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Bourdieu and the gift/Bourdieu e o dom.

Introducao: a obrigacao tripartite enquanto paradigma

O celebre Ensaio Sobre a Dadiva (2001 [1923-1924])--ED--, de Marcel Mauss (1872-1950), ainda suscita inumeras inquietacoes, porem, poderiamos resumir toda a discussao que nele e realizada a partir da afirmacao de que dar, receber e retribuir, constitui uma obrigacao fundamental das sociedades humanas, o que esse autor procurou demonstrar atraves de um estudo comparativo, no qual apontou para o fato de que esta obrigacao universalmente posta encontra-se organizada de forma singular em cada caso culturalmente localizado. O ato de 'dar e receber' abarcaria tanto trocas materiais quanto imateriais (Lanna, 2006, p. 87), que seriam, na linguagem de Mauss, 'espirituais', no sentido de instituirem linguagem e comunicacao (Levi-Strauss, 1982).

A indagacao que Mauss nos coloca e paradigmatica, na medida em que apresenta uma questao que, segundo sua interpretacao, e substrato fundamental da vida social. Pode-se arriscar a dizer que, para Mauss, a vida social nao seria possivel sem este continuo 'dar e receber', pois ela se oporia a troca mercantil, ainda que, paradoxalmente, ele procure nesta a origem da troca (ou do intercambio) (Lanna, 1995). Destaque-se que Mauss compreendia a dadiva de forma bastante ampla, incluindo nela nao so os presentes, mas tambem as visitas, as palavras, as esmolas, as herancas e ate mesmo os tributos.

Talvez por se tratar de um trabalho que possibilite uma interpretacao de forma aberta e ambivalente (Martins, 2008), a leitura do ED tem sido marcada por uma forte descontinuidade em sua analise (Sigaud, 1999). Uma das mais destacadas, sem duvida, e a de Levi-Strauss (1991), que reconhece na obra de Mauss uma verdadeira 'revolucao' nas ciencias sociais, de tal modo que, para este antropologo: "[...] pela primeira vez na historia do pensamento etnologico um esforco foi feito para transcender a observacao empirica e ascender as realidades mais profundas" (Levi-Strauss, 1991, p. XXXIII), ainda que Mauss, ainda segundo Levi-Strauss, nao tenha explorado sua propria descoberta, tendo se deixado mistificar pelo nativo em sua explicacao do hau, o que vai fazer com que Sahlins (1974) aponte Levi-Strauss como um dos criticos da interpretacao mausseana do hau.

Contudo, por mais que a teoria da dadiva tenha sido amplamente revisitada mais recentemente por Douglas (1990), Godbout (1992; 1998), Caille (1998; 2001; 2002), Godelier (2001), Martins (2002), Freitas (2002), Lanna (1995), Sabourin (2008; 2011), Damo (2008), entre outros autores, pouca atencao tem sido dada a contribuicao fundamental de Bourdieu a este debate, bem como a centralidade deste paradigma na formulacao de seu pensamento teorico.

Buscarei neste trabalho elucidar alguns aspectos da obra desse sociologo frances que nos trazem uma reflexao frutifera sobre o dom, tanto a partir de seu substrato teorico mais amplo, em especial por meio da categoria de habitus e de senso pratico, como por meio de sua reflexao especifica sobre o dom. Destacando, por fim, nas consideracoes finais, a contribuicao da propria teoria do dom para a teoria bourdieusiana.

A constituicao das predisposicoes e a predisposicao a dar e receber

Um aspecto fundamental para compreendermos a obra de Bourdieu e o da contextualizacao teorica em que seu trabalho se insere, qual seja, o de sua oposicao ao estruturalismo e ao existencialismo. Em termos mais objetivos, a obra de Bourdieu e marcada pela busca da superacao da classica antinomia das ciencias sociais entre a agencia e a estrutura, que esse autor procurou resolver a partir da categoria de habitus, retomando assim toda uma tradicao das ciencias humanas que orbita em torno desta (1). O habitus permite a Bourdieu compreender a construcao da subjetividade considerando a internalizacao das estruturas sociais, sendo que estas sao constituidas a partir das dinamicas dos campos. Seria possivel realizar uma primeira aproximacao a tal categoria por meio da seguinte definicao:

[...] sistemas de 'disposicoes' duraveis e transponiveis, estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes, ou seja, como principios geradores e organizadores de praticas e de representacoes que podem ser objetivamente adaptadas ao seu objetivo sem supor a intencao consciente de fins e o dominio expresso das operacoes necessarias para alcanca-los, objetivamente 'reguladas' e 'regulares' sem em nada ser o produto da obediencia a algumas regras e, sendo tudo isso, coletivamente orquestradas sem ser produto da acao organizadora de um maestro (Bourdieu, 2009, p. 87, grifos do autor).

Desse modo, o habitus do agente corresponde a um conjunto de predisposicoes que se constroem a partir da incorporacao dos diversos capitais simbolicos, bem como do volume total destes capitais que os sujeitos possuem nos variados campos. Esta multiplicidade de posicoes que os agentes ocupam nos campos constitui a localizacao do sujeito no espaco social. O habitus equivale, portanto, as predisposicoes, em termos de gosto, de julgamento moral etc., que sao desenvolvidas segundo esta multiplicidade de posicoes.

Este conjunto de predisposicoes e cultivado, ou seja, e 'inculcado' ao longo da vida do sujeito, e remete, justamente, a seu lugar ocupado no espaco social. E o habitus que, segundo Bourdieu, permite a cada agente criar, a partir de um pequeno numero de principios implicitos, todas as condutas conforme as regras da logica do desafio e da resposta, e apenas elas (Bourdieu, 1972). O que tal categoria se propoe e ser um espaco intermediario, que permite passar das estruturas determinadas ao longo do trabalho de organizacao do corpus as acoes de um ator singular e a experiencia que ele adquire. Os esquemas produzidos, que permitem os sistemas de classificacoes e de praticas sociais, encontram-se definidos por sua inscricao no proprio corpo (Oliveira, 2013). Tal conceito teve desenvolvimentos ulteriores na obra de Bourdieu e, como toda inovacao conceitual, abriu a possibilidade de usos e interpretacoes diferentes, entre os quais se instaurou um debate.

Neste ponto e interessante destacar o lugar do habitus no direcionamento das praticas dos agentes. De acordo com a teoria de Bourdieu, os agentes nao sao apenas epifenomenos da estrutura social uma vez que suas subjetividades representam, sobretudo, a interiorizacao da externalidade, ou seja, o que e externalizado por meio das predisposicoes sociais.

Outro ponto que vale a pena explorar, e com isso demarcariamos uma aproximacao mais enfatica da discussao sobre a dadiva, diz respeito ao fato do habitus ser uma categoria que compreende acao social como estruturada a partir de predisposicoes internalizadas pelos sujeitos. Contudo, isso nao significa dizer que esse processo de internalizacao das estruturas sociais ira produzir um agir instrumental. Ainda segundo Bourdieu (2007, p. 169):
   [...] convem ressaltar que os agentes sociais sao
   dotados de habitus, inscritos nos corpos pelas
   experiencias passadas: tais sistemas de esquemas de
   percepcao, apreciacao e acao permitem tanto operar
   atos de conhecimento pratico, fundados no
   mapeamento e no reconhecimento de estimulos
   condicionais e convencionais a que os agentes estao
   dispostos a reagir, como tambem engendrar, sem
   posicao explicita de finalidades nem calculo racional
   de meios, estrategias adaptadas e incessantemente
   renovadas, situadas porem nos limites das
   constricoes estruturais de que sao produto e que as
   definem.


Nesta direcao, a acao dos agentes, na interpretacao de Bourdieu, por mais que se baseie em estrategias, nao necessariamente e guiada pelo calculo racional das acoes, o que se aproxima da interpretacao de Godelier (2001, p. 12-13, grifos do autor) acerca da caracteristica fundamental do dom. Segundo este autor:
   Entao, o dom estava espremido entre duas potencias,
   a do mercado e a do Estado. O mercado--mercado
   de trabalho, mercado de bens ou de servicos--e o
   lugar das relacoes de interesse, da contabilidade e do
   calculo. Do Estado e o espaco das relacoes
   interpessoais de obediencia e de respeito a lei. O
   dom continuava, assim, a ser praticado entre pessoas
   'proximas', entre parentes, entre amigos: ao mesmo
   tempo consequencia e testemunha das relacoes que
   os ligavam e que impunham obrigacoes reciprocas
   que as trocas e os dons expressavam, de dons feitos
   sem 'contar' e, sobretudo, sem esperar um retorno.
   Pois aquilo que marcava e continua a marcar o dom
   entre proximos nao e a ausencia de obrigacoes, e a
   ausencia 'de calculo'.


Se compreendemos o habitus enquanto disposicoes duraveis (Bourdieu, 1972), significa dizer que tanto estamos nos referindo a uma determinada forma de organizar o mundo quanto de inclinar o sujeito a internalizar esta organizacao. Isto significa, para Bourideu, que o habitus e o que possibilita a 'interiorizacao da externalidade', ou seja, as condicoes objetivamente postas da producao das praticas sociais sao internalizadas, assim como seus efeitos, que sao constituidos a partir das disputas simbolicas travadas nos campos. Mais do que isso, o habitus tambem implica numa externalizacao da interioridade, na medida em que constitui todo um sistema de orientacao no mundo social, expressando, assim, os gostos e aptidoes dos agentes.

A dadiva se torna possivel, neste sentido, a partir da constituicao de um habitus determinado, que predispoe os sujeitos a dar, receber e retribuir, de modo que ele internaliza esta 'regra', sem que se constitua num calculo racional de sua parte. Na teoria de Bourdieu isso se deve, parcialmente, ao fato de que o habitus constitui nos sujeitos predisposicoes semiconscientes. Em todo o caso, estamos lidando com um processo de internalizacao das estruturas sociais que busca constituir um 'agir natural' do sujeito, o que se faz possivel quando o processo de internalizacao e socializacao de tais regras se da o mais cedo possivel. Dai a relevancia que Bourdieu atribui ao processo de socializacao primaria.

Nos varios exemplos que Mauss nos da ao realizar o seu estudo comparativo, e reforcada a ideia de que nas diversas sociedades existe a formulacao de um ethos da dadiva, uma vez que esse autor se refere nao apenas a agentes individuais, mas tambem coletivos. Se considerarmos que, conforme o autor, "Ninguem tem a liberdade de recusar um presente oferecido. Todos, homens e mulheres, tentam ultrapassar-se uns aos outros em generosidade" (Mauss, 2001, p. 80), significa que a dadiva torna-se possivel a partir do processo de internalizacao das regras morais de um dado grupo. Sem embargo, a obrigacao de 'dar e receber' so se converte em dom na medida em que se mostra 'espontanea', de tal modo que o processo de internalizacao desta pratica e um elemento constituinte do dom. Todavia, para que esta internalizacao se de com naturalidade, alguns elementos sao necessarios segundo Bourdieu:

Concretamente, isso significa que o dom como ato generoso so e possivel para agentes sociais que adquiriram, em universos onde sao esperadas, reconhecidas e recompensadas, disposicoes generosas adaptadas as estruturas objetivas de uma economia capaz de garantir-lhes recompensa (nao apenas sob a forma de contradons) e reconhecimento, isto e, se cabe uma expressao na aparencia tao redutora, um mercado (Bourdieu, 1996a, p. 9).

Para compreendermos o processo de formulacao da 'naturalidade' do agir social devemos considerar que, para Bourdieu (2005), o agente social se insere numa multiplicidade de campos. Tais campos possuem ligacoes com fenomenos externos a ele, porem nao se relacionam de forma automatica, pois possuem suas regras proprias. O habitus vai sendo constituido a partir da quantia de capital simbolico que o sujeito possui, bem como sua estrutura e volume total, que apontam para a multiplicidade de posicoes que o mesmo agente ocupa nos diversos campos.

Gradativamente, os sujeitos passam a internalizar as praticas possiveis a partir da quantia de capital simbolico que eles possuem em cada campo. O habitus se forma, portanto, a partir da inculcacao do capital simbolico que se da, principalmente, no universo familiar (Bourdieu, 1998). A partir deste processo, determinadas praticas sociais se fazem mais ou menos possiveis para dado agente.

Este processo de internalizacao das estruturas sociais nos remete tambem a outra categoria cara a Bourdieu: o 'senso pratico'. Segundo o autor, a incorporacao das regras que permitem o norteamento das estrategias lancadas se da no chamado 'senso pratico' (Bourdieu, 1996b; 2009). O 'senso pratico' resulta do processo de incorporacao das 'regras do jogo' em determinado campo, referindo-se a uma serie de conhecimento semiconscientes que os agentes possuem no campo para nortear a acao.

Em seu processo de interpretacao da realidade social, Bourdieu compreende que, tendencialmente, os agentes sociais (individuos, grupos ou instituicoes) buscam ampliar o seu volume total de capital simbolico nos diversos campos. Tendo como principio o paradigma da dadiva enquanto elemento constitutivo do elo social, significa dizer que ser generoso e um elemento fundamental para conseguir ampliar o volume total de capital simbolico de determinado agente social. Nao e a toa que o dom apresenta tambem um carater agonistico, aproximando e diferenciando os diversos agentes dispostos no campo de acordo com o seu grau de generosidade. Voltando a Godelier (2001, p. 23, grifos do autor) temos que:
   Dar parece instaurar assim uma diferenca e uma
   desigualdade de status entre doador e donatario,
   desigualdade que em certas circunstancias pode se
   transformar em hierarquia: se esta ja existisse entre
   eles antes do dom, ele viria expressa-la e legitima-la
   ao mesmo tempo. Portanto, dois movimentos
   opostos estariam contidos em um unico e mesmo
   ato. O dom 'aproxima' os protagonistas porque e
   partilha e os 'afasta' socialmente porque transforma
   um deles em devedor do outro. (...) O dom e, em
   sua propria essencia, uma pratica ambivalente que
   une ou pode unir paixoes e forcas contrarias. Ele
   pode ser, ao mesmo tempo ou sucessivamente, ato
   de generosidade ou ato de violencia, mas nesse caso
   de uma violencia disfarcada de gesto desinteressado,
   pois se exerce por meio e sob forma de uma partilha.


EE o senso pratico que possibilita ao sujeito perceber a necessidade de ser generoso, de ter o outro como fim. Sem embargo, e neste ambito da analise do dom a partir do substrato bourdieusiano que caberia uma interpretacao anti-mausseana de Bourdieu. Contudo, ao mesmo tempo que a perspectiva teorica do sociologo frances questiona a existencia de um ato desinteressado, uma vez que ha um ganho simbolico em jogo almejado pelos agentes, ele nega a existencia de um calculo para tanto. Ainda segundo Bourdieu (1996b, p. 146-147, grifo do autor):
   Os agentes que lutam por objetivos definidos podem
   estar possuidos por esses objetivos. Podem estar
   prontos a morrer por esses objetivos,
   independentemente de qualquer consideracao em
   relacao aos lucros especificos, lucrativos, da carreira
   ou outros. Sua relacao com o objetivo que lhes
   interessa nao e de modo nenhum o calculo
   consciente da utilidade que lhe oferece o
   utilitarismo, filosofia que preferimos atribuir as
   acoes dos outros. Eles tem o sentido do jogo; nos
   jogos nos quais, por exemplo, e preciso mostrar
   'desinteresse' para ter exito, eles podem realizar, de
   maneira espontaneamente desinteressada, acoes que
   estejam de acordo com os seus interesses. Existem
   situacoes inteiramente paradoxais que uma filosofia
   da consciencia impede de compreender.


A questao da generosidade em Bourdieu e, portanto, alterada, uma vez que o autor vislumbra nao uma ausencia de interesse, mas um interesse pelo desinteresse; o que, novamente, so se e possivel por meio do processo de socializacao. E e este processo que possibilita a percepcao do interesse pelo desinteresse, factivel, tao somente, na medida em que as estruturas incorporadas e as estruturas objetivas estejam de acordo, isto e, quando a percepcao e constituida segundo as estruturas do que e percebido. De acordo com Bourdieu (1996a), a troca de dons e instituida sob a forma de uma economia de bens simbolicos. "Essa economia muito especial se apoia, ao mesmo tempo, em estruturas objetivas especificas e em estruturas incorporadas, 'disposicoes', que essas estruturas pressupoem e produzem ao lhe oferecer suas condicoes de realizacao" (Bourdieu, 1996a, p. 9, grifo do autor).

Sendo a dadiva percebida como evidente, visto que ha esta adequacao entre as estruturas incorporadas e as estruturas objetivas, isto significa que, para haver interesse pelo desinteresse, ao menos de forma natural, e preciso que exista uma realidade estruturada a partir do dom, de tal modo que seria este dom uma estrutura estruturada e estruturante, na medida em que e moldada pelo substrato social no qual se insere e, consequentemente, o forja. Esta relacao produz uma realidade que e internalizada pelo agente, de modo que este se interessa pelo desinteresse de forma sincera. No entanto, devemos ressaltar nossa leitura acerca do que e considerado um ato social sincero, o que nos remete a uma adequacao entre um interesse especifico, relativamente autonomo com relacao ao interesse de classe, e que esta determina a posicao em um campo especializado que so pode ser satisfeito legitimamente (ou seja, com eficacia) mediante a adequacao as leis especificas do campo (Bourdieu, 2006).

Para Bourdieu, a acao generosa, o dom, e realizavel a partir do interesse pelo desinteresse. Entretanto, a constituicao de um habitus interessado pelo desinteresse pressupoe uma serie de disputas simbolicas em multiplos campos, que possibilitam tornar o desinteresse interessante. Como a distribuicao de capitais simbolicos pelos campos se da de forma desigual e, consequentemente, os agentes ocupam posicoes distintas no espaco social, o interesse pelo desinteresse de tais agentes varia de acordo com a posicao ocupada no espaco social (Bourdieu, 2004).

O Dom e seus misterios

Bourdieu, seguindo a direcao apontada por Bachelart, preocupou-se continuamente com o processo de ruptura epistemologica, havendo sempre uma realidade a ser desvelada. E com o dom nao seria diferente pois, para Bourdieu, sua principal singularidade estaria em sua ambiguidade. Segundo o autor:

O carater primordial da experiencia do dom e, sem duvida, sua ambiguidade: de um lado, essa experiencia e (ou pretende ser) vivida como rejeicao do interesse, do calculo egoista, como exaltacao da generosidade, do dom gratuito e sem retribuicao; de outro, nunca exclui completamente a consciencia da logica da troca, nem mesmo a confissao de pulsoes recalcadas ou, por eclairs, a denuncia de uma outra verdade, denegada, da troca generosa, seu carater impositivo e custoso ('o presente e uma infelicidade'). Disso advem a questao, central da 'dupla verdade' do dom e das condicoes sociais que tornam possivel o que pode ser descrito (de modo bastante inadequado) como uma self deception individual e coletiva, a mesma assinalada por Marcel Mauss em uma das frases mais profundas jamais escritas por um antropologo: 'A sociedade sempre paga a si mesma com a falsa moeda de seu sonho' (Bourdieu, 1996a, p. 7, grifos do autor).

O dom, nestes termos, soa contraditorio quando visto a partir de um olhar exterior, mas para os agentes que vivenciam a sua pratica--seja no potlach, no kula ou nos cartoes de natal--nao ha contradicao na forma como ele se desenvolve. Como ja assinalado, quando ha uma adequacao entre as estruturas incorporadas e as estruturas objetivas, a realidade e percebida como evidente. Ainda assim, haveria uma ambiguidade que residiria no dom, uma vez que e uma relacao de reciprocidade que so se coloca como verdadeira na medida em que nao ha certeza do retorno do ato de dar (Caille, 2002), mesmo que a obrigacao de receber, e de retribuir, esteja posta desde ja. A partir desta contradicao inicial, Bourdieu tenta responder a questao apontando que no dom ha um esforco para tornar os dois atos, o de dar e o de retribuir, em acoes singulares, de modo que a retribuicao nao seja interpretada como uma reacao ao ato de dar. Para Bourdieu (Caille, 2002, p. 7-8, grifo do autor):
   [...] e o intervalo temporal entre o dom e o
   contradom que permite ocultar a contradicao entre a
   verdade vivida (ou desejada) do dom como ato
   generoso, gratuito e sem retribuicao, e a verdade que
   o modelo revela, aquela que faz do dom o momento
   de uma relacao de troca transcendente aos atos
   singulares de troca. Ou seja, o intervalo que
   possibilita viver a troca objetiva como uma serie
   descontinua de atos livres e generosos e o que torna
   psicologicamente viavel e vivivel a troca de dons, ao
   facilitar e favorecer a self deception, a mentira para si
   mesmo, condicao da coexistencia do conhecimento e
   do desconhecimento da logica da troca.


E o tempo, portanto, o veu que encobre o dom, fazendo com que este nao seja concebido como troca. Afinal, como sustenta Sabourin (2008), o dom e o contrario da troca, uma vez que Mauss distingue a troca mercantil, movida pelo interesse, do sistema do dom, movido pela nobreza e honra no qual o doador ganha prestigio (Mauss, 2001).

De fato, para Mauss, nas dadivas, nao existe nem troca, nem compra. A dadiva e a contradadiva, redescobertas por Mauss, pertencem a uma dialetica social e economica polarizada pelo prestigio e pela honra. Essa polaridade por si so proibe reduzir o sistema dadiva/contradadiva a uma troca e reduzir o efeito de redobramento da dadiva ao interesse do primeiro doador (Sabourin, 2008, p. 133).

O dom estaria posto, necessariamente, no universo do simbolico, naquilo que permite as misturas a que Mauss (2001, p. 81) se referiu: "Misturam-se as almas nas coisas; misturam-se as coisas nas almas. Misturam-se as vidas e eis como as pessoas e as coisas misturadas saem, cada uma, das suas esferas e se misturam: o que e precisamente o contrato e a troca".

Mas todo esse processo, na leitura de Bourdieu, se torna factivel ao situarmos os dois atos como singulares, de modo que o retribuir nao seja percebido como uma resposta ao dar, sendo o tempo o que propicia este efeito. Porem, poderiamos indagar em que medida o ato de dar sem esperar a retribuicao imediata e exequivel. Dai, mais uma vez, devemos recorrer a explicacao bourdieusiana em torno da internalizacao das estruturas sociais, de modo que deve haver um interesse no jogo de prestacoes e contraprestacoes desinteressadas. Somente assim e que a espera e a incerteza que o tempo gera faz sentido para os sujeitos. Se o agente possuir:

[...] um espirito estruturado de acordo com as estruturas do mundo no qual voce esta jogando, tudo lhe parecera evidente e a propria questao de saber se o jogo vale a pena nao e nem colocada. Dito de outro modo, os jogos sociais sao jogos que se fazem esquecer como jogos e a ilusio e essa relacao encantada com um jogo que e produto de uma relacao de cumplicidade ontologica entre as estruturas mentais e as estruturas objetivas do espaco social (Bourdieu, 1996b, p. 139-140).

A obrigacao tripartite de dar, receber e retribuir, so se faz possivel porque ela, enquanto jogo social, se faz olvidar como jogo. Bourdieu (1996a) elucida que, com relacao ao dom, por mais que nenhum agente ignore de fato a troca, todos seguem a regra do jogo que consistiria em fazer de conta que se ignora a regra. E somente quando se abstrai o trabalho, sobretudo pedagogico, de que a instituicao e fruto:

[...] esquecendo-se de que quem da e quem recebe estao preparados, por todo o trabalho de socializacao, para entrar sem intencao nem calculo de lucro na troca generosa, para conhecer e reconhecer o dom no que ele e, ou seja, em sua dupla verdade, que se tornam possiveis os paradoxos tao sutis quanto insoluveis de uma casuistica etica (Bourdieu, 1996a, p. 9-10).

Percebamos, desse modo, que Bourdieu acentua as condicoes sociais em que sao produzidas as predisposicoes a generosidade. Mais uma vez voltamos aqui a categoria de habitus, enquanto um conjunto de predisposicoes constituidas socialmente, pois, ainda para Bourdieu, tanto o etnologo estruturalista que concebe a troca como o principio gerador do vinculo social, quanto o economista que ignora tal aspecto, incidem no mesmo equivoco, que e o de olvidar as condicoes economicas e sociais que produzem sujeitos historicos predispostos a generosidade. Ainda assim, ao considerarmos tais aspectos para a compreensao da acao dos agentes, ha sempre uma expectativa em torno da incerteza da acao social. Afinal, o habitus trata de um conjunto de predisposicoes e nao de determinacoes sociais. E por isso que, para Bourdieu (2009), o sistema de dadivas, enquanto mecanismo 'exato' assentado na obrigacao tripartite de dar, receber e retribuir, so existiria enquanto abstracao:

Os 'ciclos de reciprocidade', engrenagens mecanicas de praticas obrigatorias, nao existem senao para o olhar absoluto do espectador onisciente e onipresente, que deve a sua ciencia da 'mecanica social' ser capaz de estar presente nos diferentes momentos do 'ciclo': na realidade, o dom pode permanecer sem contrapartida, quando se obriga a um ingrato; ele pode ser recusado como uma ofensa na medida em que afirma ou reivindica a possibilidade da reciprocidade, portanto, do reconhecimento. Sem falar dos espiritos de porco que questionam o proprio jogo e sua bela mecanica aparente (a maneira daquele a quem os cabilas chamam amahbul) e mesmo no caso em que as disposicoes dos agentes estao tao perfeitamente harmonizadas quanto possivel e em que o encantamento das acoes e reacoes parece inteiramente previsivel 'de fora', a incerteza sobre o resultado da interacao permanece enquanto a sequencia nao estiver acabada: as trocas mais ordinarias, como 'os pequenos presentes' que 'sedimentam a amizade', supoem uma improvisacao, portanto, uma incerteza permanece que, como se diz, representa todo o 'charme', portanto, toda a 'eficacia social' (Bourdieu, 2009, p. 164-165, grifos do autor).

O que poderia soar, em principio, como uma dura critica ao paradigma do dom, em verdade o reafirma de modo enfatico, pois, a incerteza do retorno reforca o carater generoso do ato de dar. A incerteza, atrelada ao tempo na interpretacao bourdieusiana do dom, e o que garante o aspecto generoso do dom, considerando-se que "[...] quem da defina sua dadiva como uma dadiva sem retorno--e ao que retribui, de definir sua retribuicao como gratuita e nao determinada pela dadiva inicial" (Bourdieu, 1996b, p. 160). Para o autor, a dadiva possui ainda como caracteristica o tabu da explicacao: dizer do que se trata, em especial atraves da enunciacao do preco, e anular a troca. Existiria, portanto, um silencio em torno da verdade da troca, que seria um silencio compartilhado para que possa funcionar enquanto tal.

Temos assim a estruturacao de uma interpretacao original do paradigma do dom, que, longe de configurar uma simples critica, se propoe a revisitar os fundamentos do sistema de dadivas, buscando encontrar respostas para os seus enigmas no substrato social que alimenta as praticas dos agentes sociais.

Consideracoes finais

Certamente, para Bourdieu o dom se mostrou um paradoxo instigante, ainda que seu desvelamento seja possivel, na perspectiva do autor, a partir das ferramentas teoricas de que ele ja dispoe. Sua interpretacao sui generis destaca-se pelo esforco de tentar compreender como se constituem os sujeitos que sao generosos, o que sinteticamente poderia ser respondido da seguinte forma: "Se os agentes podem ser, simultaneamente, mistificadores de si proprios e dos outros, e mistificados, e porque eles foram imersos, desde a infancia, em um universo no qual a troca de dadivas e socialmente 'instituida' em disposicoes e crencas" (Bourdieu, 1996b, p. 161, grifo do autor). Isso significa que os agentes se encontram preparados e inclinados, atraves de um intenso processo de socializacao, a entrar sem a intencao de calculo na troca generosa.

Nao sem menor relevancia devemos rememorar uma questao fundamental: se, por um lado, a ideia de campo provem, em grande medida, da ideia das 'esferas de valor' de Weber, por outro, o dom e um paradigma fundamental para que Bourdieu possa operacionalizar a ideia de que outras logicas tambem regem o mundo social. O paradigma do dom em Mauss e peca fundamental para o questionamento da ideia de Homo Economicus e e a partir deste questionamento que Bourdieu pode assentar a ideia de que ha logicas distintas em cada campo, o que se relaciona a sua autonomia (tal como no caso das esferas de valor em Weber).

Quero dizer com isso que, sem a teoria do dom, toda a logica da estrutura teorica criada por Bourdieu nao faria sentido. Tambem nao sem menor relevancia, o texto de Durkheim e Mauss (1990), intitulado Algumas formas primitivas de classificacao, e publicado originalmente em 1903, acaba por ter outro impacto decisivo na obra de Bourdieu na medida em que problematiza a homologia entre estruturas mentais e estruturas sociais, elemento decisivo para a compreensao sobre como se operacionaliza o habitus.

Destaca-se, por fim, dois outros pontos que Bourdieu avancou na discussao: o primeiro, foi o de apontar que a presenca de interesse por parte dos agentes nao implica no 'desmoronamento' da teoria do dom, ja que o interesse estaria sempre presente na acao dos sujeitos e, portanto, o que diferenciaria esta economia muito especial seria o interesse pelo desinteresse; o segundo ponto deve-se a centralidade que o tempo ocupa no processo de transformacao dos atos envolvidos na dinamica do dom, em atos singulares, tanto a dadiva inicial, quanto a sua contrapartida.

Acredito que a obra de Bourdieu, longe de se constituir apenas como uma critica ao paradigma da dadiva, apresenta-se enquanto uma interpretacao sociologica original desta teoria, que reforca e revitaliza a mesma, a partir de uma critica contundente e bem fundamentada teoricamente.

Doi:10.4025/actascihumansoc.v40i3.37034

Referencias

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Received on May 7, 2017.

Accepted on September 6, 2017.

Amurabi Oliveira

Departamento de Sociologia e Ciencia Politica, Centro de Filosofia e Ciencias Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Rua Engenheiro Agronomico Andrei Cristian Ferreira, s/n., 88040-900, Florianopolis, Santa Catarina, Brasil. E-mail: amurabi_cs@hotmail.com

(1) Para uma melhor reconstituicao da categoria habitus no pensamento social vide o trabalho de Wacquant (2007).
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Author:Oliveira, Amurabi
Publication:Acta Scientiarum. Human and Social Sciences (UEM)
Article Type:Ensayo critico
Date:Sep 1, 2018
Words:5348
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