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Cancoes escravas, atlantic musical traffic and racism in the Americas/Cancoes escravas, transitos musicais atlanticos e racismo nas Americas.

ABREU, Martha. Da senzala ao palco: cancoes escravas e racismo nas Americas (1870-1930). Campinas: Editora Unicamp, 2017, 462 p. (Colecao Histori@Ilustrada).

Os estudos sobre escravidao no Brasil passaram por transformacoes significativas a partir dos anos 1980, fruto do dialogo travado com uma historiografia internacional renovada, mas tambem impulsionados pelo fortalecimento dos movimentos negros; pelas acoes publicas de combate ao racismo; pela compreensao sobre as lutas politicas, sociais e raciais; e pela disseminacao das nocoes de diversidade cultural e racial. Essa historiografia desde entao tem investido no enfrentamento de alguns desafios, entre uma serie de outros: o de mostrar que os debates sobre as expressoes culturais nao podem prescindir de entender os embates sobre a questao racial nelas contidos, bem como a necessidade de denunciar as falacias contidas em mitos, visoes e modelos interpretativos que por muito tempo deram o tom dos trabalhos nesta area.

Se os anos 1980 sao referenciais para os estudos sobre escravidao, os anos 2000 marcam a emergencia dos estudos sobre o pos-abolicao e a constituicao de um campo historiografico que apresenta peculiaridades, apesar de sua intima e reconhecida relacao com a historia social da escravidao e do processo de abolicao.

Os dialogos travados entre a historiografia norte-americana e a brasileira sobre a escravidao e o pos-abolicao nao sao recentes, mas tomaram rumos diferentes nas ultimas decadas, em decorrencia de algumas constatacoes. Entre elas destaca-se o reconhecimento de que, a despeito das especificidades dos sistemas escravistas e dos processos de abolicao nos Estados Unidos e no Brasil, existem conflitos e experiencias dos escravizados e libertos nas Americas que podem ser aproximados, desde que utilizadas metodologias e fontes adequadas, o que significa admitir a impossibilidade de pensar a diaspora africana a partir de historias isoladas ou desconectadas.

Tal percepcao tem ensejado um retorno as abordagens comparativas que ja haviam alimentado alguns debates sobre instituicoes, culturas e organizacoes sociais nos anos 1940 e 1970, mas foram negligenciadas com a rejeicao dos estudos dessa natureza pela historiografia norte-americana e, na historiografia latino-americana, pela concentracao em estudos locais (Klein, 2012, p. 95).

A busca por novos procedimentos de analise para pensar problemas, definicao de objetos de pesquisa e modos narrativos tem levado os historiadores a questionar a eficiencia da propria Historia Comparada no seu projeto de superacao dos limites da perspectiva nacionalista. A necessidade de considerar a nacao mais um (e nao o mais importante) fenomeno a ser elucidado, e as comparacoes entre nacoes mais como temas do que como metodos, tornou-se um objetivo perseguido em trabalhos desenvolvidos em diferentes perspectivas, tais como as Historias Atlanticas, as Historias Globais, as Historias Conectadas, as Historias Cruzadas e as Historias Transnacionais (Barros, 2014, p. 280).

Analisar as identidades negras culturalmente hibridas e dinamicas da diaspora, construidas a partir da memoria do trauma original da escravidao e dos desdobramentos do pos-abolicao com suas vivencias de violencia racial e racismo, e o objeto do trabalho referencial de Paul Gilroy intitulado O Atlantico Negro: modernidade e dupla consciencia (2001). No prefacio a edicao brasileira dessa obra, Gilroy sugere que o conceito de Atlantico Negro muito teria a ganhar se a ele fossem incorporados o Atlantico Sul e suas multiplas configuracoes culturais (Gilroy, 2001, p. 16).

Da senzala ao palco: cancoes escravas e racismo nas Americas (1870-1930), o mais recente livro de Martha Abreu, e uma resposta muito bem-sucedida a esse desafio. Trata-se de um trabalho que abre novas possibilidades para os estudos das culturas e identidades negras no Brasil, em dialogo com os Estados Unidos, e insere o nome de sua autora de maneira definitiva numa historiografia de perspectiva atlantica ao lado de nomes como Micol Seigel, Denis-Constant Martin, Robin Moore, Sarah Merr, David Guss, Astrid Kusser e Kazadi wa Mukuna, entre outros.

O livro de Martha Abreu e um dos frutos dos caminhos trilhados por uma historiadora que elegeu as manifestacoes culturais populares como seu local de sondagem do mundo. Suas escolhas a conduziram por uma trajetoria que, em suas proprias palavras, a transformou de "uma historiadora da festa e da cultura popular em uma historiadora do legado da cancao escrava, do racismo no campo musical e cultural e dos caminhos construidos pelos musicos e artistas negros para enfrenta-lo e subverte-lo". Nesse percurso, Da senzala ao palco emerge como um ponto alto na producao de uma intelectual que tem contribuido com perspectivas inovadoras aos debates sobre a dinamica das culturas e identidades negras atlanticas tanto na academia, como professora e pesquisadora, quanto na Historia Publica, nos projetos e acoes relacionados a comunidades quilombolas e jongueiras e na transformacao de suas memorias do cativeiro e da liberdade em luta contra o racismo, pelo direito a terra, pela igualdade e pela justica.

O livro e o terceiro volume da Colecao Histori@ Ilustrada, publicada pela Editora Unicamp, fruto do trabalho de pesquisadores vinculados ao Centro de Pesquisa em Historia Social da Cultura (IFCH/Unicamp), do qual Martha Abreu participa desde a criacao. O texto encontra-se disponivel em dois formatos digitais: ePUB3 (com links internos para acesso a imagens, audio e video) e ePUB2 (com links internos para acesso a imagens e externos para audio e video). Com isso, Da senzala ao palco nao apenas atinge um publico amplo como tambem seus leitores tem a oportunidade de acessar 200 imagens, quase 50 fonogramas e 5 videos. Paralelamente ao livro, foi produzido um video de 10 minutos intitulado Cancoes escravas e racismo nas Americas, que com ele dialoga, ajuda a divulga-lo e pode ser utilizado por professores nas escolas e no ensino de Historia. (1)

Utilizando-se de um rico corpus documental e de uma vasta bibliografia especializada, a autora enfrenta basicamente quatro grandes questoes ao longo de seu texto: os transitos internacionais, as cancoes escravas no mundo do entretenimento, as acoes dos musicos negros e as construcoes do racismo no campo musical.

O objetivo central do livro e elaborar uma analise que aproxime as experiencias de musicos negros e diferentes produtores e divulgadores das cancoes escravas nos Estados Unidos e no Brasil, no periodo que abrange de 1870 a 1930, a partir de problemas e fontes comuns e equivalentes. Sua intencao e, contudo, menos a de reforcar as evidentes diferencas entre os dois paises, e mais destacar dialogos e aproximacoes nas formulacoes e experiencias dos musicos negros e sobre musica negra nas Americas. Trata-se, como se pode perceber, de uma historia das expressoes musicais da cultura negra escrita numa perspectiva atlantica que amplia os estudos sobre o pos-abolicao ao sul do equador.

Cultura negra e um conceito central para a obra, embora nao seja pensado ou utilizado pela autora como fechado e definitivo, mas enfrentado no seu proprio fazer historiografico, atraves do uso das fontes e da metodologia. Ele remete as expressoes culturais protagonizadas por afrodescendentes nas Americas e contem em seu amago as nocoes de diaspora e desterritorializacao por meio de estruturas transnacionais criadas e desenvolvidas na modernidade e marcadas por um sistema de comunicacoes permeado por fluxos e trocas culturais. Cultura negra e, portanto, um conceito que possibilita colocar em campo diferentes sujeitos sociais e diversas expressoes e representacoes artisticas numa arena de conflitos. Ele indica, tambem, a intencao de questionar os estudos culturais marcados por perspectivas etnocentricas e uma oposicao a nocao de que a cultura sempre flui em padroes que correspondem as fronteiras do Estado-nacao.

Cancoes escravas ou "sons do cativeiro", termos tomados de emprestimo a Shane e Graham White (White e White, 2005, p. ?), sao expressoes que nao devem levar a falsa impressao de que a obra se dedica a escuta da sonoridade ou das formas musicais e estilisticas africanas presentes nas Americas, como esclarece Martha Abreu ja nas paginas iniciais do livro. Entendidos como resultado da combinacao de musica, verso e danca, Cancoes escravas ou "sons do cativeiro" sao termos alternadamente utilizados no livro para nomear as invencoes musicais dos descendentes de africanos trazidos como escravos para o continente americano, as quais ganharam visibilidade e aceitacao por meio da acao de musicos negros e de uma complexa rede de agentes que alimentou um cobicado mercado musical que movimentava negocios de impressao e venda de partituras, espetaculos teatrais e industria fonografica. Vistas a partir desse angulo, as cancoes escravas sao decorrencia de transitos e interacoes, tanto nacionais quanto transnacionais, e abrangem diferentes atores sociais, ainda que protagonizadas por musicos e atores negros.

Entre as principais fontes utilizadas por Martha Abreu, destacam-se textos de intelectuais que se preocuparam em entender e avaliar as "influencias" dos africanos nas musicas e dancas populares e nacionais, gravacoes fonograficas e, sobretudo, partituras musicais comercializadas em lojas de vendas de partituras, pianos, fonografos e discos, impressas pelas muitas editoras musicais existentes na ocasiao. E digna de nota, nesse sentido, a analise minuciosa e instigante da autora sobre um extenso e significativo conjunto de capas de partituras cujas tematicas, titulos, generos, formas musicais e/ou ilustracoes apresentam referencias que remetem ao passado e as memorias do cativeiro, bem como a estereotipos e cenas racistas identificados com a populacao afro-americana no pos-abolicao.

O livro organiza-se em nove capitulos abundantemente documentados--alguns deles anteriormente publicados em revistas especializadas (os de numero 7, 8 e 9), mas modificados para essa publicacao--, nos quais a autora aborda uma ampla pauta de questoes. Entre elas encontram-se as experiencias de musicos negros e destes com diferentes sujeitos envolvidos na producao e divulgacao das cancoes escravas que alimentaram os transitos atlanticos no sentido Norte-Sul e vice-versa; as apropriacoes de generos, ritmos e formas musicais relacionados com africanos por musicos de formacao erudita; as dimensoes politicas das expressoes musicais ligadas ao passado escravista; as experiencias sociais e vivencias de diferentes formas de racismo que aproximam as culturas negras e seus agentes; os significados das cancoes escravas para diferentes sujeitos negros, como os artistas Eduardo das Neves e Bert Williams e intelectuais academicos como Coelho Netto e Du Bois; as aproximacoes entre as figuras de personagens como Pai Joao, Uncle Tom, Uncle Remus e Sambo, presentes na industria fonografica e na literatura popular, bem como as conexoes transnacionais de generos musicais identificados e protagonizados por musicos negros, como o maxixe, que foi rapidamente assimilado nos Estados Unidos em funcao das suas proximidades com o cakewalk.

A leitura nao e operacao desprovida de sentido, pois quem le busca significados, recorre a significantes, ritmos e formas e, nesse movimento, influenciam-se os modos de sentir, pensar e agir. Ao terminar a leitura do livro de Martha Abreu, o leitor provavelmente tera a sensacao de ver abaladas determinadas certezas a respeito de algumas interpretacoes tradicionais sobre nosso passado musical ao constatar que elas nao dao conta de um quadro muito mais rico e complexo.

Sao consideraveis, por exemplo, as contribuicoes do livro para se repensar determinadas versoes sobre a historia da musica no Brasil, construidas com base nos marcos nacionalistas dos anos 1920 e 1930 ou na politica cultural dos governos Vargas. E isso porque as discussoes sobre as cancoes escravas nele presentes evidenciam quanto as manifestacoes musicais ditas nacionais so se sustentam e legitimam em contatos transnacionais por meio dos quais dialogam em termos referenciais, de elementos humanos e obtem reconhecimento cultural. Nesse sentido, pode-se dizer que o livro de Martha Abreu nos mostra o tanto de transnacional que contem a nocao de musica nacional.

O leitor tambem percebera quanto o campo musical foi um espaco minado, poroso e permeado por tensoes e conflitos nos quais se travaram disputas em torno das representacoes dos descendentes de africanos e de seu patrimonio cultural e de como eles foram sujeitos ativos nesse processo. Coube a eles ampliar e redefinir discussoes acerca das culturas nacionais, dos generos musicais, do legado da escravidao e das experiencias do racismo que se reconstruiam em diferentes campos da industria cultural no pos-abolicao.

Por fim, mas nao em ultimo lugar, o livro oferece argumentos bastante consistentes para questionar visoes que tradicionalmente polarizaram as relacoes raciais no Brasil e nos Estados Unidos entre mesticagem, de um lado, e segregacionismo, de outro. Martha nos mostra como existem variantes, mediacoes e matizes que nao podem ser desconsiderados em analises que objetivem romper com interpretacoes dicotomicas e generalizantes, que pouco contribuem para melhor conhecer um fenomeno bastante complexo, tanto para o Atlantico Norte, quanto para o Sul.

DOI: 10.1590/TEM-1980-542X2018v250116

Artigo recebido em 1 de junho de 2018 e aprovado para publicacao em 4 de junho de 2018.

Referencias bibliograficas

BARROS, Jose D'Assuncao. Historias cruzadas: consideracoes sobre uma nova modalidade baseada nos procedimentos relacionais. Anos 90 (Porto Alegre), v. 21, n. 40, dez. 2014.

GILROY, Paul. O Atlantico Negro: modernidade e dupla consciencia. Rio de Janeiro: Editora 34, 2001.

KLEIN, Herbert S. A experiencia afro-americana numa perspectiva comparativa: situacao atual do debate sobre a escravidao nas Americas. Revista Afro-Asia (Salvador), n. 45, 2012.

WHITE, Shane; WHITE, Graham. The sounds of slavery: discovering African American history through songs, sermons and speech. Boston: Beacon Press, 2005.

Silvia Cristina Martins Souza [*]

[*] Universidade Estadual de Londrina--Londrina (PR)--Brasil.

E-mail: smartins@uel.br

ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8824-4477

(1) O video pode ser acessado em: <https://www.youtube.com/watch?v=agZPb-uEVto>
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Author:Souza, Silvia Cristina Martins
Publication:Tempo - Revista do Departamento de Historia da UFF
Article Type:Resena de libro
Date:Jan 1, 2019
Words:2162
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