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Commonplace and inversion in Greek lyric poetry/'Panela velha e que faz comida boa': topica e inversao de topica na poesia lirica grega.

Introducao (1)
   Nao me interessa se ela e coroa
   Panela velha e que faz comida boa
   (Sergio Reis, violeiro brasileiro)


Os generos literarios gregos podem ser apreciados tanto por seus aspectos formais como por questoes de conteudo. No primeiro caso, trata-se de aproximar textos por caracteristicas como metro e ritmo (os 'generos' por excelencia, epico, lirico, dramatico e suas subespecies) e, no segundo, de aproxima-los pela recorrencia de uma topica ou de estruturas mais ou menos formulares. Esta ultima compreensao dos generos considera a presenca, na definicao de Cairns (1972, p. 6), de "[...] um conjunto de elementos primarios ou logicamente necessarios que em combinacao distinguem este genero de cada outro genero" (2). Desenvolver uma analise da topica nos generos (ou subgeneros) liricos antigos, como propoe Cairns, e util porque nos prepara para o reconhecimento de certas estruturas frequentes na poesia classica--afinal, o enquadramento do poema em certo genero e sempre um desejo do poeta e uma exigencia de seu publico, ja que ambos comungam de "[...] um corpo comum de conhecimento e expectativa" (Cairns, 1972, p. 7) (3) e o publico espera pelas formulas conhecidas. Trata-se na verdade de um processo intertextual bastante sofisticado que tem na alusao um de seus mais importantes recursos--como define Vasconcellos (2007, p. 250, grifo do autor):
   Embora estejamos conscientes de que o fenomeno da
   intertextualidade, se o tomarmos, como tantas vezes se faz, no
   sentido amplo de interdiscursividade, esta presente em todo texto e
   em todo discurso, achamos conveniente recortar nesse fenomeno o
   caso da 'arte alusiva' dos poetas antigos, uma especie de arte
   compositiva da qual fazia parte a citacao mais ou menos indireta
   dos predecessores.


A alusao assim entendida deve ser pensada tanto em relacao a discursos anteriores concretos (evocacao de certo poema em particular) como, mais abstratamente, em relacao as formulas disponiveis na cultura, pois a "[...] existencia na Antiguidade de formulas muito numerosas de temas que foram adiante de uma geracao a outra" (Cairns, 1972, p. 32) (4) permitem ambos os processos. Rieu (2013, p. 57), atento aos processos envolvendo a composicao das obras de Homero, afirma (e isso se aplica a qualquer bardo classico) que "[...] a pratica dos poetas antigos consistia em construir seus edificios com a ajuda de tijolos tirados de estruturas preexistentes", referencia clara aos recursos da poetica antiga.

Com as analises dos poemas (que pertencem, formalmente, ao genero epigrama, por sua brevidade e pelo verso elegiaco), demonstraremos que eles desenvolvem generos liricos conhecidos na poesia classica. Procuraremos reconhecer neles, na perspectiva da analise topica, os elementos primarios (o eu, o tu e a relacao estabelecida entre eles) e os secundarios, os topoi ou lugares-comuns propriamente ditos que "[...] ajudam, em combinacao com os elementos primarios, a identificar um exemplo de genero" (Cairns, 1972, p. 6) (5). A aparente pobreza de uma poetica centrada na 'arte alusiva' dara lugar a percepcao de que diferentes mecanismos de inovacao estavam disponiveis ao poeta antigo e que a incorporacao de discursos anteriores nunca e feita de modo ingenuo. Assim, evidenciaremos neste artigo a riqueza existente no processo de composicao antigo, focalizando os expedientes que circunscrevem os poemas a generos liricos especificos, com enfase no processo inovador de construcao de uma antitopica.

A profecia ameacadora

A profecia ameacadora constitui, no ambito da poesia grega, um genero ou subgenero lirico que pode ser relacionado ao convite amoroso e ambos ao carpe diem, uma vez que o convite amoroso e a profecia ameacadora encontram, na efemeridade da vida, a urgencia de desfruta-la pois, como afirma Achcar (1994, p. 127), "A passagem do tempo e sempre a justificativa do convite". Trata-se de um genero, no sentido que estamos apreciando, submetido a um tipo maior, o da profecia como um todo, sendo a profecia ameacadora, de matriz erotica, uma forma particular de seu desenvolvimento: "Embora nao mencionado por tratadistas antigos, pode-se considerar que ha um genero 'profecia' e que dele se desenvolveu uma forma particular de 'profecia ameacadora'" (Achcar, 1994, p. 127-128, grifos do autor). O genero profecia pode ser definido assim, nas palavras de Cairns (1972, p. 85):

O falante se encontra em situacao que nao lhe agrada e a culpa ou responsabilidade por isso recai, em sua opiniao, sobre o destinatario. O falante adverte/profetiza/deseja que o destinatario possa no futuro encontrar-se em diferente condicao, em que nao mais incomode o falante. O objetivo da ameaca e induzir o destinatario a agir mais rapidamente para aliviar o atual desconforto do falante (Traducao do trecho apud Achcar, 1994, p. 128).

Quanto a profecia ameacadora, Cairns (1972, p. 85) estabelece, na sequencia de suas ideias, que "O genero e comumente usado quando o falante esta apaixonado pelo destinatario e quando o falante esta desconfortavel porque o destinatario nao cedera a sua paixao" (6). A situacao discursiva, neste caso, envolve, um falante (o eu lirico), um destinatario (no caso, uma jovem indiferente aos apelos do eu lirico) e a mensagem, a profecia ameacadora. A situacao discursiva constitui os elementos primarios do genero. A mensagem nos fornece a evidencia dos interlocutores envolvidos ou os elementos primarios, mas tambem os elementos secundarios, os lugares-comuns (topoi)--vocabulos, expressoes, metaforas, afins ao genero em questao.

Nos tres casos analisados adiante, a profecia ameacadora constitui o genero poetico. Em nossas analises, procuraremos evidenciar a presenca dos elementos topicos primarios e secundarios, demonstrando o pertencimento dos poemas a este genero e os recursos de que faz uso para inovar. Passemos ao primeiro caso:
   (1) [phrase omitted]

   Oferto-te esta guirlanda,
   oh Rodocleia, que eu proprio
   enlacei de belas flores
   com as minhas habeis maos.

   Ha lirios e rubros calices
   e anemonas pantanosas
   e narcisos delicados
   e violetas azuladas.

   Coroada com as flores,
   abandona o teu orgulho,
   pois floresces e feneces
   assim como esta guirlanda (7).


O poema acima (Rufino, AP5, 74), associado a topica do carpe diem, com a brevidade da vida manifesta no fenecer das flores, tambem pode ser relacionado a topica do convite amoroso (a consequencia da brevidade e a urgencia da entrega ao amor), ou, ainda, enquadrado na topica da profecia ameacadora, sobretudo por seu arremate (v. 5-6), em que o eu lirico censura a cortesa Rodocleia por sua beleza intocada (por ele!), beleza que compara com flores, cujo vico nao e duradouro. Os generos mencionados (carpe diem, convite amoroso e profecia ameacadora) sao fronteiricos e fazem, ou podem fazer, uso dos mesmos elementos primarios (estrutura discursiva) e secundarios (topoi).

No poema, vemos o eu lirico dirigindo-se a sua interlocutora, a cortesa Rodocleia, a quem oferece uma guirlanda (stephos, v. 1) que ele proprio (autos, v. 2) trancou (pleksamenos, v. 2) com as maos (palamais, v. 2), feita com as mais belas flores (anthesi kalois, v. 1). A entrega da guirlanda a uma cortesa, comum entre os epigramistas da Palatina, constitui por si so um convite amoroso: ela e a marca da predisposicao do amante para o amor. Seguidamente, no poema, ele especifica, um a um, os tipos de flores enlacadas: na guirlanda ha lirio (krinon, v. 3), rosa rubra (rhodee kalyks, v. 3), anemona (anemone, v. 3), narciso (narkissos, v. 4) e violeta (ion, v. 4). Se o primeiro distico destaca a acao do eu lirico de tecer a guirlanda, o segundo, como se ve, focaliza cada flor em particular envolvida nessa acao.

Uma vez composta, a guirlanda ja pode ser doada: nos versos 5-6, entregando o presente, o amante pede que Rodocleia abandone (lekson, v. 5) seu orgulho (megalaukhos, v. 5), obstaculo que os afasta. De posse da guirlanda e atenta a fugacidade de seu vico, beleza e perfume, Rodocleia e exortada a refletir sobre o fenecimento de suas qualidades--afinal, tambem ela (kai sy, v. 6), assim como uma guirlanda, floresce (antheis, v. 6) e fenece (legeis, v. 6) celeremente. O termo que encerra o poema e justamente 'guirlanda', vocabulo mais frequente na Palatina (stephanos, v. 6). Note o leitor que essa palavra, encerrando o poema, constitui uma sintese de tudo o que pretende o poema: colocar diante dos olhos da amante (e do leitor) o objeto-simbolo da brevidade da beleza. Ele representa, a um so tempo, o elogio ao vico floral e feminil, bem como sua rapida passagem. E o verso final que permite encaixar adequadamente o poema no genero da profecia ameacadora: com a comparacao entre beleza floral e beleza feminina e o destaque para ideia de florescer e fenecer que a ambas atinge, o eu lirico vaticina sua profecia.

Nao deixemos de mencionar que o nome da cortesa Rodocleia, embora compareca em outros poemas de Rufino (permitindo ate vislumbrar um circuito ligado a essa cortesa), se em outros casos ocorre sem motivacao, no presente ele se relaciona apropriadamente ao tema: composto de rhodon ('rosa') e kleos ('fama'), o nome Rhodokleia destaca a presenca floral de seu renome, informando que a amante e renomada por seu vico (ao pe da letra, 'renomada pela rosa, pelo vico'). Essa explicacao, em tudo concorde com o tema do poema, deve ser alinhada ainda a outra, em que o termo 'rosa' pode ser entendido como uma metafora para designar a genitalia feminina; note que esse segundo sentido faz da cortesa uma amante renomada por seu sexo, o que de novo esta de acordo com o mundo de nossos personagens.
   (2) [phrase omitted]

   Que durmas assim, Conopion,
   do modo como tu fazes
   com que eu adormeca: junto
   de frias portas fechadas.

   Durmas assim, injustissima,
   do modo como adormeces
   este teu amante: nem
   mesmo em sonho piedade.

   Vizinhos se compadecem.
   Tu, nem em sonho. Teus cachos,
   de repente encanecidos,
   hao-de recordar-te disso.


O poema acima (Calimaco, AP 5, 23) deve ser associado, e corretamente, ao genero komos. Cairns (1972, p. 87), que cita este poema de passagem, entende que os topoi que o confeccionam foram antes produzidos nesse genero maior (o genero 'festa' ou 'serenata'). Ha quem nomeie a situacao discursiva acima, sem duvida submetida ao genero festa (como o convite amoroso se submete ao carpe diem), com o termo paraklausithyron, isto e, 'lamento diante de uma porta fechada', frequente entre os poetas da Palatina. Trata-se da seguinte situacao discursiva (elementos primarios): o amante, trancado para fora do lugar de encontro, faz suplicas a cortesa, que nao o atende (ou porque nao quer, ou porque possui em seu leito outro amante). Note que o tipo de topica tratada aqui permite relacionar o poema com o komos, como tambem permite que se veja nele uma peca do genero profetico, particularmente de profecia ameacadora de carater erotico; o poema pode ainda ser relacionado, de modo mais ou menos direto, com o genero do carpe diem, pela imagem da velhice que impele a fruir o tempo que passa. O pertencimento do poema ao genero da profecia ameacadora e, em nosso entender, o mais adequado, se nos fiarmos na configuracao antes apresentada, a saber, de que um falante, em situacao de desconforto, deseja que o outro ocupe o mesmo lugar em momento futuro, amando sem ser amado (Cairns, 1972, p. 85).

Quer o amante (ton erasten, v. 3) dormir com Conopion (v. 1), mas so consegue dormir diante de uma porta fria: os verbos que sinalizam essa acao sao hypnosais (que aparece duas vezes no poema, v. 1 e v. 3) e koimasthai e koimizeis (v. 2 e v. 4). A cortesa, porem, recusa-se a recebe-lo--dai que seja chamada de injustissima (adikotate, v. 3): ela mantem fechadas as portas (prothyrois, v. 2), por isso sentidas como frias (psykhrois, v. 2). Note que a relacao deste poema com o genero do lamento diante de porta fechada (o paraklausithyron) e evidente, ainda que nos prefiramos interpreta-lo a luz do genero profecia ameacadora.

Sentir pena (eleou, v. 4) do amante abandonado, ela nao sente nem em sonho (oud'onar). Notemos que a expressao 'nem em sonho' ocorre duas vezes no poema (v. 4 e 5), o que acentua a indiferenca de Conopion. Se ela, porem, nao se comove, e diferente o que se passa com os vizinhos (geitones, v. 5), pois eles sim se compadecem (oikteirousi, v. 5), mas nada podem fazer pelo eu lirico.

Apenas nos versos finais surge a profecia de fato: apontando para o futuro, o eu lirico evoca as cas (polie, v. 5) como as vingadoras da situacao presente; elas virao tingir de branco a cabeleira (kome, v. 6) da cortesa, punindo sua soberba; ela entao se lembrara (anamnesei, v. 6) de todos os males (tauta panta, v. 6) causados ao eu lirico no momento presente. Note que essa punicao sera subita, repentina (autik', v. 6), como costuma ser a chegada da velhice.

Parece pertinente, enfim, ver neste poema a predominancia da topica da profecia ameacadora, materializada particularmente nos versos finais, mas, sobretudo, no fecho do poema: tanto ou mais importante do que a abertura (no poema analisado anteriormente, o termo final era 'guirlanda', stephanos, emblematico para aqueles versos), o poema encerra com a palavra 'cabelos' (kome)--cabelos que materializarao, no vaticinio do eu lirico, a passagem do tempo. Eis, pois, os elementos topicos secundarios que, ao lado dos elementos primarios (eu, tu e mensagem), constroem o ambiente de separacao dos amantes.

Destaquemos por ultimo que o nome da cortesa Konopion (v. 1) constitui forma diminutiva de konops ('mosquito', donde 'Mosquitinha'), cuja relacao com o poema fica por conta da criatividade do leitor (impertinente, pequena, entre outras possibilidades).
   (3) [phrase omitted]

   A desejavel Maria--
   quanta arrogancia! Castiga
   oh veneranda Justica,
   sua altivez e soberba,

   mas nao com a morte. Ao contrario:
   possa a velhice alcancar-lhe
   os cachos, possa com rugas
   sua face ressecar.

   As cas vinguem minhas lagrimas.
   A beleza da garota
   pague pelo engano da alma,
   por ser a causa do engano.


Assim como no primeiro poema analisado, temos neste (Juliano, AP 5, 298) outra vez a separacao dos amantes causada pela soberba feminina (no segundo caso, nao se menciona a causa da separacao dos amantes). No distico inicial, apenas um termo exalta qualidades euforicas da cortesa Maria (Marie, v. 1), que e desejavel (Himerte, v. 1), ao passo que todos os outros recortam apenas seus defeitos (no entendimento do eu-lirico): ela e arrogante (megalizetai, v. 1), de exagerada altivez (kompon, v. 2) e soberba (agenories, v. 2). Tais atributos impedem o exito do amante, que nao consegue acesso a menina; dai que ele invoque a Justica (Dike, v. 2), deusa capaz de punir a cortesa por seus excessos. A punicao com a morte (me thanatoi, v. 3), porem, nao e o que ele pretende. Sadico, ele deseja que Maria experimente longamente a privacao da beleza: a Justica puna a altivez dela com a velhice (geraos, v. 4) que acinzenta cachos (trikhas, v. 3), com as rugas (rhytidas, v. 4) que ressecam (skleron, v. 4) a face (rhethos, v. 4), com as cas (poliai, v. 5) que sao a melhor forma de vingar (tiseian, v. 5) as lagrimas (dakrya, v. 5) derramadas por amantes desprezados.

Nos versos finais, insistindo na ideia de punicao, o eu lirico reitera que deseja ver consumida a beleza (kallos, v. 5) de Maria como forma de paga pelo engano de sua alma (psykhes amplakien, v. 6), pois foi a beleza excessiva que impeliu a cortesa na direcao da soberba; entao, que a beleza pague pelo engano, por ser a causa do engano (aition amplakies, v. 6). Destaquemos que o termo 'engano', repetido no verso final e ultimo vocabulo do poema, pode ser entendido como o elemento que colabora, como os outros topoi destacados, para a relacao desse poema com o genero de profecia ameacadora. A ideia de engano, erro, ofensa, sinonimos de amplakie, parece de fato ser suficiente para demandar a expiacao solicitada pelo amante pelo comportamento da cortesa, materializada em profecia.

Mais do que nos casos anteriores, neste ultimo poema a profecia ameacadora e clara e direta: quase todo o texto constitui um inventario em que as etapas e os objetivos da vinganca sao delineados; o vocabulario bem recorta o envelhecimento (com termos como rugas, cas, velhice, pele ressecada) que deve se chocar com a soberba, arrogancia e beleza de Maria.

Nos tres casos analisados ate aqui, cremos ter confirmado o pertencimento de cada um deles ao genero da profecia ameacadora. Por vezes fronteiricos com outros subgeneros de topica semelhante (carpe diem, convite amoroso, komos, paraklausithyron), demonstramos que esses casos podem ser bem apreciados se relacionados ao genero de profecia ameacadora, o que permite vislumbrar a migracao topica que confecciona os poemas abaixo.

Regozijo com o cumprimento da profecia

A topica do regozijo com o cumprimento da profecia constitui um desdobramento, uma continuidade da situacao discursiva que vimos antes. Na topica da profecia ameacadora, os amantes estavam jovens e algum obstaculo os afastava (a soberba feminina nos poemas 1 e 3, a possivel presenca de um amante rival no poema 2). Na topica do regozijo pelo cumprimento da profecia, os interlocutores estao velhos (embora nao se mencione o envelhecimento do eu lirico), privados dos atrativos juvenis. O eu lirico, para desforra, assume o discurso e lembra a cortesa de sua previsao antiga, ora realizada: o envelhecimento ceifou os melhores frutos dela.

A topica em questao e comentada por Achcar, que esclarece o fato de que topoi de certos generos liricos podem se transformar em novos generos e que, nesse sentido, podemos considerar a topica do regozijo com o cumprimento como um interplay da topica da profecia ameacadora, assim como a profecia representa um interplay da topica do carpe diem:

[...] em muitos poemas de 'profecia ameacadora' o topos implicado e o carpe diem. Pode-se portanto falar de um parentesco entre esses dois generos, como o interplay que Cairns apontou entre a 'profecia ameacadora' e o 'regozijo com o cumprimento'. Esse jogo entre generos decorre de uma regra basica, gerativa, da composicao generica: generos podem transformar-se em topoi de outros generos, e topoi podem desenvolver-se em novos generos (Achcar, 1994, p. 132-133, grifos do autor).

Esse parentesco, interplay ou desdobramento da topica de um genero em outro e 'uma regra basica' e, no presente caso, evidencia um antes e um depois da situacao discursiva. Procuraremos demonstrar como a construcao do regozijo com o cumprimento da profecia leva em conta seu antecedente (de outro modo, o regozijo seria forcoso, ja que a advertencia no passado nao teria ocorrido) e como, particularmente, a regra de migracao de topoi de um genero a outro confecciona, de fato, novos generos, a exibir uma poetica que tem em grande conta a utilizacao dos mesmos 'tijolos' literarios.
   (4) [phrase omitted]

   Eu nao te dizia, Prodice:
   'Estamos envelhecendo'?
   Eu nao falava: 'A ruptura
   dos amantes vira rapida'?

   Eis que chegaram as rugas,
   as cas, envergou-se o corpo
   e ha muito a boca perdeu
   aquelas gracas primevas.

   Ninguem te corteja, airosa,
   nem com suplicas te adula?
   Ora passamos por ti
   como diante de um tumulo.


Neste poema (Rufino, AP 5, 21), o tempo preterito ocupa o primeiro distico e pode ser percebido pelas formas verbais (Ouk elegon, v. 1, 'Eu nao te dizia?'; ou proephonoun, v. 1, 'Eu nao falava?'): o eu lirico evoca o passado e relembra sua premonicao antiga, que mencionava a velhice como um obstaculo a atracao dos amantes: 'Estamos envelhecendo' (Geraskomen, v. 1) e o que ele dizia. A consequencia disso, ja sinalizada naquela ocasiao, seria a futura (heksousin, v. 2, 'vira') separacao dos amantes (dialyphiloi, v. 2), separacao que com muita rapidez (takheos, v. 2) iria acontecer.

Eis que a profecia se cumpriu: o eu lirico, no segundo par de versos, pontua um a um os atributos, antes louvaveis, agora detestaveis da cortesa Prodice. O distico abre com o adverbio 'agora' (nyn, v. 3), estabelecendo claramente a distancia temporal e as mudancas que ela ocasionou: no presente momento, o que ha sao rugas (rhytides, v. 3), cabelos brancos (thriks polie, v. 3), um corpo envergado (soma rhakodes, v. 3) e uma boca (stoma, v. 4) cujas gracas primeiras (tas proteras kharitas, v. 4) nao existem mais (ouket', v. 4). Diante de tal mudanca, profetizada outrora pelo eu lirico, resta a cortesa apenas o desprezo de seus antigos amantes: indaga-se, com ironia, se ha ainda quem lhe corteje (proserkhetai, v. 5), quem lhe suplique (lissetai, v. 6) os favores sexuais com bajulacao (kolakeuon, v. 5). E evidente que nada disso acontece mais e a antiga profissional do sexo, Prodice, ja nao possui ao pe de si nem novos nem antigos amantes. A enfase no tempo presente ocorre outra vez no distico final: 'agora' (nyn, v. 6), afirma o eu lirico, 'passamos diante de ti' (se parerkhometha, v. 6) como se diante de um 'tumulo' (taphon, v. 6).

A crueldade com que o eu lirico aborda o tema do envelhecimento da cortesa, na comparacao com um tumulo, deve estar relacionada ao fato de que Prodice tenha sido outrora demasiado soberba: o termo 'airosa' (meteore, v. 5), em uso acentuadamente ironico, parece permitir essa inferencia. Assim, do mesmo modo que as belas cortesas apresentadas na analise da topica da profecia ameacadora, outra vez e a soberba a causa (ou uma das causas) do afastamento dos amantes. Vale destacar que, se o termo que recorta a atitude de soberba da cortesa aponta para o alto ('airosa'), a imagem final do tumulo decididamente aponta para o baixo, para o chao, quase que a projetar a queda das nuvens ao chao sofrida por ela.

O poema 4 confirma a relacao existente entre a situacao discursiva da topica da profecia ameacadora e esta, a do regozijo com o cumprimento da profecia. No tempo presente, a velhice e empecilho ao desfrute dos prazeres sexuais oferecidos pela amante. Salientemos, por fim, que a desforra do eu lirico em reconhecer seu antigo objeto de desejo destituido de gracas (afirmado com amarga crueldade) esta focada na passagem do tempo em relacao a cortesa, pois ele nao percebe a si mesmo (ou pelo menos nao coloca a si mesmo em evidencia) como sujeito a passagem do tempo (e claro que para o regozijo, a estrategia de mirar apenas o outro e literariamente mais viavel, com o risco de o deleite pela profecia cumprida soar amargamente a ambos). Quanto ao nome, Prodike (v. 1), ao pe da letra, combina preposicao e substantivo (pro, 'diante', 'acima', 'por causa de', e dike, 'justica') e pode ser lido de diversos modos (o adjetivo prodikos e conhecido: 'defensor', 'advogado', 'vingador'): 'a que esta colocada diante da justica ou acima dela' ou, quem sabe, 'a que foi punida'. No primeiro caso, o nome poderia ser relacionado ao passado da cortesa; no segundo, ao presente, ocasiao em que foi 'punida'.
   (5) [phrase omitted]

   Ela, que antes se orgulhava
   do proprio brilho e agitava
   as trancas de seus cabelos,
   transbordante de altivez;

   ela, que outrora negava
   cada um dos meus cuidados--
   com as rugas da velhice
   perdeu a graca de outrora.

   Seu seio esta pendurado,
   as sobrancelhas cairam,
   nos olhos nenhuma luz,
   na boca--falas senis.

   Afirmo serem as cas
   a Vinganca do desejo--
   chegam mais cedo as soberbas
   e punem conforme a lei.


O poema acima (Agatias, AP 5, 273) apresenta o eu lirico a regozijar-se com a decadencia de seu antigo objeto de desejo. Ele principia por lembrar sua interlocutora da soberba (metarsios, v. 1; este termo e sinonimo de meteore, que apareceu no poema anterior) e altivez (sobareuomene, v. 2) manifestas no passado ('Ela, que antes ...', He paros ..., v. 1), decorrentes de seu esplendor (aglaieisi, v. 1) ainda sem maculas; as trancas de seus cabelos (plokamidas plektas, v. 1-2) eram razao suficiente para que a cortesa pavoneasse por ai, a agita-las (seiomene, v.2) ea recusar desdenhosa (megalaukhesasa, v. 3) a atencao, os cuidados (meledones, v. 3) do amante. Depois dessa digressao, pontuando qualidades e excessos no passado, o eu lirico focaliza o presente, marcado pela passagem do tempo: a graca de outrora (ten prin kharin, v. 4) da agora lugar a uma velhice (gerai, v. 4) repleta de rugas (rhiknodes, v. 4); os seios (mazos, v. 5), antes eram firmes e belos, estao agora pendentes (hypeklinthe, v. 5), os pelos das sobrancelhas (ophryes, v. 5) cairam (peson, v. 5), o olhar (omma, v. 5) ja nao possui qualquer brilho, esta embaciado (tetektai, v. 5), os labios (kheilea, v. 6) so balbuciam (bambainei, v. 6) palavras senis (phthegmati pothou, v. 6). Com essa detalhada descricao dos efeitos da velhice sobre a cortesa, o eu lirico opoe passado e presente, gloria e decadencia, e caminha para a conclusao: verdadeira vingadora do desejo (pothou, v. 7), a deusa Nemesin (v. 7), personificacao da Vinganca, e a grande aliada dos amantes rejeitados: com cabelos brancos ('cas', polien, v. 7), ela pune (dikazei, v. 7) as mulheres soberbas (tais sobarais, v. 8) mais cedo (thasson, v. 8) do que as mulheres comuns, essa e a lei (ennoma, v. 8).

Notemos que este poema guarda muitas semelhancas com o de numero 3, cuja topica e a da profecia ameacadora: la, a ideia de punicao se faz presente na evocacao a deusa Dike, 'Justica', convidada a vingar (tiseian, v. 5) as lagrimas derramadas pelo eu lirico por causa de Maria; aqui, quem deve cumprir a tarefa e a deusa Nemesis, a quem se associa o verbo dikazo ('fazer justica'). Nos dois poemas, por agentes diferentes, a punicao desejada e a chegada dos cabelos brancos (o termo polie ocorre em ambos os poemas), isto e, a velhice. Destaquemos, portanto, que ambas as topicas utilizam-se dos mesmos topoi: no caso da profecia ameacadora, a punicao da cortesa e anunciada como um desejo para o futuro; no caso do regozijo com o cumprimento, ela e a constatacao de que a cortesa ja foi punida.
   (6) [phrase omitted]

   Aquela que um dia fora
   a mais formosa mulher,
   que lassa dancava aos toques
   de douradas castanholas,

   hoje a velhice a domina
   e amargas enfermidades.
   Os seus amantes que outrora
   suplicavam-lhe favores

   ora temem encontra-la.
   Aquela lua crescente
   eclipsou-se--nunca mais
   ela entrou em conjuncao.


No poema acima (Macedonio, AP 5, 271), vemos uma vez mais o eu lirico a principiar (v. 1-2) pela recordacao do passado (como em 4 e 5), destacando as qualidades que a cortesa ja ostentou em outros tempos: ela era, outrora (pote, v. 1), de uma formosura (eidei, v. 1) superior a de qualquer mulher (thelyteraon, v. 1) e era frenetica como uma bacante (bakheuousan, v. 1); cheia de lassidao (spatalen, v. 2), ela se agitava (seiomenen, v. 2) ao som de douradas castanholas (khryseoi krotaloi, v. 2). O passado assim recortado em seus aspectos positivos da lugar, nos versos que seguem, a um presente decadente, em que apenas velhice (geras, v. 3) e enfermidades (nousos ameilikhos, v. 3) sao os principais 'atributos'. Diante dessa mudanca, os amantes (hoi philetai, v. 3), os mesmos que outrora (pote, v. 4) vinham (erkhomenoi, v. 4) ate ela e lhe suplicavam com insistencia os favores (trillistos, v. 4), eles agora (nyn, v. 5) correm dela, pois temem (pephrikasi, v. 5) encontra-la.

Se o poema 4 encerrava com a imagem de um tumulo, signo da decadencia feminina, este faz uso de uma imagem igualmente interessante, a sinalizar a decadencia: em metafora astronomica, a cortesa e comparada, por seu passado, com uma lua crescente (auksoselenon, v. 6); no entanto, ela obscureceu de todo, efeito de um eclipse (ekselipen, v. 6)--envelhecida, ela nunca mais (meketi, v. 6) entrou em conjuncao (synodou, v. 6). Essa imagem, que sintetiza o resultado presente da passagem do tempo perceptivel na cortesa, tambem evoca contrastes interessantes (claro e escuro, belo e feio, apogeu e decadencia).

Destaquemos uma vez mais que o poema analisado, centrado na topica de regozijo com o cumprimento da profecia, constroi em detalhes um antes (evidente nos adverbios e nas formas verbais do preterito) e um depois (tambem percebido pelas mesmas categorias gramaticais), em que passado e presente se contrastam e exibem um processo de declinio: assim como em todos os outros casos analisados, de profecia ameacadora ou de regozijo com o cumprimento da profecia, tambem no poema acima a velhice nao agrega, no contexto erotico, qualquer valor, mas apenas signos negativos, depreciativos, signos que repelem os amantes. Salientemos que essa ideia de velhice como decadencia, somada a negligencia com os prazeres proprios da juventude, confirmam a relacao dessas duas topicas com a do convite amoroso (circunscrita a do carpe diem), em que o convite resultava da percepcao de que a beleza e efemera; sem ela, a cortesa tornou-se odiosa aos olhos daqueles que a admiravam.

'Nao me interessa se ela e coroa'

Uma visao depreciativa da velhice, no contexto especifico da lirica erotica antiga, confirma a ideia de que as atracoes sexuais estao para a juventude. Como vimos, todos os signos da beleza ligam-se, nos casos analisados, a beleza juvenil; se tal beleza nao pode no presente (profecia ameacadora) ou nao pode no passado (regozijo com o cumprimento da profecia) ser desfrutada, nao foi pela sua inexistencia ou ineficacia, mas decorrente da vaidade feminina (sempre apresentada pelos olhos de um eu lirico masculino). No ambito da poesia erotica, portanto, a juventude determina a beleza, ja que a velhice e entendida como algo repelente (comparavel, para evocar os versos analisados, a um tumulo ou uma lua eclipsada).

Paralelamente, porem, a visao difundida pelos poemas analisados--a velhice como signo de repulsa--, os poetas da Palatina (algumas vezes, os mesmos nomes que exaltam a beleza juvenil, como Rufino, por exemplo) inovaram em suas composicoes ao subverter a expectativa de uma visao pejorativa da velhice em contexto erotico. Os casos que seguem abaixo demonstram nao so a construcao de uma nova visao da velhice, mas sobretudo--e isso nos interessa particularmente--a confeccao de um novo subgenero lirico, denominado por nos de 'panela velha, comida boa'.

Os processos de migracao de topoi de um genero para outro, a confeccionar novos subgeneros liricos ja foram abordados anteriormente, com base em Achcar. Demonstraremos como, aliada a essa regra da poesia antiga, um processo produtivo, bastante criativo, por que nao dizer subversivo, pode ser reconhecido entre os poetas do livro V da AP: trata-se de construir um novo subgenero com base na inversao dos lugares-comuns previstos. Nada de muito novo, teoricamente, se nos atentarmos ao que os estudiosos do setor estabelecem:

[...] o topico se distingue, amiude--ideal seria poder dizer 'sempre'--por sua possivel realizacao inversa, ou, melhor dizendo, por suas possiveis realizacoes inversas, em funcao da maior ou menor complexidade significativa dos elementos que, como faces de um poliedro, constituem-no (Escobar, 2000, p. 146, grifo do autor). (8)

A capacidade de inversao de uma topica e quase que uma regra geral ('ideal seria poder dizer sempre'), mas nao se deve imagina-la como uma troca de lados de uma moeda, pois a inversao de topica pode assumir diferentes facetas (nao como uma moeda, mas um 'poliedro'). De qualquer forma, ainda que prevista teoricamente, a inversao de uma topica sera sempre menos frequente do que a alusao a topica regular, tradicional--dai seu valor elevado: "Porem, o verdadeiro topico admite, por sua vez, uma possivel inversao. [...] Tal inversao e menos frequente, mas--por causa precisamente de sua relativa infrequencia ou inverossimilhanca--mais rico do ponto de vista literario" (Escobar, 2000, p. 147) (9). O uso da topica invertida eleva o valor literario do poema, por seu uso pouco frequente ou raro.

Quanto as causas que motivam a inversao da topica, o mesmo estudioso justifica:

As causas concretas da inversao podem ser muito variadas. Podem ser devidas a mera saturacao que produz o emprego reiterado de determinados topicos, a qual conduz a sua aplicacao antifrastica ou satirico-parodica; em outros casos intervem a vontade deliberada de praticar um uso enviesado ou transgressor (Escobar, 2000, p. 147). (10)

Saturacao, uso antifrastico, satirico-parodico, enviesado ou transgressor: quaisquer que sejam os motivos, o uso de uma antitopica ligada aos generos analisados agradou aos poetas da Palatina. Os poemas que seguem tem seu sentido afirmado na inversao da topica anterior, produzindo uma antitopica que elogia o que antes depreciava, que acena para o que antes evitava: tanto a topica da profecia ameacadora quanto a do regozijo com seu cumprimento tinham seu foco dirigido a beleza juvenil, aos atrativos com que ela adorna as cortesas; mas a urgencia com que eles devem ser apreciados, fundada na percepcao da brevidade da vida (o que enlaca estes poemas com a topica do carpe diem e a do convite amoroso), encontrava um obstaculo que vinha com a beleza: a arrogancia.

Invertendo toda essa expectativa, os poemas, porem, exibem a mesma estrutura discursiva (os elementos primarios da composicao de genero): um eu lirico masculino dirige a um tu feminino uma mensagem (o poema em si), com elogio as suas qualidades. A inversao concentra-se nao nos elementos primarios, mas nos secundarios, os lugares-comuns propriamente ditos e a diferenca em relacao aos poemas antes analisados e que a velhice nao representa motivo de repulsa, mas de atracao.

A frequencia com que a antitopica de elogio a cortesas velhas ocorre na Palatina nao deve nos induzir a ideia de que esse elogio constituiu um lugar-comum (outros exemplos dessa antitopica sao os poemas 26 e 48, sem analise aqui). Ele pode ser melhor compreendido, teoricamente, na relacao que estabelece entre as topicas da profecia ameacadora e do regozijo com seu cumprimento, esses sim lugares-comuns. Afinal, ainda que a vereda do elogio a cortesas velhas tenha sido seguida por diferentes poetas e, depois deles, constitua de fato um lugar-comum literario (e nao mais um antilugar-comum), os poetas da Palatina foram os pioneiros no tratamento do tema, como informa Waltz, comentando o caso mais antigo do livro V (Filodemo, sec. II-I a.C.), analisado adiante:

Nos encontramos aqui, pela primeira vez, o desenvolvimento deste tema tao frequente em todas as epocas: os elogios 'a uma bela velha' sao um lugar-comum caro a todas as literaturas. Mas, para os gregos, uma ideia supersticiosa se relacionava a este fenomeno de uma beleza conservada ate uma idade anormal, porque eles viam ai o efeito de um favor excepcional dos deuses (Waltz, 1960, p. 26, nota 2, grifo do autor). (11)

Convertido, posteriormente, em lugar-comum, o elogio a belas velhas principia por ser uma inversao de topica, particularmente se considerarmos que a beleza em idade avancada era entendida como 'anormal' pelos gregos de diversas epocas. Seja para evitar o desgaste da topica tradicional, seja para transgredi-la, seja ainda apenas como mero recurso retorico, a questao e que a composicao desta topica invertida estabeleceu uma nova perspectiva de elogio, seguida por muitos, fato que parece confirmar a qualidade da inversao. Vamos a ela.
   (7) [phrase omitted]

   As tuas rugas, Filina,
   eu prefiro a todo sumo
   da juventude. Desejo
   possuir nas minhas maos

   muito mais estes teus pomos
   pendentes e teus mamilos
   do que aqueles seios hirtos
   com idade juvenil.

   O teu outono supera
   toda e qualquer primavera
   e o teu inverno e mais quente
   do que verao estrangeiro.


O poema acima (Paulo Silenciario, AP 5, 258) apresenta, ja no verso inicial, a qualidade (ja nao defeito) da cortesa Filina de possuir rugas (rhytis, v. 1); o eu lirico, simpatico a isso, prefere (Prokitos, v. 1) tais rugas sem hesitacao, em lugar do sumo (opos, v. 1) que deriva de toda beleza juvenil (hebes pases, v. 1-2), oposicao clara entre uma mulher madura e outra nova. O termo 'rugas' ja compareceu em nossas analises, nos poemas 3 (rhytidas, v. 4) e 4 (rhytides, v. 3), como signo de desapreco: em 3, a mencao a rugas constituia uma ameaca lancada ao futuro e representava o desejo do eu lirico em ver a bela face de Maria tornada odiosa pela velhice; em 4, sua chegada converteu a cortesa Prodice em objeto de repulsa (para deleite do eu lirico): antes desejavel, ela agora se assemelha a um tumulo. Aqui, no entanto, as rugas surgem como superiores as qualidades juvenis e encontram abrigo seguro no desejo do eu lirico.

A depreciar a juventude, o eu lirico segue exaltando a velha Filina: mesmo seus pomos ou seios (mela, v. 3) pendentes (karebareonta, v. 3) e a flacidez de seus mamilos (korymbois, v. 3) nao sao inferiores aos seios rijos (mazon orthion, v. 4) da idade juvenil (helikies, v. 4); eles sao o que mais (mallon, v. 3) o eu lirico deseja (himeiro, v. 2) segurar nas maos (palamais, v. 2). Notemos que ate aqui a oposicao esperada entre velhice e juventude nao se realiza como topica: diferentemente dos poemas vistos anteriormente, em que a velhice so agrega valores depreciativos no contexto erotico, agora, todavia, ela apresenta signos de apreco e os atributos que ela impinge a cortesa nao mais repelem, ao contrario, tornam-na superior a outras mulheres.

Nos versos finais, o poeta arremata sua nova percepcao da beleza feminina com uma metafora (procedimento semelhante ao do poema 4, mas mais proximo ao do 6) ligada as estacoes do ano: ainda que as qualidades da cortesa Filina estejam ligadas ao outono (phthinoporon, v. 5) e ao inverno (kheima, v. 6), trata-se de um outono que supera (hyperteron, v. 5) a primavera (eiaros, v. 5) de qualquer outra (alles, v. 5) cortesa jovem, e de um inverno mais quente (thermoteron, v. 6) do que verao (thereos, v. 6) estrangeiro (allotriou, v. 6).

Apreciada em detalhe, portanto, e com suas qualidades comparadas as estacoes do ano, a velha Filina e exaltada e convertida em objeto de desejo. Percebamos que isso constitui o avesso das expectativas correntes, evidentes nas topicas antes analisadas, em que velhice e mundo erotico nao se conjugam. A inovacao--mais propriamente, a inversao--insuflou novo animo na poesia lirica erotica, pelo inesperado de sua visao. Destaquemos, por fim, que o nome da cortesa, Filina (Philinna, v. 1), derivado de phile ('amada'), de phileo ('amar', 'querer bem'), colabora com sua apreciacao no contexto, ja que ela e 'Querida'.
   (8) [phrase omitted]

   O tempo nao consumiu
   tua beleza. Ao contrario:
   muito ainda se conserva
   da primeira juventude.

   Permanecem joviais
   teus encantos: nao fugiu
   a beleza de tua rosa
   ou de tuas macas risonhas.

   Oh, teu aspecto divino
   a quantos incendiou ...


No poema acima (Rufino, AP 5, 62), falta provavelmente o ultimo verso, o que nao impede, porem, uma leitura bastante completa de suas linhas; recusamos a emenda proposta pelo corretor da Palatina, como Waltz (1960, p. 44), que a apresenta mas nao traduz. O eu lirico, atento a beleza perene da cortesa, enlaca presente com passado e nao procura depreciar a juventude, como no poema anterior: la, as qualidades da velhice (rugas, seios pendentes) eram preferidas aos da idade juvenil, eram mesmo superiores aos de outra epoca. No poema acima, porem, a exaltacao da cortesa leva em conta o fato de que ela permanece jovem para alem da mocidade. Contra a sua beleza (kalos, v. 1), nao teve forca o tempo, pois ela permanece incorrupta (esbesen, v. 1), de modo que muito ainda (eti, v. 1) resta (polla leipsana, v. 1-2) salvaguardado (soizetai, v. 2) de sua primeira juventude (proteres helikies, v. 2). Os encantos (kharites, v. 3) continuam ainda intactos, sem tracos de velhice (ageraioi, v. 3), a beleza (kallos, v. 3) nao fugiu (eksephygen, v. 4) das risonhas macas (hilaron melon, v. 4) e da rosa (rhodou, v. 4) desta cortesa. Este verso e bastante curioso: a mencao a 'macas' (melon, v. 4) pode referir-se as macas do rosto (dai serem risonhas) como pode referir-se aos seios, sentido frequente do termo neste contexto (ele compareceu assim no poema 7, v. 3, por exemplo); quanto ao vocabulo 'rosa' (rhodou, v. 4), ele pode apenas colaborar para a evidencia da vitalidade, do vico da pele que a cortesa ostenta, como pode estar aqui em sentido sexual: o termo designa tanto a flor como a parte pudenda feminina, conforme atestado em dicionario. Ambas as imagens convem ao poema: macas e rosa, como elementos vegetais, relacionam-se ao mundo de Afrodite; por outro lado, seios e vagina aludem igualmente ao seu universo e recortam as qualidades que deve ter uma cortesa, profissional do amor. De qualquer forma, a duplicidade de sentidos colabora com os sentidos eroticos do poema e deve ser considerada.

O verso final apresenta um elogio retrospectivo: em lugar de uma exaltacao ao presente, evidente no vico da cortesa, alude-se ao passado: se ela permanece jovem e bela, afirma o eu lirico, a quantos (possous) a flor de sua beleza (o poema encerra com a palavra anthos, 'flor') de outrora (prin) nao tera incendiado (katephlekse) com seu aspecto divino (theoeikelon). Este ultimo termo, que destaca o aspecto divino da cortesa, embora constitua um pleonasmo regular nos poemas (elogio a qualidades 'divinas' das cortesas sao comuns na AP), pode relacionar-se com aquela ideia defendida por Waltz, de que uma ideia supersticiosa esta ligada a beleza conservada para alem do tempo, favor singular concedido pelos deuses. Assim entendido, o termo 'aspecto divino' (theoeikelon) pode ser lido ao pe da letra e recorta, pois, no caso presente, o apadrinhamento desta cortesa pelos deuses.

Salientemos que, diferentemente do poema anterior, em que a velhice e apreciada em oposicao a juventude, neste ultimo o elogio recorta as qualidades femininas que escaparam do envelhecimento: se elas garantem a beleza no presente, que se podera dizer da beleza do passado, fonte do mais completo ardor para os amantes. Embora nao constitua um elogio a velhice em si, mas a juventude que vence a velhice, o poema confecciona uma antitopica e estabelece uma visao inovadora para uma cortesa idosa.
   (9) [phrase omitted]

   Ja sessenta primaveras
   soma a bela Carito
   mas ainda estao escuros
   os fios de suas melenas.

   E no busto ainda teso
   jaz o marmor dos mamilos
   e seus seios ficam firmes
   mesmo de faixas despidos.

   E a pele, sem ruga alguma,
   destila ambrosia ainda,
   seducao de toda especie
   e miriades de gracas.

   Nao eviteis, oh amantes,
   tais desejos maturados
   --vinde ate ela e esquecei
   as suas dezenas de anos.


O poema acima (Filodemo, AP 5, 13) e o unico dentre os casos coligidos na Palatina a explicitar a idade da cortesa. E o faz sem nenhuma reserva, mas de modo abrupto, pois a idade de Carito abre o poema: sessenta (Heksekonta, v. 1) estacoes do ano (lykabantidas horas, v. 1) foram completadas (telei, v. 1) pela cortesa. Nao obstante, os seus sessenta anos nao excluem uma vasta gama de atrativos: permanecem ainda (eti menei, v. 2) escuros (kyaneon, v. 2) os fios de seus cabelos (syrma plokamon, v. 2), permanecem ainda (eti hesteken, v. 3-4) em seu busto (sternois, v. 3) seios (maston, v. 3) cujas pontas (konia, v. 3) sao rijas como o marmore (lygdina, v. 3); seus seios, mesmo desnudos (gymna, v. 4), nao carecem de faixas (mitres, v. 4) que os sustentem (peridromados, v. 4), pois nao estao pendentes, mas firmes. Assim como os cabelos e os seios, a pele da cortesa e digna de elogios: o eu lirico segue em sua apreciacao de Carito destacando que a cutis (kros, v. 5) nao exibe rugas (arrytidotos, v. 5), o que a torna capaz ainda (et', v. 5) de destilar (stazei, v. 6) um gosto ou um aroma de ambrosia (ambrosien, v. 5) e de seduzir completamente (peitho pasan, v. 5-6) qualquer amante ainda (eti, v. 5), ja que essa pele ostenta ainda (eti, v. 6) inumeraveis (myriadas, v. 6) gracas (khariton, v. 6).

Como se ve, o eu lirico insiste no uso do adverbio 'ainda' (eti), que ocorre cinco vezes no poema. Tal repeticao colabora para a exaltacao da beleza de Carito considerada em relacao a juventude: nao se trata, como vimos no poema 7, de uma exaltacao das novas qualidades adquiridas pela cortesa dentro da idade avancada; o elogio se alinha mais ao poema 8, em que a qualidade da cortesa decorre, nao da velhice, mas da permanencia da juventude fora de epoca, de modo que a velhice em si nao e percebida.

Depois de pontuar as qualidades ainda presentes na sexagesima primavera da cortesa Carito, o eu lirico exorta os amantes (erastai, v. 7) que por acaso ignorem seus atributos a procurar por ela: 'nao eviteis' (me pheuget', v. 5) 'os desejos maturados' (pothous orgontas, v. 5), afirma ele; 'vinde ate ela' (deur'ite, v. 8), uma vez que tais desejos permitem o completo esquecimento (lethomenoi, v. 8) de suas dezenas (dekados, v. 8) de anos (eteon, v. 8). Interessante nesses versos finais a expressao 'desejos maturados': ela sugere a ideia de que existem desejos ainda 'verdes' e que a maturidade e a experiencia de Carito garantem um prazer de intensidade superior ao de jovens cortesas.

Destaquemos, por fim, que o nome da cortesa aparece motivado no poema: Kharito (v. 1) e vocabulo decalcado em kharis ('graca', 'dom'), termo que aparece atribuido a cortesa no verso 6, predicando sua pele (pele que destila miriades de khariton, 'gracas', 'encantos'), alem de comparecer em outros poemas (como em 8, v. 3; em 5, v. 4; em 4, v. 4). Assim, o nome Carito e, por si so, uma alusao a graca (nesse caso, intacta) que ela possui, nome que bem poderia ser traduzido por 'Graca' ou 'Gracilda' em vernaculo. Consideremos ainda que tal nome nao exclui a relacao da cortesa com os deuses, uma vez que o termo Kharis, personificado, evoca as tres Gracas que compoem o cortejo de Afrodite, outra vez relacionando dons femininos e favores divinos...

Consideracoes finais

Neste artigo, o leitor pode conhecer um pouco dos recursos literarios disponiveis ao poeta antigo. Alinhada a expectativa dos seus ouvintes ou leitores, espera-se que o poeta faca uso de um conjunto de 'tijolos' tradicionais--os topoi ou lugares-comuns--a fim de enquadrar seus versos em certo (sub)genero poetico. A qualidade do poema decorre do jogo bem realizado com tais convencoes. Nos casos analisados, vimos a visita a lugares-comuns bem conhecidos (topica da profecia ameacadora e regozijo com seu cumprimento), mas particularmente a inversao dessa topica tradicional (topica da panela velha, comida boa): se as duas primeiras prescrevem a recusa, a censura e o desapreco por mulheres velhas em contexto erotico, esta ultima representa uma novidade fomentada pela lirica antiga. Destaquemos que um dos poemas (numero 7) foi capaz de apreciar a velhice por si mesma, vendo rugas e flacidez como um atributo superior, ao passo que os outros (8 e 9) apreciaram a juventude conservada na velhice. De qualquer forma, a qualidade dessa inversao talvez deva ser medida em funcao de sua eleicao a lugar-comum, ja que as consequencias foram a cristalizacao de uma nova visao erotica da velhice. Arrematemos com um ultimo poema, em que o eu lirico nao teme se aproximar de uma cortesa velha; o poema (Anonimo, AP 5, 304) pode ser circunscrito a topica da panela velha, comida boa e faz uso das fases da uva metaforicamente:
   (10) [phrase omitted]

   Verde, tu nao consentiste;
   madura, me repeliste.
   Ao menos nao me recuses
   agora que es uva passa.


Doi: 10.4025/actascilangcult.v41i1.42394

Received on April 17, 2018.

Accepted on September 13, 2018

Referencias

Achcar, F. (1994). Lirica e lugar-comum: alguns temas de Horacio e sua presenca em portugues. Sao Paulo, SP: Unesp.

Cairns, F. (1972). Generic composition in Greek and Roman Poetry. Edinburgh, GB: Edinburgh University Press.

Escobar, A. (2000). Hacia una definicion linguistica del topico literario. Myrtia, 15, 123-160.

Paes, J. P. (1990). Traducao: a ponte necessaria: aspectos e problemas da arte de traduzir. Sao Paulo, SP: Atica.

Paton, W. R. (1999). The Greek anthology. Books I-VI (Vol. 1, William Roger Paton, trad.). Cambridge, GB: Harvard University Press.

Rieu, E. V. (2013). Iliada (Frederico Lourenco, trad.). Sao Paulo, SP: Penguin Classics Companhia das Letras.

Vasconcellos, P. S. (2007). Reflexoes sobre a nocao de 'arte alusiva' e intertextualidade no estudo da poesia latina. Classica, 20(2), 239-260. doi: 10.24277/classica.v20i2.147

Waltz, P. (1960). Anthologie grecque. Tome II: anthologie palatine, livre V (Pierre Waltz & Jean Guillon, trad.). Paris, FR: Les Belles Lettres.

[Please note: Some non-Latin characters were omitted from this article.]

Luiz Carlos Andre Mangia Silva

Universidade Estadual de Maringa, Avenida Colombo, 5790, 87020-900, Maringa, Parana, Brasil. E-mail: lcamsilva@uem.br

(1) As ideias deste artigo foram apresentadas na forma de palestra em evento cientifico na Universidade Estadual de Maringa em 2017.

(2) "[...] a set of primary or logically necessary elements which in combination distinguish that genre from every other genre."

(3) "[...] a common body of knowledge and expectation."

(4) "[...] existence in antiquity of very many formulae of subject-matter that were passed down from one generation to another [...]".

(5) "[...] help, in combination with the primary elements, to identify a generic example."

(6) "The genre is commonly used when the speaker is in love with the addressee and when the speaker is uncomfortable because the addressee will not yield to his passion."_

(7) As traducoes do grego sao de nossa responsabilidade e se embasam nas ideias teoricas de Paes (1990); a edicao para os textos originais e a de Paton (1999), sempre cotejada com a de Waltz (1960); a citacao dos termos gregos leva em conta sua posicao nos textos gregos, nao na traducao. Sao nossas ainda as traducoes de todos os textos estrangeiros citados, salvo indicacao em contrario.

(8) "[...] el topico se distingue a menudo--ideal seria poder decir 'siempre'--por su possible realizacion inversa, o, mejor dicho, por sus possibles realizaciones inversas, en funcion de la mayor o menor complejidad significativa de los elementos que, como caras de un poliedro, lo constituyen [...]".

(9) "Pero el verdadero topico admite, a su vez, una possible inversion. [...] Tal inversion es menos frecuente, pero--a causa precisamente de su relativa infrecuencia o inverosimilitud- mas rica desde el punto de vista literario."

(10) "Las causas concretas de la inversion pueden ser muy variadas. Puede deberse a la mera saturacion que produce el empleo reiterado de determinados topicos, la cual conduce a su aplicacion antifrastica o satirico-parodica; en otros casos interviene la voluntad deliberada de praticar un uso sesgado o transgresor."

(11) "Nous rencontrons ici, pour la premiere fois, le developpement de ce theme si frequent a toutes les epoques : les compliments 'a une belle vieille' sont un lieu commun cher a toutes les litteratures. Mais, pour les Grecs, une idee superstitieuse s'attachait a ce phenomene d'une beaute conservee jusqu'a un age anormal, parce qu'ils y voyaient l'effet d'une faveur exceptionnelle des dieux."
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Title Annotation:LITERATURE/LITERATURA
Author:Silva, Luiz Carlos Andre Mangia
Publication:Acta Scientiarum. Language and Culture (UEM)
Date:Jan 1, 2019
Words:8293
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