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Competition and alliances among researchers: reflections about the expansion of research groups during the years 1990 to 2000 in Brazil/Concorrencia e aliancas entre pesquisadores: reflexoes acerca da expansao de grupos de pesquisa dos anos 1990 aos 2000 no Brasil.

Introducao

Vivemos tempos interessantes marcados por profundas transformacoes estruturais e culturais que afetam a cultura, a politica, a economia, a vida cotidiana, a educacao e, tambem, a ciencia e seus produtores. Muitos teoricos tem se esforcado em analisar um nucleo comum para a transformacao multidimensional da sociedade. Segundo muitos teoricos, a tecnologia nao seria o nucleo dessas transformacoes, embora o desenvolvimento tecnico, combinado com a acao humana, seja o condutor da mudanca. Para Castells (1996), o nucleo desse processo de transformacao seria uma dupla logica de redes e de identidade. Por um lado, redes de instrumentalidade tecnologica e humana favorecem a acao social em escala nunca antes imaginada; por outro, o poder da identidade enlaca individuos a sua historia, condicoes de vida, habitus, geografia e culturas, fortalecendo suas formas de acao social. No centro desses polos, estariam a crise das instituicoes e o processo de sua reconstrucao. Pensadores como Hutton e Giddens (2000) afirmam haver, nesse contexto, um salto qualitativo na escala e na natureza de riscos e de oportunidades.

A ciencia e a tecnologia e a pesquisa e o desenvolvimento ganharam importancia como suporte desse contexto, em que se exigiu maior amplitude da educacao, de conhecimentos e necessidades tecnicas. Um fenomeno recorrente e o aumento acelerado da instrucao educacional nas sociedades e o consequente crescimento no numero de pesquisadores, cientistas e tecnologos, em razao nao apenas da importancia do conhecimento, mas tambem da diversificacao dos instrumentos de conhecimento, bem como da valorizacao economica da ciencia e da tecnologia e, especialmente, da educacao critica e reflexiva.

O numero crescente de pesquisadores repercute, ao mesmo tempo, em maior desenvolvimento da producao cientifica e maior concorrencia entre os pesquisadores, tanto por recursos quanto por reconhecimento e credibilidade. O proprio ambiente cientifico tornou-se mais complexo com a formacao de uma massa critica mais densa, com a ampliacao do numero de cursos e de alunos de pos-graduacao e com novos agentes no campo cientifico, atingindo a logica e o funcionamento de agencias e de instituicoes voltadas para o conhecimento. Outros fatores institucionais tambem agem no desenvolvimento da "comunidade cientifica" ou, como preferem alguns autores, coletividade cientifica. Entre esses fatores, que promovem a institucionalizacao e a expansao da producao cientifica, podem-se destacar as alteracoes na carreira docente, a ampliacao dos concursos e os criterios de avaliacao de projetos e de distribuicao de recursos, sem desconsiderar as politicas de criacao e de avaliacao de cursos de pos-graduacao e os criterios que sao correspondentes a isso, como a titulacao doutoral do corpo docente.

Em meio a multideterminacao desse contexto, tendo em mente que os pesquisadores sao atores que vivem a realidade social e atuam sobre ela, perguntamos: como agem os cientistas frente a complexificacao do mundo da ciencia?

Na ultima decada do seculo XX, a "comunidade cientifica" no Brasil foi marcada por expressiva expansao de grupos de pesquisa, que continuou ocorrendo nos anos 2000. A formacao de grupos de pesquisa esta vinculada a uma serie de aspectos, entre os quais pode se destacar a alocacao e a escassez de recursos para a pesquisa; a obrigatoriedade da inscricao dos pesquisadores, por parte das instituicoes de fomento a pesquisa, em grupos de pesquisa, sob a pena de nao poderem participar da distribuicao dos recursos; a livre formacao de equipes compostas por um pesquisador e estudantes de graduacao e pos-graduacao; a afinidade tematica; e, ate mesmo, os jogos de interesse. Sem negar nenhuma dessas explicacoes, mas, complementando essa quimera de determinantes, sugere-se, neste estudo, que a expansao da formacao de grupos de pesquisa e mais uma dimensao para explicar esse contexto, pois esse fenomeno esta vinculado a ampliacao da concorrencia no ambiente cientifico e a recorrencia da organizacao em grupos de pesquisa e da constituicao de aliancas entre os pesquisadores, em torno dos grupos de pesquisa, para melhor participarem da distribuicao de recursos, sejam estes de capital financeiro ou mesmo simbolico.

Procura-se testar a hipotese de que quanto maior o numero de pesquisadores, mais aumenta a concorrencia entre eles e maior e o numero de aliancas entre pesquisadores a fim de superar a condicao da concorrencia. Assim, esse processo estaria tanto forjando novas condicoes de atuacao e organizacao, normas e valores na "comunidade cientifica", como contribuindo para a circulacao e o debate do conhecimento cientifico e para a expansao da producao cientifica brasileira em termos de bibliografia, de linhas de pesquisa e de internacionalizacao.

Em termos teoricos, utilizando-se a concepcao weberiana, parece que se caracteriza uma afinidade eletiva entre o aumento da concorrencia entre os pesquisadores e a expansao das aliancas entre eles, expressa pelo aumento na formacao de grupos de pesquisa.

Ou seja, haveria uma combinacao entre uma mudanca estrutural e uma mudanca da pratica dos atores sociais. Ambos os fenomenos se atrairiam mutuamente e parecem estar tambem atrelados a uma nova configuracao da "comunidade cientifica", afetando sua organizacao, sua pratica e o volume da producao cientifica nacional.

Uma ressalva e importante. A intencao do artigo e descrever uma tendencia, analisando-a nos termos mais gerais de sua expressao como fenomeno que caracteriza a comunidade academica e, por conseguinte, sugerir uma explicacao para o fenomeno. Nao me atenho a uma explicacao definitiva, mas sim em sugerir um argumento consistente e fundamentado que podera ser mais bem testado em hipoteses formuladas em outros sentidos, ate mesmo em pesquisas qualitativas, mais capazes de interpretar a relacao entre pesquisadores, grupos de pesquisa e agencias de fomento (nacionais ou internacionais), bem como a relacao dessa tendencia com as politicas publicas. Sabe-se que a tese aqui sugerida, sobre a formacao de grupos e redes de pesquisa, em decorrencia da concorrencia e da alianca entre os pesquisadores, nao representa uma explicacao geral sobre o fenomeno demarcado pela consolidacao do campo cientifico e da expansao da producao cientifica. Na verdade, a tese consiste na compreensao de outro elemento determinante dentro de um contexto multideterminado. Assim como reconhecemos que nossa tese nao explica essa realidade por si so, outras teses estao longe de fazer o mesmo. Nesse sentido, busca-se contribuir com uma compreensao mais profunda de tal realidade, considerando uma tendencia importante e que expressa a acao dos atores sociais diretamente envolvidos.

As analises mais recentes sobre a ciencia no Brasil, mesmo destacando a crescente complexidade do campo cientifico, demarcada pela expansao do sistema de ciencia, pesquisa e desenvolvimento, e a ampliacao da producao cientifica nacional, tendem a focar-se nas restricoes, barreiras e perdas que sao consideradas consequencias de diversos processos, entre os quais se destaca o ainda baixo grau de investimentos financeiros em pesquisa, ciencia e tecnologia. As abordagens dessa natureza sao importantes, pois evidenciam as contradicoes que emergem da situacao atual da ciencia no Pais. Porem, igualmente importante e abordar o tema do desenvolvimento da ciencia no Brasil sob a perspectiva dos atores sociais, examinandose como eles desenvolvem estrategias na tentativa de superar crises e dificuldades na busca por novos caminhos, novas oportunidades e novos cenarios de lutas. Assim, levando-se em conta as condicoes vivenciadas pelos pesquisadores frente ao crescimento do numero de pesquisadores e deparados com a nao-ampliacao equivalente dos recursos disponiveis para a pesquisa, verificar-se-ia o aumento das praticas de aliancas cientificas, especialmente expresso pela formacao de grupos de pesquisa (1), como um indicador da reacao dos participantes da "comunidade cientifica" (2).

Estudos como os de Leite e Morosini (1992), Franco (1998, 1999 e 2001) e Neves (1998 e 1999) analisaram a institucionalizacao da pesquisa no Brasil e ressaltaram aspectos importantes para compreender tal realidade. De fato, agencias de fomento nacionais (por exemplo, Capes (3), CNPq (4) e Fapesp (5)) e agencias de fomento internacionais (como, por exemplo, a Fulbrigth (6) e os programas MEC-USAID (7), entre muitos outros) vem tendo, desde meados do seculo XX, grande influencia (8) na institucionalizacao e nos rumos da producao cientifica nacional e no estabelecimento de relacoes entre pesquisadores. Ha relatos intrigantes de que a formacao das redes de pesquisadores decorreu, em grande parte, de uma politica explicita de agencias e programas, apontando para a ideia de que a formacao de grupos e de redes nao necessariamente e um resultado espontaneo da dinamica das relacoes entre pesquisadores. A disponibilizacao de recursos para projetos em grupo promoveu um movimento de busca por parceiros por parte dos nucleos de pesquisa consolidados ou emergentes, resultando, muitas vezes, na formacao de grupos "artificiais", embora a iniciativa tambem tenha promovido a elaboracao de projetos mais amplos e relevantes.

Esse fato e fundamental, porem e uma dimensao para abordar a questao. No presente estudo, quero destacar que a formacao de um grupo de pesquisa nao decorre apenas de um encontro casual entre os pesquisadores, promovido pelas oportunidades institucionais, mas em razao das novas condicoes do ambiente cientifico em que se encontram e de formas de afinidade, como, por exemplo, a tematica. Fica evidente que muitas das referidas oportunidades sao essenciais para o desenvolvimento cientifico e tecnologico do Brasil, mas chegar a essas oportunidades, em um contexto de maior concorrencia, tambem sugere formas de organizacao e aliancas entre os pesquisadores e estudantes iniciados no campo. Dito isso, volto a afirmar que nao desconsidero--nem mesmo podemos desconsiderar outros fenomenos como determinantes da realidade em analise, mas sugiro aprofundar a ideia de que a relacao entre a concorrencia e as aliancas entre os pesquisadores sejam mais um aspecto central para compreender a consolidacao do campo cientifico e da expansao da producao cientifica no Brasil.

Neste estudo, utiliza-se o conceito de "comunidade cientifica", em detrimento de outros conceitos mais recentes e mais amplos, como o de coletividade cientifica (sugerido, por exemplo, por Baumgarten, 2006), visto que o estudo faz referencia especifica as relacoes entre pesquisadores e a observacao de suas praticas para superar a condicao de maior concorrencia. Mesmo concordando com os limites do conceito de comunidade, nao estao sendo focadas aqui as relacoes entre os cientistas e destes com a sociedade e o mercado, e sim as relacoes entre estes em certas condicoes sociais. Alem disso, nao se esta referindo especificamente a ampla e complexa rede de agentes envolvidos em ciencia e tecnologia e pesquisa e desenvolvimento. Portanto, considerou-se mais adequado utilizar o conceito "comunidade cientifica", uma vez que me refiro diretamente as transformacoes na realidade dos pesquisadores e na sua organizacao e a busca de solucoes para a pratica cientifica que emerge do locus dos produtores do conhecimento.

Parte-se do suposto de que os agentes de um campo estao enredados a circunstancias que os conduzem a formular estrategias para superar as condicoes sob as quais atuam. Essa insercao condicionada proporcionaria, em um primeiro momento, a insercao dos agentes e sua adequacao a uma forma de atuacao condizente com as expectativas do campo, representando a logica de funcionamento do campo como ela e; e, em um segundo momento, a mobilizacao dos agentes para buscar alterar as condicoes do campo, representando a logica de como o campo pode ser. Nesse sentido, nao se configuram rupturas, mas reformulacoes nas acoes dos agentes envolvidos em patamares mais desenvolvidos de atuacao.

De acordo com Giddens (1984), as praticas sociais estao constituidas pelo conhecimento que os atores sociais possuem delas proprias, e novos conhecimentos implicariam mudancas de valores e alteracoes em como se apropriam dos conhecimentos. A reflexividade da vida social consistiria no fato de que as praticas sociais sao constantemente examinadas e reformadas a luz da informacao renovada sobre essas proprias praticas, o que alteraria, assim, constitutivamente o seu carater. A transformacao nas relacoes sociais seria um processo que acumula a revisao das praticas sociais, e a sociedade modificada e mais uma descontinuidade de situacoes do que uma continuidade de situacoes. Segundo essa teorizacao, a acao humana implica que os atores sabem das circunstancias de sua acao e da acao dos outros, apoiados na producao e reproducao dessa acao e creem nisso.

A "comunidade cientifica" e constituida de numero crescente de atores, mas o poder dos agentes que a compoem e desigual. Nao e misterio que a estrutura de avaliacao para a obtencao de recursos, assim como a lideranca dos grupos de pesquisa, por exemplo, esta fundada na experiencia, no poder e em espacos ocupados nesse campo. Tambem se deve considerar que muitas das politicas e acoes, por terem participacao direta dos pesquisadores mais reconhecidos, tendem a manter distorcoes na base tecnico-cientifica brasileira, reforcando a oligopolizacao de oportunidades e recursos por parte de alguns grupos e instituicoes. Essa evidencia, contudo, nao implica conceber tais relacoes de forma determinante, como se a desigualdade fosse definitiva. Nao se nega que as relacoes de poder condicionam resultados no novo cenario, mas sugere-se que esse movimento e dialetico: os agentes submetidos a tal condicao tendem a reagir, buscando ou criando alternativas que podem transformar-se em oportunidades. Ou seja, a situacao em que os agentes atuam e recursiva e nao exclusivamente restritiva.

A despeito de eventuais perdas, os agentes envolvidos tenderiam a desenvolver estrategias para ajustar-se favoravelmente ao novo contexto. A adequacao dos pesquisadores a nova realidade parece ter sido rapida em termos de aliancas. Nessa disputa entre os pesquisadores, considerando o novo cenario concorrencial, alem da experiencia, passa a valer a produtividade e o conhecimento novo; ou seja, nao basta ter capital simbolico, e preciso ter credito e credibilidade. Nesse sentido, as aliancas em torno de grupos de pesquisa poderiam caracterizar uma forma de reacao dos pesquisadores frente a reducao dos recursos para a pesquisa, uma vez que esta poderia fortalecer a capacidade de obtencao de recursos. De fato, nao e incomum observar que os pesquisadores vem se reunindo, de alguma forma, para a proposicao de projetos de pesquisa as agencias de fomento, mesmo aqueles pesquisadores de reconhecido merito. Os projetos, cada vez mais, sao apresentados as agencias em nome de conjuntos numerosos de pesquisadores. Essa pratica engloba, muitas vezes, pesquisadores reconhecidos, encabecando projetos de pesquisa, do qual participam tambem outros pesquisadores, buscando reconhecimento, e essa pratica tambem e marcada pela presenca de pesquisadores mais jovens, mestrandos, doutorandos e recem-doutores.

A reuniao de pesquisadores em torno de projetos tende a originar grupos de pesquisa. Contudo, esses grupos nem sempre sao sedimentados; ou seja, acabam por destituirem-se apos a execucao dos projetos, mesmo que, em muitos casos, possa ocorrer, pelo contrario, a consolidacao de grupos de pesquisa. E comum observar que devido a esses processos convergentes, especialmente o primeiro, os grupos de pesquisa venham a ser, na verdade, grandes "guardachuvas" de pesquisadores ou, como referi antes, grupos "artificiais", reunidos pela conveniencia, mais do que pela afinidade tematica. Nao se pode esquecer, contudo, que se, por um lado, a restricao relativa de recursos em relacao ao numero de pesquisadores e a exigencia, por parte das agencias, de producao cientifica elevada, como criterio para a distribuicao de recursos, direcionaram os esforcos da "comunidade cientifica" para a publicacao de trabalhos, fato que promoveu a producao cientifica nacional; por outro lado, o mesmo fenomeno pode ter tido como resultado a diminuicao da relevancia das publicacoes e a pratica de aumentar o numero de autores em cada trabalho, fato que pode representar um mecanismo dos grupos constituidos.

Assim, me parece que a expansao dos grupos de pesquisa no Brasil e, sobretudo, um processo de formacao de aliancas por conveniencia e a combinacao de forcas para a obtencao de recursos, porem tambem pode representar uma tendencia ao fortalecimento da "comunidade cientifica". Muitos grupos de pesquisa desenvolvem praticas sedimentadas na afinidade tematica propriamente dita e isso, combinado com outros elementos, significa alguma consolidacao de "comunidade cientifica", principalmente se o resultado for maior producao, maior debate, maior circulacao e maior divulgacao do conhecimento. Nao pretendemos avaliar esse fenomeno como definitivamente positivo ou negativo. Trata-se, sobretudo, de estabelecer conexoes conceituais, atraves da problematica construida, que visa a por ordem nos fenomenos eleitos para observacao, o que quer dizer dar significado aos eventos e demonstrar relacoes verificaveis entre os fatos em questao.

A ciencia e a acao dos seus produtores

A sociologia da ciencia toma por objeto de investigacao os individuos ou grupos de individuos que executam a pratica cientifica, direcionando as analises para o relacionamento entre cientistas e destes com o mundo exterior e para a organizacao e interacao dos praticantes da ciencia. Considero importante retomar algumas das explicacoes classicas sobre o comportamento dos cientistas, chamando a atencao para os esforcos de importantes pesquisadores em compreende-lo. Parece ser fundamental considerar as diferentes perspectivas elaboradas que demonstram o quanto determinados aspectos acabaram tomando maior evidencia para explicar o comportamento desses atores sociais em funcao das condicoes contextuais com que os atores sociais se deparam. Devese considerar que entre os mais classicos, por exemplo, o contexto de praticamente nenhuma concorrencia reservou as explicacoes encontradas a conformacao de um ethos cientifico, mas que, logo nas decadas seguintes, quando ja se inicia um adensamento do campo cientifico, os estudos buscaram explicacoes em aspectos vinculados a disputa paradigmatica. O trabalho classico de Robert Merton procurou analisar os valores dos cientistas e a formacao do ethos cientifico, sem uma preocupacao maior com o ambiente da ciencia. Nos anos vindouros, surgiram explicacoes sobre o comportamento desses atores sociais vinculadas ao reconhecimento cientifico e publico, as disputas por espaco no campo cientifico, a alocacao de capital cientifico e economico e as relacoes internas aos laboratorios. Tambem classicos, Thomas Kuhn e Pierre Bourdieu analisaram, em perspectivas estruturais e funcionais, a pratica da ciencia em seus termos mais amplos, desenvolvendo conceitos como o de "comunidade cientifica", paradigma e campo cientifico. Estudos mais recentes, como os de Bruno Latour e Steve Wolgar (1995) e Karin Knor-Cetina (1981), reorientaram a analise para as relacoes que ocorrem no laboratorio, bem como aquelas que o atravessam, como a relacao entre cientistas, agencias e organizacoes cientificas. Enfim, trata-se, no momento atual, de superar esse debate, sobretudo em razao do solido grau de institucionalizacao do ambiente academico atual e do reconhecimento de uma ciencia multiparadigmatica, mas sem desconsiderar o que foi analisado pelos classicos, que nao perde seu valor.

Em Merton (1973), destacava-se a importancia dada ao tema da adesao a valores na atividade cientifica. Seguidor de Weber, Merton criticava a reducao do ator social ao homo economicus, criticando a antinomia presente nas ideias de comunidade versus mercado ou valores versus interesses, e procurou explicitar o ethos cientifico (o modo de ser e agir cientifico) como padroes de comportamento peculiares a "comunidade cientifica", de forma a diferencia-lo das demais categorias sociais. Contudo, a proposta de Merton ia alem da discussao sobre se os cientistas se comportam ou nao segundo um conjunto de normas. O modelo mertoniano reflete uma pratica plena do fazer cientifico, mais no sentido de como essa deveria ser do que no sentido de como ela e. Na visao desse autor, o amor a ciencia e um elemento basico, que deve marcar presenca em todas as acoes dos praticantes, embora nao se confunda com altruismo, da mesma forma que acao interessada nao e sinonimo de egoismo. Trata-se de paixao pelo conhecimento, curiosidade intelectual, interesse pelo destino da humanidade. E a conscientizacao de que e nao-etico executar investigacoes cientificas exclusivamente por dinheiro ou para garantir posicao social, embora nao o seja a busca por reconhecimento cientifico.

O esquema analitico kuhniano entende essencialmente a evolucao das ciencias como uma sucessao de periodos de ciencia "normal" interrompidos excepcionalmente por revolucoes cientificas que conduzem a mudancas de paradigmas. As revolucoes do pensamento sao definidas como um momento de desintegracao da pratica cientifica, forcando a comunidade de profissionais a reformular o conjunto de compromissos em que se baseia a pratica dessa ciencia. Para Kuhn (1992), o conhecimento cientifico nao cresce de modo cumulativo e continuo, pois seu crescimento e descontinuo, operando por saltos qualitativos. Quando nasce um novo paradigma, ele traz consigo uma nova visao da praxis cientifica, incorporando novos temas prioritarios, novas tecnicas e metodos, novas hipoteses e teorias, nova organizacao da producao cientifica.

Bourdieu (1983) definiu o campo cientifico como um espaco de lutas entre os cientistas, no qual ocorre a concorrencia pelo monopolio da autoridade e da competencia cientifica. Os fatos cientificos encerram um conteudo tecnico instrumental e um conteudo social. Bourdieu busca romper com uma imagem em que a "comunidade cientifica" aparece conciliatoria, apontando que o funcionamento do campo produz e supoe uma forma especifica de interesse: a luta politica pela dominacao cientifica. No campo cientifico, um produtor particular so pode esperar reconhecimento do valor de seus produtos (reputacao, prestigio, autoridade, competencia), que, sendo tambem competidores, sao menos inclinados a dar-lhe razao sem exame ou debate.

Os trabalhos de Latour e Woolgar (1995) e Knorr-Cetina (1981) demarcam uma mudanca de perspectiva da macro para a microanalise da ciencia. Esses estudos preocuparam-se mais com uma sociologia dos cientistas, mantendo a ciencia como algo "misterioso". Latour e Woolgar apontam para a formacao de redes sociotecnicas. Para esses autores, a moeda de troca na ciencia e a credibilidade. Os cientistas investem em campos e temas que prometem maior retorno. Uma constante reinversao de recursos levaria, de acordo com os autores, a constituicao de um circuito ampliado de acumulacao. Nesse ponto de vista, interessa aos cientistas a aceleracao e expansao do ciclo reprodutivo que produz informacao nova e com credibilidade. Dessa forma, o credito como recompensa nao seria o maior objetivo da atividade cientifica. Os autores propoem uma ampliacao do significado de credito, associando-o com "crenca, poder e business activity" (LATOUR e WOLGAR, 1995, p. 194), estendendo o conceito para credibilidade. Em oposicao a Kuhn, para esses autores, o interesse que o cientista tem pelos seus pares e baseado em uma necessidade reciproca em que cada cientista precisa do outro para "aumentar sua propria producao de credible information" (LATOUR e WOLGAR, 1995, p. 202-203)

Knorr-Cetina (1981) propos superar a nocao de "comunidade cientifica" e os modelos de mercado cientifico mediante uma perspectiva centrada nos cientistas e em suas praticas contextuais e contingentes. As informacoes, como a forma de organizacao e de interacao dos agentes na producao do conhecimento cientifico, devem ser verificadas nas percepcoes dos participantes dessa producao no seu contexto especifico, que seria o laboratorio. A autora adota uma perspectiva construtivista, observando os produtos da pratica cientifica como "construcoes contextualmente especificas que tem como caracteristica a situacao contingente e a estrutura de interesse do processo pela qual foram geradas" (KNORR-CETINA, 1981, p. 5).

Para Gibbons (1994), mudancas revelam que um novo modo de producao do conhecimento vem emergindo paralelamente ao modo tradicional, o qual afeta nao apenas o tipo de conhecimento que se produz, como tambem a maneira como e produzido; quer dizer, o contexto em que e perseguido, o modo como e organizado, o sistema de recompensas que ele utiliza e os mecanismos de controle de qualidade com que e produzido (cf. GIBBONS, 1994, p. 41). O modo um esta demarcado pelo interesse cognitivo, realizado pela pesquisa basica com a intencao de acumulacao do conhecimento, orientado exclusivamente para os pares; realizaria-se no contexto academico, orientado pelos interesses da comunidade e do processo do conhecimento. O modo dois opera em um contexto de aplicacao, em que os problemas nao sao enquadrados em sistema disciplinar, passando a ser transdisciplinar, em vez do mono ou multidisciplinar. Este novo modo ainda envolve estreita interacao entre muitos agentes ao longo do processo de producao do conhecimento.

Muitos dos trabalhos trataram sobre a formacao dos grupos de pesquisa no caso brasileiro. Para alguns, os grupos de pesquisa tem suscitado atencao sob a otica da cooperacao, da autoregulacao e da flexibilidade (SANTOS, 1994). Flery e Vargas (1983) destacaram que "a rotina e a racionalizacao (instrumental) nao sao permissivas a formacao de grupos". Fleury e Fischer (1990) discutiram a questao da cultura e do poder das organizacoes, demonstrando que "nas organizacoes, e possivel observar como certos simbolos sao criados, bem como os procedimentos implicitos e explicitos para legitima-los". Zarur (1994) destacou que existe uma forte tendencia de socializacao da comunidade academica e de que a realizacao de pesquisas cada vez mais penda para o trabalho compartilhado, em vez do trabalho individual. Neves (1999) reafirma tal tendencia, mas destaca tambem os aspectos infraestruturais que estimularam a producao do conhecimento, contudo afirma que o trabalho compartilhado e mais comum nas ciencias exatas--e que nas ciencias humanas predomina o trabalho individual. O estudo de Zarur tambem destaca que a forma de organizacao da ciencia no Pais e diferente da adotada nos paises desenvolvidos, pois nao sao os "networks", reunidos por problemas intelectuais comuns, os quais mantem o individuo como unidade sociologica basica, mas os grupos sedimentados a partir de um sistema de relacoes pessoais, tambem sob uma evidencia sincretica de valores de competencia cientifica. Em projeto sobre a institucionalizacao dos grupos na universidade, Franco (2001, p.100) aponta, em carater hipotetico ainda, que, em um sentido geral, "parecem existir grupos mais funcionais, mais ou menos centralizados; grupos interdisciplinares ou nao; interdepartamentais e/ou interinstitucionais ou nao, visando ou nao grau academico.

Franco conclui sinalizando que os grupos parecem ser, enquanto uma esfera eletiva de um coletivo academico, um locus importante para a significacao identitaria.

Mesmo que um grupo de pesquisa, por pertencer a uma comunidade do conhecimento, de algum modo faca parte ou interaja com redes, ele esta no espaco privilegiado da possibilidade de justa-tensao entre a genese produtiva emancipatoria e os padroes de legitimacao estabelecidos pela comunidade cientifica mais ampla (FRANCO, 2001, p. 100).

Fica subjacente tambem a trajetoria de formacao dos grupos de pesquisa no Brasil a concepcao de politicas publicas em relacao a criacao de condicoes para o desenvolvimento de processos inovadores, alem de para a producao de pesquisa. Franco (1997) consideram que "as politicas publicas forjam as condicoes primeiras para que seja desencadeado um efetivo processo de desenvolvimento cientifico e tecnologico [...]" (FRANCO, 1997, p. 30).

Segundo Neves (1998), o avanco da ciencia e, cada vez mais, produto de equipes de pesquisadores com grande capacidade criativa e com uma rotina de trabalho altamente disciplinada e especializada. Para a autora, os estudos das condicoes que propiciam o surgimento de grupos tem demonstrado que e muito importante a confluencia de liderancas, de politicas institucionais promotoras da formacao de recursos humanos e que sustentem projetos institucionais, bem como a existencia de apoios internos e externos eficazes para reforcar a atuacao desses grupos. Para Neves, e dessa combinacao que surgem as circunstancias propicias para o avanco da pesquisa.

Contexto de consolidacao da producao do conhecimento e a criacao do Diretorio de Grupos de Pesquisa

O processo de institucionalizacao da pesquisa nas instituicoes de ensino superior no Brasil e fundamental para compreender o contexto para o surgimento e o fortalecimento de grupos de pesquisa. Esse processo pode ser compreendido sob diversas circunstancias institucionais, tais como a implementacao de instancias decisorias, a criacao de agencias de fomento e de mecanismos de socializacao da pesquisa, a formalizacao de comissoes de pesquisa nas instituicoes e os focos ou interesses de pesquisa propriamente ditos.

A estrutura decisoria para a pesquisa nas instituicoes brasileiras data dos anos 1950, tomando impulso com a Reforma Universitaria de 1968. Franco e Morosini (1992), por exemplo, explicam que, no decorrer da decada de 1960, militares tomaram o poder, tendo como principios a seguranca e o desenvolvimento, visando a modernizacao e a internacionalizacao da economia atraves de politicas que incluiam planos de ciencia e tecnologia. Pode-se notar isso nos planos globais (PND's) e setoriais (PBDCT's, PNPG's) oriundos do Sistema de C&T, bem como os do Ministerio da Educacao. O ultimo foi diretamente responsavel pela Reforma Universitaria (Lei no 5.540, 1968), que mudou a estrutura da universidade brasileira, introduzindo a ligacao entre a pesquisa e o ensino, o conceito de departamento semelhante aos das universidades americanas, os conselhos academicos disseminados em todos os niveis institucionais e o plano de carreira do professor universitario. Leite e Morosini (1992) afirmam que a politica governamental de modernizacao se refletiu no incentivo ao desenvolvimento da ciencia e tecnologia, que teve seu auge nos anos 1970, atraves do fomento, nas universidades, ao crescimento do numero de programas de pos-graduacao. Esse modelo, implantado segundo moldes das universidades norteamericanas, na verdade seguia o modelo humboldtiano ou de producao do conhecimento, tao bem desenvolvido nos paises do primeiro mundo.

Em 1992, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico (CNPq), em acao conjunta com o Ministerio de Ciencia e Tecnologia (MCT), desenvolveu o Diretorio de Grupo de Pesquisa no Brasil (DGPB/CNPq) e elegeu o grupo de pesquisa como unidade elementar desse diretorio. O objetivo do DGPB era a constituicao de um sistema de informacao sobre a atividade de pesquisa cientifica e tecnologica no ambito de universidades e institutos de pesquisa, com cobertura nacional. O DGPB contem informacoes sobre os grupos de pesquisa em atividade no Pais, tendo um carater censitario--e estava na sua concepcao proporcionar o estabelecimento de um sistema de informacoes sobre a pesquisa cientifica e tecnologica, pretendendo fornecer um mapeamento periodico da organizacao e da trajetoria da pesquisa no Pais.

Para Guimaraes (1994), havia duas utilidades especiais do Diretorio: propiciar o conhecimento do mapa da pesquisa no Brasil, permitindo identificar areas descobertas ou hipercobertas e, na continuidade, verificar o mapa em movimento: grupos que se extinguem, grupos que aparecem, reordenamentos, mudancas de linha e de area; e possibilitar a orientacao segura para as operacoes de fomento e de financiamento, bem como para a instituicao de novos projetos por parte das administracoes federal e estaduais.

Segundo definicao oficial do Diretorio, grupo de pesquisa consiste na unidade de producao de conhecimento constituida por pesquisadores lideres, pesquisadores seniores e pesquisadores assistentes, estudantes de doutorado e de mestrado, bem como por bolsistas de iniciacao cientifica e pessoal tecnico que compartilham investigacoes sobre linhas de pesquisa. O grupo de pesquisa e

o conjunto de individuos organizados hierarquicamente, onde o fundamento organizador dessa hierarquia e a experiencia, o destaque e a lideranca no terreno cientifico e tecnologico, em que ha envolvimento profissional e permanente com atividades de pesquisa, no qual o trabalho se organiza em torno de linhas comuns de pesquisa, e que em algum grau compartilham instalacoes e equipamentos (DGPB/CNPq, 2009).

Franco e Mocelin (2006) afirmam que a definicao oficial, todavia, tem sido modificada por autores que tomam os grupos como objeto de investigacao. Grupo de estudos tambem pode aparecer como sinonimo de grupo de pesquisa, da mesma forma em que poder-se-iam adotar termos como nucleo de estudos, grupo de trabalho ou laboratorio de estudos. Em termos gerais, os grupos de pesquisa, nos seus mais diversos termos de expressao, seriam conjuntos de pesquisadores constituidos para a pesquisa desenvolvida por dois ou mais membros e estudantes, reunidos por alguma motivacao e afinidade tematica (MOCELIN e FRANCO, 2006a e b).

A formacao de grupos de pesquisa e de sua pratica de pesquisa perpassa a institucionalizacao do grupo pelo DGPB. Porem, em estudo realizado por Mocelin (2002), foi demonstrado que a formacao de um grupo de pesquisa, que pode ser chamado consolidado, nao esta ligada exclusivamente a aspectos formais. Por meio de uma abordagem microssociologica, constatou-se que de fato a criacao e a consolidacao de um grupo de pesquisa percorrem o processo de institucionalizacao da pesquisa nas instituicoes universitarias e consolidacao da pos-graduacao; todavia, a organizacao em torno de uma mesma tematica propicia a aproximacao dos profissionais de diferentes areas do conhecimento em nucleos disciplinares, interdisciplinares e multidisciplinares, fazendo com que o surgimento do grupo de pesquisa nao seja produto de um encontro casual dos pesquisadores: "o grupo consolidado nao nasce primeiramente de sua condicao formal, mas de uma trajetoria vivida e construida por individuos interessados em produzir conhecimento" (MOCELIN, 2002, p.254).

Em conjunto com um banco de curriculos, o DGPB compoe a Plataforma Lattes, que se tornou basilar na informatizacao da posgraduacao brasileira, seus quadros de pessoal e sua producao, e na avaliacao das universidades e cursos de pos-graduacao. Os grupos de pesquisa tem em sua origem a organizacao por meio dos Projetos Integrados (9) do CNPq, que fundamentaram em muitas equipes de pesquisa uma estrutura funcional que guiava as atividades. Os Projetos Integrados funcionaram como mecanismos que uniam tematicas, explicitando a articulacao dos pesquisadores em grandes projetos. Balancieri, Kern, Pacheco (2005 apud BAUMGARTEN, 2006, p.?) sugeriram que a Plataforma Lattes seria capaz de fornecer importantes informacoes sobre redes, tais como curriculo, grupo de pesquisa, projeto de pesquisa e instituicoes participantes--redes de co-autoria, redes de citacao, redes de formacao e as redes de orientacao.

A partir do grupo de pesquisa, podem ser observadas e acompanhadas as redes de grupos de pesquisa, demonstrando as relacoes institucionais dos grupos e seu papel no desenvolvimento da pos-graduacao no Pais; haja vista que se formam as redes institucionais, nas quais se poderiam observar e acompanhar os vinculos entre organizacoes, institutos, empresas, universidades e demais organizacoes.

No Brasil, e razoavel pensar que os pesquisadores inscritos no DGPB sejam aqueles que efetivamente representem o que a literatura tem entendido por "comunidade cientifica". Sugere-se isso porque sao os pesquisadores e os estudantes ali inscritos os que possuem pratica de pesquisa, trajetoria de investigacao, vinculo institucional com instituicoes de pesquisa, continuidade e sedimentacao de projetos. Diferentemente da base do curriculo lattes, que reune muitos estudantes ainda em formacao, graduados, tecnicos e profissionais liberais que produzem algum tipo de documento ensaista ou jornalistico, no DGPB apenas podem ser incluidos aqueles que sao pesquisadores, sejam seniores ou juniores, e estao envolvidos continuamente em linhas de pesquisa.

Expansao dos grupos no Brasil

Na decada de 1990, o numero de estudantes matriculados na posgraduacao stricto sensu cresceu acima de 80% e a quantidade de alunos de doutorado cresceu ainda mais rapidamente que a quantidade de alunos de mestrado (Tabela 1). O crescimento do numero de alunos de doutorado esta vinculado as novas exigencias de avaliacao da educacao superior e a estrutura da carreira academica. Nao sao apenas cientistas iniciantes que buscam o doutorado. Algumas exigencias colocadas pelas politicas de desenvolvimento cientifico e avaliacao universitaria exigiram que muitos profissionais experientes tambem buscassem a formacao doutoral e uma maior insercao como produtor cientifico--mas do que apenas como docente. Mesmo em 1993, havia 21 mil pesquisadores e, em 2006, esse numero chegou a casa dos 90 mil. Na Figura 1, pode-se constatar que a crescente ampliacao de pesquisadores e acompanhada pela crescente ampliacao de grupos de pesquisa.

Como sugerido no inicio deste ensaio, a Figura 2 permite observar que houve uma marcante ampliacao da concorrencia entre os pesquisadores no decorrer da decada de 1990, taxa que acompanha a inscricao de grupos de pesquisa na base do DGPB. Essa taxa de concorrencia demonstra o crescimento da demanda por bolsas de produtividade e pesquisa oferecidas pelo CNPq. Sugere-se que essa modalidade de bolsa representa uma das mais importantes formas de fomento a pesquisa, pois estaria voltada para a obtencao de recursos para investigacoes. O aumento nessa procura tambem indica que ha maior busca por esse recurso e que a comunidade de pesquisadores se ampliou.

A ultima afirmacao pode ser, de certa forma, medida pelo dado apresentado na Figura 3, demonstrando que ha declinio na quantidade media de recursos por pesquisador, mesmo que os recursos oferecidos pela Capes e pelo CNPq tenham aumentado constantemente.

A Figura 3 tambem demonstra que a reducao na media de recursos por pesquisador e acompanha pela formacao de grupos de pesquisa, o que reforca a hipotese de que ha uma combinacao entre o fenomeno do aumento da concorrencia e a formacao de grupos. A ampliacao do numero de grupos de pesquisa ocorreu de fato nos anos 1990, quando houve o aumento da concorrencia. Isso nao significa que nao havia a formacao de grupos de pesquisa antes da criacao do DGPB, mas que o movimento mais forte de formacao de grupos ocorreu na ultima decada. A Figura 4 apresenta os dados sobre o tempo de formacao dos grupos de pesquisa e revela que mais de 70% dos grupos foram criados ha menos de 10 anos e isso se repete entre as versoes do Diretorio. A reducao, nos censos de 2004 e 2006, no numero de grupos criados no ano, combinado com o aumento do numero de grupos com mais de um e ate quatro anos de existencia, nos respectivos anos, demonstra que ha continuidade dos grupos criados anteriormente, mas tambem que nao deixaram de ser criados novos grupos. Isso aponta, por um lado, para a sedimentacao dos grupos mais jovens e, por outro lado, para a continuidade na pratica de formacao de grupos de pesquisa, que esta relacionada tanto a criacao de novas linhas de pesquisa quanto a formacao de grupos genuinamente novos.

Tambem deve-se destacar que nao ha um aumento significativo na participacao dos grupos mais antigos no total de grupos, o que tende a demonstrar que os grupos podem seguir uma tendencia a reestruturacao e ao desmembramento em novos grupos, significando uma constante reformulacao nas aliancas entre os pesquisadores. A Tabela 2 revela que 82% dos grupos que compoem a base do DGPB de 2006 foram criados no periodo que compreende a existencia do Diretorio.

A Tabela 3 revela que os grupos mais antigos sao formados por uma maior media de estudantes do que de pesquisadores por grupo e que os grupos mais recentes apresentam uma maior media de pesquisadores por grupo. Os dados sugerem que, quanto mais antigo o grupo, maior o numero de pesquisadores e de estudantes por grupo. Nos ultimos anos, ha tambem um aumento no tamanho dos grupos de pesquisa--tanto no numero medio de pesquisadores quanto no numero medio de estudantes (Tabela 1). Contudo, deve-se destacar que ha uma tendencia dos grupos terem entre tres e seis pesquisadores, considerando que 45% dos grupos estao nessa faixa, como indica a Tabela 4. Entre todos os grupos de pesquisa cadastrados no DGPB, em 2006, 22% sao formados por ate dois pesquisadores e apenas 6% dos grupos sao constituidos por um unico pesquisador.

A expansao dos grupos de pesquisa tambem e acompanhada pela ampliacao da producao cientifica no Brasil. No periodo que compreende a formacao do DGPB, pode-se constatar um grande salto na producao cientifica. O numero de autorias de artigos em periodicos nacionais cresceu de menos de 100 mil, em 2000, para quase 250 mil, em 2006. O numero de autorias de artigos em periodicos de circulacao internacional se expandiu de pouco mais de 50 mil, em 2000, para mais de 150 mil, em 2006. A expansao da producao de trabalhos apresentados em eventos foi a que mais cresceu no periodo, passando de pouco mais de 100 mil para mais de 300 mil.

Um dos indicadores mais utilizados mundialmente para aferir a capacidade nacional de producao cientifica e o numero de artigos publicados por pesquisadores residentes no Pais em periodicos internacionais. No final da Tabela 1, pode-se observar que, durante o periodo de expansao dos grupos de pesquisa, o numero de artigos publicados por pesquisadores brasileiros em periodicos internacionais cresceu de aproximadamente 4 mil, em 1993, para mais de 13 mil artigos no ano de 2004. A participacao percentual dos pesquisadores brasileiros na producao cientifica mundial tambem aumentou de aproximadamente 0,7% para 1,7% dos artigos publicados internacionalmente.

[FIGURE 5 OMITTED]

O numero total de bolsas de mestrado e doutorado no pais, concedidas pelas agencias federais (CNPq e Capes), passou de menos de 10 mil bolsas/ano, em 1980, para mais de 30 mil bolsas no inicio dos anos 2000. Os dados apresentados no final da Tabela 1 mostram a evolucao do numero de bolsas de mestrado, doutorado e produtividade e pesquisa. A expansao no numero de bolsas, mesmo nao crescendo na mesma intensidade do que as matriculas e os pesquisadores, demonstra um fortalecimento da acao da "comunidade cientifica" frente ao contexto de crescimento do numero de pesquisadores, de propostas de pesquisa e do consequente aumento da concorrencia. O numero de grupos de pesquisa aumentou 78% nos ultimos seis anos. Houve um crescimento de 79% no numero de instituicoes com grupos de pesquisa cadastrados, o que revela a difusao interinstitucional da pratica de formacao de grupos de pesquisa. O crescimento de quase 85% no numero de linhas de pesquisa indica uma diversificacao maior das tematicas desenvolvidas pelos pesquisadores, o que tambem e indicio de maior incorporacao de pesquisadores recem-doutores, como novas abordagens analiticas. O numero de pesquisadores cresceu 85%, sendo que o numero de pesquisadores-doutores aumentou 108%. O numero de estudantes cresceu ainda mais do que o numero de pesquisadores, chegando a 117%, o que indica que a concorrencia entre pesquisadores deve aumentar ainda mais.

A "comunidade cientifica" se expande e produz mais em todas as areas do conhecimento

O crescimento do numero de grupos de pesquisa nao foi um fenomeno restrito a algumas areas do conhecimento. Houve nao so crescimento do numero de grupos em todas as areas (Tabela 1), como houve mudanca na participacao das areas e alteracao das areas predominantes (Figura 6). Entre 2000 e 2006, as areas que mais cresceram foram Ciencias Sociais Aplicadas, Linguistica, Letras e Artes e Ciencias Humanas, aumentando, respectivamente, 169%, 119% e 115%, enquanto que a expansao de grupos de pesquisa em geral ficou com uma taxa de 78% de crescimento. Essas areas cresceram em taxas bastante maiores do que as outras. Ainda acima da taxa de crescimento total, ficou a area de Ciencias da Saude, que aumentou 97%. Seguem as Engenharias e Ciencias da Computacao (55%), Ciencias Agrarias (52%) e Ciencias Biologicas (50%). A area que menos cresceu no periodo foi Ciencias Exatas e da Terra, com taxa de 35%, mas destaca-se que ao menos cresceu, como todas as outras.

Desde a criacao do DGPB, a "comunidade cientifica" no Brasil se demonstrou diversificada. Contudo, em 1993, havia maior participacao na comunidade dos grupos das areas de ciencias biologicas, engenharias, ciencias exatas e da terra e ciencias agrarias. Essas parecem ter sido as areas que primeiro se mobilizaram pela formacao de grupos de pesquisa. Caberia investigar se foram estas as grandes areas que primeiro se defrontaram com a concorrencia entre pesquisadores e a consequente necessidade de formacao de aliancas. Entre 1993 e 2006, houve uma transformacao no perfil da "comunidade cientifica", por meio de uma propria maleabilidade na sua estrutura. Em 2006, predominam os grupos de pesquisa das grandes areas de ciencias humanas e ciencias da saude, que cresceram em quantidade.

Deve-se destacar ainda o crescimento significativo na area das Ciencias Sociais Aplicadas e a reducao de participacao das areas que anteriormente predominavam, com destaque para ciencias biologicas, que reduziu sua participacao de 20,4% para 12,5%, entre 1993 e 2006. Ciencias Humanas, que hoje concentra o maior numero de grupos, cresceu de 11,7% para 17,5%, mas foram criados grupos menores. Essa questao deve estar relacionada, por um lado, a maior diversidade paradigmatica das ciencias humanas ou mesmo a maior diversidade tematica nessa grande area do conhecimento. Deve-se destacar, contudo, que nenhuma das grandes areas sofreu reducao no numero de grupos de pesquisa; o que ocorreu foi que algumas cresceram mais e melhoraram sua participacao. Muitos fatores podem contribuir para explicar tal situacao. Um deles seria que algumas areas sentiram antes a necessidade de trabalhar em grupos e de se inscrever no DGPB. Outro seria que algumas areas podem ser caracterizadas por grupos menores em numero de participantes (Tabela 5). Contudo, deve-se destacar que, em geral, os grupos tem aumentado o seu tamanho, tanto no numero de pesquisadores quanto no numero de estudantes de iniciacao, mestrado e doutorado. A maior participacao de estudantes pode fortalecer a sedimentacao de uma cultura de trabalho e pratica de pesquisa em grupo.

Mesmo com o aumento da concorrencia, cresceu a produtividade, e essa combinacao de fatores pode estar indicando melhora de qualidade da producao, se pensarmos que, com o aumento da concorrencia, ha maior rigor nas avaliacoes. Houve aumento da producao de artigos em periodicos nacionais em todas as grandes areas entre 2000 e 2006, o que se refletiu tambem em um aumento gradual da produtividade por pesquisador, que passou de 0,63 artigo, em 2000, para 0,88 (Tabela 6). O mesmo movimento ocorre com a producao de papers em eventos cientificos que, em termos de produtividade, apresentou resultados tambem de crescimento, passando de 0,94 para 1,23 (Tabela 7). O aumento no numero de papers apresentados em eventos e no numero de artigos em periodicos nacionais indica uma maior circulacao de resultados de pesquisa entre a "comunidade cientifica" nacional, o que sugere um debate cientifico mais consistente, contribuindo para a melhoria da qualidade da producao cientifica brasileira. Os papers apresentados em eventos tem a vantagem de serem comunicacoes que o pesquisador propoe aos seus pares em tempo real, permitindo o aperfeicoamento teorico-metodologico dos trabalhos, que ocorre por meio dos dialogos estabelecidos nas sessoes tematicas dos eventos. Os papers se caracterizam por essa volatilidade de serem consumidos rapidamente nos eventos e poderem ser debatidos e aperfeicoados, ampliando a qualidade dos trabalhos.

O crescimento do numero de artigos publicados pelos pesquisadores brasileiros tambem aponta para a ampliacao dos caminhos de divulgacao cientifica, considerando que o numero de periodicos deve ter crescido para dar conta da demanda. Alem disso, a maior demanda por si so pode significar a qualificacao dos artigos publicados, dado que ocorreria uma selecao mais rigorosa dos estudos a serem publicados. O que deve ser considerado e o fato de que houve um aumento significativo da producao e da produtividade em todas as areas do conhecimento apos a ampliacao da concorrencia entre os pesquisadores e que essa situacao tambem acompanha a expansao da formacao de grupos de pesquisa no Brasil.

Consideracoes finais

O crescimento do numero de pesquisadores no Brasil, a intensificacao da concorrencia entre os pesquisadores e a expansao de grupos de pesquisa sao fenomenos correlatos. A formacao de grupos de pesquisa entre os anos 1990 e 2000 nao e um fenomeno restrito a algumas areas especificas do conhecimento, mas antes um fenomeno que agrega a "comunidade cientifica" brasileira como um todo. Mesmo que haja diferencas historicas que acompanham a genese de cada grande area do conhecimento, nao e possivel negar que ha uma tendencia comum na comunidade nessa passagem de seculo. Nao e possivel avaliar se essa e uma mudanca definitiva, tao pouco se e uma mudanca negativa ou positiva.

A ideia de que houve uma mudanca em termos quantitativos e inquestionavel, mas nao se pode negar que ocorreu tambem uma mudanca qualitativa, tanto na organizacao da ciencia, no Brasil, como tambem na sua pratica. O crescimento do numero de pesquisadores provocou significativo aumento da concorrencia entre eles pelo credito cientifico, pelo reconhecimento e pelos recursos para a pesquisa. Nao se defende a ideia de que esse modo de concorrencia seja um modo adequado para o campo cientifico, mas que esse novo modelo, criado pelos pesquisadores enquanto uma reacao as alteracoes nas condicoes do campo cientifico, gerou resultados positivos. Os estudantes que sao iniciados sob essa nova realidade assimilam a organizacao em grupos como parte do fazer cientifico. As novas geracoes ja nascem sob as condicoes de concorrencia e nao sofrem com tal condicao da mesma maneira como as geracoes precedentes, que viveram dramatica reestruturacao do campo.

Os resultados deste ensaio nao podem fundamentar a ideia de que esse processo de concorrencia pode estar no cerne de uma efetiva institucionalizacao da ciencia nos termos de uma "comunidade cientifica" no Brasil. Contudo, tais resultados nao permitem negar totalmente essa ideia, uma vez que ha uma maior consolidacao da pesquisa no Pais, tanto em termos institucionais, de formacao e consolidacao de grupos e redes de pesquisa, como em termos de praticas, ampliacao da pos-graduacao, da producao cientifica e dos meios de divulgacao da producao critica. Entendo que a tendencia a formacao de grupos de pesquisa seja uma dimensao importante de analise do desenvolvimento da ciencia no Brasil, sem desconsiderar outras dimensoes que sabemos serem decisivas, como o papel do governo, das politicas publicas, das agencias e demais organizacoes cientificas em geral.

Recebido em 08.06.2009

Aprovado em 21.10.2009

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(1) A constituicao de redes de pesquisa tambem caracterizaria o fenomeno das aliancas cientificas.

(2) Ao analisar as relacoes entre os pesquisadores, optou-se pelo uso do conceito "comunidade cientifica", como sera justificado mais adiante. Entretanto, merece destaque que este sempre esta referido entre aspas, tendo em vista os limites do conceito, como amplamente discutido na literatura em geral.

(3) A Coordenacao de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior (Capes) desempenha papel fundamental na expansao e consolidacao da pos-graduacao. A Campanha Nacional de Aperfeicoamento de Pessoal de Nivel Superior (atual Capes) foi criada em 11 de julho de 1951, pelo Decreto no 29.741, com o objetivo de "assegurar a existencia de pessoal especializado em quantidade e qualidade suficientes para atender as necessidades dos empreendimentos publicos e privados que visam ao desenvolvimento do pais". As atividades tradicionais da Capes sao: avaliacao da pos-graduacao stricto sensu; acesso e divulgacao da producao cientifica; investimentos na formacao de recursos de alto nivel no Pais e exterior; e promocao da cooperacao cientifica internacional.

(4) O Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico (CNPq) e uma agencia do Ministerio da Ciencia e Tecnologia (MCT), criado pela Lei no 1.310, de 15 de Janeiro de 1951. Tem por objetivo o fomento da pesquisa cientifica e tecnologica e a formacao de recursos humanos para a pesquisa no Pais. Sua historia esta diretamente ligada ao desenvolvimento cientifico e tecnologico do Brasil. A comunidade cientifica e tecnologica do Pais participa da gestao e das politicas por meio dos comites assessores. da Republica. A, que criou o CNPq

(5) A Fundacao de Amparo a Pesquisa do estado de Sao Paulo foi criada em 1960 pela Lei Organica 5.918, de 18 de outubro de 1960, sendo atualmente a maior das agencias estaduais de pesquisa. Apoia a pesquisa cientifica e tecnologica por meio de bolsas e auxilios que contemplam todas as areas do conhecimento. As bolsas se destinam a estudantes de graduacao e de pos-graduacao, e os auxilios, a pesquisadores com titulacao minima de doutor, vinculados a instituicoes de ensino superior e de pesquisa paulistas.

(6) O programa de intercambio educacional e cultural do governo dos Estados Unidos, conhecido como Programa Fulbright, foi estabelecido em 1946 por lei de autoria do Senador J. William Fulbright. Destinase a ampliar o mutuo entendimento entre pesquisadores dos Estados Unidos e de outros paises. O programa existe no Brasil desde 1957 e foi estabelecido pelo Acordo para Financiamento de Atividades Educacionais entre a Republica Federativa do Brasil e os Estados Unidos da America, de 15 de dezembro de 1966.

(7) MEC-USAID e a combinacao das siglas do Ministerio da Educacao (MEC) e da United States Agency for International Development (USAID). O objetivo do programa foi aperfeicoar o modelo educacional brasileiro. Para a implantacao do programa, o acordo estabelecia a contratacao de assessora mento norte-americano e a obrigatoriedade do ensino da lingua inglesa. A agencia norteamerciana abarcou muitos investimentos para essa reforma, que atingiu todos os niveis de ensino. A implantacao do programa retirou do curriculo materias consideradas obsoletas, tais como filosofia, latim, educacao politica. Sobre o assunto, ver Jacobs (2004).

(8) Concordo com um dos pareceristas anonimos desse artigo quando afirma que a demonstracao da atuacao das agencias dificilmente pode ser comprovada com os dados estatisticos, mas depende de uma analise mais qualitativa, assentada na experiencia dos pesquisadores com as politicas de financiamento. Nesse sentido, fica aberta a possibilidade de estudos mais profundos que deem conta dessa questao.

(9) Segundo o CNPq (http:// www.cnpq.br/bolsas_auxilios/modalidades, em 25 de marco de 2002), o Projeto Integrado tinha por finalidade apoiar de forma integrada projetos com caracteristicas de inovacao cientifica e/ou tecnologica, desenvolvidos por equipe cientifica sob a coordenacao de pesquisador qualificado, visando: (1) gerar novos conhecimentos e formar recursos humanos para a pesquisa; (2) integrar grupo de pesquisa atuando em um mesmo tema, sob a supervisao de um unico coordenador; (3) possibilitar a integracao de grupo de pesquisa consolidado com outros em fase de consolidacao ou emergentes, bem como de projetos inter e multidisciplinares. E definido por pesquisas que se integram a partir de uma problematica e de um corpo teoricometodologico comuns e nao pela reuniao, sob um titulo comum, de pesquisas individuais e autonomas.

Daniel Gustavo Mocelin (1)

(1) Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Endereco residencial (postal): Rua Felipe Camarao, 180 Apto. II--Bairro: Rio Branco CEP: 90035-140--Porto Alegre, RS. Telefones: (51) 3311-8852 / (51) 9911 6814. E-mail: dmocelin@ terra.com.br
Tabela 1: Expansao da "comunidade cientifica" no
Brasil--1993-2006 (Evolucao de dimensoes selecionadas
presentes no diretorio dos grupos de pesquisa)

                                      Censos

Dimensoes                     1993      1995      1997
selecionadas

Instituicoes                    99       158       181
participantes

Grupos de                     4402      7271      8632
pesquisa

Linhas de                       ND        ND        ND
pesquisa

Pesquisadores (P)            21541     26779     33980

Pesquisadores                10994     14308     18724
do utores (D)

(D)/(P) em %                    51        53        55

Estudantes                      ND        ND        ND
  Estudantes de Doutorado       ND        ND        ND
  Estudantes de Mestrado        ND        ND        ND
  Estudantes de Graduacao        s        ND        ND
  Pesquisadores por grupo     4,89      3,68      3,93
Estudantes por grupo            --        --        --

Numero de grupos                ND       474     1.144
criados no ano

Grupos por grandes areas
do conhecimento

Engenharias e                  626      1035      1339
C. Computacao

Exatas e da Terra              670      1210      1339

Ciencias da Saude              502      1210      1419

Ciencias Biologicas            842      1273      1338

Ciencias Agrarias              572       944       912

Ciencias Humanas               482       794      1180

Ciencias Sociais               237       468       565
Aplicadas

Linguistica,                   197       337       452
Letras e Artes

Indicadores contextuais

Numero de bolsas                --        --      7394
de produtividade

Titulados no Brasil           4557      8982     11922
(Mestrado)

Titulados no Brasil           1875      2497      3620
(Doutorado)

Numero de artigos             4416      5432      6662
em periodicos
internacionais
indexado pelo ISI

Participacao nos
artigos internacionais        0,73      0,81      0,97

Tabela 2: Distribuicao dos grupos de pesquisa
segundo o ano de formacao, 2006

Ano de      Grupos      %    Acumulado
formacao

2003-2006   8.057    38,3        38,3
1999-2002   6.634    31,6        69,9
1995-1998   2.618    12,5        82,3
1991-1994   1.554     7,4        89,7
1987-1990     898     4,3        94,0
1983-1986     505     2,4        96,4
1979-1982     330     1,6        98,0
ate 1978      428     2,0       100,0
Total       21.024   100,0

Fonte: CNPq. Diretorio dos Grupos de Pesquisa
no Brasil.

Tabela 3: Numero de grupos, pesquisadores, estudantes,
tecnicos, linhas de pesquisa e relacoes,
segundo o ano de formacao--Censo 2006

                     Linhas de
Ano de      Grupos   Pesquisa    Pesquisadores   Estudantes
formacao      (G)         (L)             (P)          (E)

-1978         428        2156            3413         3853
1979-1982     330        1615            2598         3125
1983-1986     505        2344            3983         4495
1987-1990     898        4167            6859         8299
1991-1994    1554        6914           12190        14854
1995-1998    2618       10639           18513        22453
1999-2002    6634       24791           45595        45788
2003-2006    8057       24093           45127        38763
TOTAIS      21.024     76.719         138.278      141.630

Ano de
formacao      Tecnicos     L/G      P/G      E/G      P/L

-1978            1.241       5        8        9      1,6
1979-1982        1.045     4,9      7,9      9,5      1,6
1983-1986        1.245     4,6      7,9      8,9      1,7
1987-1990        1.665     4,6      7,6      9,2      1,6
1991-1994        2.436     4,4      7,8      9,6      1,8
1995-1998        3.491     4,1      7,1      8,6      1,7
1999-2002        6.896     3,7      6,9      6,9      1,8
2003-2006        5.140       3      5,6      4,8      1,9
TOTAIS          23.159     3,6      6,6      6,7      1,8

Fonte: CNPq. Diretorio dos Grupos de Pesquisa no Brasil.

Nota: Em geral, ha dupla contagem no numero de
pesquisadores, estudantes e tecnicos, tendo em vista que o
individuo que participa de mais de um grupo de pesquisa foi
computado mais de uma vez.

Tabela 4: Numero de pesquisadores por grupo de pesquisa, 2006

Pesquisadores                         %
por grupo       Grupos       %    acumulada

1               1.306      6,2       6,2
2               2.022      9,6      15,8
3               2.421     11,5      27,3
4               2.494     11,9      39,2
5               2.362     11,2      50,4
6               2.135     10,2      60,6
7               1.727      8,2      68,8
8               1.400      6,7      75,5
9               1.134      5,4      80,9
10                939      4,5      85,3
11                637        3      88,4
12                521      2,5      90,8
13                369      1,8      92,6
14                293      1,4       94
15 ou +         1.264        6       100
Total           21.024     100
Media           6,6 pesquisadores/grupo
Mediana         5 pesquisadores/grupo

Fonte: CNPq. Diretorio dos Grupos de Pesquisa
no Brasil.

Tabela 5: Distribuicao dos grupos, pesquisadores e doutores e
media de pesquisadores por grupo segundo a grande area do
conhecimento predominante nas atividades do grupo, 20061;

                     Grupos    Pesquisadores    Doutores
Grande Area            (G)          (P)            (D)

Exatas e da Terra     2.460        10.871         8.988
Biologicas            2.624        11.896         9.416
Agrarias              2.041        10.840         8.128
Engenharias e         2.844        13.905         9.505
  C. da Computacao
Linguistica,          1.265        5.465          3.423
  Letras e Artes
Saude                 3.610        18.382        11.237
Humanas               3.679        18.838        10.653
Sociais Aplicadas     2.501        11.987         6.355
Total (2)            21.024       102.184        67.705

                                   N [degrees]
                       % (D) /        medio
Grande Area              (P)        (P) / (G)

Exatas e da Terra       82,7           4,4
Biologicas              79,2           4,5
Agrarias                 75            5,3
Engenharias e           68,4           4,8
  C. da Computacao
Linguistica,            62,6           4,3
  Letras e Artes
Saude                   61,1           5,0
Humanas                 56,6           2,9*
Sociais Aplicadas        53            4,8
Total (2)               66,3           4,9

Fonte: CNPq. Diretorio dos Grupos de Pesquisa no Brasil.

Notas: (1) Nao existe dupla contagem no ambito de cada
grande area. (2) Valores obtidos por soma (ha dupla
contagem, tendo em vista que o pesquisador que participa de
grupos relacionados a mais de uma grande area foi computado
uma vez em cada grande area). * Deve-se destacar que,
quando se considera a dupla contagem dos pesquisadores, a
area de ciencias humanas atinge o mesmo padrao das outras
areas no numero de pesquisadores por grupo, o que indica que
os pesquisadores desta area estao inscritos em numero maior
de grupos do que os pesquisadores das outras areas.

Tabela 6: Numero de artigos completos de circulacao nacional
e produtividade por grande area do conhecimento predominante
nas atividades do grupo--2000-2006

Tipo de Producao               No de Producoes
e grande area
do conhecimento        2000      2002      2004      2006

Agrarias             19.899    27.488    44.277    50.921
Biologicas            8.748    12.694    27.680    26.625
Exatas e da Terra     6.660     8.305    17.609    16.658
Humanas              11.252    16.763    25.989    35.837
Sociais Aplicadas     4.719     8.178    15.822    23.541
Saude                16.449    26.102    46.725    57.105
Engenharias e         5.792     7.430    14.856    16.748
  C. da Computacao
Linguistica,          3.441     5.132     8.519    11.045
  Letras e Artes
Total                76.960    112.092   201.477   238.480

                            No de Producoes por Pesquisador
Tipo de Producao                   Doutor/ano
e grande area
do conhecimento        2000      2002      2004      2006

Agrarias               1,24      1,34      1,59      1,57
Biologicas             0,47      0,53      0,86      0,71
Exatas e da Terra      0,31      0,33      0,54      0,46
Humanas                 0,7      0,76      0,79      0,84
Sociais Aplicadas      0,61      0,72      0,81      0,93
Saude                  0,92       1,1       1,3      1,27
Engenharias e          0,29       0,3      0,44      0,44
  C. da Computacao
Linguistica,           0,72      0,79      0,82      0,81
  Letras e Artes
Total                  0,63      0,71      0,89      0,88

Fonte: CNPq. Diretorio dos Grupos de Pesquisa no Brasil.

Notas: (1) Contabilizada apenas a producao dos pesquisadores.
(2) A producao de 2000 refere-se ao periodo entre 1997 e 2000;
a producao de 2002 refere-se ao periodo entre 1998 e 2001;
a producao de 2004 refere-se ao periodo entre 2000 e 2003; a
producao de 2006 refere-se ao periodo entre 2003 e 2006.

Tabela 7: Numero de papers em eventos nacionais e
produtividade por grande area do conhecimento predominante
nas atividades do grupo--2000-2006

                               No de Producoes
Tipo de producao
e grande area
do conhecimento        2000      2002      2004      2006

Agrarias             18.580    28.399    42.408    41.870
Biologicas            7.780    10.754    17.049    19.147
Exatas e da Terra    16.457    22.072    30.137    35.856
Humanas               8.692    13.632    25.133    47.906
Sociais Aplicadas     6.850    11.867    24.121    42.666
Saude                 8.720    13.189    19.179    23.026
Engenharias e
  C. da Computacao   45.836    60.319    88.507    111.736
Linguistica,
  Letras e Artes      2.403     3.716     6.220    10.500
Total                115.318   163.948   252.754   332.707

                     No de Producoes por
                     Pesquisador Doutor/ano
Tipo de producao
e grande area
do conhecimento       2000     2002     2004     2006

Agrarias              1,16     1,38     1,52     1,29
Biologicas            0,42     0,45     0,53     0,51
Exatas e da Terra     0,76     0,89     0,92        1
Humanas               0,54     0,62     0,77     1,12
Sociais Aplicadas     0,88     1,04     1,24     1,68
Saude                 0,49     0,55     0,54     0,51
Engenharias e
  C. da Computacao    2,31     2,47     2,62     2,94
Linguistica,
  Letras e Artes       0,5     0,57      0,6     0,77
Total                 0,94     1,04     1,12     1,23

Fonte: CNPq. Diretorio dos Grupos de Pesquisa no Brasil.

Notas: (1) Contabilizada apenas a producao dos pesquisadores.
(2) A producao de 2000 refere-se ao periodo entre 1997 e 2000;
a producao de 2002 refere-se ao periodo entre 1998 e 2001;
a producao de 2004 refere-se ao periodo entre 2000 e 2003; a
producao de 2006 refere-se ao periodo entre 2003 e 2006.

Tabela 8: Producao bibliografica segundo a grande area
predominante do grupo para todos os tipos,
2003-2006, Censo 2001

                                Artigos completos
                           publicados em periodicos

                         Circulacao      Circulacao
Grande area    Autores     nacional    internacional

Agrarias       19.148         65880           24629
Biologicas     25.272         35232           65956
Saude          29.335         77838           56929
Exatas e
  da Terra     17.956         20762           59211
Humanas        30.171         52006            6566
Sociais
  Aplicadas    15.482         33969            4001
Engenharias    20.788         21830           30745
Ling., Let.
  e Artes       8.646         15611            1777
TOTAL          166.798      323.128         249.814

                            Livros ou capitulos
               Trabalhos    de livros publicados
               completos
               publicados            Capitulos
Grande area    em evento    Livros   de livros

Agrarias           59585     2734       12551
Biologicas         29979     1804       14828
Saude              39163     3712       33361
Exatas e
  da Terra         48721     1655        6696
Humanas            80799     8475       35960
Sociais
  Aplicadas        64672     5068       17894
Engenharias       148477     1950        7953
Ling., Let.
  e Artes          16706     2673       10963
TOTAL            488.102    28.071    140.206

                  Resumos de trabalhos
                    publicados em

                            Anais de
Grande area    Periodicos    eventos

Agrarias            7775      169480
Biologicas         10579      245014
Saude              44501      301338
Exatas e
  da Terra          2367      128772
Humanas             2836      131879
Sociais
  Aplicadas         1376       36508
Engenharias         2502       61030
Ling., Let.
  e Artes            772       31727
TOTAL             72.708    1.105.748

Fonte: CNPq. Diretorio dos Grupos de Pesquisa no Brasil.

Figura 1: Evolucao do numero de grupos de pesquisa
e de pesquisadores--Brasil, 1993-2006.

                   1993    1995    1997    2000

Gruposdepesquisa   4128    7271    8544    11760
Pesquisadores      21541   26799   33675   48781

                   2002    2004    2006

Gruposdepesquisa   15158   19470   21024
Pesquisadores      56891   77649   102184

Fonte: CNPq. Diretorio dos Grupos de Pesquisa no Brasil.

Figura 2: Expansao dos grupos de pesquisa no Brasil e
evolucao da taxa de concorrencia--Brasil, 1997-2006.

       Grupos de pesquisa   Taxa de concorrencia

1997                                 4.55
2000                                 6.58
2002                                 7.32
2004                                 9.18
2006                                11.26

Fonte: Elaboracao propria a partir dos dados do
CNPq/Diretorio dos grupos de pesquisa.

Nota: A taxa de concorrencia e ilustrativa e foi obtida a partir da
razao simples entre o numero de pesquisadores participantes do DGPB
e o numero de bolsas de produtividade e pesquisa oferecidas pelo
CNPq nos respectivos anos.

Figura 3: Expansao dos Grupos de pesquisa no Brasil e evolucao
da media de recursos financeiros para a pesquisa por pesquisador Brasil,
1997-2006.

       Grupos de pesquisa   Taxa de concorrencia

1997                              17.864
2000                              13.585
2002                              13.195
2004                              13.156
2006                              11.458

Fonte: Elaboracao propria a partir dos dados do CNPq/Diretorio dos
grupos de pesquisa.

Nota: A media de recursos por pesquisador foi obtida pela razao
simples entre o numero de pesquisadores participantes do DGPB/CNPq
e o montante de recursos despendidos pelo CNPq e pela Capes nos
respectivos anos. Deve-se destacar que ha outras fontes de recursos
e investimentos em CST no Brasil e que, portanto, a razao aqui
definida e ilustrativa.

Note: Table made from line graph.

Figura 4: Distribuicao do numero de grupos de pesquisa por tempo
de criacao (em anos)--Brasil, 1995-2006.

        menos de 1   1 a 4   5 a 9   10 a 14   15 a 19   20 ou +
1995      474        2,793   1,887     890       638        507
1997    1,144        3,368   1,964     888       579        598
2000    2,409        3,569   2,890   1,343       655        890
2002    3,685        4,746   3,458   1,579       751        939
2004    2,955        8,352   3,067   2,267     1,160      1,669
2006    2,938        8,420   4,711   2,542     1,150      1,263

Fonte: CNPq. Diretorio dos Grupos de Pesquisa no Brasil.

Note: Table made from bar graph.

Figura 6: Evolucao da participacao das grandes areas do conhecimento
no numero total de grupos de pesquisa--1993-2006.

       Engenharias e   Ciencias     Ciencias    Ciencias   Ciencias
       C. Computacao   Biologicas   Sociais     Exatas e   Agrarias
                                    Aplicadas   da Terra

1993   15.2            16.2         12.2        20.4       13.9
1995   14.2            16.6         16.6        17.5        13
1997   15.7            15.7         16.6        15.7       10.7
2000   15.5            15.4         15.6        14.6       11.5
2002   14.8            13.5         16.6         14        10.9
2004   14.5            12.6         17.3        13.2       10.3
2006   13.5            11.7         17.2        12.5        9.7

       Linguistica,   Ciencias   Ciencias
       Letras         da Saude   Humanas
       e Artes

1993   311.7            5.7        4.8
1995   10.9            6.4        4.6
1997   13.8            6.6        5.3
2000   14.5            7.9        4.9
2002   15.8            9.4        4.9
2004   15.9           10.9        5.4
2006   17.15          11.9          6

Fonte: CNPq. Diretorio dos Grupos de Pesquisa no Brasil.

Note: Table made from bar graph.
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Title Annotation:Estudos; articulo en portugues
Author:Mocelin, Daniel Gustavo
Publication:Revista Brasileira de Pos-Graduacao
Date:Dec 1, 2009
Words:11607
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