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Building a particular mapping of visual artists in the Amazon/A construcao de uma cartografia poetica de determinada producao de artistas visuais na Amazonia.

Introducao

O presente artigo vem falar sobre uma cartografia poetica de artistas visuais que pensam e trabalham na Amazonia Legal, a partir de viagens realizadas por mim, enquanto artista-pesquisadora, nas seguintes cidades que compoe essa regiao: Porto Velho, Belem, Boa Vista, Sao Luis, Palmas, Cuiaba, Manaus, Macapa e Rio Branco, durante os anos de 2013 e 2014.

A maior parte destas viagens foram realizadas no territorio amazonico atraves do projeto Amazonia das Artes do Sesc-Para, projeto que incetiva artistas a divulgarem seus trabalhos em diversas cidades desta regiao.

Foi uma oportunidade de conhecer mais de perto o Norte do Brasil, e, deparar-me com similitudes e diferencas, se sentindo por muitas vezes como uma especie de estrangeiro dentro do seu prorpio territorio.

1. Diarios de Bordo

Durante as viagens foram realizados diarios de bordo que foram elementos das viagens e sao elementos importantes de todo o processo, espacos estes reservados para a escrita sobre a regiao, aos desenhos realizados dentro dos avioes, e que reverberaram sobre as sensacoes imediatas; um diario de bordo com discurso factual e literario, espaco para uma pratica poetica sobre o viajar na regiao amazonica.

Aceitar participar do projeto era disparar essa vontade de "caixeiro-viajante", de exercitar uma certa flanerie, nao nas cidades modernas europeias, mas nas cidades do modernismo e da pos-modernidade amazonida. Entendo a flanerrie a partir do que Baudelaire, ao se remeter ao fluxo de descobertas do sujeito na cidade moderna deambula pela cidade, no fluxo a descobrir a metropole, o que mais adiante Walter Benjamin ira abordar com um mergulho filosofico profundo. Aqui, nossa flanerie e pos-moderna, em cidades que viveram certo fausto na Belle Epoque, carregando, ainda seus signos de modernidade, mas que vivem imersas em contradicoes na contemporaneidade. Nossa flanerie e flanerie, pois buscamos os detalhes, as pequenas surpresas, os encontros que se processam no inesperado do acontecimento. O flaneur percebe a paisagem, como afirma Walter Benjamin "Paisagem--eis no que se transforma a cidade para o flaneur. Melhor ainda, para ele a cidade se cinde em seus polos dialeticos. Abre-se para ele como paisagem e, como quarto, cinge-o".

A intencao com os diarios de bordo foi realizar uma especie de registro subjetivo das viagens, transformando tambem numa acao poetica atraves da escrita e dos desenhos, construindo assim anotacoes diarias sobre um "re-descobrimento", o "re-conhecimento" da regiao Amazonica (afinal, era a primeira vez que estava conhecendo as outras cidades da mesma regiao).

A proposito, importante sublinhar que alem dos navegadores, varias outras pessoas excursionaram pelas terras amazonicas, antes deles diversos povos cruzaram a regiao, disseminando sua cultura, deixando marcas, dispersando ate mesmo sementes e colaborando na constituicao da diversidade do bioma que compreende a Amazonia. Como por exemplo o escritor Mario de Andrade, que no livro Turista Aprendiz, tambem recorreu a um diario de bordo para expressar suas impressoes do Norte e Nordeste do Brasil:

[...] A foz do Amazonas e uma dessas grandezas tao grandiosas que ultrapassam as percepcoes fisiologicas do homem. Nos so podemos monumentaliza-las na inteligencia. O que a retina bota na consciencia e apenas um mundo de aguas sujas e um matinho sempre igual no longe mal percebido das ilhas. O Amazonas prova decisivamente que a monotonia e um dos elementos mais grandiosos do sublime. E incontestavel que Dante e o Amazonas sao igualmente monotonos. Pra gente gozar um bocado e perceber a variedade que tem nessas monotonias do sublime carece limitar em molduras mirins a sensacao. Entao acha uma lindeza os barcos veleiros coloridos e acha cotuba a morte dos pretendentes, se prende ao horizonte plantado de arvores que a refracao apara do firme das ilhas e do livro de Jo. A foz do rio Amazonas e tao ingente que blefa a grandeza [...] (Andrade, 2002: 60)

O diario de Mario de Andrade estava cheio de anotacoes, pedacos de papel, desenhos, paginas datilografadas, outras a mao, notas avulsas, de forma que ficou rico em detalhes.

Escrever os diarios era de alguma forma ser envolvida pelo fluxo dos rios e pelo fluxo das palavras, que me acompanhavam durante as viagens, durante todo o percurso. Estar em transito, sempre de passagem, e, sempre ser surpreendida pela palavra.

Propus a minha escrita para o registro das viagens, ser de maneira factual e poetica, como assinala a pesquisadora Rosane Preciosa: "Escrevemos para dar visibilidade ao invisivel, para responder ao chamamento das nossas marcas, que o corpo carrega consigo".

Blanchot assinala sobre diarios de bordo:

O Diario representa a sequencia dos pontos de referencia que um escritor estabelece e fixa para reconhecer-se, quando pressente a metamorfose perigosa a que esta exposto. E um caminho ainda viavel, uma especie de caminho de ronda que ladeia, vigia e, por vezes, duplica o outro caminho, aquele onde errar e a tarefa sem fim (Blanchot, 1987: 19)

Anotar as expedicoes, o deslocamento do corpo pela Amazonia. E fazer ainda um especie de auto-(re) conhecimento proprio, como sublinho dentro de minhas anotacoes: "Conhecer a si mesmo e atravessar a ponte."

2. Construcao de uma cartografia

Minha pretensao nessas viagens foi principalmente a de conhecer alguns artistas que atuam e pensam a regiao, tendo como um dos objetivos a realizacao de uma cartografia de encontros a partir de um territorio tao complexo como a Amazonia. Coloquei como estrategia para construcao desse mapa, o ritual do encontro e da interacao, fossem esses pessoais ou virtuais, ja que corria o risco de encontrar os artistas no momento em que estava la ou nao.

Comecei a anotar sobre as pessoas que nas viagens eu tive contato, que fizeram parte da minha vivencia, e, que eram artistas ou produtores culturais que indicavam nomes de outros artistas.

Fiz um recorte particular baseado nos encontros sem intencao curatorial ou de afirmacao de "mapa definitivo" sobre as artes visuais na regiao norte. Importante relatar que como sujeito participe, pois tambem atuo como artista visual, estava ali para tentar compreender de que maneira atuamos e nos articulamos.

Foram sendo desenhados em minha cartografia os nomes dos seguintes artistas: Danielle Fonseca (Para), Orlando Maneschy (Para), Paulo Trindade (Amazonas), Savio Stoco (Amazonas), JJ Nunes (Amapa), Ueliton Santana (Acre), Joeser Alvarez (Rondonia), Isaias Miliano (Roraima), Marina Boaventura (Tocantins), Marcos Dutra (Tocantins), Thiago Martins de Melo (Maranhao) e Clovis Irigaray (Mato Grosso). Um grupo de artistas misturado entre jovens e experientes artistas, com carreiras consolidadas e outras em ascensao.

Um dos pontos a esclarecer foi de que maneira fiz esse agrupamento de pessoas? Durante as viagens pela Amazonia consegui conversar com muita gente, na sua maioria estudantes de universidades, produtores culturais e artistas. A cada viagem fui elencando nomes, de acordo com os encontros que se davam e as trocas que aconteciam. Tive oportunidade de trocas e compartilhamentos com a maioria deles, quer seja durante a viagem, ou depois dela. Conheci os artistas Marina Boaventura (Tocantins), Marcos Dutra (Tocantins) e Isaias Miliano (Roraima), nas proprias localidades, que sao artistas atuantes em seus estados, e travamos muitos dialogos a partir de entao.

Os artistas Danielle Fonseca (Para), Orlando Maneschy (Para), ja faziam parte das minhas anotacoes desde o comeco da viagem e acompanharam todo o processo dessa pesquisa.

Os artistas Savio Stoco (Amazonas), Paulo Trindade (Amazonas) e Joeser Alvarez (Rondonia) nao tive a oportunidade de conhecer pessoalmente durante as viagens, mas consegui conhece-los depois, ja em Belem, e, os coloquei na minha cartografia (Figura 1).

Os outros nomes foram sendo anotados a partir de indicacoes locais como os nomes dos artistas visuais Thiago Martins de Melo e Clovis Irigaray, que foram mencionados por produtores culturais do Maranhao e Mato Grosso.

E por ultimo, mesmo nao conseguindo viajar para o Acre e Macapa, devido a falta de verbas, e ciente que o projeto so se concluiria ao completar o meu mapa, que era incluir alguns nomes de produtores de artes visuais atuantes nestas localidades da Amazonia Legal. Recorri entao a internet para realizar essa viagem imaginaria, pesquisei na internet e livros o nome de alguns artistas do Acre e Macapa, e, cheguei aos nomes de Ueliton Santana e JJ Nunes.

Dando prosseguimento a construcao do percurso, dediquei-me a leituras sobre a regiao, e a pesquisa sobre as producoes dos nomes dos artistas anotados; continuei conversando com a maioria deles atraves de e-mails e redes sociais, e com alguns, tive oportunidade de rever pessoalmente, e com isso prolongar nossa discussao sobre nossas fronteiras, nossos territorios, similitudes e particularidades.

Conclusao

De que maneira estar num local tao peculiar afeta sua producao artistica? Percebo o trabalho de Clovis Irigaray (Mato Grosso) em consonancia com o de Isaias Miliano (Roraima), onde percebem a natureza ao redor com grande relevancia, e apresentam em pinturas e esculturas seu olhar atento para a regiao como fortalecimento da propria cultura.

Danielle Fonseca (Para) (Figura 4) com suas instalacoes, pinturas e esculturas vem apresentando a regiao atraves das aguas, onde o rio e a filosofia atravessam juntos; Orlando Maneschy (Para) (Figura 5) apresenta em seus videos sua experiencia de um devir-natureza; Savio Stoco (Amazonas) e Marcos Dutra (Tocantins) pensam a paisagem amazonica a partir da manipulacao de diferentes tecnicas e suportes; Marina Boaventura (Tocantins) (Figura 3) parte do corpo trazendo em suas performances reflexoes sobre um territorio intimo e afetivo.

Paulo Trindade (Amazonas) imprime em suas instalacoes e videos um tom politico com sua subjetividade de resistencia, bem como, encontramos o Thiago Martins de Melo (Maranhao) (Figura 7) que nao reside mais na regiao, mas seu trabalho esta impregnado de questoes politicas ligadas ao norte do pais.

E JJ Nunes (Amazonas) (Figura 6) e Joeser Alvarez (Rondonia) (Figura 2) pensam seus trabalhos diretamente ligados a sociedade urbana, se apropriando da cidade transformando-a em palco para suas acoes artisticas.

Percebo os processos em fluxo continuo, um fluxo norte, uma Amazonia que os atravessa, que carregam em si e que reverberam atraves de processos artisticos elaborados num espaco social complexo. Uma Amazonia hibrida, misturada, plural.

Sao dialogos vistos ali entre arte e vida. A vivencia incorporada a pratica artistica, fruto de suas inquietacoes. E que constituem um circuito paralelo, um circuito transversal comparado aos grandes centros.

Sao visoes de um imaginario que os arrebata, que os fazem experimentar poeticas, cada um com suas diferencas e que os unem pelas fronteiras dessa grande imensidao verde.

O ritmo da Amazonia e mais compassado, como o ritmo do rio Madeira, denso e delicado, numa tarde dourada qualquer. E compassadamente se dao os processos, as descobertas e redescobertas de uma regiao tao imensa, misteriosa e enigmatica.

Artigo submetido em 7 de setembro de 2015 e aprovado a 23 de setembro de 2015.

Referencias

Andrade, Mario de (2002) O turista aprendiz. Belo Horizonte: Itatiaia.

Benjamin, Walter (2000) "Paris do Segundo Imperio". In: Charles Baudelaire: um lirico no auge do capitalismo. Obras escolhidas III. Sao Paulo: Brasiliense.

Blanchot, Maurice (2013). O livro por vir. Sao Paulo: Martins Fontes.

Preciosa, Rosane. (2012) "Errancia, contaminacoes, fluxos esquizos." In Revista Visualidades, Goiania, v 10, N. 2, julho-dez.

KEYLA TIKKA SOBRAL *

* Brasil, artista visual. Bacharel em Comunicacao Social; Mestre em Artes pela Universidade Federal do Para.

AFILIACAO: Universidade Federal do Para, Instituto de Ciencias da Arte, Programa de Pos-Graduacao em Artes. Av. Magalhaes Barata no. 611 BELEM-PARA Cep: 66060281 Brasil. E-mail: keylasobral@msn.com

Caption: Figura 1. Amazonia, Esfinge. 2012. Savio Stoco (Amazonas).

Caption: Figura 2. Da serie "Ensaios Intimos". 2015. Joeser Alvarez (Rondonia).

Caption: Figura 3. Assedio Moral. 2013. Marina Boaventura (Tocantins).

Caption: Figura 4. Um retrato da artista quando surfista. 2013. Danielle Fonseca (Para)

Caption: Figura 5. Da serie Desaparicoes. 2009. Orlando Maneschy (Para).

Caption: Figura 6. S/titulo. 2014. JJ Nunes (Amapa).

Caption: Figura 7. Martirio. 2014. Thiago Martins de Melo (Maranhao).
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Title Annotation:Original articles/Artigos originais
Author:Sobral, Keyla Tikka
Publication:Estudio
Date:Jan 1, 2016
Words:1921
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