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Carlos Guilherme Mota Ideologia da Cultura Brasileira, 1933-1974.

CARLOS GUILHERME MOTA Ideologia da Cultura Brasileira, 1933-1974 Sao Paulo, Editorial Atica, 1994, 8 edi. 303 pp.

O livro de Carlos Guilherme Mota e sua tese de Livre-Docencia para Professor titular de Historia Contemporanea da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas da Universidade de Sao Paulo, publicada em primeira edicao em 1977.

Mota abre sua discussao e analise com o que chama de "Cristalizacao de uma ideologia: A 'cultura brasileira'" , lembrando que o periodo pos 1967 abriu a possibilidade de fazer uma analise da literatura que pensou o Brasil a partir da decada de 1930. O principal expoente desta literatura foi Gilberto Freyre, um erudito da geracao de explicadores da brasilidade que se auto-denominou de "cultura brasileira". 1930 e o periodo em que surgem as capas medias da sociedade e que ajudam no ajustamento dos estamentos sociais de uma sociedade de classes em formacao. A principal obra deste periodo e Casa Grande & Senzala, onde Freyre fez a interpretacao da cultura ideologica brasileira, partindo da preocupacao regional para o nacional. Esta obra adquiriu importancia nacional e internacional para retratar o Brasil. Sua importancia valeu-lhe convites para participar no cenario educacional no periodo inicial da ditadura de 1964. Sua obra foi considerada a reconstituicao da interpretacao dos aspectos intimos do passado nacional de raca e cultura brasileira em formacao e uma interpretacao de fatos. Por isso quase nada conclui, mas muito interpreta. Entretanto, Mota acredita que conclui sim: que sua visao do regional tornou-se, na verdade, uma tentativa de uma conclusao de uma visao nacional. O desenvolvimento economico colocou a necessidade de uma laicizacao do saber. Sua implantacao possibilitou um projeto ideologico de unificacao de todas as correntes educacionais. Neste periodo o Estado Nacional substituiu 774 escolas vinculadas as regioes de imigracao por 885 escolas nacionalistas. Este processo foi acompanhado pela criacao da universidade brasileira, tendo como um dos principais articuladores Fernando de Azevedo. A primeira universidade brasileira foi essencialmente de principios aristocraticos, para que a elite pudesse precaver-se diante de uma ameaca de uma democratizacao.

Na sequencia, Mota recupera o Testamento da geracao de 1944. A Segunda Guerra Mundial provocou uma instabilidade internacional e nacional, desencadeando um final de ciclo cultural representado por autores influentes como Afonso Arinos de Melo Franco, Sergio Milliet, Joao Alphonsus, Luiz da Camara Cascudo, Emiliano Di Cavalcanti, cujos depoimentos estao na Obra "Testamento de uma Geracao". Iniciou-se uma recessao da atividade critica, pois a rede universitaria ainda nao era capaz de influenciar de forma vigorosa uma producao intelectual do novo. Para Mota esta crise se evidenciou em Mario de Andrade, quando disse ser a sua "pifia geracao o quinto ato conclusivo de um mundo". Afonso Arinos de Melo Franco foi um "explicador do Brasil". Publicou tres obras a este respeito. Como escritor e jornalista sempre esteve proximo do poder, mas trouxe um gosto pelo popular. Ideologicamente optou pela democracia, contra a onda do momento que se dividia entre o fascismo e o comunismo. Impos-se contra as teorias marxistas que estavam sendo importadas neste periodo. Artur Ramos, influenciado pelo cientificismo, trabalhou numa linha de investigacao que privilegiava a Psicologia Social, as relacoes raciais e a religiosidade. Eduardo Frieiro, oriundo da classe operaria, conseguiu romper o circulo intelectual ao tornor-se um letrado sem passar pelos requintes burgueses de formacao. Ee trouxe para dentro da literatura uma visao nova do trabalho humano, contrapondo trabalho bracal e trabalho intelectual com base em sua propria experiencia de vida. Isso levou-o a significar a acao cultural enquanto necessidade do intelectual militar, de posicionar-se neste tempo de guerra, de medo e de partido. Luiz Camara Cascudo esteve ligado a ideia de "cultura nacional" misturando erudicao com "sabedoria popular" para falar do nada e nada falar. Procurou ao maximo se omitir no falar. Nao quiz assumir posicao. Um dos mais discretos, mas importante autor da epoca, foi Sergio Milliet. Participou da vanguarda modernista e liderou o I Congresso Brasileiro de Intelectuais. Iniciou-se na poesia, mas foi na critica que se tornou importante. Introduziu, atraves de suas traducoes, obras internacionais de Rugendas, Debret, Sartre, Simone de Beauvoir e Montaigne. Desmascarou o individualismo e a falta de um projeto comum da intelectualidade que acabou dispersando-se em pequenos grupos. Candido Mota Filho criticou o liberalismo indisciplinado e eleitoral. Buscou restaurar o ser humano em sua totalidade. Era ideologicamente conservador e estava isolado dos demais intelectuais da epoca. Tristao de Athayde foi um dos mais destacados autores da epoca. Percebeu a questao do momento. Numa pssagem para um novo seculo, rejeitou o mecanicismo, o monismo, o cientificismo, o positivismo que cultuava a ciencia. Foi militante catolico. Nessa militancia busca uma humanizacao politica, economica e critica que lancasse as bases para as transformacoes da Igreja Catolica que vieram mais tarde. Ja Mario de Andrade foi, segundo Mota, quase um limite entre os autores dessa epoca e a posterior. Adepto do radicalismo, abriu caminho para uma nova geracao de pensadores mais radicais. Fez uma auto-critica e criticou seus contemporaneos por sua intelectualidade aristocratica. Esta critica foi construida a partir de uma analise social, politica e ideologica que determinou a producao intelectual do periodo. Suaa producao visava manter um nacionalismo que estabilisasse a consciencia dos "produtores intelectuais" do periodo. Politicamente Mario de Andrade foi um dos autores mais avancados dessa epoca.

Mota tambem discute as raizes do pensamento radical brasileiro. Lembra que em 1945 foi publicada uma obra-gemea do "Testamento de uma Geracao". E a "Plataforma de uma Nova Geracao", que inaugurou uma vertente radical do pensamento brasileiro, embora nao revolucionaria. Entre os vinte e nove depoimentos colhidos e editados por Mario Neme, Mota descreve cinco autores que na sua visao figuram entre os mais representativos desse pensamento: Edgar de Godoi da Mata-Machado (mineiro), Paulo Emilio (paulista), Antonio Candido (mineiro e paulista), Mario Schenberg (pernambucano). Mata-Machado contestou o conceito de "geracao" em voga na epoca. Para ele, nao eram os limites de idade que dividiam as geracoes, mas o grupo ao qual se estava filiado. Se a geracao anterior a ele era literaria, a sua era politica. Sua participacao politica como intelectual aconteceu via Igreja Catolica. Antonio Candido, que fez um "combate a todas as formas de pensamento reacionario", rompeu com os quadros intelectuais anteriores propondo que a atitude teorica devesse preceder as acoes. Defendeu a necessidade "de esclarecer o pensamento e colocar em ordem as ideias". Ele atacou as tres tendencias do pensamento brasileiro desse periodo: as filosofias idealistas, a sociologia cultural e a literatura personalista. Segundo ele, a filosofia idealista segregava o intelectual dos problemas reais atraves das discussoes metafisicas. Ja a sociologia cultural vinha carregada da teoria evolucionista que influenciou tanto a liberais, quanto a marxistas, mergulhando-os num lineamento evolucionista da Historia.

Para Mota, a historia das ideologias no Brasil dos anos 50 forjaram novas concepcoes de trabalho intelectual que produziram novas e radicais interpretacoes referente a ideologia da Cultura Brasileira. Neste periodo parte da intelectualidade transformou-se em politicos, a exemplo de Darcy Ribeiro e Celso Furtado. Nesta epoca surgiram publicacoes como a Revista Problemas, do PC, e a Revista Brasiliense. Tambem aconteceram eventos de expressao como o Encontro Internacional de Intelectuais, realizado em 1954 em Sao Paulo, e o Seminario Internacional sobre Resistencia a Mudanca, realizado em 1959 no Rio de Janeiro. Nesse periodo cresceu a investigacao cientifica que aprofundou a pesquisa sobre os problemas nacionais ligados a cultura nacional e aos problemas sociais. Este momento nacional experimentou a afirmacao das tendencias ideologicas nacionalistas que buscavam a superacao do subdesenvolvimento mediante a proposicao de uma revolucao burguesa. Foi um periodo em que a maioria da intelectualidade embarcou nos projetos do reformismo nacionalista. Mas, excecoes importantes, que figuram entre os principais representantes do pensamento progressista, foram Antonio Candido e Florestan Fernandes. Antonio Candido, sem divorciar-se da realidade, imprimiu uma critica ao reformismo populista numa abordagem dialetica. Produziu, assim, uma historia da literatura com um forte cunho social. Ele deu duas nocoes aos seus estudos de historia da Cultura Brasileira: a nocao de geracao e a nocao de influencia que marcaram a continuidade historica. Em 1958, Raymundo Faoro rompeu com a visao dos ideologos da Cultura Brasileira. Inspirado em Weber, dirigiu sua critica ao estamento burocratico, responsabilizando- o pela existencia de instituicoes anacronicas que impediam a "emancipacao politica e cultural" do pais. Este estamento burocratico cindiu a nacao em duas sociedades que se colocaram uma contra a outra: uma cultivada e letrada e outra primaria, fragmentada e sem simbolismo telurico. Faoro instituiu o questionamento da cultura brasileira face a cisao essencial por ele elucidada. Sua analise desvinculou-se, rompeu com a ideologia reformista e com o marxismo ortodoxo nacionalista, propondo novos angulos e novos conceitos para uma nova interpretacao da politica e da cultura brasileira. Florestan Fernandes fundou uma das mais significativas escolas de explicacao historico-sociologica, superando a orientacao funcionalista. Ele introduziu o instrumental marxista na sociologia analisando a sociedade brasileira sob a otica do materialismo historico e do materialismo dialetico. Contra um reformismo desenvolvimentista, ele lutou pela escola publica, pela implantacao de novos padroes de trabalho cientifico e fez o diagnostico da "revolucao" brasileira.

O Golpe Militar de 1964 consolidou um projeto de desenvolvimento e de sociedade que obrigou os intelectuais a repensarem os seus papeis. Para Mota, as novas definicoes de cultura pos-64 nao possuem marcos divisores bem claros. Seus limites devem ser buscados em alguns tracos significativos dentro de uma complexidade da producao cultural no Brasil deste periodo. Os marcos iniciais deste movimento revisionista foram as obras de R. Stavenhagen, "Sete Teses Equivocadas Sobre a America Latina (1965), e de Caio Prado Junior, "A Revolucao Brasileira" (1966). Em sua obra Mota estuda o periodo revisionista enfocando cinco abordagens: 1. Revista Civilizacao Brasileira (1965-1968),cuja abordagem colocava a politica e a cultura como faces de uma mesma moeda, aproximando esses dois niveis. Sua linha editorial caracterizava-se por dois periodos. No primeiro, estava mais compromissada com a linha do pensamento progressista do periodo anterior. Foi a fase populista desta producao intelectual. No segundo periodo desenvolveu uma visao radical a partir de novas linhas de diagnosticos, produto de analises cientifico-sociologicas inspiradas pelo movimento neomarxista de novas escolas como a de Frankfurt. Esta fase ficou notoria na producao de R Schwarz, Florestan Fernandes, Leandro Konder, entre outros. 2. A segunda abordagem de Mota enfoca a militancia ludica de Ferreira Gullar, um dos prototipos do intelectual engajado. Sua principal obra foi publicada em 1969, "Vanguarda e Subdesenvolvimento", abrindo caminho para a critica da industria cultural -- mass media, que comecou a invadir toda a producao intelectual com o intuito de criar o habito consumista. 3. Outro marco importante da epoca de revisoes radicais foi Dante Moreira Leite que publicou a obra "O Carater Nacional Brasileiro", na qual retratou a historia da ideologia do homem brasileiro. Esta tentativa de auscultar o passado brasileiro com "novas lentes" possibilitou ao autor a elaboracao de uma teoria da historia voltada mais para a explicacao dos eventos, onde figuram mais a "autoconsciencia de um povo" do que a "consciencia de classe". Esta teoria levou-o a "superacao das ideologias" na explicacao do Brasil. Foi quase uma ideologia da "superacao das ideologias". Assim, superou o modelo de explicacao do Brasil centrado no "carater nacional", e criou uma utopia de um novo pais fruto de um "povo livre" semelhante ao dos paises desenvolvidos. 4. Em 1967 surgiu Roberto Schwarz questionando a vanguarda cultural. Sua critica constou como um verdadeiro divisor de aguas. Na sua compreensao a vanguarda cultural nao gerava outra coisa do que o fortalecimento do sistema socio-politico. E foi nessa integracao capitalista que o movimento de vanguarda conquistou suas vitorias. A configuracao radical de Schwarz foi construida atraves de seus ensaios publicados entre 1960 e 1964, onde desenvolveu seus conceitos ancorados em Lukacs, Adorno, Horkheimer e Benjamin. Depois de 1967 Schwarz conseguiu um melhor equilibrio entre teoria e pratica e, a partir disso, tornou mais aguda sua a critica contra a producao intelectual e artistica que se ajustava mais e mais ao mercado de consumo. Sua revisao radical lhe permitiu uma analise critica dos novos meios de comunicacao de massa onde o artistico estava em decadencia. A producao intelectual desse autor transformou-se num ponto de referencia para estudar as transformacoes de importantes setores intelectuais da burguesia de esquerda. 5. Antonio Candido estudou a consciencia nacional a partir de registros literarios possibilitando um novo angulo para uma analise da historia das ideologias no Brasil. Ele constriu uma formulacao mais ampla sobre a historia da cultura brasileira, contra um a cultura bipolarizada que emergia durante o Regime Militar. Enquanto Schwarz dirigia sua critica a uma producao especifica, Antonio Candido produziu uma revisao mais geral. Sua investigacao cultural elucidou a imposicao e a adaptacao cultural ocorrida ao longo da historia do Brasil, que expressou-se no romantismo, nos padroes classicos, como o barroco, no neoclassicismo de influencia francesa.

Por fim, quem deseja conhecer ou aprofundar conhecimentos sobre a historia da ideologia da cultura brasileira encontra na obra de Carlos Guilherme Mota uma das referencias mais conssistentes e fundamentais. Ele conclui seu texto, afirmando que, "Os 'grandes intelectuais', para usar a expresao de Gramsci, estiveram nos cargos nobres, as vezes ainda com um pe na grande propriedade paterna. Os representantes radicais provinham da classe media, as vezes chegando a assessores de governadores e ministros, nos anos quarenta, ou a ministros nos anos 50 e 60. Ou, quando menos, a professores" (p. 290).

Alvori Ahlert

Universidade Estadual do Oeste do Parana
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Author:Ahlert, Alvori
Publication:Praxis Filosofica
Article Type:Resena de libro
Date:Jul 1, 2006
Words:2521
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