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Claude Moussy (dir.), Espace et temps en latin.

CLAUDE MOUSSY (dir.), Espace et temps en latin. Paris, Presses de l'Universite Paris-Sorbonne, 2011 (Centre Alfred Ernout, Lingua Latina, 13). 248 + [4] pp. ISBN 978-2-84050-699-7

Este volume, coordenado por Claude Moussy, reune um conjunto de estudos sobre o espaco e o tempo em latim, agrupados em duas seccoes, ilustrando todos eles a profunda interligacao destes dois dominios, ja sugerida por Varrao em De lingua latina V, 10. A primeira seccao, mais extensa, e de carater exclusivamente linguistico ("Lexicologie et semantique"--pp. 7-154), enquanto a segunda ("Litterature et civilisation"--pp. 155-230) toca em varias disciplinas alem da literatura, como a religiao, a astronomia e o direito. Diga-se desde ja que estamos perante analises de grande qualidade, servidas por uma linguagem de rigor e apoiadas em esclarecedora exemplifi cacao.

O estudo que abre a primeira seccao ("L' espace, le temps, le mouvement et l'aspect. Perspectives sur leur organization linguistique") e bem o exemplo da subtileza de analise que perpassa neste conjunto de trabalhos. Nele, Benjamin Garcia-Hernandez evidencia a estreita relacao dos conceitos aspeto, movimento, espaco e tempo e como essa relacao se reflete na organizacao linguistica, com paralelismos e interferencias mutuas. O rigor metodologico da exposicao ilustra, de forma clara, experiencias dos sujeitos-falantes que espelham tais interferencias e que explicam certas evolucoes da lingua, como e o caso do significado de habere de "ter" para "existir", patente, em portugues, no verbo haver.

A perspetiva da historia da lingua, comum a muitos estudos desta seccao, avulta de forma especial no estudo bem circunscrito de Anna Orlandini e de Paolo Pocceti ("La reference spatio-temporelle et metalinguistique des verbes de mouvement en latin et leurs evolutions romanes"). Merecem aqui atencao varias derivas semanticas, com realce para as que resultam da perda dos valores espacio-temporais e a subsequente afirmacao dos de natureza metaforica, derivas essas ilustradas, de forma muito pertinente e viva, em formulas coloquiais cujo uso podemos verificar nao apenas atualmente nas linguas romanicas (it. via, va bene; esp. vale! Venga, venga!, pt. va la\), mas ja na linguagem da comedia latina, de que o uso da forma imperativa abi e, porventura, o exemplo mais flagrante.

Jean-Francois Thomas ("Problemes de polysemie et de synonymie dans la lexicalisation de lespace et du temps en latin"--pp. 47-60) baseia-se num conjunto de termos (longus, breuis, spatium, cursus, casus, occasio, opportunus, etc.) para comprovar a estreita relacao existente entre os dominios espacial e temporal, patente em derivas que ocorrem nos dois sentidos.

Alessandra Bertochi e Mirka Maraldi ("Les adverbes de repetition rursus, iterum, denuo") dao conta dos problemas de interpretacao eventualmente ligados aos adverbios latinos de repeticao rursus, iterum e denuo, isolando o que consideram ser a singularidade semantica de cada um deles, com base na respetiva matriz etimologica.

O estudo de Antonio Maria Martin Rodriguez ("Les lacunes lexicales dans le vocabulaire latin denotant l'espace et le temps") constitui em si mesmo uma boa amostra do que se poderia fazer, em muitos mais casos e de forma mais aprofundada, na lingua latina, partindo de metodologias analiticas propostas pela linguistica moderna. Inspirado na ideia saussuriana de que todas as linguas tem lacunas (ou seja, combinacoes de tracos distintivos por realizar, previstas no sistema da lingua), o A. ilustra dois exemplos significativos de lacunas no lexico latino. O primeiro, no dominio do espaco, ligado a polissemia do preverbio sub (com valor alativo e locativo); o segundo, no dominio do tempo, ligado aos tres termos que em latim designam a concecao sequencial do tempo: ontem, hoje, amanha (heri, hodie, eras). Recorrendo primeiro a atualidade, com exemplos de criacao de lexico em varios dominios (o das telecomunicacoes e um deles, com termos como telefone, telemovel, movel), Antonio Rodriguez sugere bem, em quadros comparativos do frances e do espanhol, o que se passou nos dois casos atras referidos de lacunas lexicais em latim, onde o recurso a perifrase avulta como o expediente usado para obviar a tais ausencias do sistema.

Claude Moussy ocupa-se da continuidade no espaco e no tempo, estudando o uso dos adjetivos eontinuus, perpetuus e iugis, em ordem a mostrar em que medida eles entraram em concorrencia simultaneamente no dominio espacial e temporal, nao sem antes estabelecer o valor original de cada um, atraves da respetiva etimologia.

O trabalho de Lyliane Sznajder, que se debruca sobre a expressao da longa duracao e da eternidade na Vulgata, alem da delimitacao clara do objeto da pesquisa, revela grande merito na estruturacao pertinente do seu conteudo. A A. detem-se nos termos aeternus, sempiternus, aeuum, aeternitas, saeeulum e generatio, distinguindo neles casos de continuidade de uso, de reducao ou ampliacao de sentido ou, como sucede com generatio, de transferencia de sentido. Alem de sublinhar os duplos decalques semanticos subjacentes a esta renovacao lexical (do hebraico para o grego e do grego para latim), Lyliane Sznajder distingue ainda entre o latim das velhas traducoes da Biblia e o da Vulgata de

S. Jeronimo.

Pedro Duarte centra o seu estudo no termo subdiu, pouco representado no lexico latino, e que, pela concorrencia que lhe fazem as expressoes sub dio e sub diuo, apresenta um semantismo dificil de precisar. O uso tecnico que adquiriu em arquitetura para qualificar um templo a ceu aberto, como testemunha Vitruvio no seu tratado, nao era o original. Atraves duma abordagem morfossintatica e semantica, tendo em conta as suas ocorrencias textuais em autores de varias epocas e dominios (Catao, Lucrecio, Virgilio, Plinio-o-Velho e Columela) e comentarios de gramaticos como Varrao, pseudo-Capro, Festo e pseudo-Asconio, Pedro Duarte aprecia a verdadeira motivacao da presenca deste termo no lexico latino.

Com o seu estudo ("La confusion entre les prepositions ab e ad a valeur local chez Gregoire de Tours") Maryse Gayno remete-nos para um periodo critico na evolucao da lingua latina, em pleno sec. VI, eivado de confusoes associadas a dissolucao dos casos, com a homofonia reinante nos finais das palavras e o recurso, como alternativa clarificadora, as preposicoes, cada vez mais desprovidas de valor semantico e convertidas em meros utensilios funcionais. A explicacao da confusao entre as preposicoes ab e ad e dada aqui a partir da construcao, em latim tardio, dos verbos que significavam "pedir" e "dizer".

A abrir a segunda parte deste volume, Jacqueline Champeaux ("Les lieux de culte a Rome: ara, templum, aedes"), apoiada em informacoes colhidas em Varrao e Festo, da-nos uma visao interpretativa da religiao romana, tecendo consideracoes em torno dos termos ara, templum e aedes. A A. tenta chegar ao sentido de cada um destes termos baseando-se nas suas ocorrencias textuais e nas etimologias dos gramaticos latinos, apurando o seu significado religioso bem como as implicacoes teologicas decorrentes.

O estudo de Wolfgang Hubner ("L'annee scandee par les constellations extrazodiacales") e de leitura aliciante. Tomando por guia os Astronomiea de Manilio, o A. ilustra os processos metaforicos alusivos as diversas constelacoes e aos momentos-chave de cada ciclo anual, a saber, os solsticios e os equinocios.

Danielle Porte ("Du quotidien au cosmique: la Conception romaine du temps") oferece, num estilo fluente e atrativo, uma interessante reflexao sobre a vivencia do tempo pelos Romanos. Sao destacados nas instituicoes romanas aspetos que singularizam tal vivencia, como o esforco tendente a regular o tempo, visivel na atividade dos pontifices determinando o fas e o nefas, a forma pragmatica de encarar a vida (ou melhor, a sobrevivencia) apos a morte, patente nas licoes dos epitafios, ou, enfim, a memoria constante do passado, atraves do mos maiorum, apresentada aqui nao como forma de hipotecar o presente, mas de o reativar.

Etienne Wolf ("Martial entre l'Espagne et Rome") estuda os termos ou expressoes que na obra de Marcial denotam, por um lado, Bilbilis e, por outro, Roma, em ordem a isolar as duas identidades, a hispanica e a romana, alojadas na mente dum poeta que, nao podendo estar simultaneamente nos dois sitios, em nenhum deles conseguiria mostrar-se razoavelmente satisfeito.

Annick Stoher-Monjou realca, no seu estudo sobre a expressao do espaco e do tempo em Draconcio, poeta cristao de finais do sec. V mas com obras tambem marcadamente profanas, a existencia duma verdadeira unidade de pensamento entre estas ultimas obras e as de cunho cristao. Draconcio cristianizara o tempo ciclico, apresentando as suas manifestacoes como prefiguracoes do misterio da ressurreicao.

O ultimo estudo, de Michele Ducos, e consagrado ao tempo dos juristas ("L' expression du temps et son interpretation chez les juristes romains"). O tempo juridico e, aqui, o tempo humano, dividido e fracionado, com pontos de referencia precisos, em ordem a garantir no maior grau a justica e a equidade. A A. faz ver como esta preocupacao, propria do direito, do cumprimento de prazos estabelecidos com rigor, esta na base de todo um vocabulario tecnico de termos e expressoes.

E inegavel a excelencia da investigacao de que dao prova, sucessivamente, as paginas do presente volume, igualmente interessante no aspeto da sua concecao grafica. Contudo, parece impor-se um reparo e ele tem a ver com um certo anonimato que, em geral, rodeia os autores destes preciosos trabalhos. Com excecao de um caso, nao temos sobre os demais informacao das instituicoes onde lecionam e (ou) desenvolvem a sua investigacao.
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Author:De Sousa Barbosa, Manuel Jose
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2014
Words:1501
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