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Caminhos cruzados de Armando Alves.

Cross Paths of Armando Alves

Introducao

Armando Jose Ruivo Alves nasceu em 1935, em Estremoz. Estudou em Lisboa, onde fez o Curso de Preparacao as Belas Artes, na Escola de Artes Decorativas Antonio Arroio, e admissao as Belas Artes. Mudou-se, posteriormente, para o Porto onde se formou em Pintura, na Escola Superior de Belas Artes (ESBAP), em 1962. Juntamente com Jose Rodrigues, Angelo de Sousa e Jorge Pinheiro ficou conhecido como um dos Quatro Vintes, media de vinte valores obtida no final do curso.

Apos a licenciatura, Armando Alves foi nomeado Professor Assistente da ESBAP. Paralelamente a atividade de pintor, o autor desenvolve projetos de design (os primeiros ainda como aluno), assume um papel preponderante no desenvolvimento desta area enquanto disciplina academica ao introduzir o estudo das Artes Graficas na ESBAP, a qual viria, posteriormente, dar origem ao curso de Design Grafico.

No final da decada de 60, dedica-se as artes graficas desenvolvendo projetos na area do design editorial, cartazes e catalogos de exposicoes (Fig. 1), entre outros, cuja a analise integrou a metodologia para este artigo, a par de entrevistas e analise documental. Esta atividade, como artista grafico e pintor (Figura 2), desenvolve-se enquanto docente da ESBAP ate 1973, ano em que deixa o ensino para se dedicar mais inteiramente ao design e pintura.

Para o presente artigo, e feita uma analise do percurso de Armando Alves atraves da observacao direta (Banks, 2001) da sua obra grafica e entrevista realizada ao autor, a 5 de dezembro de 2018, no seu atelier, em Matosinhos.

Artista e Designer

Ha uma continuidade direta entre as tradicoes da pintura a oleo ocidental e a publicidade grafica (...) o design grafico presente na publicidade nao e diferente da arte, na medida em que ambos usam as mesmas tecnicas ilustrativas epersuasivas (... ) o prestigio cultural (Berger, 1972:134).

Armando Alves inicia a sua atividade de designer ainda nos tempos de faculdade onde lhe era solicitado, pelo Mestre Carlos Ramos, que desenvolvesse catalogos e cartazes das exposicoes realizadas na ESBAP. Na altura havia duas grandes exposicoes, a Exposicao Magna, uma exposicao de trabalhos realizados durante o ano na escola, e uma outra exposicao de trabalhos extra escolares realizados nos ateliers e, portanto, com um carater menos rigoroso face aos parametros e diretrizes do curso. A concecao destes catalogos, juntamente com alguns trabalhos que ja havia realizado para a revista Lusiada (Revista ilustrada de cultura, arte, literatura, historia e critica), da casa Simao Guimaraes e Filhos, foram as primeiras experiencias na area do design e aquelas que lhe despertaram o interesse pela atividade das artes graficas. Desde entao, e ate a data, desenvolve em paralelo as atividades de designer e pintor, duas atividades que, segundo Armando Alves, ao longo da sua carreira se foram contaminando, ainda que com duas linguagens distintas.

Enquanto aluno, relaciona-se com Jose Rodrigues, Angelo de Sousa, Jorge Pinheiro que, junto com Armando Alves, viriam a ficar conhecidos como os Quatro Vintes. Teve referencias muito fortes na pintura e no desenho, entre elas o pintor Heitor Crames (professor de desenho de estatua), o Mestre Dordio Gomes e Augusto Gomes, no dominio da pintura, o Mestre Barata Feyo e Julio Resende (que nunca chegou a ser seu professor, mas, segundo o autor, influenciou-o muito).

Na area das artes graficas, e nao havendo a data a facilidade de acesso e intercambio de informacao alem fronteiras, as suas referencias restringiam-se ao meio nacional, sendo a principal referencia Sebastiao Rodrigues, o qual teve oportunidade de conhecer mais tarde e partilhar ideias.

Quando termina o curso, comeca a dar aulas na ESBAP, assumindo a cadeira de Pintura Decorativa. Esta cadeira, cujo nome vinha ainda do sec. XIX, revelava-se, para Armando Alves, de pouco interesse face a realidade artistica que se vivia a epoca. Neste sentido, e apos um ano a leciona-la, propoe como alternativa uma cadeira de iniciacao as Artes Graficas. E assim introduzida esta disciplina de Artes Graficas no curso de Pintura da ESBAP, em 1962. Nao havia, entao, um programa escrito da disciplina, mas uma ideia do que se pretendia fazer. O primeiro ano seria experimental e depois, dependendo dos resultados obtidos, avaliar-se-ia a continuidade ou nao da mesma. A abordagem a disciplina foi, entao, pensada e estruturada por Armando Alves.

Conforme nos relata Armando Alves (comunicacao pessoal, 5 de dezembro, 2018), a data nao havia computadores, o que havia era obra feita como os trabalhos de Sebastiao Rodrigues para a Gulbenkian e a revista Almanaque. A abordagem a disciplina era, assim, bastante artesanal, recorrendo-se a materiais de referencia existentes, nomeadamente a revistas como a Marie Claire ou a Paris Match, segundo o autor "de grande importancia e muita qualidade grafica" que, nao so eram analisadas em contexto de aula (Ruby, 2000), mas tambem constituiam materiais interessantes que eram recortados e arquivados para, mais tarde, serem reutilizados em novas composicoes graficas num processo artesanal a base do "corte e cola". Com estes materiais, que incluiam recortes de letras, titulos, textos ou fotografias, compunham varios projetos como capas de discos ou capas de livros ficticios.

Atraves de bibliografia e obra existente, eram tambem analisados em aula obras e autores de referencia, destacando Armando Alves a obra de Sebastiao Rodrigues como uma das principais referencias, e em particular a revista Almanaque. Segundo o autor houve sempre, tambem, uma grande influencia da escola inglesa e italiana no que respeita as artes graficas.

No final do ano, os resultados obtidos nesta cadeira sao expostos na Exposicao Magna, tendo sido bastante apreciados. A cadeira de Artes Graficas, iniciada a titulo experimental, estabiliza-se, assim, no curso de Pintura, vindo, anos depois, a dar origem ao curso de Design Grafico.

Apos 14 anos, deixa o ensino na ESBAP para dirigir a Editorial Inova, considerando nao ser possivel a conciliacao da atividade de Professor e da atividade de artes graficas fora da escola, porque "ambas exigiam uma dedicacao muito grande" (comunicacao pessoal, 5 de dezembro, 2018). Opta entao pelas artes graficas, numa altura em que, segundo Armando Alves (comunicacao pessoal, 5 de dezembro, 2018) "havia uma apetencia muito grande" pelos trabalhos graficos "com uma certa qualidade".

A data, a Editorial Inova publicava cerca de 30 a 40 livros por mes, sendo sempre o autor o designer da editora. Entre os livros desenvolvidos, Armando Alves destaca o livro Ostinato Rigore, edicao Editorial Inova Limitada, de 1971, com poemas de Eugenio de Andrade, que, para alem do design, inclui um desenho da sua autoria. Este livro, com uma linguagem grafica pautada pela simplicidade, apresenta-se dentro de uma bolsa de cartao negro ilustrado (Figura 3).

Nas decadas que se seguiram teve uma atividade intensa, tanto no ambito das artes graficas, onde realizou inumeros trabalhos de design editorial, cartazes e catalogos de exposicoes, entre outros, como no ambito da pintura. Ainda que estas areas se tenham cruzado, e ate contaminado, na obra que foi produzindo, Armando Alves reconheceu sempre a especificidade da linguagem visual e comunicacional de cada uma delas, afirmando ter sempre sabido conciliar estas areas "fazendo coisas diferentes" (comunicacao pessoal, 5 de dezembro, 2018). Fez varias serigrafias e, inclusive, reproduziu alguns dos seus quadros em serigrafia. Nao obstante, salienta que a serigrafia tem tambem uma linguagem propria que nao abarca a reproducao de quadros (como ele proprio ja fez), mas sim uma linguagem que passa pela composicao do desenho, separacao das cores, uma forma mais pura e grafica ajustada as caracteristicas da tecnica em si.

Atualmente, com 83 anos e ja reformado, mantem as suas atividades enquanto pintor e artista grafico, trabalhando diariamente no seu atelier, em Matosinhos. Quando questionado sobre a forma como distribui o seu tempo, Armando Alves (comunicacao pessoal, 5 de dezembro, 2018) afirma faze-lo consoante as necessidades, salientando, contudo, que "o design e sempre para ontem", pelo que "quando e preciso ser feito, faz-se".

Considera-se "obsessivo no trabalho", fazendo coisas diferentes todos os dias. Na visita realizada ao seu espaco, transparece, efetivamente, uma atividade continua de trabalho: telas que se sobrepoem nao so nos espacos que lhe sao aparentemente reservados, mas tambem em estantes reservadas a livros e mesas de trabalho; materiais de pintura em utilizacao, paletas com varias cores produzidas, sugerindo estar a uso; panos com restos de tintas e pinceis; desenhos nas mesas, alguns de outros autores; pequenas esculturas por todo o atelier; e livros, muitos livros, seja em estantes, seja a uso espalhados pelo espaco disponivel (Figura 4 e Figura 5).

Na area do design, protagonizou toda uma evolucao fomentada pelo desenvolvimento das tecnicas e tecnologias, tanto de concecao grafica como de producao. Observa o potencial do computador, em particular enquanto ferramenta de execucao dos seus trabalhos e nao como meio de criacao, aspeto salientado pelo proprio autor. Assim, embora nao manuseie o computador, utiliza-o como ferramenta de execucao dos seus trabalhos, recorrendo, para o efeito, a um colaborador.

O seu trabalho grafico e pautado pela versatilidade, transparecendo uma vontade de experimentacao. Nas capas de livros que concebeu, no que respeita ao tratamento tipografico, encontramos diferentes abordagens. Encontramos capas caracterizadas pelo uso de tipografias pesadas e condensadas, como a do livro O Ultimo Dia da Pide, realizada em 1974, e capas caracterizadas pela utilizacao de tipografias de baixo peso, como a do livro Ostinato Rigore, ja referido, a do livro O texto de Joao Zorro, de 1974, ou a do livro Poemas a Guevara, publicada em 1975 pela Editorial Limiar, onde a tipografia Futura e utilizada numa versao light. Se na capa de Poemas a Guevara e dado grande enfase a tipografia, a qual domina toda a capa, sendo conjugadas diferentes escalas, em capas como Ostinato Rigore, O texto de Joao Zorro ou Poemas a Guevara, a tipografia nao assume tanta predominancia, sendo dado maior destaque a ilustracao (no primeiro caso, um desenho de Jose Rodrigues e, no segundo caso, um desenho de Angelo de Sousa). Comum a estas capas e a utilizacao de cores diretas e em numero reduzido.

Nos trabalhos graficos de Armando Alves, encontramos, tambem, exemplos em que se percebe um cuidado que vai muito alem da organizacao de elementos e conteudos na superficie de trabalho, o arranjo grafico, sobressaindo toda uma preocupacao com os materiais e papeis utilizados na sua producao, bem como os acabamentos, nao raras vezes feitos artesanalmente (Banks, 2001).

Neste ambito, destaca-se a obra Principio, um catalogo com fotografia de Joao Avelino Marques e textos de Mario Claudio, uma edicao especial para a qual foram produzidos apenas 20 exemplares. Embalado numa caixa de acrilico transparente, este catalogo, impresso em grande formato e em papel texturado, apresenta um acabamento requintado, cosido manualmente, ficando a costura a descoberto pela ausencia de uma tradicional capa. Os textos sao trabalhados numa tipografia serifada cujo desenho nos remete para a tipografia da maquina de escrever, reforcando, tambem, um carater mais artesanal. No seu conjunto, esta obra grafica afigura-se como uma peca requintada que apela nao so ao sentido visual, mas tambem a manualidade (Figura 6 e Figura 7).

Outra obra que podemos salientar neste ambito (e que foi destacada pelo proprio Armando Alves) e o supracitado livro Ostinato Rigore, de 1971, apresentado numa bolsa de cartao negro. Ainda que a producao deste trabalho nao nos remeta para uma vertente tao artesanal, como no caso anterior, o manuseamento do livro remete-nos para um carater mais manual e sensorial.

Conclusao

A analise do percurso de Armando Alves, decorre da evidencia de que ha uma insuficiente inscricao, uso de conhecimento individual e experiencia dos professores e investigadores aposentados em arte e design. Este facto levanta a hipotese de que, a legitimacao da sabedoria conduzida pela pratica na arte e na pesquisa de design, contribuira grandemente para o dominio e profundidade da disciplina, bem como para informar o seu papel como uma interface multidisciplinar. Este artigo e um angulo desta procura e legitimacao centrado na analise do trabalho de Armando Alves, cuja riqueza se revela em tres frentes, na arte, design e no cruzamento e contaminacao destas duas esferas.

Os resultados desta investigacao visam estabelecer as bases para uma mudanca de paradigma no reconhecimento, comunicacao e activacao de contribuicoes relevantes para o conhecimento, a cultura e o tecido social que os academicos de arte e design podem oferecer em nome proprio: formas de sabedoria nao necessariamente revertidas ou traduzidas para o conhecimento cientifico nas suas carreiras e que podem desta forma encontrar outros contextos de ressonancia e aplicabilidade.

O testemunho pessoal e analise documental e visual dos artefactos visuais criados por Armando Alves, representam uma agregacao de conhecimentos e experiencias individuais que podem ser de grande utilidade, aplicabilidade e replicabilidade.

Referencias

Banks, Marcus (Eds.) (2001) Visual Methods in Social Research. London: Sage Publications UK.

Berger, John (1972) Ways of Seeing. Harmondsworth: Penguin.

Ruby, Jay (2000). Picturing culture: explorations of film & anthropology. Chicago; London: University of Chicago Press.

CLAUDIA RAQUEL LIMA * & SUSANA CRUZ BARRETO **

Artigo completo submetido a 02 de janeiro de 2019 e aprovado a 21 janeiro de 2019

* Portugal, Designer.

AFILIACAO: Universidade Lusofona do Porto, Faculdade de Comunicacao, Arquitetura, Artes e Tecnologias da Informacao (FCAATI). Rua Augusto Rosa 24, 4000-098 Porto, Portugal. E-mail: claudiaraquellima@gmail.com

** Portugal, Designer.

AFILIACAO: Faculdade de Belas Artes, Universidade do Porto. Av. de Rodrigues de Freitas 265, 4000-421 Porto, Portugal. E-mail: susanaxbarreto@gmail.com

Leyenda: Figura 1 * Catalogos das mais recentes exposicoes de obras do Pintor, desenvolvidos por Armando Alves. Fonte: propria.

Leyenda: Figura 2 * Conjunto de pinturas de Armando Alves. Atelier do Pintor. Fonte: propria.

Leyenda: Figura 3 * Armando Alves, Ostinato Rigore, edicao Editorial Inova Limitada, de 1971. Fonte: propria.

Leyenda: Figura 4 * Imagens recolhidas no atelier de Armando Alves. Fonte: propria.

Leyenda: Figura 5 * Imagens recolhidas no atelier de Armando Alves. Fonte: propria.

Leyenda: Figura 6 * Principio, catalogo com fotografia de Joao Avelino Marques e textos de Mario Claudio, desenvolvido por Armando Alves. Fonte: propria.

Leyenda: Figura 7 * Principio, catalogo com fotografia de Joao Avelino Marques e textos de Mario Claudio, desenvolvido por Armando Alves. Fonte: propria.
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Title Annotation:Artigos originais
Author:Lima, Claudia Raquel; Barreto, Susana Cruz
Publication:GAMA
Date:Jan 1, 2019
Words:2538
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