantes e idosos, consumir preferencialmente sob orientacao de nutricionista e ou medico";

d. Item 9.1.2.4, que considera a obrigatoriedade da informacao nutricional, de acordo com o Regulamento de Rotulagem Nutricional, expresso nas Resolucoes-RDC no. 359/2003 e RDC no. 360/2003 (Brasil, 2003a; Brasil, 2003b) e complementado pela RDC no. 163/2006 (Brasil, 2006);

e. Item 9.1.2.5, no qual sao apresentadas as expressoes proibidas para veiculacao no rotulo, tais como "anabolizantes", "body building", "hipertrofia muscular", "queima de gordura", "fat burners", "aumento da capacidade sexual" ou equivalentes.

Em referencia as Resolucoes-RDC no. 360/2003 e RDC no. 163/2006 (Brasil, 2003b; Brasil, 2006), que aprovam o Regulamento Tecnico sobre Rotulagem Nutricional de Alimentos Embalados, foram analisadas as adequacoes ao item 3.1.1, acerca da declaracao de valor energetico e nutrientes, na qual obrigatoriamente devem ser apresentados a quantidade do valor energetico e dos seguintes nutrientes: carboidratos, proteinas, gorduras totais, gorduras saturadas, gorduras trans, fibra alimentar e sodio. Avaliou-se tambem a adequacao ao item 3.2.1, que trata da declaracao optativa de vitaminas e minerais, sempre e quando estiverem em quantidade igual ou maior a 5% da IDR por porcao indicada no rotulo. Finalmente, analisou-se a adequacao dos produtos a Resolucao-RDC no. 359/2003 (Brasil, 2003b), a qual estabelece a medida caseira e sua relacao com a porcao correspondente em gramas ou mililitros, detalhando-se os utensilios geralmente utilizados (item 3.1) para alimentos apresentados em embalagem individual (item 5.1.1).

Para obtencao dos dados supramencionados, foi elaborado um formulario especifico para cada analise de cada item e produto (anexo 1). Na tabulacao dos resultados, utilizou-se o programa Microsoft Excel[R] 2002.

RESULTADOS

Foram avaliados os rotulos de setenta e nove repositores energeticos, comercializados sob a forma de po ou gel, de dezesseis diferentes marcas, nacionais e importadas. Todavia, em funcao da similaridade das informacoes disponiveis no rotulo para produtos do mesmo fabricante e da mesma linha, conquanto com sabores diferenciados, optou-se pela consideracao de apenas um produto para cada linha, independente do sabor. Para os repositores da mesma linha com sabores diferenciados, serao explicitadas oportunamente as diferencas significativas encontradas. Dessa forma, para fins deste estudo, foram considerados vinte e seis produtos diferentes, sendo 80,77% comercializados sob a forma de po (n = 21) e cinco apresentados sob a forma de gel (19,23%).

A tabela a seguir apresenta o percentual de inadequacao dos produtos avaliados quanto aos itens 8.1.1, 9.1.2.1 e 9.1.2.5 das Portarias no. 29/1998 e no. 222/1998 (Brasil, 1998a; Brasil, 1998b), respectivamente. De acordo com a tabela, dos sete produtos que nao apresentavam a designacao correta do alimento (repositor energetico para atletas), todos sao comercializados sob a forma de po, sendo um deles importado. Com relacao a presenca de expressoes proibidas, ressalta-se que um dos repositores importados constava no rotulo a expressao, em lingua inglesa, "tornar mais forte". A falta de referencia no rotulo da frase "Criancas, gestantes e idosos, consumir preferencialmente sob orientacao de nutricionista e ou medico" foi apresentada por tres produtos nacionais, sendo dois apresentados sob a forma de po e o outro, gel.

No que se refere as orientacoes do fabricante acerca do modo de preparo, somente dois repositores energeticos (7,7%) nao especificaram a quantidade (em porcao ou medida caseira) a ser ingerida pelo consumidor. Um deles nao constava qualquer especificacao e outro apresentava a frase "Dose desejada na sua bebida". Com relacao a recomendacao de frequencia de ingestao do alimento pronto para consumo, sete repositores (26,92%) nao mencionavam qualquer frequencia de ingestao, ao passo que os demais (n=19, 73,08%) apresentavam diferentes combinacoes de frequencia, sendo mais prevalentes as frequencias de ingestao para (i) antes, durante e depois da pratica de atividade fisica (n=7) e (ii) antes e depois da pratica de atividade fisica (n=4). Ressalta-se que, para este item, quatro alimentos de duas marcas distintas apresentavam diferentes recomendacoes de ingestao, com relacao a frequencia, se comparados com os produtos da mesma marca e linha, porem de outros sabores. Nao foi observada correlacao entre as diferentes frequencias e a forma de apresentacao do produto (po ou gel).

Para o modo de preparo, foram ainda analisadas as orientacoes do fabricante quanto ao tempo de ingestao do produto pronto para o consumo, em relacao a frequencia recomendada. Neste item, foram analisados doze produtos (46,15%) em que constava a recomendacao do tempo de ingestao. Para a recomendacao de ingestao no momento anterior a atividade fisica, a maior prevalencia foi dada para o tempo de 30 minutos (62,5%); para o periodo durante a pratica, a citacao "a cada 30 minutos" foi a mais prevalente (75%) e, para o periodo posterior a atividade fisica, a recomendacao mais encontrada de ingestao foi "imediatamente apos" (50%). Nesta analise, foram consideradas todas as citacoes, independente da frequencia de ingestao orientada no rotulo.

A adequacao a Resolucao-RDC ANVISA no. 359/2003 (Brasil, 2003a) foi feita analisando-se a disponibilidade da informacao, na tabela de informacoes nutricionais, da porcao do alimento em gramas e em medidas caseiras. Todos os geis analisados (n=5) apresentavam a porcao media de 1 (um) sache. Para os alimentos em po, apenas um produto (3,84%) nao disponibilizava a medida caseira e, dentre os vinte repositores em po que o faziam, sete (35%) orientavam o consumo a partir da medida do dosador disponibilizado pelo fabricante junto com o produto e os outros treze (65%) utilizavam colher de sopa como indicacao de medida caseira.

Comparando-se os valores das gramaturas das porcoes com as respectivas medidas caseiras, observou-se significativa variacao do conteudo em gramatura para a respectiva medida caseira entre as diferentes marcas, tanto para pos como para os geis. A tabela a seguir traz as medias e desviospadrao das gramaturas para cada medida caseira (sache, dosador e colher sopa) encontradas nos rotulos dos vinte e cinco produtos.

Observa-se, dessa forma, importante variacao do conteudo em gramatura para os repositores cuja orientacao de consumo e feita a partir do uso de dosador. Destaca-se, ainda, o valor do desvio-padrao da gramatura para as colheres de sopa, medidas caseiras cujo conteudo independe da disponibilidade de utensilio pelo fabricante ou do peso liquido da embalagem.

[FIGURE 1 OMITTED]

A analise da adequacao do conteudo de macronutrientes dos vinte e seis produtos considerados neste estudo, disponibilizada no rotulo, na tabela de informacoes nutricionais, e apresentada na figura a seguir.

A figura mostra que quatro suplementos (15,38%) apresentavam conteudo de carboidratos inadequado (inferior a 90%), sendo dois apresentados sob a forma de po e, os outros dois, geis. Com isso, a analise percentual de proteinas e lipideos evidenciou inadequacao, na medida em que o carboidrato foi substituido por estes nutrientes. Dessa forma, os quatro produtos cujo conteudo de carboidratos encontra-se inadequado nao poderiam ser comercializados como repositores energeticos e, para um destes, constava na etiqueta traduzida fixada ao rotulo a definicao "repositor hidroeletrolitico" e, no rotulo original, a classificacao como repositor energetico. Entretanto, o referido produto nao apresenta conteudo equivalente a definicao de nenhum dos repositores mencionados, de acordo com a Portaria no. 222/1998 da ANVISA.

Para todos os produtos analisados, somente um (3,84%) apresentou quantidade significativa de fibras em sua composicao (4% do Valor Diario--VD). Com relacao a declaracao optativa de nutrientes, um dos produtos (3,84%) relatou a presenca de colesterol, nutriente de declaracao naoobrigatoria na tabela de informacoes nutricionais. Na declaracao de micronutrientes, quatorze suplementos (53,84%) relataram a presenca de pelo menos um mineral, a excecao de sodio, e quatro destes (15,4%) declararam conter calcio, em quantidades equivalentes a 10 e a 18,8% da IDR deste nutriente.

A declaracao da quantidade de sodio no alimento e item obrigatorio na declaracao de nutrientes. Com relacao a este micronutriente, foram avaliadas as setenta e nove amostras, tendo em vista as diferentes quantidades para produtos de mesma marca e com diferentes sabores. Observaram-se variacoes de 0 a 206mg por porcao para uma mesma marca, porem de sabor diferenciado. A media da quantidade de sodio por 100g para todos os repositores energeticos foi de 128,2mg, sendo o desvio padrao de + 175,4.

Do total de amostras, somente uma marca, representada por tres produtos de diferentes sabores (11,54%), apresentou inadequacao ao conteudo de sodio permitido, superior a 720mg por 100g do suplemento.

A quantidade de vitaminas, item optativo na declaracao de nutrientes, foi declarada por quatorze repositores (53,84%), todos comercializados sob a forma de po. De acordo com as informacoes apresentadas no rotulo, foram analisadas as quantidades das seguintes vitaminas: tiamina, riboflavina, piridoxina, niacina, B12, A, C, D, E e acido pantotenico. Os produtos apresentavam diferentes conteudos vitaminicos, nao havendo, portanto, nenhum suplemento que apresentasse todas as vitaminas citadas. A analise da adequacao do conteudo vitaminico em 100g do suplemento evidenciou que apenas dois suplementos (14,28%%) apresentaram adequacao do limite das vitaminas, fixado pela legislacao em 15 a 30% da IDR do nutriente em 100g do produto (Brasil, 1998b). Considerando-se a tolerancia de 20% do conteudo de nutrientes declarados, estabelecida pela Resolucao-RDC ANVISA no. 360/2003 (Brasil, 2003a), outros dois repositores (14,28%) adequar-se-iam a este regulamento.

DISCUSSAO

A embalagem de um alimento serve como meio de distribuicao e difusao do produto. Alem de ser um veiculo de comunicacao, e o maior elo de ligacao entre o produto e o consumidor, por isso e considerada grande oportunidade mercadologica e de informacao (Seragini citado por Silva, 2006). De acordo com o item 3 do Artigo 6 da Lei no. 8.078 de 11 de Setembro de 1990, referente ao Codigo de Protecao e de Defesa do Consumidor, e por meio do rotulo das embalagens dos alimentos que se tem acesso a "informacao adequada e clara sobre o produto, com especificacao correta de quantidade, caracteristicas, composicao, qualidade e preco, bem como sobre os riscos que apresentem" (Brasil, 1998c).

Embora os objetivos da regulamentacao em relacao a rotulagem nutricional sejam claros, varios estudos tem observado incorrecoes relativas a informacao nutricional e o descumprimento de dizeres obrigatorios da rotulagem numa grande variedade de produtos, inclusive aqueles para fins especiais, demonstrando negligencia de certas industrias nacionais como tambem desinformacao e despreparo dos responsaveis por esses produtos (Graciano e colaboradores, 2000; Yoshizama e colaboradores, 2003; Freitas e colaboradores citado por Silva, 2006; Araujo e Araujo, 2001).

Os resultados obtidos neste estudo indicam que mais de um quarto dos produtos analisados apresentam inadequacao quanto a determinacao do padrao de identidade do produto. A disponibilidade dessa informacao contribui para que o consumidor reconheca o alimento e efetivamente concretize determinado comportamento de consumo. De outro lado, a falta da especificacao no produto pode provocar confusao e inducao do consumidor a uma falsa interpretacao ou equivoco ou descrenca quanto as informacoes constantes no rotulo daquele alimento.

Outro item obrigatorio da rotulagem nutricional para estes alimentos que apresentou inadequacao relevante foi a presenca da advertencia para o consumo para grupos populacionais especificos (criancas, gestantes e idosos). Em estudo realizado na cidade de Goiania, 43% dos repositores energeticos apresentavam inadequacao quanto a esse item (Borges e Sarmento, 2005). A presenca desta informacao no rotulo do alimento e fundamental, considerando que o produto nao necessita de prescricao medica ou de nutricionista para a sua aquisicao.

Um dado positivo encontrado foi o de que nenhum dos repositores energeticos apresentou termos ou expressoes proibidas, a excecao de um produto importado que sugeria relacao entre o atributo da forca e o consumo daquele alimento. Em pesquisa realizada por Borges e Sarmento (2005), observou-se esta inadequacao em 26,3% dos suplementos analisados, sendo que uma parte destes apresentava atletas praticando diferentes tipos de esportes, induzindo o individuo a acreditar que o consumo do produto o levaria a se tornar um atleta e a outra parte apresentava a ilustracao de um corpo de culturista, sugerindo que o consumo daquele produto poderia levar ao aumento de massa muscular. Na presente pesquisa, esta inducao ao consumidor foi observada de forma explicita no rotulo do produto importado.

A falta de orientacao para o consumo quanto ao modo de preparo orientado pela empresa foi constatada em reduzido numero de repositores energeticos. A ausencia desta informacao nao esclarece ao consumidor a dose recomendada pelo fabricante, ou seja, a quantidade suficiente do produto para preparar a porcao referida na tabela de informacoes nutricionais. Com isso, a dose ingerida pode diferir da recomendada e o produto pode nao apresentar eficacia para o atleta ou praticante de atividade fisica que o consome, ou, ainda, provocar efeitos adversos a saude.

Em exercicios de longa duracao, a ingestao de carboidratos contribui para a reposicao dos estoques de glicogenio muscular e, consequentemente, para o retardo da fadiga muscular (SBME, 2003), o que ja e reconhecido desde a primeira metade do seculo XX. Estudos escandinavos demonstraram ainda que a potencia aerobia e diretamente relacionada a quantidade de glicogenio muscular e que a manutencao do rendimento no exercicio intenso nao e possivel com a queda nos depositos de glicogenio muscular. Assim, a disponibilidade de carboidrato como substrato para o musculo e o sistema nervoso central atua como fator limitante no desempenho de exercicio com duracao superior a 90 minutos ou exercicios de intensidades submaxima ou intermitente (Pereira e Souza Junior, 2004).

A ingestao de carboidratos prove substrato para a execucao da atividade, assim como para reposicao e recuperacao dos estoques de glicogenio muscular no periodo posterior ao exercicio (Burke, Kiens e Ivy, 2004), o que pode acontecer num periodo de ate 3 dias (Bergstrom e Hultmann, 1996; Maassen e Busse citado por De Sa e Portela, 2001). Por isso, parece procedente a recomendacao de uma dieta rica em carboidratos para atletas que praticam estes tipos de exercicio, o que nem sempre tem sido observado (Maughan, 1997; Rico-Sanz, 1998; Schokman e colaboradores citado por Do Prado e colaboradores, 2006). Acresce-se que os estados liquido ou solido nao apresentam diferencas na recuperacao do glicogenio, embora o consumo em solucao seja recomendado porque facilita a absorcao, alem de tambem ocorrer rapida hidratacao (Pereira e Souza Junior, 2004).

Considerando o efeito do consumo de repositores energeticos no desempenho esportivo e associado a orientacao de consumo recomendada pelo fabricante, diferentes frequencias e tempos de ingestao foram identificados. Somente poucos estudos tem se atentado quanto a frequencia ou quantidade do uso de suplementos, mas ja se sabe que e comum os atletas excederem as doses recomendadas, em funcao do sentimento de que uma maior quantidade pode trazer melhores resultados ou porque os treinadores ou adversarios sao conhecidos por usar doses elevadas. Alem disso, a combinacao de diferentes suplementos pode contribuir para afetar a seguranca de seu uso (Maughan, King e Lea, 2004).

A literatura cientifica apresenta dados consistentes acerca do efeito benefico da ingestao de carboidratos durante o exercicio prolongado (Febbraio e colaboradores, 2000). Contrariamente, a eficacia da ingestao no periodo imediatamente anterior ao exercicio e questionavel, uma vez que estudos ja identificaram aumento, reducao ou ausencia de efeito no uso do glicogenio muscular e no desempenho esportivo (Costill e colaboradores, 1977; Devlin e colaboradores, 1986; Febbraio e Estewart, 1996; Fielding e colaboradores, 1987; Kirwin e colaboradores, 1998; Hargreaves e colaboradores, 1985; Sherman e colaboradores, 1989; Decombaz e colaboradores, 1985; Speaks e colaboradores, 1998; Wee e colaboradores citado por Febbraio e colaboradores, 2000).

Nesta pesquisa, foi evidenciada a maior prevalencia da orientacao pelo fabricante para ingestao 30 minutos antes do exercicio. Recomendacoes da American Dietetic Association (ADA) orientam o consumo de 200 a 300g de carboidratos em refeicoes consumidas 3 a 4 horas antes do exercicio, visando um aumento da performance. Pereira e Souza Junior (2004) consideram que o beneficio da ingestao e maior quando ocorre antes da deplecao das fontes endogenas e, considerando a ineficiencia do consumo no ponto de fadiga, o melhor momento para iniciar o consumo e no comeco do exercicio. Diante destes e de outros achados, observa-se que as recomendacoes do consumo de carboidrato na hora que antecede o exercicio sao controversias, podendo levar a hipoglicemia e a fadiga prematura (ADA).

A ingestao de carboidratos durante a atividade fisica e recomendada para manter os niveis glicemicos, evitar a deplecao de glicogenio e a fadiga, melhorando, consequentemente, a performance. Para provas de longa duracao, a recomendacao de carboidrato e de 7 e 8g/kg de peso ou 30 a 60g de carboidrato para cada hora de exercicio (ADA; SBME, 2003). Tambem, a ingestao de carboidrato em intervalos de 15 a 20 minutos e mais efetiva do que a ingestao "em bolo" depois de 2 horas da atividade (ADA). Dessa forma, os achados deste estudo, no que se refere ao tempo de ingestao durante a atividade fisica, sao corroborados pela literatura.

O tempo de ingestao de carboidratos no pos-exercicio afeta a sintese de glicogenio muscular em curto prazo. A velocidade de sintese do glicogenio apos o exercicio e negativamente relacionada com a concentracao de glicogenio, ou seja, a mais alta velocidade de sua sintese e observada durante as primeiras horas de recuperacao (Pereira e Souza Junior, 2004). Com isso, o consumo imediatamente posterior ao exercicio resulta em altos niveis de glicogenio depois de seis horas do final do exercicio, ao passo que o mesmo nao ocorre quando essa ingestao e retardada por duas horas (SBME, 2003; Pereira e Souza Junior, 2004).

Considerando estes preceitos, a SBME recomenda, apos o exercicio exaustivo, a ingestao de carboidrato simples entre 0,7 e 1,5g/kg de peso no periodo de 4 horas, com inicio imediatamente apos o final do exercicio, o que seria suficiente para a ressintese plena de glicogenio muscular (SBME, 2003). Pereira e Souza Junior (2004) recomendam a ingestao de 1g/kg de peso corporal imediatamente apos a competicao ou treinamento, com consumo a cada duas horas ate seis horas apos o exercicio. Neste estudo, a recomendacao de ingestao imediatamente posterior ao exercicio foi observada, conquanto nao se tenha determinado o periodo de suplementacao no qual ela deve se estender.

Outra questao identificada nas analises consistiu nas variacoes em gramatura das medidas caseiras sugeridas pelos fabricantes. Observou-se que os dosadores apresentaram elevado desvio padrao (42,8%) e o mesmo ocorreu com as colheres sopa, mas em menor proporcao (37,3%). O dosador e disponibilizado pelo fabricante e a falta de padronizacao deste utensilio esta associada a ausencia de sugestao de medida caseira e a respectiva capacidade para alimentos para praticantes de atividades fisicas, o que e regulamentado pela Resolucao-RDC no. 359/2003 da ANVISA. Por outro lado, a variacao observada para colheres de sopa nao se justifica, tendo em vista a normatizacao, neste mesmo regulamento, da porcao correspondente em gramas para este utensilio (a saber, 1 colher de sopa = 10 cm3) (Brasil, 2003a).

A informacao nutricional tem sido utilizada, em grande numero de paises, como estrategia para prover aos consumidores informacoes sobre o produto para escolhas mais adequadas (Kreuter e colaboradores, 1997; Silverglade, 1998; Neuhouser, e colaboradores citado por Silva, 2006; Radaelli, 2003a) e, em alguns casos, beneficios para a saude por meio das propriedades do alimento ou nutrientes constantes nessa informacao (Hawkes citado por Silva, 2006).

Neste estudo, foi observado que quatro repositores energeticos nao atenderam aos regulamentos tecnicos da ANVISA quanto a determinacao do padrao de identidade desta categoria de alimentos. Com isso, os percentuais dos demais macronutrientes foram tidos como inadequados.

A adequacao do valor calorico no rotulo contribui para a adequacao da ingestao calorica diaria de atletas e praticantes de atividades fisicas. Varios estudos tem evidenciado a baixa ingestao calorica e o desequilibrio nutricional nas dietas de atletas profissionais e amadores. Apesar da comprovada eficiencia do carboidrato na recuperacao do glicogenio muscular, atletas de elite ainda demonstram resistencia no consumo deste nutriente. A alimentacao adequada em termos de oferta de carboidratos contribui para a manutencao do peso corporal e a adequada composicao corporal, maximizando os resultados do treinamento e contribuindo para a manutencao da saude (SBME, 2003).

Diante disso, apesar do aumento do valor calorico total da dieta em funcao da atividade fisica, os percentuais de recomendacao para os macronutrientes nao diferem daqueles referenciados para a populacao em geral, na medida em que podem prover as adequadas quantidades de nutrientes (macro e micronutrientes) para uma nutricao otima (ADA). Basta o manejo dietetico para a adequacao nutricional, devendo a suplementacao alimentar ficar, portanto, restrita a casos especiais (SBME, 2003).

Micronutrientes desenvolvem um importante papel na producao de energia, sintese de hemoglobina, manutencao da saude ossea, adequacao da funcao imune, construcao e reparacao muscular depois do exercicio e protecao dos tecidos corporais dos danos oxidativos. Teoricamente, a atividade fisica pode aumentar ou alterar as necessidades de vitaminas e minerais em funcao das adaptacoes bioquimicas no musculo. O consumo de quantidades adequadas de energia de modo a atender ao aumento da demanda calorica diaria fornece vitaminas e minerais em quantidades suficientes para atender as IDR. Desta forma, a suplementacao de vitaminas e minerais para atletas so e justificada em situacoes como a reducao da ingestao energetica ou praticas severas de perda ponderal, eliminacao de um ou mais grupos de alimentos da dieta ou consumo de dietas de alto conteudo de carboidrato, mas pobres em micronutrientes (ADA).

Nesse estudo, somente quatro repositores energeticos apresentaram adequacao dos limites percentuais de vitaminas estabelecidos na Portaria no. 222/1998 (Brasil, 1998b), dentre os catorze que declararam a adicao desses nutrientes em sua formulacao. Considerando a inadequacao destes nutrientes nestes alimentos associada a adequacao dietetica em termos de valor calorico e nutrientes, e bastante provavel que os niveis de ingestao de vitaminas estejam elevados ou proximos aos niveis de ingestao superiores toleraveis (UL) por consumidores desses repositores, podendo causar efeitos adversos ou toxicos. Em funcao disso, a ANVISA estabelece, na Resolucao-RDC no. 360/2003, que a adicao de micronutrientes em quantidade superior a tolerancia estabelecida seja justificada pelo fabricante (Brasil, 2003b). Uma fiscalizacao eficiente poderia contribuir para adequacao da composicao de repositores energeticos, bem como para o monitoramento da qualidade quimica e nutricional de produtos alimenticios. Nao foram encontrados dados brasileiros acerca da avaliacao do conteudo desses alimentos, mas um relatorio recente publicado nos Estados Unidos evidenciou que mais da metade dos produtos adquiridos aleatoriamente em lojas especializadas diferiam em 20% ou mais em relacao a composicao descrita nos rotulos. Com isso, o direito do consumidor esta sendo lesado, ao mesmo tempo em que ha falhas quanto a determinacao do padrao de identidade desses alimentos, com possiveis riscos a saude. De acordo com os autores desse documento, esse fenomeno e consequencia da falta de controle sobre a industria de suplementos (Eletronic Newsletter citado por Bacurau, 2006).

Acresce-se que tem sido relatada a ocorrencia de outros problemas relativos ao uso de suplementos, como a presenca de esteroides (ADA; SBME, 2003; Burke, 2000; Bacurau, 2006). Em estudo conduzido pelo Laboratorio de Colonia com 634 suplementos provenientes de 215 fornecedores, de 13 paises, 94 produtos apresentaram precursores de hormonios, nao declarados em seus rotulos e que poderiam gerar casos positivos de doping. Em outra pesquisa realizada em Viena, 57 suplementos foram analisados, dentre os quais 12 apresentavam esteroides proibidos (SBME, 2003; Maughan, King e Lea, 2004). A analise da presenca destas substancias proibidas nao foi realizada neste estudo, mas novas pesquisas podem melhor elucidar esta questao, no sentido de verificar a qualidade quimica dos alimentos para praticantes de atividades fisicas disponiveis no mercado brasileiro.

CONCLUSAO

O consumidor de alimentos para praticantes de atividades fisicas encontra-se mal informado sobre o conteudo dos suplementos e as consequencias de sua ingestao, por desconhece-los e em virtude das inadequacoes observadas neste estudo quanto a rotulagem.

Com isso, destaca-se o papel do profissional de saude especializado na veiculacao de informacoes precisas e confiaveis, uma vez que comumente estes alimentos sao consumidos por orientacao de profissionais nao especializados no tema ou por iniciativa do proprio usuario, ou seja, sem respaldo tecnico para a conduta. Portanto, fazse necessaria a atuacao permanente do nutricionista para resgate dos aspectos alimentar e nutricional na promocao e manutencao da saude de atletas e praticantes de atividades fisicas, em conjunto com tecnicos e familiares, assessorando-os com a adequacao dietetica e a suplementacao alimentar, quando indicada.

Acresce-se que as controversias e a falta de estudos sobre alimentos para praticantes de atividades fisicas deve-se nao apenas em funcao de ser um fato recente, mas tambem ao constante aparecimento de novos produtos no mercado. Alem disso, o compromisso pleno dos fabricantes com a informacao minuciosa e precisa e a atualizacao periodica das regulamentacoes sobre rotulagem facilitariam a atuacao dos profissionais de saude e a educacao do publico em geral sobre o uso seguro e eficiente desses alimentos.

REFERENCIAS

(1-) American College of Sports Medicine; American Dietetic Association; Dietetians of Canada. Nutrition and Athletic Performance. Medicine & Sciences in Sports Exercise. Chicago, Estados Unidos. S/data.

(2-) Araujo, A.C.M.F.; Araujo, W.M.C. Adequacao a legislacao vigente, da rotulagem de alimentos para fins especiais dos grupos alimentos para dietas com restricao de carboidratos e alimentos para dieta de ingestao controlada de acucares. Higiene Alimentar. Sao Paulo. Vol. 15. Num. 82. 2001. p. 52-68.

(3-) Bacurau, R.F. Nutricao e Suplementacao Esportiva. 4a ed. Sao Paulo. Phorte. 2006. p. 17-46.

(4-) Brasil. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria. Resolucao-RDC ANVISA no. 29 de 13 de Janeiro de 1998--Aprova o Regulamento Tecnico para fixacao de identidade e qualidade de alimentos para fins especiais. Brasilia, 1998a.

(5-) Brasil. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria. Portaria no. 222, de 24 de Marco de 1998--Aprova o Regulamento Tecnico para fixacao de identidade e qualidade de alimentos para praticantes de atividades fisicas. Brasilia, 1998b.

(6-) Brasil. Codigo de Protecao e Defesa do Consumidor. Departamento de Protecao e Defesa do Consumidor. Ministerio da Justica. Brasilia, 1998c.

(7-) Brasil. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria. Resolucao-RDC ANVISA no. 359, de 23 de Dezembro de 2003--Aprova o Regulamento Tecnico de porcoes de alimentos embalados para fins de rotulagem nutricional. Brasilia, 2003a.

(8-) Brasil. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria. Resolucao-RDC ANVISA no. 360, de 23 de Dezembro de 2003--Aprova o Regulamento Tecnico sobre Rotulagem Nutricional de produtos embalados. Brasilia, 2003b.

(9-) Brasil. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria. Resolucao-RDC ANVISA no. 163, de 17 de Agosto de 2006--Aprova a Rotulagem Nutricional de alimentos embalados (Complementacao das Resolucoes RDC no. 359/2003 e RDC no. 360/2003). Brasilia, 2006.

(10-) Borges, R.F.; Sarmento, R.M. Conformidade da rotulagem de alimentos para praticantes de atividade fisica segundo a legislacao brasileira. Higiene Alimentar. Sao Paulo. Vol. 19. Num. 137. 2005. p. 127-135.

(11-) Burke, L.M. Positive Drugs from Supplements. Sportsciences. Belconnen, Australia. Vol. 4. Num. 3. 2000.

(12-) Burke, L.M.; Kiens, B.; Ivy, J.L. Carbohydrates and fat for training and recovery. Journal of Sports Sciences. Reino Unido. Vol. 22. 2004. p. 15-30.

(13-) Celeste, R.K. Analise comparativa da legislacao sobre rotulo alimenticio do Brasil, Mercosul, Reino Unido e Uniao Europeia. Revista de Saude Publica. Sao Paulo. Vol. 35. Num. 3. 2001. p. 217-223.

(14-) De Araujo, A.C.M.; Soares, Y.N.G. Perfil de utilizacao de repositores proteicos nas academias de Belem, Para. Revista de Nutricao. Campinas, Sao Paulo. Vol. 12. Num. 1. 1999. p. 5-19.

(15-) De Rose, E.R.; Feder, M.G.; Pedroso, P.R.; Guimaraes, A.Z. Uso referido de medicamentos e suplementos alimentares nos atletas selecionados para controle de doping nos Jogos Sul-americanos. Revista Brasileira de Medicina do Esporte. Sao Paulo. Vol. 12. Num. 5. 2006. p. 239-242.

(16-) De Sa, C.A.; Portela, L.O.C. A manipulacao de carboidratos na dieta e o diagnostico da performance. Revista Brasileira de Ciencia e Movimento. Vol. 9. Num. 1. 2001. p. 13-24.

(17-) Do Prado, W.L.; Botero, J.P.; Guerra, R, L.F.; Rodrigues, C.L.; Cuvello, L.C.; Damaso, A.R. Perfil antropometrico e ingestao de macronutrientes em atletas profissionais brasileiros de futebol, de acordo com suas posicoes. Revista Brasileira de Medicina do Esporte. Sao Paulo. Vol. 12. Num. 2. 2006. p. 61-65.

(18-) Febbraio, M.A.; Keenan, J.; Angus, D.J.; Campbell, S.E.; Garnham, A.P. Preexercise carbohydrate ingestion, glucose kinetics, and muscle glycogen use: effect of the glycemic index. Journal of Applied Physiology. Estados Unidos. Vol. 89. 2000. p. 1845-1851.

(19-) Mahan, L.K.; Escott-Stump, S. Alimentos, Nutricao e Dietoterapia. 10a ed. Sao Paulo. Rocca. 2002. p. 517-538.

(20-) Maughan, R.J.; King, D.S.; Lea, T. Dietary supplements. Journal of Sports Sciences. Reino Unido. Vol. 22. 2004. p. 95-113.

(21-) Monteiro, R.A.; Coutinho, J.G.; Recine, E. Consulta aos rotulos de alimentos e bebidas por frequentadores de supermercados em Brasilia, Brasil. Revista Panamericana de Saude Publica. Washington, Estados Unidos. Vol. 18. Num. 3. 2005. p. 172-177.

(22-) Nieper, A. Nutritional supplement practices in UK junior national track and field athletes. British Journal of Sports Medicine. Reino Unido. Vol. 39. 2005. p. 645-649.

(23-) Pereira, B.; Souza Junior, T.P. Metabolismo celular e do exercicio fisico: aspectos bioquimicos e nutricionais. Sao Paulo. Phorte. 2004. p. 103-116.

(24-) Pereira, R.F.; Lajolo, F.M.; Hirschbruch, M.D. Consumo de suplementos por alunos de academias de ginastica em Sao Paulo. Revista de Nutricao. Campinas, Sao Paulo. Vol. 16. Num. 3. 2003. p. 265-272.

(25-) Silva, M.E.M. Repercussao da informacao nutricional sobre o comportamento de clientes de restaurantes universitarios. 2006. 161p. Dissertacao (Mestrado em Saude Publica) Faculdade de Saude Publica, Universidade de Sao Paulo, Sao Paulo, 2006. p. 2-11.

(26-) Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte. Modificacoes dieteticas, reposicao hidrica, suplementos alimentares e drogas: comprovacao da acao ergogenica e potenciais riscos para a saude. Revista Brasileira de Medicina do Esporte. Sao Paulo. Vol. 9. Num. 2. 2003. p. 1-13.

Recebido para Publicacao em 29/03/2008

Aceito em 10/04/2008

Mariana Carvalho Pinheiro [1], Antonio Coppi Navarro

[1] Programa de Pos-graduacao Lato Sensu em Bases Nutricionais da Atividade Fisica: Nutricao Esportiva da Universidade Gama Filho

Endereco para correspondencia:

Mariana Carvalho Pinheiro

Rua Eugenio Jardim, Quadra 34 Casa 26

Setor Tradicional--Planaltina--Distrito Federal. 73.330-073

carvalhopinheiro@gmail.com
Tabela 1: Percentual de inadequacao dos repositores
energeticos, comercializados no Distrito Federal, em
relacao aos itens 8.1.1, 9.1.2.5 e 9.2.1 das Portarias
no. 29/1998 e no. 222/1998 da Agencia Nacional
de Vigilancia Sanitaria.

Item de referencia         Texto do item         Percentual de
na Legislacao                                   inadequacao (%)

8.1.1 da Portaria     "designacao do                 26,92
  no. 29/1998           alimento, de
                        acordo com a
                        legislacao
                        especifica,
                        seguida da
                        finalidade a
                        que se destina
                        em letras da
                        mesma cor e tamanho".
9.1.2.1 da Portaria   "(...) orientacao              11,54
  no. 222/1998          em destaque e
                        em negrito:
                        'Criancas,
                        gestantes e
                        idosos, consumir
                        preferencialmente
                        sob orientacao
                        de nutricionista
                        e ou medico'.".
9.1.2.5 da Portaria   "Ficam proibidas                 0
  no. 222/1998          expressoes tais
                        como 'anabolizantes',
                        'body building',
                        'hipertrofia
                        muscular', 'queima
                        de gorduras', 'fat
                        burners', 'aumento
                        da capacidade
                        sexual', ou
                        equivalentes".

Tabela 2: Media e desvio-padrao de gramatura para as
medidas caseiras sache, dosador e colher sopa dos
repositores energeticos comercializados no
Distrito Federal.

                                  Medidas-caseiras

                  Sache (gel)      Dosador (po)     Colher sopa (po)

X e DP          33, 4 ([+ or -]   31,57 ([+ or -]   14,76 ([+ or -]
  (em gramas)       7,23) g          13,52) g           5,54) g
COPYRIGHT 2008 Instituto Brasileiro de Pesquisa e Ensino em Fisiologia do Exercicio. IBPEFEX
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2008 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Author:Pinheiro, Mariana Carvalho; Navarro, Antonio Coppi
Publication:Revista Brasileira de Nutricao Esportiva
Date:May 1, 2008
Words:7212
Previous Article:Creatine supplementation and possible side effects/ Suplementacao de creatina e possiveis efeitos colaterais.
Next Article:Effect of intervention nutritional and analysis of the corporal composition of the feminine team of volleyball of the club Sao Caetano do Sul of the...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2020 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters