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Comunicacao partidaria: a estrategia comunista durante a ditadura militar brasileira.

Party communication: the communist strategy during Brazilian military dictatorship

Este artigo visa tratar do tema midia e ditadura militar observando o tipo de comunicacao utilizada pelos militantes do Partido Comunista do Brasil, PCdoB no transcurso da decada de 1970. Isto se justifica no fato das pesquisas, em geral, quando se referem aos comunistas, na grande midia (Mariani, 1998) ou na comunicacao realizada por eles (Serra, 2007), focarem-se sobre o Partido Comunista Brasileiro, PCB. Portanto, ha um vacuo quando a discussao envolve o PCdoB.

O unico partido de tradicao marxista-leninista ainda existente, o PCdoB foi fundado em 1962 como um pequeno partido clandestino de quadros. O Partido se engajou no Movimento Democratico Brasileiro, em 1983, se tornou legal em 1985, apoiou a oposicao no Colegio Eleitoral e o primeiro governo da Nova Republica. Em 1987, passou a ser oposicao ao governo Sarney e apesar de acusar o Partido dos Trabalhadores de ser um representante da social democracia a servico do capitalismo, se incorporou em 1989 a Frente Brasil Popular que apoiou a candidatura de Luiz Inacio Lula da Silva. Em 2002, junto com o PT, chegou ao governo federal.

Assim, o objetivo deste artigo, e discutir o papel que a imprensa do PCdoB teve nos anos 1970 para ajudar o Partido a suportar esse agudo quadro de crise. De forma mais especifica, queremos entender o lugar ocupado pelo jornal A Classe Operaria, orgao oficial do partido, na manutencao da identidade partidaria nesse periodo. Partimos da hipotese que este jornal estava inserido num circuito comunicativo do partido cuja enfase primordial era efetivar entre os militantes o mito da revolucao mesmo diante da mais severa crise e da opcao velada do partido pela via eleitoral apos o fracasso da guerrilha do Araguaia.

Neste sentido, o artigo esta dividido da seguinte forma: na primeira parte apresentaremos uma sintetica historia do PCdoB, pontuando a importancia de A Classe Operaria para ele sustentar a sua identidade e se distinguir das outras correntes de esquerda reformistas ou revolucionarias. Depois, vamos partir para a analise do jornal com o intuito de discutir como A Classe Operaria se inseria nas estrategias discursivas do PCdoB e de que forma seu conjunto narrativo permitia os seus leitores e militantes apreender o Partido como uma "comunidade imaginada".

E preciso ressaltar que analisamos os exemplares entre 1975 e 1979 nao apenas por ser um periodo de distensao politica, mas pelo fato do PCdoB uma acentuacao dos seus dilemas diante da morte dos seus militantes pela ditadura e do intenso e tenso debate interno sobre o significado da experiencia no Araguaia.

O PCdoB e sua historia
   A Classe Operaria, no entanto, sempre encontrou
   meios e formas de levar a orientacao
   do Partido a seus militantes e aos setores
   avancados do proletariado e do povo. As
   forcas reacionarias e fascistas jamais conseguiram
   silencia-las em definitivo. Tambem
   os revisionistas tentaram faze-lo, por manobras
   escusas, mas falharam. E que, em sua
   renegacao dos objetivos revolucionarios, os
   revisionistas, chefiados por Prestes, pretenderam
   logo depois de 1957, acabar com a
   tradicao combativa da imprensa do Partido.
   Sentiam particular repugnancia por tudo
   que cheirasse a proletario dizendo que a palavra
   traduzia sectarismo. Chegaram, entao,
   a abandonar o nome "Voz Operaria", que
   em certo periodo substituira "A Classe Operaria".
   A esta, davam-na como inexistente
   para todo o sempre. De modo que, quando
   a viram voltar a circular a circulacao, em
   1962, ficaram furiosos, trataram de ignora-la
   (A Classe Operaria, no. 97, maio de 1975).


O jornal A Classe Operaria e o orgao oficial do PCdoB. Suas condicoes de producao e, principalmente, circulacao do periodico eram extremamente dificeis em 1975. Dois anos antes, o coordenador do jornal, Lincoln Oest foi assassinado e a equipe que ele dirigia, presa pelo DOI-CODI. Dai em diante, a producao do jornal passou a contar com a colaboracao de militantes oriundos da Acao Popular que se integraram ao PCdoB, entre eles Carlos Azevedo, jornalista do grupo fundador da revista Realidade e com passagens pelo O Estado de S. Paulo, e Bernardo Joffily, atual editor do site Vermelho. Eles editavam o jornal da AP, Libertacao, incorporado as estruturas comunicativas do PCdoB e passaram a colaborar com A Classe Operaria.

Com o exterminio da guerrilha do Araguaia o quadro piorou. O jornal era pautado e escrito pelos dirigentes do PCdoB, como Joao Amazonas e Pedro Pomar, e confeccionado com o auxilio de militantes, como Azevedo, que colaborava com informacoes e dados para os dirigentes elaborarem os seus artigos. Sua distribuicao era feita de forma bastante original e criativa. O material produzido era enviado para Tirana, capital da Albania, para que pudesse ser transmitido da pelos militantes jornalistas que, como Joffily, que desde 1974 trabalhavam na Radio Tirana.

A transmissao era captada no todo ou em partes, gravada e o material transcrito por militantes espalhados pelo Brasil. Estes colocavam suas transcricoes no correio para pessoas responsaveis pela impressao do jornal. Estas estavam espalhadas por regioes e tinham a missao de distribuir o jornal atraves do contato face a face com outros militantes e simpatizantes do PCdoB, que liam e redistribuiam o jornal. Por questoes de seguranca, essa cadeia de producao, circulacao e consumo procurava se manter no anonimato e mudava de local de operacao constantemente.

Podemos, assim, compreender melhor a primeira frase da epigrafe que abre esta parte do artigo, no qual o narrador anonimo afirma que "A Classe Operaria sempre encontrou meios e formas de levar a orientacao do Partido aos seus militantes e aos setores avancados do proletariado". As forcas reacionarias e fascistas eram, obviamente, os militares que comandavam a ditadura e sua rede de apoio. E os "revisionistas" eram os militantes do Partido Comunista Brasileiro que, comandados por Luiz Carlos Prestes, retiraram A Classe Operaria de circulacao em 1957 e levaram o PCB no ano seguinte aderir ao gradualismo reformista. Mas qual o peso que a rivalidade com o PCB tinha para a manutencao da identidade do PCdoB? Esta resposta exige um breve exame historico.

O PCdoB foi fundado em 1962 por um grupo de militantes expulsos do PCB. O acontecimento que deflagrou esse processo foram as denuncias dos crimes praticados por Stalin no XX Congresso do Partido Comunista da Uniao Sovietica em 1956. Dai em diante, o antigo Partido Comunista do Brasil, fundado em 1922 e cuja sigla era PCB, se dividiu em duas correntes. A primeira, apos a postura vacilante do seu lider, Luiz Carlos Prestes, passou a advogar uma profunda autocritica publica do stalinismo (processo denominado de "desestalinizacao") acompanhada de uma revisao das formulacoes radicais que orientavam a acao politica do PCB contidas no Manifesto de 1950.

A outra corrente tinha como expoentes quadros como Joao Amazonas, Mauricio Grabois, Diogenes Arruda Camara e Pedro Pomar. Era mais heterogenea, mas, em linhas gerais, propunha mudancas limitadas na linha politica, sem abalar de forma contundente a ortodoxia partidaria calcada no stalinismo. A Declaracao de Marco de 1958 significou a vitoria do primeiro grupo e uma reorientacao na acao politica do partido, com sua adesao ao reformismo, a defesa de uma politica de aliancas com o bloco nacional desenvolvimentista e de um modelo economico caracterizado como "democratico-burgues".

A crise se aprofundou em 1961. A direcao do PCB mudou os estatutos do partido de modo a alterar seu nome. Ele passou a se chamar Partido Comunista Brasileiro como forma de demonstrar a quebra de vinculo com a Uniao Sovietica. Retirou tambem as referencias ao marxismo-leninismo e ao objetivo de promover a "ditadura do proletariado" para viabilizar sua legalizacao junto ao TSE. Em contrapartida, o grupo oposicionista redigiu um abaixo-assinado (A Carta dos Cem) acusando o Comite Central de criar um partido sem alma e expressao revolucionaria.

Acusados de "divisionistas", os signatarios do documento foram expulsos da legenda e em 1962 promoveram uma Conferencia Nacional Extraordinaria para "reorganizar" o verdadeiro Partido Comunista do Brasil, fundado em 1922, mantendo este nome e alterando a sigla para PCdoB. Dentro desse processo de "reorganizacao", recuperar A Classe Operaria como orgao oficial do partido foi estrategico para a preservacao da memoria e da identidade partidaria.

Isto porque o grupo fundador do velho PCB editava uma revista chamada Movimento Communista. Acusados de serem "pequenos-burgueses", esses militantes seguiram a determinacao da Agencia de Propaganda para America do Sul da Internacional Comunista, fecharam a revista e criaram um jornal "operario e de massas". A Classe Operaria comecou a circular no dia 1 de maio de 1925 com o objetivo de divulgar o marxismo entre os trabalhadores brasileiros e facilitar o recrutamento de novos militantes, bem como a criacao, organizacao e expansao de nucleos, celulas e comites operarios para o partido (Mourao, 2009; Morais, 1994).

A Classe Operaria foi fechada pela repressao tres meses depois. Voltou a circular no 1 de maio de 1928 e em meados de 1929 teve sua sede invadida e depredada, passando a circular clandestinamente. Junto com A Manha, editada por Pedro Motta Lima, se tornou portavoz do levante de 1935. Com o fracasso da Insurreicao, sua oficina no Rio de Janeiro foi descoberta pela policia. Isto obrigou a redacao se transferir para Salvador e Sao Paulo. Mas nao adiantou. Sua circulacao foi diminuindo durante o Estado Novo na medida em que as celulas comunistas iam sendo desbaratadas.

Entre 1945 e 1947, o PCB passou por uma fase de legalidade e ampliou sua rede de jornais. Porem, com a Guerra Fria, a conjuntura interna mudou. Num expediente tatico, a direcao do PCB mudou o nome de varios jornais, mas o partido foi posto na ilegalidade pelo TSE em 7 de maio de 1947. Dai em diante, A Voz Operaria se tornou o orgao central do PCB, circulando de forma clandestina. A Classe Operaria voltou a circular em 1953, editada por Mauricio Grabois, que pretendia nas suas paginas retomar seu objetivo inicial e "desenvolver com mais amplitude a propaganda do marxismoleninismo". Porem, constantes apreensoes inviabilizaram a empreitada, levando-a a sair de circulacao em 1957 (Morais, 1994).

Assim pode-se compreender melhor a importancia do lancamento de A C/asse Operaria em 1962.

O jornal foi fundamental na estrategia do PCdoB em se apropriar da memoria e historia de luta do comunismo no Brasil, vilipendiada pelos seguidores de Prestes.

Tendo Mauricio Grabois como diretor e Pedro Pomar como editor, o jornal foi o principal eixo interlocucao do Partido na producao de um discurso cujo objetivo era convencer seus militantes e interlocutores do que o PCdoB era o autentico e unico representante das tradicoes marxistas-leninistas no Brasil. Atraves da reedicao de A Classe Operaria, o PCdoB passou a afirmar sua autoridade moral para se apropriar do patrimonio deixado pelo partido fundado em 1922 (Mourao, 2009; Sales 2007).

Foi desta forma que o PCdoB enfrentou, de um lado, o imenso prestigio que PCB tinha no inicio dos anos 1960 no campo politico cultural, e de outro, organizacoes de esquerda como a Acao Popular, AP, POR, Partido Operario Revolucionario e ORM-POLOP, Organizacao Revolucionaria Marxista-Politica Operaria, fundadas entre 1960 e para as quais a ortodoxia sovietica do PCB e stalinista do PCdoB nao fazia sentido e a revolucao socialista era tarefa imediata. Para se distinguir do PCB, o PCdoB adotou uma retorica revolucionaria cujo modelo era o da guerra popular prolongada, fornecido pelo Partido Comunista Chines, ainda fiel a ortodoxia stalinista.

A questao e que para se distinguir das outras correntes de esquerda e advogar o status de herdeiro das tradicoes do "velho PCB", o PCdoB se manteve fiel aos marcos teorico da III Internacional, que observava o advento do socialismo como fruto de um processo gradual, evolutivo e feito por etapas. Neste sentido, o partido defendia que a revolucao tivesse um carater "democratico", devendo ser antecedida por uma politica de aliancas de amplos setores a serem comandados pelo operariado. Apos o golpe de 1964, o partido passou a defender a formacao de uma nova Assembleia Constituinte, tornando o uso da violencia revolucionaria sujeito ao sucesso ou nao da via eleitoral (Sales, 2007).

Esse dualismo tatico-estrategico (Gorender, 1998) vai se explicitar no documento que resultou das discussoes da VI Conferencia realizada pelo Partido em 1966. A hesitacao do PCdoB no enfrentamento armado com o regime militar vai provocar descontentamento num grupo de militantes que queria ver o Partido distanciado imediatamente do pacifismo do PCB. Este grupo dissidente vai formar o PCdoB-Ala Vermelha (1).

As divergencias internas no PCdoB sobre a forma de se dirigir a luta armada so acalmaram quando parte de seus militantes entrou efetivamente em luta contra o exercito brasileiro na regiao do Araguaia em 1972. Foi a partir deste momento, que partes dos militantes da Acao Popular, AP, ingressaram no PCdoB, devido ao status de partido revolucionario que a legenda adquiriu.

Assim, podemos retornar novamente a epigrafe. Em 1975, com quase todas as organizacoes da esquerda clandestina desarticuladas pela ditadura militar, o PCdoB retomou as polemicas com seu grande inimigo no campo da esquerda, o PCB, acusando o partido de revisionismo. Tal estrategia discursiva era importante para manutencao da unidade partidaria naquela conjuntura em que os militantes estavam ansiosos para saber o que efetivamente aconteceu no Araguaia. O silencio do Partido foi quebrado um ano depois, quando o PCdoB admitiu ter sofrido um "temporario retrocesso na guerrilha" (Sales, 2007).

Mas isto foi suficiente para abrir uma longa e tensa discussao interna sobre os significados da luta guerrilheira no campo. De um lado estava Angelo Arroyo, sobrevivente da guerrilha e para qual a mesma, apesar de prescindir do trabalho de massa, havia sido positiva. De outro, Pedro Pomar sustentava que a experiencia resultara numa derrota estrategica, politica e militar do partido. Uma outra reuniao, em dezembro de 1976, foi interceptada pela policia que assassinou tres liderancas do partido, Pedro Pomar, Angelo Arroyo e Joao Batista Andrade Drumond, num episodio conhecido como Massacre da Lapa.

A partir dai o PCdoB ficou praticamente desarticulado. O Comite Central passou a operar no exterior sob a lideranca de Joao Amazonas. Mas manteve aqui no Brasil suas estruturas comunicativas operando atraves de A Classe Operaria, que continuava com um metodo de producao bastante artesanal e com a atuacao de seus militantes jornalistas nos jornais alternativos, especialmente em O Movimento (Kucinski, 1991). Desta forma, o PCdoB tentava manter sua unidade e se comunicar com um publico simpatizante de um ideario de esquerda, alem de por o que sobrou de sua rede de militantes no esquema de distribuicao do seu orgao oficial.

O PCdoB como comunidade imaginada

O processo de comunicacao sempre envolveu discussao e sociabilidade. Decorre de um trabalho de assimilacao das informacoes em grupos, o que implica a criacao de uma consciencia coletiva ou opiniao publica (Darnton, 1998). Isto nos permite pensar a comunicacao como processo que envolve a formacao de redes comunicativas e que se compreenda o jornal como instrumento potencial para reforcar e ampliar sentimentos coletivos.

Os grupos sociais sempre tiveram como pratica reportar acontecimentos que diziam respeito as suas comunidades, como desastres naturais, guerras e outros eventos, num esforco de sobrevivencia ou simplesmente por trivialidades e o gosto pela fofoca. As maneiras de reportar esses eventos e que mudaram, porem, convivem com outras antigas como parabolas e lendas (Carey, 2007).

Uma das raizes etimologicas da palavra comunicacao a interpreta como "tornar comum" ou "comungar". Desta forma, e factivel se pensar que os individuos leem jornal para ficar informados, compartilhar de um mesmo mundo e reforcar os lacos de pertencimento com os membros de sua comunidade.

A leitura de um jornal e uma forma de se manter relacoes sociais com individuos para alem de relacoes face a face, colaborando para que os mesmos reforcem suas crencas comuns e tenham a mesma "leitura" do que percebem como "realidade" (Carey, 2007).

Zelizer (1992) pensa os jornalistas como autoridades culturais que utilizam recursos narrativos, tecnologicos e institucionais para se afirmarem como porta-vozes legitimados dos eventos da "vida real". Eles sao responsaveis pelos rituais publicos de leitura e guardioes da memoria coletiva de sua comunidade. No caso de A C/asse Operaria, esta autoridade seria reforcada por uma instituicao fora da instancia midiatica, o partido politico.

Neste sentido, A Classe Operaria utilizava um conjunto de recursos narrativos distinto do padrao de jornalismo que se hegemonizou no Brasil a partir das reformas da decada de 1950 (Ribeiro, 2007). Sua preocupacao primeira era fidelizar e reforcar os lacos de solidariedade entre os militantes do PCdoB com o partido e entre si. Evidentemente que isto tinha um preco, a dificuldade em transformar o jornal em um orgao de comunicacao de massa.

Isto nos permite pensar o PCdoB como uma comunidade imaginada (Anderson, 2008), pois ele e tambem resultante do conjunto de narrativas produzidas pelos jornalistas militantes ou membros do Comite Central que escreviam em A Classe Operaria. Essas narrativas circularam entre os membros do partido permitindo que, apesar das defeccoes, separacoes, expurgos, o PCdoB atravessasse o periodo da ditadura se mantendo como na sua fundacao: um pequeno partido de quadros unido ideologicamente pelo marxismoleninismo e pelo stalinismo, sendo dotado de "quadro teorico" da realidade brasileira similar ao esbocado pelo antigo PCB, apesar do esforco para distinguir deste.

Assim,

o jornal atuava performativamente, construindo ideias e sentimentos coletivos, reportando rituais, normas e valores que eram reforcados mutuamente entre os comunistas e o partido atraves de sua rede de comunicacao.

Esse era o seu principal objetivo, mas nao o unico. Ao observar seus textos no periodo de abertura politica, entre 1975 e 1979, identificamos um conjunto de funcoes referenciadas pelas seguintes categorias: 1) resolucao; 2) disciplina partidaria, 3) analise; 4) apelo a acao e 5) comemoracao (Pereira, 2009).

As resolucoes sao documentos orientadores das diretrizes politicas e ideologicas do partido. Sao textos de carater normativo, fruto de deliberacoes coletivas resultantes de Congressos, Conferencias e Encontros, ratificadas pelo Comite Central, principal instancia de poder. As resolucoes, de forma geral, exercem um papel ritual de imputar aos militantes a hierarquia partidaria e a conduta que o Partido espera de cada um.

As decisoes adotadas pela VII Conferencia--ja ratificadas pelo Comite Central--precisam ser levadas ao conjunto do Partido, discutidas e assimiladas por todos comunistas, a fim de que se transformem em linha comum de atuacao partidaria. Elas podem e devem ser enriquecidas com as contribuicoes de cada militante de modo a concretizar em cada organismo as tarefas ali indicadas. E imperioso organizar a luta pela aplicacao das decisoes da VII Conferencia, o que significa por em pratica de maneira criativa o conteudo destas resolucoes e faze-las chegar as grandes massas trabalhadoras e populares (A Classe Operaria, no. 137, junho de 1979, p.13).

A segunda categoria e a disciplina partidaria. Enquanto as resolucoes dizem respeito a parametros coletivos de conduta, os textos que reforcam a disciplina partidaria se referem ao militante atraves de casos exemplares. A meta principal aqui e sustentar, fazer o militante comunista agir de acordo com os principios partidarios do Leninismo e do Stalinismo: ele deve se comportar como um soldado do partido e atuar na linha de frente pelo socialismo. Este ideal deveria estar acima de quaisquer divergencias internas (Pereira, 2009).

O comportamento de Luiz Medeiros serve de exemplo ao povo em geral, a juventude e, em especial, aos comunistas. E o modo correto de proceder todo aquele que subordina os seus interesses individuais aos objetivos maiores da revolucao e que, se cai na mao do regime terrorista, defende a causa e nao sua pessoa, mesmo ante as piores atrocidades fisicas e morais perpetuadas pelos bandidos fascistas, nao compromete a luta nem a organizacao a que pertence, peleja por manter-se vivo, morre se for preciso, mas jamais, em nenhuma hipotese sucumbe moralmente. E na linha desses exemplos dignificantes que vai se salientando a luta no Brasil de hoje e que vao se forjando os grandes nomes do povo, seus martires e seus herois [...] (A Classe Operaria, no. 108, jul 1976, p. 11-12).

Os textos da disciplina partidaria visam, entao, reforcar uma visao mitica do partido, do proletariado e da propria revolucao (Pereira, 2009). Conforme Sorel (1992) o mito e uma ideia-forca que uma vez instaurada na consciencia coletiva permite a mesma adquirir certa dimensao espiritual dotando o grupo de uma fe em "verdades", que por serem irracionais, levam a acao e nao a reflexao. Neste aspecto, ele se aproxima de dogma sagrado conforme a definicao de Eliade (1972). A ortodoxia marxisma e um exemplo.

A inevitabilidade da revolucao se sustenta no materialismo historico, pois o socialismo e o ultimo estagio evolutivo da sociedade a ser conquistado pela acao do proletariado.

Marx apresentou na forma de teoria aquilo que na realidade e um artificio, uma profecia, para incrementar a luta politica. O exemplo de Medeiros tinha o sentido de mostrar para os militantes do PCdoB que a revolucao socialista era uma "verdade" incontestavel.

As duas categorias seguintes, analise e apelo a acao caminham relativamente juntas mesclando duas funcoes pensadas por Lenin para a o sistema de comunicacao de um partido comunista: a propaganda e a agitacao. A primeira consistiria na analise profunda de todas as causas de um determinado problema com o fim de incentivar a acao criativa dos militantes que compunham a vanguarda do partido operario. A segunda composta por folhetos e discursos orais deveria ser dirigida aos proletarios sem orgulho de pertencer a sua classe (Pereira, 2009).

Para se entender como operava essa combinacao no interior de A Classe Operaria se faz necessario retomar o olhar sobre a conjuntura. Em 1976, o PCdoB admitiu de forma publica ter tido serios contratempos no Araguaia. A admissao da derrota levou o partido a um intenso e desgastante debate interno. A perda de militantes na guerrilha se somou o assassinato de dirigentes com o "Massacre da Lapa". A principal missao dos dirigentes, neste contexto era rearticular o partido e buscar formas de acao de modo a manter a unidade e a identidade partidaria em meio as intensas divergencias internas provocadas pela analise interna feita sobre a experiencia do Araguaia (Pereira, 2009).

O partido retomou o seu "dualismo taticoestrategico", combinando novamente a via eleitoral, forma de consolidar a etapa democratica com a retorica revolucionaria.

Ou se trata de aceitar as reformas da grande burguesia e do imperialismo que desembocarao numa democracia relativa com indeleveis sobrevivencias da ditadura. Ou se ousa vencer e se faz avancar a luta de massas, em todos os niveis e sob todas as formas. Buscando, na atual etapa, ampliar ao maximo as conquistas democraticas pela via de uma Constituinte livremente eleita. E com a certeza de que se algo mudou foi, sem duvida, a correlacao subjetiva entre as forcas sociais em choque, alargando tremendamente as fileiras da frente democratica e exaurindo o campo da ditadura. O que resta agora e saber transformar esse acumulo subjetivo de forcas em acao independente de massas (A Classe Operaria, no. 123, fev. 1978, p. 23).

A enfase no "trabalho de massas" era uma forma de mostrar que o partido nao estava inativo. E a experiencia do Araguaia tinha de ser positivada para o Partido manter sua aurea revolucionaria. E isto foi feito quando o PCdoB elegeu o documento de Angelo Arroyo positivando essa experiencia como a versao oficial sobre a luta guerrilheira (2).

Cabe a nos, militantes do PCdoB, o dever imperioso de ajudar as massas a fazerem a sua experiencia e simultaneamente despertar a sua consciencia revolucionaria. Somente assim estaremos aproveitando a fase de transicao que atravessamos de maneira a ir formando o exercito politico capaz de conduzir a causa popular a vitoria (A Classe Operaria, no. 134, fev/mar de 1979, p. 11).

Esse processo de manutencao dos ideais da revolucao aponta para o lugar reverencial que a memoria do Araguaia passou a ocupar na memoria partidaria. Ela ilustra, de certa forma, o peso da ultima categoria de analise, a comemoracao (Pereira, 2009).

Neste mes de abril comemora-se o quinto aniversario da resistencia armada do Araguaia, acontecimento de extraordinaria significacao na vida do pais. Desfraldando a bandeira da liberdade e dos direitos do povo, moradores do sul do Para enfrentaram o banditismo de poderosas forcas de reacao e, com sua bravura e seu sangue, escreveram uma das mais belas historias das lutas populares no Brasil. Nao temeram sacrificios, jamais vacilaram nos propositos que os animavam. Indicaram, com o seu exemplo o caminho da libertacao nacional e social, o caminho da guerra popular (A Classe Operaria, no. 114, mar/abr 1977, p. 6).

Assim, mesmo diante da configuracao que tomou conta da dinamica politica com o retorno do pluripartidarismo e a presenca do novo sindicalismo do qual o PCdoB inicialmente nao fez parte por ele atacar a Nova Republica, o circuito comunicativo do PCdoB ainda se restringia, no inicio dos anos 1980, aos militantes do partido. Desta forma, quando se fala em frente ampla da oposicao a ditadura, nao se pode perder de vista que boa parte dos militantes do PCdoB ainda se imaginava e ao Partido como a vanguarda que levaria a frente essa luta e, posteriormente, detonaria a explosao revolucionaria. Esse credo se manteve mesmo diante da participacao do partido em eleicoes, primeiro no interior do Movimento Democratico Brasileiro e depois, na legalidade na Assembleia Constituinte e em alianca com o PT em 1989 (Sales, 2007).

REFERENCIAS

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CAREY, James W A Short History of Journalism for Journalists: A Proposal and Essay. In: The Harvard International Journal of Press/Politics; dezembro de 2007.

CAREY, James W. Communication as culture: essays on media and society. Boston: Unwin Hyman, 1989.

DARNTON, Robert. Os best-sellers proibidos na Franca pre-revolucionaria. Sao Paulo: Companhia das Letras, 1998.

EM DEFESA DO PARTIDO. Carta dos 100. Disponivel em: <http://www.vermelho.org.br/pcdob/80anos/ docshists/1961.asp.> Acesso em: 23 jul 2007.

ELIADE, Mircea. Mito eRealidade. Sao Paulo: Perspectiva, 1992.

KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e revolucionarios: nos tempos da imprensa alternativa. Sao Paulo: Ed. Pagina Aberta, 1991.

MARIANI, Bethania. O PCB e a Imprensa--os Comunistas no Imaginario dos Jornais (1922-1989). Rio de Janeiro: Revan; Campinas: UNICAMP, 1998.

PEREIRA, Monica Mourao. A Esquerda Bem Informada: A Estrategia Politica de Comunicacao do PCdoB em Dois Tempos. 2009. Dissertacao. (Mestrado em Comunicacao Social)--Programa de Pos-Graduacao em Comunicacao Social, UFF, Niteroi, 2009.

POLLAK, Michael. Memoria, Esquecimento, Silencio. In: Estudos Historicos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15, 1989.

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SALES, Jean Rodrigues. A Luta Armada contra a Ditadura Militar. Sao Paulo: Fundacao Perseu Abramo, 2007(a).

SERRA, Sonia. Jornalismo politico dos comunistas no Brasil: diretrizes e experiencias da "Imprensa Popular". Anais do II Congresso da Associacao Brasileira de Pesquisadores de Comunicacao e Politica, 2007. Disponivel em: <http:// www.fafich.ufmg.br/compolitica/anais2007/gt_jmpsonia.pdf.> Acesso em: 10 dez 2007.

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ZELIZER, Barbie. Covering the Body: the Kennedy Assassination, the Media, and the Shaping of Collective Memory. Chicago and London: The University of Chicago Press, 1992.

Marco Antonio Roxo da Silva

Professor do Curso de Comunicacao Social da UFF/RJ/BR

marcoroxo@urbi.com.br

Monica Mourao

Professora do Curso de Comunicacao Social da FAC/CE/BR

monicamourao@gmail.com

NOTAS

(1) Como parte desses militantes ja havia recebido treinamento militar na China, tentaram utilizar a teoria do "foquismo", atraves de acoes armadas como assalto a bancos, e o "trabalho de massa" como uma etapa de acumulacao de forcas para a guerra popular prolongada no campo. Atingido duramente pela repressao, os remanescentes da tendencia passaram a criticar o voluntarismo da esquerda revolucionaria e se voltaram para o "trabalho de massa" se engajando nos movimentos sociais e sindicais que nos anos 1970 dariam origem ao Partido dos Trabalhadores. Ver: SALES, Jean Rodrigues. A Luta Armada contra a Ditadura Militar. Sao Paulo: Fundacao Perseu Abramo, 2007, p. 89-94.

(2) Essa decisao do Comite Central foi ratificada pela VII Conferencia em 1979. Insatisfeitos, muitos militantes foram expulsos, outros se afastaram. Alguns foram para o PT e outros, como Jose Genuino, fundaram o Partido Comunista Revolucionario, PRC, que foi uma tendencia do PT se dissolvendo no final dos anos 1980. SALES, Jean Rodrigues. Da Luta Armada ao Governo Lula: A Historia do PCdoB. In: REIS, Daniel Aarao & FERREIRA, Jorge. Revolucao e Democracia. Rio de Janeiro, Civilizacao Brasileira, 2007, p. 175.
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Title Annotation:DOSSIE DITADURA
Author:Roxo da Silva, Marco Antonio; Mourao, Monica
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Article Type:Report
Date:May 1, 2010
Words:5230
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