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Campo fertil para Alimentacao e Nutricao em Saude Coletiva.

A fertile field for Food and Nutrition in Public Health

Neste debate sobre o instigante texto de Bosi e Prado (1), meus comentarios pretendem contribuir para a continuidade das investigacoes pretendidas pelas autoras sobre o campo disciplinar Alimentacao e Nutricao em Saude Coletiva no Brasil.

Acredito que as investigacoes de natureza historica e epistemologica que abordem o percurso e os contornos (tanto os existentes como os desejaveis) desse campo de conhecimento assumiriam maior concretude e abrangencia se incluissem mais intensamente dois conjuntos de subsidios que descrevo a seguir.

Em primeiro lugar, seria benefica uma maior explicitacao das conexoes que se fazem necessarias entre, por um lado, os contornos desejaveis do campo e, por outro, os problemas concretos da saude populacional associados a aspectos da Alimentacao e da Nutricao, que carecem de melhor compreensao e enfrentamento. A explicitacao dessas conexoes, idealmente, deve estar em sintonia com a complexidade dos problemas a compreender e enfrentar, e com as mutacoes e tendencias neles detectadas. Cabe, igualmente, integrar-se ao debate academico e politico a respeito dos problemas identificados, no Brasil e em nivel internacional. Em segundo lugar, para que se possa visualizar de modo mais preciso esses percursos e contornos em nosso meio, seria util considerar um conjunto amplo de evidencias empiricas, adiante sugeridas.

Sobre o primeiro conjunto -- as conexoes necessarias com problemas substantivos --, sirvome aqui de exemplo propicio a esse esforco: a crescente prevalencia da obesidade, cujas consequencias clinicas, assim se especula, ameacam reverter, em parcela crescente das populacoes humanas, a tendencia ao aumento gradual da duracao media da vida, conquistado ao longo de varios seculos.

Esse problema prioritario tem sido intensamente pesquisado. Entretanto, persistem lacunas importantes de conhecimento acerca do papel de varios determinantes proximais e distais em sua rede causal complexa. Por exemplo, ha controversias sobre a contribuicao relativa de mudancas ocorridas, respectivamente, nos padroes de consumo e de gasto energeticos das populacoes (2). Discute-se ainda o efeito obesogenico das diversas fontes de calorias (e.g. gorduras vs. carboidratos) (3). Assiste-se tambem a um debate sobre efeitos especificamente resultantes do processamento dos alimentos (4). Nao menos importante, ha hipoteses mecanisticas promissoras envolvendo a possivel influencia desempenhada pela composicao da microbiota intestinal na captacao calorica (5), que comecaram a ser testadas em anos recentes, a partir dos avancos havidos nas tecnicas metagenomicas (essas tecnicas dispensam cultivo celular e vem proporcionando conhecimento crescente sobre as "comunidades microbianas" que povoam nossas superficies e cavidades corporais -- em numero dez vezes superior ao de nossas proprias celulas! -- e se hipotetiza que possam desempenhar papeis cruciais em nosso metabolismo e saude (6)). Foram desenvolvidas analises inovadoras sobre a estrutura e o funcionamento de redes sociais na "transmissao" da obesidade (7). Outras investigacoes, de cunho macroestrutural, detalharam a origem e a consolidacao de processos e cadeias produtivas que vem transformando a cultura alimentar de massa em escala planetaria (8). Ganharam tambem espaco e forca as variadas vertentes de food politics/movements, que incluem a critica de Michael Pollan ao "nutricionismo" -- diz ele: "Coma comida. Nao muito. Principalmente plantas" (9,10).

O exemplo da obesidade poderia ser aplicado, sem maiores dificuldades, a outros problemas da saude populacional que envolvem a alimentacao e a nutricao, como as sindromes carenciais e os transtornos alimentares. Para compreender melhor e atuar de modo mais efetivo em relacao a esses problemas, ha a necessidade de conhecimento relevante que se origine tanto das ciencias biomedicas como das ciencias sociais. Sao especialmente relevantes as inter-relacoes entre fatores biologicos, comportamentais e macroestruturais nessas redes causais. Pesquisadores, ao formular e testar hipoteses, tendem a se concentrar em determinados segmentos das redes causais, seja nos mais proximais (em geral, com maior peso de fatores biologicos), seja naqueles mais distais (em geral, com maior enfase em determinantes sociais), em relacao aos desfechos de interesse. Inclinacoes pessoais, oportunidades, formacao previa e fatores institucionais poderao determinar escolhas sobre o foco de pesquisadores e grupos de pesquisa. Sera benefico para todos que se explore maior porosidade e interacao entre grupos que adotam enfases diversas -- e dedicar menos tempo e atencao a tarefas de demarcacao de territorios.

Comento a seguir a possibilidade de que diagnosticos mais abrangentes possam contribuir para melhor compreender os atuais contornos desse campo de conhecimento. Minha sugestao e que, futuramente, a contribuicao que as autoras ora nos apresentam em perspectiva ensaistica fosse complementada e enriquecida por evidencias empiricas, disponiveis em natureza e fontes diversificadas.

A proposito, uma das autoras (SD Prado) do texto em debate (1) ja se empenhou nessa direcao, ao liderar publicacao recente neste mesmo periodico (11) em que foram analisados dados do Diretorio de Grupos de Pesquisa do CNPq relativos aos grupos que registraram linhas de pesquisa na area da Seguranca Alimentar e Nutricional (SAN). Nesse artigo, foram identificados, entre outros aspectos, a natureza recente e ainda restrita da producao vinculada a SAN: poucos grupos, em geral ainda com baixo dinamismo e consolidacao, excessivamente concentrados na regiao Sudeste, e com predominio de agendas especializadas. Entre os debatedores do artigo, Anjos e Burlandy (12) ressaltaram limitacoes potenciais dessa base de dados, tendo em vista a falta de padronizacao da indexacao (os descritores sao selecionados pelos proprios pesquisadores).

Neste aspecto particular, sugiro que a utilizacao de metodos e tecnicas bibliometricas, cada vez mais potencializados com o uso da Internet, seriam capazes de gerar dados empiricos uteis para a continuidade das investigacoes pretendidas, com a exploracao de variados subconjuntos: por exemplo, as 49 publicacoes com titulos contendo palavras relacionadas a Nutricao e Alimentacao e mencionadas na lista Qualis/Saude Coletiva da Capes; os periodicos e anais de congressos mais especificamente voltados para a Saude Coletiva; e as dissertacoes e teses de programas de pos-graduacao.

Neste debate do texto de Bosi e Prado (1), sintome instado a registrar importantes contribuicoes que vem sendo fornecidas por epidemiologos brasileiros para a constituicao desse campo (historicamente, as investigacoes lideradas por Goldberger (13,14) sobre a etiologia da pelagra foram pioneiras quanto ao escopo amplo pretendido para o campo da Alimentacao e Nutricao em Saude Coletiva -- abrangendo de ensaios clinicos ao estudo da economia agricola vigente no sul dos EUA, na segunda decada do seculo passado). Isso porque essa contribuicao e aparentemente subestimada pelas autoras, que enfatizam (equivocadamente, a meu ver) uma disjuntiva entre "dois polos" na Saude Coletiva: um voltado para a "esfera conceitual" do "pensar a saude", com "paradigma social" (equalizado pelas autoras as Ciencias Sociais), em embate com outro, "empirico", voltado para a "quantificacao", "distante de reflexoes teoricas", em busca de "racionalidade neutra", "naturalizante": um "paradigma biologico", enfim, associado pelas autoras a Epidemiologia. Porem, o mencionado "cenario de embates que marca a Epidemiologia" nao corresponde a realidade da disciplina ha bastante tempo. Fundamentalmente, isso nao constitui forca motriz digna de nota, em razao da marcha de acontecimentos de todo tipo, e do amadurecimento teorico e metodologico de numerosos grupos de pesquisa e programas de pos-graduacao em Epidemiologia, no Brasil e em muitos outros paises. Em suma, consideramos as imagens que as autoras nos apresentaram sobre a Epidemiologia brasileira como datadas, desfocadas e captadas de angulo restrito.

Segue meia duzia de exemplos, selecionados apenas para ilustrar o argumento anterior. Monteiro et al. (15) analisaram as mudancas no padrao de desigualdades sociais no estado nutricional de criancas brasileiras em periodo superior a tres decadas. Bezerra e Sichieri (16), tambem via analise de dados secundarios, investigaram caracteristicas do habito alimentar de fazer refeicoes fora de casa. Chor et al. (17) pesquisaram os gradientes etnico-raciais de ganho de peso na idade adulta, e o grau em que tais gradientes podem ser explicados por circunstancias socioeconomicas de origem e de destino. Horta et al. (18) analisaram a influencia intergeracional (i.e., no peso ao nascer da prole) do ganho de peso na infancia. Lopes et al. (19) verificaram o grau em que instrumentos de afericao de consumo alimentar devem passar por calibracao especifica para aplicacao em idosos. Barreto et al. (20) detectaram impacto benefico da suplementacao de vitamina A sobre a severidade dos episodios diarreicos na infancia.

Essa riqueza analitica na abordagem de problemas de suma relevancia, via exploracao dos bancos de dados secundarios, e via conducao de estudos metodologicos, observacionais e experimentais, pode ser confirmada pelo exame dos conteudos abarcados pela coletanea Epidemiologia nutricional (21), publicada em 2007: integrantes de grupos de pesquisa sediados em ao menos 15 diferentes instituicoes publicas coautoram capitulos que abrangem temas metodologicos, e.g. relativos a afericao e a analise de caracteristicas antropometricas e nutricionais; problemas de saude publica, e.g. aqueles relacionados a desnutricao e a obesidade; consideracoes sobre politicas publicas no campo; e debate de temas de fronteira do conhecimento cientifico, e.g. os efeitos de longo prazo da nutricao na infancia, ao longo do ciclo de vida, e via epigenese transgeracional.

Ha, portanto, campo fertil para a Alimentacao e Nutricao em Saude Coletiva, que vem se beneficiando de conjunturas historicas, politicas, institucionais e academicas mais favoraveis do que aquelas vigentes a epoca da constituicao inicial da Saude Coletiva brasileira.

Referencias

(1.) Bosi MLM, Prado SD. Alimentacao e Nutricao em Saude Coletiva: constituicao, contornos e estatuto cientifico. Cien Saude Colet 2010; 16(1):7-17.

(2.) Bleich SN, Cutler D, Murray C, Adams A. Why is the developed world obese? Annu Rev Public Health 2008; 29:273-295.

(3.) Taubes G. Good calories, bad calories: fats, carbs, and the controversial science of diet and health. New York: Anchor Books; 2007.

(4.) Monteiro CA. Nutrition and health: the issue is not food, nor nutrients, so much as processing. Public Health Nutr 2009; 12(5):729-731.

(5.) Turnbaugh PJ, Hamady M, Yatsunenko T, Cantarel BL, Duncan A, Ley RE, Sogin ML, Jones WJ, Roe BA, Affourtit JP, Egholm M, Henrissat B, Heath AC, Knight R, Gordon JI. A core gut microbiome in obese and lean twins. Nature 2009; 457(7228):480-484.

(6.) Blaser MJ. Who are we? Indigenous microbes and the ecology ofhuman diseases. EMBO reports 2006; 7(10):956-960.

(7.) Koehly LM, Loscalzo A. Adolescent obesity and social networks. Prev Chronic Dis 2009; 6(3) [acessado 2010 jul 31]. Disponivel em: http://www.cdc. gov/pcd/issues/2009/jul/08_0265.htm

(8.) Schlosser E. Fast food nation: the dark side of the all-American meal. New York: Harper Collins; 2001.

(9.) Pollan M. In defense of food: an eater's manifesto. New York: The Penguin Press; 2008.

(10.) Pollan M. The food movement, rising. The New York Review of Books 2001; May 20.

(11.) Prado SD, Gugelmin AS, Mattos RA, Silva JK, Olivares PSG. A pesquisa sobre seguranca alimentar e nutricional no Brasil de 2000 a 2005. Cien Saude Colet 2010; 15(1):7-18.

(12.) Anjos LA, Burlandy L. Construcao do conhecimento e formulacao de politicas publicas no Brasil na area de seguranca alimentar. Cien Saude Colet 2010; 15(1):19-22.

(13.) Goldberger J, Wheeler GA, Sydenstricker E. A study of the relation of family income and other economic factors to pellagra incidence in seven cotton-mill villages of South Carolina in 1916. Public Health Reports 1920; 35:2673-2714.

(14.) Morabia A. Joseph Goldberger's research on the prevention of pellagra. J R Soc Med 2008; 101:566568.

(15.) Monteiro CA, Benicio MH, Conde WL, Konno S, Lovadino AL, Barros AJ, Victora CG. Narrowing socioeconomic inequality in child stunting: the Brazilian experience, 1974-2007. Bull World Health Organ 2010; 88(4):305-311.

(16.) Bezerra IN, Sichieri R. Characteristics and spending on out-of-home eating in Brazil. Rev Saude Publica 2010; 44(2):221-229.

(17.) Chor D, Faerstein E, Kaplan GA, Lynch JW, Lopes CS. Association of weight change with ethnicity and life course socioeconomic position among Brazilian civil servants. Int J Epidemiol 2004; 33(1):100-106.

(18.) Horta BL, Gigante DP, Osmond C, Barros FC, Victora CG. Intergenerational effect of weight gain in childhood on offspring birthweight. Int J Epidemiol 2009; 38(3):724-732.

(19.) Lopes AC, Caiaffa WT, Mingoti SA, Lima-Costa MF. The Bambui Health and Aging Study: is calibration of dietary intake necessary among older adults? J Nutr Health Aging 2004; 8(5):368-373.

(20.) Barreto ML, Santos LM, Assis AM, Araujo MP, Farenzena GG, Santos PA, Fiaccone RL. Effect of vitamin A supplementation on diarrhoea and acute lower-respiratory-tract infections in young children in Brazil. The Lancet 1994; 344(8917):228-231.

(21.) Kac G, Sichieri R, Gigante DP, organizadores. Epidemiologia nutricional. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz/Atheneu; 2007.

Eduardo Faerstein [4]

[4] Programa de Pos-Graduacao em Saude Coletiva, Departamento de Epidemiologia, Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. efaerstein@gmail.com

As autoras respondem

The authors reply

Alimentacao e Nutricao em Saude Coletiva: autonomia cientifica, lugares institucionais e pluralidade epistemologica

Food and Nutrition in Public Health: scientific autonomy, institutional places and epistemological pluralism

Gratifica-nos constatar -- apos a ausculta dos tres principais nucleos de saberes que compoem o campo da Saude Coletiva, expressos nas palavras de eminentes pesquisadores, quase todos tambem inseridos em programas de formacao e pesquisa no campo da Alimentacao e Nutricao que o texto apresentado para debate, nas palavras e expressoes dos quatro comentaristas, com as quais compomos uma especie de mosaico, constitui-se em: uma bem-vinda, instigante e necessaria discussao sobre o processo de constituicao e contornos (tanto os existentes como os desejaveis) daquela area de intersecao, em seu carater intrinsecamente multidisciplinar na origem, e que o esforco tenha correspondido ao que se vislumbra no panorama dos desafios e das perspectivas que se nos colocam.

Fascinante notar que, embora produzidos isoladamente, os textos dos debatedores dialogam entre si, trazendo a luz, de forma vivida, consensos e tensoes ai presentes, muitos dos quais por nos assinalados no texto comentado, fato que se evidencia nas distintas e, por vezes, opostas posicoes assumidas, realcando, assim, a oportunidade e a propriedade do debate proposto e, pelo visto, ja em curso.

Outro ponto que nos chamou a atencao foi o fato de muitas das questoes abordadas e, portanto, valorizadas pelos debatedores constarem nos quase 40 mil caracteres suprimidos da versao original do artigo submetido ao debate, tendo em vista as normas da revista, aspecto que nao impediu que o exercicio prosseguisse ate podermos delinear e mais bem situar a questao. Os ricos e variados comentarios recebidos geram, assim, um espaco para recuperar e recompor, ainda que em parte, o texto original, ja que o espaco da replica tampouco permite percorrer ponto por ponto cada contribuicao recebida, conforme seria o nosso desejo. Assim, selecionamos alguns aspectos que julgamos de fundamental importancia esclarecer, ao tempo que evidenciaremos confluencias entre autoras e debatedores, no que deve constituir uma agenda de discussao concernente ao objeto em tela.

Primeiramente, ainda que com foco mais dirigido a questoes internas aos campos, reiteramos nosso entendimento -- que julgavamos ter deixado claro -- de que e fundamental que conexoes necessarias com problemas substantivos devem estar necessariamente presentes em qualquer discussao consequente sobre campo cientifico. Dai o dialogo com Bourdieu ao longo da nossa exposicao; quanto a isso e importante mencionar que, ao empregarmos o termo-conceito "paradigma", a intencao foi mais no sentido de situa-lo ante inumeras e problematicas interpretacoes correntes, o que inclui o seu emprego impreciso na propria obra de Thomas Kuhn, e retira-lo do senso comum, dada a proliferacao de discursos que incorporam o termo sem nenhuma demarcacao ou alusao a sua origem. Contudo, melhor seria, talvez, empregarmos a expressao matriz disciplinar, tal como um dos comentarios faz uso, de modo a nao sugerir como intencao invocar uma explicacao sobre a constituicao dos dois campos a partir de entrincheiramentos paradigmaticos, o que, com efeito, nao foi nosso intuito, uma vez que os conceitos de campo e de nucleos de saberes e que serviram de guia (fio condutor) para nossa analise. De qualquer forma, parece-nos util acrescentar, enfatizando, a importancia de nos afastarmos de leituras que considerem os nucleos de saberes como formacoes homogeneas, uma vez que ambos os campos e suas respectivas subdivisoes estao atravessados por multiplas vertentes, eventualmente mais conflitantes internamente do que no dialogo com outras disciplinas dos respectivos campos.

Outro ponto importante a ressaltar -- e, certamente, a nota de maior relevancia neste momento - e que, neste artigo, partimos da constatacao de que a escassez da tematizacao publica dos espacos de embate entre as opinioes- doxa divergentes (1) e identificada na literatura brasileira correlata. E dessa perspectiva que visitamos a Alimentacao e Nutricao em Saude Coletiva, considerando para tal os distintos nucleos de saberes que a constituem.

Buscando prosseguir nessa trilha de critica as instituicoes e praticas de saude, desenvolvidas no estado capitalista, conforme reconhecido, cabe sustentar nossa recusa em assumir o carater datado, desfocado, e captado de angulo restrito no que concerne a nossa analise relativa ao enfoque epidemiologico, tal como assinalado em outro comentario, registrando uma interessante polarizacao nas leituras. Claro esta, supomos, que nosso artigo esta focado na reflexao critica de problemas substantivos, mas -- e a ressalva e importante - relacionado a "ciencia historica e socialmente contextualizada", numa perspectiva bem mais ampla e profunda que aquela que se restringe ao debate acerca de teorias e metodos especificos de determinado nucleo de saberes. Essa, sim, captada de um angulo [bastante] restrito, ja que confunde (reduzindo) o metodo e tecnica. Problemas substantivos esses que, como tal, nao sao datados -- haja vista virem se manifestando desde os primordios da Modernidade -- periodo em que paulatinamente vai se configurando a hegemonia dos estudos fundados no experimentalismo (portanto, na empiria) de cunho universalista e que advogam uma unica forma de fazer ciencia -- prevendo-se esse predominio ate um futuro tao distante quanto a fragilidade da critica reflexiva possibilitar.

Nada mais alheio a nossas intencoes que negar a potencia do referencial epidemiologico e suas contribuicoes. Nao obstante, e absolutamente urgente assumir os seus limites, ate mesmo para potencializar e atualizar o lugar desse referencial no campo. Isso justamente porque persistem lacunas importantes de conhecimento acerca do papel de varios determinantes proximais e distais em sua rede causal complexa, que incluem, evidentemente, estrutura e sujeito, consoante a interessante alusao de outro comentario a nocao de construcao do processo saude-doenca. Assim, a contribuicao da epidemiologia nem mesmo aparentemente foi por nos subestimada, ja que, da mesma forma, procuramos analisar os demais nucleos: nao se questiona o seu amadurecimento teorico e se aponta ate uma excessiva sofisticacao tecnologica; o que se quer sublinhar e a ausencia do que poderiamos demarcar como uma "Epistemologia da Epidemiologia" que, salvo algumas excecoes dignas de nota e amplamente reconhecidas, esta por ser feita, cedendo espaco para a "tecnologia da Epidemiologia", cujo valor reconhecemos, como tambem seus limites. Limites que nao se resolvem com a mera expansao dos objetos de investigacao, mas com a ja mencionada reflexao critica. O trecho que segue, transcrito de um dos comentarios, esclarece nossa posicao: a pesquisa em epidemiologia no Brasil avanca enormemente, em consonancia com o aprimoramento no manuseio e no uso das tecnicas de pesquisa. Embora muitos pesquisadores brasileiros sigam levando em conta as questoes relevantes para as politicas de saude no Brasil, na hora de definir seus objetos de investigacao, a epidemiologia passa, agora sim, a assumir uma perspectiva de ciencia mais neutra, com aspiracoes a universalidade, e pensada em uma dimensao de escala mundial. [...] uma visao tradicional da ciencia, buscando produzir um conhecimento neutro, objetivo (visto como o que corresponde a realidade), para uma comunidade de pares no cenario internacional.

Em outras palavras, e na esfera da critica a certa racionalidade cientifica -- que, com significativa frequencia e no afa do desenvolvimento de artefatos tecnicos cada vez mais sofisticados, nao se faz acompanhar pelo mesmo investimento na reflexao epistemologica e suas inerentes implicacoes para o mundo da vida (2-8) -- que advogamos pela necessidade de tais reflexoes. Ao faze-lo, apostamos no enfrentamento de certas contradicoes, acreditando, como supoe uma perspectiva dialetica e historica consoante os campos aqui tratados, ser possivel alcancar sua superacao: um devir de cooperacao bem mais intensa entre campos de conhecimento que, sem negar o alcance de cada um deles, possibilite mais bem compreender e atuar de modo mais efetivo atraves da producao de conhecimento relevante que se origine tanto das ciencias biomedicas como das ciencias sociais.

Longe de considerar isso mera utopia, no atual estado da arte, ja se localizam alguns estudos em andamento (9) ou publicacoes que partindo de dados secundarios diversos e considerando, evidentemente, suas limitacoes -- afinal, qual base de dados nao as tem? -- visam discutir a pesquisa brasileira voltada para fenomenos culturais presentes na alimentacao (10) ou alimentacao e nutricao de povos indigenas (11) ou o conjunto dos estudos brasileiros no campo alimentar (12) e nutricional (13). Trata-se, predominantemente, de estudos de base empirica que, parafraseando Vasconcellos-Silva e Castiel (1), partem de um explicito ponto de vista e um devir situados no plano da reflexao critica de base dialetica que busca, no exercicio da discussao e do dissenso, a consideracao da doxa (opiniao que nos distanciaria da verdade) e da episteme (conhecimento ou verdade).

Feitos esses esclarecimentos, dirigimo-nos aos agentes -- que nao chamariamos de externos, haja vista que a nocao de interno e externo e problematica, dada a autonomia do campo cientifico, tao bem assinalada por Bourdieu -- corporificados nas agencias de fomento a pesquisa e formacao pos-graduada no pais (especialmente CNPq, Capes e FAPs estaduais) -- para afirmar, agora concordando, que os lugares institucionais hoje destinados ao campo alimentar-nutricional ainda nao refletem a existencia de suficiente arcabouco teorico e metodologico nas ciencias da Alimentacao e Nutricao para a sua autonomia institucional, o que se comprova pelas publicacoes cientificas, cursos de graduacao, especializacao e posgraduacao, revistas especializadas, associacoes de classe, congressos. Nesse sentido, colocamos, a titulo de ilustracao dos problemas substantivos a serem enfrentados por ambos os campos: (1) a diade "Saude Coletiva e Nutricao" como espaco de avaliacao e distribuicao de recursos no CNPq; e (2) a posicao de subordinacao do campo Alimentacao e Nutricao a Medicina II na Capes, que derivam, respectivamente, da justaposicao equivocada de campos distintos ou da assuncao de um determinado campo como subespecialidade de outro, com evidentes consequencias nos planos conceitual e material.

Sem descartar as inumeras possibilidades de aproximacoes e interacoes entre AN e SC, a garantia institucional de autonomia de um campo cientifico, com a criacao de area especificamente dirigida para a Alimentacao e Nutricao, vem se constituindo em ideia-forca no interior do Forum Nacional de Coordenadores de Programas de Pos-Graduacao em Alimentacao e Nutricao, apoiado por varias entidades, entre as quais a Associacao Brasileira de Pos-Graduacao em Saude Coletiva (Abrasco), atraves do seu Grupo de Trabalho ANSC. Observamos, com base no exposto ao longo dos textos que compoem este debate, que esta construcao institucional deve ter sempre em conta o olhar ampliado da critica aos referenciais mais gerais que marcam o fazer cientifico. Considerando que o investimento em distintos projetos em disputa pela hegemonia (14) pouco auxilia, ou melhor, prejudica largamente a construcao de perspectivas de cunho democratico no ambito da geracao de conhecimento e formacao de pesquisadores, propugnamos que o respeito e valorizacao da pluralidade epistemologica na ciencia, nos campos cientificos e em seus nucleos internos de saberes e pacto que necessita ser firmado. E a justificativa figura em um dos instigantes comentarios que precedem esta replica, que por sua precisao e clareza retomamos e com ele finalizamos, deixando-o como reflexao ou inspiracao para novos contornos e devires: se ela [Alimentacao e Nutricao] mantiver de modo radical o pluralismo epistemologico da Saude Coletiva, se sustentar as praticas de dialogo entre as diferentes vertentes teorico-metodologicas no seu interior (o que ja vem fazendo), e se assumir a perspectiva de producao implicada (o que tambem pode encontrar na area varios exemplos), podera contribuir muito para a construcao de uma vida digna para nosso povo.

Agradecimentos

Por oportuno, gostariamos de agradecer a Coordenacao Geral de Politicas de Alimentacao e Nutricao do Ministerio da Saude e ao Centro Colaborador em Alimentacao e Nutricao da Regiao Sudeste da Escola Nacional de Saude Publica Sergio Arouca, da Fundacao Oswaldo Cruz, por seu apoio no que concerne a infraestrutura indispensavel para o desenvolvimento deste trabalho. Registramos tambem nossos agradecimentos pelo apoio financeiro recebido do CNPq. Somos profundamente gratas tambem a Conceicao Ramos de Abreu e a Ana Silvia Gesteira, esteio fundamental na fase final de organizacao dos textos.

Referencias

(1.) Vasconcellos-Silva PR, Castiel LD. Proliferacao das rupturas paradigmaticas: o caso da medicina baseada em evidencias. Rev Saude Publica 2005; 39(3):498 506.

(2.) Bagrichevsky M, Castiel LD, Vasconcellos-Silva PR, Estevao A. Discursos sobre comportamento de risco a saude e a moralizacao da vida cotidiana. Cien Saude Colet 2010; 15(Supl.1):1699-1708.

(3.) Bagrichevsky M, Estevao A, Vasconcellos-Silva PR, Castiel LD. Estilo de vida saludable y sedentarismo en investigacion epidemiologica: cuestiones a serdiscutidas. Salud Publica Mex 2007; 49(6):387-388.

(4.) Castiel LD. Conflitos, interesses e alegorias: o caso SB Brasil 2003. Cad Saude Publica 2010; 26(4):660662.

(5.) Almeida Filho N, Ayres JR. Riesgo: concepto basico de la epidemiologia. Salud Colectiva 2009; 5(3):323-344.

(6.) Ayres JRCM. Para comprender el sentido practico de las acciones de salud: contribuciones de la Hermeneutica Filosofica. Salud Colectiva 2008; 4(2):159 172.

(7.) Ayres JRCM. Risco, razao tecnologica e o misterio da saude. Interface (Botucatu) 2007; 11(21):154-158.

(8.) Ayres JRCM. Uma concepcao hermeneutica de saude. Physis 2007; 17(1):43-62.

(9.) Prado SD. A pesquisa sobre Alimentos, Alimentacao e Nutricao no Brasil: reflexoes sobre a producao de conhecimento e saberes [projeto de pesquisa]. Rio de Janeiro: Instituto de Nutricao, Uerj; 2005.

(10.) Silva JK, Prado SD, Carvalho MCVS, Ornelas TFS, Oliveira PF. Alimentacao e Cultura como campo cientifico no Brasil. Physis 2010; 20(2):413-442.

(11.) Gugelmin AS, Ferreira AA, Leite MS. A pesquisa sobre alimentacao e nutricao de povos indigenas do Brasil: uma analise a partir do Diretorio de Grupos de Pesquisa do CNPq; 2009. (mimeo).

(12.) Prado SD, Bosi MLM, Carvalho MCVS, Gugelmin SA, Silva JK, Delmaschio KL, Martins MLR. A pesquisa sobre alimentacao no Brasil: sustentando a autonomia da Alimentacao e Nutricao como campo cientifico. Cien Saude Colet 2010; 16(1):107-119.

(13.) Delmaschio KL, Prado SD, Carvalho MCVS, Gu gelmin SA, Silva JK, Martins MLR. A pesquisa sobre Alimentos, Alimentacao e Nutricao no Brasil [projeto de pesquisa]. Rio de Janeiro: Instituto de Nutricao, Uerj; 2009.

(14.) Gramsci A. Cadernos do carcere. Rio de Janeiro: Civilizacao Brasileira; 2000.
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Title Annotation:DEBATEDORES; Texto en Portuguese
Author:Faerstein, Eduardo
Publication:Ciencia & Saude Coletiva
Date:Jan 1, 2011
Words:4897
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