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Chronic poisoning by Amaranthus spinosus in cattle in the semiarid region of Paraiba, Brazil/Intoxicacao cronica por Amaranthus spinosus em bovino no semiarido paraibano.

NOTA

As plantas do genero Amaranthus, da familia Amaranthaceae, sao constituidas por aproximadamente 75 especies, 60 delas originarias das Americas. Sao plantas invasoras de lavouras, desenvolvendo-se em terrenos ferteis (FERREIRA et al., 1991). Nao ha informacoes na literatura sobre a distribuicao geografica das diferentes especies de Amaranthus na regiao semiarida do nordeste Brasileiro, mas diversas especies, conhecidas popularmente como bredo ou bredo de porco, sao encontradas nessa regiao, principalmente como invasoras de lavouras e terrenos abandonados. A ingestao da planta pode ocasionar intoxicacoes caraterizadas por nefrose tubular toxica.

No Brasil, em bovinos, foram descritos casos de nefrose tubular toxica devido a ingestao de Amaranthus hybridus, Amaranthus blitum (FERREIRA et al., 1991) e Amaranthus spinosus (LEMOS et al., 1993) no Rio Grande do Sul. A intoxicacao foi descrita em ovinos por A. spinosus no Rio de Janeiro (PEIXOTO et al., 2003) e em suinos por Amaranthus quitensis (SALLES et al., 1991) e Amaranthus viridis (KOMMERS et al., 1996) no Rio Grande do Sul. A planta e palatavel para ruminantes e apresenta toxicidade durante a fase de frutificacao. A dose toxica e aparentemente alta, de 340 a 500g [kg.sup.-1] aproximadamente, mas a planta perde rapidamente a toxicidade apos ser cortada (FERREIRA et al., 1991).

Os sinais clinicos da intoxicacao sao depressao, anorexia, emagrecimento, secrecao nasal serossanguinolenta, hipomotilidade ruminal, diarreia fetida e escura, edema submandibular, que pode atingir a regiao da barbela e posterior da coxa, polidipsia e decubito prolongado. A morte ocorre de 3 a 10 dias apos a observacao dos primeiros sinais (FERREIRA et al., 1991; LEMOS et al., 1993). Os relatos no Brasil, alem de serem todos descritos nas regioes Sul e Sudeste, se referem a casos de intoxicacao subaguda, nao havendo registro de aspectos epidemiologicos, clinicos e patologicos de casos de intoxicacao cronica. O objetivo deste trabalho e relatar um caso de intoxicacao cronica por A. spinosus em bovino no estado da Paraiba.

Os dados foram obtidos durante atendimento clinico de um bovino, femea, mestica de Holandes, com quatro anos de idade, encaminhado ao Hospital Veterinario (HV) da Universidade Federal de Campina Grande, Campus de Patos. Realizou-se exame fisico e coleta de amostras de sangue e urina para analises laboratoriais. Para complementacao dos dados epidemiologicos, foi realizada visita a propriedade de origem.

Na anamnese, o proprietario informou que ha quinze dias o animal apresentava aumento de volume submandibular e diarreia. Ao exame fisico, foi observado escore corporal de grau 2, apatia, hiporexia, aumento dos linfonodos parotideos e cervicais superficiais, edema submandibular e de barbela (Figura 1A), secrecao nasal catarral, hipofonese cardiaca, ingurgitamento da jugular e diarreia de odor fetido.

Os exames laboratoriais revelaram: hematocrito 23% [valor de referencia (VR): 24-26% (RADOSTITS et al., 2007)]; proteina total 4,9g [dl.sup.-1] (VR: 5,7 a 8,1g [dl.sup.-1]); albumina 0,74g [dl.sup.-1] (VR: 2,1 a 3,6g [dl.sup.-1]); ureia 86mg/dl (VR: 42,8 a 64,2mg [dl.sup.-1]) e creatmina 2,3mg [dl.sup.-1] (VR: 1,0 a 2,0mg [dl.sup.-1]). Em quatro exames realizados posteriormente, observou-se que os niveis de ureia permaneceram altos e os niveis de creatinina foram normalizados. Na urinalise, observou-se urina ligeiramente turva, proteinuria, presenca de sangue oculto, celulas epiteliais escamosas, celulas epiteliais tubulares, cilindros celulares e cilindros leucocitarios.

Na visita a propriedade, localizada no Municipio de Matureia, Paraiba, verificou-se que os quatro bovinos do rebanho tinham acesso a uma area de pasto nativo invadido por A. spinosus (Figura 1B e C) e havia um piquete de aproximadamente 50[m.sup.2] composto na quase totalidade pela planta, em estado de frutificacao, que era utilizado como reserva de forragem. Os animais tinham acesso em forma intermitente ao piquete invadido pela planta, mas o proprietario nao soube informar o tempo de permanencia dos animais no local.

O animal permaneceu 17 dias no HV, totalizando 32 dias de evolucao clinica e, devido ao agravamento do quadro clinico, foi eutanasiado e necropsiado. Fragmentos de orgaos foram coletados e processados rotineiramente para exame histopatologico e corados por Hematoxilina e Eosina (HE). Fragmentos dos rins foram selecionados e corados pelo Tricomico de Masson e pelo Acido Periodico de Schiff (PAS). Macroscopicamente observou-se edema do tecido subcutaneo na regiao ventral da barbela. Na cavidade toracica, havia aproximadamente 23 litros de liquido translucido (hidrotorax), sendo tambem observado ascite e hidropericardio. Havia tambem edema na regiao perirrenal, na parede do abomaso e no mesenterio. Os rins estavam difusamente palidos, levemente aumentados de volume (Figura 1D) e, ao corte, apresentavam palidez da superficie cortical e medular. Histologicamente, observou-se degeneracao e necrose das celulas epiteliais tubulares (Figura 1E), afetando principalmente os tubulos proximais da regiao cortical, associada a intensa regeneracao tubular, fibrose e infiltrado inflamatorio mononuclear interstitial. Havia acentuada dilatacao dos tubulos contorcidos proximais, principalmente na regiao cortical externa, muitos dos quais estavam desprovidos de celulas epiteliais de revestimento. Outros tubulos apresentavamse parcialmente recobertos por celulas com discreto citoplasma eosinofilico, de nucleos hipercromaticos, alongados ou arredondados, caracteristicos de regeneracao de celulas epiteliais tubulares. Em algumas areas, havia aglomerados de celulas epiteliais em regeneracao. Na luz de alguns tubulos, observaram-se discretos cilindros granulosos e hialinos, alem de gotas hialinas, principalmente na regiao cortical interna e cortico-medular. Havia ainda proliferacao de tecido conjuntivo fibroso intersticial, ocasionalmente associada a discreto infiltrado inflamatorio mononuclear. A membrana basal tubular estava preservada (Figura 1F).

Apos o exame fisico e identificacao dos sinais de edema submandibular e de barbela, hipofonese cardiaca (justificada posteriormente pela presenca de liquido no torax e pericardio) e o ingurgitamento da jugular, suspeitou-se, inicialmente, de insuficiencia cardiaca congestiva decorrente de pericardite traumatica, enfermidade frequente na regiao. Porem a ausencia de alteracoes na frequencia cardiaca e os resultados laboratoriais de hipoproteinemia, hipoalbuminemia, proteinuria e elevacao dos niveis de ureia e creatinina direcionaram o diagnostico para insuficiencia renal. Os cilindros granulosos observados na sedimentoscopia sao caracteristicos de degeneracao tubular. A presenca de A. spinosus na propriedade e os indicios de consumo da planta reforcaram o diagnostico de insuficiencia renal, que foi confirmado pela necropsia e achados histologicos de nefrose tubular.

A distribuicao das lesoes, observadas principalmente nos tubulos proximais da regiao cortical, ocorre pela maior susceptibilidade deste segmento a lesoes toxicas, devido ao seu elevado metabolismo celular e a sua exposicao aos agentes toxicos durante a reabsorcao do ultrafiltrado glomerular. Pelo menos 60% da reabsorcao do filtrado glomerular ocorre nos tubulos contorcidos proximais (VERLANDER, 2007). A regeneracao tubular observada ocorreu por que a membrana basal permaneceu integra, atuando como base sobre a qual as celulas epiteliais em regeneracao podem deslizar (NEWMAN et al., 2009). O curso clinico cronico da doenca favoreceu a regeneracao tubular. Em descricoes anteriores da intoxicacao por Amaranthus spp. em bovinos no Brasil (FERREIRA et al., 1991; LEMOS et al., 1993), o curso clinico variou de 3 a 10 dias, enquanto que, neste caso, a evolucao foi de 32 dias. A regeneracao observada provavelmente contribuiu para a normalizacao dos niveis sericos de creatinina, importante indicador de funcao renal.

Na regiao nordeste, o principal diagnostico diferencial da intoxicacao por Amaranthus spp. e a intoxicacao por Combretum glaucocarpum (sin=Thiloa glaucocarpa), unica planta da regiao descrita anteriormente como nefrotoxica (TOKARNIA et al., 1981). O principal fator a ser considerado para diferenciar as duas doencas e a presenca de Amaranthus spp. e o fato de que a intoxicacao por C. glaucocarpum ocorre, exclusivamente, 10-25 dias apos as primeiras chuvas. Outras doencas que devem ser consideradas no diagnostico diferencial, que produzem diarreia cronica e que ja foram diagnosticadas na regiao Nordeste, sao a paratuberculose (MOTA et al., 2009) e a carencia de cobre (RIET-CORREA, 2004).

Conclui-se que a intoxicacao por A. spinosus ocorre em bovinos no semiarido paraibano e que a enfermidade pode ter uma evolucao cronica com significativa regeneracao tubular.

Recebido 27.07.13

Aprovado 29.10.13

Devolvido pelo autor 27.02.14

CR-2013-1000.R2

AGRADECIMENTOS

Este trabalho foi financiado pelo Instituto Nacional de Ciencia e Tecnologia (INCT) Para o Controle das Intoxicacoes por Plantas, Processo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnologico (CNPq) 573534/2008-0.

REFERENCIAS

FERREIRA J.L.M. et al. Intoxicacao por Amaranthus spp. (Amaranthaceae) em bovinos no Rio Grande do Sul. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v.11, p.49-54, 1991.

KOMMERS, G. D. et al. Intoxicacao experimental por Amaranthus spp. (Amaranthaceae) em suinos no Rio Grande do Sul. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v.16, p.121-125, 1996.

LEMOS R.A. et al. Intoxicacao espontanea por Amaranthus spinosus (Amaranthaceae) em bovinos. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v.13, p.25-34, 1993.

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NEWMAN, J.S. et al. Sistema urinario. In: McGAVIN, M.D.; ZACHARY, J.F. (Eds.). Bases da patologia em veterinaria, 4.ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009. p.613-691.

PEIXOTO, P V et al. Intoxicacao natural por Amaranthus spinosus (Amaranthaceae) em ovinos no Sudeste do Brasil. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v.23, p.179-184, 2003. Disponivel em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_pdf&pid=S0100736X2003000400007&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 16 nov. 2012. doi: 10.1590/S0100-736X2003000400007.

RADOSTITS, O.M. et al. Reference Laboratory Values. In:--. Veterinary Medicine, 10th. ed. Philadelphia: Saunders Elsevier, 2007. p. 2047-2050.

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TOKARNIA, C.H. et al. Intoxicacao de bovinos por Thiloa glaucocarpa (Combretaceae) no Nordeste do Brasil. Pesquisa Veterinaria Brasileira, v.1, p.111-132, 1981.

VERLANDER, W.J. Solute reabsorption. In: CUNNINGHAM, G.J.; KLEIN, B.G. Textbook of veterinary physiology, 4.ed. China: Elsevier, 2007. p.537-447.

Diego Barreto de Melo (I) Sara Vilar Dantas Simoes (I) Antonio Flavio Medeiros Dantas (I) Glauco Jose Nogueira Galiza (I) Rodrigo Antonio Torres Matos (I) Rosane Maria Trindade Medeiros (I) Franklin Riet Correa (I) *

(I) Hospital Veterinario, Universidade Federal de Campina Grande, (UFCG), 58700-000, Patos, PB, Brasil. Email: franklin.riet@pq.cnpq.br

* Autor para correspondencia.
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Author:de Melo, Diego Barreto; Simoes, Sara Vilar Dantas; Dantas, Antonio Flavio Medeiros; Galiza, Glauco J
Publication:Ciencia Rural
Date:May 1, 2014
Words:1704
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