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CeSaM, as celulas do sangue menstrual: Genero, tecnociencia e terapia celular.

Introducao

Este texto resulta de uma pesquisa que tem como objetivo geral pensar diferentes agenciamentos de fluidos e substancias corporais, como o sangue menstrual. Apresentamos alguns dos resultados de uma pesquisa de cunho socioantropologico sobre as atividades que envolvem o uso de sangue menstrual para obtencao de celulas estromais mesenquimais, desenvolvidas pelo Laboratorio de Cardiologia Celular e Molecular (LCCM) do Instituto de Biofisica Carlos Chagas Filho (IBCCF), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O material apresentado foi elaborado a partir da pesquisa etnografica feita pela primeira autora (professora e pesquisadora com formacao na area da Antropologia) no laboratorio em questao, no qual ha muitos anos atuam as duas demais autoras, a primeira, como professora associada e a segunda, atualmente como pos-doutoranda, mas tendo realizado suas pesquisas de mestrado e doutorado no referido laboratorio, especificamente com as celulas derivadas do sangue menstrual (ambas com formacao na area das Ciencias Biologicas).

Este texto e um experimento de coautoria multidisciplinar, no qual nos propusemos a escrever coletivamente o artigo, partindo da pesquisa etnografica da primeira autora no laboratorio. Esta pesquisa vem sendo desenvolvida desde 2015 e compreende o acompanhamento presencial de alguns dos experimentos laboratoriais realizados com o sangue menstrual, seu registro fotografico, entrevistas com as pesquisadoras sobre esses procedimentos e seus resultados, bem como diversas conversas e trocas a respeito das tematicas em questao: corpo; genero; tecnociencia e saude; terapia celular, medicina regenerativa e bioengenharia.

Desenvolvemos aqui a proposta de seguir, etnograficamente, as CeSaM, "celulas do sangue menstrual". Procuramos, para isso, contextualizar o desenvolvimento dessas pesquisas no laboratorio, demonstrar o processo de ontogenese das CeSaM e discutir algumas das dimensoes de genero que podem ser pensadas a partir do engajamento do sangue menstrual, e suas celulas, nas pesquisas cientificas sobre celulas-tronco.

Corpo e Genero

Ao analisar o discurso medico estadunidense da segunda metade do seculo XX sobre o corpo da mulher, Emily Martin (2006) demonstra o quanto a sua fisiologia e interpretada de acordo com o paradigma reprodutivo. Assim, a menstruacao e caracterizada como uma "falha" no processo de reproducao, e vista como uma experiencia eminentemente negativa e de perda (de sangue, do ciclo fertil, de um possivel feto). Da mesma forma, a menopausa e interpretada como o ocaso da vida (reprodutiva). Ambos fenomenos (menstruacao e menopausa) se constituem, no argumento da autora, a partir de uma metafora industrial na qual o corpo feminino e visto como sendo uma "fabrica" voltada para a producao de bebes (MARTIN, 2006).

A hipotese inicial, que motivou a pesquisa etnografica e o encontro entre as autoras, incluia uma indagacao sobre a possivel rentabilidade, numa perspectiva feminista contraria a visao medica delineada por Martin (2006), de se falar sobre a positividade (inclusive cientifica) do sangue menstrual. Ou de pensar a possibilidade de tornar o sangue menstrual algo capaz de "fazer alguma coisa" (LATOUR; STARK, 1999): no caso, celulas que servem para fazer ciencia e, eventualmente, servirao para tratamentos de saude.

Apesar das ressalvas e criticas a uma abordagem essencialista do corpo e do genero, e da importancia de um olhar interseccional sobre qualquer tematica dessa natureza, superar concepcoes como a de que a menstruacao e uma "sangria inutil", uma fonte de patologias, que deve ser suprimida (COUTINHO, 1996), ou mesmo a possibilidade de repensar a abjecao que marca a relacao das mulheres com seu proprio corpo e fluidos corporais, e ressignificar positivamente seus fluidos e orgaos (MANICA; RIOS, 2017), parece ser algo que caminha no sentido de uma maior valorizacao do corpo entendido (e marcado como) feminino no mundo. Ou, ainda, de libertacao de uma visao teleologica e androcentrica da fisiologia "reprodutiva" dos corpos que tem utero.

Experiencias corporificadas e viscerais vem (re)tomando um lugar mais central nas questoes relacionadas a corpo, genero e reproducao. Parte dos estudos sociais da ciencia e tecnologia tem tentado dar conta dessa questao reexercitando um dialogo produtivo entre as ciencias sociais e a biologia/biomedicina e tentando superar a tendencia critica baseada no construcionismo social, que minimiza a importancia do corpo na definicao do genero (WILSON, 2015; BUTLER, 1993; HARAWAY, 1990).

No Brasil, podemos situar trabalhos na interface entre as ciencias sociais (antropologia, sociologia, saude coletiva) e os movimentos feministas, que trazem a tematica da reproducao e do corpo feminino, seja atraves da discussao sobre parto humanizado e parto natural (FLEISCHER, 2011; TORNQUIST, 2002; CARNEIRO, 2014), seja das denuncias de violencia obstetrica e a "epidemia" de cesarianas no Brasil (DINIZ, 2005); ou ainda das discussoes sobre aleitamento materno e o mercado de leite em po industrializado (ALZUGUIR; NUCCI, 2015; ALMEIDA, 1999) (1).

Diversas criticas (nao so no ambito do "genero") a (bio)medicalizacao dos corpos situam o problema na expansao da industria farmaceutica, vista como a principal aliada da tecnociencia medica na resolucao das mais diversas aflicoes pela via do consumo de medicamentos. Nesse contexto, uma "resistencia" possivel a biopolitica contemporanea se ancoraria na recusa as intervencoes e autoridades medicas. Consequentemente, intensifica-se uma (re)valorizacao de experiencias viscerais como o parto vaginal e caseiro, a amamentacao e tambem a menstruacao (DINIZ, 2005; CARNEIRO, 2014; ALZUGUIR; NUCCI, 2015; BOBEL, 2010; BOBEL; KISSLING, 2011). Experiencias que competem com as diversas tecnicas ja estabilizadas pela biomedicina high tech.

Assim, ao mesmo tempo que mulheres de classe media/alta urbana, nas grandes cidades brasileiras, se "chipam" com implantes hormonais para ficar periodos prolongados sem menstruar, sem ovular, com mais libido, mais musculosas e sem celulite (MANICA; NUCCI, 2017), outras passaram a coletar e reutilizar, atraves de tecnicas corporais diversas, suas placentas, leite materno, cordao umbilical e sangue menstrual (2). Ou seja, a colocar esses tecidos e substancias em novos fluxos que os previamente dados (CARSTEN, 2013), ou constituidos como "seguros" ao longo do processo de medicalizacao e expansao da biomedicina na area reprodutiva.

No caso da placenta e do sangue menstrual, contudo, sao tecidos cujas materialidades passaram a se tornar mais palpaveis, visiveis e valorizadas nos ultimos anos, a partir do compartilhamento de tecnicas corporais que envolvem uma reapropriacao de experiencias fisiologicas e da capacidade de agencia sobre elas (CARNEIRO, 2012; MANICA; RIOS, 2017). O que parece estar em jogo e a possibilidade de manejo desses tecidos, a reivindicacao do direito de definir seu destino e de, possivelmente, produzir novos agenciamentos (3).

Partindo entao do pressuposto de que ha uma convergencia entre os agenciamentos possiveis de partes do corpo e uma agenda politica que afeta as percepcoes e valores relacionados a genero, apresentamos a seguir algumas reflexoes acerca das pesquisas cientificas sobre a presenca de celulas-tronco no sangue menstrual.

Buscamos apresentar as dificuldades de tornar presente e ativa, no laboratorio, uma substancia tao marcada por genero--o sangue menstrual--e explorar, a partir dos resultados obtidos nas pesquisas ja realizadas, a ideia de que ele seria um substrato corporal eficaz para pesquisa cientifica e o desenvolvimento das celulas estromais mesenquimais (4).

Pesquisas com Celulas-Tronco no LCCM / IBCCF / UFRJ

O tema da utilizacao de embrioes humanos em pesquisas cientificas ja foi amplamente discutido no momento em que as celulas-tronco se tornaram uma via promissora de pesquisas e tratamentos (LUNA, 2007; CESARINO, 2007; PEREIRA, 2008; MEDEIROS, 2012; NOBRE; PEDRO, 2014). As celulastronco embrionarias, para alem de toda a rentabilidade na discussao sobre o que e, e quando comeca, a vida; o que e o individuo ou a pessoa; o que e/pode ser o humano; tem tambem um potencial especifico, e muito mais expressivo, para o conhecimento sobre os processos biologicos envolvidos na diferenciacao celular, que poderiam levar a tratamentos eficazes nas areas de medicina regenerativa, terapia celular e bioengenharia (LUNA, 2007).

(Im)possibilidades cientificas (como a alta taxa de proliferacao dessas celulas, que pode causar tumores) e entraves bioeticos para utilizar esse tipo de material de pesquisa promoveram a busca por outros tecidos corporais que tambem tivessem celulas-tronco, ainda que nao as embrionarias. As mais conhecidas e utilizadas sao as celulas derivadas da medula ossea. Neste caso, trata-se de celulas-tronco adultas que nao sao totipotentes (como as do zigoto) nem pluripotentes (como as embrionarias), mas "multipotentes", isto e, sao celulas com "uma capacidade de diferenciacao limitada", que se diferenciam "em linhagens relacionadas com seus tecidos de origem" (CARVALHO; GOLDENBERG; BRUNSWICK, 2012, p.3). (5)

Ha duas vantagens dessas celulas em relacao as embrionarias/pluripotentes: por terem uma menor capacidade de proliferacao, seu uso diminui as chances de formacao de tumores nos pacientes submetidos as terapias celulares. E possivel tambem a utilizacao da propria celula do paciente no tratamento, o que reduz o risco de rejeicao imunologica, configurando o que se costuma chamar de um tratamento "autologo" (nos quais se utilizam as celulas do proprio paciente) (CARVALHO; GOLDENBERG; BRUNSWICK, 2012, p.4; LUNA, 2007).

Alem da medula ossea, as celulas-tronco mesenquimais (6) podem ser extraidas de diversos outros "nichos" do organismo (PEREIRA, 2008, p.10), como: cordao umbilical, tecido adiposo, placenta, coracao, liquido amniotico, polpa do dente de leite e, finalmente, o sangue menstrual. Atualmente, a comunidade cientifica concorda que o potencial terapeutico das celulas mesenquimais nao esta relacionado a sua capacidade de diferenciacao em outros tipos celulares, e sim a liberacao de fatores e substancias beneficas (o que e conhecido como "efeito paracrino"). Portanto, a terminologia mais adequada para nomear essa populacao celular e celula estromal mesenquimal.

As pesquisas com sangue menstruai se inserem principalmente nas linhas de pesquisa do laboratorio (7) que investigam o cultivo de celulas estromais mesenquimais e terapias celulares para doencas cardiacas e hepaticas. Envolvem, portanto, uma compreensao das funcoes e potencias das celulas presentes na camada mais interna do utero, o endometrio, que descama durante a menstruacao. Trabalham tambem as possibilidades de explorar o uso dessas celulas, em terapia celular, para tratar disfuncoes como o infarto do miocardio.

As pesquisas exploram possibilidades de terapia celular, por exemplo, na bioengenharia, que envolve o uso de celulas-tronco desenvolvidas em laboratorio para o transplante de orgaos (que sao "descelularizados" (8) e "repopulados" com celulas do proprio paciente/receptor). Esse procedimento reduziria o risco de rejeicao imunologica nos orgaos doados. Ha, ainda, pesquisas sobre os efeitos dessas celulas apos o procedimento de injecao das mesmas em orgaos lesados (como o coracao, em um evento de infarto do miocardio, por exemplo). Investigam-se nesse caso, efeitos como o "paracrino", que compreende determinadas sinalizacoes celulares e moleculares (como a secrecao de substancias especificas), que poderiam agir positivamente na restauracao de orgaos, tecidos, celulas danificadas.

Um dos objetivos principais, portanto, e a producao de celulas-tronco em laboratorio que possam ser utilizadas em terapias celulares sobre a doenca (hepatica ou cardiaca), de modo a reverte-la ou atenua-la. Para isso, as pesquisas compreendem um processo de "isolamento, cultivo e expansao" de celulas provenientes de diversos tecidos corporais humanos adultos.

As CeSaM: Celulas Derivadas do Sangue Menstrual

Apesar de a existencia de celulas-tronco no endometrio, tecido que reveste internamente o utero, ter sido pressuposta desde a decada de 1970, foi somente a partir de 2004 que pesquisadores conseguiram demonstrar esse potencial atraves de tecidos de pacientes histerectomizadas (que tiveram o utero retirado). Uma forma de obter essas celulas a partir de procedimentos menos invasivos (como a coleta do sangue menstrual) somente se provou possivel em 2007 (ASENSI; GOLDENBERG; PAREDES, 2012, p. 112).

A primeira pesquisa utilizando sangue menstrual para fins terapeuticos foi feita para tratar a distrofia muscular (CUI et al., 2007). As celulas do sangue menstrual mostraram-se capazes de se diferenciar em celulas musculares (miocitos) e auxiliar a reparacao das celulas atrofiadas pela doenca. Entre as conclusoes do artigo, os autores destacam que as "celulas derivadas do sangue menstrual humano sao obtidas por um procedimento simples, seguro e que nao causa dor, e podem ser expandidas eficientemente in vitro", ao contrario dos procedimentos invasivos para obter celulas de fontes como a medula ossea e o tecido adiposo, que envolvem uma operacao ou um procedimento doloroso e complicado. Alem disso, enfatizam que essas celulas derivadas do sangue menstrual possuem "uma alta capacidade de autorrenovacao", ao contrario dos mioblastos (9), que vinham sendo usado nos procedimentos de pesquisa na area, e que envelheciam rapidamente e expandiam muito pouco (CUI et al., 2007, p. 1593, traducao livre).

Os resultados, promissores, transformaram entao o sangue menstrual numa "fonte muito atraente de investigacao" (ASENSI; GOLDENBERG; PAREDES, 2012, p. 112). No LCCM, a professora e pesquisadora Regina Goldenberg tomou a iniciativa de experimentar o desenvolvimento dessa cultura de celulas, apesar de uma resistencia inicial mais difusa ao uso do sangue menstruai em laboratorio, comparado aos demais tecidos mais usualmente pesquisados (como a medula ossea ou o cordao umbilical).

Apesar de marginais em relacao as outras culturas de celulas, as CeSaM acabaram sendo usadas numa das primeiras pesquisas sobre a reprogramacao de celulas adultas em celulas de pluripotencia induzida no Brasil. Ou seja, uma celula adulta e "convencida" por meio de adicao de substancias a voltar ao estagio de celula embrionaria--procedimento descrito pela primeira vez por Shinya Yamanaka e colaboradores em 2006 (TAKAHASHI; YAMANAKA, 2006) e atualmente ja estabilizado, mas que na ocasiao estava comecando a ser testado. Na ausencia de doadores de celulas humanas adultas de outra procedencia, e considerando que Goldenberg e Asensi ja mantinham uma quantidade razoavel de CeSaM desenvolvidas no laboratorio, elas foram, entao, engajadas nesse experimento de reprogramacao que fazia parte da pesquisa de pos-doutorado de Deivid Rodrigues.

As pesquisas geraram celulas pluripotentes induzidas (iPS) (10) a partir das celulas estromais mesenquimais derivadas do sangue menstrual. Os pesquisadores notaram que as celulas iPS foram reprogramadas num periodo curto (de 15 a 17 dias), com uma alta eficiencia (2-5%) se comparada com os fibroblastos (0,01-0,1%), que vinham ate entao sendo usados para essa finalidade. Concluiram, com isso, similarmente ao artigo de Cui, que a CeSaM e uma celula bastante atrativa, uma vez que se reprograma mais rapidamente e mais eficientemente. A pesquisa resultou em um artigo, publicado na revista Cell Transplantation, no qual os autores ressaltam os beneficios de utilizacao dessa celula, que pode ser "facilmente obtida de um material que e descartavel, com procedimentos nao invasivos" (Rodrigues et. al, 2012, p.2216, traducao livre).

Essa primeira "prova" da eficacia e rentabilidade das CeSaM consolidou, no laboratorio, a importancia do seu cultivo para o desenvolvimento de pesquisas com celulas mesenquimais. Essa frente de trabalho foi levada adiante por Regina Goldenberg e pela entao mestranda, e segunda autora desse primeiro artigo publicado sobre as CeSaM, Karina Asensi.

CeSaM: Isolamento, Cultivo e Expansao

Com a proposta de "seguir o sangue menstrual e suas celulas", apresentamos agora uma descricao do processo de isolamento, cultivo e expansao das CeSaM tal como estabelecido e "performado" no LCCM (MOL, 2003), e conforme registrado durante a pesquisa etnografica em questao, acompanhando os experimentos do laboratorio que utilizam as celulas do sangue menstrual. (11) A quantidade de material inicial a ser coletada e muito pequena. As amostras geralmente chegam em potes coletores como os usados em exames clinicos de urina e fezes (Figura 1). Bastam um ou dois mililitros de sangue menstrual para iniciar o experimento.

As doadoras, na maioria das vezes as proprias pesquisadoras do laboratorio, recebem o pote com solucao salina e antibioticos para evitar a proliferacao de bacterias. Para doar o material, de acordo com o codigo de etica, elas devem assinar um termo de consentimento. A coleta e feita diretamente no pote coletor, no dia de maior fluxo menstrual.

O protocolo para "isolamento das celulas" dos demais componentes presentes no sangue menstrual envolve a sua mistura com outras substancias e uma sucessao de centrifugacoes, que permitem que os diferentes componentes sejam separados. O isolamento pode ser feito de duas formas. Uma delas e usando um reagente quimico que permite a separacao celular por densidade. O objetivo principal e isolar, do sangue, as celulas mesenquimais das demais celulas e substancias ali presentes (como as hemacias, granulocitos (12) e outros hemocomponentes).

Outra forma de realizar o isolamento das celulas e misturando uma solucao salina tamponada com o sangue menstrual e colocando em dois tubos de plastico com quantidades iguais, e submetendo a mistura a centrifugacao. Na primeira delas, ja e possivel ver (Figura 2) a parte acelular do sangue menstrual e a solucao salina misturadas e, abaixo, um sedimento com as celulas presentes no sangue, como as hemacias, que tem a coloracao vermelha, leucocitos, celulas epiteliais e celulas estromais mesenquimais.

A parte liquida acelular e descartada, e o material precipitado e diluido para ser, entao, novamente "lavado" com solucao salina e centrifugado. Apos algumas repeticoes desses procedimentos, o material e misturado ao meio de cultura e procede-se ao "plaqueamento", que e o acondicionamento do liquido com as celulas numa placa de plastico. Esta e entao nomeada com o tipo de celula (CeSaM), a data, o codigo da doadora e qual plaqueamento se trata (zero para o inicial, um para a proxima vez em que as celulas serao manipuladas e replaqueadas, e assim por diante).

Apos dois dias do plaqueamento inicial, as celulas sao "lavadas" com a solucao salina e ja ha uma reducao do "vermelho" do sangue para a tonalidade do meio de cultura (Figura 3). Com as lavagens, as celulas aderentes ao plastico da placa de cultura se tornam mais visiveis no microscopio. O procedimento todo objetiva uma purificacao do elemento que interessa desse conjunto todo: as celulas estromais mesenquimais do sangue menstrual. Uma vez isoladas, as CeSaM se tornam uma "cultura" cuja manutencao depende de intensa atencao e cuidado por parte da pesquisadora, (13) e a sequencia de outros diversos tratamentos (colocacao na estufa, replaqueamento, troca periodica do meio de cultura e congelamento).

Nao e, contudo, apagada definitivamente a origem de cada uma dessas celulas. No caso das CeSaM, ela e reiterada pela utilizacao dessa abreviatura que, assim como o processo de purificacao/isolamento, atenua o peso da proveniencia de um tecido marcado por genero e sexualidade: sangue menstrual vira o sufixo "SaM" que sucede aquilo que de fato importa nesse contexto, o "Ce" das celulas.

Apos algumas horas do isolamento, as celulas ja comecam a aderir no fundo da placa, a crescer e a multiplicar. Depois de alguns dias, elas tomam todo o fundo da placa com um aspecto confluente, que e a "morfologia fibroblastoide" desejada (Figura 4). (14) Uma vez cheia a placa, o espaco para o crescimento das celulas e aumentado (elas sao descoladas, centrifugadas e colocadas, junto com o meio em mais placas--e/ou em placas maiores). Isso e a expansao. Adicionalmente, apos sua multiplicacao, as celulas podem ser congeladas para posterior utilizacao.

A potencia das CeSaM esta ligada a sua capacidade de "aderir ao suporte de cultura, exibir uma morfologia fibroblastoide, alem de apresentar uma alta taxa de proliferacao dobrando a sua populacao em 19-36 horas (...), sugerindo que a expansao em larga escala e possivel em uma proposta terapeutica" (ASENSI; GOLDENBERG; PAREDES, 2012, P. 112).

Conforme Asensi demonstrou com suas pesquisas de mestrado (ASENSI et. al., 2014) e doutorado, as CeSAM expandem rapidamente e resistem bem a condicoes de privacao (pouco nutrientes no meio de cultura, pouco oxigenio). Esse e um dos fatores que as tornam interessantes tanto para pesquisas quanto para tratamentos clinicos. Mesmo uma pequena quantidade de sangue menstrual inicial pode ser revertida em milhares de celulas. Alem disso, elas podem substituir tecidos nao humanos que tem sido utilizados para cultivar as celulas embrionarias, como os fibroblastos embrionarios de camundongos, reduzindo a necessidade dessa relacao transespecifica em nivel celular em pesquisas e eventuais tratamentos (SILVA DOS SANTOS et al., 2014).

O perfil das CeSaM tem se mostrado equivalente ao das celulas da medula ossea, de acordo com marcadores especificos (proteinas presentes nas membranas das celulas; substancias que induzem a producao de outras substancias, ou induzem o crescimento de determinada celula; e a capacidade de modular a resposta imunologica, evitando sua rejeicao pelo organismo onde foi inserida). (15) Tem uma sobrevida maior que a observada em celulas de outros tecidos, demorando mais tempo para perder a sua capacidade proliferativa em cultura. Tem, ainda, uma capacidade superior de resistencia a condicoes desfavoraveis, tais como privacao de nutrientes e oxigenio.

CeSaM, Genero e Tecnociencia

No laboratorio, as CeSaM sao jocosamente referidas como "celulas do chico", expressao popularmente usada para falar sobre a menstruacao. Diz-se que a mulher "esta de chico" quando esta menstruada. A mencao explicita a menstruacao, fonte das celulas, e evitada. Como o e em outras situacoes sociais comuns que envolvem expressoes de abjecao, nojo ou vergonha perante o sangue menstrual (SANABRIA, 2016).

Com efeito, no laboratorio, a presenca desse substrato corporal e quase efemera: da chegada a coleta, ja envasado pelo pote coletor, o material vai imediatamente, ou o quanto antes possivel, para o procedimento de isolamento e plaqueamento descrito anteriormente. Algumas pesquisadoras relataram expressoes de nojo por parte de outras pessoas em relacao a manipulacao do sangue menstrual no fluxo laminar, ou ate mesmo situacoes em que outros pesquisadores evitaram usar o mesmo espaco ao mesmo tempo, receosos de alguma eventual contaminacao. Apesar do rapido processamento, o sangue menstrual permanece constantemente referenciado pelo nome da celula (CeSaM), e/ou pelo seu apelido.

As formas mais usuais e valorizadas de inscricao dos resultados das pesquisas (os artigos cientificos da area) reduzem ou minimizam essa dimensao mais cotidiana do laboratorio, na qual eventualmente um desconforto com a presenca do sangue menstrual pode se expressar. Nos artigos, a referencia a origem da celula e apresentada descrevendo-se objetivamente sua utilizacao e processamento nos materiais e metodos, e os procedimentos bioeticos de obtencao do material. As percepcoes pessoais acerca da presenca do sangue menstrual nas dinamicas do laboratorio, e fora dele, em contextos de divulgacao das pesquisas, ficam invisiveis nesta linguagem objetiva e codificada dos artigos. Este artigo oferece uma oportunidade de recompor e narrar, numa feitura coletiva e multidisciplinar, e partindo da pesquisa etnografica realizada no laboratorio, algumas dessas situacoes.

Comparativamente com os demais substratos corporais utilizados (medula, cordao umbilical, gordura etc.), o sangue menstrual e aquele que tem a maior disponibilidade potencial e ausencia de invasividade para ser obtido--basta coleta-lo durante o fluxo menstrual, e em pequenas quantidades. As pesquisas realizadas ate o presente momento demonstraram que o sangue menstrual e um excelente vetor de acesso para celulas humanas adultas, que podem ser cultivadas em laboratorio, com plasticidade e capacidade de diferenciacao vantajosas para a pesquisa cientifica e, possivelmente, para a terapia celular.

Contudo, e um substrato marcado por genero e sexualidade de partida. Nao so vem do tecido interno do utero, como passa pela vagina no seu caminho para "fora" do corpo. Essa passagem nao e banal (SANABRIA, 2016), nem neutra, e isso se reflete no universo de pesquisas possiveis com celulas mesenquimais no LCCM. Nao e a toa que a iniciativa do uso dessas celulas tenha sido tomada por uma pesquisadora mulher. E que sejam ainda poucas, e fundamentalmente mulheres, as pesquisadoras que participam das investidas com esse substrato corporal no laboratorio.

Apesar da primeira publicacao importante sobre as CeSaM, neste laboratorio, ter sido parte da pesquisa de um pesquisador, e a celula ter demonstrado a sua excelencia e utilidade, rapidamente outros substratos corporais (como o sangue de cordao umbilical e a gordura) passaram a ser estudados para desenvolver o mesmo tipo de acao. Embora estes tenham, proporcionalmente, uma quantidade inferior de celulas, demandando uma amostragem inicial maior, ou mais tempo de cultivo e expansao, parece haver uma preferencia maior (ainda consensual na comunidade cientifica da area, e tambem no LCCM) de evitar o uso do sangue menstrual, sempre que for possivel.

Diferentemente das demais celulas de tecido adulto pesquisadas (como as da placenta, do cordao umbilical etc.), as CeSaM sao muitas vezes pensadas como sendo celulas exclusivas "das mulheres"--que seriam empregaveis apenas em mulheres nos eventuais tratamentos futuros. Nao ha, entretanto, do ponto de vista cientifico, nenhum impedimento adicional ao transito das celulas do sangue menstrual para corpos masculinos, comparativamente a outros tecidos utilizaveis, desde que sejam compativeis. A nao ser, e claro, em casos de tratamentos autologos. A marcacao de genero opera de maneira a impossibilitar que a CeSaM seja tratada como uma celulamodelo, que pudesse ser universalmente estudada para tratamentos em corpos humanos.

As pesquisadoras que "compraram a ideia" de trabalhar com as CeSaM e que tem bancado tudo o que envolve esse empreendimento (convidar mulheres a doar material, "dar o proprio sangue" menstrual para a pesquisa, apresentar o trabalho em congressos cientificos, falar sobre a pesquisa com outras pessoas, defender e divulgar seus resultados) precisam tambem encarar os eventuais (mas inevitaveis) comentarios jocosos, piadas machistas, apelidos engracados sobre a fonte da celula. Cenas de bastidores, que muitas vezes passam desapercebidas, sobrepoem, de certa forma, uma misoginia (implicita, e as vezes mais explicita) na sociedade, as proprias celulas.

Em uma das situacoes presenciadas durante a pesquisa de campo, ao comentar resultados de um experimento com as CeSaM, que nao apontavam uma diferenca significativa a ponto de ser valorizada e publicavel, uma das pesquisadoras ouviu de um pesquisador que estava avaliando seu trabalho que, se os resultados (e procedimentos de pesquisa) nao fossem diferentes, a unica coisa que ela provaria e que as CeSaM "so servem mesmo e para acabar num "modess" (16)".

Essa cena expressa a exigencia que se costuma fazer ao desempenho das CeSaM: e preciso que se juntem resultados suficientemente convincentes sobre ela, de acordo com os mais rigorosos parametros cientificos vigentes, como o e para qualquer outra celula, para que ela seja reconhecida como boa. Entretanto, nenhuma das outras celulas sera (ou foi) acusada da sua inutilidade ou ineficiencia em termos tao pejorativos, marcados por comentarios de cunho machista, ou que invoquem de maneira tao explicita a expectativa socialmente compartilhada em relacao ao sangue menstrual: que ele nao serve para nada, e inutil, deve ser descartado como lixo e sempre ocultado e escondido, de acordo com as regras de higiene sanitaria.

Nem mesmo as celulas do tecido adiposo, oriundas dos excedentes de clinicas de lipoaspiracao (e que vem sendo tambem bastante estudadas, parte em razao da ampla e crescente disponibilidade de material) parecem receber o mesmo tratamento. Em geral se brinca com o beneficio de se "livrar" do excesso de gordura no corpo, reiterando pressupostos de saude e beleza (que tambem incidem sobre genero). Mas, apesar de compartilharem a jocosidade na forma como e retratado seu uso em pesquisas, as CeSaM e as celulas da gordura nao dividem o estigma da marcacao por genero, sendo o uso dessas ultimas em pesquisas e terapias visto com muito mais neutralidade, entusiasmo e esperanca. (17)

Nao ha como nao pensar esse tipo de abordagem sobre a funcao e desempenho das CeSaM sem estabelecer uma analogia com a forma como minorias (como "mulheres", por exemplo) sao tambem cobradas a respeito de seu desempenho. Ou seja, a expectativa da performance das CeSaM em laboratorio espelha, ou sobrepoe, de certa maneira, aquilo que se espera de minorias, na ciencia e no mundo do trabalho assalariado de forma geral: que, em situacoes de comparacao ou competicao, provem sua excepcionalidade (ou seu desempenho muito acima da media), sua alta capacidade de "dar conta do recado", ou entao que se recolham a um lugar minoritario e se conformem com a grande probabilidade de serem preteridas por uma pessoa menos "marcada" (por genero, raca, classe ou qualquer outra condicao minoritaria) e tao eficaz quanto.

Essa analogia que estabelecemos aqui brinca com os estereotipos de genero no mundo (da ciencia, inclusive) e apenas reforca uma questao ja bastante consolidada nos estudos de genero e ciencia. Mas e, ao mesmo tempo, infelizmente, bastante verossimil em relacao ao contexto de pesquisa em questao. Apesar de produzirem resultados excelentes, as CeSaM ainda ocupam, no universo de pesquisas do LCCM, uma posicao secundaria ou marginal em relacao a outras fontes de celulas.

Sua perspectiva de um engajamento central em pesquisas maiores, de folego, projetos grandes e coletivos que concorram nos maiores editais e praticamente nula, ou bastante improvavel. Pelo contrario, nesse tipo de projeto ela sequer costuma ser incluida entre as celulas a serem utilizadas. Maior visibilidade e dada a substratos corporais menos marcados, ainda que o uso destes envolvam procedimentos mais invasivos (ou menos disponiveis) para obtencao. Sao privilegiadas a medula ossea (que ja tem um lugar tradicional e consolidado nesse universo de pesquisas), o tecido adiposo, os excedentes do parto e gestacao (liquido amniotico, cordao, placenta), e ate mesmo a polpa do dente de leite.

Curiosamente, ao que tudo indica, a CeSaM resiste, como uma especie de icone do que se espera ser uma ciencia e uma pratica feminista, ou afetada por um feminismo, que nao se furta de valorizar o corpo entendido como feminino, em sua possivel especificidade: ela responde bem a situacoes desafiadoras, como falta de nutrientes e pouco oxigenio, perdura, resiste, quando tensionada pelos experimentos em questao. Isso tem a ver com o fato de essas celulas serem extraidas de corpos jovens e sadios, como costuma ser o perfil das doadoras de sangue menstrual, ao contrario de outras fontes, como o liquido amniotico, extraido em situacoes que envolvem o exame de amniocentese, ou mesmo os embrioes de clinicas de reproducao assistida, que sao considerados "inviaveis". Sao celulas mais "felizes" por isso. Mas pode ter a ver tambem com o fato de serem celulas de um tecido que e "desafiado", "estressado", "impactado" muito mais frequentemente que os demais tecidos disponiveis para pesquisa. E um pressuposto implicito das pesquisas em questao que a descamacao periodica do tecido endometrial com a menstruacao talvez tenha favorecido o desenvolvimento de celulas tronco com uma alta capacidade de resistencia a situacoes adversas.

Os resultados das pesquisas ate o momento permitem caracterizar as CeSaM como celulas fortes, resistentes. Portanto, por virem de orgaos mais impactados e de corpos que tem mais vitalidade, essas celulas "vivem" muito bem nos laboratorios, "trabalham" bem nas pesquisas para as quais sao convocadas, que envolvem, inclusive, coloca-las na posicao de restauro e reparacao, de cura e de cuidado. As CeSaM, para alem de compor uma excelente metafora sobre o trabalho, o corpo e a vida de mulheres, performam, tambem, efetivamente, em laboratorio, um mundo potencial no qual quica o sangue menstrual podera sair da sua condicao de excremento abjeto para a nobre funcao de vir a salvar vidas. Isso se conseguir ultrapassar o machismo institucional.18 De qualquer maneira, (e que nao se cobre demais dele!) ja tem servido muito bem, muito melhor do que muitos outros tecidos corporais, para a producao de conhecimento cientifico acerca da potencia vital e terapeutica das celulas mesenquimais.

DOI: 10.12957/irei.2018.35862

Referencias

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Recebido em outubro de 2017

Aprovado em marco de 2018

Daniela Tonelli Manica *

Regina Coeli dos Santos Goldenberg **

Karina Dutra Asensi ***

* Daniela Tonelli Manica e doutora em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), desde 2009; e pesquisadora do Laboratorio de Estudos Avancados em Jornalismo Cientifico (Labjor) da Unicamp. Email: dtmanica@unicamp.br.

** Regina Coeli dos Santos Goldenberg e doutora em Ciencias Biologicas--Biofisica pela Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ), desde 1995; e professora Associada do Instituto de Biofisica Carlos Chagas Filho e dos Programas de Pos-Graduacao em Ciencias Biologicas (Fisiologia) e Medicina (Radiologia) / UFRJ. Email: rcoeli@biof.ufrj.br.

*** Karina Dutra Asensi e Doutora em Ciencias Biologicas--Fisiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desde 2016; pos-doutoranda do Instituto de Biofisica Carlos Chagas Filho / UFRJ; e professora substituta do Centro Nacional de Biologia Estrutural e Bioimagem / UFRJ. Email: karina_asensi@yahoo.com.br.

(1) Estamos conscientes de que esses exemplos compoem um recorte limitado, marcado por afinidades e afetos, e que deixa de fora muitos outros trabalhos, bem como as articulacoes com raca e sexualidade.

(2) Podemos considerar que para o leite materno praticas de circulacao dessa substancia Tenham sido mais presentes na historia das relacoes sociais, e raciais, no Brasil--nao so com os Bancos de leite mas tambem, por exemplo, ate alguns seculos atras, com as figuras das amas-deleite, em geral mulheres negras escravizadas que amamentavam os bebes das mulheres brancas. Os bancos de leite materno procuram atualmente, no Brasil, organizar esse fluxo de substancias atraves da etica da doacao anonima e voluntaria. Numa perspectiva transespecifica, podemos localizar tambem as vacas como provedoras desse alimento para grande parte da populacao humana, em geral em contextos de comercializacao do leite em diversos formatos e embalagens, e com diferentes graus de processamento (FINE, 2003; FLEISCHER, 2007). Sobre a comercializacao de tecidos e substratos corporais em outros contextos nacionais, ver Waldby e Mitchell (2006).

(3) Diversas performances artisticas, exposicoes, fotografias colocam o sangue menstrual em evidencia, como objeto artistico (BOBEL, 2010; BERTHON-MOINE, 2011; BOBEL; KISSLING, 2011). Eles servem tambem como formas materiais de se produzir registros com finalidade De recordacao pessoal sobre a experiencia do parto (no caso do registro imagetico da placenta e do cordao umbilical). Essas imagens, bem como outras menos circunscritas aos universos estabilizados da arte, mais "caseiras" e "pessoais", tem sido amplamente replicadas em divulgacoes nas diversas redes sociais digitais, explorando a potencia estetica e politica do "vermelho" do sangue menstrual, ou do desenho impresso pela placenta apos o parto em um suporte (tecido, papel). Ou ainda, sua presenca feita visivel pelo registro fotografico do parto como evento a ser lembrado.

(4) Celulas "estromais" sao derivadas do tecido de sustentacao de um orgao, capazes de Fornecer suporte a outros tipos celulares.

(5) As celulas "totipotentes" sao capazes de dar origem a qualquer tipo celular do organismo, formando todos os tecidos que compoem o embriao, bem como os anexos embrionarios (por exemplo, a placenta) necessarios para o seu desenvolvimento. As "pluripotentes" sao capazes de se diferenciar em qualquer tipo celular tambem, entretanto, nao possuem a capacidade de desenvolver um individuo adulto, ja que nao sao capazes de dar origem aos anexos embrionarios. Ja as celulas "multipotentes" possuem capacidade de diferenciacao mais limitada, dando origem somente a celulas relacionadas ao seu tecido de origem.

(6) As celulas mesenquimais tem caracteristicas multipotentes, presentes em diversos tecidos e orgaos.

(7) Criado em 1985, o Laboratorio de Cardiologia Celular e Molecular do IBCCF/UFRJ desenvolve pesquisas que se subdividem em diversas linhas. Disponivel em: http://www. biof.ufrj.br/pt-br/lab-tot/49%20.

(8) O processo de descelularizacao envolve a remocao de todas as celulas de um orgao Atraves do uso de agentes quimicos.

(9) Mioblastos sao celulas musculares mais imaturas, pouco diferenciadas.

(10) As celulas pluripotentes induzidas sao derivadas de celulas adultas, que ja estavam plenamente diferenciadas, mas que foram induzidas em laboratorio a voltar para seu estagio embrionario, voltando a ser pluripotentes.

(11) As pesquisas desempenhadas no laboratorio foram aprovadas pelo comite de etica e pesquisa do Hospital Universitario Clementino Fraga Filho / UFRJ sob o processo de no 056/09.

(12) Os granulocitos sao celulas sanguineas que apresentam muitos granulos no seu interior. Sao elas: neutrofilos, basofilos e eosinofilos.

(13) O LCCM e majoritariamente formado por pesquisadoras mulheres. E desde a pesquisa de Deivid Rodrigues, nenhum outro pesquisador homem se envolveu diretamente com o cultivo dessas celulas.

(14) A morfologia fibroblastoide e alongada e delgada, semelhante a dos fibroblastos. Os fibroblastos sao celulas presentes no tecido conjuntivo, capazes de sintetizar e liberar diversas substancias.

(15) As expressoes mais tecnicas para falar dessas moleculas marcadoras sao, respectivamente, proteinas de superficie, fatores de transcricao e de crescimento e propriedades imunomodulatorias.

(16) Modess e uma marca antiga de absorventes higienicos usada para conter e descartar o Sangue menstrual.

(17) Ver, por exemplo, o uso terapeutico que vem sendo feito em clinicas veterinarias usando celulas do tecido adiposo do proprio animal para tratar algumas disfuncoes. Disponivel em: http://www.cellvet.com.br/terapia-celular/. Acesso em junho de 2017.

(18) Caberia, evidentemente, problematizar diversas questoes a respeito desse potencial de Uso das CeSaM: o consentimento das doadoras, a universalidade e gratuidade no acesso as celulas e terapias, as politicas de propriedade intelectual e do mercado biomedico e farmaceutico que incidem sobre terapeuticas possiveis etc. Nao queremos naturalizar a positividade do uso das CeSaM, mas indicar o quanto esse potencial e sistematicamente impedido pela institucionalidade vigente que (ainda) enxerga o corpo feminino como diferente e, o que e mais problematico, como inferior.

Caption: Figura 1--Amostra de sangue menstrual 11

Caption: Figura 2--Processo de isolamento: sangue menstrual apos centrifugacao

Caption: Figura 3--Plaqueamentos apos zero (acima) e dois dias (abaixo)

Caption: Figura 4--Fotomicrografias das CeSaM apos 7 dias de cultivo
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Author:Manica, Daniela Tonelli; Goldenberg, Regina Coeli dos Santos; Asensi, Karina Dutra
Publication:Intersecoes - revista de estudos interdisciplinares
Date:Jan 1, 2018
Words:6964
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