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Carlos Nelson Coutinho.

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Em meados de 1967, saia pela Editora Paz e Terra, do Rio de Janeiro, um volume de ensaios--Literatura e humanismo--cujo autor era um baiano de 24 anos. O livro afirmava, imperativamente, o talento critico (que o jovem ja revelava, ainda como precoce promessa, nos ensaios que vinha publicando em importantes jornais e revistas desde os 1 7 anos) do autor em dois niveis: de uma parte, a sua rigorosa referencia teorica; de outra, a sua criatividade na implementacao das matrizes que orientavam o seu pensamento.

E que, no conjunto dos textos ali reunidos, havia nao so a pioneira explicitacao dos parametros analiticos da teoria do realismo de Lukacs, mas a sua aplicacao criadora a um classico da literatura brasileira--e os dois ensaios respectivos (um sobre o realismo como categoria central da estetica e outro sobre o romance de Graciliano Ramos) tornaram-se, desde entao, antologicos. Com Literatura e humanismo, seu autor, Carlos Nelson Coutinho, inseriu-se entre os criticos literarios brasileiros mais qualificados.

Favoreceu-o, nesta insercao, tanto a sua formacao teorica (na universidade, graduou-se em Filosofia) quanto as suas escolhas literarias (sempre vinculadas a autores classicos da literatura universal). No prosseguimento da sua atividade critica, tornou-se--juntamente com Leandro Konder, numa parceria que se iniciou nos anos 1960 e continua ate hoje--um interlocutor de Gyorgy Lukacs e produziu mais alguns ensaios que haveriam de ser consagrados (entre outros, sobre Lima Barreto, Marcel Proust e Franz Kafka).

O segundo livro de Carlos Nelson--publicado em 1972 e logo traduzido no Mexico -, O estruturalismo e a miseria da razao, mantem a sua estrita fidelidade ao pensamento de Lukacs, mas expressa, tambem e novamente, a criatividade do autor: se o filosofo hungaro ja analisara a "destruicao da razao", Carlos Nelson lanca luz sobre o processo de constituicao da "razao miseravel" (de que o estruturalismo frances dos anos 1960 era emblematico), que nao fora objeto da pesquisa de Lukacs. A relevancia deste livro, que o autor tardou quase quarenta anos a reeditar, foi atestada recentemente pelo publico leitor: a segunda edicao (2010) esgotou-se em menos de um ano.

A trajetoria intelectual de Carlos Nelson experimenta uma inflexao na segunda metade dos anos 1970. Obrigado ao exilio pela ditadura, viveu, entre inicios de 1976 e o fim de 1978, na Europa (Italia, Portugal, Franca)--quando pode tornar-se explicitamente um protagonista da luta politica, uma vez que, no Brasil, desde 1964, sua intervencao na resistencia democratica, como membro do PCB, tivera que ser obrigatoriamente encoberta. Na Europa, estuda intensivamente os classicos da teoria politica, especialmente Gramsci--de que fora o tradutor ja em 1966--e participa da luta interna travada no PCB (do qual se afastara em 1981).

O Carlos Nelson que regressa ao pais na agonia da ditadura tem, agora, um interesse especial pela politica, na teoria e na pratica. E logo no seu retorno publica um ensaio de enorme repercussao: "A democracia como valor universal" (1979). Este texto marca o deslocamento de seus objetos de reflexao e pesquisa: sem abandonar o oficio de tradutor e a critica literaria e cultural, agora o seu esforco dirigese mais para a teoria e a pratica politicas.

Nesta seara, porem, o seu objetivo prioritario passou a ser a compreensao do Brasil. A partir de entao, se produz textos sobre questoes teoricas do movimento socialista, o que elabora essencialmente e uma serie de ensaios esclarecedores acerca do nosso pais, seja sobre analistas da historia brasileira (como o seu estudo antologico de Caio Prado Jr.), seja sobre problemas candentes da nossa sociedade (como os referidos a nossa "via prussiana", a relacao Estado/sociedade civil e a questao democratica). Na segunda metade dos anos 1980, engrossa com entusiasmo as fileiras do PT--recorde-se que fez parte, na entrada dos anos 1990, do "governo paralelo" deste partido, do qual se afastaria posteriormente para participar do processo de fundacao do P-SOL.

Mas o retorno do exilio tambem marcou um giro profissional na trajetoria de Carlos Nelson. Ate entao avesso a vida academica, ele comeca por lecionar no ensino superior privado e depois ingressa (por concurso publico de livre-docencia, em 1987) na Escola de Servico Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ESS/UFRJ), a qual passa a servir em regime de dedicacao exclusiva e tempo integral ate sua aposentadoria (no presente ano). Nesta unidade academica, sua competencia e sua generosidade granjearam-lhe o respeito de seus pares e a admiracao de seus alunos, dezenas dos quais orientou em nivel de mestrado e doutorado.

Cabe aqui uma notacao rapida e especifica. Na ESS/UFRJ, Carlos Nelson jamais se acomodou na posicao de um "estranho no ninho", recusou-se sempre a ser um mero observador externo do/ao Servico Social. De fato, interessou-se pelos debates do Servico Social, leu os principais autores da sua bibliografia, prestigiou os eventos da categoria profissional e ofereceu a sua contribuicao a encontros e seminarios de pesquisa. Converteu-se, nas suas proprias palavras, em um "assistente social honorario".

No exercicio docente, seu prestigio academico (obviamente conectado a sua condicao de ensaista brilhante) logo ganhou ressonancia nacional, atestada pelos convites que o levaram a participar de seminarios, coloquios e bancas de concurso e de dissertacoes e teses nas universidades brasileiras mais importantes.

A partir de meados dos anos 1990, o trabalho intelectual de Carlos Nelson comeca a repercutir para alem das fronteiras do Brasil--num processo que, na primeira decada deste seculo, fara dele um pensador internacionalmente conhecido. Pronuncia conferencias na Argentina, no Mexico e na Italia. Livros seus sao publicados na Italia, em Cuba e no Chile e seus textos sao traduzidos ao ingles, ao italiano, ao frances, ao castelhano e ate ao japones e ao romeno.

Neste periodo, prossegue redigindo ensaios, publicando livros, intervindo na imprensa, concedendo entrevistas a periodicos brasileiros e estrangeiros--porem, o projeto a que se dedica intensivamente e a edicao em portugues, em seis volumes, dos gramscianos Cadernos do carcere (ademais de dois volumes das Cartas do carcere e outros dois de Escritos politicos). A realizacao deste projeto (1999-2005), contando com a colaboracao de Marco Aurelio Nogueira e Luis Sergio Henriques, Carlos Nelson conferiu tal qualidade e erudicao que esta versao brasileira de Gramsci e considerada, entre todas as traduzidas do italiano, a mais credibilizada. Assim, nao foi por acaso que Carlos Nelson tornou-se uma referencia na direcao da International Gramsci Society.

Levando-se em conta a sua producao intelectual registrada, e fora de duvida que ela deve ser avaliada como substantiva--Carlos Nelson e a concreta negacao do preconceito segundo o qual os baianos sao pouco afeitos ao trabalho. (1) Mas a substantividade aqui referida nada tem a ver com a dimensao quantitativa: tem tudo a ver com uma obra que marca profundamente a cultura brasileira no seu sentido mais amplo e nela se inscreve duradouramente.

Trata-se de uma obra em que a critica literaria, cultural e social da as maos a elaboracao teorica e politica e a intervencao sociocentrica. Obra que, diferenciada no curso de sua constituicao, tem o seu fundamento numa rigorosa e criativa exegese de Marx, Lukacs e Gramsci e se desenvolve numa unidade garantida, entre outros componentes, pela sempre reafirmada opcao revolucionaria de Carlos Nelson. Obra que, como poucas produzidas por pensadores da sua geracao, confere a ele um relevo notavel entre todos os seus contemporaneos.

Por isto mesmo, esta homenagem de vida e tao justificada quanto o sao as outras varias homenagens em vida prestadas a Carlos Nelson nestes ultimos dias de junho de 2012, quando, a 28, ele completou 69 anos e, a 29, em nome do Conselho Universitario, o Magnifico Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro presidiu a cerimonia solene em que se lhe atribuiu o titulo de Professor Emerito. Emerito entre emeritos, recebera ainda, a 3 de julho, o preito de agradecimento da comunidade academica da ESS/UFRJ.

E sao mesmo homenagens de vida e em vida, porque Carlos Nelson Coutinho ainda tem muito a fazer e a dizer--os mais proximos estao a cobrar-lhe a sua Breve historia da filosofia (titulo provisorio), que nao avancou alem do seculo XVIII. Mas, tambem, porque os seus amigos e camaradas estao longe de considerar que, apesar de tanto e tao proficuo trabalho, ele ja possa desfrutar de um merecido otium cum dignitate--isto, nos so lhe concederemos quando ele ficar velho.

Recebido para publicacao em 29 de junho de 2012.

Jose Paulo Netto, Professor Emerito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

(1) Com efeito, a capacidade de trabalho intelectual de Carlos Nelson e impar. Para alem da sua atividade politica e, nos ultimos 25 anos, do seu exercicio docente, empreendeu a traducao de mais de 60 livros, escreveu 41 ensaios como capitulos de livros e 67 como artigos em revistas de critica literaria e periodicos academicos e politicos e publicou 1 3 livros: Literatura e humanismo. Ensaios de critica marxista, 1967; O estruturalismo e a miseria da razao, 1972; A democracia como valor universal. Notas sobre a questao democratica no Brasil, 1980 (2a ed. ampliada: A democracia como valor universal e outros ensaios, 1984); Gramsci, 1981; A dualidade de poderes. Introducao a teoria marxista de Estado e revolucao, 1985 (2a ed. ampliada, 1987); Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento politico, 1989 (2a ed. revista e ampliada, 1999); Cultura e sociedade no Brasil. Ensaios sobre ideias e formas, 1990 (4a edicao revista e ampliada, 2011); Democracia e socialismo. Questoes de principio & contexto brasileiro, 1992; Marxismo e politica, 1994; Contra a corrente. Ensaios sobre socialismo e democracia, 2000 (2a ed. revista e atualizada, 2008); Lukacs, Proust e Kafka. Literatura e sociedade no seculo XX, 2005; Intervencoes. O marxismo na batalha das ideias, 2006; De Rousseau a Gramsci. Ensaios de teoria politica, 2011. Ademais, foi o organizador (ou co-organizador) de varias antologias de, entre outros, Lukacs e Gramsci, e ainda exerceu, entre 2004 e 2011, a Direcao da Editora UFRJ.
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Title Annotation:HOMENAGEM DE VIDA
Author:Netto, Jose Paulo
Publication:Em Pauta
Date:Jun 1, 2012
Words:1620
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