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Caracterizacao dos traumas abdominais em pacientes atendidos no Hospital Universitario Regional de Maringa, 2006.

Introdução

De todas as mortes por causas externas por trauma, metade destas poderia ser evitada, e um terço é dito potencialmente evitável. Isso significa que, das cerca de 130 mil mortes ocorridas no Brasil por ano, mais de 50% delas poderiam não ocorrer (Acampora et al., 2006).

A avaliação do abdome é um dos componentes mais desafiadores da avaliação inicial ao politraumatizado, devendo-se priorizar o atendimento de acordo com o tratamento clássico preconizado pelo ATLS (Advanced Trauma Life Support), seguido de avaliação diagnóstica inicial, visando determinar se existe ou não indicação de procedimento operatório de urgência (American College of Surgeons, 2005).

O trauma abdominal pode ser fechado, também denominado contusão abdominal, ou aberto (penetrante ou ferida abdominal). O tipo de trauma está intimamente relacionado com a sua etiologia. As causas mais comuns de contusão são atropelamentos, acidentes automobilísticos e quedas. Projéteis de armas de fogo e arma branca ocasionam, normalmente, ferimento aberto (Sabiston et al., 1999).

Objetiva-se, neste trabalho, determinar as características comuns referentes ao perfil, mecanismo de trauma, lesões anatômicas acometidas, tratamento realizado em pacientes com traumatismo abdominal atendidos no Hospital da Universidade Estadual de Maringá, no ano de 2006.

Material e métodos

Realizou-se um estudo de 57 casos de traumatismo abdominal atendidos no Pronto-Socorro do Hospital Universitário Regional de Maringá (HURM), no período de janeiro a dezembro de 2006, segundo as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas Envolvendo Seres Humanos do Conselho Nacional de Saúde (Brasil, 1996).

A coleta de dados deu-se a partir de prontuários, de forma retrospectiva, por meio de protocolo elaborado previamente, baseado nas variáveis que constituem os objetivos principais deste trabalho: idade, sexo, tipo de lesão, modo de ocorrência, tipo de tratamento e órgão acometido.

Os dados foram anotados em uma planilha previamente elaborada pelos autores deste trabalho, para serem analisados com base nas variáveis que constituem o objetivo proposto. Todas as informações foram obtidas pelos alunos da graduação e médicos residentes. Em nenhum momento, houve qualquer tipo de contato dos autores com os pacientes avaliados, cujos nomes foram mantidos em absoluto sigilo.

Resultados

A análise dos 57 prontuários dos pacientes atendidos com trauma abdominal permitiu a obtenção dos resultados abaixo relacionados.

A maioria das vítimas foi do sexo masculino (82,5%).

Frequência de traumatismos:

1. Aberto: trinta casos (53,3%), tendo como causa mais frequente os acidentes por ferimento com arma branca; em dezesseis das vítimas o ferimento foi causado por arma branca.

2. Fechado (contusão): vinte e sete casos (46,7%), dos quais 16 foram por acidente de trânsito (Tabela 2).

Em relação aos órgãos acometidos nos traumas contusos, baço, rins e fígado foram os mais prevalentes. Nos ferimentos abertos, a víscera mais acometida foi o intestino delgado (30%), seguido de comprometimento vascular e do fígado (Tabela 3).

Em 25 pacientes, optou-se pela observação clínica; na grande maioria das situações (88%), estes apresentavam trauma abdominal fechado. Em 32 pacientes, optou-se pela exploração cirúrgica; 90% foram decorrentes de trauma abdominal aberto.

Ocorreram óbitos em 16,7% dos traumas abdominais abertos (60% por arma de fogo e 40% por arma branca). Dos traumas abdominais fechados, 11,1% morreram, sendo a totalidade decorrente de acidentes de trânsito.

Discussão

Sempre que se estuda trauma abdominal, o mecanismo de trauma é um dos fatores determinantes para levantar a suspeita dos prováveis órgãos acometidos, bem como do grau da lesão desses órgãos. A violência urbana justifica o fato de armas brancas e projéteis de arma de fogo constituírem as principais causas de ferimentos (Giannini et al., 1998), que, neste levantamento, apresentaram-se em 30 casos (52,6%), concordando com o descrito por Rasslan et al. (1998). No ano 2000, ocorreram 118.367 mortes por causas externas, o que representou 12,5% do total de mortes; os homicídios lideraram a mortalidade (Fagundes et al., 2007).

No traumatismo abdominal verificou-se, nesta amostragem, grande predominância do sexo masculino (82,4%), à semelhança dos resultados encontrados na literatura (Riveros et al., 2003). O mesmo ocorreu com a distribuição etária dos acidentados (Cuff et al., 2000; Ribas Filho et al., 2002); outros autores apontam a quarta década como a mais frequente (McCarter et al., 2000; Kemmeter et al., 2001).

Nos ferimentos abertos, o instrumento de dano mais frequentemente usado é a arma de fogo (Riveros et al., 2003), porém, nesta pesquisa, o artefato mais frequentemente usado foi a arma branca (53,3%). Possivelmente, a diferença deva-se ao menor acesso a armas de fogo na população estudada.

O baço é uma víscera comumente lesada em 39% de todos os traumas abdominais fechados, segundo Von Bahten et al. (2005). Cerca de 5% das admissões na sala de emergência são por trauma hepático (Stracieri et al., 2006). No serviço estudado, houve também maior comprometimento de órgãos parenquimatosos (baço, rins e fígado).

No que se refere ao traumatismo abdominal aberto, Fraga et al. (2007) apresentaram que a víscera mais acometida foi o intestino delgado (30%), com 35,1% de morbidade e 13,7% de mortalidade, dado corroborado no presente trabalho. É essencial avaliar as lesões hepáticas, visto que é o órgão sólido mais lesado nos ferimentos abdominais por arma de fogo, com mortalidade geral de 17% (Fagundes et al., 2007).

Em estudo de vítimas atendidas com trauma vascular, Briceño et al. (2005) demonstraram taxa de mortalidade de 66% por choque hipovolêmico, com 75% de lesão de aorta e 59% de lesão de veia cava inferior; concluíram que a presença de lesões associadas está relacionada ao mal prognóstico, com taxa de mortalidade diretamente proporcional ao número de vasos acometidos.

Considerando os dados obtidos, pode-se afirmar que:

- a maioria das vítimas era do sexo masculino;

- a faixa etária mais acometida equivale à terceira década de vida;

- o trauma abdominal aberto se mostrou discretamente mais prevalente, sendo o ferimento por arma branca a causa mais comum;

- a maioria das contusões abdominais foi devida a acidentes de trânsito;

- a realização de intervenção cirúrgica supera o tratamento conservador nos traumas abdominais abertos;

- nos traumas contusos, o baço e os rins foram os órgãos mais acometidos, enquanto nos ferimentos abertos a víscera mais acometida foi o intestino delgado;

- a evolução para óbito predominou nos traumas abdominais abertos.

Conclusão

Em virtude da prevalência, gravidade e importância do tema, sugere-se que mais estudos sejam realizados para que, assim, seja possível estabelecer condutas cada vez mais apropriadas à realidade do Sistema Único de Saúde.

Received on April 07, 2008. Accepted on October 06, 2008.

Referências

ACAMPORA, A.J. et al. Trauma abdominal: manual de terapêutica cirurgia. Florianópolis: ACM, 2006.

AMERICAN COLLEGE OF SURGEONS. Advanced trauma life support student manual. Chicago, 2005.

BRASIL. Conselho Nacional de Saúde. Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas Envolvendo Seres Humanos,, Resolução 196/96, de 10 de Outubro de 1996. Brasília, 1996.

BRICEÑO, G. et al. Traumatismo vascular de abdomen: actores predictivos de mortalidad. Rev. Venez. Cir., Caracas, v. 58, n. 1, p. 1-12, 2005.

CUFF, R.F. et al. Nonoperative management of blunt liver trauma: the value of follow-up abdominal computed tomography scans. Am. Surg., Philadelphia, v. 66, n. 4, p. 332-336, 2000.

FAGUNDES, M.A.V. et al. Estudo retrospectivo de janeiro de 1998 a maio de 2005, no Hospital Universitário de Maringá, sobre ferimentos por arma branca e arma de fogo. Acta Sci., Health Sci., Maringá, v. 29, n. 2, p. 133-137, 2007.

FRAGA, G.P. et al. Fatores preditivos de morbimortalidade no trauma de intestino delgado. Rev. Col. Bras. Cir., Rio de Janeiro, v. 34, n. 3, p. 157-165, 2007.

GIANNINI, J.A. et al. Ferimentos penetrantes tóraco-abdominais e de tórax e abdome: análise comparativa da morbidade e mortalidade pós-operatórias. Rev. Col. Bras. Cir., Rio de Janeiro, v. 25, n. 5, p. 297-303, 1998.

KEMMETER, P.R. et al. Concomitant blunt enteric injuries with injuries of liver and spleen: a dilemma for trauma surgeons. Am. Surg., Philadelphia, v. 67, n. 3, p. 221-225, 2001.

McCARTER, F.D. et al. Institucional and individual learning curves for focused abdominal ultrasond for trauma. Ann. Surg., Philadelphia, v. 231, n. 5, p. 689-700, 2000.

RASSLAN, S. et al. Pancreatectomia distal no trauma: estudo multicêntrico. Rev. Col. Bras. Cir., Rio de Janeiro, v. 25, n. 6, p. 409-414, 1998.

RIBAS FILHO, J.M. et al. Prevalência das estruturas atingidas no trauma abdominal. Rev. Med. Paraná, Curitiba, v. 60, n. 1, p. 25-29, 2002.

RIVEROS, A. et al. Revisión de traumatismos abdominales en el Hospital Central de San Cristobal: Estado Táchira 1994-1998. Col. Med. Estado Táchira, Venezuela, v. 12, n. 3, p. 27-31, 2003.

SABISTON, D.C. et al. Tratado de cirurgia. 15. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1999. v. 1.

STRACIERI, L. D.S. et al. Trauma hepático. Acta Cir. Bras., São Paulo, v. 21, n. 1, p. 85-88, 2006.

VON BAHTEN, L.C. et al. Trauma abdominal fechado: análise dos pacientes vítimas de trauma esplênico em um Hospital Universitário de Curitiba. Rev. Col. Bras. Cir., Rio de Janeiro, v. 32, n. 6, p. 316-320, 2005.

Orlando Ribeiro Prado Filho *, Diogo Ramos Pazello, Diego Ricardo Colferal, Josiane Miyaji Daniel e Vanessa Marcondes Ferres Vasconcelos

Departamento de Medicina, Universidade Estadual de Maringá, Av. Colombo, 5790, 87020-900, Maringá, Paraná, Brasil. * Autor para correspondência. E-mail: orlandorpf@hotmail.com
Tabela 1. Trauma abdominal por idade.

Faixa etária (anos)    No de casos     Porcentagem (%)

0-10                              2              3,5
11-20                            10             17,5
21-30                            21             36,8
31-40                            12            21,05
41-50                             8            14,03
51-60                             1             1,75
61-70                             2              3,5
71-80                             1             1,75

Total                            57               100

Tabela 2. Causas de trauma abdominal fechado.

Modo                   Casos          (%)

Carro                      4        14,8
Motocicleta                5        18,5
Bicicleta                  2         7,4
Atropelamento              5        18,5
Queda                      4        14,8
Agressão física            6        22,2
Outros                     1         3,7

Total                     27         100

Tabela 3. Órgãos acometidos.

Órgão acometido     FAF (no)     FAB (no)     Contusão (no)

Delgado                4             5              -
Cólon                  3             -              -
Baço                   2             1              3
Fígado                 2             2              1
Rim                    2             1              3
Estômago               1             1              -
Páncreas               1             -              -
Vesícula biliar        -             1              -
Diafragma              1             2              -
Vascular               3             3              -

FAF-ferida arma de fogo; FAB-ferida arma branca.
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Title Annotation:texto en portugués
Author:Prado Filho, Orlando Ribeiro; Ramos Pazello, Diogo; Colferal, Diego Ricardo; Miyaji Daniel, Josiane;
Publication:Acta Scientiarum Health Sciences (UEM)
Date:Apr 1, 2008
Words:1792
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