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Children's Knowledge of Written Morphology in Brazilian Portuguese/O Conhecimento Morfologico da Crianca na Escrita do Portugues Brasileiro.

Escrever de acordo com a norma consiste em compreender o principio alfabetico como as convencoes da escrita ortografica. Renunciando a ideia de que um grafema representa um e somente um fonema e a de que um fonema e somente representado por um determinado grafema, a crianca necessita, entao, integrar diversos saberes, habilidades e estrategias para poder escrever convencionalmente (Abbott & Berninger, 1993; Correa & Dockrell, 2007; Senechal, LeFevre, Smith-Chant, & Colton, 2001).

Para escrever de acordo com a norma ortografica no Portugues Brasileiro (Lemle, 1986; Morais, 2005), a crianca deve notar que ha grafias que: (a) variam em funcao da posicao do fonema ou do grafema na palavra--exemplo: letra r em rato e caro; (b) sao determinadas em nivel morfossintatico, como, por exemplo, o emprego da letra r para marcar o infinitivo dos verbos em expressoes que sao omitidas na fala; (c) sao irregulares, ou seja, nao ha regularidades em niveis fonologico ou morfologico que possam determinar a grafia de uma palavra, quando, por exemplo, as letras x e ch concorrem para a representacao do fonema /[integral]/ em um mesmo contexto (xale e chave).

O entendimento do principio alfabetico e o dominio das correspondencias regulares entre fonema e grafema e viceversa estao relacionados ao desenvolvimento das habilidades de consciencia fonologica, ou seja, das habilidades de segmentacao e de analise da linguagem oral em diversos constituintes fonologicos assim como da manipulacao de tais elementos. Ha tambem evidencias empiricas que associam o dominio das regularidades ortograficas relacionadas a variacoes do contexto grafofonemico (regularidades de posicao ou regularidades de contexto) ao desenvolvimento da consciencia fonologica (Meireles & Correa, 2005; Rego & Buarque, 1997).

Embora o Portugues Brasileiro seja uma lingua relativamente transparente no que se refere a relacao grafema-fonema, as suas regularidades ortograficas, como anteriormente descritas, nao estao limitadas ao nivel fonologico da lingua. Existem, ambiguidades na escrita que so poderao ser resolvidas por meio do conhecimento morfologico. Na construcao formada por auxiliar + infinitivo do verbo principal (como em vamos brincar), o marcador do infinitivo e omitido na fala, mas nao o e na escrita. A grafia convencional desse tipo de expressao na escrita e um exemplo de regularidade de natureza morfologica (Morais, 2005).

O emprego da morfologia por criancas nos anos iniciais de aprendizado da linguagem escrita e, ainda, objeto de debate (Deacon, 2008). Por um lado, discute-se a hipotese de que a crianca, desde cedo, possa fazer uso da morfologia na escrita (McCutchen & Stull, 2015; Treiman & Cassar, 1996). De outro lado, hipotetiza-se que o emprego da morfologia pelas criancas na escrita e mais tardio (Nunes, Bryant, & Bindman, 1997a, 1997b).

Em favor da primeira hipotese, aparecem estudos que examinam contextos restritos de escrita de palavras, como, por exemplo, a escrita somente da raiz das palavras, ou seja, do morfema comum as palavras de um determinado grupo lexical (Deacon & Bryant, 2006a, 2006b; Kemp, 2006; Treiman & Cassar, 1996). A associacao entre a morfologia e a escrita ortografica seria feita tao logo a crianca comecasse a ler e a escrever (Deacon, 2008).

Em relacao a segunda hipotese, evidencias empiricas vem de estudos transversais (Carlisle, 1988; Sterling, 1983) e longitudinais (Nunes et al., 1997a, 1997b). A enfase da investigacao esta no padrao de desenvolvimento de estrategias usadas na escrita, como das habilidades que possam explicar o seu emprego. Assim, o emprego de estrategia morfologica na escrita se mostraria posterior ao uso de outras estrategias como a alfabetica e a lexical (Nunes et al., 1997a, 1997b).

Em ambos os casos, as evidencias empiricas sao oriundas, em sua grande maioria, de investigacoes em lingua inglesa (Deacon, 2008). Do ponto de vista fonologico, o ingles e uma lingua bastante irregular. O uso de estrategias fonologicas na escrita do ingles sofre, portanto, serias limitacoes, o que impoe o recurso a estrategias de escrita de outra natureza (Correa, Maclean, Meireles, Lopes & Glockling, 2007). No Portugues Brasileiro, por outro lado, ha uma expressiva influencia da fonologia tanto para a leitura (Correa, 2014), como para a escrita (Correa et al, 2007). Nesse sentido, uma contribuicao importante para o exame do uso da morfologia na escrita poderia vir de investigacoes realizadas em ortografias relativamente transparentes, ou seja, que apresentem regularidades de natureza fonologica e que, ao mesmo tempo, possuam estrutura morfologica complexa, como e o caso do Portugues Brasileiro.

As pesquisas realizadas no Portugues Brasileiro visam, em sua maioria, determinar, quer na leitura, quer na escrita, a importancia da consciencia morfologica independentemente da influencia exercida pela consciencia fonologica (Guimaraes, 2005, 2011). A escrita, no caso, e avaliada em relacao ao desempenho ortografico da crianca, nao sendo particularizada a grafia de regularidades morfologicas da lingua (Mota, Anibal, & Lima, 2008). Por meio de ditado, e examinada a escrita de palavras como de texto. Em menor numero, estao os estudos acerca do desenvolvimento da consciencia morfologica em criancas e da validade e fidedignidade das tarefas empregadas para avaliacao desa habilidade (Mota, 2012a; Mota et al., 2008; Mota, Santos, & Guimaraes, 2014). Estudos que investigam especificamente a grafia de regularidades morfologicas pelas criancas sao ainda em menor frequencia. A escrita das criancas e examinada de duas formas: (a) por meio de palavras morfologicamente complexas e de palavras pseudoprefixadas (Miranda & Mota, 2011); (b) pela escrita de regularidades morfologicas da lingua (Meireles & Correa, 2006; 2005).

No Portugues Brasileiro, a investigacao do papel da consciencia morfologica para o aprendizado da escrita tem sido objeto de um numero crescente de investigacoes (Cardoso, Leandro, & Vidigal de Paula, 2010; Guimaraes & Vidigal de Paula, 2010; Mota, 2012b). Encontram-se evidencias empiricas de que a consciencia morfologica tem uma contribuicao independente da consciencia fonologica para o dominio do sistema de escrita por criancas brasileiras (Mota, 2008; Mota et al., 2008). No entanto, a extensao de seu efeito como tambem o quao cedo a crianca faz uso desse conhecimento ainda necessitam de um corpo maior de evidencias empiricas.

O presente estudo pretende, entao, examinar o emprego da morfologia na escrita de regularidades morfologicas por criancas brasileiras com escolaridade entre o 3. ano e o 5. ano do ensino fundamental. O 3o. ano finaliza o processo de alfabetizacao, encerrando, assim, um ciclo de ensino que tem como foco o aprendizado do sistema de escrita. O 5. ano, por seu turno, marca o final do primeiro ciclo do ensino fundamental, em outros termos, a antiga escola primaria. Intentamos, assim, examinar o emprego da morfologia na escrita segundo as diferentes etapas da escolaridade no ensino fundamental como sua possivel variacao e padrao de desenvolvimento.

No Portugues, a terminacao /eza/ e escrita eza, quando em morfema derivacional formador de substantivos abstratos (beleza, pobreza), ou esa, quando em morfema empregado na geracao de forma feminina como em baronesa e norueguesa. Por sua vez, a terminacao /ise/ e escrita ice, na grafia de morfema derivacional usado em substantivo abstrato (velhice, chatice) ou isse, na grafia da sequencia de morfemas flexionais -isse (-i, vogal tematica + -sse, morfema modo temporal do preterito perfeito do subjuntivo), como, por exemplo, para o subjuntivo (partisse). Nesses casos, estrategias de natureza fonologica seriam de pouca utilidade para a crianca na solucao da ambiguidade apresentada na escrita de tais terminacoes. O emprego desses morfemas em palavras de baixa frequencia (Pinheiro, 1996) foi utilizado como estrategia de controle para o emprego de estrategia lexical na escrita, de forma a permitir a grafia de tais terminacoes por meio do emprego de estrategia de natureza morfologica.

Metodo

Participantes

Concordaram em participar da pesquisa 191 criancas, estando 64 no 3 ano (idade media = 8 anos e 5 meses), 63 no 4. ano (idade media = 9 anos e 6 meses) e 64 no 5. ano (idade media = 10 anos e 8 meses) de uma escola da rede publica de ensino do Rio de Janeiro, em um bairro de nivel socioeconomico medio. A realizacao da pesquisa foi autorizada pela Secretaria Municipal de Educacao e pela equipe pedagogica da propria escola. A participacao das criancas foi autorizada pelos responsaveis, que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Procedimentos

Foram feitos ditados de trissilabos de baixa frequencia (Pinheiro, 1996), incluindo palavras contendo os morfemas -esa (duquesa, freguesa, tigresa, chinesa) e -eza, (riqueza, tristeza, pobreza, limpeza) e os morfemas -ice (chatice, meiguice, velhice, burrice) e a sequencia de morfemas -isse, (ouvisse, cumprisse, fugisse, sumisse). As palavras foram distribuidas em quatro diferentes listas de ditados em meio a outras palavras, de forma que as criancas nao pudessem encontrar um padrao de escrita que pudesse ser repetido.

Resultados

O exame das transgressoes ortograficas realizadas pelas criancas nos contextos criticos, ou seja, na grafia das terminacoes /eza/ ou /ise/, foi realizado por meio da Analise de Agrupamentos (Cluster Analysis). De acordo com essa analise, as criancas poderiam ser distribuidas em quatro grupos segundo as grafias produzidas respectivamente para a terminacao /eza/, no emprego dos morfemas -esa e -eza ou para a grafia da terminacao /ise/ pelo emprego dos morfemas -ice e a sequencia de morfemas -isse.

Terminacao /eza/ e a Grafia dos Morfemas

A Tabela 1 apresenta a frequencia media de acertos em cada um dos quatro grupos gerados pela Analise de Agrupamentos (Cluster Analysis) para a grafia dos morfemas eza e esa. A analise contrastiva dos escores nas grafias dos respectivos morfemas permitiu que os quatro grupos fossem descritos como apresentados a seguir.

No grupo 1, foram reunidas as criancas que usam sem preferencia as letras z e s para grafar o fonema /z/ na terminacao /eza/, o que indica que elas reconhecem a existencia de mais de uma forma de representacao para esse fonema. Neste momento, a crianca ainda nao conseguiu formular uma regra que lhe permita gerar as grafias dos morfemas -eza e -esa de forma convencional. Como consequencia, a crianca obtem baixos escores de acerto na grafia de ambos os morfemas.

O segundo grupo reune as criancas cuja representacao do fonema /z/ e feita preferencialmente pela letra z. Tal resultado e indicativo de que as criancas baseiam-se na hipotese alfabetica de que a letra z e a representacao prototipica do fonema em questao. Por conseguinte, grafam de forma convencional o morfema -eza. Por outro lado, como consequencia, apresentam baixos escores na escrita convencional do morfema -esa.

Para as criancas do grupo 3, a letra s e a forma preferencial de representacao do fonema /z/ na terminacao /eza/. Embora a letra s seja prototipicamente associada ao fonema /s/, as criancas, pautadas na sensibilidade que possuem em relacao a fonologia e ao entendimento da modificacao do valor sonoro da letra segundo sua posicao na palavra escrita, reconhecem a legitimidade da letra s na representacao do fonema /z/. Dessa forma, o morfema esa e escrito de forma convencional. Por outro lado, sao observados baixos escores na escrita, segundo a norma ortografica, do morfema -eza.

No quarto e ultimo grupo, o exame da Tabela 1 mostra que a proporcao de acertos na escrita de ambos os morfemas e significativamente maior do que o esperado pelo uso indistinto das letras s e z para grafia do fonema /z/ na terminacao /eza/. Tais escores sugerem que as criancas sejam capazes de fazer uso da informacao morfologica para a grafia de ambos morfemas.

A Escolaridade e a Grafia dos Morfemas

De forma a examinar o emprego do conhecimento morfologico na escrita da crianca do 3. ano ao 5. ano do Ensino Fundamental, examinamos a distribuicao das criancas nos grupos resultantes da Analise de Agrupamentos segundo sua escolaridade (Tabela 2).

A porcentagem de criancas classificadas em cada um dos padroes de grafia variou consideravelmente segundo a escolaridade das criancas, indicando uma mudanca no uso que a crianca faz da informacao morfologica na escrita da terminacao /eza/ ao longo da escolaridade. Ao final do processo de alfabetizacao, existe um grupo de criancas que demonstra poder fazer uso da morfologia na escrita de ambos os morfemas. Tais criancas representam apenas 15% do total das criancas entrevistadas no 3. ano. No 4. ano, a percentagem de criancas que empregam a informacao morfologica em sua escrita dobra quando comparada ao ano anterior. Tal porcentagem, porem, equivale a um terco das criancas entrevistadas no 4. ano. A percentagem de criancas no 5. ano que seriam capazes de grafar consistentemente as terminacoes /eza/ em ambos os morfemas foi de 45%, menos da metade das criancas entrevistadas no 5. ano. Tais resultados indicam que, para a maioria das criancas, o emprego efetivo da informacao morfologica na grafia da terminacao /eza/ para os morfemas -eza e -esa nao se realiza ao fim do primeiro segmento do ensino fundamental.

Importante observar que as criancas no 3. ano apresentam a maior porcentagem relativa de grafias que indicam a generalizacao da letra z para a grafia do fonema /z/ na terminacao /eza/. Em outras palavras, pouco mais de um terco das criancas ao final do processo de alfabetizacao parecem ter a letra z como a representacao prototipica do fonema /z/ em qualquer contexto de sua ocorrencia, sugerindo assim a predominancia de uso de uma estrategia alfabetica para a escrita dos morfemas.

Por outro lado, e tambem expressiva a porcentagem de criancas que do 3. ao 5. ano baseiam sua grafia da terminacao /eza/ predominantemente no emprego da letra s. A porcentagem desse grupo varia pouco em tres anos de escolaridade, perfazendo dois quintos das criancas entrevistadas em cada ano escolar. As criancas fazem uso de seu conhecimento de que a letra s pode ser tambem uma legitima representacao do fonema /z/ quando entre vogais e tendem a transpo-lo para a escrita da terminacao /eza/. Tal conhecimento poderia ser atribuido ao reconhecimento de que o valor sonoro de uma letra pode variar segundo a sua posicao na palavra. Conhecimento para o qual e plausivel que a experiencia da crianca com palavras simples e de alta frequencia como mesa ou casa possa ser tomada como referencia. Seja qual for a explicacao, o principal parametro para as criancas desse grupo permanece em nivel fonologico.

Finalmente, um pequeno grupo de criancas chama atencao por nao apresentarem um padrao especifico para o emprego das letras z ou s na escrita de ambos os morfemas. Tais criancas reconhecem a existencia de mais de uma forma de representacao do fonema /z/ nesses contextos criticos. Tal conhecimento as faz renunciar ao emprego de uma estrategia alfabetica nesses casos, sem que, no entanto, encontrem outra estrategia para resolver o conflito com que se deparam. Esse grupo de criancas nao apresenta qualquer padrao sistematico para o emprego das letras, nao se valendo quer de uma estrategia lexical, quer tendo sequencias fonologicas como referencia, como no caso da rima ou mesmo tendo como criterio de frequencia de letras. A escrita ortografica, em casos de competicao de letras para a representacao de uma classe de fonemas em um mesmo contexto, parece a essas criancas um jogo de sorte (guessing game) ou de azar, segundo sua experiencia de sucesso ou fracasso na escola.

Terminacao /ise/ e a Grafia dos Morfemas

A proporcao media dos escores de cada grupo gerados pela Analise de Agrupamentos para a grafia do morfema ice e da sequencia de morfemas -isse e apresentada na Tabela 3. A analise contrastiva dos escores nas grafias dos morfemas permitiu a descricao dos grupos como apresentados a seguir.

As criancas do grupo 1 reconhecem a existencia de mais de uma forma de representacao para o fonema /s/. As letras majoritariamente empregadas para a representacao do fonema sao c, s e ss. As criancas usam, sem qualquer criterio aparente, essas formas de representacao para grafar a terminacao / ise/, obtendo, assim, baixos escores para a escrita tanto da sequencia de morfemas -isse, quanto do sufixo -ice.

No grupo 2, estao as criancas que utilizam preferencialmente a letra c para representar o fonema /s/. E plausivel que essas criancas empreguem seu conhecimento do nome da letra como representacao possivel do fonema em questao. E tambem possivel que o emprego da letra c seja generalizado para a terminacao /ise/ em funcao do morfema -ice ser extremamente produtivo (Quadros, 2011) e, por outro lado, do emprego do imperfeito do subjuntivo poder ser evitado na escrita dos escolares, sendo substituido pelo imperfeito do indicativo (Mexias-Simon, 2010). De uma forma ou de outra, as criancas escrevem convencionalmente apenas as palavras finalizadas com o morfema -ice. Esse e o grupo que concentra o maior numero de criancas.

O grupo 3 reune as criancas que empregam preferencialmente o digrafo ss na grafia das palavras terminadas em /ise/. Neste momento, a crianca tem provavelmente como referencia o emprego da letra s por seu valor como representacao nao so prototipica como mais frequente do fonema /s/, aliada a utilizacao do digrafo ss quando o referido fonema nao esta no inicio das palavras e entre vogais. Dessa forma, as criancas escrevem de forma convencional os verbos com terminacao em isse.

No grupo 4, as criancas escreveram, com maior frequencia, ambos os morfemas de forma convencional. Tal desempenho expressa o recurso a informacao de natureza morfologica.

A Escolaridade e a Grafia dos Morfemas

A Tabela 4 mostra o desempenho dos grupos para a terminacao /ise/ e suas grafias segundo a escolaridade. Observa-se que a distribuicao das criancas nos diferentes grupos variou consideravelmente segundo a escolaridade das criancas.

A percentagem de criancas que generalizam a grafia da terminacao /ise/ como ice mantem-se relativamente estavel do 3. ao 5. ano, correspondendo a pelo menos um terco das criancas entrevistadas em cada ano escolar. Diferentemente do que ocorre com a grafia da terminacao /eza/, o aumento de maior expressividade no percentual de criancas que empregam a informacao morfologica para a terminacao / ise/ ocorre apenas no 5. ano. No entanto, a porcentagem de criancas que, nessa etapa da escolaridade, conseguiu fazer uso da informacao morfologica foi inferior a um terco dos entrevistados. De maneira similar ao que aconteceu com a grafia dos sufixos -eza e -esa, o emprego da morfologia para a escrita do morfema ice ou da sequencia de morfemas -isse nao se completa ainda no 1o. segmento do ensino fundamental.

Discussao

O emprego da morfologia na escrita de criancas do 3. ao 5. ano do ensino fundamental foi examinado nos contextos criticos da terminacao /eza/ para os morfemas -eza e -esa e da terminacao /ise/ para o morfema ice e a sequencia de morfemas -isse. O exame da escrita convencional dos morfemas para cada uma das terminacoes possibilitou reunir as criancas em grupos distintos. Os grupos formados poderiam ser assim descritos para ambas as terminacoes analisadas: (a) uso indiscriminado das formas de grafar as respectivas terminacoes, sugerindo que as criancas reconhecem que ha formas diversas de escrever as respectivas terminacoes, porem sao incapazes de decidir entre tais formas, parecendo que, por utilizarem a informacao morfologica na escrita, o uso de uma ou outra letra nao obedece, ainda, a um criterio consistente; (b) preferencia por uma das formas de grafar uma dada terminacao, o que faz com que o numero de acertos seja significativamente maior para a grafia de um morfema do que de outro; (c) uso preferencial por outra forma de grafar a respectiva terminacao, o que gera um numero significativamente maior de acertos na grafia do outro morfema; (d) obtencao de escores acima do nivel de chance na grafia convencional dos morfemas, sugerindo o uso da morfologia para resolver a ambiguidade fonologica que se apresentava para cada uma das terminacoes analisadas.

Padrao semelhante na grafia de ambas as terminacoes foi encontrado na constituicao dos grupos, ao longo da escolaridade. Isso sugere certa regularidade no emprego dos conhecimentos fonologicos e morfologicos pelas criancas. De maneira geral, as criancas no 3o. ano, ao se depararem com alguma ambiguidade a ser resolvida na grafia de ambas as terminacoes, valeram-se quer de seu conhecimento do nome das letras, quer da hipotese alfabetica de regularidade absoluta entre fonema-grafema, escolhendo o grafema considerado prototipico para a representacao do fonema. Tais procedimentos podem ser observados quer na representacao sistematica do fonema /z/ pela letra z na terminacao /eza/ ou, pela grafia do fonema /s/ pela letra c na terminacao /ise/. O emprego dessas representacoes do conhecimento da escrita tende a diminuir com a escolaridade para as ambiguidades na escrita de morfemas de uso corrente. No entanto, quando o morfema nao tem emprego corrente nos sintagmas que compoem a fala e a escrita das criancas, como no caso dos verbos no modo subjuntivo, tais estrategias tendem a prevalecer nas series posteriores ao 3. ano.

A generalizacao da representacao do fonema /z/ pela letra s e a generalizacao da representacao do fonema /s/ pelo grafema ss coincide com o reconhecimento da existencia de regularidades de contexto. Um grupo de criancas nos mostra que o reconhecimento de que a grafia das palavras nem sempre obedecia ao principio da regularidade absoluta entre fonema e grafema nao leva a crianca ao estabelecimento de uma regularidade ou de uma estrategia regular. Assim, observase que a crianca nao consegue resolver a ambiguidade na escrita das terminacoes avaliadas, nao se decidindo por qualquer uma das representacoes de modo sistematico. Isso faz com que as criancas tenham um baixo numero de acertos para a escrita de ambos os morfemas. A crianca nao consegue se decidir pela representacao escrita dos morfemas porque nao pode ainda estabelecer uma regularidade que lhe permita escrever os morfemas de forma convencional. A grafia aparece, entao, como um jogo de adivinhacao para a crianca, ja que tal ambiguidade nao pode ser resolvida de forma satisfatoria por ela.

O emprego sistematico do conhecimento morfologico surge para a maioria das criancas de forma consistente a partir do 4 ano, quando as palavras formadas podem ser incluidas em sintagmas de uso corrente, como e o caso das palavras formadas com os morfemas eza e esa. Mesmo no caso desses morfemas, tal conhecimento nao e empregado por quase metade das criancas do 5. ano. No caso dos morfemas presentes em vocabulos empregados em sintagmas que nao sao usuais nos contextos de fala ou de escrita, como no caso do morfema isse, 70% das criancas no 5o. ano nao conseguem ainda grafar tal morfema de acordo com a norma. Tais resultados mostram que, ate o final do primeiro segmento do ensino fundamental, grande parte das criancas tenta resolver as ambiguidades na grafia basicamente em nivel fonologico.

Em relacao ao debate acerca de quando a morfologia seria efetivamente empregada pelas criancas em sua escrita, observamos que esse emprego nao se efetiva ainda no ultimo ano do primeiro segmento do ensino fundamental para a maioria das criancas analisadas. E possivel que o uso da morfologia na escrita seja, portanto, uma aquisicao tardia no Portugues Brasileiro (Nunes et al., 1997a, 1997b). Contudo, seria tambem possivel que o uso da informacao morfologica na escrita do Portugues Brasileiro nao se efetivasse sequer em anos ulteriores de escolaridade (Deacon, 2008). No entanto, nao podemos, ainda, decidir por qualquer uma das duas hipoteses com os dados existentes. Tal decisao so podera ser tomada em se estendendo a investigacao para os anos escolares que se seguem ao 5. ano, isto e, ao termino do 1. segmento do ensino fundamental.

A realizacao de analise transversal baseada na comparacao do desempenho medio das criancas em diferentes etapas de sua escolaridade fornece evidencias empiricas acerca de um marco tardio no emprego da estrategia morfologica para a maioria das criancas de desenvolvimento tipico (Nunes et al., 1997a, 1997b). No entanto, ao fazermos tal tipo de analise nos esquecemos de um grupo de criancas de desenvolvimento tipico que comecam, ja no 3. ano, a fazer uso dos conhecimentos morfologicos na escrita. A porcentagem de criancas que empregam de forma sistematica a informacao morfologica na escrita para as terminacoes /eza/ e /ise/ e de cerca de 15%. Dessa forma, e possivel que o emprego de estrategia morfologica na escrita possa ocorrer mais cedo do que o esperado para um pequeno grupo de criancas. Tornase importante que investigacoes futuras possam examinar as habilidades linguistico-cognitivas dessas criancas, de forma que possamos entender a razao pela qual um grupo de criancas seja mais sensivel a informacao morfologica na escrita do que a media de seus pares.

O emprego do conhecimento morfologico na escrita da crianca no Portugues do Brasil e, portanto, bem mais complexo do que se poderia imaginar a partir das evidencias empiricas baseadas na analise do marco no desenvolvimento em que tal fato se torna possivel. Embora as evidencias oriundas de nosso estudo com as terminacoes /eza/e/ise/ contribuam para a discussao de modelos dicotomicos para o desenvolvimento do conhecimento morfologico na crianca, investigacoes ulteriores sao necessarias para outras regularidades morfologicas no Portugues Brasileiro.

Finalmente, quanto a relacao entre a fonologia e a morfologia, seria possivel que a eficacia do emprego do conhecimento fonologico pela crianca seja um fator que retardaria o desenvolvimento de uma estrategia morfologica em linguas que apresentassem relativa transparencia nas correspondencias grafofonemicas. A area necessita, ainda, de um corpo maior de evidencias empiricas para que possamos melhor delinear o papel dos conhecimentos fonologico e morfologico na escrita do Portugues do Brasil.

doi: http://dx.doi.org/10.1590/0102.3772e32428

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Recebido em 30.08.2013

Primeira decisao editorial em 10.04.2015

Versao final em 10.04.2015

Aceito em 11.06.2015

Jane Correa (2)

Universidade Federal do Rio de Janeiro

Juliana Lugarinho

Secretaria Municipal de Saude da Prefeitura do Municipio do Rio de Janeiro

Nicole Colucci

Instituto de Aplicacao Fernando Rodrigues da Silveira, CAp--UERJ

(1) Agradecemos ao CNPq e a FAPERJ--Edital Cientista do Nosso Estado pelo apoio concedido, sem o qual a realizacao deste trabalho nao teria sido possivel. Agradecemos a Secretaria Municipal de Educacao do Municipio do Rio de Janeiro e a 2a. CRE pela cooperacao, as criancas e seus professores pelo muito que nos ensinaram acerca do aprendizado da escrita e a Camila Roque pela sua participacao na coleta e tabulacao dos dados.

(2) Endereco para correspondencia: Instituto de Psicologia--UFRJ, Avenida Pasteur, 250, Urca, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CEP: 22.290-902. E-mail: jane.correa@pq.cnpq.br
Tabela 1. Proporcao media de acertos nas grafias da terminacao
/eza/ segundo os grupos resultantes da Analise de Agrupamentos

                     Morfemas

                   EZA     ESA

Grupo 1   Media   0,14    0,16
(n=16)    DP      0,13    0,13

Grupo 2   Media   0,75    0,21
(n= 39)   DP      0,19     0,2

Grupo 3   Media   0,11     0,8
(n=75)    DP      0,12    0,19

Grupo 4   Media   0,66    0,81
(n=61)    DP       0,2    0,16

Tabela 2. Distribuicao das Criancas de acordo com as grafias
da terminacao /eza/ segundo os grupos resultantes da Analise de
Agrupamentos em funcao da escolaridade (%)

                 Escolaridade

          3o ano   4o ano   5o ano

          (n=64)   (n=63)   (n=64)

Grupo 1     6        14       5
Grupo 2     38       10       14
Grupo 3     41       41       36
Grupo 4     15       35       45

Tabela 3. Proporcao media de acertos nas grafias da terminacao
/isI/ segundo os grupos resultantes da Analise de Agrupamentos

                     Morfemas

                   EZA     ESA

Grupo 1   Media   0,12    0,13
(n=47)    DP      0,19    0,13

Grupo 2   Media     0     0,75
(n=51)    DP        0      0,2

Grupo 3   Media   0,91    0,24
(n=17)    DP      0,12    0,11

Grupo 4   Media   0,52    0,74
(n=30)    DP      0,25    0,19

Tabela 4. Distribuicao das Criancas de acordo com as grafias
da terminacao /isI/ segundo os grupos resultantes da Analise de
Agrupamentos em funcao da escolaridade (em %)

                 Escolaridade

          3o ano   4o ano   5o ano

          (n=51)   (n=43)   (n=51)

Grupo 1     49       23       24
Grupo 2     33       40       33
Grupo 3     2        21       14
Grupo 4     16       16       29
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Title Annotation:ARTIGO ORIGINAL
Author:Correa, Jane; Lugarinho, Juliana; Colucci, Nicole
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Date:Oct 1, 2016
Words:5387
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