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Circulo de Bakhtin: teoria inclassificavel.

PAULA, L. de; STAFUZZA, G. (Org.). Circulo de Bakhtin: teoria inclassificavel. Campinas: Mercado de Letras, 2010. 447 p. (Bakhtin: Inclassificavel, v.1).

O pensamento do russo Mikhail Bakhtin repercute intensamente nas universidades brasileiras em areas do conhecimento como a Linguistica, Educacao, Psicologia, Sociologia, Filosofia, Teoria Literaria e em muitos outros campos de investigacao. Bakhtin figura como um nome popular entre professores do ensino fundamental e medio, por exemplo, aqueles que tem interesse na sua teoria dos generos do discurso voltada para as atividades didaticas.

A referencia aos nomes de Voloshinov e Medvedev, no entanto, ainda causa estranheza entre os leitores de Bakhtin que insistem em considerar Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do metodo sociologico na ciencia da linguagem (1929), O Freudismo: um esboco critico (1927) e O metodo formal nos estudos literarios: introducao critica a uma poetica sociologica (1926) como obras escritas por Bakhtin. Nas duas ultimas decadas do seculo XX, estudiosos de diversas nacionalidades buscaram esclarecer a questao da autoria e partiram em busca de muitos documentos (dados de arquivo, memorias, cartas dos correspondentes de Bakhtin, etc.) a fim de mostrar que os dois primeiros livros foram originalmente publicados sob o nome de Valentin N. Voloshinov e o ultimo, sob o de Pavel N. Medvedev, portanto pessoas reais e nao meros pseudonimos. Em 1999, essa questao ganhou a preocupacao dos participantes da Bakhtin Conference realizada na Universidade de Sheffield, Gra-Bretanha, com o tema"Na ausencia do mestre: o circulo desconhecido de Bakhtin". Em 2008, o encerramento da 13th International Mikhail Bakhtin Conference na Universidade de Western Ontario, London, no Canada, contou com uma conferencia de Iurii Medvedev, filho de R Medvedev, intitulada "A polifonia do Circulo". Como se pode notar, esse debate continua aberto.

A serie Bakhtin: inclassificavel, organizada pelas professoras Luciane de Paula e Grenissa Stafuzza, coloca-se na mesma direcao de propor estudos significativos em torno de Bakhtin e o Circulo. A colecao, prevista em quatro volumes, ja sinaliza, nos titulos, as instigantes discussoes a serem oferecidas: Circulo de Bakhtin: dialogos (in) possiveis (numero 2); Circulo de Bakhtin: pensamento interacional (numero 3); Circulo de Bakhtin: concepcoes em construcao (numero 4). As pesquisadoras preferem apresentar a teoria do "Circulo de Bakhtin" como "inclassificavel", ou seja, como algo que nao pode ser sistematizado, e os artigos assumem multiplas perspectivas em tomo da teoria do Circulo, apresentando as tensas relacoes dialogicas sem enquadrar esse pensamento em regras, categorias ou definicoes a priori.

Trazer a teoria de Bakhtin associada ao adjetivo "inclassificavel", no entanto, pode provocar urna compreensao bem diversa da prevista pelas organizadoras que foram buscar inspiracao na cancao "Inclassificaveis", do poeta Amaldo Antunes (1996), em que ele canta a mistura de culturas. Esse termo pode sugerir que a teoria bakhtiniana e "absolutamente fugidia", "assistematica", "inapreensivel", como alertou Sobral (PAULA; STAFUZZA, 2010, p.54) no inicio do seu artigo. Tal designacao exige atencao dos leitores, uma vez que nao se trata de um vale tudo conceitual, e preciso notar, por exemplo, que o conceito bakhtiniano de genero do discurso nao e o mesmo que o de generos de texto ou textuais na perspectiva de Jean-Paul Bronckart (1997) ou de Jean-Michel Adam (1999); tambem o conceito de "discurso" e diverso da abordagem francesa segundo Michel Pecheux, ou Dominique Maingueneau ou Michel Foucault. E preciso salientar tambem que ha uma densa e rica teoria da filosofia da linguagem produzida pelo Circulo bakhtiniano durante o inicio do seculo XX numa Russia sovietica (URSS), de modo que nao se caia na tentacao de atribuir rotulos a Bakhtin, mesmo com a finalidade de valorizar seu pensamento.

Circulo de Bakhtin: teoria inclassificavel e o primeiro volume da serie que foi publicado em junho de 2010. Organizado em duas partes, contem onze artigos ineditos, escritos por renomados pesquisadores brasileiros e estrangeiros; na segunda parte, os textos aparecem em suas linguas originais; coube a Adail Sobral a traducao do italiano e a Luciane de Paula, a traducao do artigo em frances.

O prefacio (PAULA; STAFUZZA, 2010, p.13-30) do livro, escrito pelas organizadoras, traz uma breve contextualizacao da Russia stalinista, quando Bakhtin e o Circulo participaram ativamente da vida intelectual no pais. Em seguida, recuperam a recepcao das obras no Ocidente, comecando na Franca, em 1970, com a traducao feita por Julia Kristeva de Problemas da poetica de Dostoiveski. Na decada seguinte (1981), Tzvetan Todorov publicou Le principe dialogique suivi de Ecrits du Cercle de Bakthine, divulgando alguns textos de Voloshinov ("As fronteiras entre poetica e linguistica"; "A estrutura do enunciado") e de Bakhtin (Ressurreicao, prefacio ao romance de Tolstoi). Naquele mesmo ano, saiu, nos Estados Unidos, a traducao The dialogic Imagination. four essays by M. M. Bakhtin, organizada por Michael Holquist; no Brasil, Marxismo e filosofia da linguagem teve sua primeira traducao a partir da edicao francesa em 1979, trazendo o nome de Volochinov (entre parenteses) na capa. De Paula e Stafuzza lembram que os varios estudos norte-americanos das decadas de 198090 tambem tiveram importancia decisiva para o conhecimento dos conceitos bakhtinianos como as primeiras biografias de Clark e Holquist (Mikhail Bakhtin, 1984) e Morson e Emerson (Mikhail Bakhtin: creations ofa prosaics, 1990). Foi o inicio dos debates em torno das relacoes entre o pensamento de Bakhtin e o Circulo e o dialogo com os conceitos de Roman Jakobson, Karl Marx, Ferdinand de Saussure, Ernst Cassirer, Immanuel Kant entre outros. As organizadoras assinalam que, a partir da decada de 1980, as pesquisas bakhtinianas comecaram ase intensificar no Brasil, embora permanecam sem traducao para o portugues a obra de Medvedev, intitulada O metodo formal nos estudes literarios, varios ensaios de Voloshinov e de Bakhtin.

A sequencia dos artigos seguiu o eixo tematico de modo que abrem e fecham o livro os textos dos pesquisadores italianos que recuperam a discussao do termo "inclassificavel" no titulo. No primeiro artigo "Uma leitura inclassificavel de uma escritura inclassificavel: a abordagem bakhtiniana da literatura", Petrilli focaliza a contribuicao dos estudos de Bakhtin na maneira de se abordar a escritura literaria, ultrapassando os limites das disciplinas teoricas da literatura. O enfoque bakhtiniano explorado e o de um texto responsivo, isto e, o que responde ao mundo "da vida vivida". Para a estudiosa italiana, a teoria bakhtiniana busca ampliar as fronteiras culturais e nao se limita a uma unica ciencia humana, apresentando uma metodologia para isso: "por em relacao campos e objetos de estudo, ainda que distantes, mediante um processo de deslocamento e de abertura, em vez de incorporacao e fechamento" (PAULA; STAFUZZA, 2010, p.39). No artigo de encerramento "O pensamento dialogico de Bakhtin e de seu Circulo como Inclassificavel", Augusto Ponzio tambem recupera a discussao da escritura literaria, indicando o aspecto dialogico da linguagem. Os dois autores insistem que nao ha uma teoria pronta a ser aplicada na analise do objeto literario e apresentam a teoria bakhtiniana com intenso dialogo com a Epistemologia, a Fenomenologia, a Critica literaria, a Semiotica, mostrando o quanto a filosofia da linguagem e o cerne do pensamento do Circulo de Bakhtin.

Nos nove ensaios que se seguem, os temas aprofundados sao os de estetica, autoria do Circulo de Bakhtin, estilistica discursiva, ideologia, cronotopo, genero do discurso, enunciado, a questao do sujeito. A leitura dos textos permite que o leitor tome suas decisoes, porque cada um oferece informacoes sobre o Circulo de Bakhtin e abordam varios conceitos, muitas vezes, de diferentes pontos de vista.

Em "A estetica em Bakhtin (literatura, poetica e estetica)", Adail Sobral, professor da Universidade Catolica de Pelotas, RS, recupera o projeto enunciativo estetico em obras do Circulo que tratam "do trabalho de integracao de forma, conteudo, e material" (PAULA; STAFUZZA, 2010, p.79) da obra poetica como discurso sociologico dentro de uma concepcao etica e filosofica. Em "Auctoridade e tomar-se autor: nas origens da obra do Circulo B.M.V.", Benedicte Vauthier, da Universidade Francois Rabelais, em Tours, discute com profundidade o tema do Circulo de Bakhtin, apresentando um extenso levantamento bibliografico feito nos Arquivos de Bakhtin, o que lhe permite enfrentar as muitas acusacoes feitas a Bakhtin, como o de plagiador. Esse ensaio e importante para o leitor que nao tem acesso aos textos russos e deseja entender a disputa da autoria das obras do Circulo.

No artigo "Bakhtin: contribuicoes para uma estilistica discursiva", Norma Discini, professora da Universidade de Sao Paulo, discute o conceito de estilo numa perspectiva discursiva, trazendo a analise de textos verbais e verbo-visuais como uma tira jornalistica e um texto publicitario. Em "O nascimento do Formalismo: Bakhtin", Edward Lopes e Helenice Braghetto Trigo Lopes indagam se nao ha exagero em chamar "um grupo de 'tres ou quatro interessados' em Circulo" (PAULA; STAFUZZA, 2010, p.165). Apresentam varias informacoes sobre os membros do Circulo Linguistico de Moscou, com quem Bakhtin tanto dialogou e os autores situam a batalha politica que envolveu os estudos linguisticos depois da Revolucao bolchevista. No final do artigo, os autores terminam com uma afirmacao polemica: "Bakhtin comecou como formalista" (PAULA; STAFUZZA, 2010, p. 173). Desde seus primeiros textos, Bakhtin discutiu com muitos dos teoricos do Formalismo Russo, em muitos momentos, questionando seus principios.

Gilberto Castro, pesquisador da Universidade Federal do Parana, em "O marxismo e a ideologia em Bakhtin", apresenta a relacao dos autores do Circulo e o pensamento marxista. Parte dos conceitos marxistas de superestrutura ideologica, infra-estrutura economica, luta de classes, dialetica, sintese dialetica, classe dominante e analisa cuidadosamente a existencia de uma unidade de trabalho desses conceitos presentes no conjunto da obra de Bakhtin e o Circulo.

Em "A questao espacotemporal em Bakhtin: cronotopia e exotopia", Irene Machado, pesquisadora da Universidade de Sao Paulo, traca como linha norteadora a discussao em torno do tempo dialogico. Para isso, analisa a arquitetonica do cronotopo a partir da narrativa que configura modos de vida em contextos particulares de temporalidades. A estudiosa explica que "[...] o tempo, para Bakhtin, toma-se pluralidade de visoes de mundo tanto na experiencia como na criacao, manifesta-se como um conjunto de simultaneidades que nao sao instantes, mas acontecimentos no complexo de seus desdobramentos." (PAULA; STAFUZZA, 2010, p.215).

Rosineide de Melo, professora da'Fundacao Santo Andre, em "O discurso como reflexo e refracao e suas forcas centrifugas e centripetas", analisa dois documentos oficiais, Boletim de Ocorrencia e um Termo Circunstaciado, coletados na Delegacia de Policia de Defesa da Mulher. A autora discute os conceitos de discurso, enunciado, enunciacao, texto, palavra, signo, procurando definir o conceito de "discurso". Renata Marchezan, pesquisadora da UNESP de Araraquara, apresenta o capitulo "Generos do discurso: o caso dos artigos de opiniao", em que analisa artigos publicados no jornal Folha de S. Paulo entre 2007 e 2008, com tema dedicado a politica brasileira, buscando recuperar a tensao entre a voz autoral e a politica.

O ensaio "Sobre a questao do sujeito", de Joao Wanderley Geraldi, professor e pesquisador da UNICAMP, e um-testemunho de leitor apaixonado dos textos de Bakhtin. De maneira quase didatica, o autor recupera os varios sujeitos bakhtinianos a partir dos primeiros ensaios do autor russo, em especial, "A filosofia do ato responsavel": reflete sobre "o sujeito responsavel", "sujeito incompleto", "inconcluso", "insoluvel", "datado", e conclui com "o sujeito fora do comando", aquele que esta junto com a historia dos outros. Bakhtin explica: "A vida conhece dois centros de valor que sao fundamental e essencialmente diferentes, embora correlacionados um com o outro: eu e outro." (PAULA; STAFUZZA, 2010, p.292).

O leitor / estudioso / interessado nos estudos de Bakhtin e o Circulo tem a disposicao uma obra que pode ajuda-lo a andar pelas veredas de muitos conceitos centrais como enunciado, genero do discurso, sujeito, cronotopo, plurilinguismo, ideologia, etc. Em formato bem cuidado, a obra apresenta uma excelente organizacao interna, contando com uma boa traducao dos trabalhos. Um livro dessa qualidade mereceria uma revisao cuidadosa, porque apresenta alguns problemas que poderiam ser evitados. No prefacio, imprecisoes em duas notas de rodape: na pagina 14, o titulo da obra de Todorov e Mikhail Bakhtine, le principe dialogique suivi de Ecrits du Cercle de Bakhtine e nao como esta indicado: Ecrits du Cercle de Bakhtine; na nota 9 (PAULA; STAFUZZA, 2010, p. 15), afirma-se que ja existe uma traducao para o portugues do importante ensaio de Voloshinov "Discurso na vida e discurso na arte (sobre poetica sociologica)", publicado na obra Bakhtin e o Circulo, organizada pela pesquisadora Beth Brait. Na edicao mencionada, contudo, ha um excelente artigo da tradutora russa Tatiana Bubnova em tomo do texto, mas nao e a traducao do ensaio. O texto em portugues que circula e a traducao feita por Carlos Alberto Faraco e Cristovao Tezza para uso didatico, sem publicacao por editora. Ainda algumas citacoes em varios artigos merecem revisoes numa proxima edicao.

A leitura do livro Circulo de Bakhtin:teoria inclassificavel, organizado por Paula e Stafuzza e indispensavel a todos que desejam compreender os tensos caminhos da recepcao do Circulo de Bakhtin, seus impasses e avancos, acompanhar as argumentacoes desenvolvidas sobre a escritura das obras do Circulo. Vale a pena conferir as diferentes abordagens que os conceitos bakhtinianos ganham nas lentes dos pesquisadores que participaram desta coletanea. Estudos em tomo do "mais importante pensador sovietico no campo de ciencias humanas e o maior teorico da literatura no seculo XX", conforme afirma Todorov (1981, p.7), sao fundamentais para o publico brasileiro que tem acesso, a conta-gotas, a obra de Bakhtin e o Circulo.

REFERENCIAS

ADAM, J. M. Linguistique textuelle: des genres de discours aux textes. Paris: Nathan, 1999.

ANTUNES,A. Inclassificaveis. Interprete: Amaldo Antunes. In:--. O silencio. Sao Paulo: BMG Ariola/RCA, 1996. 1 CD. Faixa 6.

BRONCKART, J. P. Atividade de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo sociodiscursivo. Sao Paulo: Educ, 1999.

TODOROV, T. Mikhail Bakhtine: le principe dialogique, suivi de ecrits du Cercle Bakhtine. Paris: Seuil, 1981.

Recebido em setembro de 2010.

Aprovado em novembro de 2010.

Maria Ines Batista CAMPOS, USP--Universidade de Sao Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas--Departamento de Letras Classicas e Vemaculas. Sao Paulo--SP--Brasil. 05508-900--maricamp@usp.br
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Author:Campos, Maria Ines Batista
Publication:Alfa: Revista de Linguistica
Date:Jan 1, 2011
Words:2594
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