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Children Who Use Psychoactive Substances According to the Child's Own Reports/Caracteristicas de Criancas Usuarias de Substancias Psicoativas Descritas pela Propria Crianca.

O uso de drogas (1) e uma pratica milenar e universal, mas se tornou uma preocupacao mundial, especialmente a partir dos anos 60, em funcao de sua alta frequencia, dos riscos que pode acarretar a saude e por contribuir para o agravamento de diversos problemas sociais (Romanini, & Roso, 2013; Tavares, Beria, & Lima, 2001). Isso se deu porque o consumo passou de forma ritualistica em pequenas quantidades para a producao e distribuicao em larga escala como um produto comercial (Brusamarello, Sureki, Borrile, Roehr, & Alves Maftum, 2008). Esse consumo se torna nocivo quando ocorre a despeito dos problemas sociais, psicologicos ou fisicos que podem ser gerados (Raupp & Milnitsky-Sapiro, 2005)

No Brasil, o uso de substancias psicoativas aumentou nos ultimos anos (Centro Brasileiro de Informacao sobre Drogas Psicotropicas [CEBRID], 2006; Valenca, Brandao, Germano, Vilar, & Monteiro, 2013). Fato preocupante e que, alem desse aumento, o consumo tem se iniciado cada vez mais cedo, portanto, ha uma populacao de criancas (2) que faz uso de substancias psicoativas e esse consumo ja e expressivo (Bezerra, 2004; Campos, & Ferriani, 2008; CEBRID, 2006; Neiva-Silva, 2008). De acordo com o CEBRID (2005), esse quadro nao e diferente no Espirito Santo, estado onde o presente estudo foi realizado. A Secretaria de Estado da Saude do Espirito Santo (SESA) aponta que, em 2008, houve sete internacoes por uso de alcool e outras drogas na faixa etaria de 10 a 14 anos (SESA, 2009).

Quanto ao tipo de droga consumida na faixa etaria de 10 a 12 anos, pesquisa realizada nas 27 capitais brasileiras identificou que, quanto ao uso na vida, alcool, tabaco, maconha e solventes se destacam (CEBRID, 2005, 2006). O alcool e o tabaco foram as drogas que apresentaram menor idade media no inicio do uso, estando em torno de 12 anos. As demais apresentaram media de idade de 13 anos, exceto a cocaina, com idade media de 14 anos (CEBRID, 2005). O alcool aparece com grande frequencia de uso na populacao infanto-juvenil e possui um consumo equivalente entre o sexo masculino e feminino (Sanceverino, & Abreu, 2004). Dado semelhante foi encontrado em outro pais, o Mexico, onde Campos e Ferriani (2008) identificaram, em uma amostra de criancas mexicanas de seis e sete anos, a experimentacao de bebida alcoolica e cigarro.

Na populacao infantil que faz uso indevido de drogas, verifica-se que e elevado o numero de criancas em situacao de rua que faz uso de substancias psicoativas (CEBRID, 2004; Moura, Sanchez, Opaleye, Neiva-Silva, Koller, & Noto 2012; Nascimento, 2009; Neiva-Silva, 2008). Quando comparadas as populacoes, observa-se que a prevalencia do uso de drogas e menor entre estudantes do que entre criancas e adolescentes em situacao de rua (Neiva-Silva, 2008). Bezerra (2004) pontua correlacao entre a atitude de consumir drogas por criancas e o comportamento de frequentar ou permanecer na rua. Verificou-se, ainda, que esse comportamento ocorre independente de a convivencia com a familia estar ou nao preservada.

O uso de drogas nessa populacao pode estar relacionado a diversos comportamentos de risco, atentando contra a saude e a vida do individuo. Entre esses comportamentos, estao o envolvimento em brigas, intoxicacao apos o uso e pratica de roubos (Nascimento, 2009).

De acordo com a World Health Organization (2000), as consequencias do uso de drogas para a crianca e o adolescente em situacao de rua podem ser de ordem fisica, psicologica e social. Alem das consequencias psicossociais, o uso de drogas pode acarretar danos em funcoes neurologicas, prejudicando o desempenho escolar, e pode expor a um maior risco de dependencia quimica na idade adulta (Pechansky, Szobot, & Scivoletto, 2005).

Diante de um fenomeno que produz consequencias para o sujeito e a sociedade, e necessario pensar sobre o consumo de substancias psicoativas para uma crianca, sujeito em condicao peculiar de desenvolvimento. Assim, esta pesquisa se justifica pela escassez de trabalhos que tratam do uso de drogas na populacao infantil e porque nao foram encontrados, ate o momento, trabalhos que articulem dados dessa populacao com a rede de servicos de saude mental que atendem a essa demanda.

Perante a necessidade de conhecer a populacao infantil usuaria de substancias psicoativas, este trabalho tem por objetivo caracterizar a crianca que faz uso de substancias psicoativas na Unidade de Tratamento a Crianca e ao Adolescente Usuario de Alcool e Outras Drogas (UTCA) a partir dos relatos da propria crianca. A UTCA e um servico hospitalar da rede de saude mental do estado do Espirito Santo, tendo sido interrompida em fevereiro de 2013.

Metodo

A pesquisa consiste de um estudo descritivo de abordagem qualitativa, pois tem por objetivo descrever as caracteristicas de determinado fenomeno ou populacao (Gil, 2008). Utilizou, como procedimentos de coleta de dados, a pesquisa de campo, que, se desenvolvida no local onde o fenomeno ocorre, permite ao pesquisador participar do cotidiano de atividades do grupo pesquisado e a realizacao de entrevistas.

O campo de estudo foi a UTCA. Implantada em 2009, dispoe de oito leitos para internacao em saude mental por um periodo de 15 dias visando a desintoxicacao. A escolha por este servico se deu, pois, entre os servicos da rede de saude mental, alcool e drogas, no periodo da coleta, este era o que recebia criancas com maior frequencia, o que viabilizou a realizacao da pesquisa.

Os participantes deveriam ter ate 12 anos de idade e estar internados na UTCA durante o periodo da coleta de dados, que se deu entre setembro de 2010 a marco de 2011. Nesse periodo, foram internadas cinco criancas com idades entre 9 e 12 anos. No entanto, apenas tres participaram do estudo. Nao se obteve autorizacao da familia para participacao de uma das criancas de 9 anos; e a outra crianca, de 11 anos, nao aceitou participar da pesquisa. Visando preservar a identidade dos participantes, foram criados nomes ficticios: Pedro, 12 anos; Ana, 11 anos, e Felipe 12 anos.

A pesquisa foi aprovada pelo Comite de Etica em Pesquisa do Centro de Ciencias da Saude da Universidade Federal do Espirito Santo sob o no. 180/10. Alem disso, antes de dar inicio a coleta de dados foi necessario o consentimento livre e esclarecido por parte do responsavel e o assentimento da crianca. Segundo Gaiva (2009), como as criancas devem ser legalmente tuteladas, os pais ou responsaveis devem anuir com sua participacao na pesquisa, mas o assentimento da propria crianca tambem se mostra importante.

A coleta de dados se deu em duas etapas. Primeiramente, buscou-se estabelecer contato com a crianca atraves da participacao em sua rotina de atividades na UTCA. Posteriormente, a crianca foi convidada a participar de um momento de conversa em que foi estruturada uma situacao ludica, disponibilizando materiais graficos e jogos para facilitar o dialogo. Como instrumento, foi utilizada a entrevista parcialmente estruturada (Gil, 2008), guiada por questoes sobre familia, escola, amigos e consumo de substancias psicoativas.

A analise dos dados foi realizada por meio do metodo de analise de conteudo, na modalidade de analise tematica (Minayo, 2007). A partir das entrevistas gravadas e transcritas, fez-se a leitura dos dados agrupando-os em categorias e subcategorias, utilizando-se o criterio da frequencia com que determinado tema aparecia nas entrevistas. Como resultado desse processo, foram formuladas as seguintes categorias que serao apresentadas a seguir: familia, vida em casa, amigos, escola, drogas e a experiencia na UTCA.

Resultados e Discussao

Familia

A categoria Familia tratara desse tema e esta dividida em duas subcategorias: Vivencia na familia e Historico familiar de envolvimento com drogas. De acordo com o Estatuto da Crianca e do Adolescente (Brasil, 1990), familia natural e definida como uma comunidade constituida pelos pais, ou um deles, e seus descendentes, e a familia ampliada se estende para os parentes com quem os membros mantem convivencia e vinculos de afetividade. Esse conceito esta bastante relacionado a familia consanguinea, no entanto, Silva (2005) aponta que o conceito de familia e dinamico e sofreu diversas transformacoes ao longo da historia, apresentando-se atualmente de forma ampla como um nucleo de relacoes de afetividade, dando espaco para novas configuracoes familiares.

As familias das criancas entrevistadas refletem essas novas configuracoes familiares. A familia de Pedro e composta por mae, pai e duas irmas, mas houve um periodo em que seus pais estiveram separados e, nesse periodo, a genitora passou a ter um novo relacionamento. Felipe reside com a mae, padrasto e avo, nao ha relato sobre irmaos e diz apenas que nao tem proximidade com seu pai. Quanto a Ana, ela residiu ao longo de sua vida em diferentes casas, tendo mais de um cuidador. No periodo anterior a internacao, nao residia com familiares, mas com conhecidos de sua mae: "Eu morava na casa das minhas amigas, eu morava la com elas" (Ana).

Quanto ao relacionamento familiar, duas criancas afirmaram ter boa relacao com as pessoas de sua familia. Mas, nos relatos de Ana, encontra-se que seus vinculos familiares estao fragilizados. Ana cresceu longe de seus familiares, especialmente de sua mae biologica. Ela conta que "quando eu nasci eu nao morei com ela [mae biologica], eu morei com uma mae de criacao, ai depois, com 6 anos, eu fui morar com ela". Relata, ainda, ter residido com a avo e depois em uma instituicao de acolhimento. Diz: "o conselho tutelar pegou eu e meus irmao e levou para o abrigo". Quanto ao periodo em que ela esteve abrigada relata: "Fiquei dois natais [no abrigo] depois eu fugi". Ana nao sabe nem mesmo relatar onde a mae reside: "nao sei onde ela ta morando. Eu nem vejo minha mae". Ela afirma nao ter conhecido seu pai biologico.

Verifica-se que as pessoas com quem as criancas residem sao as mesmas que provem seu sustento e cuidados. Ana relata que o sustento da casa onde residia procede da venda de substancias psicoativas, inclusive por parte da crianca. Segundo ela, a casa era mantida "com o dinheiro da droga". Ja o sustento da casa onde Pedro e Felipe residem provem do trabalho dos pais. Pedro relata que seus pais, alem de trabalhar em empresa privada com regime celetista, precisam complementar a renda atraves de trabalho informal autonomo. Nessa atividade, e comum a crianca acompanhar os familiares. Ele afirma: "Eu vigio carro com minha mae, minha avo, todo mundo" (Pedro). No entanto, vigiar carros e uma atividade inadequada para uma crianca por expo-la a diversas situacoes de risco como acidentes, violencia, atividades ilicitas e a facilidade de acesso a substancias psicoativas (Organizacao Internacional do Trabalho, 1999)

A segunda subcategoria trata do envolvimento de familiares da crianca com drogas. Observa-se que, das criancas entrevistadas, Pedro e Ana declararam ter familiares ou cuidadores que tem proximidade com a droga, seja pelo consumo ou comercializacao. Esses mesmos familiares tem passagem pelo sistema prisional: "Vendia o meu tio que esta preso (...) meu padrasto era traficante, ai eu via la na minha casa" (Pedro); "Minha mae usa. (...) Minha mae parou de mexer [vender] com isso desde quando ela saiu da cadeia. (...) Ela [mulher com quem morava] usa" (Ana).

A familia e a rede fundamental de seguranca social para as criancas (Moura et al. 2012), sendo importante, dessa forma, para o desenvolvimento psicossocial da crianca, devendo propiciar todas as medidas de protecao e cuidado. No entanto, ela tambem pode se tornar um fator de risco para o consumo de substancias psicoativas (Oliveira, Bittencourt, & Carmo, 2008; Silva-Oliveira et al., 2014). Considera-se por fatores de risco as condicoes ou variaveis associadas a possibilidade de ocorrencia de resultados negativos para a saude, o bem-estar e o desempenho social (Shenker, & Minayo, 2005).

Sanchez, Oliveira e Nappo (2005) afirmam que a existencia de pais dependentes quimicos e um fator estressor na familia, podendo interferir no desenvolvimento emocional e cognitivo dos filhos e, sobretudo, constituindo um fator de risco para o consumo. Afirmam, ainda, que o consumo de drogas ilicitas e maior entre familiares de usuarios do que de nao-usuarios. Alem disso, o consumo pelos pais e um incentivador, acontecendo ate mesmo na presenca dos filhos, o que acaba por despertar-lhes a curiosidade.

Figlie, Fontes, Moraes e Paya (2004) acrescentam que filhos de dependentes quimicos apresentam risco aumentado para transtornos psiquiatricos, desenvolvimento de problemas fisico-emocionais e dificuldades escolares. Entre os transtornos psiquiatricos, apresentam um risco aumentado para o consumo de substancias psicoativas quando comparados com filhos de nao-dependentes quimicos. Esses mesmos autores apontam que, em familias com pelo menos um dependente quimico, os filhos ficam mais expostos a situacoes de violencia, tanto na posicao de vitimas como presenciando situacoes violentas.

Vida em Casa

A categoria Vida em Casa se refere a aspectos fisicos da residencia onde a crianca mora que podem dar indicios sobre aspectos socioeconomicos da familia. Considera-se por casa o local onde a crianca reside, podendo este ser uma instituicao. Em geral, as residencias sao descritas como tendo poucos comodos e estrutura simples. Pedro diz que sua casa tem "5 comodos, tem banheiro, cozinha, dois quartos e sala". Ana diz que a casa onde residia com conhecidos possuia apenas tres comodos, definindo-a da seguinte maneira: "A casa la era casa de gente pobre". As criancas residem em bairros perifericos da regiao metropolitana de Vitoria, onde o acesso aos servicos publicos e precario e a oferta de atividades ou espacos de lazer na comunidade sao insuficientes, sendo frequente a presenca do trafico de drogas.

Tambem nessa categoria, buscou-se conhecer a rotina das criancas e as atividades que gostam de fazer em casa. No entanto, foram encontradas poucas falas a respeito de sua rotina. Pedro relata gostar de atividades como jogar videogame, ver televisao e usar o computador. Ja nas falas de Ana e de Felipe, nao aparecem relatos sobre atividades ludicas fazendo parte de sua rotina.

O consumo de drogas pode trazer mudanca na rotina das criancas, elas se voltam para atividades relacionadas ao consumo, deixando de ser frequentes atividades comuns para uma crianca como a brincadeira e atividades escolares, como veremos no topico seguinte. Segundo Bezerra (2004), a crianca que usa droga passa a organizar sua rotina e suas atividades para o consumo e a obtencao da droga, deixando de lado atividades ludicas, escolares e de convivencia social.

Escola

Outra categoria, denominada Escola, contem aspectos relacionados a frequencia escolar, escolaridade, relacao da crianca com a escola e com os estudos. No que se refere a escolaridade, Pedro, 12 anos, declara estar na sexta serie; Felipe, com a mesma idade, esta cursando a segunda serie; e Ana, 11 anos, cursa a terceira serie, o que denota um atraso escolar. Todas as criancas entrevistadas nao estavam estudando no periodo anterior a internacao e aparentam uma relacao de desinteresse pela escola: "ia so quando queria mesmo, quando nao queria matava aula e usava" (Pedro); "Nao, eu nao vou voltar a estudar" (Felipe); "Ja, mas eu parei na terceira. E eu nao vou mais estudar" (Ana).

Segundo Broecker e Jou (2007) e Silva-Oliveira et al. (2014), entre dependentes quimicos, a maioria nao esta estudando, frequenta ou frequentou escolas publicas e repetiu o ano na escola pelo menos uma vez na vida, fato tambem identificado entre as criancas entrevistadas. Segundo Moura et al. (2012), a frequencia escolar e inversamente proporcional ao uso pesado de droga, e o compromisso escolar poderia reduzir o envolvimento da crianca e do adolescente com a cultura de rua.

Aparecem, ainda, nos relatos, falas que se referem as dificuldades encontradas em aprender e gostar de estudar. Foi possivel observar, durante a coleta de dados, que as criancas entrevistadas apresentam dificuldades quanto a leitura e escrita: "Eu nao estudo direito, nao. Eu fico so fazendo bagunca" (Pedro); "Porque eu nao gosto de escrever" (Felipe); "Sempre tive vontade de estudar, so que eu nao consigo, ai eu desisto. [...] Minha mente e fraca. Eu nao escrevo nao, tia, so sei algumas palavras" (Ana).

Amigos

Na categoria Amigos, o tema amizade aparece fortemente associado a tematica drogas. Os amigos aparecem como facilitadores do primeiro consumo bem como dos conseguintes. Para Pedro e Felipe, os amigos tiveram papel importante no inicio do uso, pois estes, em geral, ja faziam uso de droga, facilitando o acesso e o consumo para a crianca. Broecker e Jou (2007) tambem afirmam que, entre o grupo de usuarios de drogas, a grande maioria apontou que as drogas ilicitas foram oferecidas por amigos e que o consumo se da no grupo. O grupo de amigos exerce influencia sobre o comportamento da crianca, que ainda esta em fase de formacao de seus valores.

Entre as atividades que as criancas entrevistadas relatam realizar com seus amigos, estao brincar, jogar bola, usar drogas e vender tal substancia. Quando perguntado as criancas o que fazem quando estao com os amigos, apenas Pedro diz que brinca.

Pedro faz uma diferenciacao entre seus amigos. Considera como "amigos de verdade" aqueles que nao faziam o consumo de drogas e com quem ele brincava. Ja os demais com quem convivia e que faziam uso de drogas sao tambem chamados de amigos, mas contendo uma conotacao negativa, pois segundo Pedro, com eles, nao relata brincar, mas sim comportamentos como usar droga, vender, ficar na rua, roubar. Ele diz: "Nois nao brinca. Quando estou com meus amigos de verdade, a gente brinca, joga bola, solta pipa".

Os amigos sao descritos pelos entrevistados como sendo, em geral, adolescentes e usuarios de substancias psicoativas, mas tambem sao descritos, como amigos, criancas e adultos. Sao da mesma escola e/ou vizinhos da crianca.

Ana relata ter tido pouca convivencia com outras criancas dizendo: "Nunca convivi com crianca sem ser meus irmaos". Durante a coleta de dados com essa crianca, pode-se observar que ela apresenta comportamentos e falas que expressam vivencias que nao sao comuns para sua idade. Talvez a pouca convivencia com pares da mesma idade e as circunstancias de vida a que ela esteve exposta fizeram com que apresentasse comportamentos diferentes do que seria esperado para sua idade. Figlie et al. (2004) apontam que, entre outros fatores, pode ser identificada a maturidade precoce entre filhos de dependentes quimicos.

A Droga

A categoria Droga identifica como e feito o uso de substancias psicoativas quanto ao tipo e frequencia. Abordam-se tambem comportamentos relacionados ao consumo.

Entre os entrevistados, o primeiro uso de substancias psicoativas se deu entre 7 e 11 anos. Pedro nao sabe precisar a idade do primeiro uso, afirma que foi entre 10 e 11 anos, Felipe aponta 10 anos para o uso do cigarro e 11 anos para o uso da maconha, ja Ana relata ter feito uso de maconha pela primeira vez aos 7 anos de idade.

O CEBRID (2005) destaca que ja e expressivo o consumo de drogas pelo menos uma vez na vida na faixa etaria de 10 a 12 anos. Vieira, Aerts, Freddo, Bittencourt e Monteiro (2008) apontam que a idade media do primeiro contato com tabaco e alcool, relatada por jovens, foi de 11,7 anos e 11,3 anos, respectivamente e a experiencia com outras drogas aconteceu mais tarde, com idade media de 13,0 anos.

Quando comparados os dados encontrados nessa pesquisa com a literatura citada, e possivel identificar relacao no que se refere ao inicio do consumo de drogas licitas ocorrer mais cedo que o de drogas ilicitas, fato relatado por Felipe. No entanto, isso nao deve ser generalizado, pois nao necessariamente o consumo se inicia por drogas licitas, como o alcool e tabaco. Pedro aponta que primeiramente fez o uso de maconha e, no decorrer do seu historico de consumo, fez uso de bebidas alcoolicas. Ana nem sequer relata o consumo de drogas licitas.

Quanto ao tipo de droga ilicita usada pela primeira vez a maconha foi citada pelos tres entrevistados. Somente uma crianca entrevistada relata ter consumido droga licita em primeiro lugar, que foi o caso de Felipe, que consumiu em primeiro lugar tabaco. Entre as demais substancias utilizadas pelos participantes, foram citadas maconha, cocaina e crack. Ja como drogas licitas, apareceram relatos de consumo de cigarro e bebidas alcoolicas.

Broecker e Jou (2007) e Guimaraes, Godinho, Cruz, Kappann e Tosta Junior (2004) identificaram a maconha como a droga ilicita mais consumida, seguida pelo crack e pela cocaina. Entre as drogas licitas, predomina o consumo do alcool, seguido pelo tabaco. Guimaraes et al, em sua pesquisa com estudantes, identifica que, na faixa etaria de 10 a 12 anos, 9% fazem uso de diversas drogas ilicitas, 5,4% fazem uso de tabaco e 43,7% fazem uso de alcool. Alem disso, nessa faixa etaria, o consumo foi maior entre participantes que estudam em escolas publicas.

Pedro, Felipe e Ana, ao relatarem a frequencia com que faziam uso de substancias psicoativas, mostram que o consumo de drogas ilicitas como a maconha, a cocaina e o crack pode ser caracterizado como pesado. Segundo o CEBRID (2005), o uso pesado e aquele realizado vinte ou mais vezes nos ultimos 30 dias. Ja o consumo de substancias licitas como alcool e cigarro mostra-se menos frequente, mas os entrevistaram nao sabem precisar ao certo.

Pedro relata fazer uso diario de maconha, tambem fazia uso de cocaina e bebida alcoolica "as vezes, so de vez em quando". Felipe tambem relata fazer o uso diariamente: "fumava maconha de manha e pedra de noite, porque eu ficava, me deixava mais tranquilo". Ana afirma fazer uso frequente de maconha e cocaina e descreve a frequencia do consumo como "Direto e reto", diz ja ter fumado crack, mas nao e possivel discriminar a frequencia. Ela diz que seu consumo passa a se intensificar a partir do momento em que vai residir na casa de conhecidos: "Eu comecei a usar muito agora".

Outra subcategoria se refere as circunstancias associadas ao primeiro contato com a droga. Esta trata dos aspectos pessoais, sociais e comunitarios que levaram a crianca a ter contato pela primeira vez com as drogas e a fazer o primeiro uso.

Diante dos dados coletados, verifica-se que a familia e os amigos sao fatores importantes que levaram as criancas dessa pesquisa a ter contato pela primeira vez com drogas e a fazer o primeiro uso. As criancas relatam que a primeira vez em que tiveram contato, viram ou ouviram falar de drogas se deu atraves de familiares ou amigos. Segundo Pedro, "Eu vi com minha avo, na casa dela, porque meu tio vendia".

Assim, o primeiro consumo se deu por meio de familiares, como o caso da Ana, e por meio de amigos, como para Pedro e Felipe: "Haaa foi um colega la que eu andava muito com ele" (Felipe); "meus amigos me chamaram" (Pedro). Porem, mesmo Ana, que relata ter sido sua mae quem primeiro lhe ofereceu maconha, aponta que posteriormente os amigos com quem convivia tiveram influencia no seu consumo. Aos 7 anos, Ana teve contato com a maconha atraves de sua mae. No entanto, ela convivia com outros adolescentes que vendiam e consumiam drogas, o que facilitou o acesso e pode ter influenciado a continuacao do consumo: "Foi minha mae que me deu um baseado desde os 7 anos (...) Eles [amigos] que me ofereceram" (Ana).

Bezerra (2004) tambem encontrou em seu trabalho essa relacao. Segundo a autora, o grupo social no qual o individuo esta inserido influencia o comportamento de usar ou nao drogas, em especial o grupo de amigos e familiares. Dessa forma, a familia e o grupo de pares podem funcionar como um fator de risco para o uso de drogas (Bezerra, 2004). Shenker e Minayo (2005) afirmam que o grupo de pares e considerado fator de risco especialmente quando os amigos sao considerados modelo de comportamento, demonstram tolerancia, aprovacao ou consomem drogas.

Alem da familia e amigos, outro fator que favoreceu o consumo foi a curiosidade. Pedro relata que sentiu curiosidade por conhecer a droga e se aproximar do local onde era vendida a substancia, chamado por ele de "Boca": "Um dia eu fui la [Boca] ai eles falaram: toma fuma aqui, e eu falei: eu nao, vou ficar doido. Ai eles falaram: que fica doido o que. Ai eu peguei e fumei, ai disso eu comecei a fumar, comecei a vender" (Pedro).

Pratta e Santos (2006) apontam a curiosidade como o mais citado motivo para o primeiro contato com a droga entre jovens de 14 a 20 anos, seguido por diversao e prazer. No que se refere a quem introduziu o uso, tambem concorda que a maior frequencia tenha sido de amigos, familia e conhecidos.

Outro fator identificado entre os participantes se refere a proximidade com o trafico de drogas, pois as tres criancas relatam ter proximidade com o trafico, o que facilita a aproximacao da crianca com a droga, seja para o consumo, seja para a venda. Segundo os participantes, as pessoas que vendem/consomem residem em seu bairro, proximas a sua casa e, em alguns casos, sao familiares, cuidadores, vizinhos ou amigos. Assim, pode-se supor que a curiosidade, acima mencionada, pode estar sendo produzida pelo meio social onde essas criancas e adolescentes estao inseridos: "A casa da minha avo fica perto da boca, mas a do meu tio fica mais" (Pedro); "E, tem em todo lugar uns menino vendendo e usando" (Felipe).

Alem disso, Pedro relata que as pessoas que vendiam drogas em seu bairro lhe davam constantemente presentes. Essa crianca se aproximava de pessoas associadas ao trafico "Porque eles me davam dinheiro, roupa, roupas de marca. Eles me deram dois bones, eles me davam comida, me davam tudo o que eu pedia. Eu ficava jogando videogame na casa deles" (Pedro).

Os entrevistados tambem trazem relatos a respeito do local onde ocorreu o primeiro consumo, geralmente no bairro onde residiam, em locais como as ruas ou a casa de amigos ou traficantes. Felipe diz: "De dia eu usava com os meninos e de noite eu ia pra casa de um homem la, onde vendia".

Verificou-se que a forma com que as criancas obtinham a droga se dava por meio do convivio com outros que faziam uso ou de atitudes ilicitas como o roubo a familiares ou terceiros para conseguir comprar a droga: "Eu ia la na rua, ai eu ficava la ate eles chegarem, quando eles chegavam eu fumava tambem [...] eu vendia e ai, quando eles fumavam, eu fumava tambem" (Pedro); "Eu pegava dinheiro da minha mae, coisas da minha casa, eu roubava tambem em Carapina" (Felipe).

Por fim, a partir das entrevistas pode-se identificar, ainda, circunstancias associadas ao consumo. Exemplos sao complicacoes diretas e indiretas decorrentes do abuso de drogas, situacoes de risco para o uso e circunstancias a que as criancas estao expostas durante o consumo para conseguir a substancia.

Um fator que pode estar associado ao consumo de drogas por criancas e a vivencia de rua. Fato fortemente marcado no relato da Pedro, que tinha o comportamento de permanecer nas ruas ou na casa de traficantes. Relata que chegava a ficar seis dias sem retornar para sua casa. A rua e descrita por ele como um local de diversao, onde e possivel ter acesso a divertimentos que o bairro nao oferece. Assim, essa crianca relata: "Na rua, voce pode dormir, brincar, ficar na praia, roubo, uso drogas". Alem disso, quando perguntado o motivo de ir para as ruas, ele diz: "Para fumar, para ficar com meus amigos que me chamavam". Na rua, nao ha regras, nem horarios e e possivel fazer o uso de substancias psicoativas sem a coercao da familia.

Ana se utilizava do espaco da rua para a venda de substancias psicoativas. Ela ficava proximo a bares onde sabia que havia compradores, mas nao relatou dormir na rua. Ela diz que ficava "vendendo na rua. Em um bar". Assim como Felipe, nao apresentou vivencia de rua.

Segundo o CEBRID (2004), Bezerra (2004) e Moura (2012), o comportamento de ir para a rua aparece associado ao comportamento de consumir drogas. Entretanto, a conduta de permanecer na rua ocorre independentemente de a convivencia com a familia estar ou nao preservada. Aparece motivada pela facilidade de acesso a droga, pela liberdade que a situacao oferece, visto que a crianca nao esta sob nenhuma regra ou proibicao, estando livre para o consumo. Alem disso, a rua e o espaco onde e possivel comercializar a substancia.

Sob esse ponto de vista, a rua e utilizada com frequencia pelas criancas para a venda de drogas. E essa venda e outro fator associado ao consumo, ja que a comercializacao da substancia aparece como meio de garantir o proprio consumo. Vale informar que nao foram encontrados relatos de que a venda de drogas trouxe algum tipo de lucro financeiro para a crianca, ou seja, essa atividade era realizada com o intuido de propiciar seu proprio consumo: "Nao eu nao ganhava [dinheiro] nao, eu me oferecia para vender" (Pedro); "Eu vendia e depois usava" (Ana).

As criancas entrevistadas tambem trazem relatos sobre situacoes de risco a que estiveram expostas para conseguir a substancia. Pedro traz elementos acerca do envolvimento com o trafico de drogas, a proximidade com armas e a pratica de atividades ilicitas.

Um dia eu fiquei com medo, tinha dois dias que eu estava fora de casa, tava dormindo na casa do traficante, ai num dia de noite ele falou assim "agora voce tem que ir embora porque se os homens vem aqui e eu vou meter tiro neles", ai eu fui embora, fui para outra casa de outro traficante, que gosta da minha irma, ai chegou la de noite eu estava dormindo, ai chegou a policia bateu na porta e falou "abre ai rapaz " mas eu nao abri, fiquei com medo e falaram "olha la, correu, correu ". [Voce que correu?] Nao, eu fiquei em casa, debaixo da cama, ai eu olhei por baixo e nao tinha mais ninguem, ai eu vi dois canivetes, porque eu amarrei com sacolas a porta e nao tinha cadeado nem nada na casa ai eu fui la cortei as sacolas joguei o canivete no chao e sai correndo. (Pedro)

Felipe traz em seu relato que esta ameacado de morte em seu bairro por traficantes, pois estava em divida com eles. Esse fator foi decisivo para que a familia procurasse ajuda por meio do conselho tutelar e conseguisse uma vaga para internacao. Ja Ana relata que, na casa onde residia com conhecidos, houve uma briga e a policia foi acionada. Nesse momento, como ela era a unica crianca no local, foi levada pela policia ao conselho tutelar.

Diante desses relatos, pode-se inferir que a crianca que faz o uso de drogas esta vulneravel a circunstancias que poem em risco sua vida, a violencia, a rupturas familiares, ao baixo rendimento escolar e ao envolvimento em atividades ilicitas. Shenker (citado por Bernardy & Oliveira, 2010) concorda com essa proposicao e afirma que o uso abusivo de drogas acarreta prejuizos aos jovens, a familia e a sociedade, traduzidos em repetencia escolar, perda de emprego, rupturas familiares, violencia, crimes, acidentes e encarceramentos.

Experiencia da Internacao

Nessa categoria, pretende-se conhecer como se deu a experiencias da crianca durante a internacao sob os seguintes aspectos: quais atividades foram oferecidas durante o periodo de internacao, o que a crianca pensou/ sentiu nesse periodo e, por fim, em que a crianca considera que a internacao a ajudou.

As atividades que as criancas realizam durante a internacao ficam restritas ao espaco da UTCA, visto que os pacientes nao podem sair desacompanhados dos responsaveis, e nem mesmo os profissionais que la trabalham podem propor atividades externas a unidade. Assim, na rotina das criancas, estao inseridas atividades como jogar, brincar, ver televisao, conversar, pintar, dormir, tomar banho, tomar remedio e passear. No entanto, tambem aparecem relatos que dizem respeito a falta de atividades como, por exemplo: " Tia, aqui nao tem como fazer nada" (Ana); "Porque eu queria ficar na minha, tava com muito sono e nao tinha nada pra fazer" (Felipe). A queixa das criancas e pertinente, visto que o espaco da unidade e pequeno e elas nao tem transito livre por outros espacos do hospital.

No que se refere ao que a crianca pensa e sente durante a internacao, Pedro diz que os motivos que o levaram a UTCA seriam: "Para parar de usar e fazer tratamento". As outras criancas tambem conseguem verbalizar que estao em tratamento e tem clareza de que a causa da internacao e o consumo abusivo de substancias psicoativas.

Ana relata que a internacao e "Um pouco chato", mas Pedro diz: "eu estou gostando". Ele relata que inicialmente sentiu receio porque, antes da UTCA, esteve internado em uma comunidade terapeutica onde estava junto com pessoas mais velhas e nao se habituou ao local.

Pedro e Ana falam sobre a experiencia de ficar sem usar drogas no periodo da internacao. Relatam certa dificuldade, visto que, em alguns momentos, sentem vontade de fazer o consumo. Pedro diz: "Tenho que aguentarficar aqui. Tenho que conseguirficar sem usar drogas". Ja Ana expressa o que sente e o que entende sobre a medicacao que e administrada no periodo de internacao: "Eles dao medicamento de dormir (...) Hoje eu tava doidona de sono caiu suco na minha cama".

Alem disso, trazem relatos de tentativas de interromper o consumo e de suas dificuldades. Ana diz: "Ja, ja tentei quatro vezes, mas nao consegui. Eu tento controlar, mas, as vezes, eu nao consigo". Pedro conta que sua mae o prendeu em casa acorrentado na tentativa de impedir o consumo e que ele retornasse para as ruas: "minha mae me colocou na corrente".

Ha relato tambem sobre os beneficios sentidos ao interromper o consumo e o que pensa que ira mudar em sua vida: "antes eu nao dormia, agora faco as coisas em casa, nao mente, nao precisa ficar na rua ate dormir (...) Ninguem me ameaca de morte por causa de droga" (Pedro).

As criancas tambem relatam de que modo a internacao tem contribuido no tratamento contra o uso de drogas: "ela [mae] ta mais tranquila, minha mae, ela nao precisa mais ir para a rua atras de mim, essas coisas (...) minha mae esta gostando de eu ficar aqui" (Pedro); "Ta ajudando pouco, ne, tia, porque a vontade tem ainda" (Ana).

Para o periodo pos internacao, as criancas tem planos de dar continuidade ao tratamento, evitar o consumo, retornar para a escola, o que pode dar indicios que, ao interromper a rotina de consumo, a crianca produz novas perspectivas para sua vida e voltar a atividades comumente realizadas nessa faixa etaria. Felipe relata: "Eu vou ficar quieto em casa, nao vou sair. Porque eu quero evitar usar".

Ana expressa tambem sua incerteza quanto ao periodo pos internacao, visto que nao sabe se ira voltar a residir com familiares ou se sera encaminhada ao abrigo. Essa incerteza dificulta a construcao de planos para o periodo em que receber alta hospitalar: "Quero voltar a estudar, mas, assim, tia, se me der vontade, eu vou continuar a usar. Eu nao sei o que vai acontecer quando eu sair daqui" (Ana).

Verifica-se que as criancas que possuem suporte familiar conseguiram, com maior facilidade, fazer planos para o periodo pos-internacao e sinalizam a vontade de nao retomar o consumo. Schwerz (2007) propoe que suporte familiar e fundamental para a melhora do prognostico dos dependentes de substancias psicoativas e que, portanto, e essencial durante o tratamento trabalhar para que os vinculos com a familia e sua rede sejam reconectados e fortalecidos na tentativa de auxiliar as pessoas a contarem com aqueles que fazem parte da sua historia. No caso de criancas, essa rede de apoio familiar e fundamental.

Consideracoes Finais

O uso de substancias psicoativas na infancia exige maiores reflexoes por ser um tema complexo, com muitas vertentes ainda nao pesquisadas. Essa pesquisa alcancou seu objetivo ao fazer a caracterizacao de criancas usuarias de substancias psicoativas atendidas em um servico de saude mental. Dessa forma, a pesquisa contribui para indicar a existencia de criancas que fazem uso de drogas, o que reafirma a necessidade da criacao e ampliacao de servicos em saude mental para atender as especificidades do publico infantil.

Os dados encontrados indicam que a combinacao de certos fatores pode influenciar o uso de drogas por uma crianca, tais como a familia, os amigos e o ambiente comunitario. Conhecendo um pouco sobre as criancas entrevistadas, verifica-se que esses fatores se associam a um contexto social desfavoravel em que essas criancas estao inseridas. Verifica-se que sao familias privadas do acesso a bens materiais e culturais, o que dificulta a elas garantir condicoes de desenvolvimento favoravel a essas criancas. Tambem, a crianca usuaria de substancias psicoativas esta exposta a uma serie de prejuizos fisiologicos, esta mais vulneravel a cometer atos infracionais, a vivencia de rua, a perda de vinculos familiares, a dificuldades escolares, bem como o envolvimento com o trafico de drogas.

Por fim, os resultados deste trabalho indicam a necessidade da ampliacao de estudos nessa area a fim de confrontar os dados aqui descritos com outras pesquisas que contenham maior numero de participantes. Dessa forma, sera possivel chamar atencao para tal problematica, ja que, ate o momento, nem a pesquisa cientifica nem a rede de saude tem acompanhado o crescente consumo de drogas na infancia.

doi: http://dx.doi.org/10.1590/0102.3772e324220

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(1) E conceitua-se droga de acordo com a Organizacao Mundial da Saude (OMS) que a define como qualquer substancia natural ou sintetica que, administrada por qualquer via no organismo, afeta sua estrutura ou funcao (Sanceverino, & Abreu, 2004).

(2) De acordo com o Estatuto da Crianca e do Adolescente (1990), considera-se crianca a pessoa com idade ate doze anos incompletos.

Recebido em 02.07.2014

Primeira decisao editorial em 06.05.2015

Versao final em 07.05.2015

Aceito em 10.02.2017

Helena Quintas Ramaldes (a)

Luziane Zacche Avellar

Kelly Guimaraes Tristao

Universidade Federal do Espirito Santo

(a) Endereco para correspondencia. Programa de Pos-Graduacao em Psicologia--PPGP, Predio Professor Lidio de Souza, Universidade Federal do Espirito Santo, Av. Fernando Ferrari, 514, Vitoria, ES, Brasil. CEP. 29.060-970. E-mail: luzianeavellar@yahoo.com.br
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Title Annotation:ARTIGO ORIGINAL
Author:Ramaldes, Helena Quintas; Avellar, Luziane Zacche; Tristao, Kelly Guimaraes
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Date:Oct 1, 2016
Words:7584
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