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China's place in brazilian trade/O lugar da China no comercio exterior brasileiro.

A China tornou-se o maior parceiro comercial brasileiro em 2009, superando os EUA depois de decadas. No entanto, as relacoes entre Brasil e China indicam mais do que a alteracao na hierarquia dos parceiros comerciais brasileiros, mas uma mudanca tanto das nossas relacoes exteriores quanto da propria correlacao de forcas no sistema internacional. O objetivo do presente artigo de conjuntura e, pois, tentar captar o lugar da China no comercio exterior brasileiro em face das transformacoes sistemicas que se aprofundam desde o fim da Guerra Fria.

A mudanca das relacoes exteriores do Brasil tem coincidido com grandes transformacoes da politica e dos negocios internacionais. Durante o seculo XIX, a Gra-Bretanha tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil, em substituicao a Portugal; e, durante o seculo XX, os EUA tomaram o lugar da Gra-Bretanha nos negocios com nosso pais. Em outras palavras, a ascensao dos polos hegemonicos do sistema mundial e as reestruturacoes do capitalismo tem tido repercussao direta sobre a insercao internacional do Brasil. Dessa forma, a virada do seculo XX-XXI marca a mudanca de lugar da China nas relacoes exteriores brasileiras, indicando transformacoes que representam desafios e oportunidades de longa duracao para o comercio exterior e a diplomacia do Brasil, justamente num quadro de transicao sistemica.

Em 2009, a China tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil, com um fluxo de comercio de 36,1 bilhoes de dolares. Isto contribuiu para o pais oriental torna-se o principal destino das exportacoes brasileiras, totalizando um valor de 20,1 bilhoes de dolares ou mais de 13,1% do total exportado, enquanto o Brasil e destino de apenas 1,3% das exportacoes chinesas. E, se considerarmos Taiwan, Hong Kong e Macau, estes ultimos que foram integrados real e formalmente a China, em 1997 e 1999 respectivamente, nas estatisticas oficiais do Ministerio do Desenvolvimento Industria e Comercio Exterior (MDIC), a importancia chinesa tem um acrescimo de quase 6 bilhoes de dolares na corrente comercial brasileira.

Em razao da crise financeira, os EUA tornaramse o segundo maior parceiro brasileiro, com 35,9 bilhoes de dolares de fluxo comercial em 2009, bem abaixo dos 53,4 bilhoes de 2008, em parte devido ao recuo de 42,4% de nossas exportacoes para o mercado norte-americano. Na verdade, devido a crise, o comercio internacional foi afetado e o brasileiro recuou 22% em relacao a 2008, segundo o MDIC, constituindo-se na maior retracao desde o inicio da serie historica em1950. Dessa forma, a crise contribuiu para acelerar a tendencia de superacao dos EUA pela China como maior parceiro do Brasil.

Neste ano de crise (2009), a Asia foi o unico continente que apresentou crescimento das exportacoes brasileiras, com aumento de 5,9%. Para a China, as exportacoes cresceram 23,1%, fazendo o pais asiatico subir na hierarquia dos parceiros do Brasil e assumir a lideranca. Para outras regioes, a queda das exportacoes brasileiras foi expressiva, pois alem da ja citada retracao de 42,4% dos EUA, a Europa Oriental recuou 38,6% e o Mercosul, 29,9% (com destaque para o recuo de 30,9% da Argentina).

O lugar da China no comercio exterior brasileiro reflete, portanto, um processo mais amplo de diversificacao dos negocios realizados pelo Brasil, bem como de mudanca da geografia economica mundial. No ambito do comercio exterior brasileiro, as iniciativas do Ministro das Relacoes Exteriores do Brasil, Celso Amorim, intensificaram as relacoes exteriores do pais com paises perifericos desde o inicio do governo Lula, em 2003. Os paises perifericos, excluindo a OCDE, passaram de 40% em 2003 para quase 54% do comercio exterior do Brasil neste ano (2009).

No ambito das transformacoes sistemicas, o lugar da China nos negocios com o Brasil reflete o processo de multipolarizacao em curso, com destaque para a ascensao estrutural da economia chinesa e da Asia Oriental no comercio internacional. O comercio exterior chines passou de 38 bilhoes de dolares em 1980 para 2,5 trilhoes em 2008, com um crescimento de mais de 67 vezes em menos de tres decadas. A participacao chinesa no comercio internacional saltou de 1,02% em 1980 para 6,9% em 2008. A China que ocupava apenas a 16a colocacao em 1997, com exportacoes de 24,5 bilhoes de dolares, tornou-se o maior exportador mundial em 2009, com um total de 1,2 trilhoes de dolares, 16% menos do que 2008 (PAUTASSO, 2009). A crise fez o comercio chines recuar 13,9% na comparacao com o ano anterior, atingindo 2,21 trilhoes de dolares, com superavit comercial chines de 196,1 bilhao de dolares, 34,2% menor que 2008, conforme informou a agencia Xinhua.

No caso das relacoes com o Brasil, a China partiu de um comercio de 19,4 milhoes de dolares em 1974, ano do reatamento das relacoes diplomaticas, para 1,2 bilhoes duas decadas depois (1994), chegando a 36,1 bilhoes

em 2009. A tendencia de aumento da participacao chinesa no comercio exterior do Brasil, tornou-se ainda mais evidente em 2002, quando a China suplantou o Japao como principal destino das exportacoes brasileiras na Asia. De uma forma geral, o Brasil tem tido superavits no comercio bilateral, excecao ao periodo de 1996 a 2000, em que acumulamos deficit de cerca de 551 milhoes, somente com a China. Somente em 2009, o superavit brasileiro foi de 4,1 bilhoes de dolares com o pais oriental.

Com efeito, a crescente importancia da China no comercio exterior do Brasil, sugere um conjunto de desafios e oportunidades. Os desafios do Brasil ligam-se a primarizacao das exportacoes brasileiras e a falta de preparacao para lidar com um novo parceiro como a China, tanto do ponto de vista da formula cao de politicas industriais, comerciais e tecnologicas (ICT), quanto do amadurecimento das estrategias de negociacao com os chineses.

O risco da especializacao produtiva em commodities reflete-se na pauta de exportacao do Brasil para a China. Cerca de 70% das exportacoes brasileiras sao formadas de minerio de ferro (31,4%), soja (31,4%), petroleo (6,6%), sendo que os outros produtos sao essencialmente primarios ou semimanufaturados. Como a China cresceu sua participacao nas exportacoes brasileiras e estas estao centradas em commodities, consequentemente a pauta de exportacao brasileira foi primarizada. Isto e, as exportacoes de produtos manufaturados recuaram mais (-27,3%) do que os semimanufaturados (-23,4%) e basicos (-14,1%) em relacao a 2008, segundo o MDIC. Ja a China, que exportava essencialmente petroleo (97%) para o Brasil entre 1980 e 1984, agora tem uma pauta de exportacao centrada em manufaturados, sobretudo, componentes e aparelhos eletronicos e maquinas, com uma diversificacao muito grande de itens (BECARD, 2008).

Nota-se que China e Brasil adotaram opcoes diversas de insercao internacional no Pos-Guerra Fria. As politicas de ICT no Brasil foram precarias durante o ciclo de liberalizacao da decada de 1990. A abertura comercial sem contrapartidas e planejamento (ou seja, com reforco do protecionismo e apoio as industrias nacionais nos paises centrais), elevacao de juros e carga tributaria, valorizacao cambial, restricao do credito e baixos investimentos em logistica reduziram a competitividade do Brasil, dificultando as exportacoes e favorecendo as importacoes. O resultando foi uma combinacao oposta a opcao chinesa de insercao internacional: o fechamento dos mercados externos e a abertura do mercado domestico. Assim, houve uma quase-estagnacao do comercio exterior do Brasil, que passou de 96,4 para apenas 107,6 bilhoes de dolares entre 1995 e 2002, sendo que o deficit acumulado foi de cerca de 24,5 bilhoes no periodo da paridade cambial (1995-2000).

Durante o governo Lula, a combinacao de acoes governamentais com a mudanca de conjuntura internacional acabou por favorecer o comercio exterior brasileiro. Ou seja, o governo direcionou o Itamaraty para a busca de novos mercados, atuando em parceria com comitivas de empresarios; fortaleceu os quadros tecnicos e a dotacao orcamentaria da APEX; e ampliou o credito para as exportacoes atraves de orgaos como o BNDES. Alem disso, capacidade de resposta das empresas brasileiras ao aumento na demanda mundial (PUGA, 2006), combinou-se com a conjuntura internacional de valorizacao das commodities, como ferro, soja e petroleo, por exemplo, favorecendo a balanca comercial. Com isso, o comercio cresceu de 121,5 bilhoes de dolares em 2003 para 370,9 em 2008, antes da crise.

Como a China e um parceiro estrategico do Brasil (OLIVEIRA, 2004), as relacoes bilaterais representam novos desafios nos negocios internacionais do pais. Por um lado, os desafios do Brasil nas relacoes com a China persistem, pois referem-se tanto a adversa politica cambial brasileira e ao desvio de comercio com vizinhos (como Argentina), ate a falta de preparo da elite brasileira, governamental, intelectual e empresarial, para lidar com esta nova realidade economica, politica e cultural. Por outro lado, abrem-se oportunidades para o Brasil aprofundar sua condicao de global player, desbravando o mercado chines, criando oportunidades de cooperacao tecnica (como o satelite sino-brasileiro CBERS--Chinese-Brazilian Earth Resources) e diplomatica.

O lugar da China no comercio exterior brasileiro reflete, pois, um conjunto de processos de longa duracao, representando mais do que uma questao conjuntural ou bilateral. Primeiro, a emergencia da China como principal parceiro comercial do pais para as proximas decadas, representando desafios e oportunidades ineditos. Segundo, o aprofundamento da diversificacao dos negocios internacionais brasileiros, com destaque para a ampliacao do peso dos paises perifericos. Terceiro, a evolucao do processo de multipolarizacao, cuja emergencia dos grandes paises da periferia (Brasil, China, India) sao as principais expressoes. Quarto, o fortalecimento de relacoes Sul-Sul, tornando mais complexo os negocios e as relacoes internacionais. Quinto, as consequentes aproximacoes sino-brasileiras no campo diplomatico, como atestam a criacao do Forum de Cooperacao Asia do LesteAmerica Latina/FOCALAL (2001), do G20 voltado a OMC (2003) e do grupo BRIC (2009), por exemplo. Em suma, e preciso buscar captar a complexidade das relacoes sino-brasileiras no seculo XXI.

Recebido em 17/01/2010

Aprovado em 19/01/2010

Referencias bibliograficas

BECARD, Danielly. O Brasil e a Republica Popular da China. Brasilia: FUNAG, 2008.

MDIC. Balanca comercial brasileira--paises e blocos. Disponivel em: [http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/interna/interna.php?area = 5&menu = 2033&refr = 576]. Acesso em: 17/01/2010.

OLIVEIRA, Henrique. Brasil-China: trinta anos de uma parceria estrategica. In: Revista Brasileira de Politica Internacional. 47 (1), 2004, pp. 7-30.

PAUTASSO, Diego. O comercio exterior na universalizacao da Politica Exterior da Chinesa no seculo XXI. In: Meridiano 47--Boletim de Analise de Conjuntura em Relacoes Internacionais. Brasilia IBRI v. 113, p. 14-16, 2009.

PUGA, Fernando. Por que crescem as exportacoes brasileiras? In: TORRES FILHO, Ernani (Org.). Visoes do desenvolvimento. Rio de Janeiro, BNDES, 2006.

DIEGO PAUTASSO, Mestre e doutorando em Ciencia Politica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul--UFRGS. Atualmente e pesquisador do Nucleo de Estrategia e Relacoes Internacionais (NERINT-UFRGS) e professor de Relacoes Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing--ESPM (dpautasso@espm.br).
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Title Annotation:Texto en Portuguese
Author:Pautasso, Diego
Publication:Meridiano 47
Date:Jan 1, 2010
Words:1781
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