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Bruno Schulz: the visual grammar of illustration and the color in text/Bruno Schulz: a gramatica visual das ilustracoes e a cor no texto.

O objetivo deste ensaio e investigar a sensibilidade visual na prosa de Bruno Schulz, provavel consequencia da sua formacao como artista visual. Pretende-se verificar esse pressuposto em alguns aspetos da sua obra, nomeadamente em passagens do livro As Lojas de Canela e tres ilustracoes de O Livro do Idolatra (Figura 1, Figura 2 e Figura 3).

Estes desenhos foto impressos na tecnica de cliche-verre criam, simultaneamente, uma opacidade muito negra e uma luminosidade muito branca que contribui para a expressao e sensibilidade da obra grafica de Schulz. Primeiro serao analisados os conceitos estruturais e a simbologia das ilustracoes assinaladas e em seguida sera comentada a cor nos textos Agosto e Os Pdssaros integrantes do livro As Lojas de Canela. A expressao escrita e grafica de Schulz tem caracteristicas comuns, a nivel da tematica, as figuras masculinas, que parecem abandonadas e completamente dominadas pelo feminino. Curiosamente, apesar de serem personagens dominadas e subjugadas acabam, por ser centrais em ambas as expressoes pois lutam contra o tedio da existencia. Alguns aspetos da expressao sao complementares, como e o caso da cor que contrapoe as imagens a preto e branco.

Neste ensaio, de modo a nos apercebermos de pontos comuns que se podem observar na analise de obras semelhantes, examinaremos tambem algumas das passagens da obra Nome de Guerra de Almada Negreiros. Este mestre do modernismo portugues faz-nos sentir toda uma visualizacao de imagens atraves da leitura dessa obra.

Na analise da linguagem visual das ilustracoes destacamos elementos concetuais como as linhas paralelas que definem o volume das formas, o espaco e a luminosidade. Nestes desenhos as linhas sao elementos geradores, estruturais de dinamismo e excitacoes que concentram as atencoes na intencionalidade das imagens. E ainda podem ser definidas como elementos visuais texturados. Segundo Wucius Wong "a textura espontanea nao decora a superficie, mas e parte do processo de criacao", (Wong, 2007:119). O processo criativo atraves das tramas elimina detalhes, dilui as figuras secundarias transformando-as em fundo. Schulz consegue plenamente dar expressao aos desenhos atraves da textura das tramas que suavizam mas ao mesmo tempo acentuam a visao/ocultacao ou os planos do claro/escuro. Na maior parte dos desenhos de Schulz o negativo/ positivo move-se fora do aspeto mais exequivel. O negro usualmente e positivo e o branco e o espaco vazio. Aqui o branco e figura fundamental, e luz, e primazia e o negro e envolvencia. "O claro-escuro e, em primeiro lugar, densidade e, em seguida, medida na sua extensao ou nos seus limites", (Klee, 2001:23), E partindo do claro/escuro que se ve todo o volume no desenho. Na Figura 1, quase nao ha degrade, o destaque claro/branco/positivo aparece em primeiro plano, na figura central, bem como em alguns pontos das cabecas das figuras secundarias e em alguns elementos que pertencem ao ambiente de fundo. O negro define a envolvencia e o ambiente ajudando a destacar as luminosidades. Na Figura 2, o escuro revela e identifica o masculino, enquanto o feminino se encontra mais integrado no ambiente, a figura e o fundo tem os mesmos meios-tons. O objeto escuro, o sapato, destacado em primeiro plano contrasta com luminosidade branca da perna e pe da personagem feminina. A Figura 3 desenvolve o claro-escuro em ritmos de leitura dinamicos. Nesta composicao, os elementos relacionais tem dois aspetos preponderantes: a dinamica da composicao e a ambiguidade do espaco. Em Bruno Schulz a maioria das composicoes e dinamica, embora com um movimento pouco ativo, pouco energico. Na Figura 3, as figuras secundarias colocam-se em diagonais por vezes bizarras e pouco naturais. Quanto ao espaco definidos pelas tramas e pelo claro/escuro pode ser ambiguo embora nao seja conflituante, ha quase sempre uma leitura de espaco que evidencia, claramente, as personagens femininas. A ambiguidade do espaco pode ser avaliada tambem pelo interior/exterior. A maior parte dos desenhos de Schulz tem caracteristicas de ambientes exteriores mas sao imagens de privacidade como se a exposicao publica fosse consciente dessa intimidade, das ilustracoes escolhidas a que melhor expoe essa caracteristica e a Figura 1. Existem ainda outros fatores que encaminham essa expressao interior/exterior: as desproporcoes das imagens masculinas, quase anas ou animalescas, por exemplo na Figura 1, em que so estao valorizados os olhos e os rostos. O olhar dos homens dirigido a mulher e fortemente de adoracao. Poderiamos afirmar que subsiste nas fisionomias dos rostos um extase interior expresso pelo olhar ausente das mulheres, como Corais revela a proposito dos retratos de Kamila Swoboda por Oskar Kokoschka, "Os modelos sao representados com um olhar ausente. Estao absorvidos na contemplacao do mundo interior e nao na aparencia exterior" (Corais, 2010:40).

Martine Joli (Joli, 1999:93 e 106) defende que e muito dificil separar o significado plastico do significado iconico. Nas tres figuras apresentadas como exemplos da obra grafica de Schulz podemos focar alguns aspetos dessa dificil desagregacao, o claro/escuro, o movimento dos corpos e o espaco. Sendo o claro/escuro demarcado pelo branco e negro, complementares, sentimos que o branco (que na europa significa pureza, candura, perfeicao) revela imediatamente a postura das personagens femininas. Na Figura 1 podemos acrescentar o icone da lua/feminina se considerarmos que a cena se passa de noite. O negro que representa aqui o masculino e sombrio, tem origem ctoniana. Mas o que assistimos aqui e o negro em veneracao ao branco num movimento/paragem dos corpos que prossupoe uma significacao tematica. "La sensibilidad a los intensificados valores de expresion que conlleva representar en blanco y negro, la intuicion de las posibilidades que deforman la realidad exterior, el entendimiento de la utilidad en la creacion de su propio mundo intimo, son rasgos comunes al arte de Schulz y al de los creadores del fin de siecle." (Kossowska e Kossowski, 2007:50).

Schulz nos seus textos do livro As Lojas de Canela fomenta, quase obcessivamente, a aparencia da cor. Nao so assistimos a uma profusa utilizacao de cores descritivas mas essas cores tornam-se expressivas, caracterizam personagens, objetos e ambientes. A propria palavra cor aparece varias vezes "(...) passarocos com formas e cores fantasticas (...) uma moldura oscilante e colorida (...)" (Schulz, 1987:37). Para um artista que usou, quase sempre, para se expressar graficamente tecnicas de negro e branco, nos textos a cor torna-se uma metagoge. Serve-se da cor para emprestar sentimentos aos seres inanimados ou outras personagens, que povoam os seus temas literarios. Schulz utiliza nitidamente a sua formacao visual para redigir os textos, constituidos por palavras que parecem ser apenas alusoes as cores. Mas sao aparentes essas impressoes pois a cor faz sentir os acontecimentos como realidades oniricas coloridas: "(...) estava vazia, a Praca do mercado; amarela de fogo (...)" (Schulz, 1987:21), "(...) aguardava o fim dos dias naquele luto amarelo (...)" (Schulz, 1987:24) ou "(...) monotonos e amarelos, tinham chegado os dias de inverno (...)" (Schulz, 1987:35). Em Schulz, o amarelo esta ligado ao ambiente, ao mundo exterior, e a Praca, e o inverno, e o luto. Diz Kandinsky a proposito do amarelo arrefecido "adquire um carater doentio, quase sobrenatural, semelhante ao homem que transborda energia e ambicao, mas e paralisado por condicionalismos exteriores." (Kandinsky, 1987:80).

Almada, na obra Nome de Guerra, aproveita nitidamente a sua formacao visual para se exprimir na prosa. A forma liberta-se aqui da materia e da concecao. Torna-se comunicavel garantindo a visualizacao de todo o interesse da substancia. Embora estas formas invoquem regras de visualizacao, esta invocacao e o segredo da verdadeira intimacao das formas, que produz a eufonia verbal. "Tinha um pescoco horrivel, sem ligacao da nuca com as costas. (...) A linha dos ombros mais larga do que a das ancas, conforme a robustez do tronco." (Almada Negreiros, 1938:163, 164). Almada entende e anuncia que o corpo e a nudez criam uma significacao que e uma mensagem de modernidade. Tambem Maria Teresa Cruz a proposito das dimensoes modernas do corpo (Cruz, 2000:364) revela que a estetica e a medida da arte que mais se entende na atualidade.

Como nos diz Juan Martin Prada, as figuras (literarias ou graficas) devem recordar mais que simplesmente representar e esse e um tema da arte contemporanea (Prada, 2012:099). Tanto em Schulz como em Almada encontramos na sua expressao um sentimento visual identico. Schulz, muito onirico, parece evoca-lo tanto na escrita como nos desenhos, com a mesma sensibilidade do uso da cor na prosa. Podemos destacar o posicionamento dos corpos, a nudez das figuras femininas como centro luminoso, enquanto a presenca masculina permanece na obscuridade. Ja Almada seduz o leitor com palavras descritivas mas carregadas de afetividade visual e estetica.

Artigo completo submetido a 18 de Janeiro e aprovado a 31 de janeiro 2014.

Referencias

Almada Negreiros, Jose de (1938) Nome de Guerra. Lisboa: Edicoes Europa.

Corais, Carlos Cruz (9-2010) "O tema do devaneio nos retratos de Kamila Swoboda por Oskar Kokoschka". in Psiax, no.1 Serie II.Porto: FBAUP, FAUP, EAUM.

Cruz, Maria Teresa Cruz (2000) "A Histeria do Corpo". in Revista de Comunicacao e Linguagens. Tendencias da cultura contemporanea. Lisboa: Relogio D'Agua Editores.

Joli, Martine (1999) Introducao a Analise de Imagem. Lisboa: Edicoes 70.

Kandinsky, Wassily (1987) Do Espiritual da Arte. Lisboa: Publicacoes Dom Quixote.

Klee, Paul (2001) Escritos de Arte. Lisboa: Edicoes Cotovia.

Kossowska, Irena e Kossowski, Lukasz (2007) "Relaciones y Afinidades Artfsticas", in Bruno Schulz, El Pais Tenebroso. Madrid: Cfrculo de Bellas Artes.

Prada, Juan Martfn (2012) Otro Tiempo para el Arte. Cuestiones y comentarios sobre el arte actual. Valencia: Sendemd Editorial.

Schulz, Bruno (2007) El Pais Tenebroso. Madrid: Cfrculo de Bellas Artes.

Schulz, Bruno (1987) As Lojas de Canela. Lisboa: Assfrio e Alvim.

Wong, Wucius (2007) Principios de forma e desenho. Sao Paulo: Livraria Martins Fontes.

MARIA EDUARDA DE SOUSA COUTINHO, Portugal, artista visual. Licenciatura em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, Portugal (FBAUL). Doutorada, Departamento de Desenho e Andlise Pldstica, Faculdade de Belas Artes, Universidade de Sevilha, Espanha. Professora das cadeiras de Desenho e Ilustracao na Licenciatura de Design de Comunicacao do Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, Portimao, Portugal (ISMAT).

AFILIACAO: Universidade do Porto, Faculdade Belas Artes, Instituto de Investigacao em Arte, Desenho e Sociedade, (i2ADS). Avenida Rodrigues de Freitas 265, 4049-021 Porto, Portugal. E-mail: eduardasousacoutinho@gmail.com
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Title Annotation:articulo en portugues
Author:Coutinho, Maria Eduarda De Sousa
Publication:GAMA
Date:Jul 1, 2014
Words:1684
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