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Communication and education: the movements of the pendulum/Comunicacao e educacao: os movimentos do pendulo.

Introducao

E crescente o interesse academico e mesmo de setores governamentais e da sociedade civil dirigido ao melhor entendimento dos vinculos entre comunicacao e educacao. As maneiras de encaminhar e mesmo designar a interface apresenta diferencas resultantes, muitas vezes, de perspectivas distintas no plano conceitual ou da luta para delimitar espacos no debate intelectual, segundo esclarecido por Pierre Bourdieu ao tratar dos mecanismos que orientam as disputas pelo poder no interior do campo cientifico.

Encontramos na tradicao anglo-saxonica designadores a maneira de Media Literacy, Media Education, Digital Literacy in Education, Education in Media Literacy; na Franca Competence Mediatique, Education auxMedias; na Italia, Educazione ai Media; na America espanhola e Espanha: Educacion en Medios, Educacion para la Comunicacion; no Brasil, Educomidia, Pedagogia da Comunicacao, Educacao Midiatica, Comunicacao e Educacao, Literacia Digital, Educomunicacao. E isto para mencionar alguns enunciados que, malgrado conterem perspectivas nem sempre convergentes, se dirigem a uma area comum de interesses teoricos, de pesquisa e intervencao social, que acumula relevante producao bibliografica, exemplos de acoes junto aos sistemas comunicativos e educativos, afora estar presente em cursos de graduacao, especializacao e pos-graduacao.

O neologismo Educomunicacao vem sendo utilizado no Brasil e em paises da America Latina, ao menos desde os finais dos anos 1980, sendo divulgado por documentos da UNESCO (2009)--que o associam, de forma um pouco restrita, ao ambito da Media Education, vale dizer, da educacao para os meios de comunicacao. Os delimitadores historicos pregressos que ensejam o aparecimento deste vetor de estudos e das suas formas de nomeacao podem ser encontrados, em nosso continente, desde os anos 1960, ganhando intensidade e abrangencia como resposta aos regimes ditatorios que assolarao o Cone Sul (1). Naquela conjuntura de violenta repressao e proibicoes, acionar estrategias para fazer circular a informacao e o conhecimento nao censurados exigiu dos grupos populares, das comunidades eclesiais de base, dos educadores, artistas e intelectuais pactuados com a democracia, o incremento de acoes comunicativoeducativas capazes de fraturar o circulo de ferro forjado pelos militares e seus acolitos civis.

E compreensivel que os movimentos de resistencia ao estado de excecao --cuja amplitude metonimica alcancava quase todos os paises da America Latina --, fossem desdobrados em inumeros empreendimentos postos sob insignias (atribuidas ou autonomeadas) de imprensa alternativa, escola libertadora, teatro do oprimido, musica de protesto, e, last but not least, leitura critica dos meios de comunicacao. Em varias unidades escolares, particularmente as de recorte experimental ou vocacional, foram estruturados programas visando a facultar debates entre os discentes a partir das mensagens postas em circulacao pelos media, tendo em vista entender as manobras discursivas que velavam o que deveria ser desvelado. E mesmo a efetivacao de procedimentos que ensinassem como elaborar produtos de comunicacao a maneira de jornais, revistas, roteiros de radio e televisao, em exercicios voltados a mostrar como e possivel esclarecer ou sonegar determinados campos de sentidos, algo nao muito distante do learning by doing, o aprender fazendo, propugnado por John Dewey. De algum modo, estava em causa educar para a comunicacao e mesmo nao perder de vista os compromissos da comunicacao com a educacao (aspecto, ademais, regrado pela Constituicao de 1988), conforme o artigo 221:"A producao e a programacao das emissoras de radio e televisao devera atender os seguintes principios: I--preferencia a finalidades educativas, artisticas, culturais e informativas (...)". Como sabemos, o texto legal e solenemente ignorado.

Naquele contexto e decorrente dele, Mario Kaplun cunhou o termo Educomunicacao. Ao educador-comunicador de origem argentina, mas que morou em varios paises da America Latina, sendo, inclusive, um dos fundadores da Escola de Ciencias da Comunicacao, da Universidad de la Republica, no Uruguai, e atribuido o uso preliminar do neologismo. De qualquer maneira, ao fundir em vocabulo unico duas areas do conhecimento ha muito assentadas, educacao e comunicacao, e postas sob larga clivagem analitica, com tradicoes teoricas, metodologicas e de pesquisa, fica a ideia da recorrencia entre instancias social e academicamente relevantes: ja nao e possivel falar em educacao ignorando os fenomenos comunicacionais, do mesmo modo a comunicacao responsavel nao pode descurar dos permanentes desafios educativos, estejam eles posicionados nos planos formais, nao formais ou informais.

O fato e que varias instituicoes vem empregando o vocabulo resultando na sua "dicionarizacao" e consequente ampliacao de uso, em movimentos que incluem a busca de legitimacao, conforme consigna Pierre Bourdieu (2007). E servem como exemplos: a Escola de Comunicacoes e Artes-USP, que criou uma licenciatura em Educomunicacao; a Universidade Federal de Campina Grande, mantenedora do bacharelado em Educomunicacao; a Editora Paulinas, que possui colecao de livros cujo titulo geral e Educomunicacao; a Editora Editus (Universidade Estadual de Santa Cruz--Bahia) com a serie Comunicacao e Educacao, a revista Comunicacao & Educacao, voltada ao enfoque educomunicativo; os varios programas de pos-graduacao (2) em ambito nacional e internacional que destacam a palavra chave ora em evidencia; a Associacao Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicacao (ABPEducom).

Dai muitos estudiosos afirmarem que a Educomunicacao deve ser vista como campo emergente. Aqui nao pretendemos avancar reflexao sistematica sobre o sintagma "campo emergente" dado que sobre ele pairam indagacoes de natureza epistemologica, metodologica, de procedimentos de pesquisa, cuja necessidade de amadurecimento e aprofundamento necessitam ser enfrentados, segundo indica, entre outros, Claudio Messias (2017), mas apenas consignar a crescente utilizacao de certo termo/designativo/conceito dentro e fora dos circuitos estritamente academicos.

Cabe apontar que existem, inclusive, politicas publicas como a Lei no. 13.941, de 29 de dezembro de 2004, instituidora no municipio de Sao Paulo do Programa EDUCOM: Educomunicacao pelas onda do radio; o Mais Educacao, que abre espaco entre as suas dez areas de atividades opcionais para as escolas desejosas de participarem do Programa Ensino Medio Inovador, introduzindo o "macro campo educomunicacao"; a propria Lei de Diretrizes e Bases da Educacao Nacional (LDB), que proclama a necessidade de se pensar as relacoes comunicacao/educacao. Ha, igualmente, o trabalho de ONGs como a Viracao e Cidade Escola Aprendiz, em Sao Paulo, Comunicacao e Cultura no Ceara, todas, de alguma maneira, utilizando e praticando ideias que animam a Educomunicacao, em seus propositos basicos de promover processos comunicativo-educativos apoiados em relacoes dialogicas, colaborativas, voltados a formacao cidada.

Andamentos

O debate que destaca o papel das interfaces educomunicativas no entendimento das maneiras como a informacao e o conhecimento se organizam e circulam em nossa quadra historica esta vinculado aos arranjos sociotecnicos incidentes, sobretudo, nos processos de comunicacao. Ou, como enuncia Rubim (2009):

A expansao quantitativa da comunicacao, em especial em sua modalidade midiatizada; a diversidade das novas modalidades de midias presentes no espectro societario (...); o papel desempenhado pela comunicacao midiatizada como modo (crescente e ate majoritario) de experenciar e conhecer a vida, a realidade e o mundo; a presenca e abrangencia das culturas midiaticas como circuito cultural hegemonico, que organiza e difunde socialmente comportamentos, percepcoes, sentimentos, idearios, valores, etc.; as ressonancias sociais da comunicacao midiatizada sobre a producao da significacao (intelectiva) e da sensibilidade (afetiva), sociais e individuais; a prevalencia da midia como esfera de publicizacao (hegemonica) dentre os diferenciados"espacos publicos"socialmente existentes, articulados e concorrentes; as mutacoes espaciais e temporais provocadas pelas redes midiaticas, na perspectiva de forjar uma vida planetaria e em tempo real; o crescimento vertiginoso dos setores voltados para a producao, circulacao e difusao e consumo de bens simbolicos; a ampliacao (percentual) dos trabalhadores da informacao e da producao simbolica no conjunto da populacao economicamente ativa e o aumento crescente das despesas com as comunicacoes, em suas diferenciadas modalidades (Rubim, 2009, p. 105 e 106).

Ha certo consenso ensejando a ideia de que a midiatizacao, ao recortar grupos, classes, generos, idades, etnias, malgrado as especificidades de cada segmento e as divergencias de interesses entre eles, assim como a maneira de os meios de comunicacao representa-los, termina por trazer consigo discursos, mensagens, arranjos signicos, dos quais fica dificil manter equidistancia. Alguns autores chegam mesmo a falar que pela importancia dos processos de midiatizacao, e imperioso ter em vista a construcao das bases de uma cidadania comunicativa (Mata, 2006). Posto de outro modo: a participacao mais ampla dos sujeitos no debate publico se tornou bastante dependente do acesso--e de algum dominio -, aos mediadores tecnicos da comunicacao. Sem isto, as disputas discursivas e os jogos de poder restam esmaecidos ou encobertos, comprometendo, por ultimo, a propria ideia da cidadania (em sentido republicano, no qual politica e comunicacao nao se distanciam). Explicase, neste contexto, a existencia de propostas que desejam incluir no ensino formal e mesmo nao formal disciplinas ou mesmo programas de qualificacao/ capacitacao sob o titulo de: "educacao para a midia", "literacia midiatica", "leitura critica da comunicacao", etc. Permanecamos com Maria Cristina Mata (2006, p. 146) (3):
   As regulacoes comunicativas vigentes em determinada sociedade, as
   logicas informativas predominantes, os recursos tecnologicos
   disponiveis para diferentes setores sociais, as modalidades de
   organizacao social e politica devem ser levadas em conta como
   condicoes objetivas para o exercicio da cidadania comunicativa. Mas
   existem multiplas condicoes subjetivas que teremos que interrogar
   para nao simplificar nossas analises. Os modos de se imaginar como
   sujeitos de direito proprios a diferentes individuos e grupos
   sociais, suas maneiras de se relacionar com aqueles que possuem
   legalidade e legitimidade social para expressar-se e produzir
   normas a esse respeito, as representacoes hegemonicas e
   contra-hegemonicas sobre o que significa comunicar-se e comunicar
   hoje nas sociedades midiatizadas, as expectativas depositadas nas
   instituicoes, nos media, nas proprias forcas expressivas, sao
   dimensoes inevitaveis para entender ate que ponto e em que
   condicoes o desamparo ou a impotencia dos publicos e uma condicao
   irreversivel ou nao para reivindicar o direito a se informar, a se
   expressar, a ampliar o espaco publico com multiplas palavras.
   Cristina Mata (2006, p. 146):


E relevante observar que o problema geral da cidadania comunicativa ocorre frente ao reconhecimento de estarmos mergulhados em determinado cenario historico. E nele os componentes sociotecnicos e tecnoculturais sao incorporados as dinamicas de vida dos sujeitos, podendo traduzir-se, por exemplo, em ambiencias comunicativas capazes de redefinir as funcoes e os lugares ocupados pela recepcao. As mudancas advindas na esteira das tecnologias digitais abriram possibilidades de os sujeitos atuarem nos territorios da producao dos signos, das elaboracoes simbolicas e representacionais, assim como da propria circulacao das mensagens. Enfim, retomamos a ideia chave que nos acompanha e segundo a qual a comunicacao passou a desempenhar, em nosso tempo, papel central, abrangendo desde o cotidiano da vida associada, entrando na elaboracao das narrativas, seguindo por trocas discursivas, indo as influencias sobre as sociabilidades, percorrendo camadas de significados que velam, revelam ou desvelam--conforme cada caso e situacao--as artimanhas do real. E mais, no regime de midiatizacao fica o desafio de expandir a cidadania comunicativa pondo-a em estreito contato com o mundo da educacao, destacadamente aquela manifesta nas salas de aula. Neste reenquadramento e oportuno mirar para as reflexoes e praticas que estao sendo ativadas pelas interfaces educomunicativas.

De certo modo, e ao menos sob o ponto de vista legal, existe preocupacao dos educadores para reconhecer o lugar da comunicacao no sistema escolar. E o que indica a resolucao no. 3 do Conselho de Educacao Basica (CEB), de 26/06/1998, no artigo 10, ao firmar a organizacao curricular do Ensino Medio em torno de areas do conhecimento. Uma delas, dedicada as Linguagens, Codigos e suas Tecnologias, e desdobrada em objetivos dos quais destacamos alguns do nosso interesse:

--Entender os principios das tecnologias da comunicacao e da informacao, associa-las aos conhecimentos cientificos, as linguagens que lhes dao suporte e aos problemas que se propoem solucionar;

--Entender a natureza das tecnologias da informacao como integracao de diferentes meios de comunicacao, linguagens e codigos, bem como a funcao integradora que elas exercem na sua relacao com as demais tecnologias;

--Entender o impacto das tecnologias da comunicacao e da informacao na sua vida, nos processos de producao, no desenvolvimento do conhecimento e na vida social;

--Aplicar as tecnologias da comunicacao e da informacao na escola, no trabalho e em outros contextos relevantes para sua vida.

Os pontos elencados, a despeito de conhecerem elaboracao ha vinte anos, pediam que fosse incluido no cotidiano das salas de aula o tema da comunicacao, alias, em sentido abrangente, haja vista dizer respeito a variaveis sistemicas e processuais: compreender a natureza e principios; analisar os veiculos; trabalhar com as diferentes linguagens, signos e codigos; apreender os alcances sociais e historicos; etc. Neste passo, cabe um acrescimo. Em 16/02/2017 foi sancionada a que vem sendo chamada de reforma do Ensino Medio. Afora outros elementos componentes do diploma legal, tratou ele, fundamentalmente, da estrutura curricular, constituida em torno de cinco areas eletivas: I--linguagens e suas tecnologias; II--matematica e suas tecnologias; III--ciencias da natureza e suas tecnologias; IV--ciencias humanas e sociais aplicadas; V--formacao tecnica e profissional. Os conteudos correspondentes as respectivas areas dependem, entretanto, do que advira da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Naquilo que nos e relevante, manifestado nos objetivos acima, nao parece dificil verificar a ocorrencia de juncoes entre o enunciado na resolucao CEB e o que se apresenta seja na reforma do ensino medio seja na BNCC do ensino fundamental e vigente em Estados como o de Sao Paulo, quando advem o tema da comunicacao nos ambientes escolares. Enfim, os documentos oficiais reconhecem ser inescusavel tratar das interfaces educomunicativas na educacao formal. A se ponderar, contudo, que entre a manifestacao prescritiva e o cotidiano das salas de aula existem distonias deixando o sistema escolar em compasso de espera e a manter praticas didatico-pedagogicas pouco acertadas com as demandas da cidadania comunicativa.

Em pesquisa por nos concluida em 2017 (4), a partir de coleta realizada entre 2014 e 2015, relativa aos circuitos media-escolas-tecnologias, envolvendo docentes e discentes do nivel basico de trinta e duas escolas espalhadas pelas zonas norte, sul e oeste da cidade de Sao Paulo, afora alguns municipios localizados em raio de duzentos quilometros da capital, e referenciada no resumo deste texto, verificou-se que os professores entrevistados tem clareza sobre a importancia da comunicacao, entendida em seus aspectos amplos, para as atividades tocantes a educacao formal. Acerca deste ponto, vejamos um dos quadros que organizam a tabulacao dos nossos dados:
Tabela 1--Voce considera a inter-relacao escola e meios de
comunicacao?

Antagonica                    4       2%
Complementar e antagonica     5       3%
Complementar                  158     95%

Total de respondentes         167

Fonte: O autor

Tabela 2--Voce tem informacao acerca de algum programa oficial
voltado a formacao permanente do professor para a area dos meios
de comunicacao ou das novas tecnologias?

Sim                        49      26,8%
Nao                        138     73,2%
Total de respondentes           187

Fonte: O Autor


A maioria dos professores aponta a existencia de continuidades entre os discursos didatico-pedagogicos e as linguagens advindas de instituicoes nao escolares. Dentre as incorporacoes facultadas pelos media arrolam-se noticias saidas em jornais e radios, programas televisivos, e que permitem abrir espacos para tratar de assuntos como: migracoes, refugiados, violencia urbana, mercado, esporte, crise politica, desemprego, etc. Encontram-se, ademais, referencias a analise critica dos veiculos e suas mensagens, a realizacao de blogs, ao envolvimento de alunos na utilizacao dos celulares para filmagens e montagens de materiais a serem socializados nas salas de aula. No decorrer da nossa pesquisa acompanhamos varias destas atividades e exercicios quando das observacoes procedidas nas escolas. Tal assertiva pede, contudo, matizes a fim de se afastar conclusoes e generalizacoes pouco ajustadas a realidade do ensino brasileiro de nivel basico.

O fato de emergir maior consciencia do lugar ocupado pelas interfaces comunicativo-educativas, segundo ja acentuado, nao significa a existencia de fluxos entre os verbos constatar e agir. Para a consecucao desta travessia existe muito a ser feito, maxime no tangente a formacao continuada dos professores frente aos reptos postos a escola basica na sociedade midiatizada. Em nossa investigacao formulamos perguntas dirigidas ao tema da capacitacao profissional docente e boa parte das respostas convergiam para o item que registrava as dificuldades relativas ao trabalho em sala de aula quando se tratava de ativar as inumeras possibilidades abertas pela comunicacao. Desta sorte, ao mesmo tempo em que ocorre o reconhecimento do papel dos media, da ampla digitalizacao, da forca da internet, revelam-se, tambem, insegurancas para dar sequencia ao assunto incorporando-o aos projetos politico-pedagogicos das unidades educativas formais. E uma destas incertezas resulta do fato de que a maioria dos professores nao tratou, durante a licenciatura, da comunicacao, tendo em mira os aspectos atinentes as linguagens complexas, ao jogo dos signos, aos cruzamentos de codigos, ou mesmo aos elementos propriamente tecnicos, industriais, mercadologicos. Ademais, e alto o numero de docentes em exercicio que revela sequer conhecer cursos que possam mais bem capacita-los na area em tela, conforme aponta a tabela abaixo:

A escola registra intercorrencias que recortam os comentarios feitos nos paragrafos anteriores; ali identificamos uma delas, concernente as relacoes educomunicativas, objeto ultimo de nossas preocupacoes. Malgrado furtemonos a exame detido da estrutura funcional do sistema educacional brasileiro, sobretudo aquele voltado a escola publica de nivel basico, e importante acentuar uns poucos elementos dele componentes e cuja presenca no cotidiano das salas de aula ajudam a situar o tema sobre a qual nos debrucamos.

As grandes cidades do nosso pais, em particular, sao atravessadas por inumeras vicissitudes: insulamento dos grupos e classes sociais; obices a mobilidade urbana; adensamento e disseminacao das varias formas de violencia; frustracoes advindas dos impedimentos a cultura, ao lazer, a arte; esperancas que se esvaem nos imperativos reificados do trabalho precario. Nestas vertentes, alinham-se algumas das modulacoes que sao carreadas para o espaco escolar e onde encontramos docentes cujo reconhecimento social e valorizacao economica do seu oficio parecem perdidos no cruzamento de alguma grande avenida, assim como discentes a busca de propositos capazes de justificar as suas presencas, por horas, diante de uma lousa preenchida com materias cujos significados nem sempre recebem esclarecimentos.

Tratando-se de quadro complexo o seu enfrentamento costuma vir acompanhado de artimanhas e respostas evasivas, sendo mais facil, por evidente, a difusao regular de numeros que comprovariam o tamanho do nosso fracasso educacional. E como se a pretensa positividade matematica encarnada em tabelas e porcentagens servisse para disseminar assombro, reiterar o obvio e deixar o problema seguir sem maiores percalcos. Dai a divulgacao regular dos varios tipos de exames que avaliam o desempenho dos alunos, disciplinas, series, escolas, etc., de que servem como exemplos: Sistema de Avaliacao da Educacao Basica (SAEB); Exame Nacional do Ensino Medio (ENEM); Sistema de Avaliacao do Rendimento Escolar do Estado de Sao Paulo (SARESP); Programa Internacional de Avaliacao de Alunos (PISA); Provinha Brasil. O resultado de tais indicadores serve para intensificar o burburinho, mormente atraves dos media, voltado a deixar claro que perdemos o bonde da historia. O noticiario amplifica, por alguns dias, informacoes desalentadoras. Seguem alguns exemplos. O Ministerio de Educacao e Cultura (MEC) divulgou, em 2017, comunicado dizendo que na Avaliacao Nacional de Alfabetizacao (ANA), mais da metade dos discentes do terceiro ano do ensino fundamental apresentavam insuficiencias em leitura e matematica. Pouco antes, em 2014, o mesmo Ministerio apontava que 56,17% dos alunos nao registravam proficiencia leitora--ou seja, capacidade de localizar informacoes explicitas ou mesmo recolher o sentido geral do que era lido--; o indice teve pequeno decrescimo em 2017, atingindo 54,73%, sendo que no topico da escrita, 34% dos discentes nao conseguiam escrever palavras ou dotar os seus textos de inteligibilidade. Recentemente, os meios de comunicacao destacaram briefing do MEC cientificando que na prova do ENEM a nota 0 (zero) em redacao conheceu progressos, passando de 291.806 candidatos em 2016, para 309.157, em 2017, numa oscilacao de 4.8% para 6.5%. Aproximadamente 4.5 milhoes de candidatos prestam o exame anual do ENEM. E o Brasil, pelos numeros do PISA de 2015, ocupava a 63a posicao em ciencias, 59a em leitura e 66a em matematica, tenho em vista os 72 paises avaliados.

Deixemos de lado outros indicadores, haja vista apenas percorrerem o caminho pouco frutuoso da redundancia. Frente a cada rodada de resultados das avaliacoes do nosso ensino basico, os canais de televisao, as estacoes de radio, as paginas dos jornais e revistas, a algaravia das redes sociais, abrem temporada para os indignados de ocasiao, os oportunistas de varias tonalidades, os editoriais enviesados, filtrarem espanto oferecendo, em contrapartida, pocoes magicas aptas a alterarem o cenario das miserias educacionais que nos afligem. Os remedios receitados a cura para tais males sao de largo espectro: combate duro ao chamado corporativismo (i.e. sindicalismo, "grevismo", descompromisso com o interesse publico, etc.); pagamento dos profissionais da educacao por cumprimento de metas (ou o dispendio sob forma de bonus que nao se incorporam aos salarios, portanto, deixando de fazer parte dos calculos para efeito de aposentadoria); implantacao dos padroes qualitativos criados pela Organizacao Mundial do Comercio (OMC); adocao da aula cronometrada, dispositivo de controle a partir do qual o professor deve dividir o assunto do dia em minutos a serem cumpridos entre a explicacao, a discussao, a avaliacao, etc., esdruxulo do qual, felizmente, restam poucos defensores. Leguemos para outra circunstancia o tratamento acerca da imantacao de todos os paradoxos anteriores e concentrados na autointitulada Escola sem partido. Como se verifica, o tratamento consistente dos nossos desafios educacionais permanece abrigado sob uma retorica posta a meio caminho entre o espetaculo e o populismo neoliberal.

Deixa de ser tarefa simples investir na busca de projetos educacionais comprometidos com a qualidade, segundo espirito republicano, laico, inovador, em condicoes de enfrentar os incitamentos do mundo presente. O fato de acentuarmos, neste contexto, o papel da comunicacao, sobretudo, junto as escolas, discentes e docentes, apenas esclarece a existencia de um vetor que requisita intensificar o movimento cujo norte nao deve ficar sob o dominio da "sinfonia dos pasmados"--expressao do receituario liberal-conservador, muitas vezes a esconder o interesse, por exemplo, de reprovar, desqualificar, o ensino publico e enlevar o privado -, mas que, ao contrario, possibilite estruturar um programa de trabalho apto a introduzir novas alternativas a educacao formal. E, dentre elas, encontra-se o reconhecimento das singularidades hodiernas voltadas a produzir, circular e acessar a informacao e o conhecimento.

E preciso nao perder de vista que a escola continua exercitando modelos de ensino e aprendizagem calcados no enciclopedismo, na acumulacao informativa, na aula pouca dada ao exercicio dialogico. A despeito dos avancos ocorridos neste territorio, haja vista as propostas construtivistas, as metodologias baseadas no ensino por projeto, a orientacao educativa, as contribuicoes de educadores como Paulo Freire, etc., o quadro geral pouco se afasta dos mecanismos de ajustamento vigente ha longo tempo nas salas de aula. E curioso observar que tal arquitetura pouco responde, mesmo a certas exigencias impostas, hoje, pelo capital em sua busca por mao de obra, ao menos em parte, qualificada. O mundo do trabalho vem se organizando de outras maneiras e das quais seguem alguns exemplos: desregulamentacao, "pejotizacao", "o empresario de si mesmo" (Dardot e Laval, 2016), "precariado" (Braga, 2005), etc.; novas solicitacoes quanto as competencias profissionais--o jornal Folha de S. Paulo (2017), a partir de relatorio publicado pela consultoria McKinsey, informa que no Brasil, ate 2030, 15.7 milhoes de trabalhadores serao afetados pela automacao. Entretanto, a despeito do dramatismo deste cenario, no qual sobreleva-se a quebra de direitos sociais e trabalhistas, o ensino publico continua em sua compassada rota de fornecer o minimo aos discentes. Seria possivel ponderar acerca de inumeros problemas envolvendo os circuitos entre educacao formal, estoque de mao de obra e exigencias do capital, mas como nao reside em nosso escopo, no momento, analise amiude sobre tal ambito, basta lembrar que a escola em curso, guardadas as excecoes tanto na area publica como privada, acaba dando sequencia a um projeto que aumenta a exclusao social, haja vista, limitar-se, praticamente, a garantir certo nivel de aprendizado em algumas disciplinas.

Posicionar o debate nos termos de uma ressignificacao da escola implica ter no horizonte estrategias que se afastem do conhecimento regulado discutido por Boaventura Sousa Santos (2000), portanto da adaptacao excludente imposta, hoje, pelo ensino instrumental. E sob tal perspectiva que entendemos a pertinencia de estreitar os vinculos comunicativo-educativos nas salas de aula, procedimento, em ultima instancia, ocupado em divisar as profundas mudancas culturais, sociais, tecnologicas que envolvem os "ecossistemas escolares". A compreensao das passagens entre os discursos propedeuticos, escolarizados, e os nao escolares, isto e aqueles produzidos em outras instituicoes, a exemplo dos media, pode nao apenas franquear a revisao dos componentes curriculares das unidades educativas formais, atualizando-os e dinamizando-os, como tambem permitir a leitura analitica e critica da propria comunicacao--tendente a ser confundida com as chamadas tecnologias educativas, com o exercicio erratico da pesquisa em enciclopedias digitais, com a frequencia a blogs e sites dados como fontes de informacao validadas in limine.

De toda sorte, os cruzamentos entre educacao, circunstancias culturais e comunicacao, tanto ocorrem como se requisitam, a despeito de nem sempre ficarem explicitos ou serem tratados em suas injuncoes. E o que pensa, por exemplo, Raymond Williams, em varios dos seus escritos, ao insistir na aproximacao entre os campos comunicativos (um complexo de linguagens, metodos de trabalho, formas de organizacao, etc.) e educativos. E propugna que os docentes e demais envolvidos na administracao e gestao escolar, muitas vezes marcados por preconceito contra as novas formas de disponibilizar informacao e conhecimento, e os profissionais comunicadores busquem associacoes e dialogos que terminem por enriquecer o cotidiano dos espacos escolares (Williams, 1961).

O autor ingles acrescenta--em direcao do que poderiamos chamar, nos dias correntes, de literacia midiatica, alfabetizacao midiatica, alfabetizacao para os meios de comunicacao, leitura critica da comunicacao, educomunicacao, etc. a importancia de existir um aprendizado dos mecanismos regentes dos sistemas de comunicacao. Tal estrategia permitiria a "perda de ingenuidade" (5) do publico quanto ao disposto socialmente pelos diferentes veiculos comunicacionais. Em atualizacao historica, esta proposta nos colocaria, tambem, frente aos dispositivos moveis, a internet, as redes sociais, etc., tao presentes no cotidiano de professores e alunos.

Passados quase cinquenta anos dos escritos de Raymond Willians que animaram os nossos comentarios, e entendendo as nuances nas quais aquelas enunciacoes foram constituidas, permanecemos frente ao mesmo incitamento de posicionar a comunicacao e a educacao em ambiencia convergente.

Enfim

Neste texto procuramos mostrar como a educacao formal esta sendo desafiada a promover mudancas em suas concepcoes e praticas, haja vista a existencia de uma nova quadra historica na qual despontam, ao menos, tres grandes fenomenos, aqui retomados a titulo de sintese: as dinamicas tecnoculturais e de convergencia comunicacional; a percepcao de um tempo socialmente acelerado; as singularidades do sensorio. Vale dizer, ganha extensao um procedimento no qual os sujeitos redefinem com maior celeridade os seus lugares sociais, seus modos de ver e perceber o mundo, em boa medida acionando os dispositivos da comunicacao. E compreensivel, portanto, que os chamados saberes escolares, ainda demais ajustados as logicas do ensino propedeutico, segundo identificamos em nossa citada pesquisa, estejam diante de instigacoes que, por um lado, trazem desassossego e, por outro, convidam a pensar em alternativas e novos formatos para encaminhar os fazeres educativos.

Intentamos argumentar que as mudancas esperadas nao devem atingir apenas superficialmente o cotidiano das salas de aula, a exemplo dos pequenos acertos nos conteudos disciplinares e na formatacao das "grades" curriculares, ou mesmo no uso de alguns "recursos" comunicacionais para facilitar o entendimento de topicos programaticos, dado estar em jogo, agora, um amplo rearranjo cultural, social, tecnologica, entrelacado a elaboracao, organizacao, distribuicao e descodificacao do conhecimento e da informacao. E forcoso considerar, portanto, que os projetos voltados a constituir outras relacoes nas escolas, nos mecanismos de ensino e aprendizagem, nos modos de tratar a sociabilidade dos jovens, nao podem se fazer a revelia da comunicacao, haja vista o lugar estrategico que ela ocupa em nossa quadra historica.

DOI: http://dx.doi.org/10.15448/1980-3729.2018.3.29914

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Recebido em: 14/02/2018

Aceito em: 08/04/2018

Dados do autor:

Adilson Odair Citelli | citelli@uol.com.br

Escola de Comunicacoes e Artes da Universidade de Sao Paulo (ECA-USP).

Doutor e Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de Sao Paulo (USP). Prof. titular da Escola de Comunicacoes e Artes da Universidade de Sao Paulo (ECA-USP). E docente, sob regime RDIDP, dos Programas de Graduacao e Pos-Graduacao da ECA-USP e pesquisador 1B do CNPq.

Endereco do autor:

Escola de Comunicacao e Artes--Universidade de Sao Paulo (ECA-USP) Av. Professor Lucio Martins Rodrigues, 443 Cidade Universitaria 05.508-020--Sao Paulo/SP

Adilson Odair Citelli

Escola de Comunicacoes e Artes da Universidade de Sao Paulo (ECA-USP) Sao Paulo, SP, Brasil. ORCID: 0000-0002-0838-9917

<citelli@uol.com.br>

(1) O largo movimento preocupado em trazer a comunicacao para o ambito educativo foi gestado nas primeiras decadas do seculo XX, como atestam, no Brasil, a obra de Edgard Roquette-Pinto e Anisio Teixeira. Para reflexao mais ampla sobre o assunto, consultar: Citelli (2004, 2011); Soares (2011).

(2) Consulta ao banco de teses da CAPES, feita em 17 de janeiro de 2017, mostrava a existencia de 213 dissertacoes e teses abarcando o termo em tela, na maioria dos casos ensejando o titulo do trabalho e em outros dando a ele peso especial, distribuidos por programas de Comunicacao e de Educacao, mas tambem de outras areas do grupo de Ciencias Humanas e Sociais.

(3) "Las regulaciones comunicativas vigentes en una sociedad determinada, las logicas informativas predominantes, los recursos tecnologicos disponibles para diferentes sectores sociales, las modalidades de organizacion social y politica deben ser tenidas en cuenta como condiciones objetivas para el ejercicio de la ciudadania comunicativa. Pero existen multiples condiciones subjetivas que deberemos interrogar a fin de no simplificar nuestros analisis. Los modos de imaginarse como sujetos de derecho propios de diferentes individuos y colectivos sociales, sus maneras de vincularse con quienes detentan la legalidad y legitimidad social para expresarse y producir normas al respecto, las representaciones hegemonicas y contrahegemonicas acerca de lo que significa comunicarse y comunicar hoy, en sociedades mediatizadas, las expectativas depositadas en las instituciones, los medios, las propias fuerzas expresivas, son dimensiones ineludibles para comprender hasta donde y en que condiciones la indefension o la impotencia de los publicos es una condicion irreversible o no para reivindicar el derecho a informarse, a expresarse, a ampliar el espacio publico con multiples palavras". (2006, p. 146)

(4) Trabalho feito com o apoio do CNPq. Relatorio final de posse do Autor.

(5) "loss of naivety" (Williams, 1969, p. 132)
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Title Annotation:MEDIACAO; texto en portugues
Author:Citelli, Adilson Odair
Publication:Revista Famecos - Midia, Cultura e Tecnologia
Date:Sep 1, 2018
Words:5229
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