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CRISTINA SANTOS PINHEIRO, ANNE MARTINA EMONTS, MARIA DA GLORIA FRANCO, MARIA JOAO BEJA (coords.), Mulheres: Feminino, Plural.

CRISTINA SANTOS PINHEIRO, ANNE MARTINA EMONTS, MARIA DA GLORIA FRANCO, MARIA JOAO BEJA (coords.), Mulheres: Feminino, Plural, Funchal, Nova Delphi, 2013. ISBN 978-989-747-002-8

A historia das mulheres em geral, a historia dos papeis sociais a que estas puderam ter acesso, e o estudo das representacoes de que foram objecto, a cada momento, na longa duracao da Historia constituem ainda, apesar da aparente abundancia de trabalhos que lhes tem sido consagrados desde os anos 70 do seculo XX, um territorio mal conhecido. Esta afirmacao e especialmente aplicavel ao caso portugues, por um lado, devido ao momento relativamente tardio em que estes temas comecaram a despertar a atencao da academia (no final dos anos 80 do seculo XX), e, por outro, dado o facto de a sua adopcao como area de investigacao ter sofrido, desde entao, avancos e recuos, pese embora os esforcos recorrentes levados a cabo por grupos de investigacao em diversas Universidades do pais (Universidade Aberta, Universidade Nova, Universidades de Coimbra, Porto e Lisboa) para cimentar e legitimar os chamados "Estudos sobre as Mulheres" e a "Historia Cultural das Mulheres" enquanto areas de pesquisa dignas de atencao, credito e de investimentos simbolico e material.

A obra que aqui se recenseia resulta, como se indica no prefacio, de uma seleccao de trabalhos apresentados ao encontro internacional com o mesmo titulo que teve lugar no Funchal em 2011, tornado possivel gracas a cooperacao, com a entidade organizadora (o Centro de Competencias de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira), de cinco instituicoes de tres paises diferentes: Centro de Estudos Classicos da Universidade de Lisboa, Centro de Comunicacao e Cultura da Universidade Catolica Portuguesa, Centro de Estudos Classicos e Humanisticos da Universidade de Coimbra, Centro de Investigacao Judaismo e Feminilidade da Universidade de Santiago de Compostela e Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

O conjunto dos textos escolhidos e publicados no volume, organizados em dois grandes nucleos tematicos intitulados Representacoes e Vivencias, oferece um amplo e variado panorama de possibilidades de abordagem da questao feminina que vale, quer pela novidade dos resultados das pesquisas individuais dos seus autores, quer pelo esforco de cruzamento de saberes e de metodologias de analise que conferem a esta obra colectiva um caracter verdadeiramente interdisciplinar, quer ainda pelo acentuar da longevidade e da "antiguidade" ou, se quisermos, "precocidade" no ambito da Historia da Cultura Ocidental, de postulados, de concepcoes da natureza feminina, de visoes tradicionais dos papeis sociais permitidos as mulheres, e ate de argumentos usados em momentos em que estes papeis foram discutidos ou postos em causa.

A leitura da primeira parte da obra, dedicada aos aspectos que as coordenadoras designaram por Representacoes, revela que muitos desses elementos sao, de facto, em grande medida, herdados da Antiguidade, ainda que surjam atribuidos com alguma frequencia, pelo discurso historiografico, a epocas mais recentes. E o que demonstram trabalhos como os de Maria Cristina de Castro-Maia Sousa Pimentel sobre as mencoes a personagens femininas, representacoes e atribuicao de valores morais e simbolicos as mesmas presentes em Tacito e em outros historiografos latinos, de Luisa de Nazare Ferreira acerca de concepcoes e atributos da beleza feminina referidos em obras de autores da Grecia antiga, de Joaquim Pinheiro sobre o que as fontes literarias e arqueologicas nos dizem acerca da educacao da mulher na Grecia antiga, de Ana Filipa Isidoro da Silva sobre a visao do feminino recuperavel a partir das Consolationes de Seneca, a revisitacao feita por Ricardo Duarte da caracterizacao de Medeia na tragedia do mesmo autor, bem como a pesquisa levada a cabo por Cristina Santos Pinheiro acerca do que chama "a condicao feminina na medicina antiga". Todos contribuem para alargar, neste sentido, o horizonte conceptual e historico das problematicas que a analise critica da questao feminina exige.

Um outro nucleo importante de trabalhos diz respeito a associacao das discussoes relativas ao lugar social e moral das mulheres na sociedade, tal como estas foram sendo enquadradas em diversas epocas pelo Cristianismo. A pesquisa de Zina Abreu sobre as possibilidades de estudar as intervencoes e as representacoes das mulheres "na genese da Igreja Crista", o estudo de Rodrigo Furtado sobre Melania-a-Antiga, sugestivamente intitulado "quando os santos se zangam" e, muito particularmente, o estudo de Arnaldo Espirito Santo sobre o modo como se interseccionam, no discurso dos sermoes do Padre Antonio Vieira, as categorias de classe, genero e religiao ("A mulher e as mulheres nos Sermoes do Padre Antonio Vieira") vem iluminar de modo inovador, historicamente documentado (e por isso mesmo complexificado), a visao tradicional, por vezes simplista, sobre o modo como o Cristianismo lidou e pensou, em diversos momentos do passado, a actuacao feminina.

Esta primeira seccao do volume aqui em apreco termina com um nucleo final de trabalhos dedicados ao modo como as mulheres e as personagens femininas surgem "representadas" em textos de diferentes tipologias: ficcao narrativa (Ricardo Nobre e Jorge Filipe Ressurreicao, Silvia Marisa Cunha, Maria Elisa Seixas, Joao Carlos Costa, Leonor Martins Coelho, Sirlene Cristofano), poesia (Jose Ribeiro Ferreira), drama (Isabel Capeloa Gii) e, ate, no discurso necrologico (a comunicacao de Thierry Proenca dos Santos).

Apesar da variedade de perspectivas, metodologias e pontos de vista inovadores expostos na primeira parte, pode dizer-se que e a segunda parte deste volume colectivo, intitulada Vivencias, que o singulariza em termos de interdisciplinaridade e de aplicacao obvia dos parametros da pesquisa de genero as problematicas da actualidade. Com efeito, se uma das virtudes da ampliacao dos conhecimentos sobre a historia e a historiografia das representacoes da actuacao das mulheres e dos papeis de genero ao longo do tempo consiste em abrir espaco para uma reflexao mais informada sobre o presente, os estudos reunidos nesta segunda seccao, centrados sobre dados e factos recolhidos de casos concretos, na sua maioria contemporaneos, contribui decisivamente para que essa reflexao informada possa ter lugar. Assim, se o primeiro texto recolhido desta serie, da autoria de Elisa Lessa, incide ainda sobre a cultura musical das monjas dos seculos XVII e XVIII, partindo da analise de material de arquivo preservado na Biblioteca Municipal de Braga, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, os restantes debrucam-se sobre problemas enfrentados na sociedade portuguesa do presente, num contexto em que, pelo menos a nivel manifesto, se buscam alcancar metas de igualdade e de paridade. Ana Antunes e Leandro Almeida, por exemplo, procuram dar a ver de que modo o sistema educativo lida com as jovens estudantes de elevado potencial e avaliar as consequencias observaveis sobre as possibilidades de carreira intelectual e profissional das mesmas. Fabia Sousa e Maria Joao Beja, por sua vez, propoem uma analise da presenca feminina no Ensino Superior em Portugal que tenha em conta, tambem, possiveis consequencias sociais. Ana Raquel Matos investiga a relacao entre as alteracoes introduzidas nos hospitais relativamente as dimensoes dos espacos destinados aos partos e os seus impactos em termos de condicoes de saude psicologica e mental das mulheres, quer a nivel social, quer das consequencias observaveis a nivel de comportamentos de cidadania.

Esta segunda parte do livro aqui recenseado termina com um nucleo de trabalhos centrados sobre questoes de Direito e, sobretudo, dos modos como sao aplicadas as leis e regulamentacoes do Estado quando se trata de mulheres. Adriano Salgueiro e Andreia Duarte, por exemplo, procedem a uma analise critica da "lei da paridade e da sua implementacao em Portugal": Ana Reis Jorge e Manuel Carlos Silva debrucam-se sobre a aplicacao judicial da legislacao relativa as responsabilidades parentais em caso de divorcio na sociedade portuguesa, Isabel Ventura ensaia uma breve historia do tratamento penal dos crime de violacao e, finalmente, Vera Monica Duarte estuda a delinquencia juvenil feminina e procura interpreta-la a luz das diferencas sociais de genero, tal como estas sao incutidas e vividas, hoje, em Portugal.

A laia de conclusao, vale a pena sublinhar a importancia deste volume, que bem merece ser destacado no panorama das publicacoes relativas quer a Historia Cultural e Social das Mulheres em Portugal, no que diz respeito a contribuicao que da para um melhor conhecimento do contexto actual, nem sempre coincidente com o veiculado em discursos de caracter oficial sobre a igualdade de direitos e a paridade na sociedade portuguesa. Trata-se de uma obra que, pela sua diversidade, amplo escopo historico, seriedade e actualidade dos metodos e resultados da investigacao que apresenta, deve ser tida em conta por todos aqueles que se interessam pelos multiplos aspectos relacionados com os Estudos sobre as Mulheres em Portugal.

VANDA ANASTACIO

Centro de Estudos Classicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

vandaanastacio@mail.telepac.pt
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Author:Anastacio, Vanda
Publication:Euphrosyne. Revista de Filologia Classica
Date:Jan 1, 2016
Words:1416
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