Printer Friendly

Bits and pieces of a research/Dos estilhacos de uma pesquisa/De los fragmentos de una investigacion.

_do que se inicia nos encontros

O texto que segue e resultado da dissertacao de mestrado "Clinica de uma Vida: estilhacos de educacao e[m] saude", defendida no programa de Pos-Graduacao em Saude Coletiva. Sao sete fragmentos literarios, hiatos de tempo que marcaram o fazer pesquisa e o ser pesquisador compondo a entrada de cada capitulo da dissertacao de mestrado. Esses fragmentos sao minicontos que narram a historia do Sr. Warburg e seu processo de pesquisa sobre as imagens da medicalizacao da vida. E uma narrativa de ficcao de uma pesquisa porvir.
   Nao e por acaso que a metamorfose da lagarta e da ninfa em
   borboleta e chamada de imago. Assim se passa da borboleta e com a
   imago psiquica no sentido de Lacan (ou de Merleau-Ponty, alias):
   ela bate--ela bate as asas. E uma questao de aparicao visual e de
   experiencia corporal ao mesmo tempo (1). (p. 2)


_6 am

O Senhor Warburg abre os olhos. Olha para o relogio ao lado de sua cama. Sao seis horas. Levanta rapido, com a rapidez com que consegue se movimentar. Um velho de 75 anos ja carrega as marcas do tempo em seu corpo. Faz meses que o Senhor Warburg planeja esse dia [Chamaremos o Senhor Warburg apenas de Sr. W., para facilitar nossa historia e leitura] (b). Faz vinte e quatro meses, setecentos e vinte e nove dias que ele vem planejando esse momento. Ele pensa se sao esses os dias, ao lavar o rosto e ao olhar-se no espelho. Ja na cozinha prepara ritualisticamente seu cafe. Duas colheres pequenas de cafe, enche a cafeteira italiana de agua, lembrando de nao ultrapassar a marca de seguranca, ja apagada pelos anos de uso. Coloca a agua para ferver em fogo baixo. Enquanto o cafe emerge pelo mecanismo ate o topo, prepara duas fatias pequenas de pao. Senta na pequena mesa da cozinha e, silenciosamente, come. Escuta-se apenas o sorver do liquido na xicara e as mordidas no pao ja um pouco seco. Na sua mente, a organizacao do dia desfila passo a passo. 'Levantar as seis horas. Ok. Tomar o cafe. Ok. Passar a manha organizando os materiais necessarios para o trabalho. Retomar, item a item, o que sera necessario. Almocar por volta das 11 horas. Tirar uma sesta ate as 14 horas. Retomar anotacoes e organizar por ano e mes os conteudos e informacoes. Sair para tomar um cafe, por volta das 17 horas. Voltar pra casa e terminar o projeto ja iniciado'. O Sr. W. sabe que tem de ser meticuloso em seu cronograma. Hoje e o dia setecentos e trinta, hoje e o dia em que ele termina. O Sr. W mantem seu cronograma ate antes das 16 horas. Pela energia acumulada e sua previa organizacao, consegue liberar-se antes para o cafe da tarde. Decide usar o intervalo de tempo para tomar um ar fresco no parque. Coloca seu sobretudo, pega seu cachecol e seu chapeu. O parque fica a poucos minutos de caminhada de sua casa. No caminho, vai retomando a lista mental e enumerando o que ja foi realizado, vendo se nao esqueceu de nada. O Sr. W. e meticuloso e, ao longo dos ano, criou o costume de realizar anotacoes do que ve e do que le em um pequeno bloco que carrega consigo. Muitas das anotacoes sao mentais, e, com o passar dos dias, ele acaba esquecendo, nao lembrando o que aquelas poucas palavras escritas querem dizer, ou o porque da anotacao. Sentado no parque, observa o movimento das pessoas e das borboletas ao redor. O Sr. W. sempre gostou de borboletas. Quando crianca tentou ser colecionador. Conseguiu catalogar algumas especies com a ajuda dos livros especializados no assunto. Como nao dispunha de equipamentos para mante-las organizadas, alfinetadas e intactas, tirava fotos para o seu livro de registro. Fazer essa captura de imagem sempre foi dificil. Quando conseguia uma pose decente, tinha de torcer para o filme nao queimar. Ser colecionador, pesquisador de borboletas tornou-se muito complicado. Abandonou seu hobby menos de um ano apos o seu inicio. Olhando o voo das borboletas, faz uma anotacao, rabiscando em seu bloco palavras soltas: As imagens sao como as borboletas, esperam o tempo certo para alcar o voo. Primeiro, devem ser concebidas: as borboletas no acasalamento; as imagens, no pensamento, na imaginacao. A borboleta coloca o ovo sobre a superficie de uma folha, tem de torcer para que eles nao sejam devorados por algum inseto ou animal. Depois de algum tempo, o ovo eclode e de dentro sai uma pequena larva, uma lagarta. Nessa condicao, ela vai viver a maior parte de sua vida, trocando varias vezes de pele e crescendo. No momento certo, sera envolta por si mesma, em sua pupa, ninfa --ou crisalida--, fase intermediaria entre a larva e o nascer. Permanece, entao, em silencio, esperando. A imagem nasce de sua fabricacao, de sua imaginacao, as vezes, prolonga-se no seu nascer, vai se modificando conforme amadurece o pensamento, conforme as experiencias da vida vao se colocando no seu corpo. Por vezes, silencia por uma noite, por varios meses, ate que, de subito, uma nova imagem explode, cintila por um breve instante antes de levantar voo e desaparecer novamente. Imago e o instante em que a borboleta sai de sua crisalida. Quem sabe, um dia, essa borboleta, ou essa imagem, volte ate nos novamente'. O Sr. W. permanece ainda com seu pequeno bloco de anotacoes aberto, olhando para os passantes e viventes. Vagarosamente, guarda suas memorias junto ao bolso do casaco, no lado esquerdo, e sai caminhando rumo ao centro da cidade.
   Se numa certa noite, por um feliz acaso, a grande borboleta
   retornar a nos, atraida pela chama de uma vela, e se acontecer de,
   ao aproximar-se por demais da chama, ela se tornar cinzas, ainda
   assim a borboleta permanecera na memoria. As cinzas continuaram
   vivas, incandescentes, luminosas. Bastara um simples sopro para
   reavivar o fogo, reencontrar a borboleta com olhos de coruja que se
   esconde no meio delas. A imagem arde (2). (p. 62)


_17 pm

O Sr. W. tem o costume de escolher lugares diferentes para tomar seu cafe. Tem alguns preferidos, que, de fato, fazem 'cafe de verdade', e outros aonde vai so por experimentacao ou pela comodidade do percurso. Hoje, ele quer algo especial, nao precisamente um 'cafe de verdade', mas uma imagem que invada seu pensamento. Para o Sr. W., um cafe tem de ter sabor, aroma, textura, ser bem feito e bem tirado. Nao pode ser uma agua escura que evoca uma mera lembranca. Uma imagem lembranca do que e um cafe e o que, muitas vezes, aparece na mesa de Sr. W. Hoje, ele nao vai pelo liquido. Vai pelo olhar. Os pensamentos parecem fabricar muitas imagens nesse percurso, e ele caminha olhando para o chao e pensando nas superficies, nesse chao que berra historias e em seus proprios atos de olhar. Chega ate o antigo hotel, que antigamente acolhia as culturas viajantes, e que, hoje, se inverte e faz a cultura viajar, que irrompe a passagem do olhar, por vezes permanece e, em outras, evanesce. Entra no elevador, solitario. Aperta o botao com o numero sete. A porta se fecha. A maquina de elevacao, na vertical, sobe suavemente. A porta se abre. Ele sai. Caminha alguns passos e outra porta se abre. Entra. Olha para os cantos a procura de uma mesa vazia. No canto direito, enxerga uma que lhe serve, longe do unico casal que ocupa o local. A mesa tem uma vista quase perfeita, para o horizonte onde o lago brota por entre matos e concretos. Infelizmente, entre seu olhar e as aguas, monumentos de concreto erguem-se. Em cima da porta de entrada, um relogio marca 17 horas. O sol caminha a passos lentos, esquentando o que resta de um dia. Pede um cafe. Abre um livro. O Sr. W., alem da chave de casa, de sua carteira com os documentos e dinheiro, de seu bloquinho de anotacoes e seu lapis de escrever pensamentos, sempre carrega consigo um livro. A capa do livro que carrega nesse dia poderia ser vista pelo casal que compartilha o mesmo espaco. Tem um titulo que sobressai logo abaixo de uma maquina antiga de projetar filmes--'Homem no Escuro', de Paul Auster. O Sr. W. parece ler, mas seu olhar foge repetidas vezes das paginas do livro. Fica minutos a olhar o longinquo. Foi para isso que ele veio a este local, para deixar os olhos fugirem da superficie. Os minutos caminham e o sol segue seu curso, deitando cada vez mais. Seu pensamento parece voar para lugar nenhum. Dois casais entram, falando alto. Em cima da porta, os ponteiros marcam 17 horas e 50 minutos. O sol comeca a querer se esconder por tras da vegetacao e das aguas. Aos poucos, vai colorindo o final do dia com uma tonalidade que mistura o laranja e o vermelho. O Sr. W. olha para essa imagem e pisca algumas vezes, como se seus olhos fossem maquinas fotograficas tentando captar aquele momento. O Sr. W. nota, nessa coloracao, a presenca forte do azul--um alaranjado azulado. Ele levanta. Paga o cafe e sai. La embaixo, a noite comeca timida, com tons de vermelho. O frio que vem do lago obriga-o a fechar o casaco e puxar a gola para cima. No horizonte, as tonalidades ainda permanecem. Do lado oposto, a cortina da noite e puxada por pequenos pontos que brilham. O azul noite prevalece na disputa das cores. A noite devora silenciosamente o dia. O Sr. W. segue o caminho de casa.
   A noite
   me pinga uma estrela no olho
   e passa (3). (p. 91)


_19 pm

O Sr. W. olha para a organizacao que fizera na parte da manha e da tarde. Esta tudo preparado. As anotacoes estao em um lado, perto dos livros a serem usados. As imagens estao no centro, perto dos dez quadros pretos enfileirados um atras do outro. O Sr. W passou dois anos pesquisando e organizando todo o material para esse dia. E o dia em que ira, enfim, montar e colar as imagens. Foram dois anos dentro de velhos livros, antigas imagens, varios cadernos de anotacoes e pensamentos, do vasculhar na internet a procura de referencias. De leituras, desleituras. Conversas, imagens encontradas e pensadas que, algumas vezes, o levaram a bifurcar seu caminho nesses setecentos e trinta dias. Olha para o material novamente. Seus pequenos cadernos sao enumerados, iniciando no numero um ate o numero 12, o que ele carrega no bolso no momento. O caderno numero sete e onde se encontra a estrutura de sua pesquisa. Olha as anotacoes: 'cem fotos. cem anos. cem fatos. cem acontecimentos. cem historias recontadas a partir de imagens. cem palavras nao ditas'. O trabalho que ocupou Sr. Warburg nesses dois anos foi o de coletar imagens-acontecimentos. Chegou a hora de monta-las e finalizar essa historia imagetica. Ele pega o caderno de numero tres e comeca a ler uma das anotacoes 'Como contar cem anos de historia por meio de imagens? Como escolher um acontecimento por ano? Mas contar o que?'. Em outra folha, le: 'Hoje em conversa com Georges (c), pensei que talvez pudesse catalogar cem imagens que digam de um acontecimento especifico, buscar imagens de um processo historico e social. Georges me perguntou o que me inquietava, o que nao estava na superficie do meu olhar. Demorei a responder a essa pergunta. E nao respondi'. O Sr. W. olha para o centro, onde as imagens estao todas juntas, e fala baixinho consigo mesmo--'Reuni trezentos imagens sobre medicalizacao da vida'. Caminha ate o canto, onde encontra-se sua velha vitrola, escolhe o disco de Blind Willie Johnson e o coloca para tocar. Senta perto das imagens, puxa os caderninhos e anotacoes sobre as imagens, e, conversando consigo mesmo, enuncia aos montes de palavras e imagens--'vamos la, preciso separar, escolher, de trezentos imagens, apenas cem, e agrupar essas cem em dez blocos de dez imagens, cada bloco imagetico ira acompanhar dez anos. dez blocos, cem anos'. Em algum lugar um relogio badala sete horas. La fora, o azul toma conta da noite.

_22 pm

O Sr. Warburg esta inquieto nos ultimos minutos. No corpo, sinais de incomodo, a dor comeca em partes especificas, nas costas e pernas. Muito tempo sentado. Faz tres horas que esta trabalhando sem parar. 'Mereco um intervalo', pensa consigo mesmo. O Sr. W. levanta-se de sua poltrona. No chao, estao as imagens separadas em dois montes, as que serao usadas, cem imagens, e outras que, nesse momento, nao entram na composicao dos pensamentos. Tres quadros estao montados em pe, como uma tela de pintura. Nesses quadros, imagens estao dispostas, afixadas com um pequeno alfinete. O Sr. W, ao levantar, fica encarando as telas prontas. As maos fazem massagem na lombar. Os olhos captam as historias nao ditas naquelas imagens. Ao separar as imagens, o Sr. W. pensou que seria mais facil fazer a composicao, a montagem que se encontra a sua frente. Separa-las foi teoricamente facil. Atras de cada imagem havia uma anotacao: o ano e a situacao, o acontecimento a que aquela figura se referia. Dificil foi quando percebeu que nao tinha exatamente dez imagens por decada, ou uma para cada ano. Dessa forma, teve de organizar as imagens em blocos que contassem a decada apenas, e nao uma imagem a cada ano. No primeiro quadro encontram-se sete imagens; no segundo, oito imagens, e, no terceiro, 11 imagens. Trinta anos ja estao compostos, montados. De 1925 a 1945. O Sr. W pega o caderninho de anotacoes com o numero seis na frente, passa as paginas lentamente, a procura de uma anotacao--Ao observar as imagens, todas elas contem palavras, mostram-se como um problema. Como contar os ultimos cem anos imageticamente sobre a medicalizacao sem usar palavras, se a maioria das imagens vinculam palavras? Seriam frases-imagem?'. Fecha seu caderno de anotacoes e olha novamente para os paineis prontos. Poucas dessas imagens foram tiradas no Brasil. Entre as imagens em preto e branco a sua frente, algumas destacam-se. Sao fragmentos de uma historia. Cascas de um acontecimento. Observa algumas imagens (d), duas no painel que vai de 1924 a 1929. Uma imagem mostra uma pomba com raios saindo dela em todas as direcoes, em cima o nome do medicamento 'xarope divino'; ao lado, palavras escritas com nomes de doencas e, logo abaixo, o dizer: 'nao ha remedio igual'. A outra imagem mostra tres mulheres, ao redor uma iluminacao, proxima ao "divino", ao milagre, da imagem anterior. Uma propaganda de dois remedios ao mesmo tempo, um xarope e um sabao. Produtos mostrados como milagrosos no combate aos sintomas e doencas. Em outro painel, uma imagem composta de palavras, datada de 1939. Na imagem, uma mulher vestida com uma blusa preta, realcando os seios, com os dizeres: 'Magros de nascenca podem agora obter 2kg numa semana'. Nao aparece o nome do produto, apenas a frase. Durante a pesquisa das imagens sobre medicalizacao, o Sr. W. achou muitas referindo-se a medicamentos e remedios. Algumas, como essa ultima, mostrando uma outra forma de subjetivacao. Em seu arquivo, chegou a organizar imagens de varias decadas sobre o mesmo remedio ou medicamento. E o caso da imagem no terceiro painel, um classico da propaganda farmaceutica da Argentina. A imagem mostra a caricatura de uma pessoa sorrindo, na cabeca muitos pregos, anzois, alfinetes. O efeito milagroso do 'Geniol' acaba eliminando a dor de cabeca. 'Como gostaria de um genial agora', comenta o Sr. W., observando a careca sorridente. Estica o corpo. Caminha um pouco pela biblioteca. Coloca lenha na lareira. Olha o monte de imagens no chao e volta a sentar em sua poltrona.
   Pelo termo frase-imagem entendo a uniao de duas funcoes
   esteticamente por definir, isto e, pela maneira como desfazem a
   relacao representativa da imagem pelo texto. No esquema
   representativo, a parte do texto era a do encadeamento ideal das
   acoes, a parte da imagem era a do suplemento de presenca que lhe da
   carne e consistencia. A frase-imagem derruba esta logica. No seu
   seio, a funcao-frase e sempre a do encadeamento. Mas, doravante, a
   frase desencadeia-se, tanto que e ela que da carne. E esta carne ou
   esta consistencia e, paradoxalmente, a da grande passividade das
   coisas sem razao. (4) (p. 65)


_00 am

O cansaco e o sono comecam a pesar nos olhos do Sr. W. Os olhos piscam rapidamente, varias vezes. Em algumas piscadelas, permanecem um instante fechados. 'Um cafe viria bem agora'--pensa, consigo mesmo. O Sr. W. levanta e caminha ate a cozinha. O cheiro do cafe novo sendo passado espalha-se pela casa, invadindo os cantos e despertando os sonos adormecidos. Um cheiro na meianoite. 'Foi-se o tempo em que conseguia aguentar a noite toda acordado'--o Sr. W. pensa nos tempos de juventude--'Conseguia virar a noite, lendo, estudando, escrevendo, corrigindo provas e trabalhos'. Resmungando para si mesmo, sorve o cafe em pequenos goles. O projeto de construir um mapa imagetico dos ultimos cem anos, de uma historia sem palavras, sobre a medicalizacao da vida, vagou no pensamento do Sr. W. por uns 15 anos. O tempo, como sempre, era curto. Aulas. Seminarios. Correcoes. Viagens. Projetos da Universidade. Bancas. Ao pensar em sua aposentadoria, com seus setenta anos, decidiu retomar esse velho pensamento. Mas, antes, necessitava descansar, prepararse para isso. Tirou um ano para organizar seu tempo de professor, para despedir-se vagarosamente do ensino. Das orientacoes. Rever anotacoes. Artigos. Traducoes. Mais um ano para desligar-se gradativamente dos afazeres academicos e, por fim, um ano sabatico. De viagens por lugares que ainda nao havia visitado, de revisitar seus lugares preferidos, de passar um tempo com os contatos da Paris VIII, da Escola de Altos Estudos em Ciencias Sociais de Paris. De tomar cafes nos finais de tarde com os professores, conhecidos da Alemanha, Belgica, Holanda, EUA. Um ano para amadurecer seu projeto por meio de dialogos. O Sr. W larga a xicara e volta para sua biblioteca. Olha para os cinco paineis ja prontos. Um trabalho de dois anos. De escavacao. De memoria. De estilhacar o tempo a procura de instantes. Olhando para as imagens dispostas nos paineis, fica a pensar nas perguntas que o acompanharam ao longo dos ultimos anos: 'O que o outro, ao olhar essas imagens, ira pensar? Sera que as imagens farao brotar pensamentos? No que elas farao pensar?'. O Sr. W. sabe que nao tem essas respostas, e que dificilmente vai ter, a menos que alguem lhe escreva criticando, elogiando, contrariando, duvidando. Mas, ate la, o olhar e apenas o dele, e as possiveis respostas tambem. Mas ele sabe tambem que cada imagem, cada composicao diz uma coisa e, ao mesmo tempo, varias coisas. Cada instante, acontecimento, podera ser interpretado, se o observador deixar que a imagem fale com ele, ao se colocar diante dela. Cada interpretacao, diferente uma da outra ... 'O que vemos quando algo nos olha?', pensa alto. O Sr. W. vai ate a janela e fica alguns instantes a fitar, por tras do vidro, a noite. Pensa, ou imagina, ver alguns pontos brilhantes a se apagarem e acenderem. Brilhando aqui. Brilhando mais adiante--'Sera que sao vaga-lumes?'. Tenta fixar o olhar para ver outros pontos luminosos na noite. Nada ve. 'Uma imagem vaga-lume, apenas de passagem'. Decide acender a lareira para ver crepitar, dentro da sua biblioteca, os pequenos vaga-lumes. O cheiro do cafe ainda permanece na casa. Vai sendo levado para a noite como um gosto de perguntas despertas.

_04 am

Tento olhar, mas nao consigo mais enxergar. Levanto as maos, trazendo-as proximo ao rosto. Nao as vejo. Apenas as sinto. Sinto a penumbra ao meu redor. Olho para todos os lados. So vejo escuridao. Sera que ainda continua noite? Sera que ainda estou dormindo, com aquela sensacao de estar acordado, de nao conseguir acordar do proprio sonho? Tento mexer o resto do corpo. Os membros obedecem. Fecho e abro os olhos, repetidamente. Tudo continua noite. Tudo e escuro. Me desespero. Tento sair da cama e nao acho mais minhas roupas. Nao me lembro onde estao meus oculos. Deve ser isso. Meus olhos fraquejam a cada dia. Tateio ao redor ate achar a comoda. Sinto os oculos. Fecho os olhos e os mantenho assim por um tempo. Coloco os oculos. Nao vejo nada. So vejo a escuridao. A casa aumenta. Ja nao sei mais onde as minhas coisas estao. Saio nu a caminhar, tateando as paredes em busca do interruptor. O ar parece mais frio. Meu corpo se arrepia todo. Paro a escutar. Rangidos. Zumbidos no ar. Roco no que parece ser uma planta. Paro novamente. Estalido da madeira. O medo cresce. Sera que tem alguem na casa? Devo gritar? Dizer que nao enxergo? Nao. Pode ser um ladrao a espreitar. Tudo parece ser tao gigante no escuro. As sensacoes parecem aumentar. Continuo tateando o escuro, a procura de algo ou alguem. Lembro que estou sozinho. Os olhos lacrimejam. De dor? De medo? De forcarem para ver? Grito. "Tem alguem ai?". Escuto a resposta: "ai". "ai". "ai". Meus joelhos tremem. Meu corpo despenca. O chao me acolhe, com um baque surdo. O barulho do corpo, ao tocar o chao, ecoa pelos corredores. Minha pele sente o frio do piso. Passo a mao a volta. Sinto os ladrilhos. Ja nao me lembro de sua forma e cor. Tento olhar, mas nao consigo enxergar. As imagens comecam a desaparecer.

O Sr. W. acorda. O coracao parece querer saltar do peito. Um sonho. Melhor, um pesadelo--pensa o Sr. W. recompondo-se. Olha para o relogio, em cima da mesinha de canto. '04 horas. Devo ter adormecido por quase uma hora'. Levanta. O pescoco doi. Lembra que estava com a cabeca caida para tras em sua poltrona. Olha para os paineis. Oito estao finalizados e o nono esta pela metade. Rapidamente, passa por sua cabeca que deveria descansar mais um pouco, terminar pela manha. 'Falta pouco, vou terminar logo'. As imagens no chao diminuiram. No monte, so restam algumas a serem usadas. Caminha ate a lareira, assopra as brasas ainda vivas para reativar o pequeno fogo, acrescenta mais lenha. Desloca-se ate a cozinha. Toma uma agua e volta para suas imagens e paineis.

_06 am

'Dia trezentos e trinta e um.' O Sr. W escreve em uma folha, continua: 'Georges, desde ontem a noite me encontro aqui. Daqui a pouco, o dia amanhece'. Olha a sua volta, tudo esta organizado. Os livros usados estao nas estantes que preenchem as paredes de sua biblioteca. Os cadernos de anotacoes continuam empilhados sobre a mesa. As imagens nao usadas, nos paineis dentro de um arquivo preto. Os dez paineis pretos, montados, contendo cem imagens dos ultimos cem anos, divididos de 1925 a 2015. Dez paineis imageticos. Imagens de jornais, de revistas, anuncios, propagandas de medicamentos. Xerocados, fotografados, contendo palavras e imagens, ou apenas imagens. Tudo pronto. Finalizado. Dois anos de pesquisa organizados. Agora', pensa o Sr. W., 'resta fotografar os murais, separar as imagens escaneadas no computador para monta-las virtualmente e concluir meu atlas sobre a medicalizacao'. O Sr. W. olha pra tudo com um sorriso no rosto. Olha para fora, pela janela embacada. Aproxima-se dela, limpa o vidro com a ponta do casaco para ver o lado de fora. A cerracao impede um pouco a visibilidade, mas, por entre a opacidade, enxerga um ceu azul. O azul toma conta da noite e do dia que se anuncia. O Sr. W. lembra da cena de um filme de que nao consegue lembrar o nome. A cena que lhe vem a memoria e de duas jovens mulheres que vivenciam um momento antes do nascer do sol, captam com seus silencios a hora azul. Momento de tranquilidade, de suspensao no tempo. O Sr. W. volta a se sentar e continua sua carta: Acabo de olhar pela janela e estamos naquele momento que e entre o final da noite e o amanhecer, alguns o chamam de hora azul. Tudo e silencio. Pouco se escuta. Ontem a noite pensei ter visto vaga-lumes por perto. Lembrei-me muito de uma noite que passamos juntos, era alta madrugada e caminhavamos bebados pelas ruas de sua cidade, avistamos alguns pontos luminosos voando e piscando aqui e ali no meio da rua, comecamos a correr atras dessas luzes e nos deparamos com um bosque cheio de vagalumes. Lembras? Foi tao bonito ver aquele baile de luzes na noite ... Georges, te escrevo para dizer que terminei meu projeto. Junto com essa carta, seguem os paineis para tua analise. Espero te encontrar logo. Abracos afetuosos. Warburg'. O Sr. W. descansa a caneta sobre o papel. O sono da madrugada passou. Seu pensamento esta a todo vapor. Decide caminhar um pouco. Logo, o dia comeca a clarear. Caminha em direcao a porta. Coloca seu sapato, pega seu casaco, seu chapeu e sai para a rua. La fora, a noite se despede aos poucos, a cerracao impede a visao e molha o casaco do Sr. W., as goticulas de agua que caem criam pequenas lagrimas sobre as folhas. Os passos do Sr. W. ecoam na opacidade da noite que logo sera dia.

DOI: 10.1590/1807-57622016.0186

Referencias

(1.) Didi-Huberman G. Imaginer, disloquer, reconstruire, in Histoire de l'art et anthropologie [Internet]. Paris: INHA, Musee du quai Branly; 2009. [Citado 27 Jul 2009]. Disponivel em: http://actesbranly.revues.org/193

(2.) Samain E. Como pensam as imagens. Campinas: Ed. da Unicamp; 2012.

(3.) Leminski P Toda poesia. Sao Paulo: Companhia das Letras; 2013.

(4.) Ranciere J. O destino das imagens. Rio de Janeiro: Contraponto; 2012.

Submetido em 05/04/16. Aprovado em 26/06/16.

Elisandro Rodrigues (a)

(a) Residencia Integrada em Saude, Centro de Educacao Tecnologica e Pesquisa em Saude/Escola GHC, Grupo Hospitalar Conceicao (GHC). Av. Francisco Trein, 596, Bloco H, 3 andar, Cristo Redentor. Porto Alegre, RS, Brasil. 91350-200. elisandromosaico@ gmail.com

(b) Utiliza-se aqui o nome Warburg nao apenas como ficcao. Aby Warburg foi um Historiador da Arte alemao (1866-1929), conhecido como o pai da Iconologia moderna. Sua grande obra e conhecida como Atlas Mnemosyne, sua historia da arte sem imagens, sua iconologia dos intervalos por meio da montagem de imagens que dialogam entre si. Sao 79 paineis, reunindo cerca de 900 imagens, todas sao reproducoes de obras, pinturas, gravuras, recortes de jornais, selos postais. Ao montar essas imagens, Warburg colocava os paineis um ao lado do outro, para que elas pudessem entrar em dialogo. Ao pensar nos hiatos de tempo produzido pela leitura e a escrita da dissertacao de mestrado, optou-se por criar vazios literarios, de uma forma ficcional, construindo um Atlas de Imagens da Medicalizacao da Vida, assim como o Atlas Mnemosyne de Aby Warburg. Para saber mais sobre a biblioteca de Warburg e o sobre seu Atlas, acessar http://warburg. library.cornell.edu/.

(c) O nome Georges, utilizado aqui como um confidente do Sr. W., e um nome ficcionado com o de Georges Didi-Huberman, filosofo e historiador de arte que vem pensando a complexidade das imagens, suas dimensoes eticas e politicas. Didi-Huberman e um leitor de Aby Warburg o qual dedica um livro sobre o pensamento e a montagem anacronica das imagens e do tempo (Para saber mais: A imagem Sobrevivente. Historia da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013).

(d) Imagens 1 a 3 retiradas da internet dos seguintes enderecos, Imagem 1--Xarope Divino e Imagem 3--Anuncio dos produtos Tayuya, sabao Aristolino e xarope Grindelia --http://lounge. obviousmag.org/ anna_anjos/2012/11/ publicidades-antigasdo-brasil.html, Imagem 2--Anuncio de 1939--http:// tokdehistoria.com. br/tag/anuncios/, Imagem 4--Geniol --http://www. amenidadesdodesign. com.br/2014/03/acabeca-de-geniolquando-publicidade. html.

Caption: Elisandro Rodrigues, Do entardecer, 2014 (frames de video em montagem fotografica)

Caption: Guilherme Santos Torres, 2014, desenho com giz e caneta colorida

Caption: Xarope Divino, internet

Caption: Anuncio de 1939, internet

Caption: Anuncio dos produtos Tayuya, sabao Aristolino e xarope Grindelia, internet

Caption: Geniol, internet

Caption: Elisandro Rodrigues, Do amanhecer, 2010
COPYRIGHT 2017 Fundacao UNI
No portion of this article can be reproduced without the express written permission from the copyright holder.
Copyright 2017 Gale, Cengage Learning. All rights reserved.

Article Details
Printer friendly Cite/link Email Feedback
Title Annotation:texto en portugues
Author:Rodrigues, Elisandro
Publication:Interface: Comunicacao Saude Educacao
Date:Apr 1, 2017
Words:4624
Previous Article:Esteban F, Roman B.: ?Quo Vadis, Universidad?
Next Article:User's satisfaction of primary health care: a qualitative study in the Northeast of Brazil/Satisfacao de usuarios da atencao primaria a saude: um...
Topics:

Terms of use | Privacy policy | Copyright © 2019 Farlex, Inc. | Feedback | For webmasters