Printer Friendly

Breaking with idealization: the athletic greek bodies/Rompendo idealizacoes: os corpos atleticos gregos.

Estudar o corpo como expressao da estrutura de uma dada sociedade e algo instigante para aqueles que acreditam e defendem que a Historia so possa ser escrita a partir de dialogos inter e/ou transdisciplinares. Objeto anteriormente reservado a Antropologia, o corpo, desde as propostas da "Nova Historia" na segunda metade do seculo passado, vem se fazendo cada vez mais presente nas pesquisas dos historiadores.

Neste texto, que possui um carater mais ensaistico, propomos refletir sobre modelos cenicos de representacao dos corpos dos atletas nas imagens aticas em suporte ceramico do periodo classico (seculos V e IV a.C.). Defendemos que existia um modelo hegemonico de representacao do corpo do atleta, o apolineo, mas que este nao era unico. Os corpos que se distanciam desse modelo e que foram reunidos por John Davidson Beazley no Fat Boy Group serao priorizados nesta analise. Porem, algumas ponderacoes sobre a construcao do corpo socio e culturalmente sao essenciais.

O corpo como expressao sociocultural

A importancia de refletirmos acerca do corpo--soma--se vincula ao fato de que ele porta em si a marca da vida social, sendo sempre uma representacao da sociedade (Rodrigues 1975: 62, 125). Posicao semelhante e assumida por Aline Rousselle (1993: 179); inspirada em Marcel Mauss, ela afirma que "as tecnicas corporais que devem garantir a sobrevivencia estao incorporadas nos sistemas sociais de significacao e de comunicacao", estando os gestos e o tratamento do corpo ligados ao estatuto social. Acreditamos que buscar a compreensao da importancia da representacao do corpo na imagetica atica possa nos permitir encontrar a existencia da polis dos atenienses (Lessa 2003: 49).

Soma e definido por Bailly (2000) primeiramente como "corpo, em oposicao a alma", seguindo a contraposicao entre corpo (soma) e alma (psyche) estabelecida no Gorgias de Platao (493a). A polissemia do termo e notoria. Nos poemas homericos ele possui o sentido mais frequente de "corpo morto, cadaver" (Odisseia, XI, v. 53; Iliada, VII, v. 79) (1). Em Hesiodo adquire o significado de "corpo vivo, em particular do homem" (Teogonia, v. 649-50; Trabalhos e os dias, v. 538). Passando do arcaico para o periodo classico, o corpo e definido como capaz de executar "trabalhos ou exercicios corporais" (Xenofonte. Memoraveis, II, 8, 2); ou ainda como o que proporciona "prazeres" controlados pelo autodominio (Xenofonte. Memoraveis, I, 5, 6). As definicoes de Hesiodo e de Xenofonte--de "corpo" como algo vivo, que nao se opoe a 'alma', antes colabora com ela na existencia plena do individuo, pessoal e socialmente entendida--se associam mais ao que iremos tratar acerca do corpo do atleta.

O corpo e tambem um locus de exercicio do controle social e de poder. Na decada de setenta do seculo passado, Foucault refletiu sobre a questao. Segundo o filosofo, o poder penetrou o corpo e encontra-se exposto no proprio corpo: "Lembrem-se do panico das instituicoes do corpo social (medicos, politicos) com a ideia da uniao livre ou do aborto" (Foucault 2000: 146). Logo, a instauracao de determinados tipos de poder conduz o corpo a transformacoes. Tal colocacao esta de acordo com o que defenderemos neste texto, pois a hegemonia de um padrao geometrico de representacao dos corpos nos vasos aticos nada mais e do que o resultado da propria ideologia poliade, que almeja publicizar os ideais de equilibrio, justamedida, forca e estetica.

Ao enfatizarmos que o corpo humano e uma construcao social, o inserimos numa historicidade, o que implica dizer que ele "nao e o mesmo segundo os diferentes tempos de individuos, grupos e sociedades" (Rodrigues 2003: 87) e que ele fala sempre, exclusivamente, a lingua dos outros (codigos) que nele vem a ser inscritos (Gil 1995: 207), logo, ele so pode ser lido no interior de um contexto. O postulado de que o corpo e ele proprio um construto cultural, social e historico, plenamente investido de sentido e significacao, ganha forca. Na cultura contemporanea, assiste-se a uma constante valorizacao de sua importancia.

Alem de ser um agente de cultura e essencialmente plural, o corpo e uma poderosa forma simbolica, onde as hierarquias e as especificidades de uma cultura sao inscritas e reforcadas atraves de sua linguagem--a corporal. Ele constitui o "polo simbolico" que organiza, articula e interpreta, para alem das simples evidencias "fisicas", a vida cotidiana dos individuos e das coletividades (Duch & Melich 2005: 18-19).

O corpo revela ainda as relacoes de identidade e alteridades, isto porque ele e aquilo que nos permite encontrar os outros e que manifesta nossa natureza relacional pela afirmacao de nossa individualidade. Logo, o corpo nao pode ser concebido como um dado indiscutivel, porque se configura como uma construcao simbolica, nao uma realidade em si.

Se toda sociedade e um gigantesco ato comunicacional, podemos afirmar que a polis e um complexo comunicacional com suas multiplas formas de expressao: corpos, gestos, palavra, escrita, pinturas, musicas, dancas, praticas esportivas, entre outras. No caso de Atenas, os corpos nas disputas atleticas comunicam o que a sociedade espera dos seus cidadaos: forca, agilidade, coletividade, desnudamento - o ato de exibir-se publicamente--, coragem, virilidade, honra, arete. ...

"O Fat Boy Group"

No Beazley Archive (Classical Art Research Centre 2016), que inclui a maior colecao do mundo de imagens de ceramica antiga figurativa, encontram-se, numa rapida e simples pesquisa, 492 vasos aticos que juntos formam o Fat Boy Group. Como caracteristica comum aos varios personagens representados nos vasos desse grupo temos o distanciamento do padrao apolineo de representacao dos corpos. Todos sao, em essencia, "fat".

A partir desse corpus completo, as Tabelas 1, 2 e 3 evidenciam as formas dos vasos, os periodos e as tecnicas usadas nas suas producoes.

Cada forma dos vasos possui um contexto social de uso especifico, isto e, esta diretamente vinculada a sua utilidade cotidiana. Vale notar que predominam, no conjunto dos vasos atribuidos ao Fat Boy Group, duas formas: o skyphos--uma das tacas para se beber vinho--e o oinochoe--usado para apanhar o vinho de um krater ou stamnos e o verter num kantharos ou na taca dos convidados. Ambas as formas estao vinculadas ao universo do vinho e possivelmente mais ao masculino. Das formas de vasos listadas na Tabela 1, apenas o lekythos (2) e a hydria (3) se distanciam das praticas do vinho.

Interessante e observarmos a ausencia das anforas panatenaicas no corpus do Fat Boy Group. E qual o motivo de destacarmos essa ausencia? A anfora e um vaso para liquidos e solidos, usado para armazenar e transportar vinho, oleo e outros artigos. No caso especifico da anfora panatenaica, ela era uma das premiacoes do atleta vencedor nos jogos que aconteciam a cada quatro anos durante a festa religiosa/civica em homenagem a Atena, deusa protetora de Atenas. Logo, as anforas panatenaicas eram um suporte ceramico produzido e consumido em Atenas. A ausencia de atletas "fat" em um vaso de premiacao de um festival ateniense pode revelar que o mercado consumidor dos vasos com representacao de corpos fora do modelo apolineo hegemonico era externo a Atenas. Se tal hipotese se confirmar, outra pode ser levantada: os artesaos adaptam o esquema cenico de seus vasos a demanda do mercado consumidor, neste caso o externo.

Ainda no que se refere a apresentacao do corpus, observa-se as tecnicas utilizadas e os periodos nos quais esses vasos foram produzidos:

A massiva predominancia da tecnica de figuras vermelhas--aquela que apresenta os elementos da decoracao em tom claro sobre fundo escuro (4)--, mais caracteristica do periodo classico, ja nos reporta para o recorte temporal de producao dos vasos. Conforme a Tabela 3, da segunda metade do seculo VI a.C. ate inicios do IV a.C., passando por todo o seculo V a.C., a producao de vasos com a representacao de corpos fora do padrao hegemonico que circulava na Atica era ainda timida, totalizando dezoito vasos. E exatamente durante o seculo IV a.C. que essa producao cresce de forma expressiva, atingindo 474 vasos.

Acessamos os 492 vasos para uma observacao preliminar das informacoes que constam na base de dados, sendo que apenas 85 apresentam suas imagens disponiveis para consulta. Desse conjunto de vasos com representacoes figuradas publicizadas pela base de dados algumas observacoes iniciais podem ser feitas:

a. 24 dos vasos nao apresentam signos que remetam as praticas esportivas, tendo representacoes femininas, de personagens miticos ou simplesmente de jovens vestindo himation (5);

b. dos 61 que possuem signos que se vinculam a cenas atleticas, 57 foram produzidos no periodo de 400 a 300 a.C. (6);

c. 38 dessas imagens apresentam um esquema cenico semelhante: personagem nu (atleta) acompanhado de jovens (porque imberbes) vestindo himation (7). A oposicao nu/vestido e mantida, isto e, os codigos de identificacao do atleta permanecem os mesmos;

d. todos os personagens sao imberbes, isto e, nao se encontram na faixa etaria adulta. Na iconografia grega as idades masculinas sao precisamente demarcadas pela presenca ou ausencia de barba;

e. duas sao as modalidades esportivas representadas: o lancamento do disco e o salto. Sao dezesseis discos, tres halteres para o salto e quatro marcos/obstaculos tambem para o salto;

f. encontramos 23 estrigilos e doze aribalos. A presenca de ambos instrumentos identifica o espaco fisico onde a cena se passa como sendo a palestra (8);

A Tabela 4 mostra a proveniencia dos vasos analisados:

Destaca-se que a circulacao dos vasos se dava majoritariamente fora de Atenas, pois apenas seis vasos foram encontrados nessa polis, aproximadamente dez por cento do conjunto com proveniencia indicada.

Na sequencia, a comparacao entre a representacao do corpo em uma taca pintada por Panecio na passagem do VI para o V seculo a.C. com duas enocoas do Fat Boy Group do quarto seculo a.C. sera objeto de analise.

"Olhares do corpo": comparando corpos nas imagens aticas

As disputas desportivas tem no corpo do atleta uma de suas falas. Como ja dito antes, a representacao do corpo nas imagens aticas cuja tematica e os agones desportivos seguem um padrao geometrico que reforca as virtudes da forca, da virilidade, da coragem, da estetica. E exatamente esse padrao predominante de corpo do atleta que comecamos a apurar a partir do medalhao da taca de figuras vermelhas cuja tematica e o salto e o dardo (Fig. 1) (9).

A imagem representa um jovem atleta nu segurando dois halteres (11) e em movimento, o que e evidenciado pelo posicionamento de suas pernas e bracos. Ele mantem a cabeca direcionada para tras. O relevante na imagem e a representacao do corpo do atleta que se da em frontal (torax), perfil (cabeca) e tres quartos (parte inferior), permitindo os tipos de comunicacao interna e externa. O seu corpo segue o modelo de representacao iconografica predominante nas imagens de circulacao ateniense (12).

O pintor ressalta a beleza do atleta atraves da justa-medida e da simetria das formas e da musculatura, enfatizando o corpo rigido conforme deveria ser o do cidadao. No corpo do personagem estao impressos equilibrio, forca, proporcao, movimento, atributos esses que os helenos almejavam encontrar no funcionamento de suas poleis e, no caso ateniense, na democracia. Certamente o pintor optou por destacar tambem o ideal da kalokagathia, tao importante para a vida civica na polis (Spivey 2005: 56-57), ideal esse tambem explicitado pela nudez do atleta.

A estetica do corpo do atleta vinculase a um padrao de proporcoes aritmetico e geometrico. Em pesquisa anterior (Lessa 2011: 39-41), atentamos para a construcao desse padrao a partir das formas geometricas do triangulo e do pentagrama estrelado. O triangulo por ter a sua constituicao a partir da tetractys--sequencia dos quatros primeiros numeros (1, 2, 3, 4) que em conjunto resultava no numero 10 (1+2+3+4= 10)--estava presente nos demais numeros "figurados", como o quadrado, o pentagono e, dessa forma, se fazia presente no plano geometrico das representacoes do corpo (Ghyka 1959: 34) (13).

O metodo do pentagono regular e do pentagrama (o pentagono estrelado), formado pelas diagonais de um pentagono regular, foi o mais usado para a composicao das representacoes gregas, em especial durante o seculo VI a.C. e na primeira metade do seculo V a.C. (Van der Grinten 1966: 13-14), o que explica as semelhancas dos corpos na ceramica e tambem na estatuaria.

A taca conta com a inscricao "Athenodotos kalos" ("Athenodotos e belo"). O adjetivo kalos pode se referir a beleza das formas fisicas do personagem ou ainda a sua condicao de kalos kai agathos.

A situacao e bem diferente nas proximas imagens. Anteriormente defendemos que os corpos sao sempre plurais. Em sentido identico, acreditamos que as suas representacoes tambem o sao. Coexistem com as idealizacoes dos corpos dos atletas e, por serem padronizadas, se distanciam da realidade cotidiana, constituindo outras formas de representacao. Essa pluralidade dos corpos se faz presente nas imagens pintadas em duas enocoas do Fat Boy Group (Figs. 2 e 3), que, segundo John Boardman, se dedica aos jovens e atletas "disformes" (Boardman 1997: 193).

A selecao das duas enocoas se deveu ao fato de apresentarem o mesmo esquema cenico--um atleta nu entre dois personagens vestidos--, de fazerem referencias a mesma modalidade esportiva --o salto--e de apresentarem corpos que se distanciam do padrao comum de representacao de atletas nas imagens figuradas atenienses. No caso da Fig. 2, acrescenta-se o fato de ela constituir acervo do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista (MN/UFRJ), no Rio de Janeiro.

No centro da imagem ha um jovem nu, em perfil, com as pernas fletidas e com os bracos estendidos para frente, como se fosse saltar sobre o marco. A cena denota movimento, o que pode ser comprovado pela posicao dos bracos, pernas e do torax do jovem. Esse movimento desenvolvido pelo personagem, bem como a sua nudez, nos possibilita afirmar ser ele um atleta.

Nas extremidades da cena contamos com a presenca de dois outros personagens que se encontram de pe e vestidos. O fato de serem da mesma faixa etaria do atleta dificulta a identificacao desses dois ultimos personagens. Eles nao sao atletas, pois se encontram vestidos. Poderiamos pensar se tratar de instrutores (paidotribai), mas nao contamos com nenhum signo de poder exercido sobre o atleta. Em outras imagens com situacao semelhante, encontramos personagens vestidos portando fita no cabelo, signo de vitoria e possivelmente de mais experiencia que o atleta pintado, e fazendo uso de uma haste para a correcao dos movimentos do atleta, signo esse claramente de poder (15). Contudo, os dois personagens vestidos mantem cada qual um dos bracos erguido, como se conversassem ou contassem qualquer coisa a respeito do atleta. Partindo do principio de que os gestos sao polissemicos, a representacao dos bracos erguidos na cena pode indicar uma situacao de poder sobre o atleta. Defendemos que cada gesto pode ter em si multiplos significados que se encontram atrelados a cultura que o produz (16).

Diferente da situacao do personagem na imagem anterior, o corpo desse atleta e totalmente disforme do comum nos vasos aticos. Faltam a ele tracos mais delineados, equilibrio e simetria das formas e da musculatura. Ele nao representaria o ideal estetico da beleza helenica, calcado na nocao de justa-medida. Porem, nao e propriamente gordo, pois nao possui um abdomen avantajado.

Apresenta formas desproporcionais, possuindo o torax mais musculoso que o restante do corpo. Ele nos parece "pesado". Apesar de Filostrato (Gymnasticus), ao indicar diferencas entre modalidades esportivas helenicas, afirmar que enquanto o lancamento do disco e uma prova pesada, como a luta, o salto e o arremesso do dardo se associam a corrida, pois sao modalidades ligeiras. Logo, o salto exigiria corpos mais leves.

Na proxima enocoa (Fig. 3) essa situacao se repete. Temos o atleta nu no centro da cena entre dois outros personagens vestidos com himation. Os gestos dos bracos indicam interacao entre eles. Novamente nos deparamos com a ausencia de signos claros de poder nos personagens vestidos. Apenas os movimentos dos bracos do personagem atras do atleta podem remeter ao poder de um instrutor. Os movimentos dos bracos do atleta podem reportar a demanda por instrucao por parte do personagem situado a frente dele.

O marco (17) presente nas duas cenas (Figs. 2 e 3) indica a modalidade--o salto--e tambem que a cena e de interior, isto e, decorre no interior de uma palestra.

Mais uma vez o corpo do atleta no centro da cena exibe formas que se distanciam do ideal do corpo atletico forjado pelos pintores aticos. Assim como o anterior, esse atleta nao e propriamente gordo, mas possui o torax, o quadril e pernas mais avantajados. Ou seja, a estrutura cenica nas duas enocoas nao revela o equilibrio e a justa-medida que caracterizam a sociedade grega como um todo e que se encontram expressos nas suas representacoes culturais, como a propria ceramica.

Defendemos que as cenas pintadas nos dois vasos se passam no mesmo quadro espaco-temporal, o que pode ser observado pela sincronia de movimentos e gestos dos personagens que as compoem. Em ambos os vasos os jogos de olhares dos personagens sao em perfil, o que significa que a comunicacao estabelecida e interna, nao permitindo o dialogo com o publico receptor.

Outro aspecto que mantem uma coesao entre os dois vasos e a ausencia de cuidado com a estetica das cenas pintadas. A "precariedade" da representacao dos detalhes--como maos e rostos, em especial--pode evidenciar a adocao de tecnicas menos refinadas do que as que predominam na imagetica atica mais preponderante como a utilizada na producao da kylix analisada anteriormente (Fig. 1).

Podemos comecar a conjecturar hipoteses que possam explicar a opcao pela representacao de corpos de atletas fora do padrao estetico comum a iconografia atica. Uma das primeiras explicacoes para essa opcao poderia ser a necessidade de por em relevo as diferencas entre a idealizacao e a realidade na representacao dos corpos dos atletas. Nessa concepcao, tais corpos estariam mais proximos daqueles encontrados no cotidiano grego. Ate porque seria inverossimil aceitar que todos os helenos fossem belos e portassem um fisico igualmente belo, sendo essa beleza idealizada desconhecida no cotidiano e principalmente uma qualidade dos deuses e herois, estendida aos atletas vitoriosos (Tiverios 2015: 108-10).

Nao ha duvida de que existia um mercado consumidor para tais enunciados. Ao observar os 492 vasos, verificamos, conforme ja dito, que apenas seis circularam em Atenas. Logo, o mercado consumidor dessas ceramicas nao era sobretudo o ateniense. Ao que parece a representacao dos corpos pelos e para os atenienses primava pela beleza apolinea, que pelo dialogo do Socrates de Xenofonte com o pintor Parrasio, alem de dificil de ser alcancada, pois "nao e facil encontrar um unico homem com todos os requisitos", se limitava a uma criacao idealizada/utopica, o que reforca nossa hipotese de que ha um distanciamento entre o corpo criado pelos pintores aticos e a realidade dos corpos dos helenos. Vejamos:

E, certamente, se quiserem representar formas totalmente belas, como nao e facil encontrar um unico homem com todos os requisitos, vao buscar aos varios modelos o que cada um deles tem de mais belo e compoem corpos que possam parecer belos no seu todo. (Xenofonte. Memoraveis, III, 10, 2).

Pensar na producao desses vasos como reveladora de um espaco para as vozes dissidentes da democracia se expressarem talvez careca de dados empiricos. O testemunho de seis vasos nao nos autoriza a essa conclusao. Porem, nao nos esquecamos de que o periodo de producao dessas ceramicas e, de acordo com o Beazley Archive, 400-300 a.C. Durante o seculo IV a.C. Atenas vive contextos politicos diferenciados: ela reestrutura a sua forma de governo a partir de 403 a.C. com o retorno da democracia apos os golpes oligarquicos, perde a hegemonia no mundo grego, vive uma crise expressiva do pos-guerra e ainda vivencia o fim da forma de governo que a singularizou no mundo grego. Talvez esses vasos possam refletir esse periodo de crise de Atenas.

A producao desse conjunto de vasos tambem pode revelar a existencia, na democracia ateniense, de espacos para a publicizacao de opinioes divergentes e de criticas aos modelos consolidados. Porem, essa e outra hipotese que ainda carece de uma interpretacao mais ampla do conjunto dos vasos.

Partimos do principio de que a principal intencao do pintor era a de fazer uma critica direta ao padrao hegemonico de funcionamento da propria sociedade ateniense. Ao representar um atleta fora dos padroes esteticos convencionais moldados por uma elite, o pintor, da mesma forma que o comediografo, por exemplo, inquietava a sociedade e a fazia refletir sobre si mesma. Apontava ainda para a heterogeneidade dos discursos que compoem a polis dos atenienses.

A Tabela 4 atesta que uma parte--aproximadamente quinze por cento--dos vasos de nossa selecao final e de proveniencia da regiao da Etruria. Isto nos faz pensar que o modelo de representacao do corpo pintado nos vasos do Fat Boy Group atendia provavelmente a uma demanda do consumo etrusco, ou ainda, que da mesma forma que tivemos um predominio do estilo de pintura em suporte ceramico corintio e depois atico, poderiamos estar sob a influencia de um modelo estetico etrusco quando da producao desse conjunto de vasos. Se observarmos a pintura etrusca (Fig. 4), para efeito de uma rapida comparacao, veremos corpos representados mais proximos daqueles do Fat Boy Group.

Os dois lutadores de faixas etarias Diferenciadas--um imberbe e outro Barbado--tem entre eles tres bacias, premios para os vencedores (Thuillier 2004: 156). De imediato, uma luta entre dois concorrentes de faixas etarias diferenciadas nao era algo almejado pelos helenos, pois vencer de um nao isos nao e honroso.

Por mais que os corpos representados na pintura sejam mais bem delineados esteticamente do que os do Fat Boy Group, eles se aproximam por serem mais musculosos que os apolineos. Pernas, bracos e troncos sao mais fortes. Talvez esse esquema pictorico predominasse entre os etruscos e tenha se tornado o referencial para o Fat Boy Group.

Outra possibilidade com a qual podemos trabalhar e aquela que considera a representacao dos atletas fora do padrao apolineo como uma caricatura de atletas do seculo IV a.C. Nesse caso, tambem poderiamos observar certa proximidade entre os discursos dos pintores e dos comediografos. Tambem podemos associar os atletas do Fat Boy Group com os personagens gordos apresentados na comedia, em especial na comedia nova.

Na comedia As Ras (405 a.C.) de Aristofanes, Esquilo, em sua defesa, faz referencia aos exercicios fisicos (v. 1006-89). Na mesma obra, Dioniso ri diante da presenca de um atleta gordo que disputava uma prova atletica:

(Dioniso): De fato! Ri quando um homunculo corria lentamente, palido, gorducho e cabisbaixo em plena Panatenaia, na rabeira, / de mal a pior. (As ras, v. 1089-93).

Por fim, outra hipotese, que tambem carece de um aprofundamento maior. A opcao dos pintores em representar atletas com corpos fora do padrao apolineo pode nos remeter a uma critica a paideia e, consequentemente, a formacao da cidadania num momento em que a polis enfrentava um processo de crise, ou ao ideal de panhelenismo que os jogos reforcavam. Mais uma vez o recorte cronologico, 400-300 a.C., da maioria absoluta dos vasos do Fat Boy Group deve ser destacado, por esse ser um periodo que engloba a crise poliade. O conceito de pan-helenismo possui uma conotacao politica, pois busca promover uma sensacao de pertencimento as comunidades de idioma grego, implicando na producao e na reproducao da identidade helenica. Para Lynette Mitchell (2007: 19-20) o pan-helenismo tinha como funcoes preencher brechas e obscurecer a diferenca entre as unidades e os desajustes tanto culturais quanto politicos no mundo grego, alem de explorar o vazio criado pela disparidade cultural, ou pelo menos as supostas diferencas culturais, negociando assim os limites da diferenca. Talvez no decorrer do seculo IV a.C. o ideal do pan-helenismo havia perdido o seu sentido.

Conclusao

Refletir sobre a representacao dos corpos dos atletas na imagetica atica implica em salientar que os corpos masculinos bem delineados tratados pelos autores antigos podem induzir os estudiosos modernos a pensar em homens jovens treinando no ginasio, em "construtores de corpo" e em um culto da musculatura; porem nenhum escritor antigo se inclina para entender o ginasio como um lugar apenas para o desenvolvimento de musculos (Osborne 2011: 52-53). Ate mesmo porque entre os helenos ha uma vinculacao entre corpo e alma, e entre ginastica e musica: "a ginastica para o corpo e a musica para a alma" (Platao. Republica, 376 e).

O corpo entendido como um produto sociocultural e plural e, por isso, permite a coexistencia de modelos variados de representacoes, havendo a tendencia de um prevalecer sobre os demais em algum momento especifico. Foi exatamente este caminho que buscamos perseguir neste texto. Evidenciamos que o corpo apolineo, que constitui uma identidade helenica quase unica, convive com outros esquemas esteticos de representacao.

Por fim, nao podemos deixar de lembrar que a relacao entre o pesquisador e o documento nao e simples nem imediata. Assim sendo, devemos estar atentos para o fato de que os artistas vivem e compreendem a sociedade, criam imagens atraves das quais agem socialmente, mas de alguma forma eles sao regidos por regras da tecnica que predominam em sua cultura e dialogam com os consumidores de suas obras, neste sentido, criam e recriam historias de vida que sao sempre plurais.

Referencias bibliograficas

Aristofanes. 2014. As ras. Traducao Trajano Vieira. Cosac Naify, Sao Paulo.

Bailly, A. 2000. Dictionnaire Grec-Francais. Hachette, Paris.

Boardman, J. 1997. Athenian red figure vases: the Classical period. Thames and Hudson, London.

CALAME, C. 1986. Le recit en Grece Ancienne: enonciations et representations de poetes. Meridiens Klincksieck, Paris.

Classical Art Research Centre. 2016. Beazley archive pottery database. Disponivel em: <https://goo.gl/ZM6RXh>. Acesso em: 9/4/2018.

Duch, L.; Melich, J.-C. 2005. Escenarios de la corporeidad: antropologia de la vida cotidiana. Trotta, Madrid.

Filostrato. 1996. Gimnastico. Traduccion Francesca Mestre. Gredos, Madrid.

Foucault, M. 2000. Microfisica do poder. Traducao Roberto Machado. Graal, Rio de Janeiro.

Ghyka, M.C. 1959. Le nombre dor. Gallimard, Paris.

Gil, J. 1995. Corpo. In: Enciclopedia Einaudi. Imprensa Nacional, Lisboa, 230-266. v. 32.

Hesiodo. 1981. Teogonia: a origem dos deuses.

Traducao Jaa Torrano. Massao-Ohno, Sao Paulo.

Hesiodo. 2002. Os trabalhos e os dias. Traducao. Mary de C. Neves Laver. Iluminuras, Sao Paulo.

Homero. 2011. Odisseia. Traducao Frederico Lourenco. Cia. das Letras, Sao Paulo.

Homero. 2013. Iliada. Traducao Frederico Lourenco. Cia. das Letras, Sao Paulo.

Lessa, F.S. 2003. Corpo e cidadania em Atenas classica. In: Theml, N.; Bustamante, R.M.C.; Lessa, F.S. Olhares do corpo. Mauad, Rio de Janeiro, 48-55.

Lessa, F.S. 2011. Mulheres de Atenas. Mauad X, Rio de Janeiro.

Mitchell, L. 2007. Panhellenism and the barbarian in Archaic and Classical Greece. The Classical Press of Wales, Swansea.

Osborne, R. 2011. The history written on the classical Greek body. Cambridge University, Cambridge.

Platao. 2010. A Republica. Traducao Maria Helena da Rocha Pereira. Fundacao Calouste Gulbenkian, Lisboa.

Platao. 2011. Gorgias. Traducao Manuel Oliveira Pulquerio. Edicoes 70, Lisboa.

Rodrigues, J.C. 1975. Tabu do corpo. Achiame, Rio de Janeiro.

Rodrigues, J.C. 2003. Os corpos na antropologia. In: Theml, N., Bustamante, R.M.C.; Lessa, F.S. Olhares do corpo. Mauad, Rio de Janeiro, 72-98.

Rousselle, A. 1993. Corpo. In: Burguiere, A. Dicionario das ciencias historicas. Traducao Henrique de Araujo Mesquita. Imago, Rio de Janeiro, 176-181.

Spivey, N. 2005. The ancient Olympics. Oxford University, Oxford.

Thuillier, J-P. 2004. Etrurie et Rome. In: Decker, W; Thuillier, J.-P. Le sport dans lantiquite: Egypte, Grece, Rome. Picard, Paris, 143-246.

Tiverios, M. 2015. Cuerpos de dioses, heroes y atletas hasta el periodo helenistico. In: Sanchez, C; Escobar, I. Dioses, heroes y atletas: la imagen del cuerpo en la Grecia antigua. Museo Arqueologico Regional, Alcala de Henares, 103-120.

Van der Grinten, E.F. 1966. On the composition of the medallions in the interiors of Greek black and redfigured kylixes. N.V Noord-Hollandsche Uitgevers Maatschappij, Amsterdam.

Xenofonte. 2009. Memoraveis. Traducao Ana Elias Pinheiro. Universidade de Coimbra, Coimbra.

Fabio de Souza de Lessa, Professor Titular de Historia Antiga do Instituto de Historia (IH) e dos Programas de Pos-Graduacao em Historia Comparada (PPGHC) e de Letras Classicas (PPGLC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) <fslessa@uol.com.br>

(1) Aqui soma ("cadaver") aparece em paralelo a demas, "estrutura corporal, corpo, ser vivo" (Bailly 2000).

(2) Usado para oleos e unguentos. Servia ainda como oferenda para o morto.

(3) Usada para armazenamento e transporte de agua.

(4) O estilo chamado de figuras negras se constitui pela apresentacao dos elementos da decoracao em tom escuro sobre fundo claro.

(5) Himation: um manto amplo, que se usava sobre o corpo (como nas imagens do Fat Boy Group) ou por cima de um chiton.

(6) Um dos vasos foi produzido no periodo entre 425-375 a.C., e tres nao apresentam datacao.

(7) Apenas um fragmento de um skjphos (n. 31818) apresenta um jovem atleta.

(8) Numa descricao fisica, a palestra era essencialmente um terreno para desporto, ao ar livre, de forma quadrada e rodeado de muros, podendo servir para todas as modalidades atleticas, exceto para a corrida a pe que acontecia no estadio. Em um ou em dois dos seus lados, erguiam-se construcoes cobertas, que serviam de vestiarios, de salas de repouso, munidas de bancos de balnearios, de armazens de oleo e de areia.

(9) O metodo semiotico proposto por Claude Calame (1986) para as imagens pressupoe:

1. verificar a posicao espacial dos personagens, dos objetos e dos ornamentos em cena;

2. fazer um levantamento dos aderecos, mobiliario, vestuarios e os gestos, estabelecendo um repertorio dos signos;

3. observar os jogos de olhares dos personagens.

3.1. perfil: o receptor da mensagem do vaso nao esta sendo convidado a participar da acao. Neste caso, o personagem deve servir como exemplo para o comportamento do receptor;

3.2. tres quartos: o personagem que olha tanto para o interior da cena quanto para o receptor esta possibilitando, a este ultimo, participar da cena;

3.3. frontal: personagem convida o receptor a participar da acao representada.

(10) Localizacao: Boston, Museum of Fine Arts--inv. 98.876. Tematica: salto e dardo. Proveniencia: nao fornecida. Forma: kylix (taca). Estilo: figuras vermelhas. Pintor: Panecio (Proto Panetian--Beazley). Data: aproximadamente 525-475 a.C. Indicacao bibliografica: Ancient Greek Athletics, de Stephen Miller.

(11) Os halteres eram necessarios para o salto em distancia. Bem conhecidos pelas pinturas em suporte ceramico e pela conservacao de uma quantidade significativa de pecas, os halteres sao "pendulos de chumbo para exercicios de ginastica" (Bailly 2000).

(12) Destaca-se mais uma vez que somente um dos vasos do Fat Boy Group foi encontrado em Atenas.

(13) Segundo os pitagoricos, o dez e o mais perfeito dos numeros possiveis (Ghyra 1959: 35).

(14) Localizacao: Museu Nacional do Rio de Janeiro-inv. 1447. Tematica: salto. Proveniencia: nao fornecida. Forma: oinochoe. Estilo: figuras vermelhas. Pintor: The Fat Boy Painter. Data: 400-300 a.C. (inicio do seculo V a.C., de acordo com o catalogo do MN/UFRJ). Foto da direita cedida gentilmente pelo Prof. Dr. Antonio Brancaglion Junior (MN / UFRJ). Indicacao bibliografica: Ceramicas antigas da Quinta da Boa Vista, do Museu Nacional de Belas Artes.

(15) Da mesma forma, os dois personagens nao podem ser identificados como pai ou erastes do atleta tambem pelo fato de serem imberbes, mesmo em se tratando de uma imagem que julgamos distanciada do modelo de representacao comum na ceramica atica.

(16) Em outras palavras, "no interior da mesma cultura, os gestos, a expressividade do corpo, os signos do corpo obedecem a um codigo que e imediatamente compreendido pelo publico" (Gil 1995: 212).

(17) O marco nao aparece nas demais cenas de salto que ja analisamos. Normalmente, os signos que denotam ser a cena de salto sao os halteres e o enxadao para afofar a terra e, dessa forma, garantir a precisao das marcas dos pes alcancadas.

(18) Localizacao: Ferrara, Museo Nazionale di Spina--inv. T713AVP. Tematica: salto. Proveniencia: Spina (Italia). Forma: oinochoe. Estilo: figuras vermelhas. Pintor: The Fat Boy Painter. Data: 400-300 a.C.

(19) Localizacao: Tarquinia--Tumba dos Augures. Tematica: luta. Data: 520 a.C.

Caption: Fig 1. Corpo apolineo do atleta. (10).

Caption: Fig 2. O "Fat Boy" do Museu Nacional da UFRJ. (14)

Caption: Fig 3. "Fat Boy" de Spina. (18).

Caption: Fig. 4. O corpo do atleta etrusco. (19).
Tabela 1: Formas dos vasos.

Formas         Quantidade

Skyphos           219
Pelike             2
Oinochoe          261
Lekythos           3
Kantharos          1
Hydria             3
Kylix              3
Total             492

Fonte: Elaboracao do autor, a partir de dados do
Beazley Archive.

Tabela 2: Tecnicas de producao dos vasos.

Tecnicas            Quantidade

Figuras negras          2
Figuras vermelhas      490
Total                  492

Fonte: Elaboracao do autor, a partir de dados do
Beazley Archive.

Tabela 3: Periodizacao da producao dos vasos.

Periodos       Quantidade

550-500 a.C.       1
450-400 a.C.       1
425-375 a.C.       16
400-300 a.C.      474
Total             492

Fonte: Elaboracao do autor, a partir de dados do
Beazley Archive.

Tabela 4: Proveniencia dos vasos.
analisados:

Proveniencia                    Quantidade

Nao fornecida                       29
Grecia (genericamente)              1
Rodes                               1
Melos                               1
Agora de Atenas                     5
Atenas                              1
Delos                               1
Spina (Etruria)                     9
Capua (Italia)                      1
Ullastret (Espanha)                 4
Bengasi (Libia)                     1
Enserune (Franca)                   1
Apollonia Pontica (Bulgaria)        1
Turquia (Smyrna)                    1
Russia (South ...)                  4
Total                               61

Fonte: Elaboracao do autor, a partir de dados do
COPYRIGHT 2018 Museu de Arqueologia e Etnologia - Universidade de Sao Paulo
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2018 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:texto en portugues
Author:Lessa, Fabio de Souza
Publication:Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia
Date:Jan 1, 2018
Words:5471
Previous Article:Theogenes of Thasos: an athlete and a divinized hero/Teogenes de Tasos: atleta e heroi divinizado.
Next Article:Competitive spaces: monarchical euergetism, urban space and integration in Hellenistic Athens (2nd century BC)/Espacos competitivos: evergetismo...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters