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Biopoesia.

A partir dos anos 1980, a poesia saiu efetivamente da pagina impressa. Desde os primeiros tempos do Minitel (2) ate o surgimento do computador pessoal (PC) como um ambiente de escrita e leitura, temos presenciado o desenvolvimento de novas linguagens poeticas. Video, holografia, programacao, dispositivos portateis e Internet tem expandido as possibilidades e o alcance dessa nova poesia. Agora, num mundo de clones, quimeras e seres transgenicos, e tempo de considerar novas direcoes para a poesia in vivo. Proponho abaixo o uso da biotecnologia e de organismos vivos como um novo campo para a criacao verbal.

1) Performance do microrrobo--escreva e faca performance com um microrrobo na linguagem das abelhas, para uma audiencia de abelhas, numa danca semificcional e semifuncional.

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2) Escrita atomica--posicione atomos com precisao e crie moleculas para enunciar palavras. De expressao a essas palavras moleculares em plantas e deixe-as germinar novas palavras atraves de mutacao. Observe-as e aprecie o aroma da gramatologia molecular das flores que resultam dessa criacao atomica.

3) Interacao dialogica com mamiferos marinhos: componha texto sonoro manipulando parametros gravados de tom e frequencia da comunicacao de golfinhos, para uma audiencia de golfinhos. Observe como uma audiencia de baleias responde e vice-versa.

4) Poesia transgenica: sintetize ADN de acordo com codigos inventados para escrever palavras e frases usando combinacoes de nucleotideos. Incorpore essas palavras e frases de ADN no genoma de organismos vivos, os quais, entao, serao passados aos seus descendentes, combinando com palavras de outros organismos. Por meio de mutacao, perda natural e do intercambio de ADN, novas palavras e sentencas surgirao. Leia o transpoema novamente como sequenciamento do ADN mutante.

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5) Telefante infra-sonico--os elefantes podem sustentar poderosas conversacoes infra-sonicas a distancias tao longas como 13 quilometros. Essas podem ser percebidas por humanos particularmente sensiveis como variacoes de pressoes de ar. Crie composicoes infra-sonicas que funcionem como chamadas para elefantes a longa distancia e transmita-as de longe a uma populacao de elefantes da floresta.

6) Escrita amebica: mantenha a escrita num meio como agar usando as colonias de amebas como substancia de inscricao e observe seu crescimento, movimento e interacao ate que o texto se transforme ou desapareca. Observe a escrita amebica ao microscopio e em escala macroscopica simultaneamente.

7) Sinalizacao a base de luciferase (luciferissignos)--crie pirilampospoetas manipulando genes que codificam bioluminescencia, capacitandoos a usar suas luzes para dispositivos criativos, alem dos usos habituais encontrados na natureza (por exemplo, assustar e afastar os predadores e atrair parceiros ou criaturas menores para devorar).

8) Composicao biocromatica dinamica--use a linguagem cromatica da lula para criar sequencias cromaticas que comuniquem ideias concebidas a partir do mundo-proprio (3) da lula, mas sugerindo outras possiveis experiencias.

9) Literatura aviaria: ensine um papagaio cinza africano nao simplesmente a ler, a falar e manipular simbolos, mas a compor e apresentar suas obras literarias.

10) Poetica bacterial: duas identicas colonias de bacterias dividem uma mesma placa de Petri. Uma colonia codifica um poema X num segmento de DNA, enquanto a outra tem um poema Y. Como elas competem pelos mesmos recursos, ou compartilham material genetico, talvez somente uma colonia venha a sobreviver, talvez novas bacterias venham a emergir atraves da transferencia horizontal do novo gene poetico.

11) Xenografica--transplante um texto vivo de um organismo para outro, e vice-versa, de tal forma que crie uma tatuagem in vivo.

12) Texto-tecido--cultive tecidos vivos em forma de palavras-estruturas. Cresca o tecido lentamente ate que as formas das palavrasestruturas produzam uma fina pelicula que as cubra e apague.

13) Proteopoetica--crie um codigo que converta palavras em aminoacidos e escreva diretamente uma proteina-poema tridimensional, evitando, assim, o uso de um gene para codificar a proteina. Sintetize a proteina-poema. Modele-a em meios digitais e nao digitais. Expresse-a em organismos vivos.

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14) Agroverbalia--use um feixe de eletrons pra escrever diferentes palavras na superficie das sementes. Deixe as plantas crescerem e observe como as palavras produzem plantas robustas. Plante sementes em diferentes formacoes. Explore a hibridizacao de significados. O poema e composto em linguagem natural diretamente com uma elevada incidencia estatistica das quatro letras que representam as bases adenina, citosina, guanina e timina. O conjunto das letras restantes e formado por quatro consoantes e duas vogais. Com o objetivo de diminuir a ambiguidade na sequencia nucleotidica (de modo que o codigo seja claro) e ao mesmo tempo mante-la o mais curta possivel (para melhorar a eficiencia molecular), as quatro consoantes foram atribuidas letras duplas representando os acidos nucleicos. As duas vogais foram correspondidas com letras triplas representando os acidos nucleicos.

15) Nanopoesia--estabeleca significados para pontos quanticos e nanosferas de cores diferentes. Expresse-os em celulas vivas. Observe como os pontos e as esferas se movem e em quais direcoes, e leia os quantumvocabulos e as nanopalavras enquanto eles se movem atraves da estrutura interna tridimensional da celula. Ler e observar trajetorias vetoriais dentro da celula. O significado geral do poema se modifica continuamente a medida que certos quantumvocabulos e nanopalavras estao proximos ou se afastam uns dos outros. A celula inteira e o substrato da escrita, como um campo de significado potencial.

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16) Semantica molecular--crie palavras moleculares dando significados foneticos a atomos individuais. Com nanolitogafia dip-pen,4 posicione moleculas em uma superficie dourada atomicamente plana e, assim, escreva um novo texto. O texto e feito de moleculas que sao elas mesmas palavras.

17) Carbograma assintatico--crie sugestivas nanoarquiteturas verbais medindo apenas poucos bilionesimos de um metro de diametro.

18) Metaforas metabolicas--controle o metabolismo de uma grande populacao de microorganismos dispersa em meio espesso, de tal forma que as palavras efemeras possam ser produzidas por suas reacoes as especificas condicoes ambientais, tal como a exposicao a luz. Permita que essas palavras vivas se dissipem naturalmente. Escrita e leitura se constituem no eventual desaparecimento do texto.

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19) Audicao haptica--implante um microchip auto-alimentado que emita um poema sonoro via contato (via pressao). O som nao e suficientemente amplificado para ser ouvido atraves da pele. O ouvinte tem que fazer um contato fisico com o poeta para que o som viaje do microchip que esta dentro do corpo do poeta para o corpo do ouvinte. O ouvinte se torna o meio pelo qual o som e transmitido. O poema entra no corpo do ouvinte nao atraves dos ouvidos, mas por dentro, atraves do proprio corpo.

20) Escriptogenese--crie um organismo vivo inteiramente novo, que nunca tenha existido antes, reunindo primeiramente atomos em moleculas por meio da "Escrita Atomica" ou "Semantica Molecular". Depois, organize essas moleculas num cromossomo minimo, mas funcional. De modo identico sintetize um nucleo para esse cromossomo ou introduza-o num nucleo existente. Faca o mesmo para toda a celula. A leitura ocorre atraves da observacao das transformacoes citopoetologicas do cromossomo escriptogenico ao longo da vida do organismo unicelular, incluindo sua reproducao, multiplicacao, e evolucao.

Traducao de Jorge luiz antonio (revisada e autorizada pelo autor)

(1) Publicado inicialmente em Cybertext Yearbook 2002-03, editado por Markku Eskelinen e Raine Koskimaan, da Universidade de Jyvaskyia, Finlandia, 2003, p. 184-185 (em ingles). Republicado em ingles e alemao em p0es1s: The Aesthetics of Digital Poetry, editado por Friedrich W. Block, Christiane Helbach e Karin Weinz (Ostfildem-Ruit, Alemanha, Hatje Cantz Editores, 2004), p. 244-249. Republicado em finlandes no jornal literario Nuori Voima, no. 4/5, 2004, p. 27. Republicado em hebraico no Hearat Shulaym 8/9, Jerusalem, 2004, p.s.n. Republicado na Estonia no jornal on line Kirikiri--www.kirikiri.ee/print.php3?id_article=111, em dezembro de 2005. Republicado em ingles em Notre Dame Review, no. 19, inverno de 2005, p. 145-148. Republicado em ingles no Technoetic Arts, vol. 3, n. 1, 2005, p. 13-17. Republicado em finlandes em nokturno.org, um sitio mantido pela sociedade de poesia Nihil Interit, a revista literaria Nuori Voima e a casa publicadora Savukeidas, em outubro de 2005. Republicado em Engineering nature: art and consciousnesss in the post-biological era (Engenharia da natureza / Engenharia Natural: arte e consciencia na era pos-biologica), editado por Roy Ascott (Bristol: Intellect, 2006). Republicado em frances em Formule, n. 10, maio 2006, "Litterature Numerique et domaines voisins", Paris.

(2) Minitel sao terminais especificos de videotextos instalados na Franca a partir de 1978. O sucesso foi tao grande que em 1986 ja haviam sido instalados tres milhoes de Minitel, que ofereciam aos usuarios os servicos interativos os mais diversos: teleconsultas, telecompras, etc. (NT)

(3) O autor usou "squid Umwelt", fazendo uso da palavra em alemao "Umwelt", como empregada por Jakob von Uexkull. Literalmente, a palavra significa meioambiente, mas Uexkull a emprega no sentido do mundo subjetivo de cada ser vivo, ou seja, seu universo fenomenologico. Em portugues: mundo-proprio. (NT)

(4) Nanolitografia dip-pen e um metodo de escrita direta que utiliza a ponta de prova de um microscopio de forca atomica para definir padroes sobre uma superficie. (NT)

Eduardo Kac nasceu no Rio de Janeiro em 1962 e comecou a tornarse conhecido por seu trabalho de holografia digital, que o projetou internacionalmente nos anos 1980. Em 1989, foi para os Estados Unidos para fazer seu mestrado em Artes Plasticas no The School of the Art Institute of Chicago, instituicao em que e hoje Professor Titular, e concluiu seu doutorado na Universidade de Wales, Reino-Unido.

Kac ganhou inumeros premios e expos sua obra no Brasil, nos Estados Unidos, na Franca, no Japao, na Coreia, entre muito outros paises. Alem disso, tem obras nas colecoes permanentes do Museu de Arte Moderna de Nova York, no Museu de Arte Moderna de Valencia, no Museu ZKM de Karlsruhe e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, entre outros.

Paralelamente ao seu trabalho plastico, redigiu, desde entao, inumeros artigos e ensaios, publicados em jornais e revistas, e reunidos em livros, no Brasil e no exterior.

Excelente documentacao sobre a obra de Kac pode ser encontrada em oito idiomas no site http://www.ekac.org.

Os textos que leremos a seguir sao amostras da reflexao de Kac a respeito da linguagem da arte e da poesia a partir dos meios e suportes disponibilizados pela ciencia e pelos avancos da linguagem digital, recuando incontornavelmente os limites da escrita ...
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Author:Kac, Eduardo
Publication:Alea: Estudos Neolatinos
Date:Jul 1, 2008
Words:1887
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