Printer Friendly

Carlos Nader e Jose Leonilson: Paixoes Entrelacadas.

Carlos Nader and Jose Leonilson: Interlaced Passions

Introducao

Sob a otica das rupturas e invencoes ocorridas no documentario brasileiro, direciono o nosso olhar para a analise da Paixao deJL, trabalho do cineasta Carlos Nader--Documentarista paulista, nascido em 1964, que ficou conhecido como video-artista entres as decadas de 1980 e 1990. Seu trabalho incial mais relevante no cinema e o curta semi-documentario: O beijoqueiro (1992). Sua estreia em longas-metragens aconteceu em 2008, com o documentario Pan-cinema permanente, perfil pessoal do artista Wally Salomao, premiado no festival E Tudo Verdade. A paixao de JL (2015). Premio de melhor documentario brasileiro, no mesmo evento. Outros trabalhos: Eduardo Coutinho, 7 de outubro (2015), Homem Comum (2014), Tela (2011, melhor curta metragem no Festival de Havana), Preto & Branco (2004), Carlos Nader (1999), O fim da viagem (1996), Trovoada (1995), Territorio Invisivel (1994).

Jose Leonilson Bezerra Dias (Fortaleza, Ceara, 1957--Sao Paulo, Sao Paulo, 1993). Personagem na Paixao de JL, era pintor, desenhista, escultor. Em 1961, mudou-se com a familia para Sao Paulo. Entre 1977 e 1980, cursou educacao artistica na Fundacao Armando Alvares Penteado. Em 1981, em Madri, realizou sua primeira individual na galeria Casa do Brasil e viajou para outras cidades da Europa. Em Milao teve contato com o artista visual Antonio Dias que o apresentou ao critico de arte, Achille Bonito Oliva. Retornou ao Brasil em 1982. A obra de Leonilson e predominantemente autobiografica e esta concentrada nos ultimos dez anos de sua vida. Segundo a critica Lisette Lagnado, cada peca realizada pelo artista e construida como uma carta para um diario intimo. Em 1989, comecou a fazer uso de costuras e bordados, que passaram a ser recorrentes em sua producao. Em 1991, descobriu ser portador do virus da Aids e a condicao de doente repercutiu de forma dominante em sua obra. Seu ultimo trabalho, uma instalacao concebida para a Capela do Morumbi, em Sao Paulo, em 1993, tem um sentido espiritual e alude a fragilidade da vida. Por essa mostra e por outra individual realizada no mesmo ano, recebeu, em 1994, homenagem postuma e premio da Associacao Paulista de Criticos de Artes (APCA). No mesmo ano de sua morte, familiares e amigos fundaram o Projeto Leonilson, com o objetivo de organizar os arquivos do artista e de pesquisar, catalogar e divulgar suas obras. Foram realizados filmes sobre o artista e a sua obra.

1. Paixoes Entrelacadas

Entender como uma manifestacao, um desfecho, que orienta uma nova elaboracao do documentario experimental brasileiro, A Paixao de JL tornou-se num dos mais vigorosos filmes experimentais no cenario documental brasileiro. O filme e um ousado experimentalismo visual no qual existe uma fissura estetica que extrapola a linguagem usual instituida como canone na feitura dos documentarios; estabelecendo na narrativa e no enredo, alteracoes dos conceitos ortodoxos que direcionaram a construcao do filme documental brasileiro.

O enredo do filme se baseia num relato pessoal gravado pelo personagem que da titulo ao filme, anos antes de haver qualquer intencao da existencia ou da ideia da sua realizacao. Em janeiro de 1990, o artista visual Jose Leonilson comecou a gravar um diario intimo com a intencao de tornar publico os seus sonhos, memorias e ficcoes pessoais. Este e o letreiro que aparece como anuncio aos espectadores, antecedendo o fluxo narrativo da "Paixao de JL". Tres anos depois do inicio do seu diario intimo, no ano de 1993, "Leo" como era conhecido pelos seus parceiros, viria a falecer vitima do virus HIV.

A primeira questao que se coloca, no filme de Carlos Nader, e sobre a definicao da "vozdo dono". O documentario tradicional era constituido, geralmente, de uma serie de imagens mudas, colhidas ao vivo, que uma

vez selecionadas e ordenadas, sobrepunha-se um comentario na voz de um locutor, que nada mais e do que uma persona do cineasta. A narracao tinha, neste caso, a funcao de identificar as cenas, explicando-as e formando um conjunto adequado a expressao do que o cineasta julgasse relevante indicar, uma vez que as imagens, mudas que sao, possuem uma carga elucidativa aparentemente limitada. E pertinente dizer que esse processo de fazer falar as imagens na verdade serve para o cineasta se fazer ouvir. Isso foi definido e conceituado, por varios teoricos do cinema, como a "voz do dono".

A segunda questao e a observacao de que A Paixao de JL" e um filme de fluxo nao-narrativo, ja que a opcao tomada pelo diretor e a de que as imagens que se processam em paralelo ao som nunca sejam definidas materialmente, e para que isso aconteca reforca a sua paisagem visual, basicamente, com as pecas visuais produzidas, anteriormente, por Jose Leonilson.

Carlos Nader embaralha as imagens de tal forma que o quadro do filme parece uma abstracao visual a se confundir com certa abstracao pictorica produzida nos quadros de Jose Leonilson. Um jogo de luz permanente quase ofusca o olhar do espectador. Ocorre, entao, apesar da abstracao pretendida e configurada por Carlos Nader uma nitida aproximacao do seu documentario com o drama, especificamente com o drama ficcional. Entendemos ate aqui, que a encenacao dramatica se organiza no comportamento do ator frente a camera como forma de veiculacao da narrativa, mas a encenacao dramatica na "A Paixao de JL" surge de maneira subjetiva, pois nele a encenacao apresenta-se em forma de modelo que foi plasmado no texto gravado a priori, ou seja, "encenado previamente" pelo personagem unico: Jose Leonilson.

Em janeiro de 1990, o artista Jose Leonilson comecou a gravar um diario intimo, com a intencao de tornar publico os seus sonhos, memorias e ficcoes pessoais". Este e o letreiro que aparece como anuncio aos espectadores, antecedendo as imagens no documentario "A Paixao de JL". Tres anos depois, em1993, "Leo" como era conhecido pelos seus parceiros, viria a falecer vitima do virus HIV. O primeiro plano que se projeta no filme e o de um gravador, e logo se escuta a voz do personagem, que ira discorrer em toda a trajetoria cronologica do filme. E uma voz que toma conta de toda a narrativa discursiva do documentario. Com um tom melancolico, rouco e fazendo pausas intercaladas por uma forte respiracao, Jose Leonilson expoe, sem nenhuma barreira ou censura, a rotina da sua vida, dos seus anseios, das suas duvidas, das suas paixoes, ate chegar o momento em que anuncia a sua morte.

Logo, se percebe que a voz do "dono" nao e a voz de quem dirige o filme, mas de quem supostamente foi filmado. Digo, suposto, porque a imagem de quem fala nunca vai se materializar no corpo do filme. E uma voz sem corpo, e uma voz que faz parecer que o cinema tem alma. Se existe uma arte no mundo moderno que se preste a esta expressao espiritual, essa arte e o cinema. Pois, o cinema tem em seu alto grau, qualidades plasticas e meios excepcionais como a mobilidade da camera, enquadramento, diversidade de planos, escala de iluminacoes, rapidez ou lentidao no ritmo, valorizacao de um pormenor, enfim meios cujo efeito e poder conferir a todos os seres, a todos os objetos, a todas as paisagens da criacao, a todos os dados psicologicos, a todos os valores uma especie de "super-realidade". Nesse sentido, "A paixao de JL" cria uma imagem "super-real" sem rosto visivel, se trata de uma fisionomia "espiritual" que e transposta num espelho magico virtual e que da luz ao que era obscuro ou latente: os elementos da vida cotidiana de Jose Leonilson.

Nao e ele, o diretor Carlos Nader quem narra o documentario "A Paixao de JL"; e o personagem retratado. E Jose Leonilson, o "dono da voz". Uma voz que nao foi gravada diretamente para o filme, ela o precede por mais de uma decada. Embora tenha sido intencao do personagem retratado de que o seu diario se tornasse publico, assim como eram e sao destinadas ao publico as obras de sua criacao. Um diario intimo a rigor nao tem destino, ou melhor, o seu percurso se limita ao privado. Ao se apropriar desse "diario intimo" gravado, Carlos Nader fez dois atos. Primeiro, o torna publico, utilizando-se da expansao so permitida as imagens. Segundo, se apropria da "voz" de Jose Leonilson, fazendo dela a sua "voz ". Nesse sentido indagamos: quem fala pelo filme? O seu diretor ou o seu personagem? Ou existe uma metamorfose entre o criador (Carlos Nader) e a criatura (Jose Leonilson), ou ainda, a transformacao se altera Jose Leonilson e o criador e Carlos Nader passa a ser a criatura?

E inequivoca a discussao sobre as possibilidades que foram abertas ao documentario com o uso do som direto e a sua utilizacao como registro de falas explicitas e latentes, normalmente perdidas, mesmo pelo mais atento dos espectadores. A importancia que e atribuida a este particular deriva do fato de a gravacao, ela mesma, ser nao seletiva colhendo toda a expressao contida num filme, e altera essa natureza de expressao que passa a se manifestar atraves de unidades com autonomia propria, mas que podem ser e sao manipuladas pela edicao do material colhido, ou entao, selecionados de acordo com temas, situacoes e dramas pessoais.

No caso de "A paixao de JL" o que permeia o discurso estabelecido e o "drama da vida" de Jose Leonilson. Drama esse que primeiramente foi narrado a cada dia ou momento em que ele traduzia fatos que afetaram a sua vida. Fossem esses fatos, uma paixao contida ou uma duvida de contar para os pais a sua condicao e opcao sexual, e a de nao saber qual seria a reacao deles ao tomar conhecimento de que o filho era homossexual. A duvida persiste na gravacao original e no filme. Embora, "Leo" presuma que a sua mae tinha um entendimento da sua sexualidade, e atribui a sensibilidade materna a sua intuicao.

E sabido de antemao que tres anos de gravacao foram reduzidos, apenas, a cento e vinte minutos. Fica nitida a intervencao do diretor Carlos Nader nos originais deixados por Jose Leonilson. Ha uma subversao temporal que converte o tempo cronologico em tempo diegetico da "tragedia existencial" de Jose Leonilson, ou seja, Carlos Nader manipula, corta e recorta a fala do seu personagem atribuindo a esta voz a fatos diegeticos, aqueles relativos a historia apresentada na tela sao relativos a apresentacao em projecao diante dos espectadores. Entendemos assim, por diegetico, tudo o que supostamente se passa conforme a "ficcao" que o filme expoe, ou tudo aquilo que essa "ficcao" implicaria se fosse supostamente verdadeira. Falo "ficcao" por entender que as fronteiras entre o documentario e a ficcao nunca foram estanques e variam consideravelmente de um filme para outro.

Nesse caso, classificamos "A paixao de JL" no campo do documentario experimental, dialogando com a ficcao. Ate porque, o documentario sempre manteve relacoes e afinidades bem estreitas com o campo da experimentacao/ficcional desde o comeco da sua historia. Por experimental, a logica ensina que se designa todo o filme que experimenta ou que faz uma experiencia qualquer que seja na narrativa figurativa, sonora ou visual, alterando por quase completo o que se define por representacao da realidade."A Paixao de JL" e um filme de fluxo nao-narrativo figurativo, ja que a opcao tomada pelo diretor e a de que as imagens que se processam em paralelo ao som nunca sejam definidas materialmente, e para que isso aconteca reforca a sua paisagem visual, basicamente, com as pecas visuais produzidas por Jose Leonilson durante quase todo o seu percurso de vida. Afora essas imagens, o diretor coloca em cena, trechos de filmes e seriado de televisao, algumas fotos de familiares (nunca do personagem principal) e sao, tambem, mostradas no centro do quadro imagetico letras, graficamente trabalhadas, que reforcam o discurso narrativo exposto pelo personagem.

Conclusao

Jose Leonilson ao representar a si mesmo investiu-se do papel de ator "natural", abrindo mao do papel estetico, encenou o papel social, que e o modo pelo qual assume a realidade social na qualidade de sujeito. Nessa dramaturgia natural as suas acoes "banais, naturalizadas e cotidianas sao demonstrativas ou exemplares da sua visao de mundo. O que se deu pela contingencia de inumeros fatores e circunstancias adquire uma dimensao dramatica, mediada por uma possivel consciencia, nao declarada, do nao ator da sua propria vida. Primeiro, como sujeito de uma experiencia vivida, e depois como sujeito de uma experiencia revivida passivel de selecao e critica, que se faz digna do papel de sujeito que atribui a si mesmo. Na perspectiva de analise visualizada da encenacao dramatica de Jose Leonilson fica clara a crise da sua representacao pela interferencia da realidade da cena em que vive ao anunciar o prenuncio da sua morte. "A Paixao de JL" e uma visita post mortem ao artista de quem o diretor era amigo. Sobre "Leo", Nader afirmou: "era uma pessoa bem diferente daquela que as impressoes pessoais aparecem no filme". Por conhece-lo, a sua inclinacao foi a de nao acompanhar a sua trajetoria, mas de reconstrui-la a cada passo, sabendo de antemao qual seria o seu desfecho: a morte anunciada. O filme encerra com uma frase grafada na tela, extraida de uma das obras de Jose Leonilson: "Pulo sem paraquedas. Em breve terei 33 anos. Morro pela boca. Vivo pelos olhos".

Referencias

AGEL, Henri. 1963. O cinema tem alma? Belo Horizonte, Editora Itatiaia. ISBN 139782862440316.

BERNARDET, Jean-Claude. 2003. Cineastas e imagens do povo. Sao Paulo: Companhia das Letras, ISBN 8535904026

TEIXEIRA, Francisco Elinaldo, 2004. Cinemas "Nao Narrativos" Experimental e Documentario--passagens. Sao Paulo: Alameda. ISBN 9788579391873

TEIXEIRA, Francisco Elinaldo, (Org), 2004. Documentario no Brasil--Tradicao e Transformacao. Sao Paulo: Summus Editora. ISBN 8532308503

GUZMAN Patricio. (2017). Filmar o que nao se ve--Um modo de fazer documentarios. Sao Paulo: Edicoes Sesc. ISBN 9788594930668

JOSE UMBELINO BRASIL, Brasil, Documentarista e Professor de Cinema.

Artigo completo submetido a 03 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

AFILIACAO: Universidade Federal da Bahia (UFBA); Faculdade de Comunicacao. Rua Barao de Jeremoabo, s/n, Ondina Salvador, BA, CEP 40170-115, Brasil. E-mail: umbelino@ufba.br

Leyenda: Figura 1 * Fotograma do documentario Paixao de JL, de Carlos Nader, 2015.

Leyenda: Figura 2 * Fotograma do documentario Paixao de JL, de Carlos Nader, 2015.
COPYRIGHT 2019 Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2019 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:Artigos originais
Author:Umbelino Brasil, Jose
Publication:GAMA
Date:Jan 1, 2019
Words:2579
Previous Article:Tempo e memoria nas gravuras de Evandro Carlos Jardim.
Next Article:O tragico sofrimento dos retirantes do sertao nordestino brasileiro nas obras de Candido Portinari.

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters