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Changes in Father Involvement During the First Six Months of the Baby in the Child Care/Transformacoes no Envolvimento Paterno ao Longo dos Seis Primeiros Meses do Bebe na Creche.

A passagem para um novo estagio de vida pode ter implicacoes intensas para o individuo, assim como para o funcionamento do sistema familiar (Carter & McGoldrick, 1995; Hintz, 2001; Minuchin, 1982). Em particular, a inauguracao do subsistema parental, representado pela gravidez, nascimento e primeiros meses do bebe, e caracterizada como um dos maiores desafios vividos pela familia (Bradt, 1995), implicando em uma mudanca importante nos papeis familiares.

O papel de pai tem sido considerado como um dos mais afetados pelas transformacoes vividas pelo homem na contemporaneidade (Parke, 1997). A participacao da mulher no mercado de trabalho tem sido sugerida frequentemente como uma das principais fontes de mudancas nos papeis parentais e no modo como a familia se organiza. Entre outras modificacoes, a maior participacao paterna e a necessidade de terceiros no cuidado e na educacao dos seus filhos tornaram-se as mais evidentes (Hintz, 2001; Seabra, 2007; Vitoria & Rossetti-Ferreira, 1993). Outras mudancas ambientais ocorridas nas ultimas decadas, como a invencao de um arsenal de instrumentos, instituicoes e saberes para a criacao dos filhos, transformaram o modo como pais e maes vivem a rotina com seu bebe (Dessen, 2010). Desde produtos de higiene e alimentacao especificos para bebes, ate mesmo a criacao de um sistema educacional de cuidados alternativos aos familiares, foram constituidos para dar conta da complexidade e das exigencias de ter um bebe na atualidade (Lamb, Pleck, Charnov, & Levine, 1985).

Os cuidados alternativos tem um importante papel na vida de pais e maes, uma vez que, alem da rotina de trabalho ser intensa para ambos, dificilmente poderao contar com a familia de origem para ajudar nos cuidados do bebe, opcao mais utilizada quando a prioridade e deixar o bebe em casa (Seabra, 2007), seguida da baba/empregada (Rapoport & Piccinini, 2004), considerando o contexto brasileiro. Essa impossibilidade acontece pelo motivo de os avos estarem distantes geograficamente ou tambem pelo fato de que aquele modelo antigo de avos e tias disponiveis pela aposentadoria ja nao e realidade para a maioria das familias (Lamb, 1999; Rapoport & Piccinini, 2004).

Entretanto, os cuidados alternativos aos da mae, do pai, da baba ou da familia extensa sao necessarios principalmente quando a mae volta ao trabalho apos um periodo de recuperacao do parto e do periodo inicial de amamentacao (Rapoport & Piccinini, 2004), ou quando a protecao legal da licenca maternidade termina (Lordelo, 1997). Frente a essas questoes, a opcao de cuidado mais frequente no mundo ocidental passa a ser a creche (Lordelo, 1997; Rapoport & Piccinini, 2001).

O pai, como figura frequentemente percebida como distante e pouco participativa do cuidado com o bebe (Vieira et al., 2014), torna-se importante e essencial nesse cenario, uma vez que a mae tambem esta envolvida com suas questoes profissionais e a creche precisa da colaboracao da familia para ser um ambiente adequado para o bebe. O envolvimento paterno tende a variar de acordo com as situacoes que sao impostas a familia (Parke, 1997) e o fato de o bebe frequentar a creche pode ser um fator que tambem afeta o envolvimento do pai, uma vez que se caracteriza por um ambiente a mais responsavel pelo cuidado do bebe, com caracteristicas e exigencias proprias.

Embora seja possivel encontrar algumas publicacoes sobre a paternidade de bebes que frequentam creche (p. ex., Atkinson, 1987, 1991; Ceglowski, Shears, & Furman, 2010; Crepaldi, Andreani, Hammes, Ristof, & Abreu, 2006; Fagan, 1994, 1997; Frieman & Berkeley, 2002; Seabra, 2007), a grande parte dos estudos possui como foco o envolvimento do pai com a creche do bebe e nao ha investigacoes de como se da o envolvimento do pai com o bebe que frequenta a instituicao. Nesse sentido, o presente estudo teve por objetivo investigar as transformacoes no envolvimento paterno com o bebe que frequenta a creche, assim como no envolvimento com a creche do bebe ao longo dos seis primeiros meses do bebe na creche.

A escolha por essa perspectiva teorica se deu em funcao da escassez de um conceito consolidado no estudo da paternidade em diversos estudos nacionais e internacionais localizados sobre o tema. O estudo da paternidade atraves de um conceito integrado tem sido enfatizado a fim de se entenderem as dinamicas dessa vivencia de maneira padronizada (Cabrera, Tamis-LeMonda, Lamb, & Boller, 1999). Investir no estudo da paternidade atraves do modelo de envolvimento paterno proposto por Lamb et al. (1985), atentando para as peculiaridades do conceito, tem sido uma sugestao de pesquisadores da area e esta sendo levado em consideracao para a presente pesquisa. Cabe, entao, apresentar brevemente os seus principais componentes.

O modelo de envolvimento paterno estrutura-se atraves de tres componentes: (a) interacao, (b) disponibilidade e (c) responsabilidade. A categoria Interacao refere-se ao contato direto do pai com seu filho, por meio do cuidado e atividades compartilhadas. Diz respeito aos cuidados, brincadeiras, passeios, estimulos, entre outras interacoes diretas do pai com seu filho. Foram incluidas nessa categoria as interacoes do pai com a creche que o bebe frequenta. A categoria Disponibilidade e um aspecto relacionado a acessibilidade fisica e psicologica, o que oportuniza a interacao com a crianca. Esse componente permite, mas nao requer, uma interacao face-a-face. A acessibilidade do pai para a interacao com a creche foi incluida nessa categoria. A categoria Responsabilidade se refere ao papel do pai de garantir que a crianca seja cuidada e que os recursos estejam disponiveis para a crianca. Responsabilidade tambem inclui ansiedade, preocupacoes e planejamentos que fazem parte da parentalidade, incluindo, assim, a responsabilidade pelos cuidados alternativos adotados para o filho (Lamb et al., 1985). Nesse sentido, o presente estudo investigou as transformacoes no envolvimento paterno, a partir de seus tres componentes ao longo dos seis primeiros meses do bebe na creche.

Metodo

Participantes

Participaram do estudo quatro pais de bebes que ingressaram no bercario de uma creche universitaria publica no ano de 2011, entre 32 e 36 anos de idade no inicio da coleta de dados, residentes em Porto Alegre, RS. Eles foram selecionados a partir da amostra do estudo Impacto da Creche no Desenvolvimento Socioemocional e Cognitivo infantil: Estudo Longitudinal do Primeiro ao Segundo Ano de Vida da Crianca (CRESCI; Piccinini, Becker, Martins, Lopes, & Sperb, 2010), que recebeu aprovacao do Comite de Etica e Pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS; Processo no 2010070, de 06/12/2010).

Entre os 54 pais acompanhados nesse projeto, os quatro pais foram selecionados para este estudo com base nos seguintes criterios: (a) idade inicial superior a 25 anos e inferior a 40 anos, (b) realizacao de todas as etapas de coleta de dados ao longo de 2011 e (c) manutencao da relacao de casal, com coabitacao, no minimo, desde a gestacao. Para o bebe, os criterios foram: (a) ter ingressado em uma creche publica ligada a universidade em marco de 2011, (b) no momento do ingresso, estar em torno dos seis meses de vida e (c) nao ter problemas de saude graves (ver Tabela 1). Todas as maes eram funcionarias publicas da universidade e eram participantes do CRESCI (Piccinini et al., 2010).

Delineamento, Procedimentos e Instrumentos

Foi utilizado um delineamento de estudo de caso coletivo (Stake, 1994), de carater longitudinal, buscando investigar as transformacoes no envolvimento de pais de bebes que estao na creche. Cada caso foi investigado em tres momentos: antes da entrada na creche, um mes e seis meses apos a entrada na creche.

Conforme procedimento estipulado no projeto CRESCI (Piccinini et al., 2010), os pais foram contatados inicialmente na creche, durante entrevistas de rotina realizadas pelos profissionais na instituicao. Nessa ocasiao, foi realizada uma breve apresentacao da pesquisa aos pais e os mesmos foram informados que, no momento em que o bebe ingressasse na creche, a pesquisadora retomaria o contato. No caso dos pais que nao estiveram presentes nesse primeiro momento, o convite foi feito por meio da mae do bebe. Quando o contato foi retomado, os pais foram convidados a participar da pesquisa e, apos o aceite, assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os pais que concordaram em participar do estudo foram vistos individualmente, na UFRGS ou na creche, em horario agendado previamente.

Na entrada do bebe na creche, o pai foi solicitado a preencher a Ficha de Dados Demograficos da Familia (Nucleo de Infancia e Familia [NUDIF--UFRGS], 2011d) e a responder a Entrevista sobre a Gestacao, Parto e a Experiencia de Paternidade (NUDIF--UFRGS, 2011a). Essa fase foi realizada ate um dia antes da entrada do bebe na creche, uma vez que se objetivava investigar como o envolvimento paterno acontece antes do ingresso do bebe na instituicao, permitindo comparar as transformacoes do envolvimento paterno antes e depois da creche.

Ao final do primeiro mes de cada bebe na creche, o pai respondeu a Entrevista sobre a Adaptacao do Bebe a Creche --Versao do Pai (NUDIF--UFRGS, 2011b), uma vez que o foco dessa fase foi o processo de adaptacao do bebe a creche. Aos 6 meses apos a primeira coleta, os pais responderam a Entrevista sobre o Envolvimento Paterno na Rotina do Bebe (NUDIF--UFRGS, 2011c), com a finalidade de acompanhar as transformacoes do envolvimento paterno no decorrer dos meses. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas literalmente para analise.

Resultados

A analise de conteudo qualitativa (Bardin, 1977; Laville & Dionne, 1999) das entrevistas foi utilizada para investigar, em cada caso, o envolvimento paterno na entrada do bebe na creche (por volta dos 6 meses de idade do bebe), na adaptacao do bebe a creche e apos 6 meses da entrada do bebe na creche (cerca dos 12 meses de idade do bebe). Assim, as categorias estabelecidas--Interacao, Disponibilidade e Responsabilidade--basearam-se nas dimensoes de envolvimento paterno de Lamb et al. (1985).

A partir da identificacao desses temas nas entrevistas, elaborou-se um relato longitudinal de cada caso. Com base nesse procedimento, apresenta-se uma breve descricao de cada caso ao longo dos tres momentos investigados (1). Apos a exposicao dos quatro casos, sao discutidas as semelhancas entre eles no que se refere as transformacoes na interacao, disponibilidade e responsabilidade do pai com o bebe que frequenta a creche e com a instituicao.

Caso 1--De Mae a Pai: O Caso de Mateus, Gisele e Carolina (2)

Interacao. Antes da entrada de Carolina na creche, Mateus realizava todas as tarefas de cuidado da filha ao longo do dia, alem dos momentos de brincadeiras, que objetivavam estimular e distrair o bebe. O pai sentia-se "como uma mae" ao dedicar-se inteiramente para o bebe e ao atender as necessidades da filha. Com a entrada de Carolina na creche, Mateus passou a fazer viagens a trabalho. Nas suas ausencias, a avo materna assumia os cuidados da neta. Com relacao a creche, o pai participou da adaptacao da filha, permanecendo na instituicao enquanto a filha passava as suas primeiras horas com as educadoras. No entanto, a interacao com a creche foi assumida pela esposa, pois o pai sentia-se insatisfeito com a relacao que as educadoras estabeleciam com os genitores. O pai acreditava que as educadoras nao passavam informacoes precisas sobre a rotina da filha. Seis meses apos a entrada de Carolina na creche, o pai, quando estava em casa, continuava assumindo os cuidados da filha--alimentacao, banho, trocas de roupa e fralda. No entanto, com a maior frequencia das viagens do pai, esses momentos se restringiram aos finais de semana e alguns dias da semana. As interacoes por meio de brincadeiras tambem se mantiveram, principalmente com fins de estimulacao. Com relacao a creche, o pai costumava buscar o bebe no fim do turno da manha, por volta das 14 horas. Apos os 6 meses frequentando a creche, o pai passou a interagir com as educadoras, conversando sobre o que a filha fez durante o periodo em que permanecia na instituicao: "Todo o dia eu ia la falava com a mocinha da portaria, entrava, sabia o nome de todos os amigos da Carol, conhecia todos".

Disponibilidade. Na primeira fase, o pai possuia um emprego cuja carga horaria ocupava 5 dias do mes. Nos outros dias, o pai permanecia em casa cuidando da filha e da rotina da familia. O pai tambem costumava trabalhar em casa, em projetos pessoais, estando disponivel para a filha, mesmo que nao estivesse em interacao direta. No entanto, por ser um bebe, Carolina demandava interacao constante, o que impedia ao pai dedicar-se o quanto e como gostaria para o trabalho e para si mesmo. O pai acreditava que a grande disponibilidade que possuia tambem estava fazendo com que a esposa se afastasse dele, pois nao estava de acordo com o que se esperaria tradicionalmente de um pai ou marido. Com a entrada do bebe na creche, o pai pode destinar o periodo que o bebe estava na creche para dedicar-se ao trabalho e, quando a filha voltava da creche, o pai assumia novamente os cuidados. O pai mostrou-se saudoso por ficar longe do bebe e lamentou precisar abrir mao do convivio com a filha para assumir um lugar tradicional de marido e pai. Seis meses apos a entrada na creche, ao realizar viagens constantes, a disponibilidade de Mateus para a filha alterou-se em grande parte, em comparacao com a primeira fase. Os finais de semana passaram a ser os principais dias em que o pai estava disponivel para a filha. O pai entendia que, com essa mudanca, conseguiu oferecer mais qualidade na interacao com a filha, dedicando-se com exclusividade, ao contrario das fases anteriores em que havia quantidade de tempo, mas o pai dividia-se entre o cuidado da filha e o trabalho. Com isso, o pai percebeu que a creche tambem se dedicava exclusivamente para o cuidado e estimulacao dos bebes, valorizando esse espaco.

Responsabilidade. Na primeira fase, o pai preocupavase em garantir um desenvolvimento saudavel da filha tanto em nivel fisico como cognitivo e emocional, levando-a a especialistas quando possuia alguma preocupacao maior. Na rotina diaria, o pai preocupava-se em oferecer estimulos para que a filha se desenvolvesse por meio de brincadeiras, passeios e atraves de uma relacao saudavel com o pai e a mae. Nesse sentido, o pai preocupava-se com a entrada da filha na creche, pensando em um possivel sofrimento da filha por estar afastada de casa, embora reconhecesse que, na creche, a filha entraria em contato com outras pessoas, o que beneficiaria seu desenvolvimento. Por contribuir com grande parte da renda familiar, o pai se preocupava com os aspectos financeiros da familia, fato que tambem o fez buscar outras fontes de renda. No periodo de adaptacao a creche, o pai preocupava-se com o desenvolvimento emocional do bebe, principalmente com a reacao da filha ao novo contexto. O pai passou a se preocupar com a educacao da filha, pois agora estava sob cuidados de outras pessoas que nao seus genitores (avo materna e creche). Em relacao a creche, a maior preocupacao do pai era quanto a alimentacao da filha, pois temia que o modo como a creche oferecia os alimentos pudesse causar uma regressao no desenvolvimento da filha. Na terceira fase, percebeu-se que a principal preocupacao de Mateus era quanto ao desenvolvimento emocional da filha, principalmente no que se refere aos possiveis efeitos de sua relacao conjugal e do ambiente familiar que oferecia a filha. O pai acreditava que a filha percebia quando o casal estava bem e quando estava em conflito, sendo que essa ambiguidade poderia ter um impacto no desenvolvimento emocional da filha. Outra preocupacao do pai era quanto ao modo como a mae vinha tratando a filha, referindo-se as reprimendas da mae, as quais o pai acreditava serem exageradas e incongruentes com os comportamentos da filha. Alem disso, mesmo com a mae contribuindo para o orcamento da familia, o pai acreditava que seria a partir de seu esforco que possibilitaria o aumento da renda familiar. Dessa forma, o pai estava preocupado em trabalhar para oferecer para a filha uma educacao de qualidade: "O trabalho gera frutos e daqui a pouco, eu posso ter a seguranca de colocar ela [bebe] em uma escola boa. Isso custa dinheiro! Fica totalmente para mim".

Caso 2--Sou Cogenitor: O Caso de Solano, Fernanda e Gustavo

Interacao. Na primeira fase, Solano realizava todas as atividades voltadas ao bebe de modo compartilhado com a mae. O pai percebia que nao participava com maior frequencia dos cuidados do bebe, pois precisava trabalhar durante o dia e pelo fato de o bebe ser amamentado, necessitando da mae em diversos momentos do dia: "se ele esta com fome, tem que ser com ela [mae]. Nao tem muito assim o que eu fazer, alem de trocar, dar o banho". O pai tambem interagia com o filho por meio de brincadeiras que estimulassem o bebe, demonstrando intenso prazer com o filho. Sobre a creche, o pai participou de reunioes e de visitas para conhecer a creche, sentindo-se seguro com a instituicao. Apos um mes na creche, Solano passou a cuidar do bebe sozinho, quando a mae possuia algum compromisso, alem de realizar tarefas como preparar o material a ser levado a instituicao. Depois que o bebe passou a frequentar a creche, Solano passou a brincar mais com o filho, permitindo-se pegar mais o bebe no colo, fato compreendido pelo pai como uma compensacao pelo dia que o bebe passou longe do pai e da mae. Com relacao a creche, o pai costumava levar o bebe para a instituicao, buscar eventualmente e conversar com as educadoras sobre como o bebe passou o dia ou a noite. Seis meses apos a entrada na creche, alem dos cuidados e brincadeiras ja realizados nas fases anteriores, Solano levava o bebe para a creche de manha e eventualmente o buscava. Nesses momentos, o pai procurava saber sobre o dia do bebe, principalmente sobre a alimentacao. A combinacao entre o pai e a mae era de que quem se liberasse antes das atividades laborais buscaria o bebe na creche. A intencao era permanecer o maior tempo possivel com o bebe em casa.

Disponibilidade. Antes da entrada do bebe na creche, enquanto o bebe e a mae estavam em casa, a rotina do pai estava organizada de modo a permanecer o maior tempo possivel com a familia. O pai ficava em casa no inicio da manha, ao meio-dia, a noite e aos finais de semana. Eventualmente, Solano precisava viajar a trabalho e nao conseguia retornar para o almoco, inclusive passava alguns dias em outras cidades. O pai considerava dificil cuidar do bebe sem a ajuda de alguem, solicitando que a avo materna o substituisse em algumas tarefas. Um mes apos a entrada, com a mudanca na rotina, o pai e a mae passaram a nao se encontrar no intervalo do almoco, enquanto o bebe permanecia na creche. Com a entrada do bebe na creche, Solano entendeu que o pai ou a mae precisava estar disponivel para caso a creche solicitasse que o bebe fosse atendido por um dos responsaveis. Como os horarios de trabalho da mae eram mais rigidos, Solano ficava atento para possiveis contatos e, ainda, buscava outras fontes de apoio quando sabia que nao estaria disponivel, como o apoio do irmao. Com relacao a disponibilidade para interacao em casa, o pai observou que depois que o bebe foi para a creche, os momentos em que o infante brincava sozinho eram mais frequentes e se estendiam por mais tempo. O brincar sozinho possibilitava ao pai que permanecesse disponivel por alguns momentos e nao em interacao direta todo o tempo. Apos seis meses do bebe na creche, percebeu-se que a disponibilidade do pai se manteve desde a fase de adaptacao, organizando a sua rotina pelas necessidades do filho e da creche.

Responsabilidade. Na primeira fase, Solano expressava um sentimento de maior responsabilidade com o nascimento do filho, ao entender que o desenvolvimento, bem-estar e educacao do filho dependiam do cuidado dos genitores. Antes de o filho entrar na creche, o pai preocupava-se com a separacao entre bebe e genitores, considerando-a precoce, embora inevitavel devido a necessidade de ambos os genitores voltarem ao trabalho. Mesmo assim, o pai acreditava que a creche iria trazer beneficios para o desenvolvimento do filho e que ele seria bem cuidado na instituicao. Na adaptacao do bebe a creche, o pai estava atento com o que o bebe comia na instituicao, a qual deveria seguir as recomendacoes medicas de inclusao de novos alimentos, excluindo guloseimas ou alimentos nao saudaveis: "Eu me senti seguro em relacao a eles [creche], sao bem organizados, efetivos. Nesse negocio de comida, que e uma coisa bem nossa, nao pode, porcaria, bala, chicle, pirulitos". Houve um episodio em que a creche nao seguiu a recomendacao (incluiu feijao na dieta) e Solano preocupou-se em conversar com as educadoras e com a nutricionista, a fim de entender a situacao e esclarecer que o bebe ainda nao poderia comer tal alimento. Na terceira fase, o pai preocupava-se no sentido de garantir que o bebe estivesse bem atendido na creche, seguindo o que os genitores acreditavam que fosse saudavel para o seu desenvolvimento. Assim, o pai procurava buscar e levar informacoes para outros setores da creche, alem das educadoras. Ao mesmo tempo, o pai ressaltou os beneficios da creche e a seguranca que possuia na instituicao.

Caso 3--Sou Pai: O Caso de Hermes, Denise e Joao Paulo

Interacao. Antes da entrada do bebe na creche, a interacao de Hermes se restringia a noite, quando o pai compartilhava alguns cuidados com a mae, como ficar com o bebe enquanto esta preparava o jantar, e a mae cuidava do bebe enquanto o pai lavava a louca. O pai costumava interagir com o bebe por meio de passeios e viagens com a familia. A interacao do pai com a creche, antes da entrada do bebe, foi por meio de uma reuniao para pais e maes e atraves de conversas com a esposa, a qual mantinha maior proximidade com a instituicao. Um mes apos a entrada na creche, a interacao do pai com o bebe se alterou com a mudanca de horarios do seu trabalho. O pai interagia com o filho de manha, antes de o filho ir para a creche e apos as 21 horas, quando retornava para casa. Com a manha livre e com o filho na creche, o pai passou a estudar nesse turno. Desse modo, o pai pode dedicar-se exclusivamente para o filho aos finais de semana ou quando o bebe estava em casa, compartilhando os cuidados com a mae e brincando com o bebe. Quanto a interacao com a creche, o pai nao costumava ter um contato direto com a instituicao, com a excecao de ter participado de uma reuniao de pais e maes. O pai afirmou que tentava participar indiretamente por meio da organizacao do material do filho ("mochilinha") utilizado na creche. Seis meses apos a entrada, a interacao com o filho se manteve como na fase anterior, em que a interacao pai-bebe estava restrita a noite e aos finais de semana, quando o pai participava das tarefas de cuidado do bebe, como dar banho e alimentar. O pai sentia que os finais de semana eram de intensa interacao com o bebe, pois este manifestava maior disposicao para brincar e buscava ficar perto dos genitores, compensando a distancia da semana. Nos finais de semana, o pai procurava estudar em um dos dias livres. No entanto, considerava dificil manter essa programacao por conta das atividades com o bebe, como passear, brincar, dancar, alimentar, dar banho. Em relacao a creche, o contato do pai com a instituicao acontecia por meio das conversas com as professoras, quando o pai levava o bebe a creche, duas vezes por semana, ou em eventos, como o dia dos pais e aniversario do bebe. O pai acrescentou que o fato de bebe estar na creche oportunizou ao casal momentos para conversar, cuidar da casa juntos ou estudarem para seus projetos pessoais.

Disponibilidade. Antes da entrada na creche, a disponibilidade do pai durante o dia era determinada pela carga horaria e pela flexibilidade do seu emprego. O pai saia de casa as 9 horas e retornava as 18 horas, sendo que nao possuia autorizacao para sair durante o expediente. Os horarios livres do pai eram destinados para o estudo para concursos. No entanto, mesmo que essa fosse a programacao do pai, este acreditava que o filho acabava tomando o seu tempo livre, com os cuidados e as brincadeiras: "Eu invisto o meu tempo em ficar mais com o Joao Paulo e estudar, quando eu nao to trabalhando. Hoje muito menos estudar, mais o Joao Paulo". Um mes apos a entrada na creche, o pai passou a trabalhar das 14h as 21h e a estudar em casa pelas manhas. Com a nova rotina de trabalho e estudos, o pai sentia que nao estava conseguindo participar da vida do filho o quanto gostaria e que a falta de disponibilidade de tempo estava afastando-o do filho durante a semana. A fim de compensar o tempo que nao podiam passar juntos e o sentimento de distanciamento, o pai estava abrindo mao de seus estudos durante os finais de semana. Ja seis meses apos a entrada na creche, a disponibilidade do pai mantevese desde que Joao Paulo entrou na creche. O pai trabalhava nos turnos da tarde e da noite, priorizando os estudos pela manha, enquanto o bebe estava na creche e a mae estava no trabalho. Os finais de semana eram divididos entre a atencao ao filho e ao estudo. Quanto a disponibilidade para a creche, Hermes nao se dispunha para interagir com a instituicao, permanecendo com Denise essa responsabilidade.

Responsabilidade. Um mes antes da entrada do bebe na creche, o pai mostrava responsabilizar-se pelo sustento do bebe e em oferecer para o filho mais do que teve na sua infancia. Alem disso, Hermes preocupava-se em oferecer para Joao Paulo uma familia em que as pessoas tivessem boas relacoes, principalmente entre o pai e a mae, alem de fazer o filho sentir-se amado. Quanto a creche, o pai preocupavase em assegurar-se que a instituicao iria tratar seu filho com carinho e atencao. Um mes apos a entrada do bebe na creche, o pai ainda se preocupava com a sobrecarga de tarefas que a mae assumia, pois a esposa nao estava conseguindo realizar todas as tarefas domesticas e tambem cuidar do bebe e estudar. Para que a esposa nao se sobrecarregasse, o pai estava pensando em contratar alguem para ajudar no cuidado com a casa. Quanto a creche, o pai estava preocupado com a troca da equipe que trabalhava na instituicao, mobilizando-se junto com outros pais e maes a manifestarem sua insatisfacao com a mudanca: "O Joao Paulo adora irpra creche [...] isso e uma coisa que deixa a gente confortavel, porque deixar teu filho com pessoas estranhas nunca e uma tarefa muito simples. Quando comeca a ter essa confianca, se mudam as pessoas, ela se abala tambem". No momento de adaptacao do bebe a creche, o pai tambem se preocupava com a separacao precoce do filho e da mae. O pai lamentou nao ter condicoes financeiras para manter a esposa em casa cuidando do bebe, mesmo que este nao fosse o desejo de Denise. Assim como na primeira fase, seis meses apos a entrada, o pai responsabilizava-se em garantir para o filho uma relacao tranquila entre pai e mae e um ambiente em que estivesse seguro e que proporcionasse seguranca. Quanto a creche, nos primeiros seis meses, a mae foi a responsavel pela rotina do bebe com a creche. Embora o pai tivesse levado o bebe para a instituicao algumas vezes, nao assumia a tarefa como de sua responsabilidade, sendo que geralmente acompanhava a mae quando esta levava o bebe a creche.

Caso 4--Quero ser Mae: O Caso de Germano, Leticia e Luiz Otavio

Interacao. Na entrada do bebe na creche, o pai interagia por meio de cuidados basicos e brincadeiras. Como o bebe precisava da mae por conta da amamentacao, Germano procurava auxiliar nas tarefas domesticas, para as quais tinha dificuldades de se organizar. O pai alternava com a mae os cuidados da casa e o cuidado do bebe: enquanto um realizava as tarefas domesticas, outro cuidava do filho. Percebeu-se que o pai interagia com o filho como uma resposta a esposa, que, segundo o pai, centralizava-se no bebe e tomava frente nos cuidados: "Logo no inicio eu fazia questao de fazer algumas coisas. Entao, por exemplo, trocar a fralda, no inicio ela [mae] trocava, e eu dizia: 'Nao, nao, eu troco!'E eu peguei o jeito assim". O pai relatou que, quando a mae o deixava sozinho com o bebe, ele aproveitava esse momento para cuida-lo a sua maneira e aproximar-se dele. Na fase de adaptacao, um mes apos a entrada, o pai realizava atividades como transportar mae e bebe, fazer compras, cuidar da casa e cuidar do bebe apenas quando a mae precisava fazer algo sozinha. Dessa forma, o pai sentia que a sua participacao nos cuidados do filho era limitada pela esposa. Germano entendia que a esposa tomava frente nos cuidados e que ele precisava ser mais agil ou pedir para executar as tarefas para poder realiza-las. Para o pai, a entrada do bebe na creche trouxe a necessidade de sua participacao, principalmente para buscar o filho. Antes da entrada, o pai relatou que o seu envolvimento fora dispensado pela mae. A respeito da creche, a relacao que o pai estabeleceu com a mae repetiuse. Germano sentia que a instituicao nao valorizava a figura paterna. O pai revelou que procurou desfazer essa imagem de pai por meio do seu envolvimento com a instituicao. Seis meses apos a entrada, o pai buscava o filho na creche, trocava fralda e alimentava o bebe nos finais de tarde ate a chegada da mae. Alem do cuidado diario, principalmente aos finais de tarde e finais de semana, estavam o brincar, passear, dancar e, tambem, interacoes que buscassem acalmar o filho, quando este estava irritado. Ademais, o pai relatou cuidados eventuais, como levar ao medico e fazer vacinas, os quais o pai procurava realizar sem a mae, pois, dessa forma, sentia-se a vontade para tirar as suas duvidas em relacao a saude do bebe. A respeito da creche, o pai costumava conversar com as educadoras sobre o que aconteceu durante o dia do bebe, a fim de dar continuidade a rotina do filho. Mesmo com eventuais desagrados, o pai relatou uma relacao diferente com a creche. O pai revelou que, com o passar do tempo, espelhou-se na relacao de outros pais e maes com as educadoras, o que o fez agir de modo diferente, agradecendo os cuidados para as educadoras e sentindo-se mais respeitado tambem.

Disponibilidade. Antes da entrada na creche, o pai trabalhava 40 horas semanais, com dois turnos livres para poder preparar aula e corrigir provas dos alunos. O pai procurava utilizar seus turnos livres para trabalhar, mas, quando estava cuidando do bebe, sentia dificuldade para conciliar as duas tarefas, priorizando a sua atencao para o bebe. Assim, na maioria das vezes, o pai estava utilizando esses momentos para cuidar do filho ou fazer atividades com a esposa. Com o bebe na creche, o pai disponibilizou-se a buscar o filho na maioria dos dias e a permanecer com ele em caso de doenca. Como o bebe estava frequentando a creche e a esposa estava de volta a rotina de trabalho, o pai relatou poder utilizar seus periodos de folga para as suas proprias atividades: "Durante a creche, eu fico com um espaco pra fazer coisas de escola [corrigir provas], agora me facilitou tambem pra eu ter esse espaco". Seis meses apos a entrada, a disponibilidade do pai se manteve, com dois turnos livres durante a semana e no final da tarde, quando buscava o bebe na creche e o levava ao medico, quando necessario. Em casa, o pai observou que o bebe, entao com 12 meses, nao necessitava de interacao sempre que estava com o pai. Apos um periodo inicial de interacao, o bebe conseguia permanecer com o pai, estando este apenas disponivel para quando o bebe precisasse. O pai relatou que, com a entrada do bebe na creche, estava disponivel para eventuais solicitacoes da instituicao e para buscar o bebe. Alem disso, enquanto o bebe estava na creche, o pai pode utilizar os seus turnos livres para realizar atividades do trabalho.

Responsabilidade. Antes da entrada, o pai preocupavase em estabelecer com o filho uma relacao paterna diferente da que tivera com seu proprio pai, no sentido de ser uma figura representativa para o filho. O pai se preocupava tambem em nao reproduzir alguns aspectos da relacao com a propria mae, principalmente o modo de proteger o filho, visto como demasiado por Germano. Com relacao a creche, o pai questionava sua qualidade por ser uma instituicao publica, geralmente entendida como de baixa qualidade e desatenta as necessidades das criancas. Com a entrada do bebe na creche, o pai passou a preocupar-se com os aspectos educacionais do filho. O pai buscou garantir que a creche atenderia o seu filho com qualidade: preocupacoes basicas, como alimentacao, ate a imposicao de limites para o filho foram questoes citadas pelo pai. Seis meses apos a entrada, o pai se preocupava com a educacao do bebe, em transmitir valores para o filho desde a infancia e de nao estimular o bebe a brincadeiras que pudessem acarretar problemas no futuro, segundo o pai, como brincar com a direcao do carro. Em relacao a creche, o pai reconhecia que a creche tambem assumia esse tipo cuidado. Pela sua disponibilidade durante a semana, o pai assumiu responsabilidades como levar ao medico e fazer vacinas. O pai sentia grande prazer em ser responsavel pelo bebe tanto nos cuidados da saude como ser a primeira referencia da creche quando esta necessitava entrar em contato com os genitores: "Eles [creche] ligaram pra mim me perguntando se ele [bebe] podia comer carne. Eles ligam primeiro pra mim, entendeu?".

Discussao

A partir da analise dos resultados, pode-se destacar dois principais aspectos relacionados as transformacoes no envolvimento do pai: (a) o desenvolvimento do bebe e (b) a entrada na creche. Dessa forma, para fins de discussao, as categorias de analise de dados serao subdivididas em desenvolvimento e creche.

Interacao

Aspectos relacionados ao desenvolvimento do bebe. Com relacao a interacao por meio de brincadeiras e passeios, as falas dos pais sugerem que, ao brincar, os lacos pai-bebe eram aproximados. O periodo do desenvolvimento emocional do bebe permitia que o pai e o bebe se engajassem em interacoes que eram proprias da dupla. Embora as atividades do pai nao possam mais ser compreendidas como compostas exclusivamente de brincadeiras, o papel de socializador ainda e importante para o bebe (Silva & Piccinini, 2007). Inclusive, assim como o pai tem compartilhado as tarefas de cuidado com o bebe, as maes tem se envolvido com atividades ludicas na mesma proporcao que os pais (Monteiro, Verissimo, Santos, & Vaughn., 2008).

O desenvolvimento fisico e cognitivo do bebe e um fator importante para a relacao pai-bebe, sendo que a qualidade desta se torna cada vez melhor com o desenvolvimento e a capacidade de se comunicar do filho (Silva & Piccinini, 2007). A participacao paterna e essencial para a qualidade da relacao, pois, quanto maior a participacao, melhor a comunicacao entre pai e filho, no sentido de haver sincronia na interacao, marcada por um tom emocional positivo (Monteiro et al., 2008). Alem do mais, os pais sentem satisfacao com o contato fisico e pela capacidade paterna deste de reconfortar o bebe (Monteiro et al., 2008).

Aspectos relacionados a entrada na creche. Com a entrada na creche, o relacionamento entre pai e filho se tornou mais intenso aos finais de tarde e finais de semana, pois os pais entendiam que o bebe exigia mais atencao nesses momentos e tentavam recompensar o periodo em que estiveram afastados (casos Mateus, Solano e Hermes).

Com relacao a interacao com a creche, esta se mostra um indicador importante do envolvimento paterno com as atividades do bebe. Em todos os casos, a mae era a pessoa que possuia a ligacao formal com a creche por ser funcionaria da instituicao. Os pais interagiam com a creche principalmente ao levar e/ou ao buscar a crianca e ao conversar com as educadoras. Outras formas de interacao eram as conversas com outros profissionais da creche, como enfermeira, equipe diretiva, psicologa e nutricionista, e tambem se envolver em reunioes de pais.

As atividades relacionadas a creche do filho de que o pai participava estao de acordo com outros estudos nos quais o pai participava de diversas atividades tais como as mencionadas acima (Atkinson, 1987; Seabra, 2007). No estudo de Atkinson (1987), que contou com 24 pais e 39 maes, 83% dos pais declararam participar conversando com as cuidadoras e 71% buscando e levando o bebe na instituicao. No presente estudo, os pais tendiam a participar de uma forma geral, tanto em atividades rotineiras como em momentos especiais como festividades e reunioes, ao contrario do estudo de Seabra (2007), em que o pai participava significativamente mais das festividades do que das atividades cotidianas. Inclusive, o pai Germano lamentou nao poder participar da festa de aniversario do filho, ainda que buscasse o bebe todos os dias na creche. Com relacao as atividades cotidianas, a comunicacao com as educadoras e a atividade mais frequente do pai (Atkinson, 1987; Fagan, 1997), sendo a alimentacao do bebe o assunto mais abordado (Fagan, 1997), assim como na presente pesquisa, em que, em dois casos, a alimentacao foi tema ate mesmo de conflitos entre pai e escola.

Percebe-se que os pais participantes da presente pesquisa interagiam com a creche de forma frequente seja diretamente, ao entrar em contato com a creche, como indiretamente, ao organizar o material a ser levado para a creche ou conversando com a mae sobre as atividades do bebe na instituicao. Os pais podem oferecer suporte indireto essencial para a mae realizar os cuidados diretos com qualidade para o bebe, como preparar o bebe para ser levado a escola, embora esse tipo de atividade nao seja reconhecido pelas maes (Atkinson, 1987).

Disponibilidade

Aspectos relacionados ao desenvolvimento do bebe. Observou-se que a disponibilidade dos pais alterou-se com o desenvolvimento do bebe e de sua capacidade de permanecer sozinho por alguns momentos. Com isso, os pais puderam estar apenas disponiveis para o infante e nao em interacao por todo o tempo. Os pais alegaram que a crianca conseguia ficar mais tempo brincando sozinha e, assim, os pais podiam ficar ao lado do bebe fazendo outras atividades. O pai do caso 2 relata que esses momentos em que o bebe estava brincando sozinho favorecia o contato intimo do casal, principalmente por meio de conversas. Ja no caso 3, o pai relatou que, com o bebe na creche, o casal permanecia sozinho em casa, possibilitando conversas e atividades exclusivamente conjugais.

Aspectos relacionados a entrada na creche. Com a entrada do bebe na creche, o pai passou a utilizar o tempo em que a crianca estava sendo cuidada pela creche para dedicarse mais ao trabalho (casos Mateus, Solano e Germano) e a projetos pessoais (casos Hermes e Germano). Mesmo utilizando o tempo em que o bebe estava na creche para dedicar-se a si mesmo, quando o pai estava com o bebe nos finais de tarde ou finais de semana, conseguia dedicar-se exclusivamente a crianca, diferente do que acontecia antes do bebe ir a creche.

Quanto a disponibilidade em relacao a creche, observouse que os pais mostravam-se dispostos e acessiveis para interagir com as educadoras e outros profissionais. Os pais, ao buscar e levar o bebe, mostravam-se disponiveis para eventuais contatos. Segundo Fagan (1997), o fato de os pais destinarem cerca de 15 minutos tanto para buscar como para levar o bebe demonstraria essa acessibilidade a instituicao.

Mesmo que o fato de exercer uma atividade laboral nao seja uma explicacao suficiente para o grau de envolvimento paterno, uma vez que ambos os genitores trabalham e o bebe esta na creche (Monteiro et al., 2008), fica evidente que o tipo de trabalho exercido afeta a disponibilidade tanto do pai como da mae. Com excecao do pai Hermes, nos outros casos, o genitor que assumia o levar ou buscar o bebe na creche ou ainda o estar disponivel ao longo do dia e o que possuia um trabalho que nao exigia horarios fixos (casos Mateus e Solano), ou em que ha possibilidade de negociacao com o chefe (caso Germano). Atkinson (1987) sugere que os pais possam combinar trabalho e papeis familiares por meio de uma flexibilidade maior em suas agendas de trabalho.

Responsabilidade

Aspectos relacionados ao desenvolvimento do bebe. Percebeu-se que os pais passaram a compartilhar mais os cuidados com a mae depois que o bebe entrou na creche. Isso pode estar atrelado ao fato de ser inserida a alimentacao solida, alem das mamadas. Inclusive, o crescimento do bebe facilitou o manejo para o pai, o que pode tambem estar influenciando esse assumir responsabilidades, bem como a diminuicao do contato com a mae, que voltou a trabalhar e abriu espaco para a participacao paterna (Seabra & Seidl-deMoura, 2011). Atualmente, alem das tarefas de cuidado serem compartilhadas com a mae, acrescenta-se a responsabilidade de garantir que o filho tenha um desenvolvimento emocional saudavel, sendo que os pais estao conscientes da sua contribuicao para tanto, como visto nos casos. Com isso, percebe-se uma mudanca qualitativa na relacao pai-filho, pois esta nao esta baseada somente na provisao material e no pai como sinonimo de lei (Fulgencio, 2007), mas sim associada a atividades ditas maternas, como se preocupar com os aspectos educacionais e emocionais (Freitas, Silva, Coelho, Guedes, & Costa, 2009).

Aspectos relacionados a entrada na creche. Percebeuse que, com a entrada na creche, os pais passaram a compartilhar de maneira mais frequente os cuidados do bebe e a responsabilizar-se por atividades relacionadas a creche. Com o pai Germano, especialmente, percebeu-se que, antes da entrada na creche e no periodo de adaptacao, havia uma intensa necessidade de o pai de sentir-se responsavel por algumas atividades do bebe, a fim de ter mais contato com ele e de nao permitir que a esposa centralizasse todas as tarefas voltadas ao bebe. Isso se refletiu na relacao do pai com a creche, sendo que o pai nao se sentia reconhecido pelas educadoras como alguem interessado em informar-se sobre o bebe. Seis meses apos a entrada na creche, o pai relatou outra perspectiva em relacao aos cuidados do bebe, assumindo responsabilidades importantes, como estar em licenca para cuidar do filho doente e ainda perceber que, na creche, tem sido valorizado. Atkinson (1987) enfatiza que os profissionais devem reconhecer o pai como parte do sistema de cuidado da crianca, provendo-o das informacoes necessarias sobre seu filho. Para tanto, as educadoras devem conhecer os aspectos que englobam a paternidade e entender a perspectiva paterna de cuidado (Frieman & Berkeley, 2002).

Quanto a creche, os pais Mateus, Solano e Germano responsabilizavam-se por buscar e levar o bebe a instituicao. Antes da entrada, os pais participaram de reunioes para conhecer a creche, sendo que se colocam ativos no processo de escolha (Atkinson, 1987, 1991; Ceglowski et al., 2010; Seabra, 2007), mesmo sendo uma creche publica, destinada aos servidores. Inicialmente preocupados, reacao comum de pais ao colocarem seus filhos sob cuidado de terceiros (Rapoport & Piccinini, 2004; Vitoria & Rossetti-Ferreira, 1993), os pais sentiram-se confiantes para deixar a crianca sob cuidado das educadoras.

Os pais se preocupam com a qualidade do servico oferecido pela escola para o seu bebe, sendo que, quanto mais envolvidos os pais estao, maior probabilidade de reconhecer as habilidades e conhecimentos necessarios pra a qualidade da creche (Atkinson, 1991). Segundo Atkinson (1987), os aspectos que mais preocupam os pais sao (a) a sensibilidade para o atendimento das necessidades do filho (70%), (b) a seguranca fisica da crianca (37%) e (c) as oportunidades de aprendizagem a fim de tornarem-se autossuficientes (33%). Para avaliar a creche, o pai tenta perceber se o filho esta feliz e se gosta de ir para a creche (Atkinson, 1987), assim como a seguranca e a abertura e frequencia das comunicacoes com as cuidadoras (Ceglowski et al., 2010).

De modo geral, os pais relataram que estavam satisfeitos com a qualidade da creche, os cuidados com o bebe e com o fato de a creche ter proporcionado que o pai voltasse a se dedicar para si mesmo e para a esposa. Pode-se relacionar essa ultima informacao com o estudo realizado com maes sobre a participacao dos pais nos cuidados dos filhos (Crepaldi et al., 2006). Esse estudo revela que os pais de bebes que frequentam creche sao menos participativos do que pais de bebes que nao utilizam esse cuidado alternativo. Pode-se relacionar a menor participacao paterna ao fato de a familia contar com um terceiro para responsabilizar-se pelos cuidados do bebe e, ainda, ao oportunizar que o pai possa dedicar a sua atencao a si mesmo e para as suas atividades laborais, antes destinada ao bebe, como visto no presente estudo.

Assim como no presente estudo, principalmente nos casos 1, 2 e 4, nao ha diferencas significativas em termos quantitativos entre o pai e a mae com relacao a quem assume a responsabilidade de buscar ou levar o filho na creche (Fagan, 1997). Ja o resultado de Seabra (2007), em que as maes sao prioritariamente as responsaveis, e compativel com o caso 3. Um fator importante que pode tambem explicar esses diferentes resultados e a distancia entre a creche e o local do trabalho, ou o horario de inicio e fim do turno de trabalho. Esses aspectos sao determinantes para a escolha de qual dos conjuges buscara e levara o filho a creche, sendo que quem trabalha mais perto ou chega a tempo de buscar ou levar o bebe, assume as tarefas, independente de ser o pai ou a mae (Fagan, 1994, 1997). Outro fator e o nivel de exigencia do trabalho, sendo que pais com empregos que exigem uma maior dedicacao nao conseguem se dedicar as atividades escolares do filho (Fagan, 1994).

Consideracoes Finais

Como discutido anteriormente, observou-se que a creche e o desenvolvimento do bebe sao aliados do pai no retorno as suas atividades, principalmente ao trabalho. A creche possibilita que o pai dedique o tempo em que o bebe esta na instituicao para realizar atividades pessoais, para ficar mais tempo no trabalho e, ate mesmo, conseguir ficar somente com a esposa por algumas horas. Este mostrou ser um dos principais resultados deste estudo, sendo que a creche contribuiu para que o pai pudesse voltar-se as suas tarefas pessoais, especialmente ao trabalho. Em tempos de um envolvimento consideravel do pai com o bebe, a creche pode ser entendida como um terceiro membro na relacao pai-bebe, que libera o pai para a realidade do mundo externo (trabalho, relacao conjugal). Para o pai, e atualmente tambem para a mae, o trabalho possui papel central em sua identidade: e atraves da atividade laboral que o pai encontra meios de prover a familia e de sentir-se util a ela (Gomes & Resende, 2004).

A respeito do envolvimento paterno com a creche, ao contar com um cuidado alternativo, exige-se do pai que este se envolva com as atividades relacionadas a instituicao, tais como se comunicar com as educadoras, buscar e levar o filho, arruma-lo para a ir a creche. A creche, diferente de outros cuidados alternativos, possui uma rotina que precisa ser seguida pelos pais e maes, a qual, de certa forma, exige que os genitores se envolvam com ela, como ter horarios fixos para deixar e buscar o bebe, reunioes de pais, estar disponivel para algum imprevisto. Entende-se que o envolvimento do pai em atividades indiretas, mas que dizem respeito ao filho, e um importante indicativo de como o pai se envolve com o proprio bebe (Atkinson, 1987). Alem do mais, essas atividades indiretas sao essenciais para a execucao das tarefas diretas, muitas vezes desempenhadas pela mae (Atkinson, 1991).

Por fim, este estudo pode contribuir para a compreensao do envolvimento de uma das figuras mais importantes para o desenvolvimento infantil--o pai. Investigar o envolvimento do pai com o seu bebe que frequenta a creche e com a propria creche torna-se essencial para a promocao de um melhor cuidado para as criancas (Ceglowski et al., 2010). Para tanto, e necessario entender o ponto de vista e as necessidades de todas as pessoas que sao responsaveis pelo cuidado do bebe (Atkinson, 1987).

doi: http://dx.doi.org/10.1590/0102-3772e32321

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Recebido em 09.12.2012

Primeira decisao editorial em 08.05.2015

Versao final em 12.02.2016

Aceito em 23.03.2016

Marilia Reginato Gabriel [2]

Rita de Cassia Sobreira Lopes

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

[1] Esse artigo e derivado da Dissertacao de Mestrado defendida pela primeira autora, sob a orientacao da segunda autora, junto ao Programa de Pos-graduacao em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS (Gabriel, 2012).

[2] Endereco para correspondencia: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Campus Universitario, Instituto de Psicologia, Rua Ramiro Barcelos, 2600 sala 108/111, Bairro Santa Cecilia, Porto Alegre, RS, Brasil. CEP: 90035-003. E-mail: gabrielmarilia@yahoo.com.br

(1) Na dissertacao da qual provem este artigo (Gabriel, 2012), ha inumeras vinhetas que exemplificam cada categoria. Por motivo de espaco, somente algumas serao apresentadas.

(2) Todos os nomes utilizados sao ficticios.
Tabela 1. Dados demograficos da familia

Caso      Bebe      Idade do    Pai    Idade   Escolaridade
                     bebe na             do       do pai
                     Fase 1             pai

01    Carolina      7 meses   Mateus   32     Ensino
      (Carol)                                 Superior
                                              Completo

02    Gustavo       6 meses   Solano   36     Ensino
                                              Superior
                                              Incompleto

03    Joao Paulo    5 meses   Hermes   36     Ensino
                                              Superior
                                              Completo

04    Luiz Otavio   6 meses   Germano  34     Pos-Graduacao

Caso   Profissao     Mae    Idade   Escolaridade       Tempo
                              da       da mae          que o
                             mae                    casal esta
                                                       junto

01    Auditor     Gisele    32     Ensino          5 anos
                                   Superior
                                   Completo

02    Livreiro    Fernanda  37     Ensino          10 anos
                                   Superior
                                   Completo

03    Contador    Denise    36     Ensino          4 anos
                                   Superior
                                   Incompleto

04    Professor   Leticia   32     Pos-Graduacao   6 anos

Caso    Renda
       Familiar

01     7 500,00

02     6 000,00

03     9 000,00

04     5 500,00
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Title Annotation:ARTIGO ORIGINAL
Author:Gabriel, Marilia Reginato; Lopes, Rita de Cassia Sobreira
Publication:Psicologia: Teoria e Pesquisa
Date:Jul 1, 2016
Words:9283
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